domingo - 26/09/2021 - 06:18h

Guia turístico

Por Marcos Ferreira

Seja bem-vindo. Esta é Mossoró, a minha cidade. O ‘minha’, claro, é mera força de expressão; mais pertenço que possuo. Bom, eis a famosa Mossoró, terra da liberdade, conforme apregoam há quase um século. Município este que, segundo a lenda, expulsou o destemido Lampião e justiçou o também cangaceiro Jararaca quando os fora da lei invadiram esta província lá pelos idos de 1927.

Particularmente, embora os doutores do cangaço torçam o nariz, não me orgulho nem um pingo dessa história de brabeza de Mossoró. No fim das contas, depois de tanta chuva de bala, os bandoleiros dominaram esta comuna na trincheira da cultura. Sim.

Mossoró em um trecho do seu centro urbano, com destaque à Capela de São Vicente (Foto: Giovanni Sérgio)

Mossoró em um trecho do seu centro urbano, com destaque à Capela de São Vicente (Foto: Giovanni Sérgio)

Hoje ninguém mais fala nos resistentes, mas tão só no bando de salteadores. Olhe ali, por exemplo, o espaço denominado Arte da Terra: dois bonecos gigantes de Lampião e Maria Bonita bem na frente, dando boas-vindas.

Isto sem falarmos num Memorial da Resistência que não resistiu à tentação de oferecer mais destaque aos invasores do que aos defensores. Hoje em dia, sendo otimista, talvez apenas uma dúzia de nomes que defenderam este fim de mundo à época do ataque ainda seja lembrada pelos mossoroenses de um modo geral, como o então prefeito Rodolfo Fernandes. Pudera, trata-se do prefeito.

Outra coisa. Jararaca, ferido com um balaço e enterrado ainda vivo no São Sebastião, de acordo com alguns historiadores, foi alçado à condição de santo milagreiro pelo povo desta cidade e adjacências. É o que estou dizendo. O sujeito passou de facínora a santo da noite para o dia. A sua cova no São Sebastião é simplesmente a mais visitada no Dia de Finados. Já o túmulo do herói Rodolfo Fernandes, sepultado no mesmo cemitério, salvo exceções, ninguém sabe onde fica.

Aquele prédio imponente ali era o glorioso Cine Pax, ora transformado em loja de roupas. Foi inaugurado em janeiro de 1943 e funcionou por mais de seis décadas. Fechou de vez as portas no ano de 2008, se não me engano. Assisti a ótimos filmes nesse importante símbolo da vida cultural mossoroense. O ponto alto do fim de semana das pessoas do meu tempo era ver um filme no Pax.

Cuidado com a moto! Melhor subirmos na calçada. Nosso trânsito é um bicho traiçoeiro. Aqui não se pratica direção defensiva, mas predatória. Alguns donos desses carrões, sobretudo, só faltam passar por cima da gente. Parece até que eles têm aversão a pedestres, a ciclistas e motociclistas. Tipos arrogantes, tanto os condutores dos carrões quanto os motoqueiros. A maioria vira para um lado e para o outro sem ligar a seta. Em especial os referidos donos dos carros luxuosos.

Está quente, não? Pois bem, meu amigo. Mossoró, entre outras características, é a terra do calor, do siroco em tardes mormacentas como esta e de eventuais madrugadas com uma cruviana gostosa. Durante o inverno, quando há, é uma maravilha, apesar do Centro alagar com facilidade. As noites costumam ser bastante aprazíveis, e os bairros periféricos ficam cheios de cadeiras nas calçadas.

Esta é a Praça Vigário Antônio Joaquim. Mas o busto do vigário se encontra escondido naquela pracinha ao lado da Catedral de Santa Luzia. Por incrível que pareça, a enorme estátua que você está vendo no centro da Praça do Vigário não é do vigário. Esse é um monumento em homenagem ao ex-prefeito desta urbe e ex-governador do Rio Grande do Norte Jerônimo Dix-sept Rosado Maia, que morreu no auge da carreira política em acidente aviatório no ano de 1951.

Como eu disse, ali é a Catedral de Santa Luzia, onde os fiéis curvam os joelhos com peditórios ao Todo-Poderoso. Em geral, apesar da nossa estatística de homicídios ser uma das maiores do planeta, o mossoroense é um povo religioso, com supremacia católica. Aqui predomina a política do olho por olho, dente por dente, contudo as pessoas morrem de medo de ir parar no Inferno. Então, como se buscassem uma espécie de habeas corpus celeste, correm para os pés de Jesus.

Vamos para o outro lado. Que calor, hein? Mossoró não é para amadores, nem para turistas desavisados. Beba sua aguinha gelada, se ainda estiver gelada. Ali é o Mercado Central, primeiro shopping de Mossoró. Eu e meus irmãos ficávamos animadíssimos quando chegava o domingo e meu pai nos trazia, antes do sol raiar, para fazermos algumas compras no Mercado. Era uma festa!

Tempos idos e vividos. Tenho saudades de muita coisa daquela época, embora o pão fosse tão caro e a liberdade pequena, como no poema do Ferreira Gullar. Hoje, entretanto, o pão voltou a custar muito caro, e a liberdade vive sob constante ameaça, se me faço entender. Mas voltemos ao pujante Mercado de outrora. Fico com a boca cheia d’água só de me lembrar do pastel quentinho, feito naquela horinha, que a gente devorava com um copázio de vitamina de abacate.

Quando não era uma abacatada com pastel, traçávamos uma panelada com molho de pimenta-malagueta. O bucho ficava em tempo de espocar, e o suor porejava na testa. “Caiu na fraqueza”, dizia meu pai caçoando de mim e dos meus irmãos. De outra feita, menino já taludo, trabalhei algumas vezes no entorno do Mercado, pastorando as bicicletas da clientela para descolar uns tostões.

Agora quero lhe mostrar o Teatro Municipal Dix-huit Rosado, suntuosa construção que homenageia outro político da tradicional família Rosado e também ex-prefeito desta província, morto no ano de 1996. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia, isso é algo fácil deduzir, é irmão do ex-governador Dix-sept Rosado, cuja impressionante estátua, como o senhor constatou, se encontra no meio da Praça do Vigário. Aí está, portanto, o Teatro Municipal, palco da cultura mossoroense.

Veja aquela casa de drinques do outro lado da rua, na Avenida Rio Branco. Ali, durante uns bons anos, funcionou a Livraria Café & Cultura. Lugar excelente, ponto de encontro da intelectualidade local. Escritores, jornalistas, poetas, historiadores, médicos, advogados, professores, juízes, arquitetos, artistas, enfim, toda uma constelação pensante ocupava as cadeiras e mesas da Café & Cultura.

Era uma livraria como hoje não mais existe neste município, administrada e mantida pela senhora Ticiana Rosado. Nesse endereço, permita-me a autopropaganda, fiz o lançamento da primeira edição do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que contou com público expressivo. Foi no ano de 2006.

Atualmente, ouso dizer, no tocante a uma livraria de verdade, com amplo acervo de autores e obras, disponibilizando um bom café para a clientela, estamos órfãos.

Bem, acredito que o senhor está cheio desse papo de letras. Vamos agora a um reduto não menos cultural e emblemático desta aldeia: o Alto do Louvor. Já ouviu falar no Alto do Louvor? Não?! Então, meu caro, apresentá-lo-ei, como diria, cheio de mesóclises, o missivista federal Michel Temer. Trata-se do berço recreativo e sifilítico deste fim de mundo. Mal comparando, vir até aqui e não conhecer o Alto do Louvor é mais ou menos como você ir a Roma e não ver o Papa.

Alto do Louvor é a nossa extinta zona de meretrício. Muitos dos nossos ilustres e respeitáveis homens (não foi o meu caso!) foram iniciados sexualmente nesse antro do amor remunerado. O antes glamouroso Alto do Louvor fechou as portas há muito, porém a lenda das suas casas de tolerância e mulheres de vida nada fácil sobrevive até hoje no imaginário popular como uma ferida benigna.

Beba mais água. O senhor está ofegante.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 19/09/2021 - 07:52h

Crepúsculo do domingo

Por Marcos Ferreira

Meu muro frontal é baixo, conforme declarei num texto publicado não faz muito tempo. Deito os olhos no comprido da rua. O domingo boceja sob um manto de arrebol. O domingo vai saindo de cena feito um velho exausto. Sim, examino esta estreita e esburacada Euclides Deocleciano à hora do crepúsculo. Para ser mais dramático, talvez à maneira de um poeta parnasiano, digo que o domingo está morrendo, agonizando em lânguidos raios sanguíneos na linha do horizonte.

Já não mais é tarde nem ainda é noite. Há um impasse entre o claro e o escuro. O tempo se encontra momentaneamente enguiçado no lusco-fusco, todavia pende devagarinho para os braços da noite. Assim mesmo nos restam uns retalhos de claridade solar. Os tensos postes desta via, como militares em fileira, continuam apagados. Logo, entretanto, acenderão as suas fortes luminárias de led.gato debaixo de pano

Não há cadeiras nas calçadas. Suponho que meus vizinhos esticaram a sesta, estão ocultos em suas casas, possivelmente deitados, curtindo o ócio após uma semana puxada. Sobretudo as donas de casa, que parecem nunca ter descanso, reféns da herança maldita das infindáveis tarefas domésticas. É injusta, machista, essa cultura que impele as mulheres aos afazeres do lar, enquanto a marmanjada assiste a futebol na televisão, no bem-bom do sofá, de uma cama ou de uma rede.

O vento açoita as acácias, derrubando folhas secas; ergue poeira dos paralelepípedos sujos e tortos. Dois vira-latas brincam de gato e rato, gozando da ausência de veículos. Só agora, a propósito, surge uma picape de vidros fumês. Os cães suspendem a brincadeira por um instante e a retomam logo após. A seguir um levanta a perna e urina ao pé do poste sobre a calçada da senhora Raimunda.

Os pássaros começam a se recolher na mangueira aos fundos. Uns quatro morcegos dão voos rasantes de uma ponta à outra do meu quintal, passam raspando sobre o muro, ganham o espaço aéreo da rua e, audazes, repetem essa e outras manobras arrojadas. Onde estão as andorinhas? Alguém sabe dizer? Nem sei a última vez que as avistei. Este céu sem andorinhas é como um mar sem o sobrevoo de gaivotas. Sequer há pombos. Noto que os pombos também andam sumidos.

A senhora Raimunda surge na calçada com uma vassoura. Põe-se a varrer a cerâmica rústica. A poeira sobe. Alguns minutos depois, quiçá ofegante, interrompe a varrição. Olha para um lado e outro, porém não se dá conta da minha espreita. Percebe que um motoqueiro se aproxima e volta para dentro. Ela sabe que há ocorrências de assaltos no bairro. Agora surgem dois gatos no terreiro de Cristina, a vizinha aqui defronte. É um bichano amarelo e o outro é um cinza felpudo.

Após farejarem e demarcarem o perímetro, os cachorros dobraram a esquina da lanchonete de Zecão. Nenhum possui coleira. Possivelmente alguém lhes reivindique a tutela, contudo vivem soltos. São animais dóceis e ordeiros. Exceto por alguns sacos de lixo que, vez por outra, aparecem rasgados nas calçadas. Semana passada, por exemplo, ouvi a senhora Raimunda contrariada por causa disso.

— Que cachorros safados! — ralhava sozinha.

O vento assobia. Às vezes semelha um uivo nas rótulas das portas e janelas; ergue a areia das pedras, desacata os ramos das árvores e os fios do posteamento. O bairro inteiro parece imerso numa atmosfera modorrenta. Os rádios estão mudos. Por incrível que pareça, não ouço os aparelhos de som executando o nauseante gosto musical de alguns cidadãos. Tenho estômago fraco para certos sucessos gritados por uma récua de cuspidores de microfone que se consideram artistas.

Neste momento são os gatos que aproveitam a ausência daquela dupla de vira-latas brincalhões. Os felinos, como é típico da espécie, também brincam, encenam um combate inofensivo. Um salta sobre o outro, rolam pelo chão. O amarelinho, um tanto menor, dá um zapetrape no cinza, que reage da mesma forma. A senhora Raimunda retorna à calçada, posto que o motoqueiro vai longe.

Vem outro carro. Passa devagar. Os gatos sobem a calçada. A senhora Raimunda não receia o condutor do automóvel. Decerto acredita que indivíduos atrás de um volante não cometem crimes à mão armada, só os que pilotam motocicletas. É verdade, seja dito, que pouco se tem notícia de assaltantes guiando carros. A predominância (e daí advém o preconceito) é dos criminosos sobre motocicletas. Eu mesmo presenciei um vizinho sendo pilhado aqui diante do meu portão.

Dois sujeitos armados tomaram a carteira e o celular do homem. Fiquei me tremendo do lado de cá do muro. Recordei que trinta anos atrás sofri esse tipo de violência. Novamente dois bandidos. Um deles (ambos estavam encapuzados) botou o revólver atrás da minha cabeça. Nessa ocasião sequer me assustei. Horas depois, porém, bateu aquele mal-estar, uma sensação de quase morte.

Enfim os postes acenderam. Os morcegos intensificam as acrobacias aéreas. É incrível como não esbarram em nada. Ainda não são dezoito horas. Está próximo da noite se configurar. Pouco a pouco, em pontos esparsos, vão surgindo alguns moradores. A rua vai ganhando vida. A senhora Raimunda já se encontra sentada numa cadeira na calçada, em companhia da nora Navegante, também numa cadeira de balanço, tendo sobre o colo sua pequena e mimada cadela Pretinha.

Dentro de minha casa já está escuro. Penso em acender as luzes, no entanto me detenho por mais uns minutos observando a paisagem da Euclides Deocleciano. Zecão aparece na calçada, nu da cintura para cima, trajando bermuda estampada e sandálias de borracha. Hoje, pelo que percebo, não abrirá a lanchonete. Será que tem jogo do Flamengo? Sim, ele é flamenguista, e do tipo apaixonado.

Chega a ser divertido ouvi-lo torcendo em dia de jogo. É um show à parte. Se o time está perdendo ou no sufoco, xinga os jogadores, critica o técnico, esculhamba o juiz, larga um palavrão aqui, outro acolá. Ninguém se aborrece com Zecão. Os vizinhos gostam dele. Inclusive eu, que nutro, digamos assim, uma simpatia pelo rubro-negro. Isto, devo dizer, sem nunca ter vestido uma camisa do Flamengo. Só me interesso mesmo se o time já estiver na iminência de ser campeão.

O domingo está praticamente liquidado. Volto para dentro e acendo as luzes. Minha gata Gudãozinho ronrona aos meus pés. Olho a panelinha dela e coloco mais um pouco de ração. Sento à mesa e tento finalizar esta crônica crepuscular de modo a compensar o tempo empregado pelas senhoras e senhores. Eis um final nada brilhante, mas é o que eu tenho para hoje. Zecão acabou de gritar gol.

Com licença. Vou dar uma olhadinha no jogo.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 12/09/2021 - 08:48h

Bruna fascistinha

Por Marcos Ferreira

Terça-feira passada, feriado do 7 de setembro deste sombrio 2021, por volta das cinco e meia da tarde, eu pilotava a minha Fan 160 em direção à casa de Natália Maia, a quem comecei a namorar justamente num 7 de setembro, e que reside no bairro Aeroporto. Esta última e irrelevante informação me força a revelar (talvez eu devesse dizer relembrar) que moro no conjunto Walfredo Gurgel, no grande Alto de São Manoel, distante sete quilômetros da residência de Natália.

Pois bem. Eu trafegava pela Avenida Augusto Severo e, quando parei no semáforo diante do Teatro Municipal Dix-huit Rosado, eis que a minha moto estancou. Acionei a partida elétrica, porém sem êxito. O sinal ficou verde, o motorista de uma Pajero buzinou atrás de mim, indelicadamente, e precisei descer da moto e sair do meio da rua à pressa. Dirigi-me, então, para o lado da praça.pneu-clássico-da-motocicleta-40392160

Parei junto ao meio-fio. Sob a grande árvore que margeia o canteiro defronte ao teatro, pelos meus cálculos, estavam cerca de dez motocicletas superpotentes, tendo ao lado os seus respectivos proprietários, todos vestidos com trajes característicos desse pessoal que integra algum clube motociclístico.

A uma pequena distância, um tanto constrangido e preocupado com o defeito do meu transporte, estimei que eu não conseguiria comprar uma supermoto daquelas nem que vendesse bem vendida (não vejam isso como coitadismo) a minha humilde residência. De forma alguma. Motocicletas daquele porte e cilindrada, se não me engano, custam até mais caro que um carro popular. Especialmente porque naquele meio se encontravam uns quatro modelos da fabricante BMW.

Bom. Eu tentava fazer a moto funcionar na partida, pois não cogitava a necessidade de fazê-la pegar no empurrão, mesmo porque não sei se alguém estaria disposto a me ajudar a empurrá-la. Daí a pouco notei que duas moças entre os vinte e cinco e trinta anos se aproximaram. A que supus mais velha sentou no banco de alvenaria e a outra ficou em pé perante a que estava sentada. A moça em pé achava-se virada para o meu lado; conversava animadamente com a amiga.

— Então, tá gostando? — indagou ela.

— Eu não sei — respondeu a mais velha.

A moça sentada, a exemplo de outras pessoas à volta, usava a camisa amarela da seleção brasileira de futebol. Foi aí que eu me dei conta de que a maioria daqueles indivíduos na praça defronte ao teatro (uns gatos-pingados) estava no local numa fraca manifestação de apoio ao sujeito da Casa de Vidro.

Quem me chamou realmente a atenção, entretanto, foi a moça de pé diante da que vestia o amarelo-canário. Sim. A moça de pé, que logo depois fiquei sabendo chamar-se Bruna, trajava uma camiseta branca de algodão com o rosto impresso do canalha-mor ladeado por dois fuzis. Vejam que coisa esdrúxula: blusa branca com estampa da fuça do Energúmeno, em tinta preta, adornada por fuzis. Por um instante a angústia pelo defeito da moto se transformou em repulsa.

— Olha, Bruna, eu confesso que pensei que fosse ter mais gente — comentou, desapontada, a garota com a camiseta da Seleção.

É de causar desgosto (estou certo de que não apenas a mim) o modo e circunstância como a camisa da nossa seleção de futebol tem sido usada nos últimos tempos, sobretudo por uma elite golpista e fascista. Não só a camisa, mas também a bandeira nacional, cuja legenda está prestes a ser modificada para “desordem e retrocesso”. Pior que muitos pobres emprenharam pelos ouvidos.

A poucos metros de mim, portanto, com as suas cabecinhas cheias de porcarias politicantes, estavam aquelas duas moças bem-parecidas, de pele branca, cabelos e olhos claros, ambas recrutadas por esse fascismo acintoso que ora toma conta deste país tão rico e com gigantesco número de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza, curtindo fome em todos os recantos. Sim! Há muitas pessoas catando comida no lixo, disputando com os ratos. Inclusive em Mossoró.

Eu insistia na partida elétrica, contudo a moto não pegava. Os donos das supermotocicletas já me olhavam de quando em vez. As duas moças papeavam descontraídas, indiferentes ao meu drama automobilístico. Alguns circunstantes agitavam bandeiras do Brasil. Não avistei ali nenhum político desta urbe ou estado, muito menos um pobre desses que passam fome, entre os manifestantes.

— Pouca gente — disse a moça do banco.

— Não sei não, mulher — reagiu a outra.

— Veja isso, Bruna. Acho que não tem cinquenta pessoas nessa praça. Mossoró é fraca demais nessas coisas. Aposto que lá em Natal, em Fortaleza e Recife o negócio tá bombando. Aqui, infelizmente, tá muito fraco.

— É verdade, amiga. A coisa tá fraca, sim. Mas a gente tem que apoiar nosso presidente. Querem derrubar o mito de qualquer jeito. Por mim, amiga, ele mandava o Exército fechar o Senado, a Câmara e, principalmente, o STF, e prender aqueles ministros bandidos. Essa é a vontade, tenho certeza, da grande maioria do povo brasileiro. Mas concordo com você. O movimento tá fraquinho.

— Além disso, mulher, eu só vejo homem feio.

— Eu acho aquele ali, de boné virado, um gato.

— Qual? O alto de regata verde e bermuda jeans?

— Exatamente, amiga. E ele tá olhando pra cá.

— Então vamos mais pra perto dele, mulher.

— Vamos sim, amiga. Mas disfarça, por favor.

Felizmente, apesar de todo o cerco, rompantes e aspirações fascistoides dos bolsopatas na Praça dos Três Poderes no último dia 7, o Senado, a Câmara Federal nem o STF foram fechados. Nem haverão de ser. A nossa ainda jovem democracia há de resistir a esses fanáticos e maus-caracteres que apregoam a volta da ditadura militar. O verdadeiro Brasil voltará aos trilhos nas eleições de 2022.

As duas moças saíram de mansinho em direção ao suposto gato. Observei ainda que Bruna fascistinha, de pernas benfeitas e saia verde-amarelo, usava um par de botas pretas de cano comprido que mais pareciam coturnos.

Enfim, após várias tentativas, a moto pegou, e eu segui viagem. Penso agora que esta crônica poderia ser unicamente sobre os seis abençoados anos do meu relacionamento com a minha adorável noiva Natália Maia. Entretanto, como vocês viram, surgiu essa Bruna fascistinha no meio do caminho e roubou a cena e o tema. Chamemos a isso de acidente de percurso. Forte abraço e até a próxima.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 29/08/2021 - 06:48h

Recado às nuvens

Por Marcos Ferreira

Já estamos no finalzinho de agosto e há muito não cai do céu uma gota d’água. Não ao menos nesta Mossoró, terra do Sol e do calor. E por este resto de ano, ao que indicam as sérias projeções da moça do tempo, não mais haverá de chover por aqui. Um verdadeiro suplício para a nossa ressequida aldeia.

Onde vocês estão, nuvens de chuva, que tantas águas derramam por este imenso país, no entanto não vêm aqui trazer uma garoa sequer? A fauna e a flora, o nosso poluído rio, os açudes e os trabalhadores do campo, todos estão por demais necessitados. A falta d’água, sobretudo na zona rural, faz brotar a fome com espantosa velocidade, contribui drasticamente para a escassez de alimentos.nuvens, céu, menino, escada, pinturaHá muita poeira sobre nossos telhados e espíritos, em nossos olhos e corações. Venham lavar as nossas almas, benditas nuvens. Tragam algumas boas chuvas para esta província de céu escandalosamente azul. Sim, um pouquinho de gris não fará mal a estes longes onde é possível estrelar ovos no asfalto.

Quando a chuva vier, quem sabe uma por quinzena, aí daremos uma festa. Faremos, por que não, uma dança da chuva. Que tal, senhoras nuvens chuvosas?! Imagino que não estou pedindo muita coisa, posto que há diversos lugares neste Brasil e no mundo padecendo justamente devido ao excesso de precipitações pluviométricas, usando aqui expressão bem típica dos meteorologistas.

Vindo a chuva, de preferência no período da tarde, sairemos para as calçadas de peito aberto. Buscaremos as calhas, as biqueiras com maior volume d’água. Homens, mulheres e crianças, todos numa confraternização líquida e pura. Algumas pessoas, como se dava outrora, usando sabonetes e xampus.

Nesses dias, em caráter excepcional, os patrões dispensarão os seus empregados mais cedo, para que estes possam usufruir do grande e abençoado evento de uma tarde de chuva. Assim como se fazia em jogos de copa do mundo de futebol. Mossoró inteira prestigiará a duradoura, volumosa e serena água caindo do espaço, sem necessidade de guarda-chuvas nem ocorrência de raios e trovões.

— Obrigado! — diremos olhando pro céu.

Ninguém se incomodará (quero me referir ao público feminino) se o cabelo arrumado e engomado na véspera perderá o efeito da pranchinha e do secador. É provável que tais mulheres, sabedoras de que se trata de uma semana com chuva iminente, evitarão gastos desnecessários com salões de beleza.

O ponto alto na programação recreativa dos mossoroenses, não importando a classe econômica do indivíduo, seu status ou religião, será unicamente um longo e revigorante banho de chuva. Pode ser em qualquer parte do município onde a pessoa se encontre, debaixo ou não de uma biqueira. O que vale, senhoras nuvens, é nos deixarmos lavar e envolver pelo abraço benfazejo da água.

Aqueles que porventura estiverem no meio do trânsito, guiando os seus veículos, não podem se furtar dessa experiência. Orienta-se, pois, que estacionem de imediato e se exponham ao fenômeno pluviométrico (eis a palavrinha outra vez). Cidadão algum há de ignorar ou desmerecer tal acontecimento.

Será uma imagem graciosa, um colírio para os olhos, assistirmos à meninada festiva em meio ao aguaceiro, bandos de moças com as suas roupinhas casuais e ainda mais coladas a seus corpos pela ação da água, felizes, descontraídas, suscitando pensamentos outros em nossas cabeças de marmanjos à espreita. Dias venturosos serão esses, senhoras nuvens. Tudo isso depende de vocês.

Tragam chuva para Mossoró. Pode ser, como eu disse, apenas uma por quinzena. Contanto que seja duradoura e, se possível, à tarde. Que o bom São José me perdoe por tê-lo driblado, prescindo da sua intercessão junto a vocês, amigas nuvens carregadas. Deus sabe que assim procedo por causa nobre.

Minha terra é bonita, embora a violência, a criminalidade, ofusque e contradiga a nossa propaganda de povo hospitaleiro, gente pacata; essas velhas e batidas peças publicitárias de que o Palácio da Resistência faz uso sem muita veracidade e nenhum pudor. De resto, amigas nuvens, este é um lugar interessante. O que está nos faltando, e desde sempre, é a dádiva de um refrigério climático.

Não lastimarei que em minha rua, que possui escoamento extremamente precário, fiquemos com a água na altura dos joelhos. O que é que tem?! Será este um pequeno transtorno em favor de um bem maior, coletivo. Outros locais ficarão alagados, a exemplo do Centro, ainda assim agradeceremos.

Vocês precisam ver o pequeno rio em que se transforma esta Euclides Deocleciano, aqui no Conjunto Walfredo Gurgel, quando bate uma boa chuva. É um espetáculo! A água invadia as casas e aí os moradores, sem o socorro dos políticos desta urbe há décadas, tiveram que construir barreiras diante de suas portas. Aqui em casa ela ultrapassa o portão e vem lamber a minha soleira.

Todavia, amigas nuvens, não se preocupem com isso. Não lhes compete. Esse é tão só um problema crônico de drenagem que nossos homens públicos, principalmente por parte daqueles que se aboletaram na cadeira da prefeitura, têm ignorado olimpicamente há longos anos. Por ora, façam chover.

Nesses começos de tarde, quando o calor nesta província atinge níveis abrasadores, por mais de uma vez abandono esta escrivaninha e vou para debaixo do chuveiro. Poucos minutos depois, ao deixar o banho e percorrer alguns metros até alcançar uma toalha pendurada no varal, eis que meu corpo já se encontra praticamente seco. O vento que circula parece originário de uma fornalha.

Tragam-nos chuva, amigas nuvens. Não liguem para as goteiras no meu telhado. Eu me viro aqui com umas panelas e baldes. Estamos carecidos do líquido que vem do alto. Nossas árvores vêm sofrendo. O céu de Mossoró está num completo desmantelo azul, como naquele soneto do Carlos Pena Filho.

Será bom, repito, um pouco de gris no espaço. Daí a pouco o Sol reaparece e todas as cores retomarão exuberantemente os seus devidos lugares. Mas a chuva, ao menos uma a cada quinze dias, representará uma bênção. A vegetação renascerá das cinzas, os pássaros cantarão intensamente, a orquestra dos sapos e rãs convocará seus membros para uma apresentação em caráter urgentíssimo.

Ah, amigas nuvens! A água é a origem da vida. E nossas vidas ficarão mais alegres com a chuvarada. Atendam, se acaso me ouvem, esta súplica mossoroense. Prometo, para me redimir com São José, acender uma vela ao padroeiro das chuvas no sertão. Fico por aqui. Suponho que já falei muita água.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 22/08/2021 - 07:50h

Querido Texto…

Por Marcos Ferreira

Bom dia, querido Texto. Ou boa tarde ou boa noite, a depender do momento em que você se faça presente ao longo destas páginas.

Aqui estamos, mais uma vez, neste encontro ameno e silencioso. E é sempre assim, você comigo e eu com você, sujeito às suas conveniências. Escrevo, porém, com o mesmo carinho, com renovada alegria e prazer. Exatamente, querido. Toda vez é uma grande satisfação colocar-me diante deste velho notebook, sentado a esta escrivaninha já bamba, e estabelecer contigo este diálogo. Jamais um solilóquio. Porque sei que da sua parte, com as suas particularidades, interagimos.

Como percebe, hoje amanheci coberto de lirismo. Sinto a alma leve. Estou de bem com a vida, aqui tomando o meu cafezinho escoteiro e ouvindo a passarada trinando na copa da mangueira, no quintal da residência aos fundos da minha. É uma beleza essa trilha sonora. Isso ocorre, sobretudo, cedinho.escrita, texto, escrever, diálogo,

Nessas ocasiões sequer aciono a playlist com oito horas de blues. Dou preferência à maviosa e diversa música dos cantores alados. Sei que isso não é novidade, recordo que falei sobre esses artistas outro dia. No entanto, como costumo dizer, não faz mal recordar o que faz bem. Ao menos a mim, que desafino até batendo palmas, a música propicia um lenitivo, um bem-estar indescritível.

Então, querido Texto, ouçamos mais o que nos têm a dizer os passarinhos. Quanta poesia existe em suas vozes polifônicas! É um privilégio poder ouvi-los, “mal rompe a manhã”, como no verso de Drummond. Quisera eu ter maior engenho, um tanto mais de poeticidade na escrita para homenageá-los.

Há ainda o farfalhar dos ramos da grande árvore, expostos ao sabor do vento. Isso, de repente, lembra-me “as folhas de coqueiro amareladas pelo tempo” aqui e acolá referidas pelo cronista Inácio Augusto de Almeida, visão de que usufrui deitado em sua cama, através da janela do quarto. Inácio, não nos enganemos, é um enfeitiçador de palavras. Possui o que contar e faz isso com qualidade.

— Canta, canta, passarinhos — murmuro aqui, como se eles fossem capazes de ouvir e de entender o que eu digo. Não é, Bilac?

Após um bocejo leonino, tomo mais um gole da rubiácea. Estalo os dedos, conserto os óculos no alto do nariz, e me aprumo na cadeira giratória. Penso em soltar o blues, porém o trinado do passaredo continua em alto e bom som. Gudãozinho, minha grácil e trêfega gatinha, aninha-se aos meus pés.

— Oi, Gudãozinho? — converso com ela, como de costume. Isso ocorre o dia todo. Ela ronrona, comprime os olhos azuis. Adora deitar-se sobre meus chinelos. Arranha de leve meu pé esquerdo, ameaça mordiscar-me o tornozelo. É brincalhona à beça. Mas só comigo. Quando recebo alguém, ela foge, vai se esconder no banheiro, atrás do vaso sanitário. Fica lá encolhida até a visita ir embora.

— Quer seu sachê? — aí ela arregala os olhos.

Permita-me uma digressão, ou um parêntese.

Imagine você, querido Texto, o estado em que Gudãozinho me apareceu. Certa manhã, quando abri o portão para colocar um saco de lixo na calçada, era dia de coleta, notei aquele vulto branco invadindo o quintal. “Um gato!”, concluí imediatamente. Larguei o saco e voltei para expulsar o suposto invasor.

Coisa nenhuma. Ao me inteirar da situação da felina, não tive coragem de jogá-la de volta na rua. Quando me aproximei, Gudãozinho correu para o fundo do muro. De tão fraca, entretanto, ela tropeçou nas próprias pernas e caiu. Não mais se ergueu, abdicou da fuga. Encontrava-se às vascas da morte. Era tão somente pele e ossos. Consegui uma xícara de ração com uma vizinha e dei à gata.

Estimei que tivesse uns três meses de idade. Comeu deitada, as patas dianteiras sob o colo. Não conseguia ficar de pé. Adotei Gudãozinho, que é felpuda e branquinha. Então apliquei essa corruptela à palavra algodão. Era abril. Daí para cá Gudãozinho dobrou de peso e, agora, esbanja saúde e boniteza.

Bom, fechemos o parêntese, retomemos a pauta. Penso em você, querido Texto, a cada palavra inserida nesta crônica adocicada. Sim. Um pouco de doçura não faz mal. Vivemos tempos tão amargos, nefastos. Viu aquele bizarro desfile bélico em Brasília? Pois é. Que ridículo! Felizmente, sempre combativo, temos aqui um François Silvestre, que já entra dando uma voadora nesses fascistas.

Basta! Não quero (por higiene mental) discorrer acerca de política. Não pelo menos nesta crônica, que desejo oferecer exclusivamente a você, meu querido Texto. Que estas páginas, ao fim e ao cabo, adquiram algum brilho, exibam algo de belo, quem sabe como os lindos olhos azuis de Gudãozinho.

— Não é, Gudãozinho? — ela nem liga.

Repito, com alguma variação, o que falei ao meu editor Carlos Santos e à amiga Rozilene Ferreira da Costa: você, querido Texto, dignifica estas publicações dominicais. As pessoas (leitores) me vêm saudando, parabenizando por nossa parceria. Isso tem feito valer a pena cada minuto, cada hora que dedico a esta sadia relação; eu que passei longos quinze anos sem publicar em periódicos.

Portanto, querido Texto, tenho recebido muitos incentivos de leitores também queridos e gentis. Vem-me à lembrança a amiga Cristiane dos Reis, que domingo passado me brindou com este gratificante comentário: “Por favor, não ouse me deixar sem crônica no café da manhã. Já estou acostumada”.

Como posso não me inspirar com essas pessoas? Daí a pouco surge alguém do quilate de um João Bezerra de Castro, autor de Pegadinhas da Língua Portuguesa, rica obra publicada em três volumes, e declara isto:

“Com o texto ‘Hoje não tem crônica’ o autor esbanjou talento e nos encantou. Sem dúvida, é um craque do gênero crônica. Estou na fila aguardando o livro com todas as crônicas já publicadas porque, pela excelente qualidade, precisam ficar registradas na história da Literatura Brasileira”. Obrigado, João.

Nesse exato domingo, no espaço do leitor, Luiza Maria escreveu a certa altura: “Alguns clientes batiam na mesa para chamar minha atenção para poder pagar… eu estava totalmente enfeitiçada… e esse mesmo feitiço se repete toda vez que leio Marcos Ferreira. Continuo encantada!” Gratíssimo, Luiza.

Desculpe se, porventura, exibir tais vozes lhe parece cabotinismo. Não é cabotinismo, tão só orgulho. Orgulho de ser lido, entre outros, por um Odemirton Filho, um Marcos Rebouças, uma Vanda Jacinto, um Rocha Neto, uma Simone Martins, um Aluísio Barros, uma Rizeuda da Silva, um Jessé Alexandria, um Airton Cilon, um Marcos Aurélio, um Fabiano Souza, um Marconi Amorim.

Gente de lugares diversos. Daqui: Mário Gaudêncio, Francisco Nolasco, Zilene Medeiros, Elias Epaminondas, Vanda Maia, Misherlany Gouthier… De fora, uns mais longe, outros menos: Túlio Ratto (Natal); Clauder Arcanjo (Fortaleza), e Alcimar Jales (Rio). Sinto-me honrado com a leitura de todos.

— Esqueci-me de alguém, Gudãozinho?

Mirando meus olhos, ela balança a cabeça afirmativamente. Bom, fiquemos por aqui. Receba o meu abraço, querido Texto. Aproveito para erguer um brinde com café a este nosso antigo e prazeroso convívio. Tim-tim!

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 15/08/2021 - 06:30h

Saudades do Menino do Poré

Por Marcos Ferreira

Quando meu pai e minha mãe morreram, exatamente nesta ordem, ele com apenas cinquenta e quatro anos de idade e ela com sessenta e dois, demorei alguns anos até conseguir escrever umas linhas (versos, aliás) sobre a partida e a ausência de ambos. Uma ausência irremediável e nunca confortada.

Senti algo semelhante, no sentido de me ver bloqueado, sem palavras, por ocasião do passamento dos mestres Dorian Jorge Freire, Raimundo Soares de Brito e Vingt-un Rosado. Pois é. Foram estes os três primeiros indivíduos de grande representatividade nos meios intelectuais de Mossoró que enxergaram o meu então microscópico talento naqueles começos da minha aparição nas letras.O Menino do Poré - livro

Raimundo Soares de Brito (carinhosamente sintetizado Raibrito) recortava todas as poesias e croniquetas que eu publicava aos domingos no caderno de cultura do Jornal O Mossoroense. “Você precisa publicar um livro com essas produções”, disse-me ele uma vez. Algum tempo depois, com apoio financeiro de Vingt-un, lancei o meu primeiro livro, Um Poema de Presente. Isto em 1996.

Dorian Jorge Freire, por mais de uma vez, brindou-me com notas de estímulo à minha escrita em sua coluna dominical na Gazeta do Oeste. Até que um dia, quando a Petrobras se ofereceu para relançar um livro de crônicas do emérito estilista, Os Dias de Domingo, o próprio Dorian fez este pedido a Clauder Arcanjo, então gerente da Base-34: “Quero que Marcos Ferreira seja o revisor”.

Ou seja, uma demonstração e tanto de prestígio, uma enorme honra e carinho para com um ex-sapateiro e Dom Pixote da literatura. Que me perdoe o prezado leitor Amorim, que há poucos dias me deu um carão aqui no Canal BCS (Blog Carlos Santos) por eu haver me autoproclamado Dom Pixote.

Todo este nariz de cera, chamemos dessa forma, é para evocar a memória de outro grande homem, filantropo e mecenas da cultura mossoroense, embora sempre discretíssimo nas suas ações: Milton Marques de Medeiros, o Menino do Poré, falecido aos 22 de abril de 2017, “a pouco menos de três meses de completar 77 anos”, conforme noticiou o Blog Carlos Santos no último 3 de julho.

A exemplo de Vingt-un, Raibrito e Dorian Jorge Freire, o Dr. Milton Marques não tardou a conquistar minha admiração e benquerença. Sobretudo após nos tornarmos mais próximos devido à nossa participação enquanto articulistas da Papangu, no início de 2004. Milton assinava a coluna Entrelinhas.

Assim como Dorian Jorge Freire, o Menino do Poré confiava a mim a revisão dos escritos que enviava, por e-mail, à revista do Túlio Ratto: “Ferreira, dê uma olhada aí, por favor. Escrevi meio à pressa. Deve ter algum escorrego”, dizia-me, vez por outra, algo desse tipo em telefonema para a redação da Papangu. Dificilmente eu encontrava qualquer escorrego. Texto limpo, de boa sintaxe.

Um pouco antes, véspera da minha estreia na Revista Papangu, Milton me convidou a entrevistar, junto com ele e o jornalista Marcos Antônio, da Rádio Rural, o professor João Batista Cascudo Rodrigues, de saudosa memória, para o canal TCM – TV Cabo Mossoró. Foi uma das seis primeiras entrevistas do marcante programa “Mossoró de Todos os Tempos”, apresentado por Milton.

Imaginem uma coisa dessas, prezado leitor e gentil leitora. Eu, um tímido incurável, que nunca ousara pedir uma música no rádio, súbito me vi diante de uma câmera de televisão. Era manhã, 22 de novembro de 2003. Ouvimos o entrevistado na Fundação Ozelita Cascudo Rodrigues, situada no Centro.

O depoimento de João Batista, impelido pela boa atuação dos outros dois entrevistadores, eu entrei mudo e quase saí calado, foi de uma riqueza ímpar. Sobretudo pela vasta cultura de João e por sua enorme capacidade de juntar o passado com o presente, num belo desfile de experiências e recordações.

Transcorridos vários anos, no finzinho do primeiro semestre de 2016, os papéis se inverteram e passei à condição de entrevistado do “Mossoró de Todos os Tempos”. Uma noite, ao nos reencontrarmos num evento cultural nesta urbe, Milton me convidou. E lá fui eu, de novo, para diante das câmeras.

Houve outras oportunidades em que Milton demonstrou atenção e carinho para com a minha pessoa e meu exercício literário. Foi desse modo enquanto atuei como editor de cultura, durante três anos, à frente do caderno Universo, em O Mossoroense, como também durante os mesmos três anos que passei ajudando a editar a brava Revista Papangu, ora de volta em plataforma eletrônica.

Ainda em 2016, ao me envolver na arriscada aventura de realizar a edição comemorativa de dez anos do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que em 2005 conquistou o primeiro lugar nos “Prêmios Literários Cidade de Manaus”, sendo lançado no ano seguinte pela editora da Universidade Federal do Amazonas, Milton tocou no meu ombro e disse: “Conte comigo, Ferreira”.

Não só me disponibilizou os jardins da TCM para a noite de autógrafos, isto no dia 11 de novembro, como adquiriu significativa quantidade de exemplares. Nessa noite, entre outras personalidades da cultura mossoroense, como Elder Heronildes, Wellington Barreto e o saudoso João Sabino, falecido recentemente, Milton pediu a palavra e fez uma tocante apresentação deste autor.

Esse notável Menino do Poré, cuja simplicidade e bom trato humano lhe eram apenas duas entre tantas características admiráveis, está fazendo enorme falta a esta província tão carente de figuras sensíveis às letras e às artes como um todo. Era um homem imprescindível o Dr. Milton Marques.

Esta pequena e extemporânea homenagem deságua do meu peito agora em que me chega às mãos, com afetuosa dedicatória da amiga Zilene Medeiros, viúva do homenageado, a edição póstuma de Memórias de Milton Marques de Medeiros — O Menino do Poré, obra organizada pela jornalista, youtuber e escritora Lúcia Rocha. Belíssima história de vida de um cidadão fora de série.

Hoje, portanto, decorridos mais de quatro anos do falecimento do médico, do pai amoroso e marido de toda uma vida, homem de letras e autêntico visionário Milton Marques de Medeiros, peço licença ao prezado leitor e à gentil leitora para ofertar este singelo e emotivo tributo a tão estimado amigo.

Assim, caro Menino do Poré, onde quer que você esteja, saiba que não esqueci de você. Um grande abraço e até qualquer dia.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 01/08/2021 - 06:38h

Espírito olímpico

Por Marcos Ferreira

Durante toda a semana, acometido por uma esterilidade que não largava o meu pé, ou a minha cachola, melhor dizendo, queixei-me com alguns amigos sobre tal indisposição para escrever esta crônica que, suponho, agora vai. Pois bem. Lamentei-me, por exemplo, com o amigo poeta Francisco Nolasco:

— Não sei o que escrever para o Canal BCS (Blog Carlos Santos) — principiei. — Eu considero que estarei de fora no próximo domingo.

(Foto: Miriam Jeske/COB)

(Foto: Miriam Jeske/COB)

— Não, meu amigo! — protestou logo.

— Já é sexta, boca da noite — destaquei.

— Seus leitores aguardam sua crônica.

— Possivelmente. Porém a situação…

— Segure a peteca! O seu público é fiel.

— Um público de quase vinte leitores.

— A qualidade compensa a quantidade.

— Você está correto — dei de ombros.

O poeta, comandante em chefe da “Bodega do Seu Zé”, no Alto de São Manoel, mais precisamente à Rua Kléber Dantas Bezerra, número 94, com mais de meio século de funcionamento, negócio que passou de pai para os filhos, foi atender um freguês e deixou o outro lado do balcão, em busca da mercadoria solicitada. Após despachar o cliente, um tipo de meia-idade que entrou com a máscara sob o queixo, Nolasco voltou-se para mim com os olhos rútilos e arregalados:

— Tenho uma ideia para você trabalhar.

— Estou aberto a sugestões — assenti.

— Fale sobre as Olimpíadas de Tóquio.

Desanimei, e saí com este argumento:

— Poeta, sou ignorante nesse assunto.

— Você jogava vôlei. Deve manjar algo.

— Tanto quanto de engenharia atômica.

— Que nada! Sei que vai tirar de letra.

— Tomara que você esteja com razão.

— Rapaz, essa vitória do Ítalo Ferreira, histórica medalha de ouro no surfe, é um estímulo valioso a qualquer cronista que se encontre sem inspiração. Além disso, ele é um Ferreira… Um Ferreira no topo do mundo.

— Pois é, meu primo Ítalo — brinquei.

Naquele instante, com o crepúsculo da sexta-feira ensanguentando o horizonte, e o barulho absurdo do trânsito a me deixar meio zonzo, despedi-me do poeta e rumei para a casa de Natália Maia, minha noiva e conselheira literária. A ela também me queixei do meu bloqueio, do meu embargo para escrever. Natália, enquanto botava a ração para a nossa gata Pepita, sem me voltar os olhos, pareceu-me ter a resposta na ponta da língua, tamanha a rapidez com que disparou:

— Olimpíadas!… Eis o tema da hora.

Desanimei outra vez, e falei baixinho:

— Hum, parece que estou em apuros.

— Onde está o seu espírito olímpico?

— Ótima pergunta. Comigo não está.

— Dê o seu jeito. Só não pode faltar.

Aqui de volta à escrivaninha, nesta manhã que mal principia, enquanto os pássaros pastam lá fora e o gado pula de galho em galho, perdoem o gracejo, eu penso vagamente na apoteótica conquista do meu “primo” Ítalo Ferreira e nas cenas inesquecíveis desse marco histórico do esporte brasileiro. Arrisco-me a discorrer sobre este assunto, porém alerto ao prezado leitor e à gentil leitora quanto ao meu desconhecimento acerca do tema. Não é minha praia nem minha onda.

Entretanto, como “manteiga” que sou, não nego que me emocionei com o triunfo do meu conterrâneo. Em linha oposta, contudo, irritei-me com o tratamento que parte da chamada grande imprensa deu à façanha do Ferreira. Galvão Bueno, ridiculamente, lastimou muito mais a derrota do paulista e queridinho Gabriel Medina do que festejou o ouro do nordestino e potiguar de Baía Formosa.

Duvido que Galvão tivesse se lamuriado tanto se, por acaso, houvesse ocorrido o oposto. Mas é do Nordeste, do Rio Grande do Norte e de Baía Formosa, até o momento, a única medalha de ouro vinda para o Brasil nestas Olimpíadas. Além disso, representa o primeiro ouro olímpico na história do surfe.

Embora campeão do mundo, respeitado internacionalmente, tendo inclusive derrotado o próprio Gabriel na final no Havaí em 2019, durante todo o trajeto da competição o potiguar era tratado como secundário, espécie de coadjuvante de Medina, sobre o qual os holofotes da imprensa se concentravam.

Midiático, garoto-propaganda requisitado por grandes agências de publicidade, parece que Medina foi para o Japão de salto alto. Assim, quebrou o salto, caiu da prancha e não ganhou sequer a medalha de bronze.

Enquanto isso, embora sempre depreciado e subestimado, o Nordeste aparece muito bem na fita com Ítalo Ferreira e outra nordestina arretada, a fadinha maranhense Rayssa Leal, de apenas treze anos de idade, que também faz história no esporte ao conquistar a primeira medalha de prata no skate.

Juro, entretanto, que não era essa a temática que eu desejava apresentar ao prezado leitor e à gentil leitora. Decerto dirão que estou sendo bairrista, até indelicado no tocante ao menino dos olhos do Galvão Bueno.

O meu desejo, acreditem, era escrever sobre algo leve, um texto paz e amor, sem entreveros nem potencial polêmico, a um só tempo belo e deleitante. Mas a coisa não fluiu, queimei neurônios e permaneci na estaca zero. Pensei, então, em pedir uma crônica emprestada ao Odemirton Filho, quiçá ao Clauder Arcanjo. Este último, concernente à literatura, possui uma fertilidade de coelha.

Sim. Nessas horas um cronista pode perfeitamente se valer dos amigos cronistas. Que é que tem? Rubem Braga, por exemplo, em semelhante aperto, certa feita socorreu-se com o Fernando Sabino, que lhe emprestou uma crônica. Braga deu uma arrumada no texto, trocou o título, e publicou como dele.

Tempos depois, como eram muito íntimos, Sabino se encontrava na mesma situação e foi pedir ajuda ao Rubem Braga, que entregou a Fernando Sabino a mesma crônica que recebera. O autor de O Encontro Marcado também trocou o título e republicou o texto, agora sob o risco de um autoplágio.

Quem conta essa história, de forma magistral e com relevantes detalhes, é o próprio Fernando Sabino na crônica “O estranho ofício de escrever”, do livro A falta que ela me faz (editora Record-1987). Então, prezado leitor e gentil leitora, se dois monstros sagrados da crônica brasileira desse porte enfrentaram esse tipo de pane seca, imaginem só um Dom Pixote das letras do meu naipe.

Peço, pois, que me levem na esportiva.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 25/07/2021 - 06:44h

Um simples vaga-lume

vaga-lumePor Marcos Ferreira

Nestas últimas noites, depois que apago a luz do quarto e estendo sobre a cama este meu fardo de carne e ossos, observo no escuro do quintal, através das grades da janela e dos ramos da samambaia, a dança nervosa dos vaga-lumes em meio à solidão orvalhada do silêncio.

Vão de um lado a outro, de baixo para cima, de cima para baixo com suas levezas e faiscações, suscitando inveja nos besouros e grilos deste arrabalde, indiferentes ao exibicionismo aéreo dos morcegos que arranham o quadro-negro do céu.

São erradios e pequeninos sóis da madrugada. Ora o vento os expulsa, apaga-lhes o brilho de néon, noutro momento os anima e os acende. Vão pontilhando as horas mortas de minha insônia com suas lanterninhas de azul fosfóreo, semelhando insólitos planetas na periférica Via Láctea deste quintal. Vêm quando já não ouço o fragor do serviço doméstico, o tilintar dos pratos e talheres, a babel cotidiana dos meus vizinhos e familiares.

Um deles penetra na atmosfera do quarto, movimenta-se pra lá e pra cá, abalroa num obstáculo e noutro, mas logo descobre o caminho de volta e se mistura à constelação móvel daqueles de sua espécie. Seguem desafiando o rigor das trevas qual diminutos lampiões que a brisa perversamente apagasse e acendesse.

Sempre eloquentes e muito anchos, nenhum galo ponteia pela vizinhança o seu canto gregoriano. E nesta hora azul do silêncio — recordando um certo bruxo de antanho —, eis que me indago intimamente, ouvindo entre as paredes de meu crânio o perpétuo rumor destes pensamentos baldios:

— Por que não nasci eu um simples vaga-lume?…

Mas não obtenho resposta. Talvez porque os pirilampos, assim como as flores, também não falam. Apenas luzem pela noite em fora, enquanto todos pesamos sobre nossos leitos, enquanto a luxúria dos gatos passeia por cima dos telhados e muros, enquanto a saparia emudece nos bueiros e as mariposas se deslumbram perante a luz artificial dos sonolentos postes de minha rua.

Então aqui os invejo e os contemplo na tosca paisagem da janela, ambicionando para esta prosa de brilho emprestado um pouco de sua autenticidade e beleza. Vieram fecundar retalhos de lusco-fusco no meu pensamento, acendendo e apagando os olhinhos azuis da Poesia. De algum modo eles compreendem que representam para mim o que ainda existe de ameno e poético nestes meus enlevos de juventude e caducidade.

O mais é tudo abandono e silêncio. Nenhum fio de luar se derrama pela fresta da telha, sequer um verso torto ou estrofe sem nexo se articula nos escaninhos do meu juízo. Apenas refaço mentalmente a inevitável pergunta de um minuto atrás:

— Por que não nasci eu um simples vaga-lume?…

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 18/07/2021 - 06:56h

O soluço do réptil

Por Marcos Ferreira

Hoje, durante uma faxina não programada, abri uma caixa onde eu havia lacrado cerca de trinta livros decrépitos, alguns relidos e já tocados pelos cupins. Aí encontrei a primeira edição de um romance antiquíssimo: O Soluço do Réptil, do escritor vila-negrense Samuel Benevides Cardoso, falecido neste município no final do século passado, às vésperas de completar noventa anos de idade, pobre e anônimo. Após a sua morte, por ironia, o romance de Samuel tornou-se um best-seller nacional, sendo lançado, inclusive, por uma grande editora europeia.

Trata-se do primeiro e único livro desse autor, que chegou às mãos do público depois que o romancista foi premiado num concurso literário em Recife, oportunidade em que recebeu uma significativa quantia em dinheiro, sendo a obra logo impressa com o selo da Companhia Editora de Pernambuco.repteis-definicao-principais-tipos-respiracao-alimentacao-e-digestao-2-1024x576Em O Soluço do Réptil, volume de quase oitocentas páginas, escrito com tinta ácida e costurado com requintes de crueldade, Samuel Benevides nos oferece um texto com explícito (desde o primeiro capítulo) engajamento político e firme lastro histórico, ainda que forjando nomes para pessoas e lugares onde ambientou a sua trama. Pois ele extraiu da biografia urbana da sua terra um protagonista vilão, concebido a partir de notório e execrável personagem daquele tempo.

“Apesar de tudo, tenho progredido na feitura destas memórias hostis (…) Sou um livre-pensador, um tipo cínico, misantropo. Não me importo com o beneplácito ou a ira dos meus improváveis leitores. Este não é um livro para edificar, é um livro para demolir”, adverte no segundo capítulo do calhamaço.

Narrado em primeira pessoa, como está visto, o romance é uma “faca só lâmina”, como o poema de João Cabral de Melo Neto. Num tom sombrio, cáustico e por vezes debochado, repleto de sentenças mordazes e bem lapidadas, O Soluço do Réptil impressiona por sua atualidade e consistência enquanto trabalho artístico e panfleto incendiário.

Um duro e destemido libelo contra o fascismo e o negacionismo que marcavam a época em que a obra foi escrita. Não apresentarei aqui uma fiel transcrição, contudo a narrativa começa mais ou menos assim:

Era uma vez, num país tropical, um ser nefasto, camaleônico, que atingiu o pináculo do poder através de muita lábia e falso moralismo. Embora inculto, assassino do próprio idioma, o arrogante beócio soube explorar como poucos a indigência política, o fanatismo religioso e a fraqueza de caráter de uma pequena maioria do eleitorado.

Vendeu-se por honesto, incorruptível e defensor da família (embora com dois divórcios nas costas e um terceiro casamento fazendo água) em todos os veículos de mídia. Até que se tornou o mandatário-mor da pátria que o pariu.

Essa história, portanto, recontada ao longo de décadas, objeto de vastas reportagens, publicada em livro e adaptada até para o cinema, deu-se entre os longínquos anos de 2018 e 2021, em meio a uma pandemia cujo vírus matou milhões de pessoas em todo o planeta. Aí, conforme o romance, teve início o apogeu e, na sequência, a derrocada de um elemento repulsivo, linguarudo e casca-grossa que se tornou governante de uma grande e conturbada nação do Terceiro Mundo.

Reza a lenda que o senhor Jerônimo Lagarto, eis o nome do fulano, nunca trabalhou, nunca deu um prego numa barra de sabão, como se diz, durante seus quase dez mandatos de deputado federal. Daí açambarcou a Presidência da República do Barril, este o referido país dos trópicos. Filhote da ditadura militar, Jerônimo Lagarto sempre se deu bem por onde passou arrastando o seu enorme rabo; rabo este que depois se revelou totalmente preso a todo tipo de escândalos.

— No meu governo não tem corrupção! — costumava gabar-se, volta e meia, geralmente pela manhã, numa espécie de chiqueirinho federal onde falava aos jornalistas e a uma devota plateia de asseclas e lacaios. — Quero que apontem um só corrupto na minha equipe — botava ele a mão no fogo.

Entre outras bravatas e falácias, estribou a sua campanha à Presidência no combate à corrupção, na defesa dos valores da família e (vejam só) no rompimento com o que ele chamou de “a velha política”, isto é, os partidos do centro. Mal chegou ao segundo ano do seu governo, entretanto, bombardeado por centenas de pedidos de impeachment, não teve qualquer pudor de pedir arrego, correr para debaixo da asa justamente daqueles que prometeu desprezar: os partidos do centro. Resultado? O falso messias se enroscou até a medula com o velho Centrão.

— No meu governo não tem negociatas!

Sexista, homofóbico, agressor de mulheres, recrutador de milicianos, autoritário, religioso de araque, fascista, cuspidor e intimidador de jornalistas, o personagem vilão Jerônimo Lagarto, inspirado em figura de proa da vida política daquela República, é uma espécie daninha entre a humanidade. Mal assumiu o governo do Barril, aquele seu discurso de político imaculado caiu por terra.

Deve-se frisar que não foi apenas a máscara de Jerônimo Lagarto que despencou da caradura, mas também a dos filhos igualmente políticos e corruptos, quadrilheiros, todos envolvidos com crimes das mais diversas modalidades: fraudes, subornos, peculato, sonegação de impostos, rachadinhas, nepotismo, sinecuras, além da compra de uma mansão de seis milhões de reais e o superfaturamento de uma fantástica lojinha de chocolates num shopping da Barra da Tijuca.

Enquanto isso, no Ministério da Doença, pipocavam denúncias apuradas por uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre compras retardadas e superfaturadas de vacinas contra o vírus que dizimava a população. Ainda assim, com a bandalheira estampada nos noticiários, na internet e alardeada pela oposição, que também não era totalmente santa, Jerônimo Lagarto parecia indestrutível, zombando das famílias enlutadas e dos poderes constitucionais, ovacionado por uma massa ignara que o elevava ao patamar de mito, não se sabe ao certo do quê.

Inflação galopante, fome, desemprego, mortandade nas alturas, militares brucutus ocupando cargos técnicos, entra e sai de ministros incompetentes, alguns envolvidos em rolos escabrosos, nada disso parecia afetar o ibope do mandatário-mor que desgovernava aquele país tropical chamado Barril.

Até que Jerônimo Lagarto foi acometido por um misterioso soluço. Hospitalizado, o homem não perdeu tempo, tirou fotinha seminu sobre um leito, postou nas redes sociais e meteu a culpa por sua enfermidade na oposição. Uma junta médica com os melhores especialistas logo foi mobilizada, realizaram-se mil e um exames, transferiram o mandachuva do Distrito Federal para São Paulo, envidaram-se todos os esforços que estavam ao alcance da medicina, entretanto o língua de trapos (como por castigo) jamais conseguiu se livrar do inexplicável soluço.

Há vários outros aspectos que não me cabe discutir. Então, prezado leitor e gentil leitora, se porventura desejam mais detalhes sobre o livro por mim resenhado, eu lhes proponho que adquiram O Soluço do Réptil, de Samuel Benevides. Essa atualíssima trama de Samuel Benevides se passa, torno a destacar, entre os longínquos anos de 2018 e 2021. Ou seja, há mais de meio século.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 11/07/2021 - 04:10h

Natureza enfurecida

Por Marcos Ferreira

Há uns trinta minutos, quando fui estender a toalha no varal, avistei um lindo beija-flor adejando sobre o mato florido que reveste parte do meu muro. Detive-me, estático, para não afugentar o bichinho alado. Daí a pouco, após oscular algumas florzinhas, ele se foi lépido e fagueiro.

Até quando, reflito, teremos o privilégio de contemplar seres graciosos como esse colibri? Tantos outros viventes (animais quanto vegetais) já foram extintos ou se encontram ameaçados de extinção devido à nossa postura irresponsável neste não menos ameaçado planeta.curiosidades-sobre-o-beija-florSomos, gostemos ou não, a espécie predadora mais letal sobre a face da Terra. Predadora até de si mesma, ressalte-se. Penso nisso enquanto ouço, aqui sentado à escrivaninha, bebendo café, o passaredo trilando na mangueira do vizinho, por trás da minha casa. São exatamente sete e cinco. Raras vezes estou desperto a essa hora da madrugada, entorpecido por meus psicotrópicos. Mas hoje caí da cama. Melhor dizendo, da rede, pois os cupins devoraram minha cama há cerca de dois anos. Madeira molinha, um tipo de musse para aqueles insetos vorazes.

Elegendo prioridades, sempre estamos sujeitos às benditas prioridades, findei não comprando outra. Até porque aprecio dormir de rede, hábito que trago desde a primeira infância, à luz bruxuleante de uma lamparina de querosene que meus saudosos pais deixavam acesa na cozinha de nossa residência de taipa na Avenida Alberto Maranhão, 3521, no Bom Jardim.

Com a rede espichada na sala, onde está a televisão, assisto a filmes e séries. O cinema, como referi noutras ocasiões, é uma grande e antiga paixão, assim como a literatura (lógico!) e a música.

Neste momento executo no computador uma playlist com oito horas de blues. Ao fundo, no entanto, o gorjeio múltiplo dos pássaros é um show à parte. Ao longo de vários anos, devido ao seu enorme tamanho e ao temor de vizinhos contíguos, que receiam o desabamento da mangueira pela ação do vento durante fortes chuvas, a senhora Francisca, dona da casa onde se encontra a portentosa árvore, já foi muito pressionada para que a fruteira seja extraída. Até aqui, todavia, a mangueira continua de pé, apesar de ter passado por algumas podas significativas.

Somos propensos a soluções drásticas, radicais, não raro com prejuízo para a preservação da fauna e da flora. Simpatizamos com o machado e negligenciamos a semeadura. O tempo todo, em Mossoró não é diferente, o ferro e o concreto assumem o lugar de árvores. Até os pardais e os pombos, entre as aves talvez as mais urbanas, sofrem com a chapa quente que se tornou este município desarborizado.

A selva de pedra cresce com velocidade preocupante. Com isto, prezado leitor e gentil leitora, retomo o assunto que move esta narrativa: nossa índole predadora e inconsequente. É que desmatamos e ceifamos bem mais que o necessário.

OUSO AFIRMAR que a Natureza é perfeita. Nós, entretanto, seres supostamente humanos e racionais, somos desgraçadamente falhos, até desumanos em alguns instantes de nossa existência. A humanidade, pelas mãos de tiranos e genocidas como Adolf Hitler, Benito Mussolini, Gengis Khan e Messias Ignaro, possui uma ficha medonha. Cada vez mais acredito nisso. Vem-me a ideia de que somos (alerto que a palavra somos será empregada em vários pontos desta narrativa) a única obra defeituosa do Criador, uma invenção que, a meu ver, não deu muito certo.

O resto da criação do Todo-Poderoso, exceto por nossa interferência inconsequente, perniciosa, sempre viveu em equilíbrio e harmonia. Hoje, porém, de forma dramática, esse equilíbrio e harmonia estão seriamente ameaçados. Somos a única espécie de todo o globo que põe em risco o próprio habitat, devastando a fauna e a flora, concorrendo para a degradação da vida em larga escala, seja na terra, na água ou no ar, pois sequer o céu (leia-se camada de ozônio) escapa.

Isto significa, como na célebre frase do dramaturgo romano Titus Maccius Plautus, que viveu há cerca de duzentos anos antes de Cristo, que o homem é o lobo do homem. Ou seja, promovemos nossa autodestruição. A sentença metafórica de Plautus, contudo, tornou-se de fato conhecida após o filósofo inglês Thomas Hobbes incluí-la em seu livro Leviatã, publicado no ano de 1651. Eu era muito pequeno à época, portanto, e não quero agora me arriscar discorrendo sobre passagens históricas desse tipo, cheias de poeira e com forte cheiro de naftalina.

Fiquemos com este complicado e perigoso momento. Quem sabe limítrofe, iminente. Estamos cada dia mais próximos, conforme cientistas de todo o mundo nos têm alertado há décadas, de um apocalipse climático.

Dia após dia, senhoras e senhores, e isso não é coisa de hoje, a Terra vem nos dando inúmeros sinais de que estamos em maus lençóis, de que o nosso abominável e criminoso comportamento se encontra por um fio. Porque desrespeitamos a Natureza de forma gritante. Poluímos o ar, envenenamos rios e mares, agredimos povos indígenas, desvirtuamos suas tradições, devastamos florestas. É uma coisa monstruosa, insana, o que estamos fazendo contra nossa Amazônia.

Que o diga o senhor Ricardo Motosserra, ex-ministro do Desmantelo Ambiente e negociante de madeira contrabandeada para os Estados Unidos, escândalo este público e notório. Acredito que não ficaremos impunes por muito mais tempo. Não duvido, por exemplo, de que essa pandemia, tão rica de cepas e variantes, venha a ser um recadinho subliminar que a Natureza esteja nos enviando por meio de outros mamíferos, desta feita bichinhos alados do Oriente: morcegos.

Admitamos ou não, estamos colhendo aquilo que semeamos. Ou, em muitos casos, deixamos de semear, replantar, zelar, proteger. Pelo retrovisor da História, prezado leitor e gentil leitora, é fácil enxergarmos o gigantesco rasto de devastação que deixamos por onde passamos. Porque somos (proponho que leiam a palavra somos ao contrário) predadores de nós mesmos. Somos, sim! E qualquer dia, cedo ou tarde, teremos que pagar essa conta com juros e correções.

Num piscar de olhos, então, enfurecida, a Natureza poderá nos varrer da face da Terra. Como diz o ditado, quem viver verá.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 04/07/2021 - 08:38h

O portão

Por Marcos Ferreira

Sábado passado, o que significa dizer ontem, fui ao comércio de Mossoró em companhia de Jorge, esposo da minha cunhada Vanda, esta irmã de Natália Maia, que vem a ser a minha noiva. Pois bem. Centro cheio, barulhento. Era por volta das onze horas. Um sol e um calor infernais (permitam-me o lugar-comum e a hipérbole) maltratavam meu quengo e meus olhos fotossensíveis.

Quanto a isso, sendo ainda mais excessivo, posso lhes dizer que se trata do meu lado sombrio. Definitivamente, embora nascido e criado nesta nossa amada fornalha, não me dou bem com muita luz e calor. O meu histórico de enxaquecas é uma coisa danada. Sem óculos de sombra, minhas lentes de grau ampliavam meu desconforto. Então, feito um Drácula caboclo se escondendo por detrás da capa, evito o máximo possível me expor aos efeitos do poderoso astro-rei.conserto de portão— Comprar meias, senhor?! — ofereceu-me um camelô diante do Cine Pax, exibindo três pares do produto em cores diferentes.

Aos poucos, ano após ano, fui me tornando uma criatura de hábitos noturnos, ou crepusculares. Exatamente. Tenho predileção pelos finais de tarde e pelas noites. Amo, portanto, o céu todo nublado e os dias chuvosos. Se o escritor Dalton Trevisan é considerado o vampiro de Curitiba, rótulo que teve origem a partir de título homônimo que ele deu a um livro seu de contos, por que não posso me autoproclamar o vampiro de Mossoró? Creio que essa distinção me caia bem.

— Chips da Claro, da Oi, da Vivo e da Tim! — anunciava uma vendedora à porta de uma loja, a máscara presa abaixo do queixo.

Sujeito buliçoso, espécie de faz-tudo da família, Jorge tirou o sábado quase inteiro para efetuar o conserto do portão eletrônico da casa de Natália, convocando-me como seu auxiliar naquela complexa tarefa. Daí que Natália me acordou às oito da madrugada, justo quando o metalúrgico Nove-Dedos, mais uma vez, recebia a faixa presidencial, agora pelas mãos do senador Rodrigo Pacheco.

— Me dá um realzinho aí — estirou-me a mão o nosso carismático conterrâneo Paulo Doido, sobre a calçada do Parque Elétrico. Considero importante assinalar que Paulo, mostrando que possui algum juízo, usava uma máscara de tecido com estampa de uma conhecida loja de capinhas de celulares.

Lá estávamos eu e o Jorge Alves naquela difícil empreitada. Ao menos para mim. Antes de sairmos, Jorge havia retirado o portão dos trilhos, escorando-o na garagem. Precisava adquirir algumas peças no comércio e eu fui a reboque, sonolento, conduzindo a sacola com as coisas que deviam ser trocadas. Entramos no Parque Elétrico, todavia a barulheira da rua nos acompanhou. Logo abandonamos a loja. Após uma rápida consulta, ele não encontrou o que buscava.

— Olha a água mineral geladinha! — gritou bem do meu lado, e sem máscara, um rapaz magricelo sob a marquise de uma ótica.

Deu-me vontade de comprar uma garrafa d’água, no entanto me lembrei da advertência que Natália me fizera à porta do carro:

— Não invente de comprar nada, ouviu?!

— Tudo bem. Fique tranquila — prometi.

— Todo cuidado é pouco — acrescentou.

Pregão de vendedores ambulantes, carros de som, buzinas, ronco de motores, entrechoque com transeuntes apressados. Uma barafunda dos seiscentos! Jorge e eu continuamos o nosso périplo por outras casas do ramo. Com ele andando rápido e eu tão fora de forma, sofri um bocado para acompanhá-lo.

— Vamos a Queiroz & Filhos — disse ele.

Também não achamos ali o que queríamos: barra de cremalheira, roldanas de aço e de nylon, parafusos com porcas e arruelas. Não com as características e especificações de que ele necessitava. Continuamos a busca. Eu conduzia a sacola com as peças menores e Jorge carregava o pedaço de cremalheira. Tais objetos nos eram úteis como referências para os materiais a serem adquiridos.

— Olha a gelé de coco! — enchi a boca d’água, mas resisti à oferta daquela tentadora iguaria exposta num retângulo de zinco.

Os passos céleres de Jorge e o calor me colocavam em apuros. Estou com um sobrepeso de dez quilos. Um monte de pensamentos passava por minha cabeça. Transpirando e ofegante, pensei na simpática e sempre bem-humorada loucura de Paulo Doido, que do alto da sua insanidade oferta exemplo de cidadania a muitos que se dizem em posse de suas faculdades mentais. Um paradoxo!

A ordem de Natália não me saía da cabeça:

— Não invente de comprar nada, ouviu?!

Sol a pino. O mormaço do asfalto, o torpor, minhas pernas fraquejando, os encontrões com transeuntes, as calçadas irregulares e cheias de obstáculos de toda espécie, bancas de ambulantes que lutam pelo pão de cada dia, o pregão do sábado fervendo no Centro. Tudo isso quase que fundiu a minha cuca.

— Anda rápido, compadre! — cobrava-me Jorge; queria que eu o acompanhasse mais de perto. — Assim você vai ficar na poeira.

— Já estou com a língua de fora — admiti.

— Deixa de moleza! — disse cheio de gás.

Volto a pensar em Paulo Doido e concluo que ele está em melhor forma que eu, apesar da sua barriga protuberante. É difícil ir ao Centro e não topar com ele, sempre com passo ligeiro, estirando a mão a um e a outro aqui e acolá. Era figurinha fácil nas recepções dos veículos impressos desta urbe, quando tínhamos em circulação, sobretudo, a Gazeta do Oeste e o Jornal O Mossoroense.

Paulo possuía acesso aos impressores e estes o presenteavam com um exemplar dos periódicos. Isso ocorria na Gazeta do Oeste, no O Mossoroense e no Jornal de Fato. Ele recebia o impresso e saía todo contente com o objetivo de vendê-lo. Agora só lhe resta, supondo-se que ainda lhe ofertem um exemplar daquele diário, o De Fato, cuja tiragem hoje acontece em quantidade simbólica.

— Me dá um realzinho aí — pedira-me.

Após visitarmos três ou quatro estabelecimentos comerciais, Jorge enfim encontrou as peças de que necessitava para o conserto do portão. Retornamos à casa de Natália e ali, com os meus joelhos em petição de miséria, o serviço rendeu quase duas horas comigo auxiliando o meu padrinho e compadre.

— Me dá isso; me dá aquilo — ele dizia.

No meio da garagem, em total desordem, Jorge pusera o seu arsenal de mecânico polivalente: furadeira, brocas, chaves de vários tipos, pistola de arrebites, escada de alumínio, extensão elétrica, caixa de ferramentas.

O portão foi recolocado nos trilhos e roldanas inferiores e superiores. Jorge retirou a carenagem do motor e realizou alguns ajustes.

— Agora vai — comemorou antecipadamente.

Ele também regulou o sensor magnético. Fez uma dúzia de testes, abrindo e fechando o portão, até que deu a missão por cumprida:

— Pronto, compadre! Está novo de novo!

Só estranhei que sobraram algumas peças.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 27/06/2021 - 08:30h

A vez da esquerda

Por Marcos Ferreira

Falou-me que completou quarenta e quatro em maio. Sete anos mais novo e uns quinze centímetros mais alto que eu, que possuo um metro e sessenta e sete. Também está em guerra com a balança, no entanto não se furtou a comentar o meu sobrepeso, ele mesmo exibindo uma barriguinha saliente.

Encontrei-o na última terça-feira numa clínica localizada no Centro, quando fui a mais uma consulta com o meu endocrinologista. Ele fazia exames de rotina, aproveitando, como de costume, as férias da empresa, oportunidade em que retornou a Mossoró para revisitar familiares e amigos em sua terra de nascimento. Eu, entretanto, não tinha notícias dele há bastante tempo. E, de imediato, como não poderia deixar de ser, apercebi-me da sua atual condição de amputado.Conversão à esquerda, pista de rolamento, estrada, sinalização horizontalEsforcei-me para não transparecer o meu choque e estarrecimento. Por cerca de duas décadas fora meu vizinho no Conjunto Santa Delmira, além de um dos mais assíduos e competitivos atletas de voleibol amador do bairro. Magro, com boa envergadura e impulsão, era difícil pegá-lo no bloqueio.

— Você não perguntou, mas eu vou lhe dizer — começou ele. — Foi um acidente de carro. No dia 3 de outubro de 2015.

Estando a clínica quase cheia, tivemos uma boa conversa de uns trinta minutos, o suficiente para que eu me inteirasse de alguns acontecimentos da vida de Inácio. Sim, Inácio Luís dos Santos, seu nome completo. Contou-me, por exemplo, que na noite do acidente foi assistido pela própria esposa, que é médica socorrista do Samu. Alcoolizado ao volante, após confraternização com colegas do sindicato, ele capotou o carro nas imediações do Aeroporto Tancredo Neves.

— Amigo, fiz besteira! — admitiu.

Fiquei perplexo, sem palavras. Porque escritor também fica sem palavras. Enquanto isso, sem máscara, pois ele argumentou ter contraído o vírus em março do ano passado, cumprindo quarentena totalmente assintomático, Inácio Luís falava pelos cotovelos. A seguir, alargando aquele sorrisão:

— O pior de tudo foi a tatuagem!

— Como assim? — espantei-me.

Ele, risonhamente, explicou-me:

— Havia dois meses eu mandara fazer uma tatuagem com os rostos dos meus filhos e da minha esposa nessa parte toda, do ombro até o antebraço. Custou-me mil e oitocentos reais, mas ficou uma coisa linda.

— Que pena, Inácio — murmurei.

A perda do membro, amputado na altura do ombro, não lhe impôs nenhuma depressão ou desgosto diante da vida. Queixou-se tão somente, com um resquício de abatimento, do ponto final que aquele desastre pusera em sua presença nas quadras de vôlei. Em instante algum observei uma nota de tristeza em sua voz. Pelo contrário. Agora com um único braço, o esquerdo, pôs a mão sobre meu ombro e pareceu a mim pretender confortar pela desventura que era dele.

— Tudo bem. Deus sabe o que faz.

E eu, sem nada melhor a lhe dizer:

— Isso é verdade, Inácio. Ele sabe.

Durante aquele nosso inesperado encontro e esclarecedora conversa (suponho que grande parte era acompanhada com o rabo do olho por uma senhora ruiva e rechonchuda ali próximo, cuja expressão me fez crer que estivesse incomodada pelo fato de que Inácio não usava máscara), falamos sobre vários assuntos: esporte, amigos, saúde, pandemia, família, política, trabalho, etc.

Ele deixou esta cidade, segundo contou, em 2003, indo de mala e cuia para São Mateus, no Espírito Santo, ao ser aprovado em concurso da Petrobras para a função de operador de campo. Ali deitou raízes, contraiu matrimônio, gerou dois filhos e seguiu praticando vôlei em solo espírito-santense.

Relatou umas limitações e desafios:

— Tudo mudou drasticamente. Tive que aprender e reaprender um monte de tarefas básicas. Dificuldade para realizar as coisas mais simples do nosso cotidiano, como escovar os dentes, fazer a barba, tirar ou vestir uma roupa, escrever meu nome. Desde então venho praticando minha assinatura com a esquerda, porém estou longe daquela caligrafia boa que eu tinha. Outra coisa difícil é limpar a bunda. Precisei eliminar o uso do papel. Agora só me asseio no jatinho d’água.

Como no vôlei, levantei a bola dele:

— Você sempre foi um vencedor.

— Ah, muito obrigado, meu amigo.

— Bom saber que ainda jogava vôlei.

— Sim! Eu nunca deixei o voleibol.

Estava diante de mim, de sorriso largo, com o seu corte de cabelo à Roberto Carlos, ora com uns fios prateados, o mesmo Inácio brincalhão dos tempos de esporte, dos jogos de dupla na quadra de areia na praça do Abolição IV e do bate-papo quando sentávamos no meio-fio diante da casa de Nilson Rebouças, justamente para comentarmos os momentos mais relevantes das partidas.

Daí a pouco me perguntou pela vacina.

— Você já tomou sua primeira dose?

— Já, sim — respondi num bate-pronto.

— Eu também, apesar de ter me curado.

— Se não lhe fizer bem, mal não fará.

— De graça, tomo até injeção na testa.

— Como ficou em relação à empresa?

— Estou em função administrativa. Não quero me aposentar logo. Sem as horas extras e feriados trabalhados, o salário despenca. Vou aguentar isso por mais um tempo. Especialmente agora que Olívia, minha esposa, está grávida. É o sétimo mês. Gravidez de gêmeos. Um casal. Barrigão desse tamanho.

— Poxa, meu amigo! Meus parabéns!

— Tenho me sacrificado até no sexo.

Soltou uma gargalhada e acrescentou:

— Agora, rapaz, é a vez da esquerda.

— Esquerda?! — reagi inocentemente.

— Pois é, a esquerda — e gesticulou. — Não tem outro jeito, não. Em certas horas, quando me encontro apertado e Olívia não se dispõe a me dar uma mãozinha, corro para o banheiro e resolvo a situação sozinho.

— Por favor, meu caro, me poupe dos detalhes sórdidos. Suponho, todavia, que não deve ser fácil. Não quero nem imaginar.

Olhei à volta com um sorriso amarelo. Supus que a senhora que nos espionava tivesse compreendido aquele gesto obsceno.

— É um negócio difícil — afirmou ele.

Nesse instante o número da ficha de Inácio surgiu no painel eletrônico e ele se despediu de mim apertando minha mão esquerda. Não trocamos contato telefônico e daí a pouco também fui chamado ao consultório.

— Agora, rapaz, é a vez da esquerda.

Essa pilhéria de Inácio Luís, de cunho onanístico, ainda martela na minha cabeça. Será, porventura, uma profecia para 2022?

Não faço a menor ideia. O que sei é que não tenho mais narinas nem estômago para a podridão que se instalou na Casa de Vidro. E não duvido de que outro amputado retome o governo deste Brasil desgovernado.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 20/06/2021 - 07:10h

Coisa de cinema

cinema, tela, telona, tela cinematográficaPor Marcos Ferreira

Minha cidade é o meu universo. Por mais que isto soe pretensioso ou soberbo, escrevo sobre a minha aldeia para ser universal. Contudo, como as senhoras e os senhores devem saber, esta receita não saiu da minha cuca. Muito menos se trata de coisa nova. Não. Isso é lá da cozinha, se assim posso dizer, de Leon Tolstói, monstro sagrado e monumento da literatura russa e planetária.

Embora por trás de nomes fictícios, inventando um topônimo, como se deu em diversos momentos, este município sempre foi e ainda é o meu lastro, a minha referência, meu parque cenográfico e social. Mossoró, guardadas as devidas proporções, é o meu Projac, minha Hollywood cabocla.

Nosso bangue-bangue, a propósito, é o mais duro e sangrento do velho oeste potiguar. Porque a terra de Santa Luzia, fato público e notório, é uma das mais violentas do mundo. Os ramos de casas funerárias e centros de velório seguem esbanjando saúde financeira.

Aqui temos bandidos para todos os gostos e papéis, tanto encapuzados quanto engravatados. Hoje em dia, se me faço entender, os piores e mais perigosos, sem um pingo de compaixão, são aqueles que não usam máscara. Os mocinhos estão em falta. Melhor dizendo, em desvantagem numérica.

Cidade valente é esta nossa. De povo libertário, heroico e blá-blá-blá. Tal lenda teve origem no distante 13 de junho de 1927, quando arrepiaram carreira daqui o temido Virgulino Ferreira (Lampião) e a sua tropa de facínoras, que sofreu uma baixa. Segundo historiadores (eu era pequenino à época; brincadeirinha!), capturaram o cangaceiro Jararaca, que sofrera um balaço. Também ouvi dizer que o bandido, inerme e às vascas da morte, foi justiçado na cadeia e enterrado, ainda vivo, no São Sebastião. Tempos depois, ironicamente, ele tornou-se santo milagreiro.

Daí para cá nunca mais se falou noutra coisa nesta aldeia com fumaças (pretensão) de capital brasileira da cultura. De lascar!

A fatuidade da resistência e a apoteose lampiônica, sob as quais ainda vivemos, e cujos holofotes pairam menos sobre os defensores que sobre os invasores, abafou outras expressões de arte. Tornaram-se invisíveis aos olhos dos nossos governantes, salvo exceções, algo como literatura, música, artesanato, pintura. Exceto se tais manifestações artísticas requentam o tema cangaço. Como ocorre, sem demérito algum, com o espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró”.

Com uma população pouco acima das trezentas mil almas (possuía cerca de vinte mil quando do ataque de Virgulino), tenho com este meu berço esplêndido um vínculo de amor e desgosto. Isso, todavia, não me diminui nem empobrece. Acho até que me fortaleço com as experiências por que passei, desagradáveis quanto boas. Aqui nasceu e frutificou o meu sacerdócio com a literatura.

Devo a esta cidade toda a minha produção, seja no verso, seja na prosa. Devo-lhe os poucos livros publicados, os que mantenho na gaveta e outros que ainda hei de produzir, caso sobreviva a este vírus. Devo-lhe todas as personagens e enredos, todas as ambições, inspirações e as pequenas glórias.

Em se tratando de Mossoró, como naquela música da série “Carga Pesada”, da Rede Globo, digo que “eu conheço cada palmo desse chão”. Fora daqui, entretanto, a minha ignorância geográfica possui dimensões continentais. É por esse motivo que considero gravidez de risco gestar uma obra ambientada, por exemplo, em Paris. Ora! O mais próximo que cheguei disso foi no tempo em que tentei, sem êxito, uma vaga de auxiliar de padeiro na extinta Panificadora França, no Santo Antônio. Lá se vão trinta e seis anos, como diria o saudoso Emery Costa.

É prudente, enfim, que se escreva sobre aquilo que se conhece. Exceto no caso de vasta pesquisa. Enquanto ficcionista, o que me julgo ser, não posso produzir apenas fantasias, textos puramente imaginários. Triste do ficcionista que só consegue escrever ficção, capacidade esta que me parece cada vez menos acreditável. O talento imaginoso não pode prescindir da sua cota de verdade.

Até aqui, com um pé na fábula e outro na “vida como ela é”, afora três livros de poemas e um punhado de crônicas, engendrei dois romances parrudos, um volume de contos e mais um livro de poemas. Estes últimos são trabalhos inéditos e, ao menos por enquanto, não convém divulgar os títulos.

Já sei. O prezado leitor e a gentil leitora julgam a citação de tais obras desnecessária. Senão afetada, presumida. Não lhes tiro a razão. Isto me veio à cabeça, mas agora não vou passar uma borracha. Desculpem.

Sem mandato, sem cargo eletivo, pois nunca fui vereador ou prefeito desta aldeia, ainda menos governador deste estado, eu adoro Mossoró. Sim! E adoro de graça, sem palanque nem aplausos, sem benesses e outras vantagens histórica e culturalmente auferidas pelos homens e mulheres públicos desde os primórdios de nossa biografia lampiônica, cheia de fanfarrice e ufanismo.

Exato! Não pensem que ofertei somente odes e loas a meu torrão de nascimento. Houve ocasiões em que, decepcionado ou ferido por minha própria terra, escrevi umas coisas um tanto severas acerca de Mossoró.

Tenho o direito (autoridade) de dizer, escrever, o que vejo e sinto. Sou mossoroense da gema, aqui nascido aos 10 de abril de 1970 no demolido Hospital de Caridade, conforme registrei num soneto por ocasião do meu aniversário de quarenta e cinco anos. Com isto, senhoras e senhores, quero dizer que nem sempre esse gentílico me encheu de orgulho. Evidentemente que não. Quem conseguir colocar um pouco à parte o sentimento telúrico, ou bairrismo, há de me entender.

Eis o primeiro terceto do referido soneto:

“Vim ao mundo, portanto, aos 10 de abril

— Numa antiga e obscura sexta-feira

Que nem mesmo parece que existiu.”

Carecemos ser vistos além da pólvora e tiros de festim, dos foguetórios e da pirotecnia. Mossoró é coisa de cinema! Ficará muitíssimo bem na fita ao ser retratada pela sétima arte. O que não nos falta é riqueza humana, diversidade de enredos e personagens. O mundo precisa conhecer esta cidade.

Afinal de contas Mossoró é um país.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 13/06/2021 - 08:00h

Meu ópio negro

Café na xícaraPor Marcos Ferreira

Ela poderia, em se tratando de outro indivíduo, ter ofertado um litro de uísque escocês, por exemplo. Quem sabe uma garrafa de vinho espanhol. Ou, no caso de um tabagista esnobe, ostentoso, uma caixa de charutos cubanos. Chique, não é?! Pois há pessoas, inclusive entre aquelas que compõem a fauna dos literatos, que apreciam artigos ou mimos dessa natureza e origem.

Eu, porém, sem finesse, fidalguia nem pedigree, não tolero nenhuma das opções referidas. Daí que me senti deveras feliz na manhã de ontem ao ser presenteado com um simples pacote de café. Sim. Um pacote desses de duzentos e cinquenta gramas, de cuja linha e fabricante não farei propaganda.

Estamos passando aí. Tenho um presentinho para você — disse-me, por telefone, a leitora e amiga Natália Amorim, esposa do também leitor e amigo José Arimatéia. Pouco após, em companhia dos pequenos Daniel e Joaquim, o casal parou o carro diante da minha casa, todos usando máscara. Natália desceu e me entregou a sacola por cima do meu muro, que tem frente baixa.

— Obrigado — falei sem examinar a sacola. — É muita gentileza de vocês, contudo eu não imagino qual seja o motivo desse presente. Hoje não é meu aniversário, dia da poesia, do escritor nem nada parecido.

— Não carece data especial para presentearmos alguém — contestou ela. — Depois me diga se gostou. Tomara que sim.

— Claro! Eu farei isso em breve.

Então, de bom grado e acertando na mosca, foi um pacote de café que minha leitora Natália Amorim (sentiram o orgulho quando digo “minha leitora”?) me trouxe na manhã de ontem. Tratei de levar a preciosa rubiácea à cafeteira. O inconfundível aroma ocupou a casa toda, decerto alcançando as narinas dos vizinhos mais próximos, como acontece comigo quando eles fazem café.

Permitam-me agora uma rápida digressão. Pois bem. Quem me conhece sabe do meu horror, da minha absoluta repulsa a álcool e a fumo. Tenho as minhas razões, acreditem. Um tanto análogo ao álcool, brinco ao dizer que a bebida mais forte que eu já ingeri foi Biotônico Fontoura. Aquilo descia queimando. Ao menos para o meu paladar de “menino mole”, dizia a minha mãe.

Tomei outras panaceias dessa classe e época, como o Leite de Magnésia Phillips e a intragável Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau), todos nas suas apresentações e sabores tradicionais. No caso específico do Biotônico, para fazer uma piadinha com o álcool, eu chegava a ficar puxando fogo.

Naqueles tempos bicudos de minha infância, enquanto o general João Batista Figueiredo só sabia mandar o povo apertar o cinto, volta e meia os meus pais recorriam a esses polivitamínicos, no mais das vezes sem receita médica. Esta, entre outras manobras, era uma estratégia intuitiva para mitigar a desnutrição, que campeava feroz em meio ao crepúsculo dos anos de chumbo.

Gostávamos mesmo era do Poliplex, com sabor e consistência semelhantes ao mel. Mas este não era nada indicado para mim e meus dez irmãos, posto que se tratava, também, de um estimulante do apetite. E apetite, senhoras e senhores, tínhamos de sobra. Ou, como se diz, para dar e vender.

Encerremos esta digressão medicamentosa. Voltemos ao assunto do café: meu ópio negro. Quero registrar que esta não foi a primeira vez que uma leitora me brindou com esse tipo de presentinho saboroso. Não faz muito a fisioterapeuta Luzia Praxedes, pelas mãos do esposo e escritor Clauder Arcanjo, também me enviou essa bebida apreciada por onze entre cada dez brasileiros.

Desculpem mais esta gracinha. Estou bem-humorado, como devem ter percebido. Nos últimos dias, entretanto, tenho me visto às voltas com uma saudade recorrente dos amigos, das boas conversas em torno de uma mesa, regadas a café e a taças de água mineral com gás. Exato, prefiro com gás.

Vem-me à lembrança, a propósito, a saudosa Livraria Café & Cultura, que funcionou ao lado do Teatro Municipal. Era o nosso ponto de encontro. Ali brotaram e cresceram amizades que nutro até hoje.

Penso nesses amigos enquanto escrevo e saboreio uma caneca de café escoteiro, forte e amargo. Por onde andarão meus colegas de ópio negro, como Leandro Tomé, Cid Augusto, Elias Epaminondas, Jessé de Andrade Alexandria, Gustavo Luz, Francisco Nolasco, Túlio Ratto, Antônio Alvino, André Luís? A pandemia, entre outros desfalques, prejudicou esse grêmio da cafeína.

Quando daquelas visitas, antes do coronavírus, eu disponibilizava um potinho de demerara. Só não tenho aqui, para quem possua glicemia elevada, adoçantes dietéticos, cujo travo final me lembra a dipirona e acaba interferindo no sabor do café. Melhor (na minha opinião) tomar totalmente amargo.

— Assim não dá! — dizem alguns.

Isto é uma questão menos de gosto que de hábito. Mas tudo bem. Com açúcar, adoçante dietético ou de todo amargo, o café nos une de alguma forma. Talvez quem se depare com esta crônica cafeinada, embora se tratando de leitores que não conheço pessoalmente, sinta o desejo de qualquer dia sentarmos para uma conversa descontraída, à volta de uma mesa com xícaras e taças.

O que acha, Carlos Santos? Refiro-me àqueles leitores que conheço apenas por nome: Rocha Neto, Fransueldo Vieira de Araújo, Naide Rosado, João Bezerra de Castro, Raniele Alves Costa. Outros ignoro o segundo ou o primeiro nome, a exemplo desses três: Magno, Fernando e Amorim.

Toda vez que me ponho a escrever, conforme participei a Odemirton Filho domingo passado, penso nos meus leitores. Penso no dever e desafio de fazer valer a pena o tempo que me dedicam. Eis um privilégio: contar com leitores, por menor que seja o número. Os meus, se não são tantos, ao menos são preciosos. Porque a qualidade me interessa ainda mais que a quantidade.

Observo o quanto estamos em sintonia nos depoimentos que me endereçam. Ao escrever, portanto, assumo um compromisso especial com leitores e leitoras não menos especiais. Tenho a agradável sensação de que os recompenso. Assim como me sinto recompensado e honrando por suas leituras.

Pecando pelo excesso, cito mais estes nomes: Aluísio Barros, Cristiane dos Reis, Leontino Filho, Rozilene Costa, Rogério Dias, Vanda Jacinto, Francisco Amaral Campina, Simone Martins, Valdemar Siqueira, Rizeuda da Silva, Marcos Aurélio de Aquino, Natália Maia, Airton Cilon, Luíza Maria, Gualter Alencar, Zilene Marques, David Leite, Fábio Augusto e Misherlany Gouthier.

Chega de citações! Não descambemos para o colunismo literário, ou algo pior. São oito e cinco da manhã e o aroma do meu ópio negro trescala pela casa. Então ergo a caneca e lhes saúdo com o gesto característico.

Um brinde a todos com café. Tim-tim!

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 06/06/2021 - 06:40h

Dom Pixote

Brincadeira, crianças brincandoPor Marcos Ferreira

Quando eu nasci, mais ou menos como foi dito ao poeta Carlos Drummond, “um anjo torto desses que vivem na sombra disse”:

— Vai, menino feio, ser besta na vida!

E, obediente que era, acatei a ordem. Mas fui sem saber que tal besteira (bisonhice, ingenuidade, inocência) me acompanharia por tanto tempo. Assim, durante anos a fio, desde a minha infância até a idade adulta, comecei a colecionar insucessos, a ser passado para trás e ficar em desvantagem em quase tudo que me propus a fazer.

Em se tratando de futebol, por exemplo, eu era o reserva do reserva de time lanterna. Quanto ao vôlei, todavia, algumas façanhas me orgulham. Quiçá daqui a pouco, por imodéstia ou simples falta de pudor, eu decida contá-las.

— Vai, menino feio, ser besta na vida!

Minha infância toda transcorreu no bairro Bom Jardim, que de bom e de jardim não tinha muita coisa. Não ao menos naqueles anos de chumbo e de fome. Foi o que eu disse. Embora feliz, pois precisava de tão pouco para me sentir feliz, tive uma infância de escassez e privações. Infância severina, para citar João Cabral.

Nem sei por que narro esses fatos, correndo o sério risco de me acusarem de coitadismo. Ocorre, porém, que não posso negar ou maquiar minhas origens.

Fui menino bobo, sim. Desses que os outros meninos botavam facilmente no bolso, passavam-me a perna e me faziam de gato e sapato. Qualquer moleque com peito de frango batia minha poeira, esfregava o dedo no meu nariz e eu não emitia sequer um muxoxo, medroso que eu era. Ou ainda sou. Jamais topei briga, sair no braço com nenhum desafiante, por menor que este fosse.

Primogênito de uma prole de onze filhos (restam nove) do sapateiro Vicente Ferreira de Sousa e da senhora Marilda Pereira de Sousa, conhecida por dona Branca, eu morava na Avenida Alberto Maranhão, 3521, em casa alugada. De um lado, enérgico, de personalidade forte, residia o pedreiro Zé Pereira, esposo da senhora Conceição.

Do outro, comerciante e professor de matemática, o senhor Odílio Mendonça, marido de dona Graça. Na residência deste casal funcionava o “Mercadinho O Jaburu”, bodega sortida e notória no bairro, a exemplo da histórica “Panificadora Canindé”, administrada por Luiz Serafim, esposa e vários filhos.

Era, ao menos para mim e meus irmãos, uma tortura o cheiro que emanava daquela panificadora, sobretudo no período da tarde, pois havia muitas ocasiões em que não tínhamos dinheiro para adquirir aqueles deliciosos produtos. De outras vezes, por camaradagem do senhor Luiz Serafim, comprávamos algumas iguarias no fiado. Mas o fornecimento era suspenso em algum instante por inadimplência. Em seguida, quando meu pai pagava a conta, reabria-se o crédito.

Naqueles anos de 1970 a 1982, além de sapateiro, meu pai consertava máquinas de costura e aparelhos de rádio e televisão. Ele fizera curso por correspondência através do pioneiro Instituto Radiotécnico Monitor, contudo não se estabeleceu em eletrotécnica. Firmou-se mesmo no fabrico semiartesanal de calçados. Meu pai faleceu com apenas cinquenta e quatro anos de idade, morto pelo álcool e pelo fumo, e minha mãe sofreu infarto fulminante aos sessenta e dois anos.

— Vai, menino feio, ser besta na vida!

Àquela época, sem luz elétrica nem água encanada, nossa casa se constituía quase toda de taipa, pau a pique, possuindo de tijolos tão só a parede frontal. A rua também era de barro. O pavimento de paralelepípedos começava a partir do cruzamento da Rua Delfim Moreira com a Alberto Maranhão, em direção ao Centro. Da Delfim Moreira para baixo era tudo areia, chão descoberto.

Gostávamos daquilo. Nós, meninos alados, sonhadores, preferíamos a rua de terra, que favorecia diversos tipos de brincadeiras, como o futebol com traves mirins, jogado com bola menor e que quicava menos.

Careço destacar que ali o trânsito de veículos, de carroças, bicicletas e pedestres era mínimo. Usávamos uma bola Dente de Leite que se furara (daquelas brancas e mais espessas) com uma Canarinha (fina e na cor vermelha) por dentro da primeira. Porque nesse tempo, evidentemente, não dispúnhamos do que hoje pudesse equivaler a uma bola de futebol de salão, em couro. De maneira alguma. Nossas bolas (perdoem a conotação genital) eram de plástico ou de meia.

Além de bangue-bangue com revólveres que forjávamos com pedaços de madeira ou tábuas, brincávamos de Tarzan, de Zorro, de esconde-esconde, garrafão, bandeirinha e sete pecados. Esta última diversão era a que mais me dava medo, pois aquele garoto que ficasse em último lugar na disputa (fiquei em várias oportunidades) receberia, de cada participante, sete boladas nas costas.

— Vai, menino feio, ser besta na vida!

Pois é, eu me saía mal em muitos daqueles recreios e atividades lúdicas. Perdia no jogo de três pequenos buracos no chão, dentro dos quais devíamos acertar bolinhas de vidro, ou gude, em apostas com dinheiro representado por carteiras de cigarro vazias. Desmontávamos as embalagens e apostávamos como se estas fossem moeda corrente: Arizona, Marlboro, Continental, Minister, Advance, Carlton, Vila Rica, Chanceller, Hollywood… Cada marca correspondia a um valor monetário. Em outros momentos eu chegava a perder as próprias bilhas de vidro.

Então, senhoras e senhores, eu era um pixote clássico. Um senhor pixote! Ou, se preferirem, usando um tipo parodístico de eufemismo, posso me autoproclamar Dom Pixote. O que me dizem?! Não soa tão bem quanto o Dom Casmurro ou Dom Quixote, claro, mas deixo aqui este gracejo pomposo.

No voleibol, entretanto, eu não era pixote. Pelo contrário. A partir de 1990 a 2015, contrariando todas as expectativas, destaquei-me como craque nessa modalidade esportiva, especialmente por contar com apenas um metro e sessenta e sete centímetros de altura. Apesar disso, com uma impulsão notável, pois saltava quase um metro, eu tocava o terror nas competições amadoras no Conjunto Santa Delmira e alhures. Voava tanto em quadras de areia quanto de alvenaria.

O quê?! Mentira?! Exagero da minha parte?! De modo algum. Eu era impossível. Falavam até que eu tinha molas nos pés.

Para afiançar o que digo, se duvidam, aí estão, entre outros, meus colegas de voleibol e circunstantes Kléber Nogueira, Vanderlei Lima, Franklin Luiz, Ranniere Maia, Djair Eduardo, Marcos Gondim, Alcimar Jales, Vanildo Marques, Anchieta de Albuquerque, Ricardo Nogueira (este formava dupla comigo nas quadras de areia) e os irmãos Marcos e Nilson Rebouças. Foi de Marcos Rebouças, aliás, esta ideia: “Fale sobre sua história com o vôlei numa dessas crônicas”.

Missão dada, amigo, missão cumprida.

Quem sabe daqui a mais um tempo, após a pandemia e com dez quilos a menos, eu retome minhas proezas enquanto amador e amante do voleibol. Agora voltemos à literatura. Um certo dia, talvez por compaixão ou remorso, aquele mesmo anjo torto que vive na sombra chegou ao meu ouvido e disse:

— Vai, rapaz besta, ser escritor na vida!

E eu, ainda obediente, acatei a ordem.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 30/05/2021 - 07:30h

Velho tema

Por Marcos Ferreira

Sendo bastante franco, pois é bom que exercitemos a franqueza de vez em quando, há certos dias em que me sinto inseguro, sem confiança no meu próprio taco, e alimento dúvidas de que estes meus malabarismos com as palavras possam agradar às pessoas que me leem, ou lhes servirem para alguma coisa, na prática. Vou logo avisando que não se trata de falsa modéstia. Não, senhoras e senhores.livros, escritor,Falo assim porque a leitura de alguns autores e obras me faz conservar meus pés bem firmes no chão, impedindo-me de inflar, de sair por aí com aquele ego e jactância tão peculiares aos narcisistas do universo intelectual, daqui quanto alhures.

É preciso (ao menos é o que eu acho) que as páginas que escrevemos sejam proveitosas para quem as lê. Do contrário, ainda que o texto seja muito aprazível e comportadinho, o leitor não cairá na mesma armadilha ou tapeação. Cativar o leitor significa oferecer-lhe bem mais que palavras adocicadas. A depender do indivíduo, do seu paladar ou nível glicêmico, há circunstâncias em que uma boa caneca de café amargo pode fazer mais sucesso que um pudim de leite.

Com isto, à maneira de Jorge Luís Borges, quero dizer que me orgulho mais dos livros que li do que daquelas que escrevi. Então, a exemplo destas crônicas dominicais, que meu editor Carlos Santos tem a coragem de publicar em seu concorrido blogue, minha verve é mediana, palavrinha esta com que me esquivo do termo medíocre, cuja acepção de maior notoriedade é depreciativa.

Apesar dos pesares, sem melhor desempenho noutro ofício, noutro mister, noutro ramo de arte ou atividade remunerada, insisto no manejo do alfabeto. Persevero nesta solitária carpintaria do nosso idioma, nos arriscados malabares da língua portuguesa, sobre a corda bamba e sem rede de proteção.

Tornei-me escritor porque não consegui ser outra coisa na vida. Fui incompetente ou fracassei em tudo o mais que me dispus a realizar. A minha carteira de trabalho é prova do meu acanhado histórico profissional, onde meu vínculo com uma fabriqueta de calçados talvez seja a atividade de que mais eu me orgulhe.

Escrever é minha apoteose, é o meu barato, a minha praia, meu oceano, a minha onda, o meu habitat. Exceto isto, sou um peixe fora d’água, um estranho no ninho, impostor. Entre letras e palavras, ouso afirmar, eu me sinto em casa, são e salvo.

Nessas horas penso no quanto é necessário valorizarmos e respeitarmos o tempo que nossos supostos leitores dedicam às páginas que produzimos. Leitores são plateia fina, preciosa, artigo raro, quase um luxo. Valorizemos tal categoria, não desperdicemos o tempo daqueles que nos leem com sensaborias, nonadas, empulhações, mixórdias.

Há ensejos em que o estimado leitor e a gentil leitora têm outros afazeres e preferências para o momento, além destas linhas que ora cometo sem grandes expectativas de aplauso, e findam pausando tais prioridades para saber o que estamos contando numa crônica subnutrida e de curto fôlego como esta.

NÃO RARO eu tenho a forte sensação, ao ler ou reler grandes obras de autores vultosos, nacionais quanto estrangeiros, de que somos (falo por mim) o substrato do substrato da literatura. Pois é, bate esse complexo de inferioridade, como se o que escrevemos (escrevo) fosse a escumalha, a borra da arte escrita. Papel aguenta tudo, é depositório de gemas preciosas e de pedras falsas.

Compreendo, contudo, que os leitores também são outros, quiçá mais indulgentes, inclinados a perdoar e até bendizer uma literatura, digamos, de brilho e quilate menores. O padrão de excelência e êxito de um escritor como Machado de Assis, para nos atermos aqui às letras nacionais, é altíssimo, virou unanimidade e transcendeu o próprio tempo. Mas não só da obra do grande Machado vive e é feita a literatura brasileira.

Então, minhas senhoras e meus senhores, fiando-me na diversidade de gosto e de plateia, na subjetiva margem do que venha a ser literatura de boa qualidade, sigo com a minha luta neste obscuro ringue das palavras.

De um lado, de estatura intelectual franzina, este sapateiro das letras. Do outro, sempre favorita e imbatível, a Literatura com os seus punhos de ferro. Várias vezes fui derrotado por pontos; noutras ocasiões, por nocaute, e beijei a lona. Entretanto, eis-me de pé, embora ligeiramente grogue, oferecendo a cara à tapa, sujeito a novos golpes de infertilidade e a novo tombo. Mas, como Davi perante Golias, não fujo da raia. Não teme a derrota quem da derrota é produto.

Por hoje, minhas senhoras e meus senhores, é só isto que lhes tenho a dizer. Perdoem a brevidade e a magreza deste velho tema: o ato de escrever, já tão batido, repisado e banal. Todavia não convém ficarmos aqui enchendo linguiça e a paciência do leitor. Até o próximo round. Isto é, domingo.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 23/05/2021 - 07:16h

Correio sentimental

Por Marcos Ferreira

Minha relação com os Correios é antiga e romântica. Desde o tempo em que me correspondia, por meio de cartinhas manuscritas e perfumosas, com uma antiga namorada de colégio. Ela residiu aqui durante apenas um ano. Morava em casa de uma tia materna, no entanto era oriunda do sertão potiguar. Isto há mais de trinta janeiros. Não entrarei em detalhes, ainda menos revelarei o nome da moça, visto que hoje tal pessoa se encontra muito bem casada com outra mulher, igualmente respeitável e feliz. O amor está acima das convenções e dos preceitos.

Naquela época, portanto, quando eu avistava um carteiro na minha rua, com sua bicicleta amarela e bolsa de lona contendo toda sorte de correspondências, meu coração logo disparava. “Será que ele traz algo para mim?”, eu me perguntava esperançoso, pois escrevia e recebia cartas frequentemente.Marcos Ferreira - crônica Correio Sentimental, 23-05-21 - livrosOs tempos mudaram sobremaneira. Eu também estou mudado. Em alguns pontos, para melhor; noutros, prefiro nem aquilatar. A comunicação no modelo impresso, física, voou do papel para os suportes digitais, eletrônicos. Até as velhas ligações telefônicas, antes um charme e um luxo, após as tecnologias de que dispomos atualmente, estão divididas, rifadas entre aplicativos como o WhatsApp e Messenger, que oferecem tanto chamadas de voz quanto de vídeo. É tanta novidade, e num ritmo tão acelerado, que minha cabeça démodé não assimila.

Na medida do possível, com frequência bem menor e conteúdo lacônico, continuei escrevendo algumas missivas, não mais perfumosas nem manuscritas como aquelas. Correspondi-me, sobretudo, com pessoas do universo literário, a exemplo dos escritores Vicente Serejo, Franklin Jorge e Ivo Barroso. Este último, numa de nossas correspondências extraviadas no meu antigo correio eletrônico, livrou-me de publicar, após sua aguda leitura, um soneto decassílabo com uma sílaba a menos. Barroso me apontou o descuido e o poema “Ausência”, homenagem póstuma a meu pai, integra o livro A Hora Azul do Silêncio sem erro métrico.

Embora de longe em longe, os Correios ainda me trazem coisas bacanas. Como os cinco livros que recebi do final de dezembro do ano passado para cá, oferecidos por seus respectivos autores com gentis dedicatórias. Estou em falta com essas pessoas, posto que demorei meses até me debruçar sobre tais produções, acusar o recebimento e tecer algum comentário acerca das obras.

Então, como se alguém houvesse perguntado, faço aqui uma prestação de contas no tocante ao que fiz ou deixei de fazer de dezembro até agora. Especialmente devido a problemas de doença (não de saúde, lógico, visto que saúde é o oposto de enfermidades) e vários périplos por consultórios médicos e clínicas de exames laboratoriais. Sim, a minha agenda tornou-se uma bagunça.

A um só tempo, não bastassem os compromissos e imprevistos aludidos, encarei uma maratona (a custo de cafeína e pestanas queimadas) contra o relógio e o calendário ao acelerar a conclusão ou apenas a revisão de livros inéditos que possuo nos gêneros conto, romance e poesia. Sob pseudônimos, preparei os originais e os enviei, através do correio físico e postagens on-line, a certames literários além-fronteiras norte-rio-grandenses e mesmo para fora do país. O resultado? Cabelo e barba crescidos, casa malcuidada, ficando as leituras no ora-veja.

Assim, com a licença do prezado leitor e da distinta leitora, ilustro esta crônica de brilho emprestado com os autores e livros que os Correios me trouxeram. Vamos pela ordem de chegada. O primeiro título recebido foi O Verniz dos Mestres, conjunto de pequenos ensaios sobre a vida e obra de Marcel Proust, ícone da literatura francesa.

O Verniz dos Mestres (editora Feedback) é fruto da apurada e admirável inteligência do escritor e jornalista potiguar Franklin Jorge, visto pelo premiado crítico e ensaísta gaúcho André Seffrin como “um escritor para escritores”. O que mais posso dizer após depoimento tão consagrador? Nadica! Proponho apenas que leiamos Franklin Jorge, cuja produção é tão eclética quanto valiosa.

Dias depois, em voo direto de Brasília para esta Macondo tupiniquim, amerissou nas águas pluviais da minha rua, neste subúrbio onde sou figurinha fácil na rota batida dos carteiros, o Hidroavião (poemas, editora Patuá) do carioca Alberto Bresciani, radicado na capital federal. Bresciani (que me perdoe pela indiscrição) é ministro do Superior Tribunal do Trabalho (TST). Informação esta que não consta nos dados biográficos inseridos no livro que tenho em mãos.

Trata-se de poeta consumado, autor de uma poética com alta voltagem semântica e prosaica. Do seu Hidroavião, pesco o poema “Corrente”, um dos exemplos de como Bresciani confere às palavras significância além das acepções dos dicionários, sem, contudo, descambar para a linguagem indecifrável do intelectualismo: “Uma espuma, o ar,/ letra, uma folha/ descem pela escultura/ do rosto perdido/ (árido, metálico,/ dentro ainda)./ Contra o sol,/ não há luz./ Apenas um risco/ de água e sal/ no dorso/ da mão/ — o rosto de quartzo/ cumpre seu destino”.

De Recife, numa atmosfera de “escuridão e rutilância”, chega-me este formidável Ressurreição: 101 sonetos de amor (editora Nova Fronteira). Nesta obra invulgar, sem prejuízo da poeticidade em favor da forma nem da fôrma, vê-se toda a mestria e madureza de um poeta arrojado e bem-sucedido neste globo da morte que é a gaiola dos catorze versos da modalidade soneto.

É trabalho de ourives, projeto destemido e bem-acabado do poeta pernambucano Carlos Newton Júnior, ensaísta, crítico literário e professor da Universidade Federal de Pernambuco. Para mim, que tenho um fraco por esta que é a mais desafiadora das formas fixas da poesia, Carlos Newton Júnior é poeta superlativo, dos maiores da nossa literatura. Há pessoas de grande relevo que concordam comigo. Como Ariano Suassuna:

“Carlos Newton Júnior demonstra o poeta que é pela simples escolha das epígrafes de seu grande livro. […] Mas nenhuma delas teria o significado que tem se os poemas criados por Carlos Newton Júnior não tivessem a mesma altura. Enquanto os lia, eu ia recordando que Camões fundia numa impressionante unidade de contrastes a tradição erudita e culta dos sonetos às redondilhas que herdara do romanceiro popular português. Carlos Newton Júnior faz coisa parecida. Em Canudos encontram-se alguns sonetos que são dos mais belos que já li em língua portuguesa.” Este depoimento de Ariano Suassuna foi publicado na Folha de S.Paulo.

Do interior do Ceará, precisamente de Limoeiro do Norte, a poetisa e contista paraibana Graciele de Lima, doutoranda em Letras pela Universidade Federal da Paraíba, enviou-me dois livros de sua autoria: Toda Mística é de Si (poemas, editora Ideia) e o volume de contos intitulado Alguns (sob o pseudônimo Maria Callado, editora Queima-Bucha).

Graciele, que tive a grata oportunidade de conhecer na época em que eu editava o caderno de cultura Universo, do Jornal O Mossoroense, é uma escritora talentosa e versátil, cujos dons e méritos artísticos extrapolam as letras, abrangendo a música na condição de cantora e compositora.

Na sua contística quanto no verso, Graciele de Lima se mostra autêntica, depurada, sem engodos, brilharecos nem tiques intelectualoides, dona da sua voz e linguagem, especialmente na prosa de ficção.

Agora, minhas senhoras e meus senhores, careço fechar a bodega e largar este expediente escorregadio de resenhista literário, no qual sou impostor. Isto, por absoluta incompetência e desconforto, não me agrada. Sem demérito para aqueles que possuem afinidade e estofo intelectual para esse exercício de abnegação. Não é meu forte. Se, porventura, possuo algum. Não abusemos, pois, da paciência do leitor, cujo pavio é curto. Alguns, aliás, sequer têm pavio.

Enfim, me sinto muito grato e honrado pelos livros que me foram gentilmente remetidos. Como em “O livro e a América”, de Castro Alves, eu digo: “Oh! Bendito o que semeia/ Livros… livros à mão cheia…” Mas fiquemos por aqui. Alguém tocou a campainha. Quem sabe seja o carteiro.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 16/05/2021 - 07:10h

Coisas bonitas

Por Marcos Ferreira

Vez por outra, em virtude de algumas palavras um tanto ásperas ou indelicadas que ainda deixo escapar na minha escrita, sou carinhosamente admoestado. Pois Natália Maia, minha adorável noiva (que é a delicadeza em pessoa), teme que eu volte àquela época em que me comportava como um selvagem da literatura norte-rio-grandense, apontando e fustigando impostores das nossas letras. Não faço mais isso. Como declarei em recente entrevista ao portal Oeste em Pauta: “Todos são pessoas adultas e cada qual que responda pelas produções que assinam”.janelas fechadas, abajur,

— Escreva coisas bonitas! — falou Natália.

— Por exemplo? — questionei.

— Algo que não gere polêmica, bate-boca na internet, desgastes à toa. As pessoas gostam de ler histórias edificantes.

Emendei com uma ponta de ironia:

— Amenidades, você quer dizer.

— Sim! — admitiu. — Em tempos como estes, tão sombrios, precisamos ler mensagens positivas. Veja Odemirton Filho…

— E o que tem Odemirton?

— As crônicas dele são leves e bonitas.

— Estou de acordo. Enquanto cronista, Odemirton Filho não se mete em certas arengas, questiúnculas, provocações. É um reflexo da índole pacífica dele. Está muito mais para a natureza conciliadora do Rubem Alves do que para o temperamento ácido e iconoclasta do Agripino Grieco. Odemirton é um cronista admirável, paz e amor, dono de uma escrita saborosa e autêntica. Ocorre, no entanto, que a diversidade de vozes, têmperas e estilos enriquece a literatura.

— Sugiro que busque um meio-termo.

— É isso o que venho perseguindo.

— Cadê a produção? É sábado e até aqui você não me apresentou nada. Mandou a crônica para o blogue do Carlos Santos?

— Já. Só falta a da Revista Papangu.

— Muito bom! Mãos à obra, então.

— O texto está bem encaminhado.

— Escreva coisas bonitas! — insistiu.

Não vai dar, amigos leitores. Não no presente instante. Não me sinto inclinado a produzir ou falar sobre amenidades nas condições emocionais em que ora me encontro. Sequer no tocante à poesia. Deixei um soneto pela metade desde o último domingo, faltando os tercetos. Até agora não reúno ânimo inspirativo para concluir o poema. Hoje desejo apenas que minhas janelas e portas continuem fechadas.

Posso dizer que estou no meu momento vampiresco. Nada de sol, portanto. Não quero ver nem ouvir ninguém; celular no modo avião. Que nenhuma tranca ou ferrolho seja liberado. Que estas frias e negras cortinas continuem intocadas.

Penso em retirar da minha vista este impassível e burocrático relógio de parede. Como seria bom se pudéssemos imobilizar o tempo, de modo que as sete horas e quinze minutos desta manhã agradavelmente fria e penumbrosa perdurasse indefinidamente. Não me disponho a encarar o domingo lá fora, topar com vizinhos, dar-lhes um bom-dia meio que a contragosto e desonesto.

Repito, minhas senhoras e meus senhores, que este não é um bom ensejo para amenidades, palavras edificantes, mensagens positivas. Não da minha parte. Então me dou ao luxo de expressar fielmente o meu estado de espírito. Sem máscaras, sem disfarce algum.

Minha alma é este poço escuro, charco emocional que se estampa sobre minha face. Aqui usufruo da penumbra e do silêncio, do ócio e da quietude. Não escrevo para agradar nem desagradar ninguém.

Esta manhã encarcerou a minha veia bem-humorada, o meu sorriso fácil, continental. Reacende frustações e velhas mágoas, desaponta a musa e rompe as cordas da minha lira. Traz-me à memória recortes de sonhos mortos, projetos e planos frustrados. Contudo não enveredo para o campo da autopiedade, ainda menos descambo para a literatura de autoajuda. Mas admito que estou cheio, farto da concretude da vida. Que se danem o lítio, a quetiapina e o divalproato!

Embora o céu esteja carregado, detalhe este que me agrada sobremaneira, eu sei que os pássaros continuam cantando seus madrigais e as flores (perfumosas e concupiscentes) sorriem para os lindos colibris e borboletas que frequentam o meu quintal. Isso, no entanto, é poesia bucólica que não me seduz ou inspira. Deixo essas lindezas para os mágicos pincéis de Laércio Eugênio. Quero o frio monólogo da chuva, que chega devagarinho, e o pigarro inequívoco do trovão.

— Escreva coisas bonitas!

Desculpem. Hoje não será possível. Que o caro leitor e a distinta leitora se contentem com esta crônica melancólica, entretanto pacífica, livre de rusgas e mal-estares. Escrever é isto: um dia estamos para cima, noutro estamos plantando bananeira. “Sugiro que encontre um meio-termo”, aconselhara-me Natália. Quem sabe da próxima vez em que eu me coloque diante do teclado.

Meu mal e meu bem é este vício que me desfalece e me aviva, este sacerdócio que amaldiçoa e santifica, que me golpeia e me revigora: a literatura. Estou a dispor das suas vontades e caprichos. Torço que esta manhã seja duradoura quanto serena. Que o sol não se atreva além daquela réstia langorosa.

Quero não mais que o canto dos passarinhos, o ribombar dos trovões e este colóquio em que nossas almas, prezados leitores, comunicam-se telepática e silenciosamente como os olhos daquela tosca Mona Lisa ali suspensa na parede da minha sala.

Enfim a chuva desaba, ruidosa, diluviana. Teimo em não romper o véu da penumbra, em não abandonar o desalinho dos travesseiros e lençóis, enquanto meu hídrico e fértil pensamento fabrica esta visão cinematográfica: a água encharcando a terra, descendo pelas calhas, desembestando ao longo das sarjetas. Isso é música aos meus ouvidos, é carícia na minha alma agreste.

Adivinho a glória dos sapos e rãs pelos bueiros e regatos do subúrbio, enquanto aqui dentro tudo é remanso e bocejo. Suponho ouvir a boca numérica do relógio mastigando as horas, minutos e segundos.

Noite passada, a propósito, quando expunha suas fundamentadas e categóricas previsões para hoje, a moça do tempo anunciou para estas bandas um dia ensolarado e quente. Mas a chuva prossegue firme e abundante, levando as previsões meteorológicas no curso das sarjetas, pela enxurrada.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 09/05/2021 - 04:00h

Saudades do papel

lendo jornal, jornal impresso, leitor de jornal, homens lendo jornalPor Marcos Ferreira

Porque hoje é domingo, e os domingos são especialíssimos para mim, embora muita gente goste mais das sextas-feiras e dos embalos do sábado à noite, bateu-me esta saudade romântica, singular quanto plural. Coisa de um passado ainda jovem, desabrochado numa quadra de 1997. Ano mágico em que fundamos neste município a Poetas e Prosadores de Mossoró (Poema).

Aqui tento remoçá-la — a saudade — pelo rememorar de sons, cores, olfato, legendas, fotografias. Pois é. As saudades possuem cheiro, têm ruídos, são imagéticas e quase palpáveis.

Retomo a pauta da morte material dos jornais, mortandade que se alastrou por todos os lugares deste país e do mundo. Em solo tupiniquim, entre outros vetustos diários que deixaram o suporte do papel ou faliram por completo, permito-me citar quatro veículos: Diário de Pernambuco (1825), Jornal do Commercio (1827), jornal O Mossoroense (1872) e o Jornal do Brasil (1891).

Exceto pelo Jornal de Fato, que resiste e prossegue sob a batuta de César Santos, jornalista vocacionado e gestor meritório (devemos dar a César o que é de César!), todos os veículos impressos de Mossoró quebraram. Foi assim, por exemplo, com a Gazeta do Oeste (1977).

Ao contrário de O Mossoroense, hoje limitado à sua plataforma on-line, a Gazeta extinguiu-se completamente. “Sua última edição foi às ruas no dia 31 de dezembro de 2015”, conforme registrado no blogue do Carlos Santos à época. Em tempo, Carlos é um dos pioneiros da blogosfera local.

Antes do primeiro galo bicar o sol e abrir os olhos da manhã, os jornais impressos afloravam no útero mecânico das rotativas; flores de tinta e celulose cujas pétalas-páginas revelavam a fragrância e o flagrante, o escândalo e a moral, a paz e a guerra, o Deus e o Diabo de cada novo amanhecer.

Ao menos para mim, que tive a honra de fazer parte de duas redações enriquecedoras, em O Mossoroense e na Revista Papangu, ter em mãos os veículos impressos (semanários, diários ou mensários) era algo incomensurável, uma experiência indescritível. Não havia nada mais urgente ou importante que o jornal que líamos naquelas primeiras horas do domingo.

Os jornais chegavam aos lares e leitores tão naturalmente como chegavam o leite e o pão. E, estando os três na mesa (o jornal, o pão e o leite), não raro alimentávamos primeiro os olhos.

Era uma necessidade inadiável de muita gente. Em seu bojo de alegrias e dores, sempre tão esquadrinhado, diverso e único, o jornal representava o pregão dos pregões: “Olha o jornal!”, exclamavam jornaleiros nalguns pontos do Centro, comerciando notícias ainda fresquinhas àquela época.

Eu pensava em coisas desse tipo a cada edição, especialmente quando um texto de minha autoria (um soneto, uma crônica ou conto) estava gravado em páginas do velho O Mossoroense ou da Papangu. Assim, cada qual com sua tiragem, periodicidade e público, os veículos impressos tomavam rumos imprevistos. Gostávamos de tocar o papel, manejar as folhas, sentir-lhes a textura, o olor da tinta.

Aquilo possuía vida, densidade, tinha a cara, o cheiro e a fala do povo. Eu me sentia, repito, orgulhoso de fazer parte daquela engrenagem, apesar de alguns indícios de mordaça, da tácita censura que rondava a nossa expressão escrita.

Encaramos obstáculos, uma antipatia velada, subjacente, rancores, ímpetos de ranço e prepotência, reprimendas. Mas, com a alegria com que os passarinhos anunciam cada raiar do sol, não emudecemos, tecemos nossa teia verbal, vencemos a intolerância, a ferocidade e o cerco das hienas.

Hoje tudo está modificado. Vivenciamos a hegemonia dos portais eletrônicos, dos sites, das redes sociais e da blogosfera. Jornalistas outrora assalariados, dançando conforme a música que os patrões tocavam, sem tanto crédito nem opinião própria, agora são donos das suas vozes, adquiriram autonomia para dizer o que querem ou aquilo que lhes convém.

Como está na moda falar, são empreendedores, chefes de si mesmos. Não todos, pois ainda há aqueles sob a regência do patronato, contudo grande parcela é autossuficiente. Em meio a esses, talvez em número expressivo, há homens e mulheres admiráveis, dignos de respeito.

Vejo no mister de jornalista, como em poucos outros, uma paixão e um glamour típicos. É aí que muitos, literalmente, dão o sangue pela missão de informar. Tornam o público ciente dos acontecimentos nas mais diversas esferas da sociedade, rompendo a barreira do medo e da mordaça.

Nunca fui nem me pretendi jornalista, mas tive a oportunidade de trabalhar e interagir com admiráveis pessoas desse ramo, quando o sangue e a tinta (no tempo da tinta) corriam pelas veias expostas do homem de imprensa. Desse universo advém todo o seu penar e a sua delícia, o seu torpor e o seu ópio.

Pouca coisa lhes importa mais do que isso. Até eu, na época dos impressos, lembro de que várias vezes, movido por aquela sensação do dever cumprido, não fui para casa não sem antes passar pela oficina e pôr o meu exemplar debaixo do braço.

Sentia-me atraído pela sala de impressão, gostava da voz metálica da rotativa, daquele matraquear que geralmente se estendia pela madrugada. Só depois, portanto, eu deixava a oficina com o sentimento de que fizera a minha parte, satisfeito com a crônica, o conto ou poema ali gravado.

O jornal em papel era uma espécie de viajante do tempo que noticiava e que era notícia. Quantos homens e mulheres não se uniram e se deixaram por meio de suas folhas; quantas carreiras não foram construídas e arruinadas ao longo do seu expediente e curso. Havia em sua esteira factual um ciclo de apogeu e debacle, mortes e nascimentos, otimismo e desesperança. Entre outros veículos, a mídia escrita e impressa era a mais charmosa, romântica e sedutora.

Oito e dez. Dia nublado, aspergido por uma suave garoa. Bateu-me esta saudade do papel. Penso que num domingo assim, antes de provarmos o leite e o pão, estaríamos à mesa lendo um jornal impresso.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 02/05/2021 - 06:48h

Amar se aprende amando

Por Marcos Ferreira

Hoje que te encontro a rir-se em desespero, carecendo de amparo e de equilíbrio, tenho a perder contigo estas velhas e repetidas palavras. Porque eu, assim como todo mundo, também sofri o meu bocado e magoei outros mais neste sempre desconcertante samba do crioulo doido: o amor. E quero dizer-te, por conhecimento de causa, que sei perfeitamente o que estou falando. Sim. A gente sofre, mas aprende.

Talvez o que eu te explique até possa consolar-te por alguns instantes, mas logo que reparares em volta e deres com a ausência de quem amas, tudo isto que te revelo perder-se-á pelo ralo escuro da incompreensão e do esquecimento.emojis-sorriso-com-olhos-de-coracao-aplique-emojisÉ assim o coração de quem ama, um terreiro de feitiços, magias, sortilégios, um rútilo salão de festas, um palco de inúmeros dramas e comédias, lágrimas e risos, dores e prazeres, sonhos e desenganos. Cada qual com a sua lombra e seu lundum, sua fala e o seu silêncio, seu fracasso e sua glória.

Diante dele, sobre ele ou debaixo dele — o amor —, não há quem não dance, quem não se dobre ou quem não vacile, quem não goze e quem não gema… O amor é cheio de caprichos, de vontades próprias. Não há quem não traga no rosto a cicatriz invisível de um beijo, a cruz do sonho morto fincada nas areias movediças do coração amante. Sei exatamente o que sofres neste minuto.

Porque eu, modéstia à parte, possuo doutorado sobre tal assunto. Sou Ph.D. em roedeiras e dores de cotovelo. Reconheço em teus olhos a mesma tempestade, o mesmíssimo ciclone que revolveu minhas entranhas e devastou esta minha alma condoreira.

Conheço muito bem o mau humor que ora te envenena a língua e amarga tuas palavras. Eu já tomei o chá amargo de todas as ervas e raízes do amor não correspondido, do amor sozinho, do sexo solitário. Eu também já catei papel na ventania, matei cachorro a grito e beijei de olhos abertos.

Sei o que é ser trocado por outro (ou outra, nalguns casos) e se sentir o cocô do cavalo do bandido, um zero à esquerda, um risco n’água, um fósforo molhado, uma lâmpada queimada, um cão sem dono. Eu também já quebrei a cara, já cuspi para cima e vi a menina dos meus olhos ir-se embora com o tal palminho de rosto das colunas sociais.

AÍ EU CUSPI NA CRUZ, joguei praga em santo, bati a porta e chorei mudamente embaixo dos lençóis. E só não briguei com Deus porque ele, apesar dos pesares, sempre aliviou a barra e nunca se enfezou comigo. Mas veja que o baque é forte, e a lombra do amor rejeitado já deixou muita gente de quatro.

Não mais me espanta que tenhas agredido o meu nome, condenado os meus dias e amaldiçoado as minhas noites. É que às vezes queremos lançar a culpa sobre alguém quando perdemos a compostura, o respeito, o amor-próprio, a autoestima, a dignidade, os brios, a razão e até nos descabelamos.

Assim nos vemos quando o cisne branco da felicidade (a nossa alma gêmea, nossa cara-metade, entres outras definições românticas) migra para bem longe dos nossos braços. De repente, não mais do que de repente, tudo é desventura e malogro… Faz-se da vida um filme em preto e branco e nada mais nos parece ter a menor graça ou importância.

Entretanto, não te esqueças de que tudo isso passa. Espera o mercurocromo do tempo atuar sobre as feridas da alma. Porque o coração, assim como o fígado, possui o poder de autorregenerar-se. O processo é doloroso e lento, mas é preciso não morrer da cura, como reza o soneto que te fiz.

Então, antes que o pandeiro se cale e as cinzas desabem sobre a quarta-feira, tira a tua dor da avenida que eu quero passar com o meu sorriso. Porque agora eu também já sei namorar, já sei “ficar” e tudo o mais que o diabo gosta.

Além disso, como diz o poeta Drummond, amar se aprende amando.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 25/04/2021 - 09:30h

Fome dói, senhoras e senhores

Por Marcos Ferreira

Sei que dirão, decerto poucos, visto que meu círculo de leitores é tão largo quanto o buraco de uma agulha, que estou politicando. Que digam. Não tem problema. É isso mesmo. Somos essencialmente políticos, frase de cujo autor (perdoem minha memória de Sonrisal em copo d’água) não recordo.

Hoje discorrerei sobre esta área pantanosa. Pensem o que quiserem. A verdade, senhoras e senhores, é que tudo está impregnado de política. Há política em todos os âmbitos e esferas; política no seio das famílias, política nas artes, na literatura, política nos relacionamentos amorosos, nas uniões interesseiras, no âmago das religiões e, lógico, no pior de todos os segmentos: a zona partidária, onde o percentual de percevejos sociais travestidos de mulheres e homens públicos é quase metastático. Contudo (ouso afiançar) existem raras e honrosas exceções.Fome, mãos com pão, flagelo, pobrezaTodo este circunlóquio é para lhes dizer, como na canção do Chico Buarque, que “a coisa aqui tá preta”. Mas não estou contando novidade alguma e o verso do compositor soa redundante. Acrescento, e sem conotação racial, que a coisa está pior que preta. Posto que agora, minhas senhoras e meus senhores, a Coisa (com inicial maiúscula) tem olhos verdes e esbugalhados. Ou seriam azuis? Digamos, à maneira dos poetas parnasianos, que os olhos são garços, agateados.

Sim, meus gentis e parcos leitores, aqueles são os olhos demoníacos de uma criatura sem compaixão, empatia, escarnecedora da penúria em que vive grande parcela dos seus compatriotas. Tais olhos, introjetados de peçonha e desamor, têm sido maléficos, deletérios a este “país tropical, abençoado por Deus”, como diz um outro compositor carioca. Olhos que secretam o mal.

Hoje, infelizmente, o povo humilde e carente desta pátria de chuteiras voltou a comer o pão que o diabo amassou, conforme o ditado. Ou, em muitos lares, nem isso. Porque o preço do pãozinho, mesmo aquele da véspera, está pela hora da morte. Os víveres, de um modo geral, estão nos custando os olhos da cara. Isto sem falarmos nos combustíveis automotivos, na pena d’água, na tarifa de luz, no gás de cozinha. Este último, com o preço tão inacessível, mais parece um satélite doméstico na estratosfera da baratinada economia brasileira. Muitas famílias retroagiram e estão cozinhando à lenha. Quando há o que cozinhar, naturalmente.

A mendicância tomou os canteiros, ocupa logradouros, faz blitz nos semáforos, estira a mão súplice: “Uma ajudinha, pelo amor de Deus!” São pessoas desvalidas, privadas da mínima condição de subsistência e dignidade, sofrendo humilhações, curtindo fome. E fome dói, senhoras e senhores. Maltrata sobremodo, faz definhar o corpo quanto o espírito, inviabiliza projetos, sonhos.

Sem coitadismo, sei do que estou falando. Nada conjecturo ou presumo. Digo o que digo com propriedade, conhecimento de causa. Não devemos nos envergonhar da nossa história e origens. Não se estas não são motivo de vergonha. A fome, que sempre foi dramática entre nós, ressurge ainda pior. Muito pior. Recrudesceu, retornou à pauta da grande imprensa, agravada. E o pivô desse agravamento, de olhos esverdeados, faz pouco-caso do infortúnio dos miseráveis.

Pensando melhor, creio que a referida Coisa merece receber o artigo masculino singular. Logo, feita esta mutação de gênero, temos no Brasil, aboletado nos píncaros do poder central, o Coisa, ser malévolo que se harmoniza de forma perfeita com o adjetivo ruim. Destarte, outra vez reformulando a nomenclatura do dito-cujo, temos aqui o Coisa-Ruim, palavrinha composta e bem mais apropriada. Não se trata de um batismo original, considerando que esta é uma das várias definições atribuídas ao demônio supremo Satanás, ou Lúcifer, como quiserem.

ENTÃO, SENHORAS E SENHORES, de paletó e gravata caros, olhos garços, esbugalhados, arma no cós e enxofre na língua, mas sem o clássico rabo com seta na ponta nem chifres (não que se saiba), o Coisa-Ruim lançou o Brasil num precipício econômico e social que resulta no estarrecimento e perplexidade do mundo todo. Acho até que o famoso letreiro do “lábaro estrelado” precisa sofrer uma constrangedora atualização, modificando-o para “desordem e retrocesso”.

Olhemos à volta, minhas senhoras e senhores. Mas olhemos sem paixões políticas nem ranço, sem os antolhos do partidarismo de esquerda ou direita, sem a retórica do petismo ou do lulismo. Contemplemos as axilas de pontes e viadutos por toda parte deste país, as calçadas das lojas durante a madrugada, sob marquises e toldos. Aí veremos, senhoras e senhores, os nossos semelhantes, uma miríade de sem-teto, quantidade ora duplicada, senão triplicada. São aquelas pessoas engolidas pela desigualdade social e pelo modus operandi desse governo irascível, antidemocrático, truculento, apologista da ditadura e intimidador de jornalistas.

Perdoem a vulgaridade da expressão, mas o brasileiro está vendendo o almoço para comprar o jantar. Logicamente estou me referindo às camadas baixa e subterrânea do nosso povo. Muita gente que se encontrava em cima, ou não muito embaixo, desceu, está ao rés do chão.

Outros mudaram daí para um subsolo financeiro, ameaçados pela miséria absoluta, na iminência de perderem seus lares e passarem a coabitar os sovacos de pontes e viadutos, expostos sob marquises e toldos, disputando espaço com aquele mundaréu de sem-teto a que me referi.

Além do caos da pandemia, cujo número de vítimas no Brasil pelo coronavírus logo atingirá os quinhentos mil mortos, padecemos com o flagelo de uma política voltada para o benefício de ricos e ricaços.

A gente humilde, senhoras e senhores, está ao deus-dará, de pires na mão. Falta-lhes o básico do básico. Raimundo vendeu o televisor para comprar comida, pois ele e a esposa estão desempregados e têm duas crianças entre os oito e dez anos de idade. Maria Lúcia, jovem mãe viúva, desempregada e também com duas crianças para oferecer alimento, vendeu o guarda-roupa e o sofá.

Sim, senhoras e senhores, as famílias pobres deste grande país estão entre a cruz e a espada, de bolsos e geladeiras vazios.

Aqui no meu subúrbio, a dois quarteirões da minha casa, conheço outro casal, este com três filhos pequenos, ele auxiliar de pedreiro e ela cuidadora de idosos, ambos na mesma situação de desemprego, que ilustra muito bem este cenário aflitivo. Topei com ambos na última sexta-feira, por volta das oito horas, quando fui à calçada colocar o lixo, pois era o dia do caminhão da prefeitura passar realizando a última coleta da semana. Então o referido casal me abordou.

— Bom dia, patrão! — disse o homem.

— Bom dia! — respondi de imediato.

Imaginem uma coisa dessas, senhoras e senhores: súbito fui elevado à categoria de patrão. Somente pela força das circunstâncias difíceis por que passam aquelas pessoas. Interromperam a trajetória a fim de saber se eu não gostaria de mandar limpar meu quintal e o mato que brota abundantemente do meio-fio e das várias lacunas distribuídas ao longo do piso avariado da minha calçada.

Em tempo, senhoras e senhores, informo que o casal estava guiando uma pequena carroça, puxada por um burrinho magro.

— Faço o serviço por um preço bom.

— E qual seria esse preço bom?

— Barato, senhor: cinquenta reais.

Estimo que o homem, de barba e cabelo crescidos, tenha algo em torno dos quarenta anos de idade. Exibia no rosto afogueado os reflexos de uma vida severina, como no poema do João Cabral de Melo Neto.

Conheço aquele cidadão de vista, como já mencionei. Especialmente porque uns três anos antes o vi literalmente com a mão na massa, trabalhando com um pedreiro que meu vizinho da frente contratara para realizar uma reforma em sua residência. Observei que naquele tempo o hoje carroceiro possuía um carro. Veículo popular e bem usado, é verdade, mas um carro. Estacionava o seu transporte margeando a minha calçada, livrando só o espaço do meu portão maior.

— Tudo bem. Pode fazer o serviço.

— Graças a Deus! Vou deixar minha esposa em casa, aqui perto, e volto logo. Estávamos há dias sem ganhar um tostão.

— Eu me lembro de você trabalhando como auxiliar de pedreiro, aí na casa da frente. Você parava seu carro aqui do lado.

— Pois é. A situação tá complicada; o ramo de servente de pedreiro caiu muito. Tive que vender o carro e comprei essa carroça.

Antes do meio-dia, usando máscara (solicitação minha) e dispondo de uma enxada, uma pá e um vassourão de piaçava, ele deu cabo da limpeza. Pôs todo o mato sobre a carroça para despejá-lo não sei onde.

Limpar quintal, assim na enxada, é tarefa que hoje não posso mais abraçar devido ao meu espinhaço talvez acometido por uma hérnia de disco. Paguei os cinquenta dinheiros cobrados e Francisco (eis o nome do rapaz) pediu que eu agendasse o número do celular dele para alguma outra necessidade.

— Obrigado, patrão! Até a próxima.

— Não precisa agradecer, Francisco.

Não posso contar vantagem, devo salientar, mas é assim que muitos se encontram: às cegas, lutando pelo pão de cada dia.

Enquanto isso, na Sala de Injustiça do Palácio do Planalto, os Superamigos da verba pública, capitaneados pelo Coisa-Ruim, deitam e rolam. Quanto à fome do povo, apenas zombam e gargalham feito o Coringa.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 11/04/2021 - 09:00h

O feitiço das palavras

Por Marcos Ferreira

Há muitas vezes, ao menos comigo isto acontece, em que já estamos deitados, recolhidos às brumas do sono, quando elas nos sacodem, puxam os lençóis, o travesseiro, batem os pés, formigam em nossa cabeça e exigem expediente extra. Meio sonâmbulos, acendemos a luz (ou apenas recorremos ao bloquinho de notas do celular) e rabiscamos qualquer coisa, um mínimo registro para darmos andamento ao estalo inspirativo no dia seguinte, não raro sem a fecundidade e proveito do primeiro instante.

Porque escrever, minhas senhoras e meus senhores, salvo raras exceções, é, acreditem, um exercício de absoluta entrega e renúncia.letras, palavras, teclas, textos, nomes, datilografia, teclas, tecladoPalavras têm disso: encanto, magia, feitiço. A mim (um sapateiro da literatura) elas sempre enfeitiçaram, arrebataram, fascinaram. Porque palavras, entre outras importâncias e qualidades, têm cheiro, cores, sabor, compleição, rutilância, força, poder.

Careço amiúde conhecê-las, degustá-las nesse imensurável manjar que é a língua portuguesa do Brasil, de Portugal e demais países lusófonos. Digo mais, minhas senhoras e meus senhores: sou um tipo irrecuperável de viciado em palavras, refém espontâneo de suas ordens e caprichos, caminhos e perigos.

Deixamos a caverna há três milhões e quatrocentos mil anos e desde então o advento da linguagem, da escrita, tem sido a nossa conquista mais relevante e inigualável. Palavras são o maior patrimônio da humanidade. Humanidade esta que, infelizmente, nem sempre é tão humana como deveria. Entretanto, bem ou mal, o verbo nos distingue, seleciona, classifica, excluiu ou inclui. Porque palavras são, também, consenso e discórdia, união e diáspora, cárcere e liberdade.

Palavras são isso e aquilo; o ser e o não ser de William Shakespeare; a dialética incomparável de Machado; a pena flamejante de Dostoiévski; a precisão vocabular de Graciliano; os sonetos impecáveis de Florbela Espanca; a verve indômita de Clarice Lispector; o silêncio eloquente dos omissos.

Busco as palavras como meus pulmões exigem oxigênio. Careço senti-las a todo minuto, hauri-las, criar afinidade, apreendê-las nesta instância da vida em que me sei menos manipulador que manipulado, menos protagonista que figurante, simples porta-voz, menino de recados.

Sou-lhes obscuro garimpeiro, bateador. Busco-as noite e dia, sem temor nem rodeios. Mas não de maneira a averiguar nos dicionários o lato sentido de um determinado vocábulo ou sentença. Não assim. Ambiciono das palavras a condição de expressar-me, se possível, com arte.

Não é nada fácil, senhoras e senhores, porém a dificuldade não reduz o meu anseio de pavimentar a minha trajetória e história com um pouco de arte escrita. Empresa difícil e por vezes inglória, eu sei. O escritor português Latino Coelho, em A Oração da Coroa, pontuou sobre este aspecto: “De todas as artes a mais bela, a mais expressiva, a mais difícil, é sem dúvida a arte da palavra”.

Imaginem um deus literário como Machado de Assis (1839-1908) sem a literatura, sem o feitiço das palavras, que ele manejava com mestria invulgar. Imaginem o bruxo do Cosme Velho (sua carinhosa antonomásia) sem o condão das letras. Imaginaram? Pois bem.

Calculo que estaria em sérios apuros, isto no tocante à época e sociedade a que pertenceu. Homem de origem humílima, filho de um descendente de escravos alforriados e de uma lavadeira portuguesa, que atropelou toda espécie de preconceitos daquele Brasil de antanho graças ao poder irresistível da sua inteligência e da sua escrita. Viva Joaquim Maria Machado de Assis!

“Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução”, escreveu Machado no conto “Primas de Sapucaia!”, do livro Histórias sem Data, de 1884. Vivesse nos tempos de hoje, detentor da extraordinária obra que produziu, decerto já teríamos um Nobel de literatura, cuja primeira edição foi conquistada pelo francês Sully Prudhomme em 1901. Prudhomme faleceu seis anos depois (1907), aos sessenta e oito anos.

Nem todos nós, os miúdos, podemos gozar da fortuna de ser um Graciliano Ramos, um Dostoiévski, uma Carolina Maria de Jesus, uma Conceição Evaristo ou um Machado de Assis. Mas, não fossem os pequenos, os escribas de inferior estatura artística, que tédio seria a literatura. Não há Nobel para todo mundo. Tudo tem sua finalidade, sua época e relevo. Até nossos menores dedos são essenciais. Aqui, a horas mortas, entre o caos da pandemia e o escárnio do Genocida, permito-me fazer uso por escrito do meu idioma enquanto homem de letras.

Fernando Pessoa falou certa vez (escreveu, na verdade) que ser poeta nunca foi a sua ambição, mas apenas a sua maneira de estar sozinho. Para mim, por maior que seja a solidão, ler e escrever é uma forma de não me sentir só. Quem lê e quem escreve (convém que seja nessa ordem) nunca está de fato sozinho. Escrevo, pois, com ou sem talento. E submeto ao leitor menos exigente as minhas páginas de baixo quilate e voltagem literária, dignas, quiçá, de alguma atenção ou piedade, como nesta primeira estrofe de um soneto de Bocage, outro português:

“Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores;

Vede-as com mágoa, vede-as com piedade;

Que elas buscam piedade, e não louvores”.

Como percebem, cheguei até aqui (refiro-me a esta crônica frankensteiniana) à custa de retalhos, pedaços de uma e outra coisa. Ou seja, enrolando o tempo e espaço, fazendo uso de uma espécie de bromato de potássio verbal, recurso para inchar o texto e fazer parecer que o pão da véspera é quente e fresquinho. Porque alguns cronistas, diante da escassez de assunto, costumam enfeitar o pavão. Mero artifício, figura de linguagem, algo de que nosso idioma é riquíssimo.

Dito isto, minhas senhoras e meus senhores, dou a cara à tapa, o braço à seringa, a mão à palmatória. Porque até agora não fiz outra coisa exceto lhes roubar preciosos minutos. Da próxima vez, prometo que vou tentar, apresentarei páginas que lhes valham o tempo investido. Sobretudo o meu próprio tempo, posto que não desejo notabilizar-me como farsante literário, um vigarista menor.

Por último, meus caros, penso neste conselho do Benjamin Franklin: “Se não queres perder-te no esquecimento tão cedo como chega a morte, escreve coisas dignas de ler-se, ou faz coisas dignas de escrever-se”.

Antes que chegue a Moça da Foice.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica / Cultura
Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2026. Todos os Direitos Reservados.