domingo - 12/10/2025 - 08:00h

O Efeito Casulo – Dia 20

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Terra úmida e fofa. Tempo chuvoso. Caía um borrifo d’água. Tive receio de não conseguir. Contudo a pá descia fácil, empurrada vez por outra com o pé direito. Calçava botas de couro com sola de borracha. A folha de metal seguiu cortando a terra úmida, aumentando o tamanho da cova perto do muro aos fundos desta casa. De modo premeditado, eu iniciara a abertura do buraco no começo da manhã e findara no meio da tarde, deixando-o com a profundidade necessária. Não choveu forte nas últimas quarenta e oito horas e por isso não acumulou água na cavidade.

Foi a primeira vez que matei alguém; e logo um duplo assassinato. Sepultei-os na calada da noite, nos fundos do meu extenso quintal. Foram atraídos por uma promessa de fazermos as pazes e, quem sabe, experimentarmos um ménage à trois. Não contavam que estavam caindo na arapuca de um homem frio, calculista, de instinto vingativo. Logo me livrei dos cadáveres e agora seguirei com os poucos meses de vida que me restam. Mas não foi fácil sumir com os corpos dos safados.

Eu suspirava, exausto. Enxugava a água e o suor das faces com as costas das mãos. Daqui por diante poderei descansar. Não desejo outra coisa exceto agir como se nada houvesse acontecido e cuidar da minha curta vida. Estou satisfeito e um tanto orgulhoso de mim mesmo. Segui o plano à risca e deu tudo certo. Aqueles filhos da puta tinham que morrer. Se Deus não me perdoar, não importa.

Adotei uma estratégia infalível: vinho tinto com sedativo, substância cuja receita adquiri com o doutor Jarbas Sabóia. Falei que nas últimas noites tenho sofrido com insônia, o que de certa forma é verdade. Assim, conforme eu esperava, a bebida e o sedativo derrubaram os patifes. Daí a pouco Roberto disse que estava com muito sono, deixou a mesa aqui na cozinha e foi se deitar no sofá. Leopoldo ainda tentava resistir ao efeito do vinho com o sonífero. Porém, estando ele já grogue, acertei-lhe a cabeça (pelas costas) com a pá deixada estrategicamente próxima da porta da cozinha. Ao tombar, quebrou uma taça, virou a garrafa sobre a mesa e desarrumou parte da toalha. Depressa ergui a garrafa e joguei os cacos da taça num cesto de lixo. Leopoldo ficou estirado no chão, enquanto Roberto estava debruçado no sofá. Troquei de roupa e calcei as botas. O cheiro do vinho recendia no ambiente meio na penumbra. Será difícil desvendarem o sumiço de ambos. Felizmente, tenho a favor o seguinte detalhe: nenhuma residência aqui nesse trecho da Pedro Velho possui câmeras de segurança.

Se, porém, a polícia chegar até mim por algum motivo, imagino que será tarde demais. É possível que eu já esteja morto e enterrado. Cuidei de recolher os celulares deles, quebrei os chips, joguei no sanitário e dei descarga. Os aparelhos foram sepultados juntamente com os seus respectivos donos.

“Vocês tiveram o que mereciam”, falei de mim para comigo enquanto me preparava para arrastar os dois para uma cova só. Por segurança, apliquei uma pancada com as costas da pá na cabeça de Roberto. Uma pequenina quantidade de sangue tingiu a pá. “Esse também está prontinho para cumprir o seu destino”, pensei enquanto os relâmpagos clareavam as frinchas do telhado, e os trovões ribombavam como se a casa porventura fosse desabar. Era uma noite desértica nesta Pedro Velho. Em razão da garoa, nenhum vizinho se aventurou a colocar uma cadeira na calçada. Ajoelhei-me e conferi as veias do pescoço de Leopoldo e de Roberto. Nada. Nenhum sinal de pulsação. Nunca mais esses sacanas vão espancar quem quer que seja.

O mais difícil foi arrastar os dois até o buraco. Então, depois de percorrer pouco menos de trinta metros puxando meus agressores pelos braços (um de cada vez, claro), consegui colocá-los na cova. Quando comecei a lançar as pás de terra, percebi que Leopoldo ainda respirava. Olhos cerrados, gemia baixinho. Isso me angustiou e concluí que não poderia enterrar ninguém vivo, embora se tratasse de um canalha. Daí posicionei a pá e o acertei na testa umas duas ou três vezes.

Nessa noite, após um banho demorado, dormi um sono profundo e reparador. Na manhã seguinte, como parte do plano de vingança, enterrei no local algumas sementes de jacarandá, árvore bela e de rápido crescimento.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 17

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 18

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 19

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 05/10/2025 - 08:42h

O Efeito Casulo – Dia 19

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Este capítulo, só por enquanto, não será publicado no blogue do jornalista Carlos Santos. Devo enviar outro texto em vez deste. É o que farei para evitar a polícia. Acho que tal estratégia não resultará em mal-entendido, ou sensação de incompletude na cabeça dos leitores: os poucos que se ocupam com a leitura destas páginas mórbidas e pessimistas. Não que eu me importe com as consequências de tornar pública esta parte da história. Nada tenho a perder. Muito menos a ganhar. No momento oportuno, então, farei o encaixe deste fragmento em algum ponto da narrativa. 

Recebi na manhã de hoje, precisamente às onze horas e quatro minutos, via WhatsApp, uma ligação de Leopoldo Nunes. Esta, aliás, já era a terceira. Não me dei conta das chamadas anteriores porque deixo (repito) o aparelho no silencioso. Por acaso, entretanto, quando procurei o celular para ver as horas, deparei-me com a telinha acesa com a foto do patife. Eu acabara de colocar um pouco de macarrão na água fervente e precisava marcar uns treze minutos para que a massa ficasse pronta. Recusei a ligação. Ele insistiu e desta feita, embora sem saber o que dizer, atendi. Pego de surpresa, fiquei calado; sequer um alô. Aguardei que dissesse alguma coisa. “Bom dia, Fernando”, falou num tom ligeiramente triste. “Não tenho um bom-dia para você, descarado”, respondi de modo imediato e firme. Soltou um pequeno pigarro e seguiu: 

“Olha, Fernando; eu entendo que nunca mais queira ver a minha cara; tem motivos de sobra para isso. O que Roberto e eu fizemos não se justifica. Ainda assim, se puder me ouvir, considero justo lhe revelar alguns aspectos que talvez expliquem aquele absurdo todo que aconteceu ontem à noite. Devo lhe confessar que o vinho não foi o responsável pelo comportamento abominável que apresentamos em sua casa, agredindo você da maneira absurda e covarde como ocorreu”. Embora sem a menor vontade de aliviar a barra deles, pedi que continuasse, mas sem delongas. “Foi a cocaína”, revelou subitamente. “Cheiramos antes de sairmos para a sua casa”. 

“Cocaína?!” Espantei-me por um segundo, todavia rebati a desculpa de que estavam drogados. “Esse argumento não vale de nada. Vocês agiram como bichos selvagens. Não fiz nem falei nada para deixá-los tão agressivos e enfurecidos daquele jeito. Além disso, Leopoldo, você não poderia de maneira alguma ter trazido aquele indivíduo para a minha casa sem antes me consultar. Pensei que seria um momento apenas nosso. O seu amigo calhorda não cabia naquela ensejo”. 

“Você está coberto de razão, Fernando. Eu errei do começo ao fim. Convidar Roberto foi um grande equívoco. Tanto quanto o de haver cheirado cocaína e depois ir à sua casa com a cabeça fora do lugar”, admitiu compassadamente, escolhendo as palavras com todo cuidado. Não suavizei minha crítica, mas tentei dominar meus nervos, pois até então eu falava com ele quase aos gritos. Voltei ao fogão e desliguei a boca onde fervia a água para o macarrão. Sentei-me à mesa da cozinha e decidi que iria ouvir o que ele tinha a me dizer. Com voz meio trêmula, Leopoldo voltou a se lamuriar e, ignorando o meu ânimo enfezado, pediu-me desculpas. Foi nesse exato instante que a fatídica ideia aflorou na minha cachola. Assim, como diz aquele ditado, mudei da água para o vinho e passei a dialogar com ele de forma mais amigável. 

“É o seguinte, Leopoldo… Fui agredido com palavrões, socos e pontapés. As marcas dessa violência continuam na minha cara, na minha pele. Os danos são também psicológicos. Permaneço abalado. Tive insônia, dormi pouco e mal de ontem para hoje. Compreendo, todavia, que a porra da cocaína decerto foi a causadora dessa atitude traiçoeira quanto covarde. Apesar dos pesares, penso que merecem uma segunda chance. Quem nunca fez alguma besteira na vida que atire a primeira pedra. Para provar que não me interessa guardar ressentimentos, estou disposto a recebê-los aqui em casa outra vez. Desta feita, por favor, sem cocaína, e o vinho será escolhido por mim. Aquele que vocês trouxeram é por demais ordinário”, falei isto bem-humorado e o canalha acreditou na minha súbita mudança de temperamento. 

Leopoldo se empolgou e me pareceu sincero: “Contarei a nossa conversa a Roberto logo que findarmos esta ligação. Você não imagina o quanto ele está arrependido”. Pois foi. Acrescentou que o safado estava se sentindo mal, com a consciência pesada, por causa do que aprontaram. Assegurou que Roberto ficará muito feliz com a minha atitude, com o meu “coração bondoso”, isto nas palavras dele. Marcamos o reencontro para amanhã, no mesmo horário do anterior. Aqueles pilantras não fazem ideia do que os espera. Recorri ao meu psiquiatra, o doutor Jarbas Sabóia, e este me deu a receita para comprar uma caixa de Dormonid de 15 miligramas. 

“Será um grande prazer retornar à sua casa, Fernando. Dessa vez as coisas acontecerão na mais completa paz e harmonia”. “O prazer será todo meu, Leopoldo. Pode crer. Vamos passar uma borracha nesse lamentável incidente. O perdão faz bem a quem é perdoado e a quem perdoa. Sinto que temos muito a oferecer um ao outro. Amanhã, se Deus quiser, dará tudo certo”, concluí. Um só comprimido desses basta para apagar um homem. Por garantia, porém, darei dois a cada um. 

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 17

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 18

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 28/09/2025 - 07:40h

O Efeito Casulo – Dia 18

Por Marcos Ferreira

Arte Ilustrativa com recursos de inteligência Artificial para o BCS

Arte Ilustrativa com recursos de inteligência Artificial para o BCS

Quinta-feira. Ontem e anteontem não consegui escrever nada acerca de coisa alguma. Ainda estou me recuperando dos machucados, das agressões, do ataque que sofri no início da noite da terça. A visita de Leopoldo Nunes, além da extrema frustração que me provoca até o momento, representou uma presença traiçoeira, odiosa e covarde. Começo a digitar este relato com bastante dificuldade. Dois dos dedos da mão direita continuam inchados, com escoriações também nas costas das minhas mãos, no rosto e nos antebraços. O ombro direito continua doendo. Houve uma hora em que cheguei a pensar que estivesse deslocado em virtude dos chutes e pontapés que sofri. O indicador da mão direita, ressalto, é o mais afetado e dolorido.

Um tempo antes ele entrou em contato comigo por chamada de áudio no WhatsApp indagando se o nosso encontro estava de pé. “Claro. Estou à sua espera”, respondi com empolgação. “Chegarei no horário combinado. E tenho uma surpresa para você. Não pergunte o que é porque assim estraga a surpresa”, acrescentou com voz descontraída. Minha curiosidade aumentou, contudo falei que aguardaria para saber do que se tratava. O choque que eu tive, quando da chegada de Leopoldo, foi que ele não viera só para o nosso compromisso do cafezinho de início de noite. Um outro homem estava com ele. Era, reconheci após alguns segundos, o caixa ao qual me apresentara quando estive no mercado pela última vez. Sim. Aquele rapaz simpático e bonito, que julguei fosse tão só um colega de trabalho de Leopoldo, viera à minha casa sem ser convidado. Fiquei de fato surpreso e desconfortável com a sua presença. Ele depressa se anunciou como Roberto. Trocamos apertos de mão e ambos entraram.

Roberto trazia uma sacola de papel com sinais, manchas d’água, cujo formato do volume pude deduzir que aquilo era uma garrafa de bebida ou refrigerante. Ele não demorou a abrir a sacola, da qual retirou uma garrafa de vinho tinto. Disse que seria “para mais tarde; quando o café acabar”, e me pediu para guardá-la na geladeira. Não gostei da ideia, sobretudo da presença de Roberto em uma ocasião que me interessava fosse mais reservada; um encontro, enfim, de apenas duas pessoas. Roberto (avaliando com objetividade) representava um empecilho naquele momento pretensamente romântico. Ou seja, uma excrescência. Estragou meus planos.

Cada um de nós bebeu duas xícaras de café de tamanho médio. Entretanto o papo estava sem graça desde o começo. Eu me esforçava para não deixar transparecer o incômodo, o desconforto devido à presença daquele elemento inoportuno. Não me animei a preparar a cafeteira com uma segunda jarra. Chegou a vez do vinho. Leopoldo foi quem alertou que era a ocasião do tinto. “Pronto, queridos. Experimentamos o café, o papo está muito bom, mas vamos tomar um pouco desse vinho que Roberto comprou lá no supermercado especialmente para este ensejo”. Eu me sentia murcho, sem brilho, sem ânimo. Ainda assim peguei no armário três pequenas taças. Em seguida, como se obedecesse uma ordem, fui à geladeira e trouxe a garrafa. Era um vinho barato, ordinário. Servi aos dois e fui bebendo minha taça bem devagar.

Daí a pouco, para piorar meu desagrado, Roberto propôs que eu ligasse o aparelho de som. Queria, infelizmente, ouvir “uma musiquinha sertaneja”. A contragosto, então, liguei a tevê, acessei o YouTube, e o próprio Roberto pegou o controle remoto da minha mão e escolheu um link dessas “canções” deveras vagabundas, da pior qualidade possível, mas que estão na moda e na cabeça de idiotas como ele. Deixou num volume que considerei excessivo e aí eu baixei um bocado, alegando que daquela forma atrapalhava a nossa conversa. Roberto franziu a testa, mas não disse nada. Afinal de contas ele não era o dono da tevê nem da casa. Depois de mais ou menos meia hora, talvez tocado pelo vinho, a música já não me aborrecia como no início.

Houve um instante em que Leopoldo falou que eu estava “parecendo tenso, precisando de mais vinho”. Para meu espanto, ele deixou o sofá, contornou a poltrona onde eu estava e começou a fazer “uma massagem para aliviar a tensão”. Dessa forma, enquanto Roberto sorria, ele foi descendo a mão direita pela minha cintura e me apalpou por cima da bermuda. Obviamente que eu não estava nada excitado, sem clima algum. Percebendo isso, Leopoldo (decerto um bocado aquecido pelo tinto) disse de maneira rude: “Vamos lá, veado! A gente sabe que você quer foder conosco!” Eis a gota d’água.

Levantei-me e pedi que ambos fossem embora imediatamente. Isso foi recebido como um insulto, uma ofensa. Roberto deixou o sofá e voou em cima de mim, apertando meu pescoço. Consegui ficar de pé e acertei uma bofetada na cara dele. Daí por diante, para minha desgraça, eles me agrediram da forma que bem quiseram. Estavam ali dois tipos jovens e de físico malhado, com músculos realçados e com força o bastante para me sobrepujar. Resumindo a ópera, levei uma surra e tanto.

Ao menos, além da minha cara, não quebraram nada. Sofri uns chutes e pontapés no dorso, pisaram minha cabeça. Leopoldo segurou meus braços por trás e Roberto deu um soco na minha barriga. Instintivamente me encolhi, mas aí Leopoldo levantou minha cabeça, puxando-me pelos cabelos, e Roberto me deu um murro na cara. Acertou-me o nariz, que começou a sangrar. Creio que o efeito do sangue descendo pela minha camisa branca de algodão foi o suficiente para que se sentissem satisfeitos com o nível de agressão. Os dois me xingaram, falaram um monte de chulices e me mandaram tomar no cu. Foram embora e bateram a porta com força.

Durante um certo tempo não me mexi. Fiquei debruçado no chão. Após uns cinco minutos, todavia, levantei-me e fui à pia do banheiro lavar o rosto. O nariz não quebrou por sorte. O sangue não demorou a estancar, mas o entorno do olho esquerdo estava inchado e arroxeado. Cheguei a pensar em ir a uma delegacia prestar queixa, mas súbito decidi que eles merecem mais do que isso.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 15

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 16

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 17

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 21/09/2025 - 06:44h

O Efeito Casulo – Dia 17

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Entrega. Abnegação. Perseverança. Altruísmo. Não é fácil a gente pensar em literatura, em arte da palavra escrita, quando o que temos pela frente é uma sentença de morte, um futuro de cinco ou seis meses; isto raciocinando com certo otimismo. Portanto, em um confronto cuja derrota é inevitável, e como quem se vinga da cruezadeste momento desferindo uma zombaria, um deboche perante o fim, esta minha almacondoreira se nega a ajoelhar-se. Porque escrever, mesmo à beira do abismo, é a segurança e conforto que ainda me restam. Não vou simplesmente cruzar os braços e aguardar o apagar definitivo das luzes. O corpo ainda luta. A mente não se verga ao carrasco absoluto. Afrontando o destino, exibindo um acinte, um escárnio, seguirei osacerdócio do meu verbo até minhas últimas fibras de vigor e lucidez. Que se dane a Moça da Foice; que espere esgotar-se o derradeiro hálito de oxigênio que eu possua.

Eis meu epitáfio. A busca do vocábulo exato, justo, medido, seguirá como um ato de rebeldia e provocação. Já não importam (nunca importaram) as futricas, os engodos das igrejinhas literárias. Minha mensagem é de resiliência, um tapa na cara do próprio tempo. É isto. Esse tempo escasso, tão mesquinho e insensível, corre contra mim. Sobretudo nesta terminante quadra dos meus anos. É preciso cumprir a jornada, manter o passo. Desistir da carpintaria das letras não é uma opção. Necessito seguir com esta manufatura da linguagem desejosamente artística. É o que ambiciono. Então continuo com este tear solitário e silencioso sem recompensa, sem aplauso nenhum. Um senso de compromisso com este mister da língua portuguesa não pode parar, acovardar-se, morrer de véspera. Não. O artesanato da linguagem, obscuro e quase sempre inglório, não vai entregar os pontos sem que haja luta. Jogar a toalha? Não! Ainda há um rito a se cumprir, um ciclo a se fechar. Parodiando Guimarães Rosa, o que a literatura quer da gente é coragem. Uma duvidosa e improvável coragem que desponta subitamente como uma grande tocha afugentando as trevas. Desistir, repito, não é opção.

Morrer escrevendo não é derrota, é conquistar a posteridade. Não tenho alternativa nem desejo outro fim. Escrever é um exercício de imortalidade. Um diaqualquer alguém haverá de ler estas linhas e, respirando fundo, dirá consigo próprio: “Esse escritor maldito não morreu, apenas trocou de pele. Ele é uma espécie de cobra. Ainda ouviremos falar a respeito desse indivíduo. Não hoje. Talvez não amanhã nem depois, contudo não se enganem; esse dia chegará mais cedo ou mais tarde. Percebem?!Já não me sinto mais derrotado. Não ao menos no tocante ao presente.

Venham, palavras! Tantas e de tantos. Símbolos gráficos que equivalem a tijolos do meu edifício de letrinhas, do meu castelo de sílabas e sons, cores e caminhos. Aqui estão elas. Sempre estiveram ao nosso alcance. Disponíveis como uma fruta madura na ponta de um galho acessível. Ei-las! Algumas são ásperas; outras, adocicadas. Têm pétalas, perfume, espinhos. Oferecem sumo e doçura, dão água na boca e cócegas nos nossos olhos e ouvidos. Benditas sejam! Cada uma com o seu tamanho, relevo e literariedade. Como são diversas e difusas, repletas de encantamento e significado!Basta tão só que as colhamos das árvores do idioma com o visgo de nossos neurônios,inventividade e reverência que elas nos ofertam. Que isto façamos com calma, sem atropelo, sem descuido, sem precipitação. Quem sabe uma por uma, de maneira que possamos sentir-lhes o peso, a textura, gosto e aroma. Tais verbetes, além de tijolos na edificação de ideias pétreas, de mensagens duras, comportam delicadeza. Ainda mais sereunidas em uma “página branca de susto”, como naquele aforismo de Quintana.

Sim! O insigne poeta maior Mario Quintana, rejeitado pela politiqueira Academia Brasileira de Letras. Que vergonha para aqueles supostos imortais! Logo oQuintana, que, segundo ele próprio, nunca escreveu uma vírgula que não fosse uma confissão. O que diria (latifundiário de um vasto plantio de verbetes) acerca destes meus relatos impróprios para consumo interno, conforme escrevi certa feita. É isso! Sou um autor pungente, nada bem-comportado. Minha verve (ou estômago) não consegue comungar com essa pompa dos grupelhos intelectuais, uma turma que se autopromove e se reveste com seus fardões acadêmicos, espadas e medalhas de falso brilho.

Retomemos o verbo. Deixemos os imortais com sua ilusão de imortalidade artística. A verdade, porém, é que o ofício de literato nesta pátria de chuteiras nunca foi tão maltratado e banalizado como hoje em dia. Aqui tanto quanto além, os impostores lotam as rodinhas do elogio mútuo; todos se masturbam com recíproca bajulação e gozam no final. Isto não tem a ver com inveja ou despeito. Trata-se de bom senso, de enxergar os embustes, as farsas que permeiam essas patotinhas. Há gente por aí escrevendo demais sem dizer coisa alguma. É uma malversação, um desperdício de letras que, por exemplo, acomete metade dos escritores deste município. Melhor não mexer no vespeiro. Todos são adultos e responsáveis por suas produções. Não sou o sujeito mais indicado para dar palpites acerca dessa literomania presunçosa do País de Mossoró. Antes que comece a chover canivetes sobre a minha cabeça, retorno ao meu casulo. Acho que coloquei o dedo na ferida, e isso por aqui é algo imperdoável.

Vejo que cheguei ao final de mais um relato concebido a duras penas, um registro desses dias agônicos e desesperançados. Os medicamentos vão se tornando cada vez menos eficazes. Mas que se foda o meu câncer! Apesar do meu estadodebilitado, precário, da gravidade de minha doença, sei que ainda tenho muito o que debater, confrontar e expor ao longo dessa época de revoltas e padecimentos. Isto não representa, que fique bem claro, nenhuma forma de escapismo, de autopiedade ou vitimismo. Não! Exponho neste blogue, ao longo de algumas semanas, um relatohonesto, nu e cru do meu cotidiano. Os amigos já têm conhecimento da minha sentença de morte. O telefone não para de tocar. Querem me ver, ouvir pessoalmente tudo o quanto o meu editor segue gentilmente e pacientemente publicando. Muito obrigado.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 14/09/2025 - 06:50h

O Efeito Casulo – Dia 16

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Madrugada. Quase duas horas. Despertei com fortes dores na barriga e nas costas. Levantei-me a custo. Repeti a dose dos remédios, aguardei e suportei alguns minutos na expectativa de que minha agrura cessasse, contudo não arrefeceu; continuei com o mal-estar intenso. O estômago estava embrulhado. Abri a porta da cozinha e vomitei no quintal com abundância. A minha testa e os cabelos logo ficaram ensopados. Aliás, o meu corpo inteiro suava excessivamente. Os achaques seguiram.

Decidi que precisava rumar para o pronto-socorro do Hospital Tarcísio Maia. Não tinha condições de ir pedalando. Descartei a opção da bicicleta. Peguei o celular e recorri ao serviço de um carro de aplicativo. Foram longos e agônicos quinze minutos até que o motorista chegasse. O trajeto levou menos de dez minutos. Deitei-me encurvado no banco de trás. Apesar do horário, paguei apenas trinta reais pela corrida. Desci com a ajuda do condutor. O rapaz me acompanhou até o guichê da recepção. Encontrei duas pessoas na minha frente. Estas, porém, vendo a minha agonia, deixaram que eu fosse atendido primeiro.

Precisei, no intuito de agilizarem o atendimento, revelar que tenho câncer e que me encontrava em uma forte crise. Citei todos os quase impronunciáveis nomes dos remédios que tomo pela manhã e antes de dormir. O uso contínuo desses fármacos me permitiu decorar, além da posologia, as suas denominações com precisão. Quanto ao socorro no Tarcísio Maia, para ser justo e grato, não tenho do que me queixar. Quando cheguei ao corredor, amparado por uma enfermeira que me pôs em uma cadeira de rodas, topamos com o médico de plantão, que vinha com um copinho de plástico com café. Não me recordo do nome desse profissional, mesmo ele tendo se identificado, entretanto me recebeu com sensibilidade quanto educação. Não é em toda parte que encontramos gente assim no serviço público.

Sem demora, portanto, aquele indivíduo de jaleco branco, de estatura mediana, pele morena, olhos e cabelos negros, logo me encaminhou para um leito da enfermaria onde havia outras duas camas com pacientes. Ali, após as minhas explicações, ele tomou conhecimento do meu caso. Explicou-me que naquela unidade de saúde dispunham de um aparelho de ressonância e providenciou o uso da máquina. Como eu esperava, disse que minhas condições são críticas. Acrescentou, enfim, que o que estava ao alcance dele era aplicar uma injeção de morfina.

Isso foi o que me livrou daquelas dores terríveis. Cerca de uma hora depois recebi alta e novamente solicitei um carro de aplicativo, que demorou menos que o primeiro. Dessa vez não precisei de ajuda para entrar, e fui no banco dianteiro. Em casa, depois de um banho, visto que havia suado bastante, usufruí de um resto de noite tranquilo e reparador. Só deixei a cama por volta das nove horas. A seguir preparei um café, comi um pão com manteiga e uma fatia de queijo. Tomei os medicamentos prescritos para esse período do dia. Até este instante, enquanto relato a via crucis da madrugada, não sinto nenhum desconforto. São precisamente dezessete horas e dois minutos deste sábado. Todas as janelas e portas estão abertas, enquanto um vento agradável percorre a casa. Essa possibilidade de chuva sempre me deixa feliz.

Hoje não tenho a menor condição de tocar a faxina adiante, porém espero que amanhã, embora que aos poucos, bem devagarinho, eu consiga limpar mais algumas partes desta residência. Especialmente a cozinha, visto que a sala já consegui pôr em ordem. A expectativa de receber Leopoldo Nunes na próxima terça-feira é um estímulo que parece renovar os meus ânimos. Neste momento, para não forçar muito a coluna sentado nesta cadeira, devo findar a narrativa por aqui.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 15

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 07/09/2025 - 16:42h

O Efeito Casulo – Dia 15

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com uso de recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com uso de recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Ontem voltei do mercado com um bom astral. Neste instante me sinto em paz. Fiz um cessar-fogo com meus fantasmas e monstros interiores. Estão quietos, sem incutir mil e uma diatribes na minha cabeça nem na minha escrita. Devo dizer que, ao menos nas últimas vinte e quatro horas, o meu ímpeto destrutivo, sanguinário, se encontra adormecida. Não deve durar muito. Meu estado de humor pode mudar de um minuto para o outro. Todavia quero dizer que essa condição amistosa, tranquila, tem a ver com o encontro no supermercado com Leopoldo Nunes, hoje operador de caixa e ex-funcionário (por apenas trinta dias) da loja de peças de automóveis, empresa onde estive empregado até a última quinzena. A descoberta do câncer, já em estágio 4, me deixou fora de combate; colocou um ponto final no meu vínculo empregatício após onze anos naquele emprego miúdo. Fui demitido de modo amigável.

Dei entrada para receber o auxílio-doença junto à previdência social. Na semana passada caiu na minha conta-corrente a grana referente aos meus direitos rescisórios. O INSS me concedeu doze meses, entretanto sei muito bem que não vou usufruir nem da metade desse tempo. Agora, ainda que de forma tardia, planejo aproveitar cada momento que me resta. Sobretudo se a visita de Leopoldo na próxima semana resultar em um affaire ou algo parecido.

Durante a manhã iniciei uma parte da faxina. Aos poucos, depois que Rita das Neves Procópio deixou esta casa de herança para mim, pessoa muito amiga de minha mãe e a quem ela prometeu cuidar deste órfão e analfabeto com onze anos. Atingi a maioridade e comecei a fazer determinadas benfeitorias no imóvel depois que Rita se foi para sempre. Os quartos eram compridos, porém estreitos. Contratei um pedreiro e este transformou ambos em um só. A casa, que tem madeiramento de boa qualidade, não era de taipa, ao contrário daquela onde morei com os meus pais.

A moradia da finada Rita é de tijolos do tipo adobe, mas nenhuma das paredes tinha reboco, sequer a fachada. O quintal, considerando especialmente o tamanho deste domicílio, é enorme: são quinze metros de frente e trinta de fundo. Mandei, na primeira etapa dos serviços, fazer ao menos o reboco deste que se tornou o único quarto de que disponho. Com paciência, depois de alguns anos providenciando um servicinho aqui e outro acolá, pude rebocar o imóvel todo. Desmanchei o fogão a lenha na cozinha, que no tempo de Rita enchia as paredes daquele cômodo de tisna. Também iniciei a construção do muro de trás para a frente. Exceto pelo dianteiro, os demais lados têm dois metros e meio de altura. Já o frontal, pensando na ventilação, eu deixei com somente um metro e setenta.

Nos dias atuais, depois de diversos reparos e benfeitorias, conto com uma residência espaçosa e aconchegante, mesmo ela tendo só um quarto. É mais que o suficiente para este solitário escriba. A sala e a cozinha são amplas, ligadas por um corredor de dois metros de largura e cinco de comprimento. Construí uma garagem também espaçosa e um terraço para a área de serviço. Durante uma determinada época acalentei a possibilidade de vender a minha motocicleta e comprar um carro. Mas há uns três anos a moto (uma Pop 2014) foi roubada no Centro.

Mandei os pedreiros (isto na segunda etapa) levantarem duas paredes em forma de um L com cobogós na lateral direita, de modo que o sol nem a chuva impeçam o uso do alpendre da cozinha quando chegam as trezes horas em diante. O terraço dispõe de uma máquina de lavar roupas. A pia da cozinha e da área de serviço, outrora de alvenaria, foram substituídas por pias de mármore. O banheiro também recebeu novo piso, a exemplo das paredes, devidamente revestidas com cerâmica branca. A casa inteira, aliás, recebeu um produto branco chamado selador e, na sequência, o imóvel foi inteiramente pintado de branco.

O piso interno, antes pavimentado apenas com tijolos, foi coberto com cerâmica. A frente e o lado externo ganharam calçadas com cerâmica antiderrapante. Portas e janelas (rústicas e com algumas avarias ocasionadas pelo tempo e as más condições da madeira), consegui trocá-las por outras de maçaranduba e receberam pintura azul. Há cerca de seis meses troquei as telhas por novas e contratei um profissional para fazer o forro em gesso.

Preciso destacar que essas transformações levaram, se não estou enganado, oito anos. Economizei tostão por tostão para adquirir o material e cobrir o custo da mão de obra. Tudo calculado, um passo de cada vez. Agora (triste realidade) não poderei usufruir desses tão perseguidos e batalhados benefícios.

É isto. Parece que cuidei mais deste imóvel do que da minha saúde. Exames preventivos ou periódicos, algo a que nunca dei muita importância, pois me sentia saudável, talvez tivessem detectado o tumor na fase inicial, com provável possibilidade de operar e de cura. É tarde para chorar o leite derramado.

Não posso nem devo me deixar abater nesse ensejo em que tenho uma visita mais que especial para receber nos próximos dias. Pressinto que ter conhecido Leopoldo Nunes renovou a minha vontade de continuar lutando. Sei que se trata de uma luta em vão, inglória, entrementes vou aproveitando ao máximo essa chance de conquistar uma pessoa que, talvez, venha colocar um pouco de luz e dulçor neste meu mundo sombrio e amargo.

Daqui até a próxima terça estarei com a casa em ordem. Farei, como eu disse há alguns minutos, a limpeza aos poucos. Minhas forças estão alquebradas e necessito repousar durante longos períodos. A fraqueza constante, a indisposição, além das dores no abdome, vão e voltam em um curto espaço de tempo.

Segue o problema da minha herança. Já contratei um plano funerário, a empresa me assegurou que eu serei enterrado no túmulo dos meus pais, no Cemitério São Sebastião, no entanto existe o detalhe da cobertura, também chamada de carência. O plano que contratei, com mensalidade de oitenta reais, prevê uma carência de longos quatro meses.

Receio morrer antes disso e ser enterrado em uma vala qualquer aberta pela Prefeitura, decerto em um caixão ordinário. Se por acaso o meu elo com Leopoldo se transformar em uma relação homoafetiva, então vou revelar a ele o meu drama em detalhes e, apesar de muito cedo, ele poderá se transformar em meu herdeiro. Não quero de jeito nenhum que esta casa fique às moscas. Temo que alguém (um oportunista, aproveitador) se aposse dela através de usucapião. Minha esperança é o jovem comerciário. Antes, porém, devo examinar o perfil, o caráter de Leopoldo.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 14

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 31/08/2025 - 06:38h

O Efeito Casulo – Dia 14

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Hoje, entre as oito e as nove, fui de novo ao mercado. Cedinho, considerando que o comércio só abre às oito. Contrariando o costume, levantei-me alguns minutos após as seis. Antes, contudo, busquei me tranquilizar, equilibrar o meu aspecto psicológico. Não topei com nenhum vizinho ao sair, detalhe que me agradou. Não havia muitas coisas na minha listinha de compras. Poucas, para dizer a verdade. Os produtos que mais me interessavam eram pães, manteiga, um bolo de macaxeira, umas bolinhas de queijo e café. Café e a manteiga foram comprados só para aproveitar a viagem, pois os tenho com sobra, além de um número razoável de víveres adquiridos recentemente: umas latas de atum, de sardinhas, açúcar, macarrão e massa de milho. Há também aqueles que conservo na geladeira, a exemplo das sobrecoxas de frango, frutas, legumes e verduras. Não precisarei comprar produtos de higiene e limpeza agora.

Nesse horário uma grande parte dos caixas estava quase vazia. Olhei para a esquerda e para a direita e me encaminhei para um caixa em que havia só uma mulher na minha frente com uma cesta de plástico vermelha. Não senti nenhum desconforto, nada parecido com o assomo de pânico que me acometeu da última vez em que eu estivera naquela loja. Não pude deixar de notar a simpatia e beleza do rapaz no atendimento. Vi sinais de que fosse homossexual, que gostasse de se relacionar com homens: discretos indícios, trejeitos afeminados que não possuo.

Era uma figura bem-apessoada, repito, talvez medindo um metro e oitenta. Olhos e cabelos negros, baixos no rodapé, mas com uma cabeleira cheia, sobretudo a parte que pendia formando um topete sobre a testa alva, encimando aquele rosto angélico com rala barba raspada com esmero. Não tenho por que negar que a beleza do moço me deixou ligeiramente tonteado. Quando chegou minha vez, para o meu espanto, ele me deu um bom-dia e me chamou por meu nome: “Bom dia, senhor Fernando. Como vai? Ainda trabalha naquela loja de peças?”.

Fiquei pasmo, atrapalhado diante desse homem na faixa dos trinta anos que me reconhecera e me identificou com segurança. Percebendo que eu não sabia de quem se tratava, cuidou logo de se identificar com um sorriso perfeito, encantador, que lhe formou duas igualmente graciosas covinhas nos centros das bochechas. Só então pude me dar conta, colocar-me a par daquele jovem deveras agradável. Tratava-se de Leopoldo Nunes, tipo discreto e organizado que trabalhou na loja de peças durante um mês no setor de almoxarifado, cobrindo as férias de outro funcionário. Depois do período de trinta dias, o almoxarife retornou para o seu posto, e Leopoldo foi dispensando com a promessa de uma contratação efetiva.

Isso não aconteceu. Passaram-se uns dois anos e agora ele estava diante de mim com ar de satisfeito por me reencontrar. Vestia o uniforme do supermercado, obviamente, e mostrava competência na função que desempenhava. Revelou, como mencionei, que se sentia feliz por aquele reencontro. Virou-se para um colega também do caixa e me apresentou ao rapaz, outro jovem simpático, todavia não tanto quanto Leopoldo. O amigo dele, não menos educado, respeitoso, disse: “Muito prazer, senhor Fernando”. Então me senti duplamente bem tratado naquele ensejo. Leopoldo, não bastasse a fidalguia com que me recebera, ainda narrou de modo satisfeito e conciso o fato de havermos trabalhado na mesma empresa. Eu não tinha qualquer lembrança disso, entretanto ele destacou o seguinte: “O senhor sempre foi um bom sujeito”.

Ao ser indagado se ainda trabalho na loja, respondi-lhe, com certo embaraço, que atualmente estou afastado porque venho cuidando de um problema de saúde. De doença, melhor dizendo. “O senhor está mais magro”, comentou ao mesmo tempo em que ia passando minhas compras sem pressa alguma. “Pois é, perdi peso. Isso tem a ver com a enfermidade. Mas está tudo sob controle. Ao menos foi o que meu médico afirmou após os últimos exames que apresentei na semana passada”, respondi sem olhar nos olhos dele, desconfortável pela mentira que acabara de apresentar. Não poderia, porém, em um breve e casual encontro como aquele, revelar ao jovem e belo Leopoldo que me restam poucos meses de vida. “Eu moro aqui pertinho. Tão perto que às vezes deixo minha bicicleta em casa e venho fazer algumas compras a pé. Minha residência fica na Pedro Velho, diante de uma academia de musculação. Acho que a menos de um quilômetro. Local tranquilo, sem roubos e furtos”.

Acrescentei isso por falta de nada melhor que pudesse dizer. Para minha surpresa, ele respondeu que também reside na Pedro Velho. “Um bocado mais para baixo, no Santo Antônio”. Por felicidade, o movimento no mercado àquela hora era mínimo. Durante esse tempo em que se deu nossa conversa não surgiu nenhum outro cliente com o seu carrinho ou uma cesta de compras.

“O número de minha casa é o 513. Se quiser me visitar qualquer dia, a gente pode tomar um cafezinho e conversar mais tranquilamente. Aqui não dispomos de muitos minutos, bem pouca conveniência, não acha?”, lancei o convite tentando não parecer afoito nem revelar segundas intenções, embora o meu intuito era justamente cativá-lo de alguma maneira o quanto antes, considerando que a chance que se apresentara no supermercado tinha que ser aproveitada naquele exato momento. “Claro, senhor Fernando. Será um grande prazer”. Nesse instante procurei logo quebrar aquele protocolo sem serventia e meio restritivo. “Olha, Leopoldo; não precisa me chamar de ‘senhor’. Fernando já basta. Até porque já nos conhecemos de outro lugar, e nossa diferença de idade não é tão ampla”. Ele concordou: “Sim, claro! Você está correto. Chamarei apenas Fernando. Falei dessa forma mais pelo costume aqui no trabalho”.

De olho se algum cliente se aproximava do caixa, perguntei quando ele estaria de folga. Respondeu que na terça e quarta da próxima semana. Para mim era oportuno, visto que estávamos no sábado; eu teria tempo de sobra para dar uma arrumada na casa. Acertamos os detalhes com a rapidez que a situação exigia. Então, justo no momento em que ia encostando um casal com um carrinho cheio de mercadorias, acertamos o horário para as dezessete horas e trinta minutos da terça vindoura. Trocamos os números do WhatsApp e um aperto de mãos, ambos sorridentes. Fui embora com o revigorante sentimento de que aquela talvez fosse a oportunidade de conseguir um substituto no meu peito para Ricardo Gurgel, já morto e enterrado. Além de atraente, Leopoldo Nunes vivia às próprias custas. Eu não seria explorado como antes.

Como se tratava de pouca coisa, acomodei as compras em uma mochilinha de náilon verde-claro que costumo usar, principalmente, para o transporte de pequena quantidade de objetos. Deixei a loja com dois sentimentos extremamente antagônicos. O primeiro, relativo ao meu reencontro com Leopoldo e o convite para o café na terça e um bate-papo que talvez gere outros frutos. O segundo, deprimente e devastador, tem forte vínculo com minha doença. Este último me devora o bem-estar, otimismo e possibilidade de me relacionar, conhecer alguém especial. De qualquer modo, ainda que eu tenha que expor toda a história de meu câncer para ele em algum momento, vou me preparar, fazer uma faxina, arrumar a casa para recebê-lo.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 12

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 13

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 24/08/2025 - 03:48h

O Efeito Casulo – Dia 13

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Conforme narrei da madrugada de ontem para o final da manhã do mesmo dia (veja AQUI), o vizinho à esquerda de minha casa espancou, de modo animalesco, selvagem, a própria esposa, talvez namorada. Não sei dizer, não me importa o status conjugal deles. O que pude avistar já me atordoou além da conta. Não fui às redes sociais nem aos blogues à procura de detalhes sobre o ocorrido. Uso o meu celular cada vez menos. As redes sociais me dão asco, repugnância. Tenho um monte de ligações não atendidas. O aparelho fica no silencioso. Não mais me interessa o caso do espancamento. É bem provável que tenha sido veiculado pelos noticiários televisivos, quem sabe em rede nacional, contudo não ligo o meu televisor há quase duas semanas. O que sei é que meu estado de nervos sofreu grande abalo por causa disso. Ainda me encontro nervoso; o coração com o ritmo acelerado. O tremor das mãos quase desapareceu, mas uma grande quantidade de pensamentos negativos e destrutivos ocupa a minha cabeça. Por exemplo, eu me imagino, me vejo cometendo toda espécie de violência contra uma centena, quiçá mais, de indivíduos que considero odiosos, abomináveis. Pústulas deste país e um monte de canalhas de outras nações, habitantes de vários pontos do globo.

Tal relato (este manifesto, esta catilinária contra gente escrota e poderosa) já se tornou uma revelação cansativa. Em determinadas vezes expus iguais, semelhantes ímpetos dessa natureza. Mossoró não fica de fora. Aqui existe um presunçoso rebanho de patifes que estaria na minha alça de mira se, por graça de Deus ou do Diabo, eu adquirisse poder para executar meus objetivos sem ser importunado pelas autoridades, os supostos homens da lei. Algumas cabeças seriam transfixadas de longa distância por projéteis de grosso calibre. O ódio que devoto a uma récua de sacripantas vem prejudicando, conturbando meu sono. Tenho (mesmo tomando cinco fármacos diferentes) enorme dificuldade para dormir. Por ora, todavia, fico na vontade. Não me proporciona prazer nenhum alimentar essas inofensivas lucubrações. O leitor não é bobo e decerto vai ficando de saco cheio diante desses meus poderes que nada podem. Melhor, por enquanto, é baixar a bola. Cachorro que muito late, como se diz, não morde. Essa, no entanto, é uma máxima que me parece por demais idiota, sem credibilidade.

Mudemos de assunto. Os meus arroubos psicóticos precisam se limitar ao meu cérebro doentio, enfermiço. Dei mais uma olhada por cima do muro, observei o que foi possível alcançar do meu posto de observação, e acredito que o número de vizinhos com as suas cadeiras nas calçadas aumentou sobremodo. É fácil deduzir que a selvageria do crápula que espancou a sua companheira é o tema ainda em alta. Deduzo isto. Em maior quantidade, avistei as mulheres próximas de minha casa falando demais; volta e meia uma dizia um gracejo e todas gargalhavam. Entre as quais, devo registrar, estavam moças bem jovens, mulheres de meia-idade e senhoras avançadas em anos. Não me dei ao trabalho de contar, entretanto posso supor que se tratasse de umas oito. Do sexo masculino, sendo agora exato, havia justos quatro elementos.

Era por volta das cinco e quinze da tarde. O trânsito nesta rua se encontrava como em geral se comporta de segunda a sábado: com intenso e ruidoso tráfego. É oportuno registrar que, aos domingos, esse fluxo de veículos, principalmente o de carros e motos, cai de forma considerável. Creio que tenha a ver com o fato de que os proprietários desses transportes automotores aproveitam esse dia consagrado ao descanso para curtir a família, assistir a um jogo de futebol pela tevê, tão somente tomar umas cervejas, umas cachaças em casa, e esticar o esqueleto em uma cama, uma rede; dormir algumas boas horas. Assim, não tanto quanto a Avenida Alberto Maranhão nem Presidente Dutra, a Pedro Velho, em especial no que abrange o bairro Santo Antônio, é uma artéria de expressiva circulação. Transita regularmente por aqui uma gente trabalhadora; são os ambulantes, pessoas oferecendo os seus diversos tipos de produtos.

Uma hora surge na esquina o Golzinho dos bolos, das bolachas, pães e biscoitos de variados formatos e sabores. Entre as onze e o meio-dia, costumeiramente, passa a picape dos “ovos fresquinhos” que, a exemplo do Gol, chama a sua clientela por meio de alto-falantes. Noutros horários passam o leiteiro, o homem do queijo, a mulher das canjicas e pamonhas, o vendedor de algodão-doce com uma buzina de borracha que ele aperta de quando em quando. Temos ainda, entre outros, o cidadão que anuncia (este sem contar com um sistema de alto-falantes) as suas castanhas assadas e amendoins torrados. Pela manhã, no mais das vezes em torno das dez e meia, com uma frequência quase religiosa, surge um senhor de uns sessenta anos vendendo frutas e verduras em uma carroça puxada por um cavalinho branco e magro feito o dono.

Em algumas ocasiões, a depender de meu interesse, abria o portão e esperava chegar um desses ambulantes que vêm anunciando os seus produtos desde longe. Geralmente, como não gosto muito das iguarias dos mercados, eu tinha o hábito de comprar canjicas, pamonhas e também as castanhas e os amendoins torrados. Hoje em dia, depois que veio o diagnóstico do câncer e eu me fechei nesta casa, com raras saídas para adquirir alguns gêneros no mercado, não mais ponho a cara fora a fim de comprar os produtos das pessoas que vendem suas mercadorias nas ruas. Além do câncer, agora tenho que lidar com a fobia social, uns vestígios de síndrome de pânico e cenofobia. Minha última ida ao supermercado foi um tanto quanto dramática. Por pouco não tive um surto mais acentuado; o episódio ficou só no mal-estar, consegui passar minhas compras no caixa e sair do comércio sem chamar a atenção de ninguém.

No início da noite de ontem (acontecimento que me causou uma ligeira insegurança) alguém deu umas leves batidas no portão. Acho que umas duas pancadinhas. Quem será? Indaguei de mim para comigo. Não tardou a chamar meu nome. Hesitei. Considerei a possibilidade de não responder, de fingir que não estava. Porém me aproximei e permaneci em absoluto silêncio. Com cuidado para não fazer barulho sequer com a respiração. Que a visita fosse embora. No entanto tomei coragem e respondi à mulher. Sim, era uma mulher que me chamava. Antes de abrir, indaguei pelo nome. “Maria”, respondeu. Ela viera me entregar um presente. Tratava-se de um livro de nome um tanto comprido, como hoje está na moda. Eis o título: Os Grandes Inspetores Gerais no Acampamento de Mossoró, do escritor e maçom Luiz Soares Filho, irmão de Maria, que gentilmente me fez chegar sua bem-confeccionada obra pelas mãos da irmã, vizinha cuja casa fica a duas moradias desta. Ainda não li a obra por completo, estou fazendo isso aos pedaços, entrementes gostando do seu conteúdo. Apesar do fastio que me acomete e tem me afastado das leituras ultimamente. Fiquei satisfeito por Luiz Soares haver dito à sua irmã que acompanha meus escritos todo os domingos.

É sempre bom saber que alguém está lendo o que a gente escreve. Não importa que seja em um blogue desta província aos domingos, na concorrida Folha de São Paulo, no poderoso The New York Times. Não. Contar com esse cidadão acompanhando meus textos (segundo sua irmã) gerou no meu peito um bom bocado de alegria, uma inofensiva e saudável sensação de orgulho. Então, sem perder o vínculo com a descoberta desse inesperado e mais recente leitor, homem de letras que eu desconhecia, registro que o meu médico psiquiatra, o doutor Jarbas Sabóia, aconselhou-me tomar duas quetiapinas de 100 miligramas (Neural) e dois comprimidos de clonazepam (Rivotril) nas noites em que me encontro com o sossego e o sono perturbados. Sujeito previdente, doutor Jarbas teme que eu esteja às vascas de uma nova crise psicótica.

Já o doutor Epitácio Coelho, oncologista que me forneceu o diagnóstico de meu câncer de pâncreas, este classificado em estágio 4, inoperável, metastático, também me prescreveu um punhado de remédios, visto que recusei me submeter ao tratamento quimioterápico. O doutor Epitácio, não menos experiente, alertou-me sobre o detalhe de que abrir mão da quimioterapia significa uma redução na minha expectativa de vida que, segundo ele, seria de menos de seis meses se eu ficar só com o procedimento medicamentoso. Recusei! Trinta ou sessenta dias a menos não significa muito para mim a esta altura do campeonato. Torço apenas que daqui até o apagar das luzes eu possa terminar de escrever e, se possível, fazer o copidesque e a revisão deste romance autobiográfico. Ou, reavaliando o gênero, uma autobiografia asfixiante, correndo igualmente contra o tempo. O resto é apenas o resto e não me interessa.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 11

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 12

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 17/08/2025 - 08:04h

O Efeito Casulo – Dia 12

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Hoje acordei antes das quatro da madrugada. Melhor dizendo, fui acordado. Vindos da casa vizinha, à esquerda de quem chega ao meu domicílio, ouvi gritos assustadores. Fiquei atônito. Vários e aflitivos pedidos de socorro. Pude identificar com clareza que se tratava de uma mulher. Sim, uma voz feminina. Esse clamor por ajuda foi interrompido. A seguir o que consegui escutar foram sons abafados. Era isso, ela estava sendo espancada. Novos gritos cortaram a noite. Todavia, ao contrário dos primeiros, começaram a ficar sufocados. O barulho das pancadas continuava. A pessoa precisava de apoio imediato. Os prováveis socos e pontapés não cessavam. Os sons se tornaram mais agudos. A voz, inicialmente clamando por amparo, logo se resumiu a penosos gemidos, uma espécie de choro entrecortado. Enquanto isso, de modo autoritário e raivoso, um homem falava alto, dizia palavrões, ameaçava. Uma forte angústia tomou conta de mim. Tamanha violência contra uma pessoa indefesa tinha que parar o quanto antes. Trêmulo, rapidamente peguei o telefone e liguei para a polícia.

Um indivíduo na outra ponta da linha, ao ser informado sobre o que estava acontecendo, e tendo eu revelado a localização da ocorrência, interrompeu de modo brusco a minha denúncia. Disse-me que havia recebido outros telefonemas de vizinhos relatando o mesmo assunto. Acrescentou que duas viaturas já estavam a caminho da Pedro Velho, neste Santo Antônio. Fiquei de certo modo aliviado com tal resposta. A essa altura um sentimento de revolta me dominava e, como mencionei, as minhas mãos estavam trêmulas. A seguir abri a porta e me posicionei para examinar a rua por cima do muro, que é baixo o bastante para esse tipo de verificação.

Não houve demora. Ouvi as sirenes dos veículos militares se aproximando e então as luzes azul e vermelha dos aparelhos estroboscópios se espalharam nas fachadas das casas e nas árvores. Eu, repito, havia aberto a porta e espreitava por cima do muro. Além dos veículos da polícia, chegou também uma ambulância, que parou bem diante da minha casa. Com a luz apagada, resguardado pela penumbra, avistei alguns vizinhos defronte do endereço onde a coitada fora brutalmente agredida pelo seu marido ou namorado; não sei dizer o que são. Tratava-se de um casal jovem, ambos (suponho) com menos de quarenta anos, sendo ela ainda mais nova do que o agressor. A polícia extraiu o criminoso da casa debaixo de solavancos e puxões de cabelo. Em seguida, com o rosto todo ensanguentado, saiu a infeliz amparada por uma enfermeira e um enfermeiro do Samu. A primeira assistência ocorreu na parte traseira da ambulância.

O tipo que espancou sua consorte, branco, porte atlético, corpo cheio de tatuagens coloridas, descalço e sem camisa, foi algemado com as mãos para trás e enfiado no compartimento que ocupa o porta-malas das viaturas. A vítima, pelo que pude enxergar, e considerando a forma de proceder dos enfermeiros (entre os quais havia um terceiro profissional prestando auxílio à jovem, possivelmente um médico), estava com outras partes do corpo machucadas, sobretudo mãos e braços. Daqui só puder avistar bem nitidamente o semblante da moça banhado de sangue. Creio que uns dez ou quinze vizinhos estavam ao redor das viaturas e da ambulância. Alguns cidadãos e cidadãs proferiam palavras de indignação contra o sujeito. Daí a pouco a ambulância deixou o local transportando a mulher com a face repleta de cortes e inchaço.

A casa é alugada e tem grande rotatividade de inquilinos. O casal, por exemplo, alugara o imóvel há menos de quatro semanas. Discutiam com frequência. Todos aqui por perto têm conhecimento disso. Nessa madrugada, no entanto, o bate-boca descambou para a agressão extrema. Não me interessei por saber detalhes acerca desse fato, mas o caso está na internet, especialmente nos blogues.

Nesse momento perdi o sono. Depois de rolar na cama de um lado para o outro, decidi ligar o notebook e escrever a respeito da surra aplicada contra essa vizinha. Decorrida cerca de uma hora, o sono voltou, suspendi a redação e fui me deitar. Sentia-me perturbado, a cena da jovem com o semblante daquele jeito ficou na minha cabeça. Enfim, entretanto, adormeci. Por volta das nove horas, ao acordar, deixei a cafeteira coando o café, tomei um banho e outra vez liguei o computador para finalizar a abominável história do covarde que massacrou a sua companheira.

Torço que na cadeia, onde quer que esteja, ele encontre quem lhe quebre as ventas. Esses machões boçais precisam aprender (do pior jeito possível) que o sexo feminino não é saco de pancadas. Lembro-me agora de um adágio meio fora de moda que diz que não se deve bater em mulher nem com uma flor.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 10

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 11

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 10/08/2025 - 04:30h

O Efeito Casulo – Dia 11

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Desconfio de que vou morrer antes dos cinco meses. Sucesso este que decerto comoverá poucas pessoas. Esta história pessimista, que venho redigindo há exatos onze dias, não atingiu, não fisgou os ariscos leitores. Só uns gatos-pingados, como que movidos por compaixão, emitem meia dúzia de palpites. Domingo retrasado, por exemplo, foram apenas três leitores a opinar acerca do meu relato. O próprio editor do blogue, que no início se empolgou com a minha “coragem típica de um verdadeiro lutador das letras”, mostra-se hoje menos entusiasta quanto ao ibope de minha “escrita arrebatadora”.

Há indivíduos que sequer conseguem distinguir o gênero literário exposto. Alguns julgam se tratar de uma mera ficção, um conto ou coisa de menor relevo. É isto. O malogro destes capítulos dominicais (aproveito para explicar que se trata de um romance autobiográfico, uma autobiografia romanceada, no mínimo) tem a ver com a desimportância do escriba em cena. Assumo a minha mediocridade.

Conforme eu já disse, dispensei a quimioterapia e tenho consciência de que isso, assim como o doutor Epitácio Coelho me advertiu, deve encurtar significativamente meu tempo de vida. Os sintomas vêm se repetindo cada vez mais. Urina escura, perda rápida de peso, falta de apetite, náuseas, episódios de vômito, dor no abdome e fezes esbranquiçadas se revelam com velocidade assustadora. A gencitabina, o irinotecano, a oxaliplatina e o leucovorin, medicamentos que o oncologista me convenceu a usar no dia seguinte ao diagnóstico, parecem um tanto menos eficazes a esta data. O cansaço físico e indisposição até para escrever também são uma rotina.

Ainda assim, porém, vou persistindo. Não me resta nada de mais digno a fazer. Após minhas abluções, preparo o café, como um pão com manteiga e uma fatia de queijo, ligo o computador e começo a registrar meu cotidiano e, por vezes, trago à tona algumas reminiscências, memórias de meus anos mais verdes, de minha infância e mocidade nesta Mossoró sem honra e sem glória tanto quanto eu. É necessário que se declare. Esta cidade, ao menos do ponto de vista administrativo e cultural, é uma farsa absoluta, um embuste, uma fraude grandiloquente, megalômana.

Nosso ego coletivo é mastodôntico, descomunal, entretanto não temos semancol, autocrítica. Há quase um século (2027 está chegando) sustentamos um heroísmo quixotesco, um embuste libertário, uma história lampiônica sobre valentia; liberdade vendida desde sempre na imprensa escrita, falada e televisionada. Somos, este município e eu, impostores. De quando em vez, como se pode observar, entrego a cara à tapa, reconheço o meu fracasso no âmbito das letras, minha estatura microbiana no cenário da literatura tupiniquim.

Houve uma época, façamos justiça, em que tivemos grandeza, respeito, dignidade, honradez; cidadãos sérios no comando administrativo. Os habitantes desta urbe, os mossoroenses de antanho, não eram os arrivistas e picaretas de agora. Em particular os gestores, os homens e mulheres públicos. Degeneramos! Depois de 1927 para cá, quando os defensores desta então província começaram a ser menos homenageados ou estudados do que os invasores, a vaca foi para o brejo.

Descambamos para uma terra do faz de conta, da pirotecnia, do foguetório e do engodo, da politicagem, dos oligarcas, do monopólio político e, mais recentemente, dos falsos libertadores. Por décadas a fio, feito uma chaga, uma ferida incurável, foi entrando e saindo, saindo e entrando pilantras de toda espécie na administração pública desta enganosa capital da cultura. Ache ruim quem quiser! Aqui está o sujo falando do mal-lavado, todavia alguém precisa fazer algo de inaceitável neste município; nem que seja dizer a verdade.

Há muito os prostíbulos do Alto do Louvor fecharam as portas, o meretrício agora é virtual, acertado e consumado por meio das redes sociais e via WhatsApp. Findou-se aquela zona dos prazeres remunerados, contudo possuímos uma Câmara de Vereadores e um Palácio da Resistência que corrompem e se deixam corromper. Tudo na mais completa cara de pau. Nosso Executivo, o majestoso Palácio da Resistência, sob a batuta do contente e serelepe prefeito Jorge Copperfield, é apontado por quatro ou cinco jornalistas, tipos entrincheirados em blogues de minúscula projeção e cujo impacto não chega nem a fazer cócegas no inquebrantável burgomestre, como um antro de negociatas e desmandos. A “casa do povo”, na ótica desses blogueiros, transformou-se em uma casa de tolerância, um randevu oficial. É o que denunciam.

Pois bem. O mandatário da Prefeitura Municipal de Mossoró, esse bom-moço que por vezes parece uma gazela saltitante, de acordo com matérias veiculadas pelos referidos blogueiros, é uma espécie de agiota, um craque na cobrança de (segundo têm alardeado) dez por cento de propina. A questão é que até o presente instante nada de concreto e desabonador foi efetivamente provado contra o populista mandachuva do Palácio da Resistência. O homem prossegue intocável perante o Ministério Público e a Controladoria-Geral do Município. A galinha dos ovos de outro do senhor Copperfield é a Estação das Artes Elizeu Ventania e valioso pedaço da Avenida Rio Branco, espaços onde a profusão de pão e circo para a manada lhe asseguram popularidade e aprovação por parte dos munícipes como nunca visto na terra de Santa Luzia. O bom-moço é por demais competente na captura e hipnose dos seus eleitores.

Basta! Não estou a fim de malhar em ferro frio. O dono de Mossoró, sem qualquer importunação do Ministério Público, do Tribunal de Contas nem da Controladoria-Geral do Município, segue de vento em popa rumo ao governo do estado. Sim. O próximo cargo de governador é dele e o boi não lambe. Parece acima da lei, do bem e do mal; não possui predador, adversário que ameace sua campanha para o Palácio de Despachos de Lagoa Nova. Isso me parece tão certo como dois e dois são quatro. Copperfield, prestidigitador dos mais hábeis da política brasileira, caminha para cima e para baixo com um sorriso (embora teatral) de orelha a orelha. Revelou-se um estrategista precoce, um fenômeno no aboio da manada com todos os méritos.

Enquanto isso, à Rua Pedro Velho, no Santo Antônio, um sapateiro das letras se encontra chovendo no molhado, fazendo projeções que não representam novidade nenhuma. Esse apalazador sou eu mesmo, Fernando Barros, um obscuro operário das letras desta freguesia indiferente aos meus esforços e dedicação à língua portuguesa. Mas não pendamos para a autopiedade, para o vitimismo ou a estratégia autoacusatória. Apesar da saúde debilitada, rondado pela Moça da Foice, tento produzir e levar adiante estas linhas prolixas, verborreicas e sem rutilância.

Eis o meu pequeno drama: um autor sem leitores, um narrador moribundo que não reúne outra virtude à exceção da teimosia, da perseverança e renitência em se extinguir na memória, na lembrança do meu berço de nascença. No fundo, entretanto, sei que esta aldeia já sepultou a memória de manejadores do nosso alfabeto de importância muito superior a mim. Não importa. Não vou perecer duas vezes, morrer no improvável além-túmulo se Mossoró tratar minha trajetória e devoção à escrita como um risco n’água, uma partícula de cinza ao sabor da ventania. Fazer o quê?!

Quando me for não levarei nada. Ainda menos reconhecimento e louvores. Este cu de judas já possui seus eleitos, os seus queridinhos oficiais e juramentados. Este vasto epitáfio passará despercebido ou, decerto pior, será solenemente ignorado. Não, administradores filhos da puta. Peguem as suas cartas marcadas, suas homenagens mesquinhas e metam no rabo. Admito que estou dando valor demais ao que não vale uma flatulência. Estará de bom tamanho se, ao menos, um livro meu ganhar uma edição póstuma.

Ainda não me movimentei nesse sentido. Tenho dois mecenas em vista, intelectuais com profissão definida e não meramente operários, reféns deste sacerdócio da pena e do tinteiro. Os indivíduos aos quais ora faço alusão têm panos para as mangas e notória sensibilidade diante de fodidos como eu, escravos da escrevinhadura. Há mais de uma semana venho recebendo o auxílio-doença aprovado e liberado pela previdência social, um tantinho a mais que o meu antigo salário de vendedor na loja de peças de automóveis. O detalhe é que esse recurso mal atende minhas necessidades mais básicas: comida, água e luz. Não disponho de meios com que mandar imprimir a simbólica tiragem de um cordel, gênero versífico com o qual alguns cordelistas bafejados pelo Palácio da Resistência obtêm custeio e exibem admirável êxito neste paraíso do cangaço. É isso. Um adestrado grupinho está por cima da carne-seca.

Trata-se, convenhamos, de uma pequena esmola que o governismo destina a esses meritórios cultores do verso rimado e metrificado. É bom destacar que nesse meio existem aqueles que produzem cordéis do pé quebrado, com rimas, métrica e oração defeituosas, poeticidade e literariedade ruinzinhas. De qualquer modo os cordelistas eram bem menos prestigiados na era dos políticos oligárquicos, que dominaram esta freguesia e inclusive o estado por dezenas e dezenas de anos.

Nem preciso dizer que estou fora dessa turma. Escribas de outras modalidades de escrita têm adquirido, depois de muito rastejar e puxar o saco do mandachuva, algumas esmolinhas para ajudar a bancar a impressão de contos, crônicas, poesia de versos livres e até, volta e meia, surge na praça um romance apoiado financeiramente pelo Palácio da Resistência. Jorge Copperfield, ao que tudo indica, não vai com a minha cara. O rapazinho dissimula, finge desconhecer a minha existência, minha trajetória no universo literário. Para ser coerente e justo, não tiro a razão dele. Nunca joguei confetes sobre o jovem alcaide. Ao contrário, admito, fui insubmisso e pouco tolerante com as escaramuças, com as tramoias contratuais, as obras superfaturadas do nosso imbatível e futuro governador do Rio Grande do Norte. Se Deus quiser! Pois, Deus não querendo, aí não tem jeito, não tem remédio. O bom-moço vai beijar a lona, dar com os burros n’água. Particularmente, isso me parece um caso improvável.

De resto, com muita lábia e espetaculosidade, esse menino prodígio vai longe. Acho que, depois da governadoria, pode se lançar a senador ou presidente da República. O céu é o limite para o prefeitinho Copperfield. O bom-moço, como nunca visto neste cafundório, é uma faca de dois gumes. Corta dos dois lados. Como eu escrevi há um ou dois anos, ele consegue manter um pé na cabeça dos católicos e o outro sobre a moleira dos protestantes. Isto é, serve a dois senhores (ou duas religiões) e tem se saído muito bem. No tocante à manipulação do gado, é necessário e justo que tiremos o chapéu para o dono de Mossoró. Ele é um dínamo! Tem mais selfies no Instagram com o rebanho do que poros sobre a pele. Possui milhares de seguidores em suas redes sociais. Crê tão piamente nas mentiras que conta a ponto de ele mesmo acreditar nas próprias lorotas. É simpático, aprendeu a suportar o cheiro do suor do povo humilde e fez a cabeça de todo mundo. Jorge Copperfield é imparável.

Deixemos o burgomestre com suas agiotagens e parlapatices. Voltemos à minha miudeza, insignificância, obscuridade. Pressinto que meu descontentamento com o senhor Copperfield está beirando a inveja. Com ou sem honestidade, o rapaz é bem-sucedido, é um vencedor, tem origem humilde (o que não significa dizer que tem humildade), enquanto este narrador das imposturas municipais não dispõe de ninguém que segure a sua mão no derradeiro momento da “extrema curva do caminho extremo”, como no célebre soneto de Olavo Bilac. Devo encaixar no meu orçamento, sem demora, ao menos a contratação de um plano funerário.

Se o parasita do Ricardo Gurgel não tivesse morrido, eu o teria chamado de volta para esta casa e ele certamente cuidaria da porra do meu velório e sepultamento. Mas agora o michê se encontra debaixo de sete palmos de terra. Estou, volto a dizer, fodido e mal pago. Penso que mereço este fim melancólico. Sempre fui um elemento caridoso, tinha prazer e senso de obrigação em ajudar os desvalidos, entrementes possuo uma índole ruim.

São raras as noites em que ponho a cabeça no travesseiro e não demoro a dormir imaginando foder uma porção de percevejos sociais. Gente graúda, potentada, podre de rica e escrota. Tenho essas psicoses, anseios destrutivos, sanguinários. Não atingiria, porém, o matador de Ricardo Gurgel. No fim das contas o sujeito me fez um favor. Torço até que não caia nas garras da polícia.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 9

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 10

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 03/08/2025 - 08:00h

O Efeito Casulo – Dia 10

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Hoje à tarde, ao contrário da inércia que tenho vivido há dez dias, fechado nesta casa à Rua Pedro Velho, no Santo Antônio, feito um fora da lei, um bicho assustado, reuni coragem e coloquei a cara fora. Mas apenas por força das circunstâncias. Depois de hesitar, vesti calça, camiseta, tênis, peguei a carteira, o celular e a bicicleta e fui a um supermercado a cerca de meio quilômetro daqui.

Devo dizer que tive um dia sobressaltado. Aliás, para ser sincero, o simples ato de ir ao mercado é que foi uma experiência desconfortável, senão assustadora. E tudo (sei agora) por nada mais do que caraminholas de meu cérebro enfermiço, receios e sensações oriundos de meu estado de nervos. É isso mesmo. Embora muitas vezes eu me permita abater por alguns mal-estares, fobias e paranoias, tenho consciência de que o problema quase sempre é fruto tão só do meu juízo, desta cabeça exponencialmente perturbada desde que o doutor Epitácio Coelho me apresentou aquele diagnóstico, a condição sem escapatória de meu câncer já em estágio quatro, metastático. Fiquei, e continuo, desconcertado. Não é fácil a gente descobrir de repente que está à beira da morte, com um pé na sepultura, restando poucos meses de vida.

É segunda-feira, 28 de julho deste infeliz (para mim) 2025. Olho o canto inferior direito do notebook e constato que são precisamente dezenove horas e vinte e quatro minutos. O dia inteiro transcorreu nublado, e eu me animei com a acentuada possibilidade de chuva. Dias sombrios, de preferência com chuva torrencial e duradoura, é algo que me agrada sobremaneira. De início choveu pouquinho; fiquei na vontade. Bem, não é acerca de eventos pluviométricos que desejo falar.

Tranquei, antes das cinco da tarde, a bicicleta no estacionamento do mercado e entrei naquele sortido comércio. Contrariando o horário, que eu imaginei não fosse tão disputado, deparei-me com a loja muito frequentada. Considerei excessivo o volume do sistema de alto-falantes, que se referia a produtos em promoção, discurso de local perfeito para economizar, diversas vantagens que, ao fim e ao cabo, têm mais de propaganda enganosa do que veracidade. Incomodou-me também o vozerio, o burburinho da clientela, o vaivém de elementos empurrando carros de compras ou portando cestas de plástico vermelhas.

Fiquei com a sensação de que todos me olhavam com indiscrição, com cenhos carregados. Um tipo de desconforto que me fez imaginar que o nome câncer estivesse escrito em uma placa pendurada no meu peito com letras muito legíveis. Por que me encaravam daquela forma? Não faço ideia.

Daí a pouco uma idosa de maquiagem azul nos olhos arregalados segurou meu braço esquerdo e afirmou com voz roufenha: “Você é um morto-vivo! Não deveria estar aqui. O seu lugar é em uma cova no São Sebastião. Você está se decompondo, começa a cheirar mal. Vai morrer! Se não exatamente agora, entretanto o seu fim está bastante perto!” Meu coração ficou aos pulos.

Na sequência, quando me dei conta, eu estava cercado por pessoas estranhas, homens, mulheres e até crianças; cidadãos de várias idades. Sim. Encontrava-me rodeado, debaixo de olhares carrancudos. Senti que meu oxigênio ia diminuindo lentamente. Aqueles olhos me fitavam com severidade. Cogitei que tiveram acesso ao texto que publiquei no domingo.

Recordei-me, em especial, do comentário de uma leitora chamada Bernadete Lino, de Caruaru, que fez duras e arrazoadas críticas ao meu relato de ontem, 27. O círculo parecia se estreitar. Súbito, como num gesto de desespero, empurrei o meu carrinho por entre a velha e um rapaz e me afastei daquele grupo de elementos mal-encarados. No mesmo minuto olhei para trás; não avistei ninguém. Não daquele modo: aglomerados. Então concluí que aquilo não tinha sido real.

Minha respiração voltou à normalidade, o ar regressou aos pulmões. Virei-me umas duas ou três vezes para ver se estava sendo seguido pela velha raivosa. Nada. Nem sinal daquele rosto iracundo; nenhum outro semblante me apareceu com aspecto aborrecido. Tratei de encontrar (nas seções específicas) os produtos e gêneros alimentícios que me interessavam. Fui ao setor de massas e peguei dez pães franceses, um pacote de bolachas salgadas, um bolo de macaxeira e quase quatrocentos gramas de bolinhas de queijo, iguaria quentinha que a moça acabara de colocar em um recipiente de alumínio cujas bordas tinham cerca de cinco centímetros.

Comprei três pacotes de macarrão, um pote de manteiga, duas barras de chocolate meio amargo, seis pacotes de café, dois quilos de açúcar, leite em pó, creme dental, xampu, sabonetes, três sacos de bebidas lácteas, frutas, verduras, feijão, arroz, queijo de coalho, sobrecoxas de frango, pasta de amendoim, cinco latas de sardinha e outras cinco de atum.

Se não estou me esquecendo de nada, acredito que foram essas as coisas. Dirigi-me a um caixa com fila um tanto menor, arrumei as compras em três sacolas grandes, amarrei as alças destas e consegui acomodar as sacolas no bagageiro da bicicleta com uma corda elástica provida de ganchos nas pontas. Cheguei à boca da noite, a chuva ameaçava retornar, contudo a Pedro Velho (próximo deste meu domicílio) se encontrava cheia de vizinhos com suas cadeiras nas calçadas. Outra vez tive a sensação de que todos passaram a prestar atenção em mim. De imediato refleti e considerei essa impressão semelhante à espécie de surto que tive no mercado.

Com os itens guardados nos devidos lugares, tomei um banho e agora me encontro descrevendo o esforço, a aventura de ir às compras. É óbvio que não existiu nenhuma idosa de maquiagem azul nos olhos proferindo maledicências contra mim, entretanto, no justo instante em que redijo este capítulo, momento em que, felizmente, a chuva voltou com abundância, não pude me esquecer de uma única daquelas palavras de mau agouro: “Você é um morto-vivo! Não deveria estar aqui. O seu lugar é em uma cova no São Sebastião. Você está se decompondo, começa a cheirar mal. Vai morrer! Se não exatamente agora, entretanto o seu fim está bastante perto!” Decorrido todo esse tempo, tal prognóstico ainda me dá certo frio na espinha. Embora a mulher não passe de um delírio, o tipo de mal que me rouba o sono e a paz é concreto.

Não estava nos meus planos morrer com apenas cinquenta e dois janeiros. Exato! Nasci aos 27 de janeiro de 1973. Preciso me reunir o quanto antes com os amigos e escritores Marcos Araújo e Clauder Arcanjo, indivíduos de grande sensibilidade e recursos econômicos, aos quais deixarei a batata quente de publicar meus livros inéditos, inclusive esta narrativa desesperada, correndo contra o tempo. Chamarei os dois aqui para falar sobre minha enfermidade e fornecer algumas orientações acerca da edição das obras que almejo sejam lançadas em edições póstumas.

Não sei se mereço tanto crédito e vultoso investimento depois de morto. Não sou o que se possa chamar de mossoroense exemplar, de literato querido e bem-comportado. Longe disso. Apesar de tudo, torço que meus hipotéticos editores atendam este meu último desejo quase no leito de morte. Se acaso se comprometerem e depois abandonarem o compromisso, asseguro que meu espírito (acaso isso exista) voltará para aturdir esses autênticos luminares de nossa intelectualidade.

Tais cavalheiros honrarão nosso trato.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 8

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 9

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 27/07/2025 - 08:32h

O Efeito Casulo – Dia 9

Por Marcos Ferreira

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Ontem, após refletir sobre meu findado e tóxico relacionamento com Ricardo Gurgel, indivíduo que nunca teve outro interesse no tocante a mim a não ser o da ambição financeira, hoje decidi convidá-lo para almoçar comigo. Isto porque fiquei sensibilizado quando ele me telefonou e disse estar na sarjeta; tornara-se um morador de rua. Por tudo o quanto já me aprontou, é lógico que aquele parasita não merecia a minha menor compaixão. Entretanto, por não conseguir vencer o fascínio que ainda sentia por ele, tive essa ideia de chamá-lo para almoçar e, sem rodeios, contar a história do meu câncer, dizer que tenho poucos meses de vida e expor meu intuito de torná-lo herdeiro desta casa e de tudo o mais; os últimos haveres que me restam.

Cedo, pouco antes das sete, cuidei de me barbear. A barba estava hirsuta, grisalha. Fiz isso com esmero, buscando melhorar a aparência com o propósito de exercer alguma atração sobre Ricardo. Com cuidado, pois não tenho habilidade com tesoura, aparei o excesso de cabelos a encobrir as minhas orelhas. Fui ao guarda-roupa, escolhi uma bermuda e uma camisa das mais novas (ou menos usadas), peças que eu poria depois de um banho e quando ele estivesse perto de chegar. Preparei-me assim, no capricho, para receber um cara decerto malcheiroso e barbudo.

Por volta das dez horas, então, pensando em ele contar com tempo hábil, de maneira que pudesse comparecer sem necessidade de se apressar demais, telefonei e não fui atendido. O celular tocou até a ligação ser direcionada para a caixa de mensagens. Decorridos uns trinta minutos, e não tendo ele retornado a minha chamada, liguei novamente. De novo não atendeu. Dei mais um tempo. Levei em conta alguns motivos pelos quais não estava me atendendo. Imaginei, entre outras situações, que se encontrava doente, ou o aparelho estivesse no silencioso e não notou meu contato. Considerei ainda a possibilidade de que houvesse ficado sem o telefone, vendido ou sido tomado por algum marginal. Assim mesmo telefonei pela terceira vez.

Entre novas suposições, falei de mim para comigo: está se fazendo de mouco, bancando o difícil, usando de astúcia, mas interessado em retornar o meu contato. Sim, estaria brincando de silêncio. Só que também sei brincar de silêncio, sei ignorar quando sou ignorado, não dar atenção a quem finge não me ver. Nesse ínterim, para não deixar tudo para o último instante, eu já tomara algumas providências em relação ao almoço. Requentara um feijão que preservara na geladeira há dois ou três dias, fiz arroz-agulha, preparei uma salada de frutas. Mantive-a sob refrigeração na esperança de o sacana dar um sinal de vida. Porém não deu. Estavam à espera duas latas de sardinha e uma de atum. Isto seria levado ao fogo no devido instante.

Bem-humorado, de temperamento agradável, simpático, Ricardo sempre foi um tipo bronco. Não quis saber de estudar, sequer avançou ao ensino médio, estacionando na sétima série do primeiro grau. Por simples ignorância, totalmente alheio a esse meu mundinho da literatura, da escrevinhação, jamais destinou o menor crédito para o fato de estar envolvido com um escritor, um homem de letras, um ficcionista de somenos importância, um literato de baixo relevo neste município.

Em momento algum demonstrou impulso, interesse em retirar, folhear um volume desta minha pequena estante de livros. Não. Livro é algo que em circunstância nenhuma exerceu curiosidade sobre ele. Ao longo de mais ou menos quinze meses sendo meu amante, não me recordo de que Ricardo Gurgel me fez uma única indagação a respeito de minha atividade enquanto escriba. Interessavam-lhe apenas as minguadas quantias, a pouca grana que eu dava a ele. Sobretudo no início do mês, ocasião em que eu recebia meu salário da loja de peças de automóveis.

Passava um pouco do meio-dia quando, vencido pela ansiedade, peguei o telefone e liguei pela quarta e última vez. Enfim, apesar da minha surpresa, a chamada foi atendida. Mas não foi a voz de Ricardo que ouvi na outra ponta da linha. Uma mulher, que depois me revelou ser irmã dele, falou um monossilábico “Alô”. Pronunciou as primeiras palavras de jeito embargado, com tristeza, pesar.

Daí a pouco, de jeito ainda mais solene, deu-me a terrível notícia: Ricardo Gurgel havia sido assassinado a altas horas com uma facada no peito por outro morador de rua, com o qual entrou em uma discussão por causa de pedaços de papelão, sobre os quais eles têm o hábito de dormir. Infelizmente, o bate-boca descambou para uma troca de socos e pontapés. Segundo outro sem-teto que também passava a noite ali, todos sobre a calçada do antigo Cine Pax, súbito o assassino puxou uma faca da cintura e cravou a lâmina no tórax do seu desafeto, e depressa se evadiu.

A irmã de Ricardo, cujo nome não disse nem eu perguntei, encerrou a conversa e desligou. Não liguei outra vez para colher nenhuma informação a mais. Por exemplo, se fosse do meu interesse, teria indagado a ela acerca do local do velório e sepultamento. A verdade, no entanto, é que não me importava.

Neste minuto, refeito do impacto da fatídica notícia, penso que a trágica morte de Ricardo Gurgel significou um alívio para mim. Exato! Como costumam dizer os católicos e os protestantes, foi um livramento. Porque, embora não desejasse nenhum mal para ele, senti que tirei um enorme peso das minhas costas, do meu espírito, espécie de algemas das quais talvez não me libertasse de outra maneira. Foi isso, livrei-me dessa paixão mórbida, doentia, que me dominava por absoluto. Torço que a alma dele (acaso exista vida além-túmulo) esteja em paz e num bom lugar.

Tendo assimilado o golpe, estando com os nervos equilibrados, como já mencionei, fui para a cozinha, aprontei o que faltava da comida e almocei o atum e a sardinha com um apetite que não mais encontrava desde que o doutor Epitácio Coelho me deu o diagnóstico do câncer. Além da doença, permanece o problema de encontrar um herdeiro para esta casa e outras coisas que possuo. Dois ou três amigos tentaram saber de mim através de mensagens e telefonemas, todavia não atendi a nenhum. Entendo que necessito contar a algum deles o que está se passando.

Estou sem a menor disposição para leituras. Todos os livros que eu pretendia ler, quiçá meia dúzia, súbito perderam a atratividade. Tenho prostituído meu intelecto com os assuntos varejistas das redes sociais e veículos de comunicação encontráveis na internet. Continuo sem frequentar o habitat dos literatos, dos intelectuais. Não faço ideia de quando terei novamente ânimo para receber alguém.

Preciso retomar o prazer de interagir com essas pessoas. Reaprender a desfrutar da saudável companhia desses que me têm estima e atenção. No fim da tarde, a propósito, enquanto mexia no celular, deparei-me com uma crônica do poeta mossoroense Júlio Rosado, publicada precisamente no dia 15 deste mês, no Jornal de Fato. Um trecho da referida crônica, cujo título é “O conhecimento também aflora nos intervalos”, representa um estímulo no que me diz respeito. Eis o fragmento: “O mestre aprende com o aluno tanto quanto um aluno aprende com outro, sem distinção, com respeito mútuo.” Pois é isso, a gente sempre pode aprender algo de onde e com quem menos esperamos, da mesma maneira como podemos ensinar algo de bom a outrem. Júlio Rosado, autor e leitor meritório, tem o que nos ensinar e também aprender. Ele reúne o talento e a humildade daqueles que vão longe nesta estrada da palavra escrita.

Encontro-me desta forma, reflexivo quanto propenso às interações sociais e humanas. Tenho consciência, apesar do meu estado de espírito de agora, que amanhã posso acordar (se acordar) com o pessimismo e mau humor que vêm dominando minha alma e meu coração. O penhasco em que estou produz uma barafunda de sentimentos em geral amargos e revoltados com Deus e o mundo.

Anteontem, após tomar meus remédios, entre os quais estão quetiapina e clonazepam, fui me deitar por volta das nove e meia. Quem disse que consegui dormir? Uma ova! Depois de muito rolar para um lado e outro, toquei no celular e a tela mostrava uma hora e cinquenta e cinco minutos da madrugada. A essa altura todo tipo de pensamentos já me havia sucedido. Especialmente pensamentos destrutivos. Tem sido assim há bastante tempo. Não raro me imagino cometendo toda natureza de violência, principalmente contra políticos de Mossoró, do Brasil e do mundo. Certos canalhas seriam eliminados com requintes de crueldade, devagarinho. Esquartejar ou amputar pernas e braços de pseudocidadãos de bem é coisa que almejo.

Essa libertinagem e promiscuidade com que são ofertados títulos de cidadania a vermes da política em âmbito nacional e até internacional, honrarias, comendas e medalhas disso e daquilo a uma récua de estrumes sociais, tudo isso me enche de fúria, de anseios de promover carnificinas a torto e a direito. De repente, por proposição de um sem-vergonha da Câmara desta urbe, aquele cancro (que ora usa tornozeleira eletrônica) se torna cidadão mossoroense. Filhos da puta!

Melhor ficar por aqui. Acho que novamente estou saindo dos trilhos. E isso é algo que, sendo meramente lúcido, só tem feito mal a mim mesmo. Se pudesse, no entanto, se Deus ou o Diabo me concedesse determinados poderes, aí podem ter completa certeza de que muitos prostitutos, ratazanas e sacripantas do meio político brasileiro e planetário sofreriam até a merda e o sangue escorrerem.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 5

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 6

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 7

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 8

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 20/07/2025 - 13:00h

O Efeito Casulo – Dia 8

Por Marcos Ferreira

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Chego ao oitavo dia em que me vejo relatando os dissabores de minha condição de enfermo fisgado por um câncer de pâncreas. Desde a primeira postagem destas minhas lamúrias, com fiel periodicidade, sempre aos domingos, exponho esta narrativa mal-alinhavada num blogue de nome BCS, do jornalista Carlos Santos. Até o presente momento a repercussão vem sendo um bocadopífia.

Há um púbico orgânico que volta e meia se dispõe a comentar algo acerca destas linhas pessimistas. Desde o início, após uma rápida pesquisa, constato que obtive depoimentos de exatas quinze pessoas: Júlio Rosado, Rita Aguiar, Marcos Pinto, Carlos Silva, Odemirton Filho, Francisco Nolasco, Raimundo Antonio de Souza Lopes, Marcos Araújo, Fransueldo Vieira de Araújo, Rosilene Rocha Soares Pinto, Ana Celly, Raimundo Gilmar da Silva Ferreira, Dulce Cavalcante, Bernadete Lino e Marcus Lucenna. Os demais leitores deste espaço, quiçá por indiferença ou simples desagrado diante destas memórias macambúzias, parecem me ignorar.

Imagino que meu número de leitores não deva crescer. Ou, olhando este conto autobiográfico com otimismo, talvez mais uns quatro ou cinco apareçam e apresentem uma opinião razoável quanto bem-vinda. Não nego que isto seria bom para o ego deste abominável homem das letras. É óbvio que minha história é lida por mais gente, todavia esse grupo incógnito prefere fazer de conta que não sabe de nada, finge desinteresse, simplesmente emudece ante meu relato. Que se fodam! Ninguém é obrigado a dar palpite sobre porra nenhuma,nem preciso mendigar ibope de filho da puta algum. Só trago estas sensaborias à superfície porque é um meio de este escriba e sua escrita não caírem no esquecimento absoluto. Não há outra razão.

Se não estou ruim da memória, creio que informei noutra oportunidade que meu nome completo é João Fernando Soares Barros. Pois é. Também suponho haver referido que, enquanto literato, me assino Fernando Barros, forma pela qual sou mais conhecido nos segmentos sociais e intelectuais. O senhor Fernando Barros, analisando-me aqui na terceira pessoa e fazendo uso de um adágio bastante popular, está fodido e mal pago. Não como possa se livrar dessa enrascada.

Além de mal-humorado, língua-suja e pessimista, desenvolvi uma náusea, dedico um asco corrosivo às convenções sociais. Claro que alguns estão livres de meuódio moribundo. Pois, no meu estreito círculo de amizades, vejo figuras dignas de elogio e apreço. Afora estas, sendo bem honesto, sinto um desprezo acrimonioso em relação à sociedade, ao bicho-homem. Nunca fui um tipo totalmente satisfeito, entusiasta da vida em rebanho, como diria Antonio Alvino, no entanto hoje meu azedume, minha índole misantrópica, está em um nível deveras elevado. Em meio a isto, indisposto com Deus e o mundo, tenho que lidar com os achaques da moléstia.

Dores abdominais e articulares, vômitos, fastio e perda rápida de peso me têm assustado. Anteontem um vizinho, cuja residência é quase diante da minha, enfartou. Foi levado às pressas para o hospital, contudo veio a óbito por volta das onze da noite. Fiquei sabendo disso atravésdas redes sociais da viúva, que nas primeiras horas do ataque fez uma postagem no Instagram pedindo orações para o marido. Alguns, como de praxe, logo asseguraramDeus está no controle!”, “Deus está no comando!”. Ainda assim o homem bateu as botas. O Todo-Poderoso, portanto, ficou na Dele. Não moveu uma palha. Decerto o enfartado já estivesse com o seu passaporte prontinhoNão houve interferência por parte do Altíssimo. A viúva fez nova postagem, desta feita informando o local, o horário do velório e enterro, que foi no São Sebastião.

Assim como eu, o senhor Geraldo Damasceno, de cinquenta e cinco anos, não era uma simpatia de vizinho.Longe disso. O cara parecia ter um rei na barriga. Entrava e saía de casa em seu carrão importado (uma BMW azulsem dar um olá a quem se encontrasse nas calçadas. A mim, não sei dizer o porquê, vez por outra me cumprimentava com um discreto aceno de cabeça. Somente isso.

Quem sabe fosse o modo dele se apiedar do único vizinho baixa-renda deste pedaço de rua. Talvez tivesse este raciocínio: “Deus é muito bom para mim. Olha só o meu carro e a bicicleta acabada daquele pobre-diabo. O infeliz não possui sequer um ar-condicionado. Deve comer mal, ter uma geladeira e um fogão velhos e dormir em uma cama ou rede surrada. Como se não bastasse, o joão-ninguém é veado. Grato, meu Deus, pelas bênçãos que o Senhor me oferta!”. Suponho que era um raciocínio dessa ordem. O senhor Damasceno, porém, foi estudar a geologia dos campos-santos, mais ou menos como no clássico “Dom Casmurro”, de Machado.

Minha hora também está próxima. Mas almejoconseguir pôr um ponto final nestas memórias hostis. Além dos poucos amigos que tenho, talvez meu ex-amante Ricardo Gurgel compareça ao meu velório e sepultamento. Embora viciado em maconha, ele é um rapaz religioso, uma espécie de católico por tabela, visto que os pais (falecidos), os irmãos e outros familiares são do rebanho da Igreja.

Ricardo Gurgel, tirando a questão da maconha e a malandragem congênita, merece ao menos o meu perdão. Sim, acho que posso perdoá-lo pelos três mil e quatrocentos reais que furtou de minha conta-corrente. Foino tempo em que sabia a minha senha e tinha acesso ao meu cartão do Banco do Brasil. Pois é. Antes de me dar um pé na bunda, o malandro surrupiou essa grana, raspou as minhas economias, o dinheirinho que eu vinha economizando para adquirir outra moto. Ao longo destes capítulos amargos, não me recordo quando, relatei que minha motocicleta Pop, ano 2014, foi furtada no Centro. Mossoró, volto a dizer, não é para amadores.

Por ironia do destino, como se diz, precisarei ter uma conversa séria com Ricardo. É que venho pensando ultimamente no que será feito desta casa, da sofrida mobília e de minha bicicleta. Como não tenho nenhum familiar, nenhum herdeiro, é provável que eu deixe o pouco que possuo para o safado do Ricardo Gurgel, cuja família o despreza completamente. Ontem ele me telefonou e disse que largou (foi largado, na verdade) o coroa que vinha comendo há uns oito meses.

Está desesperado. As aventuras no baralho e as apostas no jogo de sinuca o quebraram de vez. Por falta de pagamento, claro, foi despejado do muquifo que alugara no Alto da Conceição. Disse que nas últimas semanas vemdormindo nas ruas e praças deste município escroto com uma mochila ordinária cheia de roupas amarfanhadas. Ou seja, o safado não tem onde cair morto. Vendeu as tralhas,os objetos que tinha (geladeira, fogão, tevê, bicicleta) e se fodeu na jogatina. Agora o pilantra está me pedindo guarida. O pior é que ainda gosto daquele sem-vergonha.

Não falei sobre meu câncer. Só disse que vou ajudá-lo. Ligou a cobrar. Apesar da pindaíba, da ruína financeira, continua com o telefone. Vem sofrendo como um cão sem dono. Nunca havia descido tanto, chegado ao fundo do poço. Hoje, todavia, não aliviarei a barra dele. Quero que durma mais uma noite ao relento. Amanhã, por volta das dez e meia, vou chamá-lo para almoçar aqui.

Marcos Ferreira é escritor

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 5

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 6

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 7

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 20/07/2025 - 03:30h

Um conto bem-feito

Por Marcos Ferreira

Inácio tinha 53 anos de idade (Foto: Reprodução)

Inácio tinha 53 anos de idade quando faleceu no domingo passado (Foto: Reprodução)

Terça-feira passada, ao ler um conto do escritor Inácio Rodrigues Lima Neto, delegado da Polícia Civil e colaborador deste Blog Carlos Santos, senti-me inspirado diante da ótima urdidura de Inácio Rodrigues. Então, como há muito eu não faço, falei de mim para comigo e disse: “Vou escrever algo assim para o próximo domingo!” Coisa nenhuma! Fiquei só na vontade, no caqueado.

Sem querer jogar a toalha, sem digerir a derrota, procurei alguns autores e as suas páginas a fim de me livrar da influência do enredo trazido por Inácio, que no final das contas embaçou o meu horizonte criativo.

O referido conto, publicado aqui no Blog no dia 17 de novembro de 2019 sob o título “Memórias em cacos”, vale quanto pesa, conforme o adágio. O danado me pegou mesmo de jeito. Esse causo oferta ao leitor uma história cheia de surpresas e astúcias literárias que nos deixa de queixo caído no seu desfecho. Ouso dizer, sem sombra de dúvida, que se trata de um dos melhores contos já publicados neste espaço, muito embora o autor seja uma espécie de contista bissexto.

Como podem notar, findei entregando os pontos. Não escrevi o que pretendia, contentei-me com louvar o texto de Inácio, cuja narrativa merece ser lida ou relida por todos que acompanham o que se estampa aqui.

De minha parte, quando eu reorganizar a oficina da inventividade, almejo produzir uma peça dessas do chamado gênero short story. Por enquanto, sem lhes apresentar uma crônica propriamente dita e muito menos a ambicionada ficção, considero razoável tecer estes palpites acerca de “Memórias em cacos”. Apesar da ideia de fragmentação, tudo se encontra nos devidos lugares. Recomendo, portanto, a quem não conhece o texto, que procure ler essa escrita do Inácio Rodrigues.

Não se trata de incensar ou adular. Porém (coisa que não dói nem arranca pedaço) apenas parabenizo o autor. Pois se agora me comporto de tal forma é por único e simples merecimento desses bem-articulados “cacos”.

Marcos Ferreira é escritor

*Crônica originalmente publicada no dia 18 de agosto de 2024 no BCS.

Leia também: Delegado da Polícia Civil do RN falece em Mossoró.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 13/07/2025 - 07:40h

O Efeito Casulo – Dia 7

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Estou com a casa cheia de minúsculos ratos. Os catitos deixam vestígios por onde passam, uma quantidade enorme de fezes pretas, durinhas e menores que um grão de arroz. Fica, além do cocô, um mau cheiro desgraçado. São velocíssimos e elásticos. Conseguem penetrar em lugares por demais apertados. Passam até por baixo da mínima frincha entre o piso e a porta da cozinha. Aqui e acolá testemunho algum deles saindo de fininho por essa brecha. Preciso armar, em pontos estratégicos, umas vinte ratoeiras, embora a população desses bichos talvez não chegue a dez roedores. Exatamente: mais ratoeiras do que ratos. Haverei de extingui-los.

De tão engraçadinhos e espertos, lembram-me um vasto número de políticos, desses que o povo coloca nas prefeituras, câmaras de vereadores, no antro dos deputados estaduais e federais, além do Senado e da Presidência da República. Os camundongos e as ratazanas têm tudo a ver com a gigantesca soma dos ditos homens e mulheres públicos. São bem malandros, furtivos e perniciosos. Se existem exceções? Claro que sim. Mas não são muitas. Nem todos, pois, são farinha do mesmo saco. Há pessoas fora da moda: são as que não se atolam na lama da corrupção.

Como vem acontecendo há cerca de uma semana, hoje amanheci de mau humor. Minha irritabilidade cresceu, inflou absurdamente das primeiras horas da manhã para a noite quando fui assistir a um determinado telejornal. O noticioso trouxe à sua bancada, mais uma vez, o escabroso conciliábulo para tomar, literalmente a pulso, no ano de 2022, às rédeas governamentais deste país. O atual governo desta pátria (lamentavelmente de chuteiras) vendeu os brios e a alma ao Centrão a troco de uma razoável governabilidade.

Entrementes o nove-dedos é um democrata respeitado além fronteiras nacionais. É um defensor estrênuo e extremo da democracia. Puxou quase seiscentos dias de cadeia e se manteve íntegro, não se lamuriou, não pediu arrego. Ao contrário do golpista, não borrou as calças. Mostrou fibra perante o mundo.

Já levei em conta, no curso destes relatos mórbidos, a imensa possibilidade de eu morrer com cinquenta e dois anos (o câncer só me deixa uma expectativa de vida de cinco ou seis meses) e um cancro político e moral como Donald Trump continuar esbanjando saúde e vilanias sobre a face da Terra. Isto, obviamente, em nível global. Mas, olhando agora para o nosso próprio rabo, considerando a esfera de Brasil, vem-me à lembrança um estrume ambulante que está nivelado com a besta norte-americana no que se refere ao mau-caratismo, arrogância e peçonha.

Esse típico sevandija, embora na iminência de ser trancafiado em Bangu 8 ou na Papuda por arquitetar e capitanear (curiosamente é capitão reformado do Exército) um plano que previa a abolição violenta do Estado Democrático de Direito e o assassinato do presidente da República eleito havia pouco, do vice-presidente e de um destacado juiz do Supremo Tribunal Federal, não descarta se candidatar ao cargo eletivo mais importante desta federação.

O parasita se faz de doido, finge não ver a afiadíssima guilhotina que paira, que se encontra posicionada pouco menos de um metro acima do seu pescoço. Esse aramista, funâmbulo de olhos esbugalhados, boca torta, de saúde bichada e voz de papagaio, caminha sobre o fio da navalha. Tem consciência disso, no entanto dissimula com peculiar cinismo, exibe alguns arroubos de valentão; vocifera, destrata jornalistas que o apertam com indagações acerca de sua atuação no malogrado esquema.

O crápula aprontou todas e mais um bocado. Anda para cima e para baixo com pose e discurso de bom-moço, de elemento imaculado, de autêntico paladino dos bons costumes. Articulou, esquadrinhou, pôs em curso um plano sujo para se manter no poder. Ou seja, um golpe rasteiro mancomunado com uma quadrilha de alto coturno.

Militares cheios de empáfia e outros oficiais de relevo provaram o gosto da lona, caíram direitinho nas finas malhas do Ministério Público e da Polícia Federal. Deu ruim para essa horda de lacaios raivosos, fantoches. A vez do cabeça da tropa da maldade está bastante próxima. Trânsfuga, desertor, covarde até a última raiz dos cabelos, o outrora destemido e autoritário capitão cagou-se todo, chamando de malucos aqueles que o apoiavam concentrados na frente dos quartéis. Depressa ele tirou o cu da reta, amarelou, falou fino à presença do juiz Alexandre de Moraes.

Vejo que já bati além da conta nessa tecla. Esse criminoso ainda impune ferveu meu sangue. Mais cedo ou mais tarde pagará na Justiça tudo que deve. Vejo-me de saco cheio desse traste. Outra vez, devo admitir, vou tocando a mesma e enjoativa balada. A balada de um percevejo, um espírito de porco. Isto sem querer ofender os nobres suínos. Não faz muito tempo, empregando denominações e adjetivos nada lisonjeiros, escrevi uma incisiva crônica acerca desse salafrário.

Então, para evitar chover no molhado, recomendo que vocês encontrem e leiam “O espetáculo da putrefação”. Tenho plena certeza de que a manada vai mugir, escoicear, volver os cornos contra mim, entretanto quero mais é que se dane. Procurem a referida crônica.

Suponho que uma parcela dos leitores baterá palmas, fará comentários instigantes, encorajadores. Outra parcela, todavia, vai me devotar ódio eterno, decerto emitirá depoimentos furibundos contra este escriba. É o grupo dos acéfalos, dos zumbis e também dos arrivistas, do eleitorado simplesmente mau-caráter. Pois os que defendem o indefensável formam três categorias bem definidas: aqueles apenas ignorantes, os fanáticos absolutos e os interesseiros. O elenco dos interesseiros é aquele time que lucra uma dinheirama com a cegueira dos ignorantes e dos fanáticos.

A exemplo do meu câncer, o mito do patriota, guardião da família, homem devoto a Deus, falsamente evangélico, um sacripanta total, esse mito é uma doença que também mata. Não apenas mata, mas ainda zomba dos mortos e famílias enlutadas. Ele diz que não é coveiro, faz piadinhas com a dor até dos tolos que o adoram e aplaudem. É justamente isso. E que ache ruim quem quiser.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 06/07/2025 - 08:38h

O Efeito Casulo – Dia 6

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS)

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS)

Daqui, enquanto preparo um pouco de café para reunir as ideias, neste momento escassas e preguiçosas, ouço vozes e gargalhadas na rua. Em meio às quais, com sons díspares, escuto também o ladrar agudo de dois cães pequeninos de minhas vizinhas das casas à esquerda deste domicílio. São precisamente quatro horas e vinte e cinco minutos desta tarde de sábado abafada e barulhenta.

Fui até o muro dianteiro e fiquei observando, através dos cobogós, o vaivém dos transeuntes, carros e motocicletas. Visão precária, limitada, óbvio. Vi apenas pessoas estranhas; nenhum conhecido. Passou uma idosa caquética de braços com uma moça de vinte e poucos anos, quiçá neta da velha. Cogitei abrir o portão, ficar na calçada durante um tempinho, talvez acenar às vizinhas, contudo desisti de colocar a cara fora. A esta altura não desejo mais confraternizar com ninguém. Não me agrada ser visto por quem quer que seja. Voltei, fui tomar um banho.

Então, com uma caneca de café à direita desta escrivaninha, apresento-me redigindo coisinhas assim banais, deveras enfadonhas. Eu próprio me sinto, além de enfermo, um elemento banal, ordinário. Escrever, entretanto, é uma das pouquíssimas atividades que consigo realizar com o mínimo de eficiência. Meus começos com a escrita só foram possíveis graças à leitura de trabalhos de um vasto número de autores a que tive acesso. Meu contato com as letras, todavia, foi um bocado tardio. Ainda analfabeto com onze anos, fui matriculado em uma escola e comecei a desasnar. Tive um baita choque quando, na primeira série, descobri que podia ler.

Enfim, por competência da professora Maria do Carmo, deixei de ser cego. Nunca mais parei. Além das leituras em sala de aula, lia tudo que me aparecesse. No caminho de ida e volta do colégio, soletrava o que meus olhos alcançassem: letreiros de lojas, mercearias, mercadinhos, bares, oficinas de bicicleta, de carros, de motos, padarias, farmácias, etc. O meu interesse pela leitura era um deslumbramento absoluto, uma espécie de fome ancestral. Essa fome foi transferida para todo tipo de obras. Com o passar dos anos, naturalmente, fui me tornando mais seletivo.

Não estou com saco para deitar nomes de livros nem de seus respectivos autores. Minha permanência em escolas foi muito fragmentada; nunca tive essa consciência de que a educação formal seria redentora em minha vida. Porém, apesar da ausência em sala de aula, o micróbio da literatura tomou conta do meu coração e espírito justo pelo contato com títulos e escritores nacionais quanto estrangeiros.

Fiquei desconcertado, maravilhado ao ler, por exemplo, “São Bernardo”, de Graciliano Ramos. Li e reli ao menos os quatro romances do Velho Graça. “Angústia” é extraordinário, hipnótico. “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado, foi outro alumbramento naqueles meus quinze para os vinte anos de idade. Nessa mesma época tive a sorte de conhecer Fiódor Dostoiévski. O russo da gélida São Petersburgo, mestre dos psiquiatras, é um escafandrista da psique humana, o gênio maior entre todos os ficcionistas.

Isto é só a minha opinião. Haverá quem discorde; tipos outros podem ser apresentados como superiores, indivíduos da estatura de um Leon Tolstói e Marcel Proust, ambos artistas de méritos invulgares. Mas há pouco afirmei que “estou sem saco para deitar nomes de livros nem de seus respectivos autores”. Morre agora essa tentadora exemplificação. Aliás, finda-se aqui meu relato de hoje.

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 5

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • Execom - PMM - Banner - Março de 2026
domingo - 29/06/2025 - 15:56h

O Efeito Casulo – Dia 5

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Tentei escrever em alguns momentos do dia de ontem, sobretudo entre o início da tarde e o começo da noite, porém o cansaço de sempre me roubou o ânimo, a capacidade de me expressar. Sequer um rascunho, um só parágrafo, brotou do meu juízo. Hoje não é muito diferente no que diz respeito ao tédio, entretanto me sinto menos indisposto, tenho a cabeça um pouco mais leve e fecunda.

O telefone tocou algumas vezes de manhã para cá, todavia não atendi nenhuma das chamadas. Não era ninguém com quem eu estivesse a fim de conversar. Por exemplo, o pilantra do Ricardo Gurgel, que foi meu namorado durante dois anos e meio, ligou três vezes num intervalo de mais ou menos quarenta minutos. Suponho que talvez já esteja sabendo da minha doença, coisa esta que é do conhecimento apenas do doutor Epitácio Coelho, do meu ex-patrão e funcionários. Todos que trabalham na loja de peças de automóveis têm ciência do meu diagnóstico.

É difícil pensar em literatura, em escrita com arte literária, depois que um médico, à queima-roupa, olha friamente em nossos olhos e nos diz que temos um câncer metastático e uma expectativa de vida de, no máximo, seis meses. Há ocasiões em que penso que tudo isso não passa de um sonho ruim, um pesadelo. Tolice! A realidade é imutável. Não existe nada que eu e nem ninguém possa fazer que modifique isso. Estou fodido, condenado a morrer em poucos meses com cinquenta e dois anos. Claro que sei que algumas pessoas, resilientes e confiantes num deus no qual não creio, encaram uma lástima dessas com equilíbrio e serenidade admiráveis.

Não é de maneira alguma o meu caso. Tenho ímpetos de violência, imagino-me com poderes e crueza o bastante para torturar e extinguir uma grande quantidade de elementos escrotos que habitam este planeta à beira de uma terceira guerra mundial. Não. Eu não hesitaria em executar diversos percevejos sociais que tornam a vida na Terra cada vez mais conturbada quanto desumana.

Isso, todavia, eu já disse ao longo desta narrativa mal-alinhavada. Contudo, nas condições psicológicas e emocionais em que me encontro, tenho o direito de me repetir, de ser redundante, prolixo e caótico. O tempo todo esqueço de palavras que decerto se encaixariam melhor no decorrer deste relato.

Intimamente ambiciono, apesar das toneladas de pessimismo sobre meus ombros, que esta autobiografia seja composta e finalizada com mérito engenhoso, linguístico, literário. Embora acometido por um câncer de pâncreas em estado terminal, ainda nutro, alimento este meu tolo anseio de produzir páginas com algum teor artístico. É isto. Esforço-me para que minha história, minhas memórias pretéritas e recentes reúnam arte e brilho.

Nesta oportunidade preciso assinalar o seguinte detalhe: não me tornei escritor da noite para o dia. Ninguém (está bem claro) consegue êxito e sucesso como literato num estalar de dedos. De forma alguma. É preciso lastro, vivência, inteirar-se o máximo possível das obras de diversos autores, escribas nacionais quanto estrangeiros. Porque apenas a leitura, aliada a uma boa dose de talento, vai dizer quem possui futuro enquanto escritor. Todo o resto é carpintaria, entrega e suor.

Este, sabemos, é um assunto controverso e inesgotável. No próximo ensejo, quiçá amanhã, quando me sentir à vontade, com disposição, com fôlego, aí discorrerei sobre minha origem e trajetória nesta corda bamba (sem rede de proteção) da palavra escrita. Peço que aguardem. Agora fico por aqui.

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 3

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 4

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 22/06/2025 - 07:30h

O Efeito Casulo – Dia 4

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com uso de recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com uso de recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Estou há quatro dias sem colocar a cara fora. Não recebi nenhuma visita nesse intervalo e não sinto falta da presença de quem quer que seja. No geral, embora minha doença se coloque à espreita, acho que posso dizer que muitas coisas estão nos trilhos. Exceto por algumas dores abdominais que me dão umas pontadinhas de vez em quando. Há também um pouco de náusea e uma fadiga constante, um cansaço inarredável.

Creio que emagreci uns dez quilos. Minha última saída foi para ir ao mercado comprar alimentos, entre os quais eu trouxe uns pacotes de salsicha, cachaça da boa e Coca-Cola naquelas pequenas garrafas de vidro. Se meu fim está tão próximo, ao menos morrerei comendo e bebendo o que gosto. Que se danem, então, o tumor no meu pâncreas, as restrições médicas e os sermões do doutor Epitácio Coelho.

Engulo cinco comprimidos durante a manhã e cinco no começo da noite. Depois vou me preparando para tentar dormir. Perdi o prazer de ver filmes e séries nos streamings, sobretudo na Netflix e certos conteúdos no YouTube. Vou para a cama e, enquanto o sono não chega, dou uma olhada no telefone. Como se costuma dizer, tenho o mundo na palma da mão. Todo tipo de futricas e futilidades cabe na telinha desse aparelho dos seiscentos diabos, via Internet. Sabe-se de tudo nesta maquininha poliglota e portátil.

Mossoró está escancarada nas redes sociais. A bola da vez em todos os noticiários é a guerra entre Israel e o Irã. Lamento pelos inocentes de ambos os lados, a população civil, porém quero mais é que eles se explodam.

Falo isto no que se refere, obviamente, aos promotores, empresários dessas guerras estúpidas aparelhadas com megaestruturas bélicas que favorecem, sobretudo, os fabricantes de armas cada vez mais sofisticadas e letais. Toda essa máquina de destruição segue há décadas e décadas favorecendo o poderio das indústrias da morte, que faturam trilhões alimentando exércitos nos mais diversos lugares do globo terrestre com os seus armamentos mortíferos e de última geração.

Donald Trump (que, infelizmente, não estava sob a mira de um atirador de elite naquele episódio da bala que lhe raspou apenas uma das orelhas) deve estar tendo múltiplos orgasmos por conta desse conflito deplorável dos israelenses e iranianos. É possível que a besta norte-americana, sedenta de sangue, não demore muito para começar a bombardear o Irã. Vejo essa miríade absurda de notícias pelo celular, como destaquei, e sinto uma porção de furores me dominando o espírito. Revolta-me o fato de que em torno de seis meses estarei morto, e um percevejo social como Trump vai continuar exercitando toda a sua malignidade sobre a face da Terra.

Falta de sorte a nossa o fato daquele rapaz ter errado o seu alvo por míseros dois ou três centímetros. Do contrário, quem quiser que diga que também sou uma criatura maligna, a esta hora este planeta estaria com um crápula a menos. Sim. Há vezes em que perco o sono com esse tipo de fúria sem efeito.

Ninguém me diga que devo buscar me ater a coisas boas, alimentar pensamentos positivos. Vão se danar, porra! Estou quase com um pé na cova e a esta altura da pouca vida que ainda me resta não me sinto nada inclinado a deixar para seu fulano, cicrano ou beltrano memórias boazinhas, mensagens bem-comportadas, testemunhos de um indivíduo superior, corajoso perante a morte. Nem a pau! Como expus em alguma passagem deste meu relato, não vou dar esse gostinho à Moça da Foice. Quem decidirá o momento de deixar este mundo serei eu e ninguém mais.

Quase meia-noite. Bebo agora uma Coca-Cola bem geladinha e soltarei umas duas ou mais flatulências. Que se fodam, repito, o meu pâncreas e as orientações do doutor Epitácio Coelho, aquele oncologista filho de uma puta, rosado e careca. Ao menos poderia ter fingido algum sentimento de consternação ao me comunicar a metástase do meu câncer. Um cacete! Disse tudo com todas as letras e sem empatia alguma.

Torço que ele também morra o mais breve possível. E, para meu regozijo, acometido por um câncer de pâncreas. A Coca está perfeita. Não me importa que talvez prejudique meu sono, contribua para a insônia. Minhas noites têm sido longas.

O meu enfurecimento começa a borbulhar logo que anoitece e só aumenta nas horas seguintes. Por onde andará o michê do Ricardo Gurgel? Não o avisto há um bom tempo. A última vez foi em uma lanchonete e bar no Alto da Conceição. Estava à vontade, sem camisa, jogando sinuca e tragando o seu cigarrinho barato. Tipo realmente malandro, vagabundo, decerto bebendo à custa de alguém. Nunca quis saber de trabalhar. Afastei-me antes que ele desse por minha presença. Imagino agora que isso foi há uns oito ou nove meses. Tinha ido ali perto cortar o cabelo.

Hoje não faço mais esse tipo de coisa: percorrer boa parte da cidade tão só para cortar o cabelo e, às vezes, tirar a barba. Morro de preguiça de me barbear. Eu era cliente de há muitos anos do Juarez Praxedes. Ótimo cabeleireiro e bastante bonito. Mas esse nunca foi para o meu bico; tipo casado e religioso. Salão alugado no Beco das Frutas. Após uns cinco anos, conseguiu comprar o próprio prédio.

Passou-me o endereço e continuei cortando a cabeleira com ele, apesar da distância. Nessa época eu ainda tinha uma moto, que foi roubada no Centro desta cidade corrupta. Isso ocorreu há uns três anos. Nunca a polícia encontrou minha Pop 2014.

Admito que já escrevi desaforos demais. Que o leitor, digo isto respeitosamente, vá se foder se considerar que rabisquei apenas tolices, que não produzi nada de literariamente valioso. Talvez tenha razão, não sou o dono da verdade, entretanto quem manda nesta narrativa revoltada sou eu e acabou-se.

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 3

Marcos Ferreira e escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 15/06/2025 - 09:30h

O Efeito Casulo – Dia 3

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Havia começado a me barbear. A barba crescida, o cabelo desgrenhado e precisando de corte são detalhes que pioram a minha autoestima. A tendência é que me sinta um tanto mais deprimido, além dos motivos que hoje possuo para não me mostrar de bem com a vida, feliz na minha solidão espontânea. Do outro lado do portão, para a minha curiosidade, a voz crescia, chamando alto.

Alguém pronunciava meu nome com vigor: “Fernando?!” “Tem alguém em casa?!” Apurei o ouvido, mas não reconheci a voz feminina. Claro que eu não iria atender. Ainda menos em se tratando de mulher. Não me sinto à vontade para abrir este domicílio sem aviso prévio. No geral, sendo franco, não gosto de visitas de surpresa. Hoje é tudo tão fácil; sem dificuldade. Logo o benquisto cidadão ou cidadã pode telefonar antes de aparecer, ou enviar uma mensagem pelo WhatsApp com antecedência, de forma que possamos avaliar a conveniência ou não da referida visita. Ou, além desse aspecto, até para saber se a gente não está em um outro lugar.

Como é bom, apesar do estado psicológico em que me encontro, receber amigos de nossa estima, carinho e admiração. Isso me faz um bem enorme. Entretanto, sem que me julguem mal, gosto de que esses amigos surjam em hora oportuna, de tal jeito que possam ser recebidos com os merecidos afagos. No mais das vezes nós tomamos um cafezinho, e o bate-papo é algo do melhor nível. Como na canção do Milton Nascimento, “amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves”. Percebo há meses que minha memória está por demais prejudicada. Isso acarreta consequências ruins, interfere de modo negativo no meu astral e bem-estar. Assim mesmo, levando em consideração o tom grave e merencório, preciso tomar cuidado para não descambar para a autopiedade. Não é por esse aspecto que desejo ser lembrado.

Seja como for, sem que tenha nada a ver com preferência por fulano ou sicrano, daqui por diante não estarei disponível como de hábito. Sinto neste instante uma profunda necessidade de ficar aqui sozinho comigo. Esse mal repentino me tirou a graça da confraternização, da confraria cheia de motejos saudáveis, abraços, contentamento mútuo como poucas vezes já experimentei em minha vida.

Continuavam insistindo em chamar pelo meu nome lá fora. Pensei de imediato que talvez fossem aquelas testemunhas de Jeová. Sim. Costumam aparecer nesse horário do fim da tarde para início da noite. Continuei tirando a barba sem me sentir perturbado. Daí a pouco umas leves batidas se sucedem no portão e meu nome outra vez foi pronunciado. Desta feita a voz era masculina. Esse último detalhe me reforçou a suspeita de que fossem realmente testemunhas de Jeová. Sim. Algumas dessas agradáveis “testemunhas” já me conhecem pelo nome. Embora eu não me ligue a nenhum tipo de religião, sempre recebi tais pessoas com respeito, indivíduos que (supõe-se) testemunharam algum milagre ou ação magnânima do Todo-Poderoso. Em diversas ocasiões, portanto, lhes dou a merecida atenção durante um determinado tempo.

Nunca as convidei a entrar. A conversa se desenrola no limiar do portão, na calçada. Estabeleço essa margem de intimidade e segurança. Neste ensejo, como já relatei, não quero atender ninguém. Após uns longos dias sem me barbear, o que não é raro, agora reunira forças, espantara a preguiça, e estava raspando a cara. Com a barba então crescida, uso o recurso da água quente; ponho uma vasilha para ferver, tampo a cuba da pia do banheiro, ponho um pouco de água fria (para quebrar a fervura) e assim o barbeador vai sendo usado e desentupindo mais facilmente.

Anteontem fui a um mercado aqui no bairro, localizado a uns duzentos ou trezentos metros de minha casa, e adquiri boa quantidade de gêneros alimentícios, provisões para que não necessite sair durante um tempo considerável. Comprei também alguns pães. Costumo comer um por vez ainda que adquiridos há quatro dias ou mais. Agora, como é fácil deduzir, estou a fim de usufruir da solidão, do silêncio e quietude deste modesto lar. Gosto de ficar só com os meus pensamentos.

Evito, na medida em que posso, trazer a avassaladora realidade do câncer à memória. Ao menos por algumas horas. Quem sabe até um dia inteirinho. Assim a tensão e a carga sobre os meus ombros diminuem em um grau significativo. Já me dei conta de que não pensar demais na doença amortece um bocado a angústia, o sofrimento; estabelece uma simbólica distância da iniludível presença da morte. Acho que isso tem funcionado um pouco. Sobra uma quantidade a mais de cabeça para me dedicar à feitura deste imprevisível projeto literário. Gozo dessa maneira da agradável sensação de me encontrar com meu rosto barbeado com o devido esmero.

As prováveis e simpáticas testemunhas de Jeová foram embora. Ou quaisquer outras pessoas que vieram me fazer uma visita sem informar previamente que viriam. Gosto, repito, de ser avisado com alguma antecedência. Não é sempre que estamos com a casa em ordem para receber os que prezamos. Sobretudo agora que me deram esse diagnóstico avassalador, esse ultimato com data estimada.

Um gigantesco sentimento de reclusão se apoderou de mim. Não há outro nome a ser dado a isso! Ficar só é a única coisa que ora ambiciono. Neste minuto não me sinto com ânimo e alto-astral para dividir, compartilhar um bom papo, uma conversa leve e descontraída. Não. Afora um alto número de afazeres domésticos, preciso arrumar tempo e equilíbrio para redigir esta espécie de diário. Minha mente, não nego, está apreensiva.

Cogito escrever outras reminiscências e episódios mais recentes, a exemplo das supostas testemunhas de Jeová que vieram há pouco, no entanto este é um relato amargo, sem o prazer que a escrita normalmente me proporcionava. Pela primeira vez, infelizmente, escrevo sem prazer, sem a satisfação de antes.

Estou, volto a dizer, com provisões e não precisarei sair tão cedo. A geladeira e os armários estão abastecidos. Neste momento usufruo da boa sensação da barba feita. Por enquanto, em virtude do desânimo, não me alongarei nestas notas de melancolia e autoanálise. Melhor (ao menos para não resvalar no surrado recurso de escrever sobre o que não se tem para escrever) é ficar por aqui. Amanhã, com os ânimos possivelmente renovados, decerto terei algo mais para contar.

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 2

Marcos Ferreira e escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 08/06/2025 - 15:32h

O Efeito Casulo – Dia 2

Por Marcos Ferreira

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Como mencionei no primeiro dia em que expus este projeto, considerando a possibilidade de que isto resulte em uma autobiografia, quem sabe se converta em um relato com o mínimo de valor artístico, julgo oportuno citar agora algumas passagens e trivialidades de minha meninice. Em especial o período que abrange a minha terceira infância em diante. Não tomem isso por vitimismo. Nessa quadra de minha vida, época de severas privações, de aguda escassez, várias foram as noites em que minha mãe me dava por jantar angu de massa de milho com açúcar cozido apenas na água, ou o simples café com farinha. Nesse tempo, ao contrário de hoje, empregada doméstica (salvo raras exceções) não ganhava um salário mínimo e não usufruía dos benefícios aos quais teria direito se fosse com carteira de trabalho assinada.

Minha mãe recebia meio salário e, às vezes, trazia sobras do almoço ou do jantar sobejado na casa dos patrões, casal que ela considerava dos mais benevolentes e caridosos. Boa parte do pouco dinheiro era destinado ao aluguel da casa, comprar pipas d’água e querosene para as lamparinas, pois não tínhamos água encanada e ainda menos luz elétrica. No mais das vezes, buscando sempre economizar em tudo, acendíamos uma única lamparina. Esta, a depender das necessidades, não raro era conduzida de um espaço para outro. O que sobrava para a compra de alimentos, então, atendia de maneira muito precária as nossas necessidades mais básicas.

Quando meu pai morreu, em julho de 1978, eu estava com cinco anos. Após seis anos, em agosto de 1984, perdi minha mãe; eu já havia completado onze. Lembro-me de que, durante o velório, os vizinhos mais próximos (de dedos cruzados perto do caixão) de vez em quando um ou outro comentava: “E agora? O que será desse menino? Pelo que sabemos, não tem familiares nesta cidade”, disse um homem de cabelos brancos, porém mais novo do que aparentava. “Não faço ideia, senhor Augusto. Acho, porém, que talvez seja mandado para um orfanato. Não sei dizer, na verdade, se há isso neste município”, ponderou um rapaz de óculos e cavanhaque. “Coitadinho! Sinto tanta pena dessa criança”, suspirou uma moça segurando um rosário.

Um vizinho, motorista de táxi, teve a presteza de cuidar da burocracia da liberação do corpo. Os custos do velório, sobretudo o caixão de madeira fosca e ordinária, foram cobertos pela prefeitura. Isso foi de grande importância naquela conjuntura. Os ex-patrões de minha mãe compareceram ao velório e sepultamento. Não tínhamos um cruzeiro sequer. O então prefeito, o senhor Dix-huit Rosado, que alguns costumavam chamar imerecidamente de oportunista, foi sensível; mandou até uma coroa funerária. Além disso, esteve no enterro, ocorrido no meio da tarde.

Eu não tinha, portanto, nenhum familiar. Exceto uma prima de meu pai, lavadeira de roupas que morava à Rua Pedro Velho, no bairro Santo Antônio. Essa prima, com quem minha mãe nutrira um bom relacionamento, foi à nossa casa durante o velório. Casa de taipa de três cômodos. Tão só a fachada era de tijolos e cal. A mulher disse que me levaria para morar com ela, pois minha mãe (de forma premonitória) lhe fizera esse pedido, se algo de ruim lhe acontecesse.

Tratava-se de uma figura com cerca de trinta e cinco anos, morena de olhos verdes e forte compleição. Depois do enterro, conforme me prometera, foi comigo pegar as minhas coisas, me ajudou a colocar meus poucos pertences e roupas em uma mala velha de papelão, e fomos embora. Também se encarregou de devolver as chaves da casa ao proprietário. A residência dela era em tijolos de adobe e paredes sem reboco. A sala e os dois quartos me pareceram pequenos, mas a cozinha era bem espaçosa e possuía um fogão a lenha. Devo destacar dois detalhes: a residência já contava com luz elétrica e água encanada.

O nome da mulher, de sorriso fácil e alvinitente, era Rita das Neves Procópio, de cabelos negros, compridos e lisos. Exibia uma destacada cicatriz acima do supercílio direito. Estimei que fosse coisa de há muitos anos, talvez até de quando criança, mas nunca ousei perguntar pela origem daquela marca que não chegava a ofuscar a simpatia daquele rosto ainda jovem e bonito. Chamavam-na apenas por Rita. Tinha um irmão uns cinco anos mais novo, pedreiro que se amasiou com uma mulher que extraiu do Lanterna Roxa, prostíbulo que funcionou no Nova Betânia.

O irmão de Rita se chamava Francisco Procópio. Morava nos Paredões com Esmeralda, a referida ex-prostituta que conheceu no bordel e por quem se apaixonou. A casa de Francisco também era própria e apresentava um amplo pedaço de chão na frente do terreno, espaço onde ele construiu uma estruturada padaria, ofício herdado dos falecidos pais. Esmeralda não demorou a se familiarizar com a produção de pães, bolos, bolachas, biscoitos e salgados.

O negócio prosperou, Francisco largou o trabalho de pedreiro e abraçou as demandas da panificadora. Em pouco mais de um ano ampliou o prédio. Além dos fregueses próximos, abastecia vários comércios do bairro. As entregas eram feitas com dois grandes balaios de palha acômodos nos bagageiros de bicicleta de carga. Afora isso, não deixava de entregar (diariamente) os seus produtos na casa da irmã. Fui beneficiado demais com a gentileza do irmão de Rita.

Minha época de fome acabara. Era algo muito comum a gente se alimentar três vezes ao dia, oportunidade rara por demais lá em casa. Rita contava com boa clientela e recebia um dinheiro razoável das lavagens de roupas para famílias abastadas. Cinco anos se passaram muito depressa. Até que aos 24 de fevereiro de 1989, uma quarta-feira, a três dias do meu aniversário, cheguei do colégio (a Escola Municipal Joaquim Felício de Moura) e encontrei Rita aos prantos sentada em uma cadeira rodeada por três mulheres. Eram vizinhas que eu conhecia de vista e cujos nomes não recordo. Havia ocorrido uma tragédia: o irmão de Rita fora assassinado.

Essa morte continua insolúvel. A polícia fez uma investigação rasa, classificou o sinistro como latrocínio, pôs uma pedra em cima do caso e nunca se soube a identidade do pistoleiro que tirou a vida de Francisco com um tiro no peito. O comerciante, segundo um freguês que se encontrava no local, tentou reagir ao assalto. Ainda segundo o circunstante, o bandido estava encapuzado. Há cerca de seis meses Francisco havia contratado um ajudante de nome Lauro Feitosa (moreno de vinte e poucos anos, alto e magro, cabelos crespos rebaixados) para auxiliar na entrega dos produtos em uma bicicleta com bagageiro atrás e na frente. Não tardou a circular o boato de que a viúva estaria se deitando com o rapaz. As más-línguas não perdoam ninguém. Esmeralda era honesta, continuou viúva e manteve a padaria funcionando.

Aos poucos Rita foi se conformando com a morte do irmão, e eu continuei contando com um teto, comida e roupa lavada. Semanas após completar dezoito anos, data esta em que Rita fez para mim um pequeno bolo de laranja para festejar o meu aniversário, houve uma noite em que ela entrou no meu quarto vestida em uma minúscula camisola vermelha. O cheiro da água-de-colônia preencheu o ambiente. Deitou-se por cima de mim e disse que eu já era um homem-feito e precisava conhecer uma mulher. Tirou a minha roupa, beijou minha boca, meu corpo todo, e deu um fim à minha virgindade. Rita foi a primeira e única mulher da minha vida.

No mês seguinte arrumei de novo as minhas coisas, coloquei tudo na mesma e surrada mala de papelão e fui morar na Casa do Estudante. Nova temporada de miséria. Faltava comida com frequência, contudo houve um lado positivo. Ali eu conheci o ruivinho Luís Peixoto, meu primeiro amor, que também se apaixonou por mim. Luís estudava com afinco para tentar o vestibular para o curso de administração. Tanto estudou que foi aprovado logo na sua primeira tentativa.

Um tempo depois, já na faculdade, Peixoto me trocou por outro sujeito. Entretanto eu me encontrava no lucro. Havia descoberto a mim mesmo e me sentia inteiramente livre para conhecer outros homens. Meu número de conquistas sempre foi pequeno, mas agora tinha convicção de uma coisa: que mulher não é para mim. Deixei a casa de Rita, todavia nossa amizade perdurou até quando ela viveu. Tinha então quarenta e sete anos quando perdeu a luta contra um câncer de mama.

Antes, como também não tinha filhos nem algum familiar que julgasse merecedor, ela me enviou um recado pelo Lauro Feitosa, o rapaz que trabalhava na padaria da viúva Esmeralda, e eu fui conversar com ela. Encontrava-se muito debilitada, a cabeça envolta por um lenço, pois perdera seus longos e bonitos cabelos em virtude da quimioterapia. Não fez rodeios, foi direto ao ponto como se aqueles fossem os seus últimos minutos de vida. Ainda resistiu durante três semanas. O motivo de haver me chamado foi para comunicar (não meramente pedir) que eu ficasse com a casa dela. Disse, enfaticamente, que não aceitava recusa. Ainda enfrentando os altos e baixos na Casa do Estudante, aceitei a oferta beijando-lhe as mãos com carinho.

Retornei para a residência de Rita das Neves Procópio e assisti a ela se despedindo deste mundo bem devagarinho. Em uma determinada manhã, por volta das seis horas, fui ao quarto ver como estava e ela tinha partido. Sim, morreu dormindo. Foi sepultada no mesmo túmulo de Francisco Procópio, seu querido irmão. Antes de morrer, claro, Rita já havia se antecipado, organizado os papéis do imóvel e passado a casa para o meu nome. É onde moro até hoje, à Rua Pedro Velho, 352, no Santo Antônio. Ironicamente, como uma trapaça do destino, também estou morrendo de câncer e preciso decidir em algum momento para quem deixarei esta casa.

Os valores relativos à minha rescisão trabalhista serão liberados muito em breve. No próximo mês vai pingar na minha conta o dinheiro relativo ao auxílio-doença, recurso que pleiteei junto à previdência social. Imagino que seja um valor entre mil e quatrocentos a mil e seiscentos reais. Nunca paguei plano de saúde e muito menos plano funerário, no entanto agora estou inclinado a contratar esse último serviço. É um gasto inevitável. O preço do caixão está pela hora da morte.

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Marcos Ferreira e escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 01/06/2025 - 08:28h

O Efeito Casulo – Dia 1

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

“Sabemos o que somos, mas ignoramos

o que podemos nos tornar.”

(William Shakespeare)

Hoje pela manhã, antes das nove, eu já estava diante do médico. Entregou-me um tipo de envelope de papel grosso e luminoso com duas folhas contendo o resultado dos últimos exames. Nossa conversa foi direta. Mal tive tempo de assimilar aquela informação devastadora. Sendo franco, a ficha ainda não caiu. Vai demorar um bocado. Apesar de tudo, como veem, começo a escrever.

Pediu que eu me sentasse. Ele se mexia em sua cadeira giratória revestida com um material parecido com couro. Sentei-me. Presumi que a informação que me daria não era boa. Doutor Epitácio Coelho, com a mansuetude de sempre, não fez rodeios. Pareceu-me que não foi (decerto não) a primeira vez que comunicou a um paciente que o fim chegou. Não franziu a testa, não titubeou, não gaguejou. Disse tudo olhando bem dentro dos meus olhos. Perguntei, com voz trêmula, quanto tempo ele achava que ainda me resta. “Uns seis ou sete meses”, respondeu.

O tumor, segundo ele, já se alastrou para outros órgãos, inclusive para os ossos. A sensação que tive nessa hora foi de que a minha alma saiu do meu corpo. O sangue me fugiu. Devo ter ficado tão branco quanto o jaleco do doutor Epitácio. “Não adianta operar. Seria inútil, Fernando. O seu pâncreas está comprometido em quase oitenta por cento”, observou.

Fiz outra pergunta ao oncologista. Indaguei se estava levando em conta a quimioterapia. “Sim. Sem ela, que a essa altura não nos deixa muita opção, talvez você não dure seis meses”, avaliou com absoluta impassibilidade. “Sinto muito”, disse por último, desta vez erguendo as grossas sobrancelhas. Cruzou os dedos alvos e peludos. Estava ali um homem pouco mais velho que eu, alto, magro e com vasta careca. Diante das circunstâncias, falei que não vou me submeter à quimioterapia. Ele balançou a cabeça num gesto de reprovação. Tornou a frisar que assim o meu tempo de vida diminuirá possivelmente em quarenta ou cinquenta dias. Respirei fundo.

— Ok. Mas não vou esperar o fim.

— O que pretende dizer com isso.

— É que vou me antecipar, doutor.

Não falei mais uma palavra. Saí do consultório e me sentei em um banco de jardim na área à direita da clínica, perto de onde eu havia trancado a bicicleta. Fiquei naquele banco de madeira e alvenaria durante uma meia hora. Tempo o bastante para que eu fumasse dois cigarros compulsivamente. Um sentimento de revolta se apoderou de mim. Pensei logo nos nove ou dez livros inéditos que tenho neste computador. Também estão salvos no e-mail. Preciso compartilhar a senha com alguém para que tenha acesso aos arquivos. Aposto na improvável possibilidade de que um mecenas se interesse em publicar minhas obras depois que me for. É o que posso fazer. Deixarei aos amigos mais próximos a incumbência de publicar meus livros.

Não fui para a loja, destranquei a bicicleta, que havia prendido em uma parte de madeira de outro banco, e vim direto para casa. Pensei em telefonar para alguém. A primeira pessoa que veio à minha mente foi Evandro Gurgel. Peguei o telefone, localizei o nome dele, mas apaguei o celular e o larguei em cima da escrivaninha. Nosso relacionamento acabou em novembro de 2023. Semana passada tive notícias de que está com outro homem. Isso mexeu comigo. Ainda me sinto ligado a ele de alguma maneira. Relação tóxica. Evandro Gurgel só queria o meu pouco dinheiro para comprar maconha. Águas passadas.

Agora preciso me fixar na escrita desta autobiografia desesperada. Amanhã irei à loja pedir demissão para obter os valores rescisórios. Terei que falar sobre o câncer. Torço que o patrão seja camarada, que encerre o vínculo empregatício como se a decisão partisse dele. Assim terei direito a alguns benefícios. O próximo passo é procurar a previdência social e requerer um auxílio-doença.

Talvez esta narrativa, que planejo publicar no blogue, tome rumos inesperados e alcance um público muito maior. Quem sabe, por meios que ignoro, isto ultrapasse as fronteiras do estado e até desta nação. Portugal seria ótimo. Não sei por quais destinos o vento conduzirá estas páginas de pessimismo e amargor. Isto está longe de ser um projeto, uma publicação do gênero autoajuda. Não tenho ideia, portanto, do rumo que isto tomará. O mais provável, sendo racional, é que se perca no esquecimento. A exemplo de outros planos que vi sumirem pelo ralo de minha vida.

Vim à luz e vivo em Mossoró, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, neste Brasil de tanta politicagem, roubalheiras e gente sofrida. Depois de diversas reflexões e considerações, decidi que vou me suicidar no momento oportuno. Por enquanto, não. Antes, além de outros objetivos, pretendo escrever este livro. Se nunca for publicado, sequer de forma póstuma, não interessa. Muita coisa deixou de ter importância para mim. Melhor dizendo, nada mais me importa. A literatura é a única âncora que me prende a este mundo caótico e mesquinho. Estou cansado, de saco cheio. Cansei de rastejar, de me contentar com migalhas. Nasci e cresci na miséria, passei fome como um cachorro abandonado, mas aos poucos, de um jeito medíocre, sobrevivi à poderosa máquina de moer miseráveis que continua em plena atividade.

Sei que contestarão e vão dizer que devo agradecer a Deus por “tudo” que tenho. Por exemplo, por estar vivo e com saúde. Que saúde?! Porra nenhuma! Ninguém está sabendo de nada. Dirão também que devo me sentir privilegiado porque tenho alguns amigos bacanas, pessoas que de fato me têm consideração e me querem bem. Não nego que isso é verdade. Porém, por diversas razões, já estou farto. Farto da vida. Faço uma rápida análise e vejo que nos últimos tempos me expus demais, e sem necessidade alguma. Dei palpite em temas que não devia.

Esqueci de me apresentar. Para quem não sabe, meu nome é João Fernando Soares Barros. Como literato, no entanto, eu me assino Fernando Barros. Nunca publiquei um livro. Quem sabe, por mais improvável que pareça, este seja o primeiro. Torço, sem querer abusar, que façam uma boa edição. Estou com cinquenta e dois anos, completados no último dia 27 de fevereiro.

Sou o unigênito de Pedro Soares dos Reis e de Amélia Soares Barros, ambos cearenses de Itapipoca. Tenho um metro setenta e dois e peso pouco mais de oitenta quilos. Minha pele é branca, os olhos e cabelos são castanhos claros. A maior parte do meu cabelo já é grisalha. Trabalho atualmente de vendedor em uma loja de peças de motocicleta na Avenida Presidente Dutra. Concluí somente o ensino médio. Ainda tentei duas vezes ingressar no curso de agronomia, contudo fui reprovado. Contentei-me a vida toda com subempregos no comércio.

Analfabeto, meu pai morreu há quase sessenta anos. Tinha só vinte e cinco. Carroceiro, foi atropelado por um caminhão juntamente com sua carroça. Ele e o burro morreram na hora. Minha mãe, lavadeira de roupas e empregada doméstica, findou-se com trinta e sete. Vítima de um infarto fulminante na casa dos patrões, um casal de dentistas que ouvi dizer que hoje mora no Alphaville.

É tarde. São duas e catorze. A tosse voltou. Tomarei o xarope que o doutor Epitácio Coelho me prescreveu. Por onde andará Evandro Gurgel? A julgar pelo horário, talvez já tenha dado e comido a bunda do cara com quem vive e fumado sua maconha. Que se fodam o maconheiro Evandro e o macho dele.

Vou me fechar. Não sairei de casa, não irei a eventos culturais como costumava fazer. Anteontem, por sinal, faltei ao lançamento do segundo livro de poemas de Júlio Rosado. Nesse caso, que fique registrado, foi apenas por esquecimento. Minha memória está prejudicada há um bom tempo. De fato, no entanto, eu não iria. Meu plano era enviar um motobói para adquirir um exemplar de “Alternâncias”, obra decerto de boa qualidade. Sairei, destaco, tão só para cuidar do que for estritamente necessário. Depois desse diagnóstico, a minha fobia social disparou. Espero que o poeta Júlio Rosado possa me desculpar pela ausência em sua noite de autógrafos.

Tenho menos de seis meses para concluir esta narrativa. Será escrita assim, à moda de um diário. Tentarei registrar algumas banalidades de minha vida. Penso no que seria e não encontro nada de muito relevante. De qualquer jeito, como o tempo é curto, talvez eu consiga publicar no blogue todo domingo, um capítulo de cada vez. Também é possível, a depender do câncer, que não vá muito longe. Além disso, preciso pensar em um meio indolor de abreviar minha própria existência.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 25/05/2025 - 06:30h

Brincadeira sem graça

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa em estilo impressionista obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa em estilo impressionista obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Sendo um tanto purista, imagino que a temática que abordarei a seguir (em razão de sua futilidade e puro modismo) não merece uma crônica. Considero que é uma matéria muito mais para a alçada e tratamento da imprensa. Tal sucesso, a meu ver, não faz jus ao arcabouço da literatura, ao texto pretensamente concebido com uma qualidade artística, literária. Besteira! De um modo geral, admito, a crônica se ocupa de histórias do cotidiano, por mais absurdas e ridículas que sejam. Dominarei meu estômago e escreverei acerca desse que é o grande bate-boca da vez.

Pouco antenado, alheio às discussões da hora e da moda, eu nem estava por dentro de nada. Não fazia a menor ideia do que temos em evidência na mídia. Hoje, entretanto, fui colocado a par dos últimos acontecimentos, do que existe de mais novo borbulhando nas redes sociais e noticiários. Estou de queixo caído. Tudo isso tem a ver, agora sem mais rodeios ou nariz de cera, com o avassalador despautério que toma conta desta nação.

Refiro-me, por fim, aos benfeitos, badaladíssimos e caros bonecos de silicone, réplicas hiper-realistas de crianças pequeninas. Eis a grande controvérsia que estão debatendo ultimamente e da qual eu não estava ciente. Só fiquei a par do quiproquó após um amigo me questionar a respeito dessa excentricidade.

Lógico que esses bonecos e bonecas tinham que ter um nome inglês, ou americanalhado. O brasileiro, salvo exceções, é um vira-lata quando está em jogo o próprio idioma. A americanalhação da nossa língua é do tamanho deste país. Basta darmos uma olhadinha nas denominações de centros comerciais, casas de pasto, condomínios, motéis e, entre diversos outros, até os prostíbulos são internacionalizados. Assim, pois, os brinquedos receberam o batismo de bebês reborn.

No meu ponto de vista, escolheram um péssimo nome. Em inglês, acaso alguém não saiba, reborn equivale, a depender do contexto, a “renascido” ou “renascimento”. Não vejo muita relação desse verbete com a questão da extrema semelhança, o ambicioso intuito de fabricar imitações de criancinhas tendo como principal componente o silicone. Se a coisa não pode ter um nome brasileiro, se a aplicação de uma palavra em inglês for inegociável, então suponho que, em vez da já consagrada denominação reborn, poderíamos empregar a termo inglês “humanoid” (humanoide). Esta representaria melhor os borrachudos. É o que me parece menos inadequado, menos desagradável no tocante ao nosso bom e massacrado português. Mas não quero me ater neste momento a questões de batismo. O buraco (profundo) é mais embaixo.

Pessoas já crescidinhas, sobretudo mulheres, agora andam para todo lugar com o seu ou a sua bebê reborn a tiracolo. Existem exemplares dessas coisas dos dois sexos. Tratados como criaturas vivas por seus proprietários, alguns indivíduos chegam ao cúmulo da caradura (talvez insanidade) de levar os siliconados para os hospitais, em especial a unidades de saúde do SUS, a fim de receberem consulta médica. Isso é de lascar, como diria o pesquisador Marcos Pinto. Claro que não estou aqui condenando os “papais” pelo simples fato de alguém, dentro das suas condições financeiras, ter um boneco ou boneca desse tipo. Minha crítica é quanto ao exagero.

Calculem só: durante seu expediente em um posto de saúde público, um profissional de medicina se deparar com uma dona (ou o dono) de um reborn querendo que o nenenzinho de borracha seja submetido a uma avaliação médica. Ocorrências dessa ordem têm se repetido, gerando muita confusão e dividindo opiniões. Analisando melhor, pode ser até um problema para a psiquiatria.

Longe de mim querer aqui apedrejar essas mulheres, algumas em comunhão com seus maridos ou esposas, que investem uma grana considerável nesse delírio de maternidade e paternidade. A depender da semelhança, realismo do produto, da grife e do fabricante, um Chucky desses pode custar uns treze ou quinze mil reais. Aí eu penso naquelas criancinhas de colo (as de carne, osso e espírito, devo ressaltar) que existem em toda parte deste país injusto, no âmago de famílias pobres, muitas das quais desesperançadas, sem assistência, privadas do essencial, do básico.

Penso ainda nas que se encontram nos orfanatos ou vivendo nas ruas com seus genitores. Uma população que não sabe, que nunca pegou, sequer viu tanto dinheiro. Meu pensamento se detém sobre os desvalidos, os pequenos oriundos das entranhas da exclusão, do útero da fome, punidos por sua procedência periférica. Sei direitinho o que é isso. Não falo por conjectura, teoria ou senso de humanidade.

O desprezo e a punição dobram de tamanho quando se trata dos inocentes de pele negra. Sim. Os pretos, as crianças pretas são as mais desprezadas, rejeitadas, mais covardemente repelidas, como se porventura a sua cútis da cor da noite representasse algo ofensivo, um insulto à sociedade dos brancos bem-nascidos, economicamente privilegiados.

Em minha pesquisa, a propósito, vi poucos bebês sintéticos pretos. É claro que existem, mas é evidente que são fabricados em número bem menor. Algo como a canção “Pra não dizer que não falei das flores”. A sociedade do poder monetário, dona das melhores oportunidades, detentora de prestígio e consideração, embora signifique uma quantidade inferior nesta pátria dita de chuteiras, autoproclamada país da bola, do futebol, do carnaval, essa sociedade precisa progredir sensivelmente para entender que os marginalizados são seres humanos. Precisa evoluir um bocado para não excluir e julgar pessoas com base em sua cor, opção sexual e religiosa.

Se ora eu me debruço sobre essa questão polêmica, se critico essa brincadeira estúpida, vão se queixar junto ao senhor Lázaro Amaro dos Santos, advogado criminalista, músico e compositor. Foi ele quem trouxe ao meu conhecimento tal celeuma. Sugeriu que eu abordasse esse tema espinhoso. Da próxima vez, tenham fé, posso não colocar o dedo direto na ferida, esquecer por um instante o socialismo, trazer à tona um assunto ameno, uma croniqueta mais leve e bem-comportada.

O Brasil, assim como muitos neste planeta desajustado, é também conhecido por seu desequilíbrio na distribuição de renda. Quero citar o escritor, médico, cientista social, grande humanista e expoente no combate à fome, o saudoso professor e político Josué de Castro. Em uma de suas declarações mais difundidas, ele afirmou o seguinte: “Metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come.” Está correto. Josué de Castro continua atualíssimo.

Enquanto isso, como sabemos, alguns investem uma grana alta em brinquedos reborn. São figuras abastadas, que estão de barriga cheia. Não querem saber da miséria dos seus semelhantes. Boa parte é de mulheres que decidiram voltar a brincar de boneca depois de adultas. Uma brincadeira sem graça.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2026. Todos os Direitos Reservados.