domingo - 25/05/2025 - 06:30h

Brincadeira sem graça

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa em estilo impressionista obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa em estilo impressionista obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Sendo um tanto purista, imagino que a temática que abordarei a seguir (em razão de sua futilidade e puro modismo) não merece uma crônica. Considero que é uma matéria muito mais para a alçada e tratamento da imprensa. Tal sucesso, a meu ver, não faz jus ao arcabouço da literatura, ao texto pretensamente concebido com uma qualidade artística, literária. Besteira! De um modo geral, admito, a crônica se ocupa de histórias do cotidiano, por mais absurdas e ridículas que sejam. Dominarei meu estômago e escreverei acerca desse que é o grande bate-boca da vez.

Pouco antenado, alheio às discussões da hora e da moda, eu nem estava por dentro de nada. Não fazia a menor ideia do que temos em evidência na mídia. Hoje, entretanto, fui colocado a par dos últimos acontecimentos, do que existe de mais novo borbulhando nas redes sociais e noticiários. Estou de queixo caído. Tudo isso tem a ver, agora sem mais rodeios ou nariz de cera, com o avassalador despautério que toma conta desta nação.

Refiro-me, por fim, aos benfeitos, badaladíssimos e caros bonecos de silicone, réplicas hiper-realistas de crianças pequeninas. Eis a grande controvérsia que estão debatendo ultimamente e da qual eu não estava ciente. Só fiquei a par do quiproquó após um amigo me questionar a respeito dessa excentricidade.

Lógico que esses bonecos e bonecas tinham que ter um nome inglês, ou americanalhado. O brasileiro, salvo exceções, é um vira-lata quando está em jogo o próprio idioma. A americanalhação da nossa língua é do tamanho deste país. Basta darmos uma olhadinha nas denominações de centros comerciais, casas de pasto, condomínios, motéis e, entre diversos outros, até os prostíbulos são internacionalizados. Assim, pois, os brinquedos receberam o batismo de bebês reborn.

No meu ponto de vista, escolheram um péssimo nome. Em inglês, acaso alguém não saiba, reborn equivale, a depender do contexto, a “renascido” ou “renascimento”. Não vejo muita relação desse verbete com a questão da extrema semelhança, o ambicioso intuito de fabricar imitações de criancinhas tendo como principal componente o silicone. Se a coisa não pode ter um nome brasileiro, se a aplicação de uma palavra em inglês for inegociável, então suponho que, em vez da já consagrada denominação reborn, poderíamos empregar a termo inglês “humanoid” (humanoide). Esta representaria melhor os borrachudos. É o que me parece menos inadequado, menos desagradável no tocante ao nosso bom e massacrado português. Mas não quero me ater neste momento a questões de batismo. O buraco (profundo) é mais embaixo.

Pessoas já crescidinhas, sobretudo mulheres, agora andam para todo lugar com o seu ou a sua bebê reborn a tiracolo. Existem exemplares dessas coisas dos dois sexos. Tratados como criaturas vivas por seus proprietários, alguns indivíduos chegam ao cúmulo da caradura (talvez insanidade) de levar os siliconados para os hospitais, em especial a unidades de saúde do SUS, a fim de receberem consulta médica. Isso é de lascar, como diria o pesquisador Marcos Pinto. Claro que não estou aqui condenando os “papais” pelo simples fato de alguém, dentro das suas condições financeiras, ter um boneco ou boneca desse tipo. Minha crítica é quanto ao exagero.

Calculem só: durante seu expediente em um posto de saúde público, um profissional de medicina se deparar com uma dona (ou o dono) de um reborn querendo que o nenenzinho de borracha seja submetido a uma avaliação médica. Ocorrências dessa ordem têm se repetido, gerando muita confusão e dividindo opiniões. Analisando melhor, pode ser até um problema para a psiquiatria.

Longe de mim querer aqui apedrejar essas mulheres, algumas em comunhão com seus maridos ou esposas, que investem uma grana considerável nesse delírio de maternidade e paternidade. A depender da semelhança, realismo do produto, da grife e do fabricante, um Chucky desses pode custar uns treze ou quinze mil reais. Aí eu penso naquelas criancinhas de colo (as de carne, osso e espírito, devo ressaltar) que existem em toda parte deste país injusto, no âmago de famílias pobres, muitas das quais desesperançadas, sem assistência, privadas do essencial, do básico.

Penso ainda nas que se encontram nos orfanatos ou vivendo nas ruas com seus genitores. Uma população que não sabe, que nunca pegou, sequer viu tanto dinheiro. Meu pensamento se detém sobre os desvalidos, os pequenos oriundos das entranhas da exclusão, do útero da fome, punidos por sua procedência periférica. Sei direitinho o que é isso. Não falo por conjectura, teoria ou senso de humanidade.

O desprezo e a punição dobram de tamanho quando se trata dos inocentes de pele negra. Sim. Os pretos, as crianças pretas são as mais desprezadas, rejeitadas, mais covardemente repelidas, como se porventura a sua cútis da cor da noite representasse algo ofensivo, um insulto à sociedade dos brancos bem-nascidos, economicamente privilegiados.

Em minha pesquisa, a propósito, vi poucos bebês sintéticos pretos. É claro que existem, mas é evidente que são fabricados em número bem menor. Algo como a canção “Pra não dizer que não falei das flores”. A sociedade do poder monetário, dona das melhores oportunidades, detentora de prestígio e consideração, embora signifique uma quantidade inferior nesta pátria dita de chuteiras, autoproclamada país da bola, do futebol, do carnaval, essa sociedade precisa progredir sensivelmente para entender que os marginalizados são seres humanos. Precisa evoluir um bocado para não excluir e julgar pessoas com base em sua cor, opção sexual e religiosa.

Se ora eu me debruço sobre essa questão polêmica, se critico essa brincadeira estúpida, vão se queixar junto ao senhor Lázaro Amaro dos Santos, advogado criminalista, músico e compositor. Foi ele quem trouxe ao meu conhecimento tal celeuma. Sugeriu que eu abordasse esse tema espinhoso. Da próxima vez, tenham fé, posso não colocar o dedo direto na ferida, esquecer por um instante o socialismo, trazer à tona um assunto ameno, uma croniqueta mais leve e bem-comportada.

O Brasil, assim como muitos neste planeta desajustado, é também conhecido por seu desequilíbrio na distribuição de renda. Quero citar o escritor, médico, cientista social, grande humanista e expoente no combate à fome, o saudoso professor e político Josué de Castro. Em uma de suas declarações mais difundidas, ele afirmou o seguinte: “Metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come.” Está correto. Josué de Castro continua atualíssimo.

Enquanto isso, como sabemos, alguns investem uma grana alta em brinquedos reborn. São figuras abastadas, que estão de barriga cheia. Não querem saber da miséria dos seus semelhantes. Boa parte é de mulheres que decidiram voltar a brincar de boneca depois de adultas. Uma brincadeira sem graça.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/05/2025 - 15:38h

As fronteiras simbólicas do saber

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Construiu-se no imaginário brasileiro a ideia de que a maior capacidade profissional e a melhor produção intelectual se situam nos grandes centros do Sul e Sudeste. O Nordeste, mesmo com sua riqueza intelectual, cultural e tradição acadêmica, foi — e em muitos casos ainda é — relegado ao papel de coadjuvante. Essa lógica centralizadora alimenta um complexo de inferioridade entre profissionais, escritores, pensadores e leitores nordestinos. Tal sentimento, infelizmente, não é raro entre os próprios potiguares.

Se no início do Século XX a regra social vigente para a elite nordestina era a formação dos filhos na Europa, nas cinco últimas décadas o epicentro tem sido São Paulo.  O garbo paternal nas rodas de conversa é uníssono:

– Meus filhos estudam em São Paulo!

Entre comuns, escuto com desalento o aparente descrédito aos profissionais com formação em universidades nordestinas. Com extensão do sentimento aos nossos autores e literatos. “O nordestino tem complexo de vira-lata”, já se ouviu em salas de aula e rodas literárias locais. Talvez o problema não esteja na autoestima, e sim na invisibilização sistemática de quem está fora do eixo Rio-São Paulo.

Sou um entusiasta do nordeste. E do Rio Grande do Norte com muito mais afinco e intensidade. Ao mesmo tempo, incorporo um crítico ácido aos que supõem que o saber tenha uma justificação geográfica. O Sudeste precisa conhecer nossos autores e intelectuais.

Posso citar alguns dos nossos e seus textos, para contrapor a dominância “sudelista”. Nísia Floresta, amiga de Augusto Comte, autora de “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” (1857), foi pioneira na educação feminista no Brasil.  Zila Mamede, a grande poetisa que fundou a Biblioteca Central da UFRN, em antanho já dizia: “Canto, porque há pressa em desentranhar o grito.” Luís Carlos Guimarães, uma das vozes mais potentes da lírica potiguar, era insurgente aos novos “donos” da escrita: “Sou do tempo em que as palavras eram respeitadas, e um verso tinha o peso de um tijolo na mão.” Câmara Cascudo, um dos maiores intelectuais do Brasil, universalizou o folclore nacional com obras como História da Alimentação no Brasil (1967) e Dicionário do Folclore Brasileiro (1954). Ele foi o maior etnólogo de todos os tempos.

A escrita como instrumento, o argumento e a estética linguística como elementos informativos pautam os trabalhos de escritores genais como Carlos Santos, Vicente Serejo, Rejane Cardoso, Marcos Ferreira, Honório Medeiros e outros mais.

A história da produção intelectual potiguar vai além da literatura. O pensamento jurídico e as ciências humanas também tiveram aqui um solo fecundo. Miguel Seabra Fagundes é o autor do primeiro trabalho nacional sobre atos administrativos. Outros, como Eloy de Souza, Olavo de Medeiros Filho, Mário Moacyr Porto, Floriano Cavalcanti, Múcio Vilar Ribeiro Dantas, João Medeiros Filho, Ivo Cavalcanti, Manoel Dantas, Djalma Marinho, Claudionor Telógio de Andrade, Manoel Varella, Eider Furtado, Ney Lopes de Souza e Hélio Vasconcelos, intelectuais de grande vulto, foram responsáveis pela formação de gerações de bons profissionais.

A UFRN e a UERN têm se tornado polo de formação de juristas com inserção nacional. Marcelo Alves, que escreve no BCS, é um deles.  Na academia nacional da docência do direito estão emoldurados os nomes de Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, Luiz Gurgel de Faria, Paulo Linhares, Ana Monica Amorim, Keity Saboia, Fernanda Abreu, Inessa Linhares, Lauro Gurgel, Adilson Gurgel de Castro, Armando Holanda, Barros Dias, Edilson Nobre, Erick Pereira, Ricardo Tinoco, Miguel Josino Neto, Xisto Tiago, Yara Gurgel, Erica Canuto, entre outros… Apenas para nomear alguns nascidos aqui.

Os cursos jurídicos do RN capacitam para a vida humana. Cumprem o mandato profético do professor Carlos Roberto de Miranda Gomes, autor de diversos artigos e ensaios sobre hermenêutica: “A letra da lei não deve sufocar a voz do povo. Direito sem humanidade é só uma norma fria.”

A sabença do Direito, a literatura e o pensamento não se medem por CEP. A boa escrita nasce da experiência, da escuta do mundo — e disso o Nordeste é mestre. A exclusão simbólica dos autores do Nordeste não reflete a sua qualidade, mas a desigualdade histórica de acesso a meios de publicação, circulação e crítica. É preciso romper com a lógica centralizadora que associa prestígio à geografia. Se os profissionais e escritores “Sudestinos” são chamados de “melhores”, talvez seja porque o Nordeste — como o sol que o ilumina — é tão intenso que ofusca os olhos de quem olha de cima.

Temos por aqui os melhores profissionais, escritores, pensadores e intelectuais brasileiros. Nada a dever aos de outras regiões. É hora de quebrar o espelho torto em que o Nordeste se vê. A produção intelectual potiguar não precisa pedir licença. Ela existe, resiste e contribui com a identidade brasileira de forma decisiva. O que falta não é talento ou sabedoria — é espaço e autorreconhecimento!

Marcos Araújo é advogado, professor da Uern e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 18/05/2025 - 09:42h

Relatos impróprios para consumo interno

Por Marcos Ferreira

Travesti da Dreamstime (Direitos autorais: Valeriy Kachaev)

Travesti da Dreamstime (Direitos autorais: Valeriy Kachaev)

Antes de mais nada, declaro que sou um escrevinhador sem qualquer espécie de preconceito. Acho que as pessoas, guardadas as devidas obrigações com os ditames sociais, têm o direito de gozar a vida como bem entenderem. Porém (sempre há um porém) é necessário juntar a isso o mínimo de bom senso. Em especial quando se trata de relacionamentos amorosos, ímpetos sexuais, compromisso religioso e liberdade de expressão. Neste último aspecto é imperativo não confundir expressão com liberdade de agressão. O bicho-homem, leia-se sociedade, vem trocando o debate civilizado de ideias por discursos de ódio. Quem semeia ódio só colhe violência.

Basta colocarmos a mão em nosso juízo (existem indivíduos que não possuem tal coisa) e concluir que não devemos desejar para os outros o que não queremos para nós. Quem enfia o pé na jaca, chuta o balde e cospe para cima deve se preparar para responder por seus atos. Não raro o custo por atitudes impensadas atinge um patamar que se revela muito além das nossas possibilidades de conserto ou reparo. Quando metemos alguns pregos em uma árvore, por exemplo, até podemos retirá-los, contudo ficarão as cicatrizes. Hoje tocarei em determinados pontos nevrálgicos da vida em rebanho, como diria meu amigo filósofo Antonio Alvino da Silva Filho, todavia não tenho o propósito de julgar ou crucificar quem quer que seja. De jeito algum.

Nosso querido e causticante País de Mossoró, como qualquer lugar do Brasil e do mundo, possui a sua cota de indivíduos que furam a bolha das convenções sociais, perdem a cabeça e a compostura, quebram os preceitos da lei de Deus e dos homens e, via de regra, pagam caro. O número de transgressores dos “bons costumes” não é nem um pouco pequeno. Nesta narrativa vou me ater a apenas três casos que tiveram uma vasta repercussão nesta freguesia, ocorridos num passado recente e que se alastraram pelas redes sociais. Basta uma rápida pesquisa na internet e ficamos a par de tudo. Recordarei tais assuntos, conquanto sem querer ferir o amor telúrico dos mossoroenses. São relatos impróprios para consumo interno, eu sei, mas fiquei sabendo disso por terceiros e, volto a dizer, por meio da própria imprensa. Pois bem.

O padre Fábio Pinto Rosa, que celebrou diversas missas na Igreja de Nossa Senhora da Agonia, mantinha um relacionamento extraespiritual com a professora universitária Maria Aparecida do Rosário, de trinta e seis anos, esposa do arquiteto Cornélio Guimarães, marombeiro de quarenta e cinco anos. O arquiteto, no mais das vezes por causa do seu ofício, tinha necessidade de viajar de vez em quando. Nessas oportunidades, logo que Cornélio informava que se ausentaria de Mossoró durante um ou dois dias (em alguns ensejos para participar de congressos de arquitetura em cidades como Fortaleza e Recife), Aparecida não perdia tempo, lançava mão do telefone e programava mais uma pulada de cerca com o reverendo, tipo cinquentão, pele branca, olhos azuis e de estatura mediana. Sim, ele media cerca de um metro e setenta e talvez pesasse uns oitenta quilos. Na avaliação dos fiéis, era um santo homem. Creio que padre Fábio esteja bastante arrependido do seu comportamento arrebatado.

Pouco depois Aparecida se descobriu grávida. Foram nove meses de angústia, aflição, remorso, até que enfim deu à luz. A criança nasceu saudável, um menino branco e de olhos azuis. Os dois últimos detalhes significaram uma bomba no casamento de Aparecida e Cornélio, tendo em vista que ambos são afrodescendentes, baianos de Itabuna. Não foi necessário muito interrogatório por parte do esposo para que Maria Aparecida do Rosário confessasse que o menino era filho do padre Fábio Pinto Rosa. Cornélio Guimarães ficou possesso, foi tomar satisfações junto ao sacerdote quando este se encontrava em plena missa. Colérico, o marido enganado invadiu o altar e quebrou alguns dentes de Pinto Rosa com um soco. Não bastasse, deixou os testículos do presbítero em desgraça ao aplicar-lhe um chute no papo do galo.

Por meio da força, cinco fiéis conseguiram dominar Cornélio, que foi preso naquela mesma noite. O arquiteto acionou um advogado, pagou fiança e deixou a delegacia na manhã seguinte. Depressa a Santa Igreja extraiu o padre Fábio Pinto Rosa de Mossoró, onde não mais foi visto. Além da questão dos dentes, surgiram rumores de que o eclesiástico perdera também a batina. Menos de um ano após a separação, o casal se reconciliou e a criança hoje é considerada uma bênção na vida de Cornélio e Aparecida. Portanto, Aparecida se entendeu com Cornélio e com o Todo-Poderoso, largou o seu hábito de pular cerca e desconhece o paradeiro do ex-amante.

Aos quarenta e dois anos de idade à época, pedreiro de mão cheia e com diagnóstico de bipolaridade, Adalberto Messias Benedito Cordeiro morava no bairro Boa Vista, mais precisamente à Rua Silva Jardim, nº 613. Há dois anos ele flagrou Margareth Junqueira, sua esposa de trinta e oito anos, na cama com Francisca Cordeiro, de vinte e sete anos de idade, única irmã de Adalberto. O pedreiro ficou ensandecido com aquela cena: Margareth e Francisca nuazinhas entregues às labaredas do sexo oral em um clássico meia-nove. Iracundo e de posse de uma de suas ferramentas de trabalho, um rústico pé de cabra com aproximadamente sessenta centímetros, o pedreiro perdeu o controle por completo e massacrou as duas mulheres sem a menor piedade. Os golpes foram desferidos, principalmente, contra a cabeça das vítimas, de modo que partes dos cérebros ficaram expostas no quarto em meio a poças de sangue.

Após seu ato tresloucado, Adalberto não abandonou a cena do crime. Foi preso, julgado e recebeu uma pena de cinquenta e cinco anos de reclusão na Penitenciária Agrícola Mário Negócio. Mas Adalberto não cumpriria a pena. Com menos de um mês, o dia já amanhecendo, ouvi gritos nesta rua. Era a senhora Conceição Cordeiro, mãe de Adalberto, que reside em uma casa diante da minha aqui no Walfredo Gurgel. A idosa acabara de receber a informação de que o filho fora encontrado morto por um colega de cela; enforcou-se com um lençol durante a madrugada.

A terceira ocorrência é muito menos trágica do que cômica. E outra vez o protagonista é um servo do Criador. Trata-se de Clóvis Peixoto de França, pastor de cinquenta e quatro anos da Igreja Milagrosa do Reino de Cristo, templo este situado na Avenida Jerônimo Dix-neuf Rosado, também conhecida como Avenida Leste-Oeste. A história que envolve Clóvis, ocorrida no dia 9 de agosto do ano passado, lance maciçamente difundido pela imprensa escrita, falada e televisionada desta capital brasileira da pirotecnia, configura-se como um típico caso de calote amoroso. É isso! O então pastor (agora não é mais, foi excomungado por sua igreja) saiu em seu Creta azul-turquesa para um motel desta urbe com Isadora Grace, travesti morena de boca carnuda, unhas e batom vermelhos, cujo nome de batismo é Serafim Carvalho Neto, de trinta e quatro anos, cabeleireiro do Salão Cabeça Feita, no bairro Nova Betânia.

Não menos lamentável que o vexame que destruiu a reputação do padre Fábio Pinto Rosa, que foi violentamente devorado pelo pecado da luxúria, a tragédia que se abateu sobre o pastor Clóvis Peixoto de França (esposo da criadora de conteúdo digital Clotilde Nunes Saldanha e pai de duas gêmeas univitelinas, Sara e Marta) estremeceu as bases da comunidade evangélica desta província. Porque a maneira como esse escândalo veio à tona equiparou-se a um abalo sísmico.

Clóvis Peixoto estava no meio da pregação usando paletó, gravata, suado e decerto absorvido pela inspiração celeste, quando o alarme eletrônico de um veículo disparou e o som de vidros sendo estilhaçados pôde ser ouvido por todos dentro do templo. Clóvis não teve condições de seguir com a pregação. Aos poucos, assustadiços, os irmãos de fé começaram a deixar os seus assentos e se encaminharam para a área do amplo estacionamento da Igreja Milagrosa do Reino de Cristo. Nesse momento (incrédulos) os crentes se depararam com Isadora Grace comendo o carro do pastor Clóvis Peixoto na pedrada e com um grande porrete possivelmente de jucá. Todos os vidros do carro estavam detonados, inclusive faróis, sinaleiras e retrovisores.

A lataria também foi atacada. Uma das portas e o capô ficaram com avarias. Quem sabe (raciocinando com meus botões) o porrete fosse de carvalho, fazendo jus ao sobrenome de Isadora, isto é, Serafim Carvalho Neto. Com os membros da igreja atônitos no estacionamento assistindo àquela explosão de fúria, a travesti gritou a plenos pulmões que o pastor Clóvis Peixoto a havia contratado para um programa em um motel há cerca de duas semanas e que o dito-cujo a vinha enrolando desde então, que ele não cumprira o acordo de pagar mil reais para ser varado por Isadora. Naquela noite ele alegou que se esquecera de sacar o dinheiro de sua conta bancária. Ainda assim Clóvis foi devidamente possuído por Isadora, que não contava com o recurso de pix. Ela honrou a sua parte no acerto, o pastor pagou a despesa do motel com um cartão de crédito e deixou o programa no fiado. Dali por diante, segundo Isadora, ele passou a evitá-la, ignorando suas chamadas telefônicas e cobranças através do WhatsApp.

Mais uma vez a nossa valorosa Polícia Militar foi acionada e Isadora e o pastor foram parar na delegacia. O delegado só liberou os dois após o protestante pagar o que devia a Serafim Carvalho. A esposa de Clóvis, morta de vergonha, foi quem se dirigiu a um caixa eletrônico de supermercado para efetuar o saque dos mil reais. Isadora Grace sequer foi obrigada pela autoridade policial a pagar pelos danos causados no veículo do pastor. Boatos dão conta de que Clotilde Apolinário Saldanha não quis saber de conversa, exigiu o divórcio, largou o marido em Mossoró e, em companhia das filhas gêmeas, foi passar uns dias na casa dos pais em sua terra natal, o município de Apodi. Já Clóvis Peixoto de França, dono de três casas lotéricas em Mossoró e região, colocou uma placa de venda em sua residência no condomínio Alphaville e lá permaneceu à espera de um comprador até que a poeira do escândalo baixasse.

É claro que existe um monte de relatos impróprios para consumo interno na boa terra de Santa Luzia, contudo por hoje basta. Da próxima vez, se estas notícias não me renderem nenhuma represália, talvez eu escreva (entre outros) sobre um episódio completamente bizarro. Refiro-me à relação do agricultor Nelson Loyola Gomes com Sansão, um jumentinho de sua propriedade. O sucesso foi denunciado à Polícia Ambiental por Valdomiro Soares da Costa, ex-empregado da Fazenda Macambira, a dez quilômetros da zona urbana de Mossoró. Vale destacar que Valdomiro tinha queixa de Nelson Loyola Gomes porque foi demitido e se sentiu roubado na importância da rescisão trabalhista que recebeu de Loyola. Às ocultas, então, Valdomiro conseguiu filmar com o seu smartphone uma das ocasiões em que Nelson tirou a roupa, colocou-se embaixo do animal e ficou esfregando a bunda nos documentos do jegue.

Zoofilia à parte, devemos admitir que Nelson Loyola, desquitado e com quase sessenta anos, é um homem de coragem. Não é moleza encarar uma pistola desse calibre. O cidadão puxou um dia de cadeia, também recorreu aos serviços de um causídico, e atualmente responde ao processo em liberdade. Raramente sai da fazenda. Tornou-se um tipo recluso após cair nas malhas da Justiça e na língua do povo. Tem consciência de que o seu nome é motivo de chacota em Mossoró. Quanto a Sansão, até onde sei, consta que foi resgatado e adotado por outro fazendeiro.

Olhando bem, findei relatando uma quarta ocorrência, visto que a minha intenção era discorrer a respeito de apenas três casos. Agora deixo a narrativa como está. Não vou passar uma borracha no delito do senhor Loyola. O seu interesse no instrumento sexual do jumentinho Sansão já foi corretamente punido e o latifundiário jurou que nunca mais buscará prazer se aproveitando de nenhum outro tipo de bicho. Exceto se o animal da vez for da raça humana, do sexo oposto ou não.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 11/05/2025 - 06:30h

O espetáculo da putrefação

Por Marcos Ferreira

Um abutre Foto: EcoPic)

Um abutre (Foto: EcoPic)

Decomposta, sua carcaça atrai todo tipo de carniceiros. Ainda assim ele consegue tirar proveito de sua condição de morto-vivo. Sua vida política inteira é uma fossa a céu aberto. Putrefez-se, aliás, desde o dia em que veio ao mundo. Sim. Já nasceu em avançado estado de apodrecimento. Sua podridão é física e moral. Com seu corpo insepulto e sua alma nefasta, converteu-se depressa em uma espécie de Midas ao contrário, arruinando tudo aquilo em que põe a mão, tudo que toca.

É isso. Onde quer que coloque seus dedos infectos, como em um passe de mágica assombroso, transforma o objeto que foi tocado em uma coisa imprestável. Não importa se a matéria submetida à contaminação seja aço, titânio, pessoas ou instituições governamentais. Os seus constantes e insanos discursos de ódio contagiaram imenso número de brasileiros. Possui uma seduzida multidão ao seu dispor. Transformou gente pacata, supostos cidadãos de bem, em zumbis ferozes, marionetes, fantoches sem a menor capacidade de coerência, sem a mínima autocrítica.

É triste demais vermos pessoas que amamos (familiares e amigos) transformados em reféns mentalmente desse Coringa nacional, um mestre insuperável em mentir, em deturpar a verdade e se apoderar do cérebro dos nossos entes queridos. É fato, contudo, que ele apenas atiçou um monte de gente deveras má que apenas estava hibernando, quietinha, adormecida nos seus esgotos psicológicos.

O pulha comanda um exército espantoso de voluntários que aprovam e defendem todas as suas picaretagens, seus cambalachos, sem-vergonhices e roubalheiras. Essas populações mais parecem robôs programados para tão só balançar a cabeça afirmativamente como lagartixas em cima de muros. Uma grande parte dos envolvidos nessa devoção mórbida, nessa lavagem cerebral, é de homens e mulheres que se deixaram apodrecer de forma absolutamente espontânea. Não têm capacidade de reação, não sabem nem querem se libertar do cabresto mental que lhes foi posto.

É como se o ladravaz possuísse um controle remoto absoluto dessa massa de indivíduos alucinados, delirantes, que retransmitem a sua filosofia de virulência e ataques a minorias, a exemplo das agressões físicas e verbais contra gays, lésbicas e negros. Mas existem milhares de homossexuais, de pretos e pardos que defendem esse racista e homofóbico; caíram na lábia do cínico, infelizmente.

Apesar de ofendidos, menosprezados, muitos nordestinos são fiéis ao parasita supremo, aplaudindo, louvando cegamente as vigarices desse espírito maligno. Alguns, porém, estão pagando caro por toda essa demência. Não enxergam um palmo à frente dos seus narizes. A maior parte são ditos pobres de direita, fanáticos sem memória que perderam familiares e amigos na pandemia, mas engolem a mentira de que o coveiro federal e negacionista (que fez pouco-caso dos mortos e zombou de famílias enlutadas) não teve culpa de nadinha. É uma alienação sem limites.

O sacripanta se equilibra no seguinte tripé: Deus, pátria e família, enquanto que ele (machista, agressor e depreciador de mulheres) já se encontra no terceiro casamento. É um indivíduo execrável, animal peçonhento, que deu voz e ousadia a uma récua de tipos sem expressividade, rebanho de gado bípede pronto para se sacrificar pelo canalha. Todos esses cidadãos iludidos se autoproclamam patriotas.

Ocorre aqui uma lavagem cerebral em alta escala, algo comparável à hipnose aplicada por Hitler no povo alemão durante a Segunda Guerra. Os pobres de direita seguem o tal “mito” a qualquer custo, transformados em bucha de canhão do neonazista que defende torturadores e o retorno da ditadura militar.

O biltre ingressou na política partidária, onde nunca meteu sequer um prego em uma barra de sabão, e conseguiu a façanha de tornar a lama dessa imensa vala aberta de engravatados (salvo exceções) ainda mais podre. Respira e expira uma fedentina que atrai um sem-número de moscas-varejeiras e alguns segmentos da imprensa de aluguel. Temos diante de câmeras um golpista notório cuspindo microfones, afrontando jornalistas sérios, um saco de pus que chega aos setenta anos de idade esbanjando mau-caratismo e patifarias. Visita estados e municípios junto com uma escória de políticos venais, corruptos. Sua cretinice percorre o Brasil de ponta a ponta.

A inhaca desse conjunto de carnes, ossos e cartilagens em decomposição ultrapassa as fronteiras deste país. Seu fedor e uma porção de tapurus saem por todos os seus orifícios: pelas narinas, boca, ouvidos e até pelos cantos dos seus grandes e esbugalhados olhos de bicho maléfico. Esse poço de maldades (apenas quando lhe foi oportuno) fez cena de coitado em cima de um leito hospitalar.

Se lhe convém, portanto, faz de tudo para exibir na mídia a sua carcaça repleta de moléstias. Não teve a menor vergonha, o menor constrangimento de assim se mostrar diante de câmeras, expondo o seu corpo purulento em redes sociais como Instagram, Facebook, YouTube e WhatsApp. Gosta e se entregou aos holofotes como um gênero de múmia sem ataduras. Seu único intuito é propagandear, fortalecer a manipulação de sua legião de seguidores, de fanáticos incondicionais.

Deu um espetáculo, um chilique, quando se viu obrigado a receber uma oficiala de Justiça no seu quarto de UTI (um estúdio, na verdade). Nessa hora, fato ocorrido há poucos dias, o parasita reagiu como se estivesse às vascas da morte, quase com um pé (senão os dois) na cova, em condições muito ruins.

Coisa nenhuma! Esse tipo ignóbil, por tantas patifarias que já aprontou, tem que receber intimação até na sepultura. Dessa vez o oficial de Justiça pode ser o próprio Diabo. Aí o mi-mi-mi vai ser grande, cairá aos pés de Satã derramando lágrimas de crocodilo. Enquanto puder, todavia, continuará se passando por valente, firme, honesto. Como não bastasse, nos últimos meses teve a cara dura de participar de eventos em favor da anistia de criminosos, daquele bando de terroristas que fizeram o maior quebra-quebra no dia 8 de janeiro de 2023. Como sabemos, é considerado o mentor de um plano para aplicar um golpe de Estado que previa os assassinatos do presidente recém-eleito, do vice e também do ministro do STF Alexandre de Moraes.

Mas isso está escancarado. Não é mais nenhuma novidade. O golpe fracassou e os envolvidos ficaram expostos. Devem responder por seus crimes nos rigores da lei. E enquanto não chega o dia de acertar contas com a Justiça, essa criatura asquerosa, pútrida, desprezível, deve prosseguir ostentando (só quando for vantajoso) vigor e resistência por meio da sua estratégia midiática de bancar o duro na queda para uma legião de iludidos úteis de toda parte desta grande nação adoecida.

A carniça viva, que talvez esteja bem pertinho de conhecer as acomodações de Bangu 8 ou da Papuda, ainda vai feder bastante. Não existe nenhuma água sanitária, antisséptico ou creolina capaz de minimizar o mau cheiro que emana desse verme que contamina até o chão que pisa. Onde esse patife chega, sempre com seu ruidoso batalhão de lambe-botas e zumbis, o ar se torna irrespirável.

Não tardará para que suas carnes decompostas comecem a se desprender dos ossos. Então restará apenas um esqueleto horrendo e melancólico. Nesse momento, enfim, o espetáculo da putrefação atingirá o seu ápice.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 04/05/2025 - 07:16h

Manicômio digital

Por Marcos Ferreira

Cabeça do palhaço maluco (Fonte: Freepik)

Cabeça do palhaço maluco (Fonte: Freepik)

Desapego, quiçá altruísmo, abnegação, fidelidade ao seu destino de agregador de pinéis. Pode ser tudo isso e muito mais. Só sei que dessa forma, desinteressado de aplausos e lucro financeiro, o diretor deste manicômio digital, o jornalista e escritor Carlos Santos, reúne em seu blogue todos os domingos um expressivo e polimático número de malucos informais. Pois é. Temos aqui amalucados para todos os gostos e atribuições. A começar pelo próprio timoneiro desta nau psiquiátrica, que obviamente tem a sua parcela de insanidade.

Creio que alguém que bate direitinho da cachola não abraçaria essa missão de confraternizar e apaziguar mentes alvoroçadas. “Loucura! Loucura!”, diria o galáctico Luciano Huck, ele também um louco de pedra.

Claro que nem todos que orbitam em torno deste blogue são pirados. Há exceções. Especialmente no tocante aos leitores. Já alguns articulistas padecem de elefantíase do ego. Como os pavonescos Euzébio Ramalho e Gustavo Noronha, intelectuais com renome e prestígio na praça. Exibem um inegável grau de deficiência cognitiva em seus próprios artigos indecifráveis. Digo, a bem da verdade, que esses cavalheiros são mais que meros tipos egocêntricos. Tanto o senhor Ramalho quanto o senhor Noronha são profundos estudiosos de objetos voadores não identificados.

Existem aqueles que fazem questão de deixar bem claro que são doidos. É o caso, por exemplo, do meu estimado xará e jurisconsulto Marcos Araújo, o mais ilustrado e apaixonante maluco que conheço. Araújo, além de cronista invulgar, é comentarista deste espaço, ele que de quando em vez me dá a honra de emitir uma opinião construtiva sobre meus escritos.

Antes que alguém o diga, declaro que não sou nenhum alicerce de equilíbrio mental. A diferença entre mim e os pavões Ramalho e Noronha (suponho) é que estou sempre medicado e não misturo meus antipsicóticos com álcool. Aliás, não conheço o gosto de bebida alcoólica nenhuma. Muito menos posso afirmar que o senhor Ramalho e o senhor Noronha tomam remédio controlado.

Estou sóbrio desde o dia 10 de abril de 1970, há cinquenta e cinco anos. Mais de meio século remando contra as convenções sociais. E isso não tem relação com igreja evangélica nem católica, budismo, espiritismo ou candomblé. A minha sobriedade etílica, portanto, não está vinculada a nenhuma religião.

Sou desconfiado por natureza. Não boto a minha mão no fogo por esses messias e mitos que pipocam em toda parte deste país e do mundo. Enxergo tanta honestidade nessa récua de sacripantas quanto em uma cédula de trinta reais. Penso, todavia, que não somos frutos do acaso. Mas voltemos ao que de fato interessa. O papo aqui não é sobre credulidade ou descrença. Desejo abordar apenas a questão dos que possuem parafusos frouxos ou até faltando. Situação na qual possivelmente me encaixo. Meu alienista é quem pode falar melhor sobre o meu caos psicológico.

Entre os alvoroçados estão os doidos mansos, elementos deveras tranquilos, moderados, com a serenidade de um peixinho de aquário. Desse naipe aponto escribas como Bruno Ernesto, Odemirton Filho, Jessé de Andrade Alexandria, Ayala Gurgel e o delegado da Polícia Civil Inácio Rodrigues Lima Neto, sujeito de fino trato e um ficcionista dos melhores desta terra de Santa Luzia.

Um tanto mais incisivo, combativo, há o poeta e escritor de responsa François Silvestre. Em meio a esses (acho que já estou cometendo o pecado do esquecimento) não posso deixar de incluir o amigo e memorialista Rocha Neto, verdadeiro arquivo ambulante desta aldeia.

Carlos Santos, então, com a sua fleuma de monge tibetano, consegue harmonizar e socializar todas essas categorias de discípulos do saudoso Paulo Doido, cujo nome de pia é Paulino Duarte Morais, que se encantou aos sete dias de junho de 2024. Deixou para todos nós, tantãs, um robusto legado de doidices ora meio afobadas, ora bem-comportadas. Sua biografia de maluco beleza está gravada na história desta província e jamais será esquecida. Os doutores psiquiatras Dirceu Lopes e Roncalli Guimarães, que também possuem as suas neuras, ficaram desolados com o passamento de Paulo Doido. Infelizmente, apesar dos esforços, nosso editor nunca conseguiu firmar um contrato com Paulino Duarte para participar do BCS — Blog Carlos Santos.

Como os demais cronistas deste hospício, Paulo Doido teria bastante o que contar sobre suas andanças pelas ruas de Mossoró. Segundo uma fonte porra-louca, corre à boca miúda a notícia de que o diretor deste malucódromo adquiriu o passe de outro doido para jogar em nosso time de birutas. Minha fonte diz que se trata de ninguém mais, ninguém menos do que o ponta-esquerda Adélio Bispo, esfaqueador de elite predestinado. Será muito bem-vindo ao nosso manicômio digital.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 27/04/2025 - 07:22h

O inferno é aqui

Por Marcos Ferreira

Ilustração: besta de sete cabeças do Apocalipse (Fonte: JW.ORG)

Ilustração: besta de sete cabeças do Apocalipse (Fonte: JW.ORG)

Escurece. Melhor dizendo, anoitece. “Escurece”, forma do presente do indicativo, verbo transitivo direto, intransitivo e pronominal, pertence a um pretérito que hoje em dia é coisa rara. Há bastante tempo, com breves ocorrências, já não escurece. Isto no que se refere à comutação do dia para a noite. Quase ninguém se importa ou acredita que ainda temos crepúsculos, arrebóis. Porque mal a noite se aproxima, ao contrário de antigamente, eis que um sem-número de postes acendem suas luminárias de modo automático e eficaz. As primeiras vítimas desse progresso foram os acendedores de lampiões, trabalho cantado em verso e prosa quando nos tinha serventia.

Até as estrelas, agora com a geração cabisbaixa dos smartphones imperando, têm passado despercebidas na infinitude do espaço. A poeticidade da Lua, sobretudo se não for cheia, também fica prejudicada nesta era tecnológica em que um reles celular rouba a cena e põe uma quantidade astronômica de gente com a ponta do queixo colada no peito. Exceto pelos astrônomos e por alguns poetas que vivem na órbita da Lua, ouso dizer que a própria Via Láctea está caindo no ostracismo.

Em nossa casa, no universo de minha meninice, escurecia de fato. Conforme principiei, “escurece” estaria com emprego adequado. Porque as lamparinas de querosene daquele nosso domicílio de pau a pique, sem luz elétrica, sem água encanada, só eram acesas (duas ou três em pontos cruciais) quando a visibilidade estava deveras comprometida. Enquanto houvesse pelo menos penumbra, um lusco-fusco que permitisse nossa locomoção e tornasse certas coisas encontráveis, a minha mãe não gastava querosene à toa. A senhora Branca era autodidata em economia. Senso este que desenvolveu ao longo dos sessenta e dois anos em que esteve por aqui.

No terreiro de nossa casa, situada na Avenida Alberto Maranhão, 3521, lá no finalzinho dos anos setenta para começo dos oitenta, havia uma grande árvore, um flamboyant que à noite nos oferecia uma espécie de chão de estrelas, parecido com a metáfora daquela célebre canção do Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. Sob a copa do flamboyant, a gente se reunia (nove irmãos) para ouvir a senhora Branca contando histórias de onça e de mal-assombro.

Agora as onças, em especial as onças-pintadas, sofrem ameaça de extinção. As almas penadas desapareceram das conversas de roda. Talvez porque as assombrações, a exemplo das onças, têm medo desta sociedade hostil que formamos. Durante séculos a fio a Terra inteira é massacrada por nós.

Corrigindo, enfim, anoitece. Há muitas luzes, porém existem incontáveis trevas sociais sem ao menos uma lamparina de esperança, uma luzinha no fim do túnel. Tanta coisa boa morreu para um monte de coisas boas nascer. Mas seguimos sem respeitar tradições, destruindo costumes, a fauna e a flora. A Natureza agoniza sob nossa ganância e descaso. O planeta começou a se voltar contra a nossa índole predatória, deletéria.

Qualquer dia tudo vai escurecer de vez. Parece que o Sol tomou as dores do globo terrestre e decidiu fritar nossa existência. O aquecimento global está aí como carrasco implacável sobre o cadafalso, só esperando a hora de aniquilar essa humanidade desumana composta por uma gigantesca soma de pessoas insensíveis.

Mais cedo ou mais tarde um antiquíssimo verbo retornará para um acerto de contas com o bicho-homem, único animal que devasta o próprio habitat. Trata-se do verbo retransfigurar. O mesmo conjugado por Deus na época de Noé. Receio que dessa vez não contaremos com uma segunda arca. Nem o Todo-Poderoso reenviará o Nazareno para salvar a nossa pele. Paciência, como se diz, tem limite. Não. Não haverá outra arca. Apenas choro e ranger de dentes.

O Inferno é aqui.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 20/04/2025 - 06:22h

Sem verbos

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa do Freepik

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial do Freepik para o BCS

Sábado de aleluia. Avenida Presidente Dutra. Os dois naquele trecho entre uma ponte e a outra. Primeiras horas da manhã. Comércio ainda fechado. Pouco fluxo de veículos. Ali sentado em uma calçada um idoso com seu cãozinho tristonho e felpudo. Duas vidas sem amparo algum. Mendigo de barbas e cabelos longos e brancos. A noite dormida naquela calçada úmida entre cobertores sujos com aquele cachorrinho. Ambos sob a marquise de uma loja de móveis caros. Expostos à cruviana, ao vento frio da madrugada, às adversidades ao redor. Companheiros de privações e desventuras. Desassistidos, vulneráveis. Há quanto tempo sem um banho? Decerto vários dias. Indivíduo com mais ou menos setenta anos. Pele branca, rosto vincado.

Semana santa infernal para muita gente em tais condições, à margem da sociedade, na sarjeta. Alguns com tanto e tantos sem nada. Sociedade predatória, desigual. A partilha do pão? Uma falácia! Mundo impiedoso com os sem-teto, os desvalidos, elementos invisíveis aos olhos da grande maioria da população abastada e insensível aos irmãos tragados pela miséria. Vida excruciante, severa, perversa.

Cidadãos vítimas do caos profundo, pessoas mergulhadas no abismo de suas existências miserandas, desesperançadas, sem voz e sem verbos. Nesta importante avenida de Mossoró, um retrato nu e cru do desmantelo social: um velho e o seu cão entregues ao deus-dará. O Deus do Céu talvez alheio a esse panorama dramático. Muitas coisas, muitos problemas para “Aquele que tudo pode”. Sim, uma calamidade complexa, soluções difíceis até mesmo se nas mãos do Todo-Poderoso.

Um pobre homem e seu inocente e pequenino cão destroçados pelas colossais engrenagens deste sistema avaro, ignorados por cristãos e protestantes materialistas, de espíritos azinhavrados. Cadê aquela ecumênica historinha de liberdade, igualdade e fraternidade? Frase embusteira, vazia, demagógica. A miséria, o abandono e a fome às escâncaras debaixo de viadutos, nas calçadas, nos bancos de praças. Nenhum de nós responsável por nada disso. Cada qual com os seus projetos e prioridades, com nosso umbiguismo arraigado, individualista, sem dó, sem compaixão.

De quando em quando uma espécie de remorso, imenso constrangimento atravancado na minha consciência. Vergonha do meu hipotético status de ser humano, de filho de Deus, de irmão dos meus irmãos mais necessitados. Não, obviamente, desses irmãos sem ao menos um pão duro a cada dia. Igual àquele desvalido exposto ao relento na Presidente Dutra, em situação degradante àquela hora da manhã de ontem (sábado de aleluia), invisível em uma calçada de loja com o seu cachorro melancólico. Por que, meu Deus, tanta lástima sob os Céus? O poeta condoreiro Castro Alves também sem essa resposta antes de sua partida para o além-túmulo. O Criador, cheio de afazeres até o pescoço, sufocado, impotente diante deste mundo tão cruel.

Provavelmente o Altíssimo já sem forças para esse fardo gigantesco, desmedido. A cada um de nós, no entanto, o dever de boas ações, da divisão de renda, da partilha de alimento, moradia para todos, o mínimo de dignidade. Oh, Senhor, perdão por esta crônica meio zangada em favor desses teus filhos rifados nas ruas, em todo recanto da Terra, desprotegidos, sem guarida, sem vez, sem verbos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 13/04/2025 - 04:02h

O quinteto fantástico

Por Marcos Ferreira

Marcos Ferreira, Genildo Costa, Caio César Muniz, Cid Augusto e Rogério Dias (Fotomontagem e edição de imagem do BCS)

Marcos, Genildo, Caio, Cid e Rogério (Fotomontagem e edição de imagem do BCS)

Agora estou aqui a cismar com os meus botões sobre os antigos e os novos rumos de minha vida até o presente instante. Penso com carinho, e também de forma saudosa, nos vínculos de amizade estabelecidos ao longo de minha trajetória. Avalio essas questões e constato o quanto me distanciei fisicamente (ou nos distanciamos) de algumas pessoas queridas. Sim, apenas do ponto de vista físico, sem aquele calor fraterno e cotidiano de outrora.

Hoje estamos, como se diz, distanciados. Aqui e acolá nos avistamos nas esquinas das redes sociais, nos recantos da blogosfera.

Por uma razão ou por outra, manipulados pelos destinos que a vida nos reserva ou impõe, fomos na direção de outros horizontes e prioridades. Apesar desse afastamento físico, o nosso elo permanece, sobreviveu à diáspora que envolve a busca pelo pão. O papo tête-à-tête tornou-se raro, contudo volta e meia a gente se abraça através dos filamentos “internéticos”, recursos como (por exemplo) WhatsApp e Instagram.

Uma vez ou outra me aparece aqui um Túlio Ratto e mexemos no baú do passado, bebemos café, catamos retalhos de memórias ainda do tempo da Revista Papangu em papel, recordações com cheiro de naftalina, “pensamentos idos e vividos”, como clássico soneto “A Carolina”, de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho.

É isto. Já não existe aquela nossa interação amiúde, tão intensa e salutar. Dessa época de ouro, mágica e extremamente profícua em nosso universo de verdes sonhos e primordiais atividades literárias, quero me dirigir com um abraço bem caloroso a quatro indivíduos dos quais nunca me esquecerei. Refiro-me aos senhores Rogério Dias, Genildo Costa, Cid Augusto e um tal de Francisco Caio César Urbano Muniz.

Formávamos, naquela metade dos anos noventa para os anos dois mil em diante, o que ora denomino de Quinteto Fantástico. Apenas para afrontar a Marvel.

Caio César Muniz foi o cara que me tirou da minha toca no Santa Delmira, num tempo em que eu tinha muito pouco acesso àquela Mossoró das letras, da cultura, da prosa, da poesia. Fomos apresentados pelo então poeta underground Cid Augusto e daí por diante Muniz (assim como Cid) me mostrou o caminho das pedras. Na sequência, por sermos articulistas do Caderno 2 do Jornal O Mossoroense, topamos com o trovador Genildo Costa.

Pouco após, por intermédio de Genildo, Cid e Caio, fui apresentado ao publicitário, poeta e artista plástico Rogério Dias. Eu e Muniz visitávamos o QG, a “oficina irritada” e multicor de Rogério quase que diariamente. Rogério é o sujeito do pavio mais curto, o tipo mais sensível e fascinante que já conheci.

Desempregado à época, pois ainda não havia conseguido o trabalho de revisor e copidesque no jornal, eu não tinha um tostão furado. Caio César Muniz pagava até mesmo as minhas passagens de ônibus para irmos ao Centro. Noutras ocasiões ele também não tinha grana, vinha a pé lá do Conjunto Integração e de minha casa a gente se mandava a pé para O Mossoroense ou para o ateliê de Rogério.

No mais das vezes eu primeiro manuscrevia meus textos e depois passava a limpo em uma bela Olivetti Línea 88 que ganhei de Rogério. A seguir entregava os poemas ou crônicas ao jornal. Daí a pouco, então, formamos isso que hoje denomino de Quinteto Fantástico. Cid era o crânio, o Homem Elástico. Rogério era o Coisa, o Homem de Pedra, porém com um coração de manteiga.

Muniz era o Tocha Humana, o elemento que incendiava nossos ânimos, tocava fogo no circo, inflamava plateias nos bares, escolas públicas, particulares e universidades, sempre audaz, intrépido. Eu, naturalmente, era o Homem Invisível, mais tímido do que uma jovenzinha recém-chegada a um lupanar. Isso no tempo em que ainda existiam essas casas de tolerância.

Foi nesse período que nos deparamos com figuras emblemáticas da poesia, da cultura mossoroense e potiguar, personagens de grande relevo como Luiz Campos, Apolônio Cardoso, Onésimo Maia, Lenilda Santos, Nonato Santos, Tony Silva, Augusto Pinto, Crispiniano Neto, Luiz Antônio, Raimundo Soares de Brito, Vingt-un Rosado, Aluísio Barros, Leontino Filho, Zenóbio Oliveira, Laércio Eugênio e o vate Zé Lima. Uma elite intelectual que nós olhávamos com reverência.

Genildo Costa era (ainda é) um músico e tanto. Naqueles primórdios, sem dúvida, ele representava o grande menestrel do grupo, autêntico cantador, dono de uma voz poderosa e ótima presença de palco. Artista nato, oriundo de uma família de excelentes escultores do verso, musicou alguns poemas de minha autoria, em especial o soneto “Caminhos Opostos”, os poemas “Minha Casa” e “Cores e Caminhos”. Este último Genildo usou para intitular o CD que ele conseguiu lançar na marra.

Além de mim, o mossoroense de Grossos musicou poesias de Luiz Campos, Rogério Dias, de Caio César, Cid Augusto, Maurílio Santos, Antônio Francisco e Crispiniano Neto. Em suma, é justo dizer que o Costinha gravou uma verdadeira antologia poética.

Reacendemos a chama da Poesia nesta vila, levamos a arte do verso para os coretos e vários outros pontos culturais da urbe. Naquela vitrine do Caderno 2, encontravam-se poetas e prosadores como Kalliane Amorim, Gustavo Luz, Líria Nogueira, Francisco Nolasco, Jomar Rego, Margareth Freire, Ricarte Balbino, Fátima Feitosa, Airton Cilon, Goreth Serra, Gualter Alencar, Silvana Alves, Clauder Arcanjo, Antônio Cassiano, Graciele Callado, Tales Augusto, Kézia Silmara, Misherlany Gouthier, Symara Tâmara e o nosso hoje estelar cordelista Antônio Francisco.

Eram poetas e prosadores às pampas. Tantos e tantas que esta minha memória de Sonrisal em copo d’água não consegue abarcar. Temos hoje antigos e novos talentos que coexistem de maneira harmoniosa. Indivíduos de uma quadra remota ao lado de uma turma jovem e não menos talentosa. Então, apesar da eterna falta de incentivo por parte dos governos municipal e estadual, a literatura ainda resiste. “Se foi assim, assim será”. Como na famosa canção do Milton Nascimento.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica / Cultura
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quinta-feira - 10/04/2025 - 04:44h

Cinco ponto cinco

Por  Marcos Ferreira

As várias faces do autor aniversariante do dia (Fotomontagem de José Arimateia da Silva)

As várias faces do autor aniversariante do dia (Fotomontagem de José Arimateia da Silva)

Considero que hoje, ao menos no que me toca, não é um dia absolutamente especial. Pois todos os meus dias têm sido especiais. Digo isto com franqueza e contentamento. Trata-se apenas de mais um 10 de abril sem pompa, sem foguetório. Um dia comum, desimportante no calendário desta urbe quanto em âmbito tupiniquim. Por acaso também representa o natalício deste sapateiro das letras não menos desimportante sob o ponto de vista midiático e da própria cultura deste reino do faz de conta. É isto. Sou um peso-pena na rutilante balança que classifica a estatura e o nível social desta nossa vila com os seus medalhões estupendamente ovacionados.

Embora pareça o contrário, não estou reivindicando reconhecimento nenhum, não engordo rancores, despeito, inveja, frustrações. Sequer eu nutro desprezo por esta supostamente abençoada terra de Santa Luzia. Não, minhas senhoras e meus senhores. Não sou mais e nem sou menos com ou sem a aprovação, sem o beneplácito desta aldeia. Não mendigo, a esta altura da minha existência, homenagens ou bajulices. Nada disso me importa. Mossoró não consagra nem desconsagra ninguém.

Faço uma breve retrospectiva de minha modesta biografia ao longo destas mais de cinco décadas e tenho a convicção de que estou no lucro. Pois é. Não tenho do que me queixar nos dias atuais. Gozo de saúde e da amizade de pessoas respeitáveis. Sobrevivi, escapei dos tentáculos da fome e do analfabetismo escolar e político. Neste momento, depois de tantos altos e baixos na gangorra da exclusão, da escassez e da desesperança, vivo em condições propícias no tocante à minha subsistência. O pão de cada dia não é mais (literalmente) o pão duro e inacessível de outrora.

Em diversas outras épocas enfrentei sérios problemas, graves percalços, grandes tempestades psicológicas e financeiras, contudo hoje experimento uma temporada de ventos amenos. De uns tempos para cá, felizmente, talvez nos últimos seis ou sete anos, tenho usufruído de uma vida mais digna e tranquila. Graças, até certo ponto, a pessoas bacanas, fraternas, que interferiram de modo positivo no meu mundo de obscuridade. Gente abnegada, anjos sem asas que me resgataram das sombras e me guiaram para o caminho da luz, da paz e do equilíbrio. Se tenho o que comemorar nesta data? Não posso negar que tenho. Claro que tenho. Sinto que me encontrei e fiz as pazes comigo mesmo. Livrei-me de quase todos os meus fantasmas e monstros interiores.

Utilizando-me neste minuto de um lugar-comum, uma frase repisada, contudo de facílimo emprego, declaro que estou em harmonia com a vida, amando e querendo bem. Admito que este 10 de abril em particular, e que representa cinco ponto cinco nas minhas costas, é sem dúvida um dos meus aniversários mais agradáveis. Logo eu que, sendo aqui verdadeiro, nunca gostei muito do dia dos meus anos.

Dispenso o tradicional, o chatíssimo cantar de parabéns, no entanto recebo com muita satisfação o abraço de todos que me são caros e que têm por mim estima e carinho. Se Deus quiser, festejaremos outros cinquenta e cinco.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 06/04/2025 - 05:38h

Juju é impossível

Por Marcos Ferreira

A retratada em pose com o autor da crônica (Foto: Marcos Ferreira)

A retratada em pose com o autor da crônica (Foto: Marcos Ferreira)

Ontem à noite eu conversava ao telefone com o escritor e delegado de Polícia Civil Inácio Rodrigues Lima Neto, amigo que ganhei por intermédio deste blogue, mas que ainda não conheço pessoalmente. Enquanto eu papeava com Inácio, ela estava de olho em mim, rondando a mesa e a cadeira, querendo ouvir o diálogo. Talvez desconfiasse de que eu estivesse com Natália na linha. Juju tem uma paixão enorme por Natália. Já nem uso o aparelho no viva-voz para evitar os ouvidos da traquina, que reconhece a voz de minha noiva e fica em uma agitação tremenda.

Ninguém precisa me recordar de que só faz umas cinco ou seis semanas que escrevi sobre Juju. Pois é, aqui está ela em mais uma pose, capturada em uma fotozinha. Com quatro meses de idade, esbanjando saúde e beleza, dedica-me bastante atenção, carinho, chamegos e, obviamente, espera reciprocidade. Talvez eu esteja equivocado, como tantas vezes estou, no entanto lhes digo que ela é ansiosa e tão carente quanto eu. Súbito, com uma rapidez que me surpreendeu, peguei o telefone e fiz o registro fotográfico desse hábito que ela tem de saltar sobre meu colo quando me encontro à escrivaninha à procura de uma trama para redigir. Aqui, portanto, está Juju com o seu olhar cheio de indagações, repleto de uma ternura intrínseca à sua espécie.

Só me deixa continuar com a redação após receber uns minutinhos de carícias, afagos, dengos. A seguir vai aos recipientes da comida e da água e volta para o seu recreio canino com os brinquedos de borracha. Noutro instante se põe a mordiscar um osso desses encontráveis nos pet-shops do País de Mossoró.

Admito, para ser bastante franco, que até agora eu não tinha a menor ideia sobre o que produzir para o BCS — Blog Carlos Santos. É isso; fui salvo por Juju. Suponho que daqui por diante darei conta do meu compromisso dominical de lhes oferecer amenidades. Isto, portanto, é o que eu tenho para hoje. Com um pouquinho de indulgência e tolerância, quem sabe o leitor se contente com esta crônica em andamento. Eu sei que não é lá grande coisa, claro que não, contudo não me ocorre narrar algo mais interessante, prosaico e com um nível menor de receita caseira.

Além disso, tenho consciência de que eu (desde o ano passado) venho requentando demais a estratégia de escrever sobre o exercício de escrever. Mais uma vez, por gentileza, peço que perdoem este escriba sem outro tema para abordar. Dito isto, e dando a mão à palmatória, convém não me demorar neste assunto.

Porque, sendo de novo sincero, o que há de gracioso na página em tela não é outra coisa além da figura de Juju neste momento fofura. Os cães, assim como os gatos, são fotogênicos por natureza. Graças a isto, num puro lance de sorte, peguei o celular, posicionei-o com o temporizador ligado em cinco segundos e me dei bem com esse recurso tecnológico para produzir esta foto sem maquiagem, sem filtro. E se de fato uma imagem vale por mil palavras, conforme o adágio, posso até me considerar bem-sucedido na missão de dar à luz mais uma crônica para este espaço.

Adentro no mês de abril com esse artifício autocomiserativo, contando somente com o charme e a graça de Juju, esta feroz devoradora de ração. É sempre preciso tomar certos cuidados com ela, pois não tem o menor dó em puxar uma toalha da mesa, sumir com meus chinelos, abocanhar meus óculos e o telefone. Já me aprontou danações desse tipo recentemente. Juju é deveras impossível.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 30/03/2025 - 06:32h

Pão nosso de cada dia

Por Marcos Ferreira

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

Presumo que poucas pessoas se interessem por esse conteúdo, por essa informação. Pois se trata, a bem da verdade, de uma sensaboria, algo de quem parece não ter coisa melhor para dizer. Teimoso, porém, vou contar esta história insípida. É que hoje acordei cedo. Cedinho mesmo: pouco depois das quatro da madrugada. A bexiga estava de fato nas últimas, então fui ao banheiro e não consegui reaver o sono. Volta e meia isso acontece; uma emergência fisiológica. Ainda assim, com o quarto na penumbra e naturalmente frio, retornei para a minha rede e os cobertores.

Vocês sabem que em ocasiões dessa ordem, quando a gente se encontra insone por inteiro ou parcialmente, mil e uma maluquices nos vêm à cabeça. Então nos alcança um monte de besteirol, pessoas e meio mundo de lucubrações. No meio disso, fato corriqueiro, vêm ao meu juízo determinados temas que julgo aproveitáveis, com certo potencial para converter em uma crônica garranchosa.

Recordei-me, por exemplo, de uma dúzia ou mais de amigos que têm (coloco-me no meio deles) esse alumbramento visceral, comunhão, enlace com o exercício da escrita. Sim. É o que estou dizendo. Somos, de forma saudável, reféns espontâneos e um tanto orgulhosos dos vencilhos, das amarras da escrita. Como no verso de Camões, é estar preso por vontade, é servir a quem vence o vencedor. O bardo caolho é fora de série, extraordinário, um fenômeno da poesia. É incomparável.

Então penso, após todo esse nariz de cera, nos meus pares, nos meus amigos literatos, homens e mulheres dominados pelo micróbio da literatura. Alguns desses indivíduos inéditos em livro (por razões que a própria razão desconhece) seguem fugindo da raia, fazem ouvidos moucos ao chamado da Literatura. Lembro, mas que isso fique apenas entre nós, de figuras preciosas e cheias de hesitações como nosso querido arquivo ambulante Rocha Neto. E não apenas o Rocha. Há outros desertores da tinta e do tinteiro nesta Macondo nordestina. Faço aqui a vez de dedo-duro.

O que tanto esperam (insisto que esse assunto fique só entre nós) os senhores Marcos Araújo, Bruno Ernesto, Odemirton Filho, Ailson Teodoro, Raquel Vilanova e, entre outros, Bernadete Lino? Pois é, meus caros. A senhora Bernadete Lino, pernambucana que mora em Caruaru, tem o que verter para o papel. Ela, que me oferece a honra de sua amizade e tem um forte elo com nossa terra, possui uma biografia muito bonita. Estou certo de que um livro seu de memórias, considerando a clareza de seu pensamento e intimidade com nosso idioma, seria uma ótima contribuição às letras. João Bezerra de Castro, gramático vocacionado, pode afiançar o que digo.

A labuta da escrita, perdoem esta metáfora talvez de mau gosto, representa o nosso pão de cada dia, mesmo em se tratando (repito) de personagens que ainda não estrearam em livro. De repente alguém pode saltar e dizer que estou cobrando dos outros uma produção que eu próprio não reúno. Quem isto afirma não está de todo errado, considerando que sou autor de um só livro publicado.

Todavia, para quem não sabe, possuo quase dez títulos inéditos nos gêneros romance, contos, poesia e crônicas, tudo isso à espera de melhores horizontes financeiros ou da possibilidade de ser pego no pente-fino de concursos literário que oferecem premiação em dinheiro e, no mais das vezes, publicam a obra vencedora. Este é o caminho que percorro há tempos.

Ressalto, claro, que estou a anos-luz da fecundidade, da prenhez e dos recursos econômicos de autores de minha estima como Clauder Arcanjo, Ayala Gurgel e o prolífero e versátil Marcos Antonio Campos, três mosqueteiros, três espadachins bem-sucedidos nos salutares duelos com a arte do fazer literário.

Além desses três, e não menos meritórios, temos no País de Mossoró e no estado manejadores da língua portuguesa bem-aventurados como Vanda Maria Jacinto, Fátima Feitosa, Dulce Cavalcante, Margarete Freire, Lúcia Rocha, Júlio Rosado, Caio César Muniz, Cid Augusto, Jessé de Andrade Alexandria, Crispiniano Neto, François Silvestre, Carlos Santos, Inácio Rodrigues Lima Neto, Airton Cilon, Thiago Galdino, Marcos Pinto, Francisco Nolasco, David Leite, Honório de Medeiros, Antonio Alvino e, devido às condições da memória, outros mais que ora não recordo.

Todos, com um nível maior ou menor de arrebatamento, buscam esse pão nosso de cada dia que resulta em crônicas, contos, romances, poemas. No que me toca, enquanto cativo deste mister de arranjar palavras e exibi-las em páginas com um mínimo de qualidade, produzo coisas desse tipo: uma crônica um tanto quanto prolixa, mas sempre com a mão na massa do verbo do qual nos alimentamos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 23/03/2025 - 05:30h

Recanto das letras

Por Marcos Ferreira

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

Alguém pode imaginar que toda vez que sentamos à escrivaninha já estamos com uma ideia fermentando na cuca para converter isso em redação, em crônica, conto, romance, poesia. Não. Às vezes é apenas diante da página em branco que nos ocorre aquele estalo inspirativo, uma ideia para um texto ao menos apresentável. Há ocasiões em que de fato nos colocamos à mesa de escrita com um tipo de mote, de leitmotiv, o feijão com arroz pré-cozido e dispondo de certos temperos linguísticos e com uma boa pitada de literariedade. Admito que isso acontece com um pouco maior de frequência. No entanto experimentamos dias como hoje. Falo por mim.

Pois é, hoje não se trata de um desses dias de cérebro fecundo. De toda forma, ao me instalar neste recanto das letras, parece assim (nem sempre) que o assunto necessário para urdir o texto se descortina na minha cabeça.

Não sei explicar direito, mas paira neste recanto da casa uma atmosfera de inventividade, uma aura de engenho. Aqui, à maneira de um para-raios de arte, tudo à minha volta pode resultar em matéria para a elaboração, por exemplo, de uma crônica que explore o lugar-comum de escrever sobre o ato de escrever. O que importa é que neste cantinho de trabalho, nesta oficina abstrata, existe essa coisa de extrairmos da pedra bruta uma peça que se possa classificar como artística.

Arte, quer seja música, literatura, cinema, artesanato) difere por inteiro de outros exercícios profissionais. Pois não se trata de um serviço prático, uma ciência, um ramo objetivo, preciso. Um engenheiro ou arquiteto adquire conhecimentos específicos para tocar adiante as suas edificações e projetos. Não se pratica a medicina sem estudos, aprendizados e experimentações inerentes à profissão, ao juramento e compromisso de salvar vidas. Um advogado, por mais medíocre que se revele, não avança no métier da advocacia sem ao menos lograr êxito na provinha da OAB.

Um pedreiro não constrói uma casa ou até um arranha-céu se não reunir expertise, experiência na sua labuta braçal. Um sapateiro, ainda que das letras, não assegura o pão de cada dia se não for bom no ramo de calçados.

A escrita, portanto, é uma linha de produção imprecisa, sujeita a uma voltagem abstrata. É diversa das ciências exatas. Nunca temos absoluta certeza de que atingiremos o sucesso quando queremos converter em texto supostas intimidades com nosso alfabeto. Fala-se em dom, todavia prefiro chamar isso de pendor, de vocação. Porém vocação não vale nada sem que a pessoa busque se aprimorar, adquirir um mínimo de destreza perante o mister literário. Existem homens de letras que produzem muito pouco, sem um estro prolífero, contudo o pouco que deitam no papel é de uma qualidade inquestionável. Encontra-se em Mossoró e no mundo inteiro (permitam-me esta indelicadeza) escritores que têm uma prenhez de coelhas, já com trinta ou cinquenta livros publicados, embora tragam a lume uma produção de saúde muito fraquinha.

Ninguém pode contar vantagem diante de uma página em branco. Pois o risco de o sujeito ser derrotado pelo monstro da infertilidade é iminente. Tanto é, isto no que me toca, que agora meu discernimento me parece prejudicado e não estou convicto de que estas linhas podem ser vistas como apreciáveis.

Não raro, entretanto, me sinto hipoteticamente beneficiado pela atmosfera criativa que este recanto das letras me proporciona. Então, aos trancos e barrancos, costumo sair vencedor neste arriscado octógono da literatura.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 16/03/2025 - 07:20h

Ainda estamos aqui

Por Marcos Ferreira

Imagem reproduzida pelo autor

Imagem editada pelo autor

Peço desculpas ao escritor Marcelo Rubens Paiva pela paráfrase em cima do título de seu badalado romance, best-seller brasileiro que deu o Oscar ao filme (título homônimo) do cineasta Walter Salles. Não vou discorrer acerca da obra do Marcelo nem sobre o filme do Walter, pois não li o livro nem assisti ao longa-metragem. Considero importante ser franco quanto a esse detalhe. Neste caso, a exemplo da canção do Zeca Pagodinho, digo que não sei, nunca vi, eu só ouço falar.

Ao contrário de enaltecer a saga da maior coqueluche editorial e cinematográfica do país até o momento, venho bater em uma tecla um bocado antiga e decerto invisível no âmbito da literatura nacional. Sim. Ainda estou aqui com “A Hora Azul do Silêncio”, livro praticamente desconhecido do público leitor, sobretudo em nível de Brasil. Entretanto, neste nosso microcosmo do País de Mossoró, talvez existam pessoas que já estão de saco cheio e não suportam ouvir mais nada no tocante ao meu livrinho de poesia. Além fronteiras mossoroenses, porém, ouso dizer que se trata de algo possivelmente inédito. Daí que de vez em quando (feito agora) tento expor esta minha cria ao conhecimento de outros leitores, exibi-la a outras cidades e estados.

Imagino que não seja nenhum delito a gente tentar vender o nosso próprio peixe. Até porque, à maneira de qualquer outro tipo de trabalho artístico ou não, neste caso nós temos um produto intelectual convertido em livro físico disponível para venda. Possuo uma considerável quantidade de exemplares desta obra que venceu os “Prêmios Literários Cidade de Manaus”, categoria “Melhor Livro de Poesia”, e que está em segunda edição. Muitos leitores, portanto, não têm conhecimento da existência desta publicação na qual se encontram poemas ganhadores de concursos nacionais destinados a premiar um único poema, além de menções honrosas para outros textos.

Desta vez, conforme consta na foto que ilustra esta página, eu lhes submeto uma crônica de caráter puramente comercial. Segundo a imagem, que talvez não valha por mil palavras, contrariando aquela máxima, o intuito não é outro exceto a venda, a comercialização de “A Hora Azul do Silêncio” por trinta dinheiros. Para interessados fora de Mossoró, quiçá de outros estados, é acrescido o custo do frete. O contato com este autor (como vemos na foto) será pelo número (84) 9.9817-1690. É possível, considerando a finalidade da crônica, que a qualidade literária do texto deixe a desejar. Não vou me preocupar com isso. Nem mesmo as ostras produzem somente pérolas.

Ainda estou aqui, enfim, com a minha única obra publicada. Possuo coisas inéditas que abrangem os gêneros romance, contos, crônicas e outros livros de poesia, no entanto a autopublicação é uma alternativa que está bem longe dos meus horizontes financeiros. Devido a tribulações pessoais quando do lançamento de “A Hora Azul do Silêncio” em Manaus, não inscrevi este livro em concursos voltados especificamente para trabalhos apresentados em primeira edição e que se encaixem dentro de um determinado espaço de tempo. Como se diz, o cavalo passou selado e eu perdi a chance. O Prêmio Jabuti é um desses concursos para obras já editadas.

Destaco que a primeira edição deste livro saiu em 2006 com o selo da editora da Universidade Federal do Amazonas. A segunda ocorreu em novembro de 2016, desta vez em uma parceria das editoras mossoroenses Queima-Bucha e Verboletras. São quase vinte anos ao todo. Bem. Agora me fiando que este blogue ultrapasse os limites geográficos deste município e do estado, decidi fazer esta publicidade, tentar vender meu próprio peixe a um público leitor que talvez se interesse pelo meu produto. Muita gente desta cidade já adquiriu o seu exemplar e pode se considerar fora da mira desta propaganda caseira. Destina-se, pois, a quem interessar possa.

Digo também que, do ponto de vista econômico, sem importar o seu sucesso ou fracasso, esta ação de marketing não produzirá impacto algum em nenhuma das grandes bolsas de valores do mundo. A todo-poderosa Nyse, com sede em Wall Street, seguirá esbanjando saúde financeira. Não vai produzir o menor abalo na Shanghai Stock Exchange, da China. A London Stock Exchange, bolsa de valores de Londres, nem piscará. A Nasdaq, situada na cidade de Nova Iorque, não perderá um níquel sequer. A Euronext, principal bolsa de valores da Europa, há de seguir firme e forte. Nem mesmo nossa Bovespa não exibirá nenhum espasmo. Fiquem frios.

No fim das contas, se esta peça publicitária não resultar em algumas dezenas de cópias vendidas, ao menos servirá como mais um texto que pode fazer parte de um livro de crônicas. Quem quiser adquirir “A Hora Azul do Silêncio”, cujo preço é o mesmo desde 2006, só precisa ligar. Ainda estamos aqui.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/03/2025 - 04:00h

Ouro em pó

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa da – Freepick/Vecstock

Arte ilustrativa da – Freepick/Vecstock

Estou deveras atrasado. Pois todos os meios de comunicação de Mossoró já divulgaram a ocorrência. A notícia (perdoem o lugar-comum) correu ligeira como um rastilho de pólvora. De qualquer modo, como a gente costuma ter a pretensão de contar as coisas de modo desejosamente invulgar, quem sabe artístico, vou descrever o que se passou na última quinta-feira em um supermercado bem pertinho do Conjunto Walfredo Gurgel, a uns quinze minutos de caminhada da minha casa.

Aqui, todavia, eu me reservo o direito de não citar o nome da bodega onde aconteceu a invasão. Não farei, portanto, propaganda gratuita do estabelecimento comercial em que presenciei o ataque de oito ou dez homens fortemente armados. Um dos fora da lei, sujeito atarracado, usando um boné verde-musgo que deixava entrever o cabelo grisalho e um bocado crescido escapando pelas laterais, portava o que me pareceu um fuzil ou metralhadora. Os demais empunhavam pistolas e revólveres. Mandaram todo mundo deitar no chão e jogar para eles os nossos celulares.

Presumi que nenhum de nós, deitados de bruços no piso gelado, sofreria qualquer tipo de violência física. Eu estava certo. Não encostaram um dedo em ninguém. O indivíduo atarracado, decerto de meia-idade, foi arrastando os celulares com os pés para junto de um expositor de bananas. Exigiu, com voz alta e firme, que ficássemos de cabeça abaixada. Imagino que nenhum cliente desobedeceu.

— Não olhem para mim! — rosnou o assaltante, que se virava a todo momento para a porta automática do supermercado. Quem ia chegando ele apontava a arma e mandava que ficasse na mesma condição de todos nós: no chão. Os recém-chegados, sem exceção, tiveram que depressa entregar seus celulares.

Bateu-me logo o receio de que levassem os aparelhos, alguns talvez arranhados pela forma como o elemento amontoou os telefones. Ficar sem meu celular em decorrência daquele assalto, obviamente, representava um transtorno administrativo e financeiro. Todos ficamos de cara no piso, a exemplo dos operadores de caixa e de um policial militar à paisana, que foi pego de surpresa e rendido. O pê-eme fazia um bico como segurança da loja. Ficou sem a arma e também sem o celular.

O samango era um cidadão de cabeça quase raspada, gorducho, cara redonda e rosada, orçando pelos cinquenta anos de idade. Deitou-se à minha esquerda, quase roçando meu braço. Pude notar que tinha a testa porejando suor e demonstrava um nervosismo que o deixava com as mãos visivelmente trêmulas.

Eu, apesar de me ver em uma situação como aquela, sentia-me, para a minha própria surpresa, por demais sereno, tranquilo. Tudo naquela perigosa empreitada, a meu ver, indicava que os invasores não estavam ali para machucar quem quer que fosse. O objetivo dos caras, que possuíam grandes bolsas de lona e mochilas às costas, não tardou para ser alcançado. Encheram as sacolas de lona e as mochilas com todos os pacotes de café dispostos nas prateleiras do inflacionado produto.

Presumo que a operação inteira não chegou a dez minutos. Saíram tão rápido como entraram. Nenhum dos telefones foi levado. Exceto a arma do policial. Catei o meu celular entre os outros e me mandei para casa, deixando no reduto da carestia as minhas poucas compras reunidas em uma cestinha de plástico de cor laranja. Quando umas quatro ou cinco viaturas da polícia enfim chegaram, os ladrões de café já estavam muito longe do alcance dos militares. Por via das dúvidas, só voltei ao supermercado depois das sete da noite. Preciso informar, embora falhando na sequência da narrativa, que o roubo do ouro em pó se deu por volta das quinze horas e trinta.

Aqui entre minhas vizinhas, especificamente na redação do Fofocas News, a queixa é grande em virtude do alto custo de um pacote de café. Dependendo da marca e do tipo da rubiácea, ninguém pode sequer chegar perto. Mesmo aqueles mais ordinários receberam aumentos de preço mais que absurdos.

Porém, desafiando o alto custo do ouro em pó, a tradição não morreu por inteiro nas nossas tardes-noites nas calçadas de Sayonara e Rucilene. É verdade que uma ou outra redatora do Fofoca News aderiu ao chá. Mas não é fácil trocar o pretinho cheiroso de outrora, mesmo com os preços pela hora da morte.

Rucilene, por exemplo, não deita fora a borra do café feito de manhã. Guarda para a tarde e mistura com uma ou duas colheres de uma marca mais em conta. O problema é que sai tão fraquinho que é possível enxergarmos o nome Duralex no fundo da xícara. Desse jeito, segundo protesta a redatora-chefe dona Raimundo, é melhor ficarmos no chá. Maria dos Navegantes, no entanto, não se dobra em face da prática de preços abusivos. Ela já vendeu até um rim para não abrir mão do café.

Nossa querida vizinha Cilene Freitas, também repórter do Fofoca News, convenceu o esposo, o senhor Arimatéia Garcia, a abraçar a proposta de um chazinho de camomila, erva-cidreira, chá-mate ou de capim-santo.

Aqui em casa, felizmente, volta e meia os amigos que me visitam me trazem de presente um ou dois pacotes do ouro em pó, além de umas bolachas, pães, bolos e queijo. É uma fartura total. Só tomara que os elementos que roubaram o café do supermercado não descubram isso. Que Deus me livre e guarde.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 16/02/2025 - 03:46h

Quando eu crescer

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa Web

Arte ilustrativa Web

Estamos às portas do carnaval, infelizmente. Falo por mim, claro. Há ocasiões em que imagino que não sou deste planeta. Bom. Não é da minha conta o fato de um mundo e meio de indivíduos curtirem o momo. É uma espécie de cartão de visita do Brasil. Eu, entrementes, desprezo essa tradição com todas as minhas forças. Tanto o carnaval oficial quanto os ditos “fora de época”.

Sim, sou avesso a multidões, a fuzarcas, furdunços, frevos, pândegas, etc. Agrada-me, todavia, uma boa roda de amigos, que prefiro com a ausência ou sem excessos alcoólicos. Possuo, tenho meus motivos, um forte desconforto (um trauma, na verdade) quanto à cultura etílica.

Esqueçamos o carnaval e o álcool. Fui bobo ao tocar nesse ponto nevrálgico, pois pretendo discorrer acerca de outras coisas. Aqui estou, nos acréscimos do segundo tempo, com mais um desafio de produzir uma crônica para este meu domingo de bocejos e de preguiça. Bocejo é um negócio contagiante. Ao ver alguém bocejar, dificilmente a gente não boceja. Só de pensar já estou abrindo a boca.

Fixando-me agora no compromisso da escrita, confesso que estou enchendo linguiça, conforme o ditado. Careço extrair dos meus quatrocentos ou quinhentos neurônios uma página minimamente atrativa, digna da atenção do leitor. No mais tenho plena consciência de que escrever sobre o ato de escrever é um legítimo lugar-comum, um tema pisado e repisado, um tipo de artimanha tão desagradável e perniciosa quanto o ogro Donald Trump. Desta vez, observem só, aqui me vejo ocupando, gastando tinta com o lodaçal, o charco político que voltou à Casa Branca.

Num domingo como este cai bem certas amenidades, um bocado de pacatez, uma escrita branda. Nada de mau humor, de ranço ou polêmicas. Isso, em particular o âmbito da política partidária, finda abespinhando alguém. Quando eu crescer, por exemplo, quero que a minha pena adquira determinadas qualidades.

Assim sendo, suponhamos que meu texto possuiria a suavidade e leveza de Odemirton Filho, que é o cronista mais cuca-fresca que vejo no Blog Carlos Santos. É o que estou dizendo. Odemirton escreve macio como algodão. O homem demonstra a fleuma, a mansuetude de um peixinho de aquário. Sou fã dele tanto quanto Natália Maia e Bernadete Lino.

Quem quiser, talvez por mera inveja, que diga que sou puxa-saco. Não me importa. Estou sendo tão somente franco e justo. Assim como devo aplausos à memória prodigiosa de nosso confrade Rocha Neto. Essa benquista figura (eis mais um puxão de orelha) está nos devendo um livro com suas reminiscências faz muito tempo. Não sei por que tanto protela. Falta de estímulo é que não é.

Ambiciono, no bom sentido, o fôlego e a inventividade de Clauder Arcanjo e Ayala Gurgel, dois escritores versáteis e fecundos. E o que dizer do causídico Bruno Ernesto? Ora! O rapaz é ilustrado, carrega no quengo uma rara ciência das coisas de antanho, fortuna histórica, amplo conhecimento relativo ao passado desta nossa capital do embuste. Coisa mesmo das priscas eras. É um cronista-historiador e vice-versa. Não menos me encanta a prosa cristalina e saborosamente erudita do meu xará Marcos Araújo. Como diria o saudoso cronista e filólogo José Nicodemos, sou-lhe macaca de auditório. Favor nenhum. O sujeito faz jus aos seus predicados.

Admiro, também, o verbo de Antonio Alvino da Silva Filho, pensador, filósofo contemporâneo e autor do livro de crônicas intitulado Contrapontos — Reflexões a partir da vida em rebanho, cujo prefácio tive a honra de escrever. Permitam-me alongar a lista de meus escribas diletos, a maior parte articulistas deste blogue. Isto porque não posso esquecer de maneira alguma do senhor delegado da Polícia Civil (homem de armas e de letras) Inácio Rodrigues, cuja escrita ficcional me encantou logo de cara. Esta não é a primeira vez que destaco o talento de Inácio.

Quando eu crescer, pois, quem sabe meu estro amarre as chuteiras dos beletristas ora citados. Neste universo das palavras, como ninguém é de ferro, almejo até uns vestígios, uns mínimos resquícios de um Graciliano Ramos e de um Machado de Assis. Exatamente nesta ordem. Além de mestres do gênero crônica como Otto Lara Resende e Rubem Braga. Mas, repito, só quando eu crescer.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 09/02/2025 - 05:52h

Traquinices de Juju

Por Marcos Ferreira

Juju entretida com um de seus brinquedinhos  (Foto do autor da crônica)

Juju entretida com um de seus brinquedinhos (Foto do autor da crônica)

Nasceu no dia 24 de novembro. Há dois meses e quinze dias, portanto. Sabemos precisamente a data porque foi justo no aniversário de Andrea, esposa de meu amigo Marquinhos Rebouças. A mãe de Juju deu à luz nove rebentos, entre os quais adotei essa feroz devoradora de ração. É cheia de inocência, de amor, de pureza, no entanto adora mordiscar os meus calcanhares e os de Natália.

Fui orientado a presenteá-la com alguns brinquedinhos de borracha. Fiz isso, adquiri três brinquedos de cores e formatos diversos e ela gostou bastante, de maneira que os meus tornozelos quase não são lembrados. Juju é uma autêntica vira-lata, característica que me agrada. Já adotei, além de Juju, três gatinhas de rua, pequeninas e sem amparo nenhum, obviamente. Cuidei das felinas, levei-as a veterinários, que ministraram medicamentos e realizaram as castrações quando as bichanas atingiram a idade apropriada. Asseguro que essas companhias só me fazem bem.

Com tantas criaturinhas por aí necessitando de acolhimento, de um lar, de água e comida, não vou a lojas do ramo comprar um gatinho ou um cachorrinho. Não critico de forma alguma quem paga por um pet de raça, com pedigree, como se diz. Pois também receberão amor, cuidados, zelo. Acredito que São Francisco de Assis, o santo protetor dos animais, deve ficar feliz do mesmo jeito.

Juju é tipo uma criança. Tem as suas traquinices, os seus comportamentos que geram um certo caos doméstico. É preciso retirar das suas vistas uma variedade de objetos, a exemplo de tênis e chinelos. Como durmo de rede na sala, onde gosto de assistir a filmes e séries, tinha por hábito pôr uma cadeira perto da rede para colocar o telefone, o controle da tevê e meus óculos. Quando o sono batia, simplesmente desligava a televisão e capotava. Até que uma noite eu me dei mal.

Acordei por volta das oito da manhã. Ao procurar as sandálias, tinham sumido. O mesmo aconteceu com os óculos e o celular. Fiquei logo aflito, sobretudo, pelo desaparecimento dos óculos novinhos, substituídos no mês passado. Juju despertara mais cedo, claro. Encontrei o celular junto da porta da frente, separado da capinha de proteção. Senti uma dor na alma quando vi os óculos diante da geladeira. Os vidros ficaram em contato direto com o piso grosso, ainda sem cerâmica. Não teve escapatória. As duas lentes estão repletas de arranhões profundos. Um prejuízo! Os chinelos, estes completamente intactos, ela carregara para debaixo da escrivaninha.

O celular também ficou um pouquinho arranhado. Apesar disso tudo, Juju continua dormindo dentro de casa, em uma caminha fofa, quadrada, com bordas altas e acolchoadas. Algumas vezes, entretanto, ela adormece sob minha rede. Além disso, inocente que é, uma hora ou outra a danada faz as suas “necessidades” em qualquer lugar da casa. Ao menos o cocô é durinho e fácil de limpar.

Quanto à urina, restrita à sala e a cozinha, já que agora mantenho o quarto e o banheiro com as portas fechadas, eu resolvo com água sanitária e um limpador perfumado. Escrevo esta crônica com os arranhões das lentes atrapalhando o serviço. No mais aprendi a lição. Não marco mais bobeira. Juju não perdoa. Quando meu orçamento permitir, trocarei novamente os vidros dos óculos.

Sendo ainda uma filhota, nutro a expectativa de que adquira bons modos no tocante às referidas peraltices e aos inconvenientes fisiológicos. Descobrirá o quintal como lugar adequado para suas dejeções e micções. Porque nosso bem querer se mostra mais firme e forte à medida que Juju vai crescendo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 26/01/2025 - 23:28h
Marcos Ferreira

Quase tinindo para voltar

Marcos Ferreira está em recuperação de problemas de saúde (Foto: redes sociais)

Marcos Ferreira está em recuperação de problemas de saúde (Foto: redes sociais)

“Novos óculos, novo ano, velhos e novos projetos.”

A mensagem telegráfica é do escritor Marcos Ferreira, em suas redes sociais, à noite desse domingo (26).

Há semanas que ele enfrenta problemas de saúde, especialmente no tocante à visão.

Em breve, o homem retorna para nos brindar com seu talento nas páginas do Blog Carlos Santos.

Está quase tinindo para voltar.

No aguardo.

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Categoria(s): Comunicado do Blog / Cultura / Gerais
domingo - 29/12/2024 - 13:08h

Meu amor de salvação

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa de Bruno Marques (Canção Nova)

Foto ilustrativa de Bruno Marques (Canção Nova)

Após não sei quantas publicações, eis que agora me dou conta de que não escrevi sobre a mais importante personagem que, vez por outra, menciono neste meu exercício de cronista. Pois é, não escrevi. Embora a tenha inserido nalguns textos prolixos acerca de assuntos vários, não a expus, todavia, como protagonista, com uma página apenas dela: minha adorável noiva Natália Maia.

Então, prezado leitor e gentil leitora, peço licença para discorrer, neste domingo de pássaros cantantes e céu azul, sobre alguém que, ao longo dos últimos seis anos (nosso namoro teve início aos 7 de setembro de 2015), só me tem dado alegria e orgulho de tê-la em minha vida. Exatamente! Se em outros momentos a enalteci em merecidos versos, que tornei públicos sem qualquer receio, hoje repito a indiscrição em prosa, nesta crônica de natureza tão pessoal quanto amorável.

Sei do risco que corro, em se tratando do interesse dos leitores, ao abordar um assunto tão íntimo. Tem nada, não. Creio que possuo algum saldo com vocês. Se não, botem aí na conta, que qualquer dia eu pago esse débito literário. Hoje não me furtarei em falar sobre Natália, ela que, antes do meu editor, é quem primeiro lê todas as produções que publico. Exceto esta. Porque é surpresa.

Imagino que agorinha ela acabou de acessar o Canal BCS (Blog Carlos Santos), já tomada banho e decerto bebericando a sua xícara de café matinal, para saber enfim o que danado escrevi para este domingo, posto que desta feita (estranhando desde ontem as minhas esquivas) ela não viu meu texto em primeira mão. Sim, inventei algumas desculpas, escondi-lhe a verdade com esse propósito bem-intencionado, e mantive estas páginas longe dos olhos de Natália até bem pouco.

— Cadê a crônica, hein? — ela perguntava.

Neste minuto, porém, não há mais segredo. O pano caiu; estou a descoberto perante ela. Muito em seu louvor eu gostaria de dizer, contudo sei que nada do que escreva será o bastante para dimensionar as qualidades de Natália Maia, uma pessoa cujo caráter e senso humanitário poucas vezes se encontram em meio ao rebanho da vida em sociedade, como diria o querido amigo Antônio Alvino.

O que mais posso referir sobre Natália? Há tanto o que ser dito de bom a respeito dela, eu que sou o seu maior admirador, mas agora reparo que as palavras começam a me faltar. Acontece. Entre outras coisas, às vezes ela tem o poder, a sutil capacidade de me deixar sem argumentos. Por outro lado, e com firmeza, é a grande incentivadora das minhas letras, da minha escrita. É quem me diz (na saúde e na doença, na tristeza e na alegria) que tenho futuro enquanto escritor.

Não sou um sujeito religioso, nunca fui, entretanto ouso dizer que Natália é um anjo bom que Deus colocou em meu caminho. Hei de ir embora primeiro, sinto que não vim a este mundo caótico para me demorar, mas desejo viver ao lado dela todo o tempo que ainda me resta. Portanto, agradeço ao Altíssimo por todos os dias, horas e minutos que tenho usufruído da companhia de Natália.

Foi ela, com o facho de luz do seu lindo coração, com a aura de um espírito superior, quem me resgatou das trevas em que estive durante tanto tempo, desacreditado de todos e até de mim próprio. Natália, prezado leitor e gentil leitora, devolveu-me a alegria de viver, convenceu-me de que a vida vale a pena, e me trouxe de volta o prazer da escrita, da leitura, meu gosto pela música e pelo cinema. Exatamente, senhoras e senhores, não foi apenas o arsenal de psicotrópicos.

Cheguei ao fundo do poço, a ponto de passar noites amarrado a uma cama de hospício desta cidade, dopado, o corpo cheio de dores, num deplorável estado de semiconsciência e torpor. E quando eu estava lá, caído nas sombras, na sarjeta mental, foi dela a mão que me resgatou. Cuidou dos meus ferimentos e todo dia me ensina a conviver com as cicatrizes que ficaram na minha alma.

É difícil falar sobre esta Natália sem exibir um pouco do meu histórico, por mais que o objetivo destas palavras seja prestar uma simples homenagem à musa do meu coração. Penso que outras mulheres (não culpo ninguém por isso) teriam me voltado as costas, desistido de mim nos primeiros sinais da minha doença. Ela, contudo, não o fez, não me largou naquele manicômio. Apostou no meu restabelecimento, não fraquejou, a todo instante apoiada na sua infinda, inabalável fé.

— Você vai ficar bom! — sempre afirmava.

Por que expor aqui coisas tão íntimas? Alguém deve questionar. Não me constranjo, não há problema algum em sermos justos e verdadeiros. Não perco mais tempo com certos pudores e hesitações. Hoje tenho mais passado que futuro e quero dizer às pessoas — inclusive a Natália — o que penso sobre elas, ainda que publicamente. Deixar isso para amanhã pode ser para nunca mais.

Os pássaros cantam, redemoinham na mangueira da residência aos fundos, numa incessante babel que me serve de trilha sonora para este depoimento em homenagem a Natália. O vento também produz barulho nos ramos e folhas da grande árvore, impulsionando o voejar do passaredo ao redor. Então eu gostaria que este relato fosse leve como o vento, agradável e alegre como o canto desses seres alados que orbitam a velha mangueira da senhora Francisca, minha vizinha.

Não só da mangueira advêm as aves que ouço nas imediações. Aqui próximo, por trás das casas do outro lado da rua, passa um córrego (talvez seco nesta época do ano) de onde vez por outra, além do estrídulo das nhambus, escuto o que me parece o pio de uma sericoia e também das rasga-mortalhas. Sobretudo durante as eventuais horas mortas em que me encontro nesta escrivaninha.

Antes, durante um longo período, eu não mais me dava conta de nada disso, da vida que pulsava no meu entorno, das coisas simples e belas da natureza. Tive que reaprender a enxergar e a ouvir muito do que havia esquecido. Natália, que posso chamar de meu amor de salvação, sem pieguice ou exagero, tal qual no romance do Camilo Castelo Branco, é responsável por tudo de bom que me tem acontecido ao longo destes seis anos que abarcam o nosso namoro e noivado.

É possível que o prezado leitor e a gentil leitora considerem esta declaração algo açucarado, quiçá démodé. Podem achar o que quiserem. Estão no seu direito. Acontece, porém, que de amargo hoje em dia eu só estou aceitando café. No mais, ao menos em literatura, um pouco de açúcar, só uma vez perdida, não faz mal a ninguém. Até porque o amor também é doce e nunca sairá de moda.

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado no BCS no dia 10 de outubro de 2021.

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domingo - 22/12/2024 - 15:26h

Amar se aprende amando

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa

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Hoje que te encontro a rir-se em desespero, carecendo de amparo e de equilíbrio, tenho a perder contigo estas velhas e repetidas palavras. Porque eu, assim como todo mundo, também sofri o meu bocado e magoei outros mais neste sempre desconcertante samba do crioulo doido: o amor. E quero dizer-te, por conhecimento de causa, que sei perfeitamente o que estou falando. Sim. A gente sofre, mas aprende.

Talvez o que eu te explique até possa consolar-te por alguns instantes, mas logo que reparares em volta e deres com a ausência de quem amas, tudo isto que te revelo perder-se-á pelo ralo escuro da incompreensão e do esquecimento. É assim o coração de quem ama, um terreiro de feitiços, magias, sortilégios, um rútilo salão de festas, um palco de inúmeros dramas e comédias, lágrimas e risos, dores e prazeres, sonhos e desenganos. Cada qual com a sua lombra e seu lundum, sua fala e o seu silêncio, seu fracasso e sua glória.

Diante dele, sobre ele ou debaixo dele — o amor —, não há quem não dance, quem não se dobre ou quem não vacile, quem não goze e quem não gema… O amor é cheio de caprichos, de vontades próprias. Não há quem não traga no rosto a cicatriz invisível de um beijo, a cruz do sonho morto fincada nas areias movediças do coração amante. Sei exatamente o que sofres neste minuto.

Porque eu, modéstia à parte, possuo doutorado sobre tal assunto. Sou Ph.D. em roedeiras e dores de cotovelo. Reconheço em teus olhos a mesma tempestade, o mesmíssimo ciclone que revolveu minhas entranhas e devastou esta minha alma condoreira.

Conheço muito bem o mau humor que ora te envenena a língua e amarga tuas palavras. Eu já tomei o chá amargo de todas as ervas e raízes do amor não correspondido, do amor sozinho, do sexo solitário. Eu também já catei papel na ventania, matei cachorro a grito e beijei de olhos abertos.

Sei o que é ser trocado por outro (ou outra, nalguns casos) e se sentir o cocô do cavalo do bandido, um zero à esquerda, um risco n’água, um fósforo molhado, uma lâmpada queimada, um cão sem dono. Eu também já quebrei a cara, já cuspi para cima e vi a menina dos meus olhos ir-se embora com o tal palminho de rosto das colunas sociais.

AÍ EU CUSPI NA CRUZ, joguei praga em santo, bati a porta e chorei mudamente embaixo dos lençóis. E só não briguei com Deus porque ele, apesar dos pesares, sempre aliviou a barra e nunca se enfezou comigo. Mas veja que o baque é forte, e a lombra do amor rejeitado já deixou muita gente de quatro.

Não mais me espanta que tenhas agredido o meu nome, condenado os meus dias e amaldiçoado as minhas noites. É que às vezes queremos lançar a culpa sobre alguém quando perdemos a compostura, o respeito, o amor-próprio, a autoestima, a dignidade, os brios, a razão e até nos descabelamos.

Assim nos vemos quando o cisne branco da felicidade (a nossa alma gêmea, nossa cara-metade, entres outras definições românticas) migra para bem longe dos nossos braços. De repente, não mais do que de repente, tudo é desventura e malogro… Faz-se da vida um filme em preto e branco e nada mais nos parece ter a menor graça ou importância.

Entretanto, não te esqueças de que tudo isso passa. Espera o mercurocromo do tempo atuar sobre as feridas da alma. Porque o coração, assim como o fígado, possui o poder de autorregenerar-se. O processo é doloroso e lento, mas é preciso não morrer da cura, como reza o soneto que te fiz.

Então, antes que o pandeiro se cale e as cinzas desabem sobre a quarta-feira, tira a tua dor da avenida que eu quero passar com o meu sorriso. Porque agora eu também já sei namorar, já sei “ficar” e tudo o mais que o diabo gosta.

Além disso, como diz o poeta Drummond, amar se aprende amando.

Marcos Ferreira é escritor

*Crônica publicada originalmente no dia 02 de maio de 2021.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/12/2024 - 05:30h

Mãos dadas

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Stock - Monkey Business Images

Ilustração da Stock – Monkey Business Images

Quando você está comigo, e sempre está de um jeito ou de outro, sinto assim que os abismos do mundo não podem mais me engolir como antigamente. Não. Até os meus arco-íris hoje têm cores mais vibrantes se estamos juntos. É dessa maneira desde que tive a felicidade de você entrar na minha vida. Devo reconhecer que sofri alguns tombos, uns tropeços, no entanto você me ajudou a levantar todas as vezes. Pois nem tudo são apenas flores; a vida segue com os seus espinhos e farpas.

O fato é que viver se tornou mais leve, ou menos pesado. Não importa que digam que sou um miserável altivo, um otimista fracassado. Gritem ou pensem o que quiserem. Tenho você (temos um ao outro) e isso me basta.

Aos poucos, entretanto, vamos construindo o nosso castelo de bem-aventuranças. Então, entre essas paredes de luxo metafórico, recebemos pessoas, amigos que torcem por nossa união e enriquecimento de felicidade.

Todas as luzes de minha alma estão acesas para iluminar a nossa jornada, o nosso caminho até os confins do tempo. Não tenho mais medo das carrancas de outrora. Não depois que você chegou. Essas coisas medonhas ficaram tão miúdas, quase invisíveis a olho nu.

Todos os meus medos fogem quando eu seguro a sua mão. Certas ameaças ainda me rondam, há um porão escuro que chama pelo meu nome, no entanto estou vacinado contra esse chamamento. Deixei o fundo do poço depois que a luz dos seus olhos penetrou a minha alma e o meu coração. Acredito mesmo que daqui por diante não mais sofrerei os velhos dissabores daquela época de pesadelos de olhos abertos. Repito que todos os meus medos fogem quando eu seguro a sua mão.

Quero descansar nos seus braços, que são minha guarida, meu porto seguro. Fiz um acordo com a Moça da Foice para que só me leve antes de você. Não há vida para mim neste mundo sem você. Mas ainda é cedo para falarmos em despedida. Tenho força e coragem para enfrentar todas as adversidades que se intrometerem entre nós. Todos os meus medos fogem quando eu seguro a sua mão.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 01/12/2024 - 10:30h

Uma vaga lembrança

Por Marcos Ferreira 

Imagem ilustrativa da Web

Imagem ilustrativa da Web

Naquele fim de tarde a senhora Dolores, jornalista ainda em atividade com um blogue que discorre principalmente sobre política, dispensou a empregada uma hora mais cedo. Disse à jovem serviçal que ela própria (Dolores) cuidaria do jantar, pois se tratava do aniversário de casamento dela com o senhor Tibério (desembargador aposentado) e que eles fariam uma comemoração muito íntima, visto que ambos não conceberam filhos em virtude da esterilidade da senhora Dolores.

Tinham adotado duas crianças, um menino e uma menina de três e dois anos, respectivamente, mas estes hoje são adultos, foram estudar nos Estados Unidos e por lá ficaram. Dolores e Tibério estão casados há cinquenta anos. Ele já ronda as portas dos oitenta, a completar-se em dezembro, enquanto que Dolores (oito anos mais nova) conta setenta e dois. Havia bastante tempo que os consortes não sabiam mais o que era um momento de relação sexual. Sobretudo o senhor Tibério, que guarda quanto a isso apenas uma vaga lembrança. Nesse dia, porém, a senhora Dolores estava disposta a reacender a cama gloriosa de que eles gozaram no passado.

— Olha, eu estou muito a fim, querido.

— Hum. Até posso imaginar o que seja.

— Pois é. Você não tem escapatória.

O jantar não teve nada de muito especial, quando degustaram uma boa garrafa de vinho de cinco mil reais. O detalhe que se destacou na refeição foi uma considerável quantidade de castanhas-de-caju salgadinhas e amendoim torrado. Isso, no entendimento da senhora Dolores, em harmonia com o vinho fino e caro, possivelmente ressuscitaria a libido há muito adormecida do senhor Tibério.

Sim, o homem apreciava castanhas e amendoim. Em particular castanhas-de-caju. Mas essas angiospermas devem ser consumidas com moderação, ainda mais quando falamos de um indivíduo com quase oito décadas.

Na cama, durante umas massagens e outros estímulos, parecia que o senhor Tibério readquirira as forças abaixo da linha da cintura. A senhora Dolores, trajando uma minúscula camisola vermelha, como era apropriado naquela ocasião, animou-se com os discretos sinais, os sutis espasmos eréteis do marido.

Completamente nu e de papo para cima, a barriga branca e avantajada se destacando na penumbra, até mesmo o próprio senhor Tibério empregou um tanto de fé no seu hipotético desempenho ali, entre quatro paredes. Enfim, após um jejum de anos a fio, ele estava prestes a cumprir com sua obrigação de virilidade. A senhora Dolores caprichava na massagem daquele membro invertebrado.

— Está gostando, meu Alain Delon?

— Sim, sim, minha Afrodite. Muito.

— Que bom! Hoje, então, dará certo.

Eis, todavia, que o excesso de castanhas e amendoim com vinho surtiu um efeito desastroso. A vaga lembrança da cama gloriosa deu lugar a cólicas repentinas e o senhor Tibério mal teve tempo de chegar ao banheiro. A senhora Dolores pôde ouvir os estampidos. Após uns trinta minutos, lavado e enrolado em um roupão de banho, o Alain Delon voltou para a cama com um aspecto de morto-vivo. A tórrida noite de amor do casal foi pelo ralo. Frustrada, ela indagou baixinho:

— Como você está? O que houve?

— O tiro saiu pela culatra. Foi isso.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 24/11/2024 - 02:44h

Parapoucos

Por Marcos Ferreira

Meu Editor num brinde com café, após luta medonha, com autor da crônica (Foto: Arquivo/rede social)

Meu Editor com o autor da crônica, num brinde com café, após luta medonha (Foto: Arquivo/rede social)

Muita gente sabe que “Paratodos” é uma das mais importantes obras musicais de Chico Buarque. O disco (ainda na forma do velho e bom vinil) foi lançado no ano de 1993. Agora, parafraseando o famoso título de Chico, surge em Mossoró um evento que ouso denominar de “Parapoucos”. Exatamente.

Refiro-me às comemorações alusivas ao natalício do jornalista e escritor Carlos Santos. Pois é, o homem soprou “velinhas”. Só não sei dizer o dia específico, pois até o momento tal informação segue para mim tão ultrassecreta quanto a “Operação Contragolpe”, da Polícia Federal.

Apenas uns poucos chegados do nosso Editor tiveram o prazer de festejar a data com o aniversariante. Eu, a exemplo de vários outros, não fui convidado a participar desse momento de celebração à vida, biografia e saúde do “rapaz velho”. Boa parte dos convivas era de gente do café-soçaite.

Seja como for, com ou sem convite, aqui transmito meus sinceros votos de felicidade, saúde e paz a esse menino grande tão benquisto quanto admirado por meio mundo de indivíduos dentro e fora do País de Mossoró.

Vi nas redes sociais, ao longo dos últimos dias, que estão planejando estender as comemorações até o final do ano. Se não estou enganado, tal notícia foi postada pelo bem-humorado César Amorim, figura esta que ainda não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Por sua vez, Carlos Santos até criou uma sigla para nominar as sucessivas e futuras reuniões que reverenciam o dia dos seus anos. Torço que mais cedo ou mais tarde, quando a alta-roda liberá-lo dos festejos, meu Editor visite este singelo endereço para um dedo de prosa e uns tragos de café.

Sendo feita sua vontade, algo que ele exige, não haverá bolo confeitado nem presentes. Esse convite abarca os senhores Marcos Araújo, André Luís e também o já citado causídico César Amorim. Todos bem-vindos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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