domingo - 17/11/2024 - 06:30h

Canto de mau agouro

Por Marcos Ferreira 

Arte da Sketchepedia gerada com IA

Arte da Sketchepedia gerada com IA

Ontem pela manhã, na calçada do extinto Cine Pax, topei com o escritor e jornalista Nelson Rodrigues. Sim, um homônimo. Havia por volta de dois anos que eu não tinha notícias desse rapaz. Parece só lembrar da minha existência quando está precisando que eu faça a correção e copidesque de algum livro de sua autoria. Então ele cata meu número no telefone e liga cheio de amabilidades.

Esse esbarrão e um breve diálogo foram inevitáveis. Após alguns minutos, de olhos aboticados, tentou me arrastar para o assunto do homem-bomba que detonou explosivos na Praça dos Três Poderes, sobretudo na frente do STF. Conhecendo suas convicções de extrema-direita, logo me esquivei dessa discussão. Por diversas vezes ele publicou artigos virulentos na Gazeta de Negócios contra a esquerda e ministros do Supremo Tribuna Federal. É um sujeito mirrado, branco e de farta cabeleira. Não tem um metro e sessenta, porém se insinua destemido. Um homem pequeno com uma boca grande. Exibe no antebraço direito (tinha que ser no direito!) uma tatuagem de uma caveira colorida com uma faca atravessando o crânio na vertical.

Nelson Rodrigues, a exemplo de outros, vive suspirando por um óbito na academia. Já foi preterido em duas ocasiões e tal frustração segue sem remédio. Certos indivíduos e certas academias de letras são tão benéficos para o engrandecimento da literatura quanto uma gonorreia. Há muitas e honrosas exceções, obviamente, mas ponha a carapuça quem quiser. Não nego que tenho minhas queixas quanto a essas instituições que, por exemplo, deram assento a um José Sarney da vida e bateram a porta na cara de um artista do verso e da prosa como Mario Quintana.

Pois é. Essa falsa ideia de imortalidade intelectual e literária sempre mexeu com a cabeça e o coração de literatos de todos os naipes. Não interessa se o aspirante a imortal já esteja com um pé na beirada e o outro na cova.

Podem chorar as pitangas, dizer que sou feio e descer o malho. Essas igrejinhas da compadrice não me seduzem e acabou-se. Mas esqueçamos (antes que desabe sobre minha cabeça uma chuva de canivetes) essa história de medalhas, espadas e fardões. Não estou a fim de abespinhar o ego ou os brios de seu ninguém. Até porque, volto a frisar, muitas dessas entidades têm nos seus quadros valiosos manejadores da língua portuguesa que fazem jus a qualquer agremiação desse jaez. Meu receio, trocando em miúdos, é que a literatura possua mais adeptos do que amantes.

Bem. É tarde. Passa de uma hora. As rasga-mortalhas que vivem nos espaços da caixa d’água da senhora Raimunda fazem um concerto agourento com voos rasantes sobre nossos domicílios. Não me incomodam nem um pouco. De alguma maneira também sou um animal de hábitos noturnos. Às vezes a quetiapina não dá conta do recado e (assim como agora) entro pela madrugada escrevendo acerca de questões que podem muito mais descontentar do que agradar aos meus leitores.

Ainda sobre as corujas deste setor, que perturbam o sono da senhora Raimunda, torço que encontrem outro reduto ou ponto de recreação. Como se costuma dizer, o “canto de mau agouro” daqueles seres alados, além de atrapalhar o repouso de alguns, põe pressentimentos assustadores na senhora Raimunda. Não se pode negar que o barulho que as referidas aves produzem é de fato excessivo.

Até Maria dos Navegantes, nora da importunada Raimunda, diz sentir uma espécie de calafrio sempre que as rasga-mortalhas se pronunciam. E olhe que Navegantes, conforme já nos revelou, não é uma pessoa supersticiosa. Seja como for, por seu quarto ser no andar de cima, a senhora Raimunda é quem mais sofre com o grasnar de uma população de dez ou quinze voadoras daquele tipo.

Por um lado essas criaturas têm uma ligeira semelhança com o Nelson Rodrigues. Isso no tocante à questão do escriba mossoroense desenvolver e ocultar um exercício de mau agouro direcionado aos imortais da academia de letras. Pois sabe que só com a morte de um imortal ele talvez seja imortalizado.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 10/11/2024 - 05:42h

Apenas uma página

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Freepik

Ilustração da Freepik

Ofereço esta página ao meu amigo Nilson Rebouças, pessoa avessa a textos longos. Nunca leu, por exemplo, nada parecido com Em Busca do Tempo Perdido, Guerra e Paz, A Montanha Mágica, Moby Dick, Os Miseráveis e, muito menos, o caótico Ulisses. Em virtude disso, como já foi dito, pretendo não passar de uma página. E, se possível, tornar estas linhas agradáveis aos olhos dos demais leitores. Sim. Os demais leitores precisam ser contemplados com uma escrita que, no mínimo, valha a pena o tempo empregado nesta breve leitura. Embora pareça fácil, digo que não. Pois essa tarefa de escrever com o mínimo possível de arte não é fichinha.

Eu mesmo (admito sem qualquer pudor) nunca li Em Busca do Tempo Perdido, Moby Dick nem Ulisses. Até iniciei a leitura desses calhamaços numa determinada época da minha vida, no entanto joguei a toalha, fui derrotado pela natureza gigantesca e enfadonha, principalmente, do macarrônico Ulisses.

Aqui com os meus botões, já de olho para não me estender muito nesta crônica direcionada e metrificada, fico pensando como esses livros tão musculosos encontraram editores e viabilidade editorial quando de suas primeiras edições. Isso num tempo em que os meios de confecção e comercialização de romances parrudos como os que citei eram extremamente dispendiosos e sem os recursos de marketing de hoje em dia. Quero supor que alguns autores tiveram que vender um rim para custear a impressão de romances-rios dessa quilometragem. Imagino quantos editores se recusaram a investir num desconhecido como Dostoiévski no começo de carreira deste que é, no meu ponto de vista, o maior romancista e pensador russo de todos os tempos.

Bom. Fiquemos por aqui. Antes que meu amigo Nilson se canse desta crônica de quatro parágrafos e abandone a leitura. Até porque, convenhamos, vivemos uma era em que muitos só se interessam por conteúdos (sobretudo por escrito) bem mastigadinhos. As redes sociais, que têm a sua importância, também concorrem para a preguiça mental do leitor habituado ao fast-food da informação.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 03/11/2024 - 06:42h

A cara de Mossoró

Por Marcos Ferreira

Mãe com criança enferma. Pablo Picasso, 1903. Metropolitan Museum of Art, New York

Mãe com criança enferma. Pablo Picasso, 1903. Metropolitan Museum of Art, New Yorkcr

Quinta-feira passada, 31 de outubro, dia consagrado às míticas bruxas do planeta inteiro, topei com uma jovem senhora em companhia de uma menininha no semáforo do Cemitério São Sebastião. Sim, outra vez esse recorte da cidade é o palco de um lastimável quadro social. Tais retratos dessa ordem, todavia, são invisíveis aos olhos de um monte de pessoas convictas de que não têm nada a ver com a miséria desses coitados que enfeiam o belo e auspicioso País de Mossoró desde sempre.

Deparei-me com essa situação por volta das três da tarde. A mulher e a criança, apesar de malvestidas e maltratadas pelas circunstâncias que enfrentam, exibiam uma beleza física subjacente. A garotinha, talvez com quatro anos de idade, estava nos braços da mãe. Esta, quando o sinal ficava vermelho, aproximava-se das janelas dos carros com um recipiente de plástico oferecendo uma iguaria que todos nós conhecemos como paçoquinha. Raramente um motorista ou outro baixava o vidro do automóvel para adquirir a paçoca ou apenas dar algum trocadinho à vendedora.

Parei minha moto na frente do São Sebastião, pendurei o capacete no guidom, abri minha carteira e peguei uns cinco reais em moedas. Eu já estava acabando de atravessar a rua para entregar as moedinhas àquela desconhecida, decerto mãe solteira, quando ela se posicionou ao lado da janela de um sedã azul da marca BMW. Em seguida o condutor estirou o braço para fora do veículo e apalpou os seios da mulher por entre o decote do vestido, diante da criança. Fiquei desconcertado.

Não demorou e o sinal ficou verde, o sujeito entregou uma cédula não sei de quanto à vendedora de paçoquinha e seguiu viagem. Maldito dinheiro aquele! Maldito elemento que se aproveita da miséria de outrem para satisfazer uma pulsão sexual! Quantas vezes esse indivíduo já não terá feito isso com outras mulheres carentes e desvalidas por aí, nos semáforos de Mossoró? Não faço ideia.

Nesse instante as minhas pernas ficaram bambas, vi-me estarrecido, e um sentimento de impotente revolta se apoderou de mim. Respirei fundo, os carros rumavam para um lado e outro e me aproximei daqueles dois seres (mãe e filha) sobre o canteiro. A mulher, notando a minha presença, pareceu-me um tanto surpresa com o fato de que alguém a pé viesse em sua direção. Ainda assim, quem sabe receosa, encarou-me e ofereceu o que tinha no recipiente de plástico transparente.

Notei que ainda havia em seu semblante um aspecto de constrangimento. Não duvido de que ela tenha imaginado que testemunhei o que acontecera um minuto antes. “Boa tarde. O senhor quer paçoquinha? Custa só dois reais. Compre pelo menos uma para me ajudar. Eu sou viúva; o meu marido era viciado em crack, estava devendo na boca de fumo e foi morto por um traficante nos Teimosos”, disse-me assim como se tivesse aquela história dramática ensaiada na ponta da língua.

Sobre o final do canteiro da Avenida Augusto Severo, enquanto os carros paravam no sinal vermelho e logo após seguiam seus destinos, travei um breve diálogo com ela, depositei em sua mão pequena quantia e revelei que eu não tinha interesse nas paçocas, mas que aceitasse as moedas porque o meu intuito (embora com um valor bem pequeno) era tão somente o de ajudá-la. Estava perante mim uma morena clara de olhos tristes, cabelo longo, corpo franzino e bem-conformado. A filha não se parecia com a mãe, pois se tratava de uma menina de cabelos meio loiros e olhos esverdeados. Deduzi, então, que herdara as feições do pai, morto pelo traficante.

Na faixa dos trinta anos de idade, contou-me que hoje mora com a mãe idosa na Favela do Cachorro Assado, onde também existe uma boca de fumo perto do barraco que ela e a filha habitam com uma irmã mais velha e outras duas crianças. Compreendi que nossa conversa precisava ser curta, pois a vendedora de paçoquinhas estava deixando de oferecer suas iguarias enquanto falava comigo.

Ela me agradeceu, disse “Deus proteja o senhor” e eu fui embora contrariado com aquele motorista vil, sem compaixão. Torço mesmo que ele e nenhum outro volte a praticar esse tipo de patifaria, de absoluta falta de humanidade, contra aquela pobre mulher. Ainda mais aos olhos da uma criança inocente.

Esse tipo de coisa, que devemos repudiar com total veemência, é a cara de Mossoró. Pois nosso município, sempre coberto por maquiagem publicitária, vira as costas para um sem-número de cidadãos miseráveis.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
terça-feira - 29/10/2024 - 10:30h
Poética

Horas de vida

Sob os acordes de Elias Epaminondas, a poesia de Marcos Ferreira.

Eu vou levando minha nau para outros portos…

Eu vou deixando para trás todos os charcos…

(Horas Mortas)

Horas de vida!

Belíssimo, meus amigos.

Pro dia nascer feliz.

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domingo - 27/10/2024 - 05:38h

Gratidão

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa Adobe Stock

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Apesar de alguns altos e baixos, minha saúde vai bem. Sim. De um modo geral, estou com a cabeça e o corpo em ordem. Existe a bateria diária de remédios, que não é das menores, contudo os efeitos colaterais são ínfimos diante do custo-benefício. Diversos são os motivos pelos quais me sinto grato e privilegiado. A Fome, por exemplo, largou do meu pé faz tempo, foi erradicada do meu viver. Hoje eu possuo casa própria, luz elétrica e água de boa qualidade em abundância.

Desde quando voltei a escrever, pouco antes da pandemia, as coisas só têm melhorado para mim. Aqui neste Blog Carlos Santos, justiça seja feita, reencontrei velhos amigos e adquiri a admiração e carinho de leitores que sequer conheço pessoalmente, como o escritor e delegado Inácio Rodrigues, aqui em Mossoró, e a pernambucana e bancária aposentada de Caruaru Bernadete Lino.

Pois é, surgiram novos amigos que acompanham meus escritos neste blogue e que se tornaram íntimos deste escriba e desta Casa Branca da Euclides Deocleciano. Sinto-me, repito, um privilegiado. Olho pelo retrovisor e vejo quantos apuros e privações ficaram para trás. Fisicamente falando, todavia, estou fora de forma, adquiri um sobrepeso de quase vinte quilos e assumo (por enquanto) minha condição de sedentário. A maior parte daquela cabeleira de algumas décadas pretéritas despencou e já não sou o palminho de rosto bonito de outrora. O tempo é iniludível.

No geral, torno a dizer, estou no lucro. Possuo entre estas paredes, debaixo deste teto que me abriga (além de outros bens materiais modestos) uma geladeira resiliente, fogão de quatro bocas, telefone celular, um velho computador, escrivaninha que ganhei no meu último aniversário, motocicleta, tevê moderna e uma rede de dormir. Pode parecer pouco para alguns, no entanto estou satisfeito.

Não, prezados leitores. Isto não é um espólio prematuro. Trata-se de uma espécie de prestação de contas ou um exercício de gratidão perante o Todo-Poderoso. Não pago nada pelo oxigênio que respiro. A Lua e o Sol não me cobram taxa de iluminação pública. As estrelas muito menos. Vivo em um recanto do mundo onde não há bombas e mísseis desabando sobre nossas cabeças. Não sofremos com enchentes, terremotos, furacões nem chuva ácida. O Brasil e Mossoró têm problemas, mas não é um deus nos acuda como esse que vemos na Palestina e Ucrânia. Longe disso.

Infelizmente, também seja dito, ainda existem muitos cidadãos desvalidos, crianças, adultos, idosos, mendigando nos semáforos, dormindo sob marquises, viadutos, em praças públicas e casas abandonadas. Eu, entretanto, por alguma benesse ou divina providência, vivo uma vida módica, porém digna.

Dá-me uma tristeza enorme quando me deparo com esses pobres coitados, indivíduos rifados no relento, invisíveis aos olhos dos gestores, dos governos, dos homens públicos, ignorados até mesmo pelo Criador. Por que será, oh, Deus?! O que terão feito de tão mau ou errado para viverem em semelhante lástima, curtindo fome e repelidos, tratados como leprosos sociais?! Então olho para mim e à minha volta, penso nos amigos que tenho e nos tostões que chegam às minhas mãos. Aí reflito, pondero e digo de mim para comigo o quanto sou feliz e bem-aventurado.

Aqui não há luxo, algo fácil de se constatar, mas quem me frequenta sabe que é bem-vindo. Toma-se um café escoteiro ou acompanhado das guloseimas que trazem Elias Epaminondas, Odemirton Filho, Rocha Neto, Marcos Araújo, entre outros que muito prezo e quero bem. Hoje é isso. O assunto é gratidão. Entrementes rogo que o Altíssimo se apiede de todos que se acham na miséria.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 20/10/2024 - 05:26h

Mingau de milho

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa do Adobe Stock

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Diante da tela fluorescente do computador, sentado à escrivaninha, penso no que escrever para hoje. Vêm-me à cabeça algumas possibilidades, alguns retalhos de memória que talvez (espremendo meus quarenta ou cinquenta neurônios) resultem em uma crônica ao menos sofrível. Memória, porém, é algo de que atualmente não posso me valer muito ou contar vantagem. Possuo, para ser franco, vagas lembranças de coisas que eu gostaria de narrar, fragmentadas passagens de minha vida.

Penso que seria oportuno compor uma página trazendo à baila um episódio que vivenciei no tempo em que cursava a segunda ou terceira série primária no Instituto Dom João Costa. Daquela época, entre outras coisas, lembro do mingau fumegante de milho com coco que serviam na hora da merenda. Aquilo representava um manjar para o menino fora de faixa que tinha ali a oportunidade de aplacar a fome.

O mingau nos era entregue naqueles copos azuis de plástico. Eu ia soprando e tomando o mais rápido possível no intuito de conseguir um segundo copo, antes da campainha soar. De tão quente, entretanto, no mais das vezes isso não era possível.

Houve um dia, contudo, em que consegui, quase queimando a língua, repetir o delicioso mingau. Então, bucho cheio, arrematei a proeza com a água geladinha do bebedouro. Quero supor que foi o choque térmico o responsável pela tragédia que me aconteceria dali a mais alguns minutos naquela manhã.

Minha barriga começou a fazer uns barulhinhos. Imaginei que fosse ficar só nisso. Coisa nenhuma! Logo vieram as cólicas e um suor frio se apresentou no meu rosto. Desconfortável, tímido e sem coragem de pedir à professora (por quem eu era apaixonado) para ir ao banheiro, pois fazia pouco tempo que estávamos de volta, fiquei me segurando, ainda na expectativa de que as cólicas cessassem.

Devido à timidez, eu costumava escolher as últimas cadeiras. Então me sobreveio a imparável necessidade de soltar uma flatulência. Foi a gota d’água. A merda veio fininha, morna e abundante, ensopando minha calça curta. Depressa o fedor empestou a sala.

Fiquei estático, o suor aumentando juntamente com o mau cheiro. Como se não bastasse, para amplificar meu vexame, nem cueca eu tinha naqueles verdes anos. Senti o tecido colando na cadeira. A meninada maldizia a fedentina. Decerto por conta do período chuvoso, não tardou para que as moscas me denunciassem. Até que o gorducho Lucinho, sentado junto a mim, alarmou para a sala inteira:

— Tia Emília, Marcos está todo cagado!

Senti-me assim como se meu espírito houvesse saído do meu corpo. A gritaria e as vaias explodiram. Com carinho, enfrentando o odor, a jovem e bela professora veio em meu socorro. Disse mais ou menos que eu não ficasse com vergonha porque aquilo podia acontecer com qualquer pessoa; pegou-me por um braço e me levou para o banheiro. Notei que a bosta escorria pelas minhas pernas.

Uma faxineira da escola foi convocada pela professora para auxiliá-la, aumentando dessa forma o meu constrangimento. Tiraram minha roupa, deram-me um meio banho e a faxineira ainda teve a bondade de lavar minha calça, que vesti mesmo molhada. Naquele dia retornei para casa bem mais cedo. Passei o resto da semana sem pisar na escola e nunca mais repeti o mingau de milho.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 13/10/2024 - 05:30h

Conversa com as paredes

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa do Adobe Stock

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Falo de vez em quando com as paredes. Os doutores Roncalli Cunha e Dirceu Lopes, ambos alienistas, talvez se perturbem com isso. Não precisa. No momento em que tal “conversação” acontece, embora eu tenha por resposta apenas o silêncio, estou de posse de minhas faculdades mentais. São ensejos em que não me encontro irritado, deprimido ou ansioso. Sinto-me em paz e sem uma excruciante enxaqueca, enfermidade esta que, às vezes, se arrasta ao longo de vários dias.

Embora não digam nada, estou certo de que as paredes me ouvem, sabem dos meus solilóquios, testemunham as minhas ruminações e queixumes, sobretudo nas noites embaixo deste teto que parece as escamas de um peixe de cerâmica. Apesar do silêncio absoluto que me devotam, repito, estou satisfeito. Pois não é todo mundo que consegue estabelecer e usufruir desse tipo de confidência.

Deitado em uma rede aqui na sala, enquanto os remédios não fazem efeito e o sono não vem, digo umas breves palavras como se fosse para sentir que continuo neste mundo. É mais ou menos como testar um microfone, reconhecer o timbre da nossa própria voz. Assim, entre outros pontos, podemos constatar que o coração bate, que o sangue corre nas veias. “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”, declarou o escritor irlandês Oscar Wilde.

Agora, todavia, esta minha mensagem ultrapassa os limites desta casa. Isto pelo simples fato de que ora compartilho com vocês esses instantes de introspecção, retraimento e quietude. Penso, enfim, nos amigos e até mesmo nas pessoas que sequer conheço e que possivelmente vão ler esta crônica dominical.

Ergo a vista, imagino ter escutado um ranger de dobradiças. Não é nada. Nenhum barulho ou vulto. Estou, como sempre, sozinho a esta hora da manhã. O cheiro do café que fiz há poucos minutos já impregnou a casa toda. As paredes seguem com o mutismo de costume. Sei, entretanto, que me dão ouvidos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 06/10/2024 - 03:00h

Briga de foice no escuro

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa do Adobe Stock

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Tenho consciência de que lá fora os mossoroenses estão ouriçados por conta das eleições municipais. Aqui, porém, curto a minha solidão, fechado comigo mesmo. Só vou deixar este aconchego para depositar meu voto na urna no fim da tarde, perto do encerramento das votações. É, estou sem ânimo. Nem um pouco a fim de receber na moleira esse poderoso sol de onze horas da manhã. Ficarei aqui no meu tugúrio, como diria o poeta Jomar Rêgo, último dos parnasianos desta urbe.

No meu íntimo, embora a cidade se encontre em estado de ebulição, quase fervendo, este não passa de mais um dia ordinário. O pleito eleitoral não me contagia. É claro que já fiz a minha escolha, sei em quais candidatos, segundo minha preferência e senso de coletividade, devo votar. Ressalto que a escolha, no entanto, não foi tão simples nem fácil. É tarefa dificultosa escolher em quem votar em meio a tantos nomes ruins, oportunistas, arrivistas e bem pouco confiáveis.

De qualquer modo, correndo o risco de eleger os mesmos ou novos picaretas, admito que é preciso exercer esse ato democrático. Sou contra votos brancos e nulos. Ainda que o número dos bons e bem-intencionados indivíduos que disputam nossa confiança seja quase imperceptível a olho nu, penso que existe gente boa nesse meio. Acho que, até certo ponto, é possível separarmos o joio do trio.

Ouço o vaivém dos veículos e o buzinaço que produzem. São apoiadores de candidatos de toda espécie. Muitos podem ser diferenciados pela cor das roupas que vestem. Cada partido, sobretudo em se tratando daqueles que almejam a mais cobiçada cadeira do Palácio da Resistência, tem suas cores definidas. Ao todo são quatro candidatos a prefeito de Mossoró. A contenda destes (como diz o conhecido provérbio) até parece uma briga de foice no escuro. Já do lado daqueles que almejam um assento na Câmara de Vereadores há postulantes para todos os gostos e desgostos.

É isto. Não tenho muito o que dizer sobre as eleições na terra de Santa Luzia. Torço apenas que o estrago (após revelados os vencedores) não represente uma tragédia no que se refere aos “representantes do povo”. Tomara que não. Faz tempo que este município está precisando de uma faxina bem-feita.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 29/09/2024 - 05:32h

Dois sapateiros

Por Marcos Ferreira

Marcos Ferreira e Ayala Gurgel (Foto: José Arimatéia)

Marcos Ferreira e Ayala Gurgel (Foto: José Arimatéia)

Conhecedor de uma boa parcela do meu histórico de apuros, especialmente no tocante à minha experiência e de meu pai enquanto sapateiros, na última quinta-feira, 26, recebi aqui na Casa Branca da Rua Euclides Deocleciano, 32, o versátil artista Ayala Gurgel. Além de escritor premiado, é um pintor de valioso talento. Fui presenteado por ele com uma arte personalizada, óleo sobre tela no tamanho 40×50, onde vemos um sapateiro desempenhando o seu ofício com um menininho ao lado, imagem dedutível como a de um filho auxiliando o pai na referida atividade.

Nascido em 1971, Ayala é natural do município potiguar de Alexandria. Escritor prolífero, contista, romancista sempre com lastro na temática do sertão, tem vasta formação acadêmica, com passagem por importantes universidades brasileiras. Entre outras especializações e habilitações, é doutor em Políticas Públicas e Filosofia. Ele é professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) desde 2014. Possui experiência no campo da Filosofia, sobretudo em Ética, Bioética, Tanatologia e Saúde Mental. Atualmente, além da literatura e das artes plásticas, desenvolve pesquisas na área de filosofia da linguagem ordinária e teoria da argumentação.

O pai de Ayala, que está com oitenta e três anos, também foi sapateiro. Algumas obras do autor estão expostas na pinacoteca da Ufersa. @ayalagurgel é seu contato no Instagram.

Comecei com apenas dez anos de idade ajudando meu pai, o sapateiro Vicente Ferreira. Primogênito de uma prole de onze irmãos, e com nossas finanças descompensadas pela inflação, era de se esperar que o filho mais velho seguisse o genitor na faina da sapataria. Assim, como na letra do Milton Nascimento, coloquei o pé (as mãos, aliás) na profissão. Eu não tinha carteira assinada, obviamente. Isso só aconteceu no dia primeiro de março de 1986, estando eu com dezesseis anos incompletos. O cargo? Auxiliar de apalazamento; palavra inexistente nos dicionários.

Não havia nesse tempo essa coisa de que criança não pode trabalhar. Eu (assim como os demais) dava expediente das sete às onze e das treze às dezessete e trinta. Não raro, porém, acontecia de estarmos com muitos pedidos e aí todos fazíamos plantão até as nove ou dez da noite. Isso melhorava o salário.

Naquela época, início dos anos oitenta, ainda existiam em Mossoró algumas indústrias e fabriquetas de calçados. Depois, com a pesada concorrência da produção em série das grandes empresas do ramo, as fábricas não suportaram e começaram a falir, a exemplo da Indústria e Comércio de Calçados Arruda Ltda., situada à Rua Adauto Câmara, 154, empresa essa onde trabalhávamos. Devo dizer que possuo uma memória pouco confiável, com a durabilidade dum Sonrisal num copo d’água, como já falei noutra oportunidade, mas certas coisas continuam intactas na minha mente. Consigo lembrar, por exemplo, o cheiro do couro e de alguns tipos de cola.

Ainda analfabeto com onze anos de idade, fui matriculado no Instituto Dom João Costa, onde hoje funciona o Centro de Práticas Múltiplas Dom João Costa. O mingau de milho com coco servido ali na hora da merenda era uma verdadeira delícia. Concluí a quinta séria primária e depois abandonei o colégio, novamente impelido pela necessidade de contribuir para colocar comida em nossa casa.

Alguns anos depois retomei os meus estudos, desta feita na Escola Estadual Hermógenes Nogueira da Costa, no Abolição IV. Ali concluí o sétimo ano. Por essa época as sapatarias já haviam quebrado e eu e meu pai nos tornamos faz-tudo. Eram ocupações de toda sorte que agora não me disponho a narrar. A fome se agravou na casa dos Ferreiras e tivemos, como se diz, que matar um leão a cada dia.

Tudo isso são águas passadas! Hoje, como feliz recordação dos meus anos como sapateiro ao lado do meu pai, tenho essa bela arte em tela produzida pela sensibilidade do meu amigo das letras Ayala Gurgel. Muito obrigado!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Política
domingo - 22/09/2024 - 06:48h

Toda nudez será castigada

Por Marcos Ferreira

Ilustração do Adobe Stock

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Em uma de suas mais aclamadas obras, Nelson Rodrigues (notório machista) trovejou que toda nudez será castigada. Para isso eu nunca dei bola e muito menos me preocupei. Ultimamente, no entanto, tal “ameaça” vem me causando sobrosso. Não estou sugerindo que ando mostrando minhas partes em público ou para alguém em específico. Não se apoquentem; explico já do que se trata.

Antes, não faz muito tempo, eu dormia nu. Todo nu entre e sob os meus cobertores: dois lençóis do mesmo tecido de redes de dormir, macios e aconchegantes. À noite, então, depois do banho, aqui basta apenas um ventilador na velocidade mínima para que eu me sinta confortável, pois a casa não tem forro e o vento circula bem, a ponto de fazer um friozinho bom durante a madrugada. Nesse momento, como de costume, desligo o ventilador quando vou ao banheiro verter água.

Hoje, portanto, parei de dormir desnudado, como nos revela poeticamente o francês Charles Baudelaire acerca do próprio coração. Visto-me com roupas leves e amaciadas. E por que mudei? Simplesmente porque de uns tempos para cá, e tendo notícias de tantos casos de infarto, passei a imaginar batendo as botas e ser encontrado por familiares, amigos ou estranhos com minhas partes expostas e flácidas. Ainda mais eu, que sou sexualmente resumido, como diz o poeta Cid Augusto. Espero não “empacotar” tão cedo, todavia considero esse tipo de cautela razoável.

Dessa forma, segundo a lógica do Nelson Rodrigues, a minha nudez também seria castigada nesse aspecto. Imagino o embaraço (enquanto hipotético defunto) de me flagrarem em condições tão lastimáveis. A nudez feminina, a meu ver, é mais harmoniosa e menos constrangedora do que a do homem.

O coração, a exemplo do cérebro, dificilmente negocia uma segunda oportunidade com quem o possui. Às vezes, quando menos se espera, o ataque é fulminante. E parece (Dr. Diego Dantas que se pronuncie) que nem precisa que o sujeito seja doente cardíaco. Quanto a mim, que sou hipertenso, a situação inspira cuidados. A losartana potássica de cinquenta miligramas não me dá garantias plenas. Sou um sujeitorelapso e estou há vários anos sem me consultar com um cardiologista.

Nos últimos dias, sobretudo à noite, tenho pensado com apreensão em certas providências para que, no caso de um ataque cardíaco fulminante, as pessoas possam chegar até mim com facilidade. Uma delas (mais simples) é deixar cópias das chaves desta casa com Natália. Assim ninguém terá que arrombar nada ou recorrer a um chaveiro. Por essas e por outras, então, eu passei a dormir vestido. Dessa forma, contrariando a obra do rabugento Nelson Rodrigues, não serei castigado.

Raras são as vezes em que o coração nos dá algum tipo de aviso, uma segunda chance. Em “Autopsicografia”, poema de Fernando Pessoa, mais precisamente na última estrofe, o bardo português declara o seguinte:

“E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração”.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 15/09/2024 - 07:48h

Sexta-feira 13

Por Marcos Ferreira

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É sexta-feira, 13 de setembro, dezenove horas e trinta e quatro minutos. Este é o momento em que, após uma semana bastante desconfortável, dou início a esta página com a expectativa de que ela vingue e se transforme em uma narrativa ao menos medíocre. Aqui eu emprego medíocre (acaso valha a pena ressaltar) no sentido de mediano, de modesto. Nem as ostras produzem somente pérolas.

Muito bem. Lá vamos nós. O primeiro parágrafo já foi. O segundo, como percebem, está em construção. Também este, a exemplo do primeiro, há de se salvar. Assunto para mais ou menos uma página e meia é o que não falta nesse tempo de disputa (palmo a palmo) pelo voto dos eleitores. Sim, é época de eleições municipais, coisa que não preciso dizer. Todas as pesquisas têm mostrado que Allyson Bezerra, atual prefeito e candidato à reeleição, disparou na dianteira com cento e treze por cento dos votos válidos. Os outros, decerto indivíduos de semelhante competência e bem-intencionados, estão comendo poeira na corrida pela Prefeitura. Terão que operar um milagre se quiserem superar Bezerra a essa altura do campeonato. Não desejo, entretanto, discorrer sobre política. Deixo com os expertos. Que vença o melhor.

Raciocino aqui com os meus botões (perdoem o lugar-comum) e acho que os demais colaboradores do Canal BCS — Blog Carlos Santos já enviaram seus textos. Especialmente Odemirton Filho e Bruno Ernesto, dois hábeis garimpeiros de reminiscências. Outro com cadeira cativa no blogue é o doutor Marcelo Alves Dias de Souza, de vasto cabedal, especialmente no que se refere a literatura nacional quanto estrangeira. Aqui e acolá, para dar mais brilho ao blogue, surgem o escritor e professor Marcos Araújo e o não menos ilustrado Honório de Medeiros.

Como veem, decerto sou o retardatário. Destaco, no entanto, se isto atenua a minha barra, que padeci alguns dias com enxaqueca, velha e indesejável visita que volta e meia ocupa a minha sinagoga por tempo demasiado longo. Em dias assim, mal-acompanhado pela cefaleia, o manejo da escrita fica difícil.

Além dos já citados articulistas, nós da confraria do cafezinho sabemos que temos um precioso observador neste blogue (falou-se nisso recentemente) que está nos devendo a publicação de um livro com suas ricas e cristalinas memórias. Estou me referindo ao nosso fraterno amigo Rocha Neto. Pois é. O homem é um baú da história mossoroense e adjacências. Torço que Rocha abrace o desafio.

Seguindo minha lista de talentos, não posso deixar de fora o delegado e contista Inácio Rodrigues Lima Neto. Esse mesmo! Inácio Rodrigues, de quem já me tornei um fã, escreve ficção como gente grande. O conto dele intitulado “Memórias em cacos”, publicado neste blogue, é uma pequena joia. Espero que Inácio retome a produção. É um desperdício um autor assim ficar no anonimato.

Por falar em ficção, eu soube que o também professor e escritor David de Medeiros Leite está se preparando para lançar um livro de contos. David é um literato prolífero, autor de diversos livros, entre os quais o romance “2020”. O nome da obra, segundo foi divulgado nos últimos dias, é “Contos do Tirol”.

Hoje, portanto, em plena sexta-feira 13, vou me dando bem na construção e na trama de mais uma crônica, embora um tanto quanto digressiva. Tenho um especial gosto por essa data. Estou ciente de que o leitor espera (desde a escolha do título) que eu diga qualquer coisa acerca desse dia mítico, místico e emblemático. Já enrolei demais. O que não se pode perdoar é não escrever uma vírgula a respeito. O 13, como para outras pessoas, é meu número favorito. Só não sei o porquê.

Dizem que se trata de um dia de azar. A verdade é que as superstições em torno da sexta-feira 13 são numerosas e algumas beiram a bobice. São tantas que até mudei de ideia e não vou mais relacioná-las. Melhor o próprio leitor fazer uma busca no Google e verificar as crendices a respeito de tal assunto. A aura sombria que envolve o tema em foco é explorada, sobretudo, até pelo cinema.

Não me ative à data, conforme se vê, todavia lhes ofereço uma sopa de letrinhas. Ou eu deva dizer salada de palavras? Bem! O que importa, ao menos para mim, é que dou por concluída mais crônica para este blogue.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/09/2024 - 06:42h

Visita inconveniente

Por Marcos Ferreira

Imagem de GG Artes Digitais na Freepik

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Imagino que alguma vez você passou por algo parecido. E diante de situação dessa natureza cada indivíduo reage à sua maneira.

Depois do jantar, em torno das oito horas, eu já havia tomado banho e a pouca louça estava lavada. Jantei ovos mexidos (cinco) com uma banana em rodelas. É esse, dentro das minhas limitações culinárias, o meu prato favorito. Então coloquei a velha e confortável roupa de dormir: uma bermuda fininha e uma camisa de algodão bem macia de mangas longas. Ressalto que disponho de outras peças semelhantes. Não gosto de dormir sem camisa. A casa não tem forro e por isso não faz calor. Deixo aberta por um tempo a janela da cozinha, situada na lateral esquerda.

Uso o ventilador até certo horário da madrugada. Depois desligo porque fica bastante frio. Sobretudo quando chega a cruviana.

Armo a rede na sala, coloco o ventilador sobre uma banqueta de plástico, além de uma cadeira em cima da qual coloco o telefone, o controle remoto da tevê e meus óculos. Assim aguardo o Jornal Nacional, seguido da novela das nove, que agora venho acompanhando porque a desalmada da Netflix me bloqueou só porque não sou assinante. Uma malvadeza! Antes eu dispunha da plataforma graças ao Elias Epaminondas, que compartilhava comigo. Mas a Netflix meteu a tesoura nessa opção e cortou meu barato. No mais das vezes era esse aí o ponto alto do meu dia.

Deixem quieto! Estou preparando a volta por cima. Logo poderei contar com o cineminha à noite. De vez em quando me viro com o YouTube. Contudo não duvido de que também esse qualquer dia invente de liberar acesso tão só para assinantes. Assistir a filmes e séries nos streamings tornou-se um pequeno luxo, uma carestia que vai frustrando um sem-número de gente mundo afora.

Bem, agora esqueçamos tal assunto. Desejo contar uma história curiosa. Foi na terça-feira passada. Trata-se de uma visita que me apareceu quando eu menos esperava. Portanto, sem ser convidada. Justo quando me encontrava deitado e com a sala iluminada somente pela televisão. William Bonner havia acabado de me dar um solene boa-noite, a exemplo da competentíssima Renata Vasconcellos. Não teve jeito. Eu precisei me levantar às pressas, tamanha foi a inconveniência.

Num voo rasante, a referida visita quase se chocou contra a minha cara. Fiquei em polvorosa, logicamente. Considerei, entretanto, que poderia ser uma coisa ainda pior: um monstro chamado barata, por exemplo. Sim, uma barata voadora. Aquela peste, com as suas asas envernizadas, representaria uma completa desgraça para o meu repouso. Fico arrepiado apenas imaginando. É muito rápida, dificílima de matar. O pânico é imediato. Se uma infeliz dessas aparece aqui em casa à noite, não vou dormir (não ao menos em paz) se antes eu não puder extinguir a intrusa.

Mesmo inconveniente, o ser alado que invadiu o espaço aéreo de minha residência foi outro muito menos asqueroso: um morcego dos grandes, mais ou menos do tamanho de um albatroz. Como se sabe, é uma criatura desprovida de beleza e um tanto quanto desagradável, porém é de caráter inofensivo.

Levantei-me com receio de que o mascote do Batman caísse dentro da rede. É admirável a capacidade, a desenvoltura com que esses orelhudos mamíferos conseguem voar de forma tão arrojada, tão precisa. Exatamente. São os únicos mamíferos capazes de voar, para a nossa inveja e despeito. Morcegos do tipo hematófagos são raros. A grande maioria se alimenta de frutos e insetos. Sei que essas informações não são bem uma novidade para os leitores, mas talvez alguém desconheça. Ao contrário de baratas, não se deve matar um morcego que invada sua casa.

Nessa noite, pois, o “albatroz” voava de um lado para o outro. Abri portas e janelas, apaguei a luz da sala (que eu havia acendido) e liguei a da garagem. Passados dez ou quinze minutos, a visita inconveniente foi-se embora. Tranquei tudo e, apesar do pequeno transtorno, voltei a ver televisão tranquilo. O Jornal Nacional estava bem adiantado; consultei as horas e daí a pouco assisti à novela.

Afora isso (o Jornal Nacional e a novela das nove) não há mais nada suportável que se possa ver de segunda a sábado. No domingo ao menos contamos com o Fantástico. Estou fechado na dita TV aberta, sem muitas opções para quando a noite cai e o sono demora a chegar. Os outros canais são piores.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 25/08/2024 - 07:24h

O candidato sabido

Por Marcos Ferreira

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Confiante, cheio de lábia, armado com um discurso de salvador da pátria, o candidato a vereador chega ao loteamento de casas humildes na periferia de Mossoró acompanhado por um cabo eleitoral. Por motivo de mera discrição, e para não aumentarmos o ibope do elemento, é melhor que não citemos o nome do autêntico ilusionista nem o partido pelo qual concorre a uma cadeira na Câmara.

Quando ele desce do carro, naturalmente com as cores do partido e com um adesivo circular de sua própria cara grudado na camisa, bem na altura do peito esquerdo, encontra todo mundo à sua espera. Cadeiras, banquinhos e tamboretes de todo tipo estão ocupados pelos potenciais votantes do senhor Cornélio. Pronto! Vamos chamá-lo assim, de Cornélio. As pessoas são todas olhos e ouvidos. Parece um transe coletivo. Os moradores se reúnem no terreiro de uma casa onde o ilusionista costuma discursar. O sujeito se mostra um craque no gestual e no papo-furado.

Com menos de cinquenta anos de idade, o garimpeiro de votos sabe levar o pessoal no bico. Até agora não deu nada a ninguém, e é provável que não dê mesmo que venha a ser eleito, todavia promete o Céu e a Terra ao grupo de trinta ou quarenta eleitores que escutam o seu falatório como se estivessem hipnotizados. É isso. Com a sua conversa para boi dormir, o senhor Cornélio dá um show.

Claro que as benfeitorias de maior vulto ele joga para depois do resultado das urnas. A exemplo do saneamento básico e da pavimentação com paralelepípedos da ruazinha que fica cheia de lama e escorregadia toda vez que chove. Obviamente, porém, a fim de garantir seu curralzinho eleitoral, assegura a um e a outro que vai dar isso e aquilo antes das eleições. Por exemplo, sem pestanejar nem gaguejar, afiançou a fulano e a sicrano que mandará vir alguns milheiros de telhas e tijolos de cerâmica para a construção de muros e a cobertura de certas residências.

À catadora de materiais recicláveis Maria das Graças, viúva e mãe de três crianças pequenas, mais uma iludida com as promessas de campanha do dito-cujo, falou que dará uma geladeira nova. De tão velha, a atual está cheia de ferrugem e com a porta presa por uma corda elástica. O amputado Nazareno nutre a esperança de que o candidato lhe consiga uma prótese para a perna direita e possa enfim livrar-se das muletas. Enquanto isso o mecânico Chico Mota segue na expectativa de contar com o apoio financeiro do senhor Cornélio na aquisição de uma máquina de solda.

O cabo eleitoral do senhor Cornélio, talvez por força do hábito, distribui nova porção de adesivos de papel com o rosto do tal messias. Cornélio é devoto de um ex-presidente da República a quem ele chama de mito, justo aquele que muito recentemente foi escorraçado por abelhas no município de Macaíba. Opa! Acabei revelando o nome do partido do senhor Cornélio. Mas deixo como está.

É lógico que nada disso é da minha conta. Sabemos que os homens fazem politicagem bem antes do surgimento da escrita, lá por volta de quatro mil anos antes de Cristo. Dia desses, como modelo de enganador, citei em uma inocente crônica o personagem Odorico Paraguaçu, mestre das maracutaias e da conversa-fiada.

Já o senhor Cornélio, como não poderia deixar de ser, possui as suas manhas e contos do vigário. Com admirável desenvoltura, estufa o peito, arregala os olhos por trás das lentes de grau e se vende para os moradores do loteamento como conservador, cidadão de bem, patriota, um defensor dos bons costumes e das virtudes da família.

Hoje à noite, segundo vi no Instagram de supostos e ingênuos eleitores, haverá outro encontro com o candidato sabido. Nada mais há que se possa fazer para abrir os olhos daquela gente humilde. E que ninguém se atreva a declarar que o senhor Cornélio não é um homem honesto e bem-intencionado.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/08/2024 - 05:44h

Um conto bem-feito

Por Marcos Ferreira

Imagem ilustrativa gratuita da Stock

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Terça-feira passada, ao ler um conto do escritor Inácio Rodrigues Lima Neto, delegado da Polícia Civil e colaborador deste Blog Carlos Santos, senti-me inspirado diante da ótima urdidura de Inácio Rodrigues. Então, como há muito eu não faço, falei de mim para comigo e disse: “Vou escrever algo assim para o próximo domingo!” Coisa nenhuma! Fiquei só na vontade, no caqueado.

Sem querer jogar a toalha, sem digerir a derrota, procurei alguns autores e as suas páginas a fim de me livrar da influência do enredo trazido por Inácio, que no final das contas embaçou o meu horizonte criativo.

O referido conto, publicado aqui no Blog no dia 17 de novembro de 2019 sob o título “Memórias em cacos” (veja AQUI), vale quanto pesa, conforme o adágio. O danado me pegou mesmo de jeito. Esse causo oferta ao leitor uma história cheia de surpresas e astúcias literárias que nos deixa de queixo caído no seu desfecho.

Ouso dizer, sem sombra de dúvida, que se trata de um dos melhores contos já publicados neste espaço, muito embora o autor seja uma espécie de contista bissexto.

Como podem notar, findei entregando os pontos. Não escrevi o que pretendia, contentei-me com louvar o texto de Inácio, cuja narrativa merece ser lida ou relida por todos que acompanham o que se estampa aqui.

De minha parte, quando eu reorganizar a oficina da inventividade, almejo produzir uma peça dessas do chamado gênero short story. Por enquanto, sem lhes apresentar uma crônica propriamente dita e muito menos a ambicionada ficção, considero razoável tecer estes palpites acerca de “Memórias em cacos”.

Apesar da ideia de fragmentação, tudo se encontra nos devidos lugares. Recomendo, portanto, a quem não conhece o texto, que procure ler essa escrita do Inácio Rodrigues.

Não se trata de incensar ou adular. Porém (coisa que não dói nem arranca pedaço) apenas parabenizo o autor. Pois se agora me comporto de tal forma é por único e simples merecimento desses bem-articulados “cacos”.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 11/08/2024 - 07:48h

Madrugada insone

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa feita pelo autor da crônica

Foto ilustrativa feita pelo autor da crônica

Duas e cinquenta e cinco da madrugada. Levanto-me para ir urinar e sinto que o sono foi-se embora. “Acho que a quetiapina falhou de novo”, penso com meus botões. Os galos palestram cheios de entusiasmo. O que tanto será que conversam? Não sei. O que sei é que gosto de ouvir esses tenores ao longe. Pois é, ainda há galos, noites e quintais. O bigodudo Belchior ficaria contente com isso.

No mais compreendo que não conseguirei voltar a dormir. Não pelo menos em breves minutos, assim tão depressa. Decido que será oportuno ligar o computador e escrever alguma coisa após vários dias sem produzir uma página. É isso. Vou rabiscar uma historinha enquanto a insônia permanece. Tomo a providência de preparar a cafeteira. Sim, um cafezinho talvez ajude a fazer os pensamentos fluírem. Daí a pouco a cafeteira emite seus últimos estertores. O cheio é ótimo!

Não tomarei banho tão cedo. Lavo apenas os olhos e escovo os dentes; deixo outras abluções para mais tarde. Um vigilante de rua passa apitando sobre uma motocicleta. Os galos seguem com o colóquio em pontos diversos. Sirvo-me de uma pequena xícara de café. Vou tomando a rubiácea com vagar.

Um turbilhão de pensamentos me vem à mente. Nada, entretanto, com muito proveito para a composição desta hipotética crônica. Recordo situações e fatos pretéritos e gasto um pouco do meu raciocínio avaliando bobices, questões futuras. Percebo que não vou bem das pernas na condução deste possível texto para publicar no domingo. Mas é dessa forma. A gente nem sempre governa; certas vezes somos governados pela escrita que supomos apreender e tentamos moldá-la.

Não desejo, porém, descambar para o velho e repisado tema do processo de redação. Não estou a fim de chover no molhado. Melhor dizer algo mais a respeito dos galos, que seguem firmes com as suas canções gregorianas. Há também alguns grilos estridulando em miúdos esconderijos nas imediações.

Em breve explodirá a algazarra dos pássaros que ocupam o condomínio da mangueira no quintal da casa aos fundos. Imagino que consigo ouvir alguns pipilos daqueles bichinhos alados mais madrugadores. Volto à cafeteira e pego outra meia xícara. Dizem que não é algo saudável tomarmos em jejum.

Confiro a temperatura: vinte e dois graus. Seria uma bênção se ao meio-dia não chegasse aos trinta e sete ou mais; isso com sensação térmica de quarenta. Dou seguimento a estas linhas já um tanto cabeceando. É o que estou dizendo. Apesar dos tragos moderados de café, parece que a sonolência está de volta. A passarada iniciou sua festança nos ramos da portentosa mangueira do vizinho.

A solidão me faz companhia na maior parte do tempo. É verdade. Vivo só há quase vinte anos. Estou habituado. Mas existem ocasiões em que penso que baterei as botas a qualquer instante sem que ninguém fique sabendo. Sentirão minha falta depois de longo tempo e aí um chaveiro dará um jeito de abrir a porta. Desse modo encontrarão o meu corpo em avançado estado de enrijecimento.

Mas não falemos (perdoem este sapateiro das letras) acerca dessas questões funestas, de nada disso que possa representar melancolia, baixo astral nem pessimismo. Não posso morrer agora. Como eu costumo dizer, o preço do caixão está pela hora da morte. Quiçá as Olimpíadas sejam uma boa saída; assunto melhor para se abordar. Acontece que estou por fora dos jogos olímpicos. Tenho visto meramente um fragmento aqui e outro acolá quanto aos eventos esportivos que se passam em Paris. Futebol?! O tal do Brasileirão?! Está por completo longe do meu campo de interesse. Não tenho nadica de nada a dizer concernente a esse aclamado esporte.

Bem, prezados leitores, é chegado o momento de colocarmos um ponto final nessa conversa-fiada. Espero que noutra circunstância, quando a literatura estiver menos arisca, menos arredia, eu lhes ofereça uma narrativa digna do tempo e atenção de vocês. Escrever não depende tão somente de vontade própria.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
sábado - 10/08/2024 - 07:24h
De volta

A hora azul de Marcos Ferreira

Foto de Marcos Ferreira aos quatro anos de idade (Reprodução de acervo pessoal do autor)

Foto de Marcos Ferreira aos quatro anos de idade (Reprodução de acervo pessoal do autor)

Amanhã, outro domingo, o domingo 12 de agosto de 2024, a gente de novo vai se encontrar com cronistas, articulistas, colaboradores do “Nosso Blog” – batismo dado pela querida Naide Rosado, lá daquela lonjura do Rio de Janeiro-RJ.

De novo com eles:

Honório de Medeiros;

Bruno Ernesto;

Odemirton Filho;

Marcelo Alves.

Teremos mais. Uma penca dessa igualha.

Dia para recebermos de volta Marcos Ferreira, o poeta, o cronista, o contista, o romancista, o escritor, nosso amigo.

Domingo desses, finzinho do mês que arribou há pouco, ele escreveu a última crônica.

Nem dei o cabimento de ligar, me lamuriar e pedir-lhe com mãos postas e joelhos no chão, que retornasse. “Volte, Arlindo Orlando…”

Esperei. Sou psicólogo formado nessa sinuosa estrada da vida e cuido de muitos, a ponto de incontáveis vezes esquecer de mim mesmo.

Hora de aguardar o tempo de Marcos Ferreira, deduzi. Elementar, meu caro Freud.

Em “A bagaceira”, José Américo de Almeida (1887-1980) definia: “Ninguém se perde no caminho da volta, porque voltar é uma forma de renascer.”

Até amanhã, meu caro.

Acompanhe o novo Instagram do Blog Carlos Santos clicando @blogcarlossantos1

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Categoria(s): Comunicado do Blog / Crônica
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domingo - 28/07/2024 - 12:42h

Última crônica

Por Marcos Ferreira

Livro, ilustração da Freepik

Livro, ilustração da Freepik

Pode parecer que estou aborrecido, enfastiado com esse compromisso de escrever uma crônica dominical, porém não se trata de nada disso. Ainda menos estou de mal com quem me acompanha neste espaço. Acontece justamente o oposto. Sou grato e valorizo (de verdade) o pequeno grupo de pessoas que tiram uma parcela do seu precioso tempo para conferir o que trago de novo. Nenhuma reclamação nesse sentido. Como disse Ariano Suassuna, sou um escritor de poucos leitores.

A questão é comigo mesmo. Peço-lhes tão só uma pausa, algo de fato particular, que também pode ter a ver com a reduzida água que me resta no poço da criatividade, da inspiração, se assim quiserem definir. Então, ao menos por algumas semanas, estarei fora de combate. Esta será minha última crônica no correr de alguns domingos; por mais que alguns vejam como falta de comprometimento.

Esse autor fala muito a respeito dos seus achaques psicológicas! Ok. Quem dessa maneira me aponta não está de todo errado. Exponho, não nego, as subidas e descidas de minha gangorra emocional. O mais, a meu ver, é tabu. Ninguém se acanha, por exemplo, em relatar que tem um problema de coluna, uma hérnia de disco ou uma bursite. Quando a enfermidade é psicológica ou psiquiátrica, entretanto, aí se costuma esconder a moléstia. Não se deseja expor que temos problemas mentais. Até um câncer, seja ele de que tipo for, é compartilhado com os amigos e a sociedade.

Sinto um cansaço alojado aqui no meu juízo. Mas o leitor não merece meia-sola, texto sem o brilho, sem a voltagem própria e necessária da boa redação, de uma literatura verdadeira. Nada de fraude, de embuste palavroso. Há ocasiões em que não conseguimos enfeitar o pavão da escrita de maneira atrativa, com bom gosto e deleite para os leitores. Do contrário o cronista falha, o escritor fracassa.

Não é escassez de assunto. Não é. Isso é o que menos nos falta para esse artesanato com palavras. Mas uma nuvem sombria paira sobre minha cuca. Quem sabe seja por causa da morte trágica de Oncinha na segunda-feira, uma gata amorosa demais para a qual buscávamos um tutor ou tutora. Não deu tempo, foi atropelada na Ufersa. É dramático o número de animais abandonados naquela universidade. Posso imaginar o quanto essas minhas histórias de cães e gatos já devem ter enchido a paciência de alguns fidedignos leitores deste espaço de informação e cultura.

Todavia não quero falar acerca do triste fim de Oncinha. Estou aqui tentando levar adiante esta narrativa que explica a minha ausência provisória; de umas férias autoconcedidas à revelia de negociação com o meu paciente Editor. Penso honestamente que essa lacuna terá pouca importância. Existem neste blogue ótimos colaboradores, indivíduos traquejados no manejo da língua portuguesa.

Olho à volta e pressinto que daqui para o próximo domingo podem surgir várias outras coisas sobre as quais poderei escrever, contudo não pretendo fazer isso. Preciso de um tempo, puxar o freio de mão. Além disso, caso valha por justificativa, estou pelejando, fazendo mais uma revisão num romance que intento apresentar a uma conceituada editora de São Paulo, e o prazo está bem em cima.

Como eu disse, embora com a mente ocupada com o copidesque desse meu romance inédito, percebo que algo não anda direito no meu espírito nos últimos dias. Noto que há instantes de irritação e melancolia aparentemente sem motivo algum. Noites maldormidas e pesadelos têm sido constantes. Quase que faltei com estas linhas para o dia de hoje. Só me foi possível porque acordei de madrugada (pouco antes das três) e liguei o computador para redigir esta página sofrível.

O resto da semana foi de esterilidade criativa. Não me entendi com os meus botões. Meu psiquiatra, com o qual me consulto há seis anos, me falou (num tom brincalhão) que sou um elemento misantropo. E tal brincadeira tem o seu fundo de verdade. Sim. Digo que possuo algum nível de misantropia.

Acredito que é melhor encerrar por aqui. Chega-me a forte impressão de que já falei além do necessário. Admito que as ideias não me surgem bem articuladas. Tenho urgência, uma certa pressa em encerrar estas palavras que, do ponto de vista literário, parecem-me inferiores a diversas outras que apresentei a vocês. Por “última” crônica, pois, considero que esta está de bom tamanho.

Até breve, portanto. Assim eu espero.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/07/2024 - 07:32h

Um prefeito inoxidável

Por Marcos Ferreira

Prefeito de  Mossoró, Allyson Bezerra, registro no Instagram

Prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, registro no Instagram

Imagino que alguém (talvez muita gente) afirmará que virei a casaca, que me vendi, bandeei-me para o lado do governismo municipal, ao topar com esta crônica com traços de cordialidade e brandura. Não tem problema. Não devo satisfações a seu fulano, a beltrano nem a cicrano. Sou dono do meu pensamento e da minha escrita. Hoje, à falta de outra coisa, o tema é este, a política partidária. O protagonista, obviamente, é o prefeito do País de Mossoró, o senhor Allyson Bezerra.

Que chovam canivetes, então, sobre a cabeça deste escriba obscuro. Às vezes é bom darmos um tempo na poeticidade e na prosopopeia do imaginário e pisarmos no campo minado dos homens públicos. Entenda-se Executivo e Legislativo destes confins do mundo. Câmara e Palácio da Resistência, historicamente falando, são um tipo sofisticado de casas de tolerância. Adentro, pois, num assunto cheio de experts nesse métier, de analistas de alto coturno que se debruçam em cima da política e da politicagem; expressam seus consideráveis e abalizados pareceres.

Advirto, por oportuno, que meu nome não está em nenhum polo cultural entre esses que são divulgados à larga. Não possuo prestígio ou afinidade com o “menino pobrezinho”, contra quem, enquanto pessoa, não tenho nada. Até poderíamos tomar um café qualquer dia neste meu refúgio da Euclides Deocleciano. Digo ainda que não tenho filha, filho ou esposa na folha de pagamento da Prefeitura ocupando cargo comissionado. Ou seja, não estou com o rabo preso. Isso significa (está bem claro!) que não manifesto queixas à toa, nenhum malquerer contra o palaciano.

Falemos, sem bajulice, acerca do senhor Bezerra, verdadeiro prodígio do Olimpo da popularidade e das urnas mossoroenses. Trata-se de um prefeito, digamos, inoxidável do ponto de vista semântico, uma espécie de Odorico Paraguaçu redivivo e remoçado que caiu nas graças do povo desta província desde que se lançou a deputado estadual (com êxito) e de lá para cá o homem só faz sucesso.

Existem as mancadas e os tropeços de caráter administrativo. Parte da imprensa vive a pisar nos calos de Bezerra; fala-se em malversação do erário, mas isso é fichinha e sai na urina, como se diz. O que conta é o curral de votos em que se converteu a Estação das Artes Elizeu Ventania. Contratações de artistas com cachês astronômicos no recente Mossoró Cidade Junina foi uma tacada de mestre. O povo ainda está em êxtase, gozou, usufruiu da rara oportunidade de ver de perto “ídolos” de projeção nacional e até internacional. Allyson Bezerra arrebentou no São João.

Também é correto que se diga que Bezerra não se limita às festanças e ao foguetório. Não. O imberbe gestor não vive apenas com a bunda na cadeira, trancado em seu gabinete. É preciso que sejamos justos com esse sobrevivente; um jovem de origem humilde que veio de um sítio ou comunidade de nome Chafariz e assumiu o topo da política da terra de Santa Luzia. Desbancou uma concorrente tarimbada, reverteu provocações e o desdém da histórica oligarquia dos Rosados.

Ouso estipular que Bezerra é o político com maior quilometragem neste chão. Está em toda parte, faz corpo a corpo com os seus eleitores, com o povo de um modo geral. Transformou Mossoró num canteiro de obras, conforme se alardeia e se divulga nas propagandas exibidas na televisão. A capital da cultura do faz de conta segue exportando matéria-prima para os estúdios de Hollywood.

O senhor Bezerra vai longe. Não possui predador, nenhum oponente do seu tope na corrida das próximas eleições municipais. A oposição está em polvorosa; bate cabeça. As pesquisas vão confirmando, ratificando o vínculo de amor e paixão do povo com o senhor Bezerra. Todos os adversários (há exceções) se uniram e se formou uma aliança de última hora para disputar a Prefeitura, no entanto os prognósticos dos possíveis votos que se obterá dessa aliança apontam números quase invisíveis a olho nu. Os caciques e estrategistas oligárquicos já jogaram a toalha.

Com o seu chapeuzinho de couro e um sorriso de populista nato, Bezerra põe seus opositores no bolso. Quando o povo quer, e o “menino” é queridíssimo pela grande massa, não tem remédio. Eis, repito, um prefeito inoxidável. Será reeleito com esmagadora vantagem. Só não enxerga isso quem se recusa a enxergar. E nem precisará, ao contrário do candidato Donald Trump, de um tiro na orelha.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 14/07/2024 - 10:32h

Última areia

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa da Freepik

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Todos nós sabemos que um dia a mais é um dia a menos. Muitos, porém, contam com mais prestígio e tolerância da parte do tempo. Isto, obviamente, para os indivíduos que são bem-aventurados, aqueles que usufruem do privilégio de uma existência longeva e, em inúmeros casos, com boa qualidade de vida. De um modo ou de outro, todavia, estamos morrendo desde a nossa mais tenra idade.

Não proponho agora que devamos mergulhar na tristeza, no baixo astral. De jeito algum. Apenas estou conversando com os meus botões. Penso na última areia que ainda me resta na ampulheta da vida. Ah, mas quem morre de véspera é peru! Alguém pode recorrer a esse adágio. Devo admitir que está certo. É preciso tocar o barco, não encalhar nas pedras do pessimismo e desânimo.

Temos que continuar perseguindo os nossos sonhos, fazendo os nossos planos e pelejando para concretizar nossos projetos. Não adianta cruzar os braços porque a qualquer dia ou hora vamos vestir um paletó de madeira. É isso. A Moça da Foice não negocia, não parcela nada.

O que penso, sendo franco, é que não há ninguém com mais ou menos predileção sob os olhos ou supostas ações do que se convencionou chamar de Divina Providência. Ledo engano. É cada um por si. Deus não se mete nas desgraças ou bonanças dos seus “filhos”. Principalmente depois do que fizemos com o Nazareno. Dizem que Cristo veio ao mundo para tirar ou salvar o Homem do pecado, no entanto não salvou nem tirou o pecado da Terra. A situação parece ainda pior.

Não pensem que sou um depressivo em crise, uma criatura blasfematória, um sujeito de pouca fé. Não é bem assim. Nem oito nem oitenta, como também se diz. Tenho a minha parcela (naturalmente pequena) de credulidade. Não descreio, não duvido da existência de um ser supremo. Com que autoridade? Nenhuma! Não aceito que sejamos mero fruto do acaso. Mas, diante de tantos e tantos, de infinitos, incontáveis horrores que acontecem sob as barbas do Criador, presumo que o Todo-Poderoso não tenha interesse em meter o bedelho nas desgraças que, em sua maioria, nós próprios originamos. Recuso-me, pois, a achar que saímos do útero do acaso.

Criancinhas sem pecado algum são assassinadas em todos os lugares do planeta. Cadê os anjos da guarda? Um ônibus desce uma ribanceira, noventa por cento dos passageiros morrem, e alguém assegura que foi Deus que livrou, que salvou os dez por cento. No meio dos mortos, não raro, crianças de colo, mulheres gestantes, pessoas bondosas. Entre os que escaparam, é justo que se diga, às vezes está um matador de aluguel, um traficante, um terrorista, uma escória qualquer.

Não engulo esse fatalismo e seletividade perversos. Imagino que Jeová não tem nada a ver com isso. As tragédias seguem acontecendo em escala planetária e inocentes pagam o pato por causa da, por exemplo, estupidez e genocídios de superpotências bélicas. Cadê o nosso Senhor e o seu exército de santos? É mais que evidente que estão no Éden, no Paraíso, no sossegado patamar celestial.

A propósito, desde que o mundo é mundo, o Inferno e o Céu recebem inquilinos às pampas. Então penso na vastidão desses dois endereços: um supostamente nas alturas e o outro nas profundezas, no fogo eterno. Se não estou enganado, convenhamos, é isso que o best-seller das Sagradas Escrituras afirma.

Estamos morrendo, repito. Acontece, felizmente, que não temos a menor ideia de quando o último sopro de vida nos deixará. Até lá, enquanto o seu lobo não vem, sejamos mais fraternos. Aproveitemos a vida que temos com leveza, sem o pesadelo da finitude. Viver nem sempre é estar vivo. Pensem nos lugares onde bombas caem sobre as casas do povo, dos civis em meio às guerras que “demônios” (políticos e militares) promovem confortavelmente, a salvo das ogivas e da fuzilaria.

Quanto a Deus, que tantos nomes possui, não façamos julgamentos exclusivistas. Acho mesmo que Ele não protege uma minoria de “abençoados” e deixa bilhões de “filhos” entregues ao calvário neste mundo sem jeito.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/07/2024 - 06:34h

Coisa de cinema

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Mossoró é o meu universo Marvel, a minha Macondo assolada (há exceções!) por políticos parasitas. É, mal comparando, a minha Hollywood cabocla. Nosso bangue-bangue, a propósito, é o mais duro e sangrento do velho oeste potiguar. Além disso, fato notório, a terra de Santa Luzia é a mais violenta do Brasil e figura no ranking das mais violentas do planeta na décima primeira colocação. Não é, de maneira alguma, um lugar para amadores. Aqui o ramo de casas funerárias e centros de velório, como eu já disse várias vezes, segue esbanjando saúde financeira.

Temos bandidos para todos os gostos, encapuzados quanto engravatados. Se me faço entender, os piores e mais astutos estão amoitados na Prefeitura e na Câmara; vivem cheios de mordomias, ocupam gabinetes refrigerados. Os mocinhos cuidaram de fugir. Sabem que os marginais eleitos pelo povo não perdoam.

Cidade valente é esta. De povo heroico, como se apregoa. Tal lenda teve origem no distante 13 de junho de 1927, quando arrepiaram carreira daqui o temido Virgulino Ferreira (o Lampião) e a sua corja de facínoras. Segundo historiadores, capturaram o cangaceiro Jararaca, que sofrera um balaço. Também disseram que Jararaca, inerme e às vascas da morte, foi agredido na cadeia e enterrado vivo no Cemitério São Sebastião. Anos depois, ironicamente, ele se tornou santo milagreiro.

Daí para cá nunca mais se falou nem se escreveu outra coisa nesta prosaica terra libertária. A fatuidade da resistência e a apoteose lampiônica, sob as quais ainda vivemos, e cujos holofotes pairam menos sobre os defensores que sobre os invasores, abafou, desprezou várias expressões de arte. Tornaram-se invisíveis aos olhos dos nossos governantes, salvo exceções, coisas como literatura, música, artesanato, pintura. Exceto se tais manifestações artísticas requentam o tema cangaço. Como ocorre, sem demérito algum, com o espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró”.

Com pouco mais de duzentas e sessenta mil almas (possuía cerca de vinte mil quando do ataque do perigoso Lampião), tenho com este meu berço esplêndido um vínculo de amor e desgosto. Isso, no entanto, não me diminui nem me empobrece. Acho até que me fortaleço com as experiências por que passei, desagradáveis quanto boas. Aqui nasceu e frutificou o meu sacerdócio com a literatura.

Devo a esta capital do oeste potiguar toda a minha produção, seja no verso, seja na prosa. Devo-lhe os poucos livros publicados, os que tenho na gaveta e outros que ainda hei de produzir, caso sobreviva a uma bala “perdida’. Devo-lhe as personagens e enredos, as ambições, as inspirações e as pequenas glórias.

É prudente, enfim, que se escreva sobre aquilo que se conhece. Exceto no caso de vasta pesquisa. Enquanto ficcionista, o que me julgo ser, não posso produzir apenas fantasias, textos puramente imaginários. Triste do ficcionista que só consegue escrever ficção, capacidade esta que me parece cada vez menos acreditável. O talento imaginoso não pode prescindir da sua cota de veracidade.

Temos que ser vistos além da pirotecnia, dos foguetórios, da pantomima. Mossoró é coisa de cinema! Ficará muito bem na fita ao ser retratada pela sétima arte. O que não falta neste cafundó do judas é diversidade humana, tipos singulares e profusão de causos. O mundo precisa conhecer este município.

Aqui, além do que acho apropriado chamar de novo cangaço, da violência que assalta à mão armada e não raro descamba para um latrocínio, existem (volto a dizer) os bandidos engravatados. Contra esses pouco ou quase nada se pode fazer. Pois a blindagem, os compadrios e os conchavos vão livrando a cara dos excrementíssimos, como naquela expressão do influenciador digital Felipe Neto contra o senhor Arthur Lira (PP-AL), atual presidente da Câmara dos Deputados.

É isso. A história pretérita e contemporânea deste meu querido fim de mundo merece ser retratada pela sétima arte. Lugar de muita gente boa e de outras figuras dignas de destaque. Afinal de contas Mossoró é um país.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 23/06/2024 - 07:22h

Animal exótico

Por Marcos Ferreira

O autor em fotografia de José Arimatéia

O autor em fotografia de José Arimatéia

Seria bom que eu estivesse de barba feita e usando uma loção mais forte ou marcante. Contudo a foto saiu desse jeito. Foi, digamos, um raro ensejo de bem-estar em meio aos ruídos e vaivém de tanta gente desconhecida.

Aqui estou inserido na “vida em rebanho”, como diria meu amigo multifacetado (pensador, filósofo contemporâneo) Antonio Alvino da Silva Filho. A foto foi batida por outro amigo, o designer e artista gráfico José Arimatéia. Pois bem. Eis a fuça deste escriba num momento de relax com seus “semelhantes”. Essa sem-cerimônia ocorreu na área externa do Partage Shopping, onde nossa marca Verboletras expõe uma variedade dos seus produtos por ocasião do evento denominado Feira Bangalô, que acontece às segundas e terças e só dura até o próximo dia 25 de junho.

Talvez alguém diga que tal assunto é irrelevante para este espaço dominical, passarela onde desfilam cronistas e articulistas do melhor naipe. Julgarão ainda menos apropriada a imagem que escolhi para ilustrar meu texto. Ou seja, uma espécie de autopromoção; de exibicionismo, dirá um leitor mais duro.

Bom, meus caríssimos, a propaganda está feita. Tanto dos produtos Verboletras quanto do autor destas linhas. Todavia a questão não é bem essa. O que me impele a assim proceder é o estado de espírito em que me encontro ao longo desses dias. Acho isso digno de nota. Ou melhor, de uma crônica. Porque não é do meu feitio e pendor expor-me de tal modo, sair da toca, permitir-me uma interação com caracteres sociais que nunca vi mais gordos. Sim, este animal exótico mostrou a cara.

Conselhos não me faltaram. De outra feita Elias Epaminondas, por exemplo, andou por aqui, tomamos um cafezinho e ele tocou nesse ponto durante o bate-papo. Referiu-se à importância de (vez por outra) eu buscar justamente conhecer alguns lugares de Mossoró. Citou, a propósito, as cafeterias da urbe.

“Há pelo menos umas duas ou três de que você vai gostar”, afiançou Epaminondas. É isso aí. Elias considera salutar que eu lute contra a minha natureza arredia, algo que de tempos em tempos adquire maior intensidade. Meu psiquiatra e amigo Dr. Dirceu Lopes joga no time de Elias. Dr. Dirceu não se ancora apenas nos psicofármacos. Recomenda-me, entre outras coisas, que eu ingresse em uma academia de musculação. Considero esse ponto uma prova de fogo. Pois sei que sofreria horrores com as doses cavalares de dejetos sonoros que rolam nesses lugares.

A verdade é que se trata de algo que venho empurrando com a barriga. Mas estou inclinado a enfrentar o desafio. Protetores auriculares ou fones de ouvido (com músicas do meu agrado) podem mitigar o desconforto.

Portanto, com o estímulo de amigos e tornando minhas fraquezas em forças, este animal exótico tem figurado como um tipo caricato de mascote da Verboletras na Feira Bangalô, no Partage Shopping, neste mês de junho. Então, como não bastasse, ainda se deixou fotografar pelo amigo José Arimatéia. Além disso, quiçá para o desagrado de alguns leitores, transferi esta fotografia para cá.

Perdoai-me quem me perdoar possa.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/06/2024 - 07:44h

Linhas póstumas

Por Marcos Ferreira

Paulino Duarte Morais, o "Paulo Doido", faleceu no último dia 22 (Foto: redes sociais)

Paulino Duarte Morais, o “Paulo Doido”, faleceu no último dia 08 (Foto: redes sociais)

Tenho para mim que o nosso poeta Aluísio Barros já disse tudo de prosaico e honroso. Refiro-me a uma merecida e bonita homenagem ao senhor Paulino Duarte Morais, que Mossoró conhecia (continuará a conhecer) pela notória alcunha de Paulo Doido. É isso mesmo. Acredito que Aluísio escreveu uma bela página em memória de Paulo. O texto foi publicado, se não me engano, no Facebook.

Paulo, cuja natureza de loucura sempre me pareceu um misto de urbanidade, inocência e pacatez, deixa um vazio irremediável. Pois, em relação a um louco deveras autêntico e benquisto, estamos gravemente desfalcados.

Duvido que exista ou tenha existido outro como ele. Claro que não conheço a história de Mossoró como, por exemplo, Marcos Pinto, Rocha Neto, Bruno Ernesto ou Odemirton Filho. No meu ponto de vista, portanto, nunca tivemos um doido oficial do calibre e estima do já saudoso Paulino Duarte Morais.

Ao contrário de mim, ressalto, Paulo era um doido legítimo. De tão liberto, de tão expansivo em suas doidices inofensivas, nem sei dizer se tomava remédios, se frequentava algum alienista deste mundo louco em que vivemos. Talvez o Dr. Roncalli Guimaraes, profissional do ramo, saiba alguma coisa a esse respeito. Mas acho que não. Paulo não tinha jeito de quem fazia uso de psicotrópicos.

Era livre, estável e feliz com sua loucura andarilha. O Centro de Mossoró, sobretudo, apesar dos esforços do prefeito Alysson Bezerra, que tem caprichado na ornamentação junina, agora está um negócio meio morto.

Por acaso, mexendo ontem em textos mais antigos, descobri que em 2021, precisamente no dia 4 de julho, foi publicada aqui no Blog Carlos Santos uma crônica minha intitulada “O portão”. Nesse ensejo, de relance, faço uma breve referência a Paulo Doido. Foi a primeira e única vez, salvo engano, que escrevi algo sobre o personagem em destaque. Agora, com atraso, vêm estas linhas póstumas.

E agora? O que será de Mossoró e de sua fria sanidade sem a loucura mansa e risonha de Paulo Doido? Não quero nem imaginar.

Marcos Ferreira é escritor

Leia também: Após vários dias intubado “Paulo Doido” morre no Tarcísio Maia.

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Categoria(s): Crônica
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