domingo - 28/08/2022 - 10:28h

Os 40 anos do semiárido como exportador de melão

Por Josivan Barbosa

No próximo dia 01 de setembro o Comitê Executivo de Fruticultura do Rio Grande do Norte (COEX), que reúne as principais empresas produtoras e exportadoras de frutos tropicais do Polo de Agricultura Irrigada RN – CE, realizará a II Largada da Safra do Melão (veja AQUI). Este evento, juntamente com a Expofruit, representa uma forma de aproximação do produtor com a sociedade e com as demais empresas agregadas ao negócio rural da região.

Antigo complexo industrial da Maisa no semiárido do RN (Foto: reprodução)

Antigo complexo industrial da Maisa no semiárido do RN (Foto: reprodução)

A edição da Largada da Safra do Melão acontece às vésperas de comemorarmos 40 anos de exportação de melão para os países ricos.

A importância da MAISA 

A Mossoró Agroindustrial S/A (MAISA) foi um projeto pioneiro a em todo o país. O projeto chegou a empregar 6 mil funcionários diretos e faturar 60 milhões de dólares num ano.

Com um corpo técnico de engenheiros civis, agrônomos, mecânicos e químicos, além de economistas, administradores etc, chegou a empregar 16 engenheiros agrônomos em seu auge.

A empresa perfurou poços no Calcário Jandaíra com uma vazão média de 19 mil litros de água por hora, viabilizando o cultivo irrigado na região. Houve, também, a perfuração dos chamados poços profundos, que usavam da melhor tecnologia. Cada um deles custava em torno de 1 milhão de dólares. Esses poços, mais modernos, tinham vazão de até 200 mil litros de água por hora.

Estrutura da fábrica de industrialização da castanha de caju (Foto: reprodução)

Estrutura da fábrica de industrialização da castanha de caju (Foto: reprodução)

Em meados da década de 1990, eram bombeados 2 milhões de litros de água/hora no Projeto Maisa.

O total da área irrigada era de 1800 ha. Mas, no total a MAISA contava com cerca de 5 mil ha produtivos.

O financiamento e parcerias com o Banco do Brasil, BNDES, SUDENE e BNB tornou possível a criação desse polo agroindustrial.

As atividades agroindustriais da empresa iniciaram-se no ano de 1968. Foram seus criadores os empresários José Nilson de Sá e Geraldo Rola.

Em 1982, ocorreu a primeira exportação de melão para a Inglaterra.

A produtividade da empresa, em relação ao melão, era elevada quando comparada aos níveis atuais e no início dos anos 90 obteve com a  comercialização para o exterior, aproximadamente, US$  20 milhões/ano, representando 20%  de  toda  exportação  de  frutas  “in  natura”  do  país. Na época, esses números impressionavam, considerando as condições climáticas e da cultura na região de não se acreditar muito nos investimentos na agricultura do semiárido.

Infraestrutura da antiga MAISA

Além da grande extensão territorial da propriedade rural, com mais de 20.000 hectares com poços profundos, packinghouses e estradas vicinais internas (cerca de 300 km), a infraestrutura física do complexo MAISA era composta por fábrica de sucos, fábrica de processamento de castanhas de caju, fábrica de produção de tubos para irrigação, aeroporto privado, centro administrativo e laboratórios de pesquisa.

Nas margens da BR 304 foi construída uma vila residencial com 600 casas para as famílias dos empregados, com escola, centro comunitário, creche, posto de saúde, posto policial, áreas de lazer, pontos comerciais, rede de energia elétrica e sistemas de abastecimento de água e de saneamento.

A MAISA possuía uma serraria para produção das embalagens (paletes) para as frutas, produção de móveis e utensílios.

Além disso, tinha uma fábrica de tubos de polietileno para irrigação com capacidade produtiva de 5,5 milhões de metros de cano por ano, que eram reciclados no próprio local e uma oficina mecânica para manutenção e reparo de toda a frota da MAISA.

A cultura do caju da MAISA

O caju foi uma das primeiras estratégias escolhidas pela empresa por se adaptar bem às condições do Semiárido Nordestino depois de adulto. A área  inicial era de 12 mil ha e cerca de 650 mil plantas.

A época de colheita do caju era vista como uma festa devido a sua grande produtividade.

Com a grande estiagem no período 1979 – 2003 na região, o cajueiro, que ainda não havia atingido a fase adulta, foi praticamente dizimado pela falta d’água.

A agricultura irrigada da MAISA

Após os prejuízos decorrentes da seca com a cultura do caju, a empresa iniciou o plantio de melão, maracujá, melancia, manga, graviola, uva, acerola, sapoti, além de outras frutas com o uso das técnicas de irrigação. A área com o cultivo de melão atingiu 4000 ha por safra. O melão atendia o mercado interno e era exportado para a Europa e os EUA.

O maracujá ocupou uma área de 525 ha com produção média de 18 ton/ha/ano.

A área com manga era de 80 ha e a de acerola chegou a 180 ha.

Beneficiamento dos frutos da MAISA

O suco depois de concentrado, era armazenado em câmaras frias de onde era exportado para diversos países.

A produção de polpa era de 7200 toneladas/ano, no ano de 1995. A produção da época era majoritariamente exportada, o que representava 90%.

Era produzido a cada ano, na época, 385 toneladas de suco de maracujá, 160 toneladas de suco de caju, entre outros sucos.

A produção de castanha de caju foi planejada para atingir uma capacidade de 10 mil toneladas por ano.

Ruínas do Centro Administrativo da Maisa (Foto: reprodução)

Ruínas do Centro Administrativo da Maisa (Foto: reprodução)

A MAISA de hoje

Em 2003, para quitar suas dívidas, a propriedade da empresa foi dividida em três partes. Uma adquirida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e depois transformada em 11 assentamentos. A outra foi comprada por engenheiros agrônomos (ex-funcionários da antiga MAISA), dando lugar a Fazenda Fruta Vida, da Coopyfrutas. E a última foi adquirida por um grupo chamado Gtex, de fabricação de polpas e sucos.

Leia também (com vídeos): Maisa, história de exuberância no campo e um fim que deu frutos;

Leia também: A história de um ícone do campo.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Ufersa

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domingo - 19/06/2022 - 10:26h

Empresa Nolem, da ‘costela’ da Maisa à falência

Por Josivan Barbosa

No início dos anos 2000 surgia no Polo de Agricultura Irrigada RN – CE a empresa agrícola NOLEM (melon em inglês – escrito do final para o início). O nascedouro dessa empresa coincide com o fechamento das atividades da maior empresa de agricultura irrigada do Semiárido na época, a MAISA.

Carroção de melão amarelo produzido na Fazenda Nova Califórnia, sede da Nolem (Foto: arquivo)

Carroção de melão amarelo produzido na Fazenda Nova Califórnia, sede da Nolem (Foto: arquivo)

A NOLEM surgiu de dentro da MAISA e aproveitou o que a MAISA tinha de mais nobre que era o mercado da Europa para a exportação de melão e melancia. Logo a NOLEM se tornou a maior empresa do setor e passou a atuar na região com fazendas no Ceará (Limoeiro do Norte, Quixeré, Russas e Aracati) e no Rio Grande do Norte, região da Grande MAISA.

A empresa desenvolvia as suas atividades com uma sede na Fazenda Nova Califórnia (cerca de 2500 ha) localizada ao lado da BR 304 em frente à MAISA.

Em Aracati a empresa explorava as terras da Fazenda Flamengo (cerca de 700 ha), localizada ao lado da BR 304, nas proximidades da divisa CE – RN (Comunidade de Cacimba Funda).

Em Quixeré – CE a empresa possuía uma excelente área para o cultivo de frutos tropicais, Fazenda Terra Nova, localizada em cima da Chapada do Apodi ao lado da sede da Del Mont Fresh Produce.

A empresa ainda explorava áreas no Distrito Irrigado Jaguaribe – Apodi (DIJA) e no Distrito Irrigado Tabuleiro de Russas (DISTAR).

A Nolem ainda chegou a explorar áreas em Upanema e em Grossos. A área em Grossos fica ao lado da RN Gangorra – Grossos, próximo à comunidade do Córrego. Era usada para plantio de melão em época de chuva em função dos solos arenosos.

A empresa ainda tinha negócios voltados para venda de insumos para a agricultura irrigada explorando uma empresa denominada Semear.

Proprietários da Nolem

A Nolem Comercial Importadora e Exportadora S/A foi fundada em 1997, mas só começou a plantar melão no início dos anos 2000. Era uma empresa de capital fechado por ações tendo uma grande multinacional como sócia e vários ex-diretores da antiga MAISA, inclusive, ex-proprietários da MAISA.

O processo de falência da empresa

O processo de pedido de recuperação judicial da Nolem Comercial Importadora e Exportadora S/A foi feito em agosto de 2009 e a negativa ocorreu em novembro de 2012 pela Justiça do Estado do Ceará, pois a sede estatutária da empresa era em Fortaleza, estabelecendo-se a Empresa Falida (Massa Falida Nolem).

A determinação pela Justiça do Estado do Ceará do leilão dos bens imóveis da Massa Falida da Nolem Comercial Importadora e Exportadora S/A ocorreu em agosto de 2021.

O Edital do leilão dos bens imóveis da empresa falida foi publicado em agosto de 2021, contendo os seguintes ativos:

– Dois imóveis rurais no município de Baraúna – RN;

– Complexo Nova Califórnia (Fazenda e equipamentos);

– Complexo Terra Nova (Fazenda e equipamentos);

– Fazenda Nova Semear

No total os bens acima foram avaliados em cerca de R$ 33 milhões, sendo que o leilão foi feito com o estabelecimento de venda pelo valor mínimo de 50%.

Durante o processo de alienação a primeira empresa a oferecer uma proposta de compra foi a Agrícola Famosa que já arrendava o complexo da Fazenda Nova Califórnia desde a desativação do uso pela Nolem.

A proposta da Agrícola Famosa foi adquirir o complexo da Fazenda Nova Califórnia pelo valor de R$ 11.279.423,4 em 25 parcelas mensais. A proposta foi apresentada oficialmente em julho de 2021.

Em novembro do mesmo ano a Agrícola Famosa desistiu oficialmente de adquirir a referida fazenda e ao mesmo oficializou o término do contrato de arrendamento.

Venda definitiva

A proposta que culminou na venda definitiva do complexo da Fazenda Nova Califórnia foi apresentada em dezembro de 2021 pela Oeste Fruit Ltda, a mais nova empresa de produção de frutos tropicais do Polo de Agricultura Irrigada que pertence a empresários locais e que têm demonstrado muita competência na condução do negócio rural. Os valores foram praticamente os mesmos apresentados na proposta da Agrícola Famosa com a correção da inflação do período.

O pagamento será feito praticamente à vista, pois o valor foi divido em apenas 07 pagamentos, sendo que o inicial é de 50%.

Esses recursos serão utilizados para pagar os débitos da Massa Falida, inclusive os trabalhistas, cujo valor total atualizado somente até 2012 ultrapassava R$ 22 milhões.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Ufersa

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domingo - 12/06/2022 - 14:44h

Após quase 30 anos, terras da Agrícola Ariza ainda “rendem”

Ruínas da antiga Agrícola Ariza. A imagem do canto inferior direito é a Lagoa da Ariza que mesmo após o período de chuvas de 2022, bem acima da média, encontra-se seca. A última vez que encheu foi em 2011. As demais imagens são as ruínas das estruturas de apoio da fazenda (Fotos: Josivan Barbosa)

Ruínas da antiga Agrícola Ariza. A imagem do canto inferior direito é a Lagoa da Ariza que mesmo após o período de chuvas de 2022, bem acima da média, encontra-se seca. A última vez que encheu foi em 2011. As demais imagens são as ruínas das estruturas de apoio da fazenda (Fotos: Josivan Barbosa)

Por Josivan Barbosa

No início dos anos 90 a Agrícola Ariza era juntamente com a Mossoró Agroindustrial S/A (MAISA), Frunorte e Fazenda São João, uma das principais empresas produtoras e exportadoras de melão do Polo de Agricultura Irrigada RN – CE.

A Agrícola Ariza possuía sua área produtiva numa fazenda de 900 ha situada nas proximidades da comunidade rural de Gravier em Icapuí – CE, distante 8 km da RN -013 (Mossoró – Tibau).

O acesso principal a empresa era  pela RN 013 na comunidade Córrego de Salsa. A empresa produzia cerca de 300 ha de melão por safra e possuía 10 engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas no quadro de servidores. A empresa usava como fonte de água uma lagoa que ocupava uma área de cerca de 20 Ha.

A empresa possuía uma boa infraestrutura de apoio, contando com packinghouse (casa de embalagem), galpão de máquinas e equipamentos, sistema moderno de irrigação, residências para os técnicos e escritórios administrativos e era dotada de modernos equipamentos e máquinas agrícolas.

A Ariza era instalada com sistemas modernos de irrigação e usava as tecnologias mais avançadas da região para a produção de melão. Naquela época já estava introduzindo novas variedades de melão, como o Galia, Cantaloupe, Charentais entre outros.

A empresa está entre muitas outras que fecharam as portas na década de 90 em decorrência de falhas na gestão do negócio rural.

As informações colhidas junto aos técnicos que trabalharam na Ariza são de que o fechamento da empresa se deu em decorrência do aumento da concentração de sais na lagoa (única fonte de água) ocasionada pela falta de chuvas. O alto teor de sais na água inviabilizou a produção de melão.

A empresa entrou em processo de litígio com o setor bancário e foi ocupada, na época, por 26 famílias. A maioria sendo de chefes de família, ex-funcionários da Ariza.

Agora

Após quase 30 anos de desativação da fazenda de 900 ha, duas áreas de ocupação denominadas de Ariza I e Ariza II (Vila Sossego) foram formadas.

Título de domínio, documento do Governo do Ceará (Reprodução: Josivan Barbosa)

Título de domínio, documento do Governo do Ceará (Reprodução: Josivan Barbosa)

Á área denominada de Ariza II foi ocupada mais recentemente (a partir de 2020) e as famílias estão construindo casas, mas ainda não residem no local. Não há qualquer documento oficial de regulamentação da ocupação.

Na Ariza I cada família recebeu um documento de domínio emitido pelo Instituto de Desenvolvimento Agrário do Ceará (IDACE ) com cerca de 25 ha para cada família que comprovou a ocupação (Veja documento anexo).

O documento oficial do Governo do Estado do Ceará denominado de Título de Domínio só passa a ter efeitos legais se registrado em cartório.

As informações colhidas no local de ocupação com o senhor possuidor do título de domínio (anexo) Manoel Menino do Santos é de que o proprietário da empresa entrou com um bloqueio no cartório local (Icapuí) impedindo o registro do Título de Domínio.

O CTARN (Centro Tecnológico do Negócio Rural – RN) da UFERSA vai atender as demandas dos pequenos produtores no sentido de viabilizar o uso das áreas que no momento encontra-se paradas.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Ufersa

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domingo - 10/10/2021 - 12:12h

A força econômica da Expofruit e suas principais dificuldades

Por Josivan Barbosa

O Comitê Executivo de Fruticultura do Rio Grande do Norte (COEX), Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE/RN), e a Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) intensificam os preparativos para realizar no próximo mês mais uma edição da Feira Internacional da Fruticultura Tropical Irrigada (EXPOFRUIT) 2021 (veja AQUI).

A ideia da feira de frutas (denominada de Fenafruit) no Polo de Agricultura Irrigada RN – CE nasceu com o professor Luiz Soares da Silva em 1993, quando estava à frente da Associação dos Produtores de Frutas do Nordeste (PROFRUTAS) que, na ocasião, representava praticamente a Mossoró Agro Industrial Sociedade Anônima (MAISA), Fazenda São João, Agro Now e Frunorte.Expofruit - Novembro de 2021

A primeira feira de frutas foi realizada nas dependências da antiga ESAM, com os estandes sendo colocados ao lado do antigo Rosadão (hoje Administrativo II). Contou com meia dúzia de expositores, mas foi o pontapé para que o evento fosse crescendo e se tornasse um importante vetor do desenvolvimento da agricultura irrigada do Semiárido.

A feira passou por alguns locais em Mossoró, inclusive sendo realizada uma edição na capital do Estado. Ela aconteceu na sede do SESI, onde acontecia a FICRO (Feira Industrial e Comercial da Região Oeste) e no Hotel Thermas, onde passou a ser denominada de Expofruit. A partir de 2003 tivemos a felicidade de propor ao então diretor da ESAM, professor Marcelo José Pedrosa uma ampla parceria com o COEX e SEBRAE para retornar a feira para dentro da ESAM.

Para isso, foi necessário criar o Centro de Exposição e Eventos Dix-Huit Rosado no campus Leste, por trás do estádio de futebol. O referido centro foi sendo ampliado nos primeiros anos e numa parceria com o Governo do Estado do RN e a Prefeitura Municipal de Mossoró, conseguimos instalar um local digno para a realização da feira de frutas e de outros eventos de negócios ou acadêmicos, o Expocenter.

A ideia do Expocenter teve amplo apoio da Associação Comercial e Industrial de Mossoró e foi construído com recursos oriundos do Governo do Estado e da Prefeitura de Mossoró. Coube a ESAM (hoje UFERSA) a cessão do terreno para a construção do Expocenter, com 50% dos recursos do Governo do RN e 25% dos recursos provenientes da PMM. A parte do terreno foi acordada como representando 25% na parceria estabelecida entre as quatros instituições. Com a construção do Expocenter estava consagrado o retorno da Expofruit para o campus da ESAM/UFERSA.

A partir da sua inauguração em 2006, o Expocenter passou a ser um equipamento que foi utilizado para outros eventos dessa natureza em Mossoró, como a FICRO e a Feira do Empreendedor organizada pelo Sebrae, entre outros eventos de cunho acadêmicos e técnico-científicos. Um equipamento que passou a servir ao município e a toda a região.

Expocenter na Estação das Artes

Diante da falta de interesse da direção da Ufersa no período de 2012 – 2020, a direção do Coex sentiu-se na obrigação de realizar a Expofruit fora do Expocenter (local construído para essa finalidade) e passou a montar os estandes de maneira improvisada na Estação das Artes. Foi a única saída para o Coex diante da falta de atenção por parte da universidade.

A realização da Expofruit é uma luta hercúlea da direção do Coex. Sempre no período pré-evento há uma verdadeira peregrinação dos diretores do COEX e do Sebrae junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Governo Estadual e Prefeitura Municipal de Mossoró para a liberação de recursos para a realização da feira. Além disso, nada garante que o contrato assinado com esses órgãos seja uma segurança de que os recursos serão liberados para o pagamento dos fornecedores em tempo hábil.

A realização de uma feira dessa natureza precisa de muita sintonia dos órgãos públicos e privados da nossa região, pois além de desenvolver a nossa agricultura irrigada, a Expofruit garante lotação hoteleira de Mossoró durante toda a semana do evento.

A Expofruit, em função da limitação de recursos, deixou de ser anual e passou a ser realizada a cada dois anos, mas em função da pandemia não foi realizada no ano passado.

Expofruit no Expocenter

A realização da Expofruit dentro do Expocenter facilita muito para os organizadores do evento. O Expocenter tem amplo estacionamento, local adequado e planejado para a exposição de equipamentos e máquinas agrícolas e tem condições de instalação de áreas demonstrativas de culturas, o que seria um grande atrativo para a feira ser visitada pelas crianças e jovens do ensino fundamental e médio de toda região durante o dia.

Outro aspecto muito importante é a concentração num único espaço da exposição da feira propriamente dita (frutos, insumos, equipamentos e máquinas, acessórios, complementos, serviços, etc) e da parte técnico-científica (seminários, mesas-redondas, workshop, entre outros).

A realização da feira dentro da Ufersa tem como grande beneficiado o estudante da área de Ciências Agrárias e afins que não precisam se deslocar para o centro da cidade. Lá mesmo no campus da universidade os discentes teriam a oportunidade de fazer contato com os diferentes atores do setor que mais tarde irão gerar os postos de trabalho que os discentes irão ocupar.

Dentre os discentes da Ufersa, os residentes na Vila Acadêmica Dix-Huit Rosado são os que mais aproveitariam o espaço da feira, pois não precisavam se deslocar muito para visitação. A distância do Expocenter para a Vila Acadêmica não chega a 1000 m. Esperamos que a Expofruit 2024 passe a ser realizada novamente dentro da instituição e que tenha convergência para que se consolide como um evento ímpar no Semiárido. É o nosso desejo.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Ufersa

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domingo - 21/03/2021 - 09:50h

No caminho da agricultura irrigada em nosso semiárido

Por Josivan Barbosa

Nas nossas visitas à diversas regiões do nosso Semiárido, é comum a pergunta: quais as razões do sucesso da agricultura irrigada nas microrregiões do Médio Jaguaribe (CE), Médio Oeste (RN), Vale do Assu e outras circunvizinhas? Embora não se desconheça, a história na íntegra, mas, no início dos anos 80, havia apenas uma agroindústria de sucesso na fruticultura, a Mossoró Agroindustrial S/A (MAISA) – veja AQUI, que cultivava caju gigante.

Desenvolvimento tecnológico ao longo das últimas décadas levou agricultura a avanços (Foto ilustrativa)

Desenvolvimento tecnológico ao longo das últimas décadas levou agricultura a avanços (Foto ilustrativa)

Na microrregião do Vale do Rio Açu (RN), as experiências com a fruticultura estavam apenas iniciando, pois a região apresentava sérias limitações com água, o que melhorou a partir da inauguração da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves no ano de 1982.

Nas microrregiões do Médio Jaguaribe (CE) e Médio Oeste (RN), não havia experiências de êxito ligadas à atividade de produção de frutas irrigadas.

Sem querer atribuir o sucesso unicamente aos esforços da então Escola Superior de Agricultura de Mossoró, hoje, Universidade Federal Rural do Semiárido, é preciso reconhecer que, obrigatoriamente, esta instituição teve importância ímpar no processo.

Em 1979 a então direção da ESAM conseguiu aprovar, juntamente com mais cinco universidades do Nordeste que tinham competência instalada na área de Ciências Agrárias (UFC, UFPI, UFRPE e UFPB), um importante projeto de desenvolvimento tecnológico dentro do PDCT (Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Nordeste). A ESAM foi contemplada com recursos da ordem de 45 milhões de dólares por um período de cerca de seis anos.

Os recursos eram provenientes do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e do Governo Brasileiro, através do CNPq na proporção de contrapartida de 1:1. Foi o maior projeto da história dessa instituição de ensino superior. Os principais benefícios do projeto para o desenvolvimento da nossa IFES foram:

  • Contratação de 110 profissionais de nível médio e superior (laboratoristas, engenheiros agrônomos, trabalhadores de campo, motoristas, técnicos de informática e técnicos agrícolas)
  • Construção dos Laboratórios de Água e Solos e Hidráulica
  • Construção da Biblioteca Central Orlando Teixeira
  • Aquisição de inúmeros equipamentos científicos de apoio à pesquisa
  • Ampliação do Laboratório de Sementes
  • Ampliação dos Laboratórios de Alimentos
  • Instalação de módulos demonstrativos de irrigação nos municípios de Touros, João Câmara, Mossoró, Baraúna, Gov. Dix-Sept Rosado, Pau dos Ferros, São Miguel, Zé da Penha e Rafael Fernandes. Os módulos eram instalados em áreas particulares, após rígido trabalho de seleção dos beneficiados feito pelos pesquisadores.

Projetos de desenvolvimento tecnológico

A instituição instalou experimentos de pesquisa em várias microrregiões do Estado. Cada módulo demonstrativo era composto de uma área irrigada (2 a 4 hectares de fruteiras – banana, mamão, goiaba, graviola e maracujá), apicultura de sequeiro (capim buffel) e caprinos (10 matrizes e um reprodutor). Após três anos de instalação dos módulos, eram feitas avaliações. A área de sequeiro mostrou-se ineficiente. A única área de sequeiro que mostrou bom rendimento para o produtor foi o plantio de abacaxi no município de Touros (RN).

Abacaxi teve avanço (Foto: Portal do Agronegócio)

Abacaxi teve avanço (Foto: Portal do Agronegócio)

O abacaxi foi testado na área do Sr. José Joventino. Naquele município, já havia uma experiência de um produtor oriundo do município de Sapé (PB). Na época, a região plantava apenas 180 hectares de abacaxi. Após os trabalhos de pesquisa desenvolvidos pelos técnicos da antiga ESAM houve um considerável aumento da área cultivada com abacaxi, atingindo o pico de cerca de três mil hectares no início dos anos 90, incluindo os municípios de Ielmo Marinho, Pureza e Touros.

Nas áreas de sequeiro com capim buffel e algaroba não houve registro de nenhum caso de sucesso. A apicultura foi regular e o destaque ficou por conta das áreas irrigadas, nas quais o produtor conseguia excelentes rendimentos. Um bom exemplo de sucesso foi o plantio de bananeira em consórcio com tomate. Uma das culturas que, também, mostrou excelente rendimento foi o mamão formosa. A cultura que se mostrou mais rentável para o produtor foi a banana, seguida de goiaba, graviola, mamão e maracujá. O sistema de irrigação utilizado era o xique-xique (mangueira de polietileno com furos e vazão de 45 – 50 litros/hora).

O sucesso das pesquisas

O sucesso obtido nos experimentos da ESAM (hoje UFERSA) com a cultura do mamão, é, em parte, responsável pelo incremento no cultivo desta fruta nos últimos anos no Estado do RN e no Estado do Ceará. Antes de 2012, nas microrregiões de Mossoró (RN) e, mais especificamente, no município de Baraúna e Baixo Jaguaribe (CE), incluindo os municípios de Quixeré e Limoeiro do Norte, o cultivo do mamão formosa passou a ser a principal cultura complementar do binômio melão-melancia.

Hoje, a fruta é exportada e muito bem aceita nos  mercado local, regional, Sudeste e internacional (Europa). Um dos principais produtores dessa fruta em Baraúna (RN), era o engenheiro agrônomo Wilson Galdino de Andrade, formado pela antiga ESAM, e não por coincidência, foi o técnico executor das pesquisas nos módulos instalados no projeto piloto em 1979.

Na região Agreste (RN), no município de Ceará Mirim, no início dos anos 2000 se instalaram três conceituadas empresas produtoras de mamão papaia (Caliman, Gaia e Batia) cuja produção de mamão era predominantemente exportada pelo Porto de Natal para a Europa e Estados Unidos. A agroindústria Caliman chegou a se instalar, também, na região de Baraúna, com infraestrutura para exportar mamão formosa para a Europa. O mamão formosa produzido na região de Baraúna possui qualidade superior (formato do fruto, cor e teor de açúcar).

O sucesso da banana

No caso da banana, o Polo de Agricultura Irrigada RN – CE (principalmente, Quixeré, Russas, Jaguaruana, Tabuleiro do Norte, Limoeiro do Norte, Aracati e Icapuí e  Baraúna, Apodi, Felipe Guerra, Upanema, Assu, Ipanguaçu e Alto do Rodrigues ) possuía antes de 2012 uma área instalada acima de cinco mil hectares. Na microrregião do Vale do Açu (RN) predominava o cultivo de banana para o mercado externo (Mercosul e Europa).

Bananas no semiárido (Foto: Grupo Cultivar)

Bananas no semiárido (Foto: Grupo Cultivar)

Já no projeto de irrigação DIBA (Distrito Irrigado Baixo Açu)  e na microrregião do Médio Oeste (RN), na Chapada do Apodi, o cultivo da banana era direcionado ao  mercado interno. Antes de 2012, somente uma agroindústria instalada naquela microrregião, produzia individualmente, 1.200 hectares e mais 600 hectares, terceirizados, de pequenos produtores agregados.

Atualmente o cultivo de banana para exportação foi reduzido na microrregião do Vale do Açu (RN), embora tenha sido ampliado na microrregião do Baixo Jaguaribe (CE), mais especificamente em Limoeiro do Norte, onde há duas empresas instaladas com cerca de 800 hectares. Nessa região as empresas utilizam água do canal de irrigação do DIJA (Distrito Irrigado Jaguaribe-Apodi). Recentemente, não temos avançado com a cultura da banana em função da limitação de água na barragem do Castanhão nos últimos 10 anos.

Outras fruteiras

As outras fruteiras (goiaba e maracujá), como demonstrado nas pesquisas feitas pela antiga ESAM, começam a ganhar importância na região. A goiaba é uma fruteira muito cultivada em Petrolina (PE), mas os pomares instalados naquela região têm sido dizimados por nematóides.

O maracujazeiro amarelo foi plantado em grande escala, no final da década de 80 pela MAISA, mas devido à alta incidência de pragas, principalmente fusariose, a empresa foi obrigada a erradicar a cultura.

Atualmente, algumas empresas de agricultura irrigada situadas nas microrregiões Médio Jaguaribe (CE) e Médio Oeste (RN) estão iniciando projetos com o cultivo do maracujá.

A graviola ainda é pouco cultivada e há poucos plantios nessas microrregiões. O cultivo é direcionado para a produção de polpa para atender ao mercado regional.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA)

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