domingo - 09/06/2013 - 06:12h

Perguntas a um homem bom

Por Bertolt Brecht

Avança: ouvimos
dizer que és um homem bom.
Não te deixas comprar, mas o raio
que incendeia a casa, também não
pode ser comprado.

Manténs a tua palavra.
Mas que palavra disseste?
És honesto, dás a tua opinião.
Mas que opinião?
És corajoso.
Mas contra quem?
És sábio.
Mas para quem?
Não tens em conta os teus interesses pessoais.
Que interesses consideras, então?
És um bom amigo.
Mas serás também um bom amigo de gente boa?

Agora escuta: sabemos
que és nosso inimigo. Por isso
vamos encostar-te ao paredão. Mas tendo em conta os teus méritos
e boas qualidades
vamos encostar-te a um bom paredão e matar-te
com uma boa bala de uma boa espingarda e enterrar-te
com uma boa pá na boa terra.

Bertolt Brecht (1898-1956) – Dramaturgo e poeta alemão

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domingo - 02/06/2013 - 12:10h

Recomeçar

Por Miguel Torga

Recomeça….
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga (1907 – 1995) – Pseudnimo de Adolfo Correia da Rocha, médico, poeta, escritor e ensaísta português.

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domingo - 26/05/2013 - 07:30h

Identidade

Por Mia Couto

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto é biólogo, poeta e cronista moçambicano.

* Extraído do livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas.”

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domingo - 12/05/2013 - 07:37h

Talvez

Por Pablo Neruda

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás…Seremos…

Pablo Neruda (1904-1973) – Poeta chileno

 

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domingo - 05/05/2013 - 10:40h

Soneto Puro

Por Lêdo Ivo

Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
de verdes áreas de seu vão lamento.
.
Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.
.
Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.
.
Seja o amor como o tempo – não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.

Lêdo Ivo (1924-2012) – Poeta, jornalista, romancista

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domingo - 28/04/2013 - 07:30h

Eu apresento a página branca

Por Arnaldo Antunes

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água.

Arnaldo Antunes é músico e poeta

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domingo - 21/04/2013 - 08:54h

Bilhetinho sem maiores consequências

Por Torquato Neto

Uma retificação, meu bom Vinícius:
Você falou em “bares repletos de homens vazios”
e no entanto se esqueceu
de que há bares
lares
teatros, oficinas
aviões, chiqueiros
e sentinas,
cheinhos (ao contrário)
de homens cheios
Homens cheios.
(e você bem sabe)
entulhados da primeira à última geração
da imoralidade desta vida
das cotidianas encruzilhadas e decepções
da patente inconsequência disso tudo.

Você se esqueceu
Vinícius, meu bom,
dos bares que estão repletos de homens cheios
da maldade das coisas e dos fatos,
dos bares que estão cheios de homens cheios
da maldade insaciável
dos que fazem as coisas
e organizam os fatos.

E você
que os conhece tão de perto
Vinícius “Felicidade” de Moraes
não tinha o direito de esquecer
essa parcela imensa de homens tristes,
condenados, candidatos naturais
a títulos de tão alta racionalidade
a deboches de tão falsa humanidade.

Com uma admiração “deste tamanho”.

Torquato Neto (1944-1972) – Poeta, jornalista e compositor piauiense

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domingo - 14/04/2013 - 08:52h

Cantiga quase de roda

Por Thiago de Mello

Na roda do mundo
lá vai o menino.
O mundo é tão grande
e os homens tão sós.
De pena, o menino
começa a cantar.
(Cantigas afastam
as coisas escuras.)
Mãos dadas aos homens,
lá vai o menino,
na roda da vida
rodando e cantando.
A seu lado, há muitos
que cantam também:
cantigas de escárnio
e de maldizer.
Mas como ele sabe
que os homens, embora
se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem
de aurora e de infância
— então ele canta
cantigas de roda
e às vezes inventa
algumas — mas sempre
de amor ou
de amigo.

Cantigas que tornem
a vida mais doce
e mais brando o peso
das sombras que o tempo
derrama, derrama
na fronte dos homens.
Na roda do mundo
lá vai o menino,
rodando e cantando
seu canto de infância.

Pois sabe que os homens
embora se façam
de graves, de fortes,
no fundo carecem
de claras cantigas
— senão ficam ocos,
senão endoidecem.

E então ele segue
cantando de bosques,
de rosas e de anjos,
de anéis e cirandas,
de nuvens e pássaros,
de sanchas senhoras
cobertas de prata,
de barcas celestes
caídas no mar.

Na roda do mundo,
mãos dadas aos homens,
lá vai o menino
rodando e cantando
cantigas que façam
o mundo mais manso,
cantigas que façam
a vida mais doce,
cantigas que façam
os homens mais crianças

EPITÁFIO

O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração.

Thiago de Mello é poeta brasileiro

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domingo - 07/04/2013 - 07:38h

Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada

Por Manoel de Barros

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
– Imagens são palavras que nos faltaram.
– Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
– Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos – nenhum caminho
Muitos caminhos – nenhum caminho
Nenhum caminho – a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo…

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando –

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras…

Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra –
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural – Que os poetas aprenderiam –
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos – como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.

Manoel de Barros – Poeta nascido em Mato Grosso – (Cuiabá)

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Categoria(s): Poesia
domingo - 31/03/2013 - 12:43h

A vida

Por Florbela Espanca

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento…
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo <<Pedro Sem>>,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre… desfaz-se…
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida…

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!

Florbela Espanca (1894-1930) – Poetisa portuguesa

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domingo - 24/03/2013 - 12:39h

Meu Brasil de canto a canto tem suor de nordestino

Por Antônio Francisco (Música e interpretação  Genildo Costa)


Quando a seca vem devora
Do Nordeste toda flora
Nordestino vai embora
Para o Sul a todo instante
Trabalhar como gigante
E ganhar como menino
Molhando o solo sulino
Com sangue, suor e pranto.
Meu Brasil de canto a canto
Tem suor de nordestino.

Numa favela jogado
Lá no Rio de Janeiro
Sem emprego e sem dinheiro
Na sombra do Corcovado
Todo o tempo ajoelhado
Esse pobre peregrino
Pedindo a Jesus divino
Que lhe cubra com seu manto.
Meu Brasil de canto a canto
Tem suor de nordestino.

Foi soldado da seringa
Lá pelas bandas do Norte
Brincou lá com sua sorte
Longe de sua caatinga
Seu suor ainda pinga
Dos galhos do cipó fino
Num testemunho divino
Que o nordestino é um santo.
Meu Brasil de canto a canto
Tem suor de nordestino.

Por esse pau-de-arara
Brasília foi construída
Esse pedaço de vida
Tem ferida que não sara
Gastou o suor da cara
No governo Juscelino
Merecia estátua e hino
Quem trabalha do seu tanto.
Meu Brasil de canto a canto
Tem suor de nordestino.

Antônio Francisco é poeta e escritor mossoroense

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domingo - 03/03/2013 - 11:02h

Herança

Por Luiz Carlos Guimarães

Nos hectares da poesia
que me coube por herança,
colho safra de palavra,
armazeno provisão,
bebo de sede no poço,
como a fome no feijão.
Invento tudo que penso,
sou mago, palhaço e rei.
Tenho tudo que não tenho,
lua no fundo do copo
e o arco-íris na sopa.
De mãos dadas com Carlitos
alimento de pão e mel
os bichos todos do circo.
Pelo sem-fio da tarde
recebo urgente avegrama:
“De longe país ao Sul
vão no caminho do vento
dois passarinhos azuis.
Solicito alpiste e água
na concha de cada mão.”
A noite cobre meu sono
e da serragem do sonho
faço colchão, travesseiro.
Acordo. É ganho ou perda
ter mais um dia a viver?
Com flanela limpo os óculos
(janela dos olhos míopes)
mas não vejo mais poesia,
que sou cada vez mais turvo
diante da vida dura
e do mundo tão escuro.

Luiz Carlos Guimarães (1934-2001) poeta currais-novense

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domingo - 24/02/2013 - 10:01h

Ali

Por Paulo Leminski

ali

ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse

se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce

ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece.

Paulo Leminski (1944-1989) – Poeta, escritor, tradutor, compositor paranaense

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domingo - 17/02/2013 - 08:12h

A alma do Poeta

Por Marcus Lucena

Um eco invade a alma
E a poesia se fecha
O que significa
Que estou confuso

Não sei aonde ir
Na casa da maria, da diana ou da celinha
Quero um lugar
Onde eu possa cantar, compor
E uma mulher
Pra ser só minha

Acho que vou a uma balada
Respirar profundo
Quero viver melhor
Não me ausentar do mundo

Preciso dessa luz
Que me completa
Quando a inspiração chega
E o cêu invade a alma do poeta
(o amor invade a alma do poeta).

Marcus Lucena é cantor, compositor e poeta nascido em Mossoró

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domingo - 10/02/2013 - 13:19h

Você Mulher

Por Marcos Ferreira

Você que malha Você que dança Você tão grande Você criança
Você que mostra Pra quem quiser A tua força Você mulher
Você da rua Você do vício Você do baixo Do meretrício
Você cantora Você atriz Você a outra Você matriz
Você do rio Você da praia Você de short Você de saia
Você que aprende Você que ensina Você que invade Minha retina
Você morena Você galega Você que passa Você que chega
Você pretinha Você branquela Você tão feia Você tão bela
Você frescura Você calor Você desfrute Você pudor
Você no meio Da multidão Sem ter emprego Nem profissão
Você de casa Que lava roupa Você que rega Você que poupa
Você que gera Que reproduz Você que é vida Você que é luz
Você que é toda Minha fraqueza Você a jóia Da natureza
Você tranqüila Você dilema Você a dona Desse poema
Você que ama Você que chora Você que fala Que vai simbora
Você pedaço De mau caminho Você torrente Você um ninho
Você picante Você açúcar Você correta Você maluca
Você humana Você defeito Você um alvo Do preconceito
Você batalha Você a paz Você tão frágil Você capaz
Você tapera Você castelo Você um sonho Você anelo
Você viola Você canção Você meu tema De inspiração
Você um pranto Você um riso Você metade Do paraíso
Você a rosa Você olor Você o beijo Do beija-flor
Você meu anjo Meu querubim Você eu digo Você pra mim
Você dos outros Você qualquer Você é tudo Você Mulher.

Marcos Ferreira é poeta mossoroense

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Categoria(s): Poesia
domingo - 03/02/2013 - 08:33h

Língua

Por Cid Augusto

Minha língua é a foz da velha trama
Da saliva que brota no arrepio,
Quando a boca no peito se derrama
Inaugurando o leito deste rio.

Desce ao sopé florido da montanha,
Sobe noutra, mas antes que se instale,
Seduzida no ardor, já não se acanha,
Desembesta dançando pelo vale.

Vai correndo com lânguida destreza,
Levando em ziguezague a correnteza
De suor, d’água doce e de fissura.

Rodopia sem pressa, segue em frente,
Atravessa a floresta e, de repente,
Penetra o mar que geme de loucura.

Cid Augusto é cronista, poeta, escritor, jornalista e advogado

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domingo - 27/01/2013 - 08:22h

Despedida

Por Cecília Meireles

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
– Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)
Quero solidão.

Cecília Meireles (1901-1964) – Poetisa, pintora, jornalista e professora brasileira

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domingo - 20/01/2013 - 09:20h

A liberdade de ser verdadeiro

Por Jim Morrison

O gênero de liberdade mais importante
é seres verdadeiro
Trocas a tua realidade por um personagem
Trocas os teus sentidos por uma atuação

Desistes da capacidade
e em troca pões uma máscara
Não pode haver uma revolução
em grande escala
Se não houver uma revolução individual da pessoa

Primeiro tem que acontecer cá dentro.

James Douglas Morrison (Jim Morrison) – Nascido em 1943 e falecido aos 27 anos (1971), Morrison foi vocalista da célebre banda de rock “The Doors”. Era cantor, instrumentista e poeta. Fez incursões à produção cinematográfica e performance como ator.

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domingo - 13/01/2013 - 08:53h

A bela adormecida

Por Adélia Prado

Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão, aprender a nadar como se deve.

No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico, como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.

O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?

Minha alma nasceu desposada com um marido invisível.
Quando ele fala roreja quando ele vem eu sei, porque as hastes se inclinam.

Eu fico tão atenta que adormeço a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo: tenho 18 anos. Incompletos.

Adélia Prado é escritora mineira, nascida em Divinópolis

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Categoria(s): Grandes Autores e Pensadores
domingo - 06/01/2013 - 05:51h

O sofrer Severino

Por Leonam Cunha

Beiços frios de um quase-morto;
Olhos cansados de perscrutar;
As maças do rosto pálidas;
Ouvidos surdos do sofrer geral;
Mas não é dor maior nem de perto!

As pernas já não se sustentam
Ou não querem sustentar-se;
Se bem que o peso é pouco,
Mas a dor torna-o bigorna.
Todavia não é dor maior!

O meu corpo pequeno
Só leva sofrimento pequeno,
Pois se minha pouca carne
Carregasse peso de dor maior,
Leonam chamar-se-ia Severino.

Leonam Cunha 17 anos, é acadêmico de direito na Universidade Federal do RN (UFRN)

* Poesia extraída do seu primeiro livro, “Gênese”, lançado em dezembro do ano passado.

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domingo - 23/12/2012 - 06:23h

Ontem

Por Clauder Arcanjo

Até ontem, tão recente, acreditava que poderia me insurgir contra os teus olhos. De um azul tão blues, daquele azulado assim, sabe, piscina precipício.

Bem quase agora, foi ontem, eu me imaginava livre das algemas das tuas mãos. Mas, hoje, parece-me tão claro, concluo que sou escravo de ti para ser feliz em mim.
Até ontem. Porém…

***

Lampejo de vida, naco de riso, em meio à lama da tragédia diuturna. Halo de luz no caldo da extensa e temida escuridão. Gota de riso na pedra rascante da dor. Teu nome? Ressurreição.

***

Chega, não quero mais novidades. Estou cansado de tanta metamorfose vazia. Por favor, um gole de tradição!

***

Sua filosofia recebia forte influência de Baco, pois só a professava sob os eflúvios do vinho.

***

Façamos uma escada para o céu com os nossos destroços; lá nós poderemos, quem sabe, encontrar as estrelas.

Clauder Arcanjo é professor, engenheiro, escritor e editor de livros

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domingo - 16/12/2012 - 06:43h

Os últimos poetas

Por Caio César Muniz

Para onde foram os poetas?
Por quê não existem mais?
E a poesia louca, inquieta,
Em que túmulo ela jaz?

Estão mortos realmente?
Os eternos foram embora?
Então por isso a rosa sente,
Então por isso a Lua chora.

Não deixe, mundo maldito,
Que se cale esse grito
Desses loucos e suas metas.

E nós? Gritemos ao povo:
Estamos aqui de novo.
Nós, os últimos poetas.

Caio César Muniz é poeta cearense, mas há vários anos radicado em Mossoró

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