domingo - 28/07/2024 - 12:42h

Última crônica

Por Marcos Ferreira

Livro, ilustração da Freepik

Livro, ilustração da Freepik

Pode parecer que estou aborrecido, enfastiado com esse compromisso de escrever uma crônica dominical, porém não se trata de nada disso. Ainda menos estou de mal com quem me acompanha neste espaço. Acontece justamente o oposto. Sou grato e valorizo (de verdade) o pequeno grupo de pessoas que tiram uma parcela do seu precioso tempo para conferir o que trago de novo. Nenhuma reclamação nesse sentido. Como disse Ariano Suassuna, sou um escritor de poucos leitores.

A questão é comigo mesmo. Peço-lhes tão só uma pausa, algo de fato particular, que também pode ter a ver com a reduzida água que me resta no poço da criatividade, da inspiração, se assim quiserem definir. Então, ao menos por algumas semanas, estarei fora de combate. Esta será minha última crônica no correr de alguns domingos; por mais que alguns vejam como falta de comprometimento.

Esse autor fala muito a respeito dos seus achaques psicológicas! Ok. Quem dessa maneira me aponta não está de todo errado. Exponho, não nego, as subidas e descidas de minha gangorra emocional. O mais, a meu ver, é tabu. Ninguém se acanha, por exemplo, em relatar que tem um problema de coluna, uma hérnia de disco ou uma bursite. Quando a enfermidade é psicológica ou psiquiátrica, entretanto, aí se costuma esconder a moléstia. Não se deseja expor que temos problemas mentais. Até um câncer, seja ele de que tipo for, é compartilhado com os amigos e a sociedade.

Sinto um cansaço alojado aqui no meu juízo. Mas o leitor não merece meia-sola, texto sem o brilho, sem a voltagem própria e necessária da boa redação, de uma literatura verdadeira. Nada de fraude, de embuste palavroso. Há ocasiões em que não conseguimos enfeitar o pavão da escrita de maneira atrativa, com bom gosto e deleite para os leitores. Do contrário o cronista falha, o escritor fracassa.

Não é escassez de assunto. Não é. Isso é o que menos nos falta para esse artesanato com palavras. Mas uma nuvem sombria paira sobre minha cuca. Quem sabe seja por causa da morte trágica de Oncinha na segunda-feira, uma gata amorosa demais para a qual buscávamos um tutor ou tutora. Não deu tempo, foi atropelada na Ufersa. É dramático o número de animais abandonados naquela universidade. Posso imaginar o quanto essas minhas histórias de cães e gatos já devem ter enchido a paciência de alguns fidedignos leitores deste espaço de informação e cultura.

Todavia não quero falar acerca do triste fim de Oncinha. Estou aqui tentando levar adiante esta narrativa que explica a minha ausência provisória; de umas férias autoconcedidas à revelia de negociação com o meu paciente Editor. Penso honestamente que essa lacuna terá pouca importância. Existem neste blogue ótimos colaboradores, indivíduos traquejados no manejo da língua portuguesa.

Olho à volta e pressinto que daqui para o próximo domingo podem surgir várias outras coisas sobre as quais poderei escrever, contudo não pretendo fazer isso. Preciso de um tempo, puxar o freio de mão. Além disso, caso valha por justificativa, estou pelejando, fazendo mais uma revisão num romance que intento apresentar a uma conceituada editora de São Paulo, e o prazo está bem em cima.

Como eu disse, embora com a mente ocupada com o copidesque desse meu romance inédito, percebo que algo não anda direito no meu espírito nos últimos dias. Noto que há instantes de irritação e melancolia aparentemente sem motivo algum. Noites maldormidas e pesadelos têm sido constantes. Quase que faltei com estas linhas para o dia de hoje. Só me foi possível porque acordei de madrugada (pouco antes das três) e liguei o computador para redigir esta página sofrível.

O resto da semana foi de esterilidade criativa. Não me entendi com os meus botões. Meu psiquiatra, com o qual me consulto há seis anos, me falou (num tom brincalhão) que sou um elemento misantropo. E tal brincadeira tem o seu fundo de verdade. Sim. Digo que possuo algum nível de misantropia.

Acredito que é melhor encerrar por aqui. Chega-me a forte impressão de que já falei além do necessário. Admito que as ideias não me surgem bem articuladas. Tenho urgência, uma certa pressa em encerrar estas palavras que, do ponto de vista literário, parecem-me inferiores a diversas outras que apresentei a vocês. Por “última” crônica, pois, considero que esta está de bom tamanho.

Até breve, portanto. Assim eu espero.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/12/2021 - 06:42h

Deus está vendo

Por Marcos Ferreira

Talvez eu não passe do primeiro parágrafo, não estou em condições muito favoráveis, no entanto retorno a este computador para escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Foram vinte dias sem produzir uma linha e ainda me encontro sem bússola e sem ânimo. Nesse espaço de tempo, entre ajustes nos meus psicotrópicos e efeitos colaterais, senti que esta cidade está cada vez mais desumana, insensível. Reparem nesse monte de gente desvalida que hoje mendiga em toda parte.

Olho à minha volta e reflito sobre minha condição. Esta é uma casa velha, cheia de buracos e cupins, certamente a mais modesta e feia desta Euclides Deocleciano, entretanto aqui estou guardado, protegido, com alguns pequenos luxos como uma geladeira, um ventilador e uma cafeteira. Tenho sempre algo para comer e vou conseguindo pagar ao menos as minhas contas de água e luz.

Grande parte do meu auxílio-doença, mediante laudo do meu psiquiatra Dirceu Lopes, é empregada na aquisição de medicamentos. Porém, ao andar pelas ruas de Mossoró, eu me sinto um privilegiado, afortunado. Penso que poderia ser eu (sob este nosso sol implacável) a exibir cartazes nos semáforos, pedidos de socorro. Sim, as pessoas estão pedindo socorro. Suplicam por qualquer alimento ou moedinha. Vez por outra, medindo minhas possibilidades, tento ajudá-las.

Enquanto isso, dentro dos seus carrões refrigerados, a maioria dos motoristas não baixa o vidro, sequer olha de lado. Tal súplica se arrasta desde o começo do dia e segue noite adentro. Indivíduos de todas as idades, homens, mulheres e crianças tentam vender coisas ao público motorizado, especialmente garrafinhas de água mineral, dindins, picolés, bombons e até desinfetante caseiro.

Essas pessoas, nesta Mossoró desarborizada, ficam expostas a sol e chuva. Mas chuva é algo raro por aqui. Sobre seus produtos, quando conseguem vender, têm lucro de centavos. Como se consegue subsistir numa carestia como esta em que se acha este país ganhando centavos? Aos demais, os que não têm nada para tentar vender, só resta a mendicância. A esta hora, meio-dia e quinze, enquanto escrevo esta página, eles estão nos semáforos, sob o sol, ignorados e famintos.

Onde estão os vereadores, o ilustre senhor prefeito, a Igreja Católica, as igrejas evangélicas, os donos de redes de supermercados e vários outros empresários e poderosos que não se mobilizam em favor dos pobres? Ou só vão doar alguma comida quando chegar o Natal? Acham que os miseráveis não têm fome nos outros dias? Não vejo distribuição de cestas básicas em parte alguma.

Cadê os poetas de Mossoró, escritores, jornalistas, intelectuais? É preciso união da classe pensante, a fim de se pressionar o poder público e a sociedade como um todo. A prefeitura queima muita grana com fogos de artifício, enfeites natalinos e diversos adornos, enquanto os pedintes definham de estômagos vazios. Por sua vez, a Câmara Municipal aprova verba para todo tipo de coisa. Inclusive, fato notório, aumentaram os já polpudos salários dos próprios parlamentares.

O que os caros (e dispendiosos) vereadores pretendem fazer pelos desvalidos? Algum desses legisladores ou legisladoras, por gentileza, poderia me responder? Não foram todos eleitos, principalmente, com a promessa de assistir o povo carente da terra de Santa Luzia? Tomara. Estamos esperando. Ainda há tempo. Façam valer os votos que receberam. Mostrem serviço, caríssimos!fome_pobreza_ss_1

Os mandachuvas do Executivo e do Legislativo precisam deixar as suas confortáveis poltronas e os seus gabinetes geladinhos e olhar de perto, fora dos seus carros de luxo, a fome estampada nos rostos de quem esmola nos semáforos, praças e canteiros. Há mulheres com crianças pequeninas, sofridas, desnutridas, implorando a caridade dos que podem ajudar e não ajudam. Porque muitos dos potentados desta província, infelizmente, viram o rosto diante dos infelizes.

“Ah, senhor cronista, essa fome toda não é só neste município”, dirá alguém no espaço reservado à opinião do leitor. Eu sei disso. Todos nós sabemos, embora certas pessoas prefiram fingir que não estão vendo nada. O Brasil das camadas inferiores vem padecendo em demasia nestes últimos anos. São quase vinte milhões de brasileiros passando fome e quinze milhões de desempregados.

Mesmo nesta residência estragada do subúrbio, com todos os indícios de um morador sem recursos ou haveres, aqui e acolá um cristão aproxima a cara dos combogós do muro, bate palmas e grita: “Ô de casa!” Vou atender, sem abrir o portão, e deparo com alguém pedindo qualquer tipo de auxílio. Às vezes é uma idosa, um idoso, ou mãe com um ou mais filhos pequenos em sua companhia. Isso me dói no coração e na alma. Abro o armário, a geladeira, e lhes ofereço algo.

— Que Deus lhe abençoe — agradecem.

Aqui, portanto, entre estas paredes velhas, torno a refletir: sou um privilegiado, um homem de sorte, apesar de certas privações e da minha gangorra psicológica. Disponho de um velho computador, que vem caducando há vários anos, uma TV, telefone, internet, um fogão que quase não uso, uma motocicleta e os meus poucos e empoeirados livros numa estante. São o meu futuro espólio.

E aquelas pessoas desassistidas, possivelmente sem um teto, o dia todo à mercê da benevolência de terceiros, expostas a um sol forte, sem um banheiro que porventura precisem utilizar? Uma tarde, ao parar no semáforo defronte ao cemitério São Sebastião, eu vi quando um homem desses que exibem cartazes apanhou do chão o que me pareceu ser uma manga apodrecida, tirou a terra com as mãos e começou a comê-la. Outros mais reviram lixeiras de supermercados e restaurantes.

Não há boa vontade dos que efetivamente poderiam agir. A Petrobras, que tem um papel social no seu quadro de ações, não se mexe, não põe a cara fora. Temos duas grandes indústrias de cimento aqui bem próximo, além de ricos proprietários de postos de combustíveis, segmentos estes que faturam alto em nosso município, contudo se preocupam apenas em se tornarem ainda mais ricos.

Deus, aparentemente, também não tem feito nada em favor dos que estão aí pelas ruas em busca de uns centavos, sobretudo de alimento. Mas Deus não falha e está vendo, não se enganem, a sovinice, avareza e falta de compaixão dos ricaços, dos potentados, abastados e políticos desta cidade. Sei que no Brasil inteiro a situação não é diferente, repito, porém me atenho ao torrão onde nasci há meio século. É necessário, e com urgência, que outros escribas e vozes se levantem.

Como sermos felizes, estarmos com as nossas consciências leves, quando vemos tantas pessoas suplicando por uma refeição? Não podemos simplesmente dizer para nós mesmos que não temos nada a ver com isso, lavar as mãos, virar o rosto, ignorar. Então, senhoras e senhores, que o espírito natalino toque os nossos corações e nós possamos abrir a carteira e estender a mão aos necessitados.

Mas não só porque Deus está vendo tudo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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