domingo - 10/03/2024 - 11:12h

Oração para o menino riquinho

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Web

Ilustração da Web

Minhas leituras, assim como esta página que hoje escrevo para o Blog Carlos Santos, espaço este que representa uma espécie de para-raios para as minhas neuras, estão em atraso. Contudo, entre os poucos autores que li nas últimas quarenta e oito horas, quero citar uma crônica de Vanda Maria Jacinto, a qual deu o título “Visita especial”. É um toque de pluma, algo deveras leve e sensível. Saiu no Jornal de Fato, edição do dia 7 de março deste ano. Vale a pena conhecer essa ternurinha de Vanda, das mulheres que melhor escrevem neste nosso condado das letras.

Também fiquei devendo um palpite sobre o “Sagrado pão” do Bruno Ernesto. Literariamente saboroso, difícil de resistir. Depois, e não menos apetecível, vieram os causos do Odemirton Filho na sua trajetória enquanto oficial de justiça. Como disse correta e apropriadamente o leitor e comentarista Fransueldo Vieira de Araújo, Odemirton tem “um indiscutível talento para a escrita”.

A seguir topamos com “Os cães cariocas”, outra crônica relevante, oportuna e de boa fatura do François Silvestre, que parece ter adquirido novas tintas para deixar este blogue ainda mais colorido. François faz um contraponto, retrata a desigualdade social até entre os cachorros muito bem tratados da classe média carioca com moradores de rua. Quiçá pessoas assim, desvalidas, sem um teto, quisessem levar uma vida dessas, de um cão classe média.

Agora mudemos da água para o vinho. Melhor dizendo, do xarope para a tosse, do mel para a cicuta. Falemos um pouco (isso não é proibido nem é crime) da incrível máquina de fazer polpa de miolos desta província. Trocaremos o peso-mosca da crônica pela categoria peso-pesado da política. “Estava tão bem no caminho da neutralidade e da concórdia, todavia estragou o texto”, alguém pode dizer. Porém, nem que seja uma vez aqui, outra acolá, é bom a gente sair de cima do muro, não ficar só balançando a cabeça a tudo e a todos feito lagartixas bem-comportadas.

Ainda não tomei meus remédios matinais, sobretudo o que me segura nos trilhos do bom humor. Isto não significa que pretendo atirar coquetel molotov contra ninguém nem promover quebra-quebra de reputações. Nada disso. Apenas dei um cavalo de pau na página, mudei o rumo da prosa com uma guinada no tema, se assim posso exemplificar a metamorfose em curso. Perdi a noção do tempo esses dias e apenas agora, em plena manhã de domingo, arrumei ânimo e não vou faltar ao meu compromisso com os leitores. Então, embora digressivo, eis o meu relato.

Dormi mal e acordei azougado, mais amargo que o café puro que vou sorvendo. Os dias têm passando muito depressa; e quando me dou conta é sexta-feira à noite. O sábado também corre velocíssimo, igual a um político reeleito fugindo do Ministério Público, dos seus eleitores e dos compromissos de campanha. Essa fuga me lembra, a propósito, aquela promessa (o ludíbrio, a mentira eleitoreira!) de que o nosso agonizante rio Mossoró seria socorrido. Sequer lhe ofereceram uma extrema-unção, um golpe de misericórdia. Coisa nenhuma! O atual governo, a exemplo dos oligárquicos e ex-donos desta cidade, também aplicou um golpe na praça.

O bom-moço é trabalhador, não resta dúvida. Iniciou e concluiu várias obras importantes; o município está um brinco. Deu um banho de loja na burrinha, mas continua insensível às questões ambientais. Despreza o problema das zoonoses, da explosão populacional de cães e gatos (doentes, famintos) abandonados, perambulando nesta urbe pseudolibertária. Não. Libertária uma ova! O povo (que sempre mereceu os políticos que pôs no poder) continua no xilindró do embuste.

O prefeito da hora tem a alma blindada. Nasceu e foi criado no Sítio Chafariz. Não tem macumba, olho-grande, mau-olhado ou quebranto que derrube esse rapaz do palanque do qual nunca desceu. Aposto os dez dedos com que ora digito estas linhas como será reeleito com uma vitória esmagadora. Há quem veja nele uma espécie de meta-humano, de herói sem capa do universo Marvel local.

O menino riquinho (chamado de “menino pobrezinho” por uma rosa petulante na eleição passada) caiu no gosto e nas graças do povão. Não tem mais nada de pobre sob o ponto de vista financeiro. Vive montado na grana; usufrui do bem-bom, do luxo e da glória que, merecidamente, conquistou. Não se preocupa com os tostões, as despesas do Palácio da Resistência. Administra o País de Mossoró com um vigor hercúleo, a toque de caixa. A hipnose do Mossoró Cidade Junina vem por aí. Ele já bateu o prego e virou a ponta. Artistas com cachês milionários farão a cabeça do populacho. O garoto prodígio está por cima da carne-seca. O seu ibope atingiu a ionosfera. Tem mais seguidores nas redes sociais do que estrelas na galáxia. Pode-se dizer, sem qualquer tipo de exagero ou hipérbole, que é um guru, o líder de uma seita.

Alysson Leandro Bezerra da Silva é um predestinado. Emergiu das profundezas do serviço público para abiscoitar um mandato de deputado estadual e, logo após, a prefeitura de Mossoró. Lançou uma pá de cal sobre a poderosa e velha oligarquia e vai matando a concorrência e a esquerda de Mossoró (sempre incompetentes!) na unha. Não tem predador, nenhum opositor à sua altura. É o leão desta selva de pedra de cambalachos, maracutaias e podres poderes. Bezerra se utiliza de uma proveitosa e estratégica aliança com os vereadores de sua fidedigna base governista.

O chefe do Executivo municipal deita e rola, pinta o sete e borda o oito, sem essa coisa careta de gastar dinheiro com bobagens: um castramóvel, por exemplo. É craque nas quatro linhas do populismo e toca o terror nos seus adversários. Jovem com a experiência de um matusalém, ele mostra jogo de cintura; sabe servir a dois senhores: mantém um pé sobre os católicos e outro em riba dos protestantes. É carismático e falsamente humilde; usa um chapeuzinho de couro quando poderia ostentar uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas. Parece gostar do cheiro e do suor do povo, entretanto possui um rei na barriga e padece de elefantíase do ego.

Ao contrário de alguns politicoides broncos, ele sabe tanger muito bem o rebanho para o seu curral de votos. Tem lá os seus defeitos, é claro, mas também as suas virtudes. Considerando o aspecto meramente urbanístico, Mossoró nunca esteve tão bem na fita. O seu feeling administrativo (especialmente no tocante à cultura do pão e do circo) é uma coisa de cinema. As más-línguas falam, à boca miúda, em supostas obras superfaturadas.

Só que nenhum cidadão, enquanto vou encerrando estas linhas, apresentou sequer um zero à esquerda em desfavor do midiático prefeito.

Até que se prove o contrário, o que piora a choradeira dos rivais, Bezerra da Silva tem as mãos e os pés limpinhos. E vou logo cantando a bola. Em breve será governador deste estado. O céu é o limite para esse autêntico (no bom sentido!) alpinista social. Que Deus abençoe e proteja o menino riquinho. Amém!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
quarta-feira - 27/07/2016 - 16:18h
MPF de Brasília

Henrique Alves vira réu em ação iniciada no ano de 2004

A Justiça Federal de Brasília decidiu receber ação de improbidade administrativa contra o ex-ministro do Turismo e ex-deputado federal Henrique Eduardo Alves (PMDB). A partir dessa decisão, Alves passa a responder como réu no processo que apura indícios de enriquecimento ilícito entre 1998 e 2002, período em que exerceu mandato parlamentar.

Henrique Alves problema a mais gerado há vários anos é mexido pelo MPF (Foto Marcelo Camargo - Agência Brasil - Arquivo)

Proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2004, a ação já havia sido recebida, mas o prosseguimento do processo foi interrompido depois que o acusado apresentou recurso questionando a prescrição dos fatos, bem como a legitimidade das provas apresentadas pelo MPF.

No entanto, depois de analisadas essas questões pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, o caso prosseguiu com o juiz de primeiro grau. Nessa instância, o magistrado da 16ª Vara Federal, Marcelo Ribeiro Pinheiro, decidiu que há provas suficientes para confirmar o recebimento e dar continuidade à ação de improbidade.

Sobre os requisitos para que o caso fosse reaberto, o juiz analisou a peça inicial apresentada pelo MPF e concluiu que a ação “descreve minuciosamente as circunstâncias fáticas e jurídicas que embasam, de modo suficientemente preciso e capaz de ensejar o seu prosseguimento”.

Onze mandatos

Já em relação à prescrição, o magistrado explica que, de acordo com a lei, o prazo prescricional para ação de improbidade administrativa começa a correr após o término do último mandato do parlamentar.

No caso analisado, o acusado foi deputado federal por 11 mandatos consecutivos, de 1971 a 2014. Embora a ação de improbidade se refira a irregularidades cometidas no período de 1998 a 2002, Alves continuou no cargo de parlamentar até 2014. De modo que o juiz concluiu: enquanto não cessa o vínculo do agente com a Administração, não tem início o prazo prescricional.

Na mesma decisão, o juiz também se manifestou sobre o pedido do MPF – feito ainda em junho deste ano – para que fosse levantado o sigilo do caso. Marcelo Pinheiro decidiu pela publicidade dos autos, já que nas ações de improbidade administrativa, é evidente o interesse social, “o qual exige a publicidade justamente para que se possa dar o direito ao povo de conhecer a fundo as atitudes de seus representantes políticos”.

Irregularidades

No entanto, o processo não é totalmente público. Tendo em vista que existem documentos anexados ao processo que podem expor a privacidade do envolvido, como extratos bancários e faturas de cartão de crédito e dados fiscais, o magistrado determinou sigilo em relação a essas informações.

Mônica e Henrique: anos 90 (Foto: do Blog)

A ação de improbidade – A ação do Ministério Público, apresentada há mais de 12 anos, levou à Justiça o fato de que Henrique Eduardo Alves demonstrava sinais de riqueza incompatíveis com sua renda e seu patrimônio declarados como deputado federal e empresário. Constam das irregularidades apontadas à época: transferência patrimonial dissimulada; despesas e gastos em montante superior à receita declarada; titularidade dissimulada de sociedades comerciais, contas-correntes, investimentos, movimentação financeira e cartões de crédito em instituições financeiras com sede na Suíça, nos Estados Unidos e em paraísos fiscais, bem como por meio de empresa off-shore – sem que fossem identificadas as saídas de divisas do país.

“Riquinho”

Como exemplo de irregularidade, foi citada uma movimentação em instituição financeira sediada no exterior de mais de três centenas de milhares de dólares americanos em despesas. Isso somente em faturas de cartão de crédito emitido no exterior, e de titularidade de Henrique Eduardo Alves .Outras situações também chamaram a atenção do MPF.

Alves usufruía de um padrão de vida luxuoso, bancava os gastos de diversos cartões de crédito para os filhos e para a esposa e ainda era chamado de “riquinho” pelos demais parlamentares. O Ministério Público também revelou que a ex-esposa de Alves, Mônica Azambuja, teve durante um bom tempo suas despesas pagas pelo ex-marido, além de ter recebido a quantia de R$ 1,5 milhão entre 2002 e 2003 como indenização em divórcio.

Com a reabertura do caso, o magistrado terá de decidir se condena ou não o político por improbidade. Henrique Alves poderá ser condenado a ressarcir os cofres da União, ter os direitos políticos suspensos e ficar proibido de contratar com o poder público, entre outras sanções previstas na Lei 8.429/92.

Conheça a ação na íntegra AQUI.

Com informações do MPF.

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Categoria(s): Justiça/Direito/Ministério Público / Política
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