domingo - 01/05/2022 - 04:02h

Texto de quase bêbado

Por François Silvestre

E nessa condição vou esnobar cultura. Amanhã estarei ou não arrependido. Não pela demonstração da burrice oficial militar do país, mas pela exibição das coisas simples que conheço as quais me permitem expor o analfabetismo dessa gente.bebida, cerveja, chope

Vi hoje um vídeo do general presidente do Superior Tribunal Militar (STM). Não sei seu nome. Falou durante cinco minutos. Cometeu quatro erros de português. Crassos. Quase um erro por minuto.

Aí, me veio à memória uma fala de Bolsonaro contra a cultura vasta. Disse ele, do alto da sua sublime ignorância, que a escola tinha por base fundamental ensinar português e matemática. Portanto, os militares cumpriam essa tarefa educacional.

Aí, eu pergunto ao general: O que enuncia o Teorema de Pitágoras? O senhor sabe? Eu sou nulo em matemática, mas sei. A soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. Fácil decorar isso, né não? Quer dizer o quê? Pegue uma folha de papel, desenhe um triângulo retângulo, a linha vertical é um cateto e a linha horizontal é outro cateto. A linha que une as duas pontas dos catetos é a hipotenusa, que se opõe ao vértice do triângulo.

Basta você fazer um quadrado na linha da hipotenusa pra descobrir que esse quadrado é a soma dos quadrados que você fará dos catetos. Entendeu, general? Serve pra quê? Pra quase tudo na medição e rigidez das construções. O triângulo retângulo é figura mais rígida da geometria. Pitágoras foi o gênio da simplicidade.

General, o senhor sabe o enunciado da lei da gravidade? Eu sei. Matéria atrai matéria na razão direta do produto das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias. Isso quer dizer o quê, general?

Quer dizer que quanto maior a massa de um corpo, mais ele atrai o corpo de menor massa. E quanto mais distante estiver o corpo de maior massa, menos será a sua força de atração. Sacou, general? Vá estudar.

Estou quase bêbado. Mas, inversamente proporcional à burrice.

P.S: Isaac Newton, da gravidade, disse “ter visto mais distante por estar sobre os ombros de gigantes, e Pitágoras era um deles”. Sobre os ombros de Newton, Albert Einstein e Stephen William Hawking viram mais longe ainda.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica
segunda-feira - 18/04/2022 - 15:50h
Julgamento e tortura

Ditadura, Superior Tribunal Militar…

Por François Silvestre

..e um Almirante que tem a ver comigo.

Como assim? Não conheci esse almirante nem ele me conheceu. Mas temos algo que nos aproxima no meio das trevas daquele tempo. Ao ver e ouvir, na televisão, áudios de Ministros do Superior Tribunal Militar (STM), na Década de Setenta, tomo um susto.

Almirante Júlio de Sá Bierrenbach morreu em junho de 2015 (Foto: web)

Almirante Júlio de Sá Bierrenbach morreu em junho de 2015 (Foto: web)

Um dos áudios, criticando e atestando as torturas é do Almirante Júlio de Sá Bierrenbach. O que tem a ver comigo? Foi ele o relator do meu processo, no STM, no julgamento de recurso na minha condenação na Auditoria Militar do Exército, em Recife.

Fui processado, em Recife, nas três Auditorias. Ali no Cais de Santa Rita. Na Auditoria da Marinha, fui absolvido. Na da Aeronáutica, nunca fui julgado e o processo morreu na anistia. Fui condenado na Auditoria do Exército. Três processos de casos distintos.

Não era fácil conseguir que um recurso chegasse ao STM. Porém, tive a sorte de ser defendido por Boris Trindade e Mércia Albuquerque. Boris era famoso criminalista e teatrólogo, com grande prestígio no Recife. O time se completava com Roberto Furtado, em Natal. Eles conseguiram que o recurso prosperasse.

A segunda luta foi para pautar o julgamento. Meu irmão, Dimas, que já morava em São Paulo há muito tempo, pôs um advogado em Brasília para acompanhar o caso. Eu estava preso na Colônia Penal João Chaves. Onde já cumprira três meses de prisão em 1972, e agora, em 1974, durante quase o ano todo, esperava esse julgamento.

RESUMO. Sorteado o relator, o processo foi para o Almirante Júlio de Sá. Voto de uma lauda e meia, se muito. Que ele terminava com uma observação irrespondível: “Que segurança nacional é essa que nós temos, que pode ser abalada por um discurso de um jovem numa Casa de Estudante lá no Rio Grande do Norte”?

Se havia algum Ministro que julgava haver crime ali, teve vergonha de contrariar o relator. Com votos rápidos, como se dá com julgamentos de réus sem importância, fui absolvido por unanimidade. Boris Trindade me disse, “foi o voto de relator mais conciso, curto e eficiente que vi até hoje”.

O crime era o seguinte. Eu dissera no discurso que o Brasil não tinha presidente, havia no exercício na presidência, ilegitimamente, um fascista torturador. Era Garrastazu Médici. A história confirmou minha fala.

Esse caso está registrado no segundo volume da Obra “Brasil Nunca Mais, o perfil dos atingidos”. Obra organizado sob a proteção da Arquidiocese de São Paulo e de Pastores evangélicos Metodistas, tudo com a supervisão de D. Paulo Evaristo Arns.

Leia tambémAlmirante Júlio de Sá Bierrenbach morre aos 96 anos;

Leia também: Em áudios, integrantes do Superior Tribunal Militar relatam tortura na ditadura militar.

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Categoria(s): Artigo / Opinião / Política
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segunda-feira - 28/06/2021 - 09:52h
Poder

Corda esticada…

Corda esticada, corda esgarçada, esgarçando cordaPor François Silvestre

...ou generais engolindo corda?

Essa é a pergunta que não cala. Faz um ano e meio, que generais nunca dantes conhecidos fazem chantagem com ameaças fecais. Quem tem condições de dar golpe, como se fez em 64, fala sobre tudo, menos sobre ameaça de golpe.

Agora, um grupo de generais bem sucedidos no contracheque volta e meia alertam: “A oposição não pode esticar a corda”.

Que corda? Onde está na Constituição que a atividade política da oposição comporta fiscalização e controle de generais, almirantes ou brigadeiros? Qual artigo? Em quais artigos nas quatro linhas da carta magna? Pra usar uma imagem bocó do Bolsopinóquio.

Vão à merda!... A última foi do presidente do Superior Tribunal Militar (STM). Esse Tribunal eu lembro de tempos outros, quando tive um processo meu, condenado pela Auditoria Militar do Recife, julgado lá, em recurso do meu advogado Boris Trindade, advogado pernambucano que faleceu de Covid.

Pois esse general, nas vésperas das manifestações democráticas ocorridas neste mês, disse numa revista, que por sinal está em processo falimentar, que a “oposição não estique a corda”. O que ocorreu?

A oposição esticou a corda, as canelas e estreitou as ruas. E aí, general? Vai fazer o quê? Sabe o quê? Nada. Viola no saco. E contracheque no bolso. Ponha os tanques na rua, general, com sua toga ociosa?!

Vão catar piolho em cu de macaco!

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Categoria(s): Artigo / Política
domingo - 26/08/2018 - 04:02h

Os capitães na política

Por Paulo Linhares

A palavra capitão é derivada da palavra “caput”, do latim, que significa “cabeça”. Na linguagem erudita dos historiadores era comum dizer que “Aníbal foi o grande capitão de Cartago, herói da guerra contra Roma” ou “ Alexandre, o grande capitão dos exércitos macedônios”. Nesses casos, sempre para enaltecer as qualidades guerreiras  de certos chefes militares que tiveram papéis relevantes na História.

Outras acepções de “capitão” não interessam aqui, a não ser a que se refere ao posto presente em muitas organizações militares e que designa, na maioria dos exércitos do mundo, ou um categoria de oficiais subalternos ou, na melhor hipótese, de oficiais intermediários, que comandam  companhias de soldados.

Nessa condição de intermediar ações entre a oficialidade superior e estamentos inferiores nas organizações militares, os capitães se fazem essenciais na execução de operações militares a ponto de assumirem papel até mais destacado que oficiais que exercem postos superiores.

Por isto é que na História do Brasil tem ocorrido participações de capitães do Exército em destacadas aparições no cenário da política nacional. No passado, a presença do capitão Luiz Carlos Prestes a comandar o movimento conhecido como Coluna Prestes, na década de 1920.

Aliás, não é demasiado recordar que o cooptado pelo Estado brasileiro para combater a Coluna Prestes, o bandoleiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, em 12 de março de 1926,  recebeu a patente de ‘capitão’ do Exército Patriótico das mãos de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, Ceará, além de fartas provisões em armas e munições. Lampião deixou de  cumprir o combinado e não enfrentou a Coluna Prestes, embora tenha envergado essa estranha patente de capitão até sua morte em 1938, na Fazenda Angicos, no sertão de Sergipe.

Mais recentemente, ocorreu a dissensão do capitão Carlos Lamarca que se tornou líder de uma das organizações de esquerda que se confrontou militarmente com o aparato repressivo da ditadura militar e, na década de 1970, foi morto melancolicamente no interior da Bahia. Reverenciado no campo das esquerdas brasileiras, todavia, até hoje sua memória é alvo da execração máxima de “traidor” por membros das Forças Armadas deste país.

Nos dias que correm, igualmente ganhou notoriedade, embora no campo oposto do espectro político-ideológico com relação a Prestes e Lamarca, o capitão-deputado federal Jair Messias Bolsonaro, de quem o insuspeito “The Economist”, em matéria recentemente publicada, fala cobras e lagartos, e o  classifica como incapaz de encabeçar um novo governo brasileiro após a eleição presidencial de 2018.

Certo é que Bolsonaro, capitão da reserva do Exército,  tenta incorporar a descrença nos políticos e na política como expressão das forças armadas brasileiras. Claro, a despeito de colecionar entusiasmados apoios em  meios castrenses, inclusive, para trazer um general como seu vice, não representa as Forças Armadas em sua postulação.

No entanto, nem a passagem e tampouco a saída de Bolsonaro do Exército podem ser todas como exemplares:  segundo noticiou a Folha de São Paulo, com base em documentos obtidos junto ao Superior Tribunal Militar (STM), o deputado Jair Bolsonaro admitiu, em 1987, ter cometido atos de insubordinação e deslealdade com seu superiores hierárquicos.

Uma das atitude de Bolsonaro foi planejar, juntamente com mais quatro colegas, a explosão de bombas-relógio em unidades militares do Rio de Janeiro, e, protesto às condições remuneratórias dos militares. Enfim, típico ato que noutros tempos outra denominação não mereceria que não a de “terrorismo”.

Sem saída, Bolsonaro literalmente “negociou” a sua passagem para a reserva do Exército, quando resolveu abraçar uma carreira política que, décadas após, mostrou-se um palpita acertado: cumpre o seu sétimo mandato de deputado federal eleito pelo Partido Progressista, o mais corruptos dos partidos envolvidos na Operação Lava Jato, o que não ao deixa de ser mais um dos seus cruciais paradoxos.

O papel que Bolsonaro irá desempenhar ainda é impreciso; embora conte com a simpatia de militares de todas as extrações, certo é que ele não estará como representante das Forças Armadas na corrida presidencial, segundo declarações incisivas de lideranças que comandam essas forças, a exemplo do general Villas Boas, do Exército Brasileiro.

A atuação política de  Prestes, mesmo após o fim da Coluna que levava o seu nome, teve grande importância na política brasileira, mormente quando se tornou o principal líder da esquerda, no comando do Partido Comunista brasileiro, nas décadas   seguintes à de 1920. Com o fim da ditadura do Estado Novo, Luiz Carlos Prestes foi eleito senador pelo Distrito Federal e como tal atuou na Constituinte  de 1946 e liderou o Partido Comunista do Brasil, posto este na ilegalidade em 1947, nas décadas seguintes.

Anistiado  na década de 1980, com o fim da ditadura militar, encerrou uma vigorosa presença na cena política que perdurou por seis décadas. O capitão Carlos Lamarca sucumbiu no confronto armado contra seus antigos companheiros de farda e adquiriu a condição de anti-herói execrado na História escrita pelos vencedores de 1964.

Assim, é paradoxal que, três décadas depois, em pleno chão democrático, registre-se o surgimento da figura do capitão Jair Bolsonaro na cena política brasileira, como representante de uma pauta política conservadora radical que cresce nos espaços aberto pelo fracasso das forças políticas de centro e da esquerda,  dos governos tucanos e petistas, sobretudo,  após virem a público graves revelações de envolvimentos de partidos e lideranças políticas com práticas de corrupção no seio da Administração Pública federal.

Os capitães, investidos na pele de típicos xerifes, mexem com o imaginário político das massas: encarnam a figura da ‘autoridade’ que dita os padrões de comportamento que emanam da Casa-Grande, embora Prestes, Lampião e Lamarca claramente tenha seguido o caminho inverso, o da Senzala. Por isto, Bolsonaro parece representar o que há de mais reacionário no atual espectro político brasileiro que vai do exacerbado e démodé anticomunismo às posturas conservadoras tocantes às relações familiares e de gênero, ademais do racismo e da intolerância política antidemocrática. É esse o ‘capital’ que dá impulso à sua ação política e que pode colocá-lo como inquilino do Palácio do Planalto, pelos próximos quatro anos. Lamentável, mas, verdadeiro.

Afinal, foi o desencanto com a política e políticos que entronizou recentemente o capitão de empresas Donald Trump na presidência dos Estados Unidos da América, cuja atuação tem sido um pesadelo para o seu país e para o mundo. Por aqui, resta saber o que soberanamente decidirá o povo brasileiro nas urnas de outubro de 2018.

Bolsonaro, a versão tupiniquim de Trump, está bem posicionado nesse jogo, embora não seja nem um arremedo daquele que, a despeito de tudo tem alcançado ganhos na política econômica dos EUA, inclusive, com a recuperação de milhares de empregos para os norte-americanos. Tramp cisma e realiza, aprove-se ou não dos seus gestos e métodos caricatos.

Assim, resta torcer para que, pesadas e medidas todas as circunstâncias, não precise este Brasil de mais capitães para abraçar e vencer os desafios que a adversa conjuntura lhe impõe. Seguirá o seu destino manifesto. No chão da democracia, da modernidade e dos costumes republicanos. Vencerá.

Paulo Linhares é professor e advogado

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Categoria(s): Artigo
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