Por Júlio Rosado
Desde o momento em que me aposentei na função de motorista de ônibus, há quatro anos, sinto que minha renda gradualmente diminui o poder de compra. Premido pela necessidade, passei a procurar algum trabalho para complementar o ganho do mês. Graças a minha filha que é atendente em uma clínica médica, consegui vaga para ser motorista do proprietário, Doutor Paulo Renato. O emprego veio a calhar pois não exigia muito esforço e eu passava mais tempo na recepção de seu consultório, à espera de alguma tarefa, do que efetivamente dirigindo. Não demorou e, para não ficar ocioso, me tornei uma espécie de faz tudo. Eu precisava ser necessário para não ser dispensado, né?
Quase diariamente, considerando que eu sempre chegava cedo em sua casa para pegá-lo, eu passava pela padaria e providenciava os pães e insumos para seu café da manhã. Enquanto o aguardava, aproveitava para passar água no carro, mantendo-o sempre limpo e apresentável. É bom lembrar que, apesar de ser bem sucedido, ele ainda morava com os pais, um casal idoso que o adotara quando ainda bebê. Se havia uma certeza que aquele homem passava era a de que jamais abandonaria aqueles que o acolheram. Ele os amava.
Doutor Paulo Renato era novo na idade, mas herdara uma boa clientela que fora atendida por seus pais antes de se afastarem das atividades na clínica. Entre seus pacientes havia uma mulher, dona Gildete, que vinha com regularidade mensal para acompanhamento e revisão. Era já de idade avançada. Pelo que soube, vivia só e não tinha condições de pagar um plano de saúde, nem as frequentes consultas. Mas ele sempre a atendia e, para não a constranger, aceitava as sacolas de manga que ela trazia para presenteá-lo. Ela ficava super feliz com a alegria que Doutor Paulo Renato demonstrava ao receber aquele singelo regalo.
Tudo ia bem com meu trabalho. Eu ganhava bem e trabalhava sem me aborrecer. Contudo havia algo que me incomodava. Eu comecei a acreditar que Doutor Paulo Renato seria, verdadeiramente, uma pessoa falsa. Até onde se poderia confiar nele? Digo isso porque, depois de todos os apupos elogiando as mangas que recebia de dona Gildete, dizendo que eram as melhores que já havia provado e que esperava ansiosamente o dia da consulta para recebê-las, tão logo aquela paciente saia da clínica, ele me pedia para jogar as frutas no lixo, recomendando para que ninguém as consumisse.
Eram frutas bonitas, grandes e carnudas, com a casca lisinha. E ele, após tantos elogios graciosos, mandava descartá-las. Doutor Paulo Renato estava me parecendo não ser tão correto como eu imaginara. Faltava-lhe humildade, pensava eu. O desprezo seria, certamente, uma forma cruel de humilhação.
Aquilo me indignava e me consumia de tal modo, que resolvi desobedecer e, ao invés de jogar as frutas no lixo, passei a levá-las para minha casa e utilizá-las no suco ou como sobremesa. Deliciosas. Não haveria doce que se comparasse. Mas não há segredo que não seja descoberto. Minha filha notou o que estava acontecendo ao sentir o forte cheiro de manga que exalava de uma sacola esquecida na mala do carro e, enquanto entravamos na clínica, me passou um sermão sobre confiança, o que foi percebido pelo Doutor Paulo Renato. Ele, ponderado, nada falou. Apenas olhou para mim e pediu, considerando que Dona Gildete não fora à consulta marcada, que eu fosse a sua casa para trazê-la. Contudo, eu deveria ter o cuidado de lembrar de pedir uma sacola com suas deliciosas mangas, elogiando-as por não terem nenhum arranhão. Assim fiz.
Ao chegar à casa daquela paciente, deu gosto de ver sua felicidade em saber da preocupação do médico. Eu mal comecei a falar da encomenda, ela se antecipou e, devido à falta de condições físicas no momento, orientou para que eu fosse ao quintal recolher as mangas. Por recomendação médica, ela estava proibida de comê-las, mas eu poderia escolher as melhores, avisando que sempre levava as madurinhas que caiam no espelho d’água que rodeava a árvore. Dava para sentir a dignidade que ela sentia ao poder, em suas limitações, atender o desejo de um homem tão rico e educado quanto Doutor Paulo Renato.
Fui a seu quintal com uma imagem na cabeça e me defrontei com outra: ao redor da mangueira tudo era um grande charco com água da fossa estourada. As deliciosas mangas que ela recolhia ficavam boiando naquele esgoto, em meio aos dejetos, até serem recolhidas com um puçá em uma vara e levadas para seu médico. Faltava, ali, o mínimo de condições de higiene.
Doutor Paulo Renato, com aquela missão, me deu a maior lição que eu poderia receber. Ele recebia aquelas frutas imprestáveis para o consumo com entusiasmo suficiente para que Dona Gildete ficasse à vontade e com dignidade para recompensá-lo com o mínimo que dispunha para pagar a consulta.
Júlio Rosado é escritor – @juliorosado.escritor























