Da página História Perdida e outras fontes
Em 1943, a Gestapo finalmente conseguiu prender Raymond Aubrac (1914-2012), um dos principais líderes da Resistência Francesa. Torturado e condenado à morte, tudo indicava que seus dias estavam contados.
A quilômetros dali, sua esposa, Lucie Aubrac (1912-2007), estava grávida de seis meses. Ela poderia ter escolhido fugir, esconder-se ou esperar por um milagre.
Escolheu lutar.
Quando a Alemanha invadiu a França em 1940, Lucie era professora de história e Raymond, um engenheiro civil de origem judaica. Eles se recusaram a aceitar a capitulação francesa e adotaram o sobrenome Aubrac como codinome de guerra para proteger suas famílias — identidade que decidiram manter oficialmente após o conflito.
Eles operaram principalmente na região de Lyon, no sul da França, e integraram o movimento Libération-Sud (Libertação-Sul).
De volta história: sabendo que não conseguiria libertar o marido pela força, Lucie elaborou um plano ousado. Munida de documentos falsos e de uma história cuidadosamente preparada, apresentou-se diante de Klaus Barbie, o temido chefe da Gestapo em Lyon, um homem responsável por torturas e assassinatos que mais tarde ficaria conhecido como o “Carniceiro de Lyon”.
Com uma serenidade impressionante, convenceu Barbie a permitir que visitasse Raymond pela última vez antes da execução.
Mas aquela visita nunca foi uma despedida.
Enquanto conversava com o marido na prisão, Lucie observou cada detalhe. Contou os guardas, memorizou a rotina da prisão, estudou os horários das patrulhas e descobriu o trajeto que seria percorrido pelo caminhão que transportaria os prisioneiros.
Ela saiu dali levando muito mais do que esperança.
Levava um plano.
Durante semanas, reuniu integrantes da Resistência, distribuiu tarefas, escolheu o local ideal para uma emboscada e preparou cada etapa da operação.
No dia 21 de outubro de 1943, o caminhão que levava Raymond e outros 13 prisioneiros deixou Lyon em direção à prisão de Montluc.
Os soldados alemães não imaginavam que estavam entrando em uma armadilha.
Quando o veículo chegou ao ponto escolhido, combatentes da Resistência abriram fogo. O ataque foi rápido, preciso e devastador. Em poucos minutos, os guardas foram dominados e Raymond Aubrac, junto com com os demais prisioneiros, recuperou a liberdade.
A mente por trás de toda aquela operação era uma mulher grávida de seis meses.
Depois da fuga, Lucie e Raymond precisaram viver escondidos. Mesmo perseguidos pelas forças alemãs, conseguiram escapar da captura, abrigando-se em Londres. Pouco tempo depois, Lucie deu à luz sua filha em um abrigo clandestino, enquanto a guerra ainda assolava a França.
Com o fim do conflito, o casal não buscou fama nem vingança.
Raymond e Lucie retomaram à rotina de vida, de sobrevivência digna e à preservação da memória da Resistência, fazendo questão de lembrar o papel fundamental desempenhado pelas mulheres e homens que não aceitavam a opressão e a capitulação.
Os dois permaneceram juntos por toda a vida, criaram seus filhos e continuaram compartilhando sua história com as novas gerações.
Anos depois, perguntaram a Lucie o que a levou a desafiar a Gestapo e arriscar tudo para salvar Raymond.
Ela respondeu com a simplicidade de quem nunca se considerou uma heroína:
“Era meu marido. O que mais eu poderia fazer?”

Membros da Resistência Francesa (FFI) patrulhando as ruas durante os combates de libertação (Fonte – El Pais in English)
Lucie Aubrac morreu em 2007. Raymond faleceu em 2012.
Eles deixaram um legado que vai muito além da guerra.
Provaram que, mesmo diante de um dos regimes mais cruéis da história, a coragem pode nascer do amor.
Fontes:
Ils partiront dans l’ivresse
Musée de la Résistance Nationale
Nota do BCS – O filme Lucie Aubrac (1997), dirigido por Claude Berri, é um longa que reconstrói minuciosamente a vida do casal em Lyon, a prisão de Raymond por Klaus Barbie e o plano detalhado de Lucie para metralhar a van da Gestapo e libertar o marido. O roteiro foi baseado no livro de memórias escrito pela própria Lucie (Ils partiront dans l’ivresse – “Eles partirão na embriaguez”).
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