domingo - 25/10/2026 - 03:00h

Balão – entre ingressos, lembranças e saudades

Por Eriberto Monteiro

"Balão" marcou uma era, durante décadas, à entrada do Cine Pax (Fotos reparadas com recursos de IA para o BCS)

“Balão” marcou uma era, durante décadas, à entrada do Cine Pax (Fotos reparadas com recursos de IA para o BCS)

Há pessoas que passam por nossas vidas sem imaginar o quanto suas atitudes, seus gestos e até mesmo a simplicidade de seu trabalho podem permanecer guardados em nossa memória. Uma dessas pessoas foi Raimundo Nonato Albuquerque, carinhosamente conhecido como “Balão”, o inesquecível porteiro do Cine Pax, personagem que marcou a história daquele cinema e as lembranças de muitos mossoroenses.

Nascido em Mossoró, em janeiro de 1931, Balão era filho de Naninha e Mundoca Correia, figuras bastante populares na comunidade conhecida como bairro Pereiros, oficialmente Alto da Conceição.

Durante longos anos ele exerceu a função de porteiro do Cine Pax, tornando-se uma presença familiar para gerações de frequentadores daquela tradicional casa de exibição cinematográfica.

As fotografias, pertencentes ao arquivo de Edvaldo Morais, apresentam Balão ao lado de uma das urnas utilizadas em seu trabalho. É justamente esse objeto que desperta em mim uma das mais curiosas e afetivas recordações da infância.

Quando criança, costumava ficar encostado na grade frontal do cinema, observando atentamente aquele senhor de semblante sério, que recebia os ingressos dos espectadores, rasgava-os e depositava da urna posicionada ao seu lado. Confesso que aquilo despertava uma enorme curiosidade. Minha mentalidade infantil não conseguia compreender por que ele precisava rasgar os ingressos. Imaginava as mais diferentes explicações. Será que fazia aquilo por raiva? Será que alguém o obrigava? Ou seria simplesmente uma mania daquele homem?

Naquela época, costumava visitar minha avó, que residia nas proximidades do Cine Pax. Sempre que surgia uma oportunidade, aproximava-me da entrada do cinema para acompanhar a movimentação, principalmente, o trabalho de Balão.

Apesar de sua aparência séria, era um homem gentil. Certa vez, percebendo minha presença e minha curiosidade, convidou-me para entrar e assistir a um filme. Não recordo qual era a película em exibição, mas lembro perfeitamente que recusei o convite. Não havia avisado em casa e precisava retornar à residência de minha avó.

Aquela situação se repetiu em outras oportunidades. Até que, em determinado domingo, acabei aceitando sua generosidade. Entrei no cinema com a alegria de quem recebia um presente inesperado, embora soubesse que não poderia permanecer até o encerramento da sessão, pois precisava voltar para casa de minha avó.

Estar dentro do Cine Pax era, para mim, uma experiência fascinante. Gostava de observar os cartazes dos filmes espalhados pelas dependências internas, contemplar aquele ambiente e acompanhar a movimentação das pessoas que chegavam para assistir às sessões. Mas havia algo que também me encantava: o próprio trabalho de Balão.

Na minha imaginação infantil, ser porteiro de cinema deveria ser uma das melhores profissões do mundo. Afinal, bastava ficar em pé, receber os ingressos, rasgá-los e permitir que as pessoas entrassem para assistir aos filmes. Pensava comigo mesmo:

– “Deve ser muito legal trabalhar num cinema. A pessoa fica ali recebendo ingressos, rasgando os bilhetes e deixando todo mundo entrar. E ainda ganha dinheiro por isso.”

Era a ingenuidade de uma criança que desconhecia as responsabilidades, os sacrifícios e a rotina de um trabalhador. Nem sequer sabia quanto Balão recebia pelo serviço que desempenhava com tanta dedicação.

O tempo passou, mas aquelas cenas permaneceram vivas em minha memória. No final de 1985, comecei a perceber a ausência daquele homem que, durante tantos anos, havia ocupado seu lugar na entrada do Cine Pax. Estranhei não o encontrar mais ali, com sua postura habitual, recebendo os ingressos dos frequentadores.

Pouco depois, soube que Balão havia falecido.

Raimundo Nonato Albuquerque partiu em 17 de dezembro de 1985, aos 54 anos, deixando saudades entre familiares, amigos e todos aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.

A notícia me entristeceu profundamente. Naquele momento, compreendi que não voltaria a encontrar o porteiro de semblante sério e coração generoso, que tantas vezes havia alegrado minhas tardes de domingo com um simples convite para assistir a um filme.
Hoje, passadas mais de quatro décadas, quando recordo o Cine Pax, não me vêm à memória apenas os filmes, as sessões dominicais, os cartazes e a movimentação dos espectadores. Recordo também daquele trabalhador humilde, que fazia parte da alma daquele cinema.

Reprodução de fotos originais do acervo de Edvaldo Morais

Reprodução de fotos originais do acervo de Edvaldo Morais

Balão talvez nunca tenha imaginado que um menino, encostado na grade da entrada, observando seus movimentos e tentando compreender por que rasgava tantos ingressos, guardaria sua lembrança por toda a vida.

E é justamente por isso que considero importante resgatar histórias como esta. A memória de Mossoró não é construída apenas por seus grandes acontecimentos e personagens ilustres, mas também por homens e mulheres simples que, com seu trabalho cotidiano, ajudaram a escrever a história afetiva da nossa cidade. Balão foi um desses personagens.

Balão partiu, mas deixou algo que o tempo não conseguiu apagar: a saudade e a gratidão de um menino que cresceu admirando o porteiro do Cine Pax.

Eriberto Monteiro é escritor, pesquisador e administrador da página do Facebook Mossoró do Passado – Preservando imagens, histórias e memórias da nossa cidade

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Categoria(s): Crônica

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