Por Bruno Ernesto
Se para uns avistar um urubu é um mau sinal, mau agouro, azar, perigo, infortúnio ou mesmo desgraça, talvez eu seja um ponto fora da curva. Se bem que já estou naquela fase da vida em que pouco me importa o que pensam ou falam de mim. Na verdade, não me importa.
É muito interessante como ainda hoje certos animais ainda são estigmatizados por simplesmente existirem. Inclusive algumas pessoas.
Para mim, essa ave é uma das mais belas que existem, especialmente quando flutua lá no alto, deslizando suavemente entre as nuvens, ascendendo quase a perder de vista, dona dos céus, à espera do infortúnio ou ciclo natural da vida de algum animal.
Aqui por baixo, quando nos encaram, mostram toda a sua fragilidade; são medrosos. Talvez – ironicamente – tenham é medo de serem mortas por nós. Até desconfio que ao nos verem, pensem que é mau agouro. E até concordo, pois tenho a mesma sensação quando vejo algumas pessoas.
Quando ouço alguém maldizê-las, lembro de um antigo e curioso ofício que existiu no Reino Unido nos séculos XVII e XVIII: o come-pecados.
Tal ofício consistia em contratar uma pessoa marginalizada ou pobre, que recebia alguns trocados para tirar os pecados do morto antes de ser enterrado.
Para o ritual, os familiares colocavam um pedaço de pão e uma taça de vinho no peito do defunto, quando então o come-pecados recitava um pequeno ritual para que aquele pão e o vinho absorvessem todos os pecados do defunto, que, em seguida, eram consumidos por ele livrando-o dos pecados terrenos. Simples e prático.
Assim, fico a imaginar o quão horrorizados ficariam os urubus se soubessem que poderiam ganhar uns bons trocados se tal prática fosse adotada hoje.
Talvez seja este o motivo pelo qual tenham tanto medo quando nos encaram, e alcem voo o mais rápido e alto possível que consigam.
Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog
























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