domingo - 10/05/2026 - 11:44h

Cortez Pereira

Por Honório de Medeiros

Cortez Pereira enfrentou forças da própria Arena, seu partido, no governo e política (Foto: reprodução)

Cortez Pereira foi governador do RN (Foto: reprodução/Arquivo)

Conheci Cortez Pereira pessoalmente quando, presidente do Centro Acadêmico do curso de Direito, convidei-o para proferir palestra acerca das relações entre marxismo e Filosofia do Direito, em um dos seminários que nós regularmente promovíamos.

De pronto, aceitou.

Na ocasião, dentre as críticas ao marxismo por ele esgrimidas, estava a do descompasso entre as previsões de Karl Marx quanto ao surgimento da revolução socialista na Inglaterra – único país, naquela época, que cumpria a necessária etapa do aprofundamento das contradições da classe burguesa através da revolução industrial -, e o fato de o processo revolucionário ter acontecido na Rússia feudal.

Perguntei-lhe se a teoria de Lênin acerca da tensão revolucionária queimar a etapa da ascensão da burguesia não seria correta, ao que ele me redargüiu que a tese carecia de comprovação histórica. Perfeito.

É difícil explicar nosso fascínio juvenil por Cortez Pereira naquela época, pois ele era um liberal e havia sido Governador através do Movimento de 64, enquanto nós, no verdor de nossa carreira intelectual, ávidos para salvarmos o Brasil e o mundo, pertencíamos a algum dos matizes esmaecidos da esquerda tupiniquim.

Talvez a presença de sua retórica envolvente, misto de conhecimento técnico e arroubo poético; o eco de sua difícil e romanesca vitória no concurso para professor de Introdução ao Estudo do Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; suas memoráveis defesas de projetos e programas de Governo e, principalmente, sua imolação no altar da ditadura, através de uma cassação hipócrita, fruto de politicalha, tivesse construído essa aura de respeito que lhe tributávamos.

Pouco depois, ainda no tempo em que todos os cursos da Universidade Federal do RN (UFRN) colavam grau juntas e o orador das turmas concluintes era escolhido por concurso, nós o tivemos como paraninfo – salvo engano a primeira homenagem pública pós-cassação.

Quando terminou de nos falar pediu ao cerimonial que me trouxesse a sua presença para confirmar se eu, “de fato, pelo que pude perceber do seu discurso, não era mais marxista”.

Disse-lhe que estava em fase de transição, ele me abraçou dizendo baixinho: “também eu sonhei seus sonhos”.

Entretanto, o mais emocionante dos momentos que vivi através de Cortez Pereira ocorreu quando assisti seu depoimento em “Memória Viva”.

Várias vezes meus olhos se encheram de lágrima – uma delas mais intensamente: ele nos contava, aos seus interlocutores e espectadores, qual o instante mais intenso que vivera no seu Governo, e não hesitara em dizer que fora aquele no qual, no final de uma tarde, pleno pôr-do-sol, arriou a Bandeira do Brasil do seu mastro, saudado por quase uma centena de cantadores de viola que tinham vindo até o Palácio Potengi prestar-lhe uma homenagem.

Agora, na maturidade, ainda permaneço fascinado pela concepção estratégica de seu plano de governo e sua capacidade de agregar valores humanos no seu entorno.

Tão importante é sua contribuição, nesse aspecto, que ela permanece como referência aos políticos e administradores públicos.

Honro sua memória com essas lembranças quase esmaecidas e o respeito que alguém intelectualmente superior sempre nos suscita, quaisquer que tenham sido seus erros, se os houve.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Marcos Pinto. diz:

    Em acurada análise da famigerada intelectualidade do Cirtez Pereira, estranha-me a sua adoção do mesmo rito cruento da perseguição política oriunda de pedidis de Prefeitos e chefetes políticos do interior. Me vem á mente o grande vulto politico potiguar SILVIO PEDROSA, injustificadamente olvidado. Foi eleito Vice-Governador do truculento Dix-Sept Rosado, que em apenas cinco meses e 12 dias de governo jogou na rua da amargura do desemprego mais da metade do funcionalismo público. O virulento Mário Negócio era seu Secretário-Geral, e conforme a Constituição Estadual era quem assumia o governo do Estado na aysência do titular. Contam alguns contwmporâne8s wue o Mário Negócio alardeava grosseira e doentia satisfação por ter assinado PORTARIAS demitindo mais da metade do funcionalismo público. Contava a minga saudosa mãe, que em 1951 tinha 15 anos de idade e residia em Martins-RN, terra do seu genitir, então Auditor Fiscak naquele rincão, quando viu uma humilde Professorinha do Curso Primário receber um telegrama do Mario Negócio comunicando-lhe sua transferência para Ceara-Mirim. Como o salario era misero não havia como ir cumprir sua função em terra tão distante. Ao ler o telegrama caiu em pranto, ajoelhando-se no solo argiloso, e ergueu os olhos ao Céu e exclamou : “O que eu ganho não dá sequer para pagar frete do caminhão para levar meus poucos móveis e utensílios domésticos.. Só me resta a tristeza de perder meu emprego. DEUS há de fazer justiça. Era o dia 11 de Julho de 1951. No outro dia morria Dx-Sept Rosado e alguns auxiliares, vitimados em desastre aviatório , cujo avião caiu no Rio do Sal, no estado de Sergipe. Historiando…

  2. Marcos Pinto. diz:

    Quando Sílvio Pedrosa assumiu o governo por morte do Dix-Sept Rosado, imprimiu o seu modo proprio de governar fazendo as normais substituições na composição do Secretariado. Poucos dias após recebeu a visita do então Vereador Vingt Rosado que lhe reclamou pelas substituições. Educadamente, o Sílvio respondeu-,lhe que não tinha nenhunma culpa pelo tragico acidente do Dix-Sept e que iria governar com a nova Equipe por ele nomeada. So restou ao Vingt sair abruptamente cheio de rancor.

  3. Marcos Araujo diz:

    Querido Professor Honório medeiros,

    Há textos que se leem como se fossem fotografias antigas. Este é um deles.
    Seu sábio e justo depoimento resgata ao panteão da história um dos grandes governadores deste Estado. Fico a imaginar a sua inquietude de líder estudantil, com a sua precode genialidade, tentando encurralar o experiente orador Cortez Pereira. Deve ter sido um embate memorável
    Aquele jovem que não se intimidou diante do Professor Cortez, seria um prenúncio do grande advogado e professor que você se tornaria.

  4. Gilvan diz:

    Grande governador cortêz Pereira,crador da serra do mel que hoje é uma vila cidade que produz muita castanha de caju.Cortêz era uma pessoa visionária sempre a frente do seu tempo.Se tivessemos a frente do estado um governador como cortêz pereira o RIO G DO NORTE SERIA OUTRO.

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