domingo - 30/11/2025 - 12:12h

Digo

Por Bruno Ernesto

Máquina datilografia Smith-corona (Foto: Bruno Ernesto, 11/2025)

Máquina datilografia Smith-corona (Foto: Bruno Ernesto, 11/2025)

Quem tem mais de quarenta anos de idade – me arrisco a dizer -, pelo menos uma vez na vida passou as ponta dos dedos num teclado de uma máquina de datilografar. Se não passou, dificilmente não pôs os olhos numa delas.

Claro, antes dos computadores eletrônicos e, agora, os esmartefones – sim, desse jeito -, as máquinas de datilografia reinaram por mais de um século.

Qualquer local onde a burocracia reinava plenamente, ela estava lá posta. Às vezes às dezenas. Um batalhão de sincopado de dedos rijos, praticamente em riste, que avançava e recuava tecla por tecla, pinçando letra por letra, num frenesi e no limiar do erro.

Uma vez chancelada a letra no papel, não se podia retroceder. Não se podia perder a concentração, nem o raciocínio.

Quem tinha o pensamento ordenado e os dedos firmes tinha vantagem e, evidentemente, até os mais habilidosos datilógrafos também estavam fadados ao erro.

Quando acontecia, lançava-se mão da simples colocação “digo”, e se retificava o erro.

E assim, incontáveis textos nasceram de cabeças extraordinárias, mãos e dedos firmes e disposição para enfrentar essa batalha com o erro que espreitava o datilógrafo do início ao final.

Há vantagens e desvantagens no uso dessas máquinas, pois não precisam de energia elétrica nem sinal de telecomunicação para funcionar.

Aliás, acredito que essa antiga tecnologia foi fundamental para o firme raciocínio dos escritores daquele tempo, pois forçava-os a manter o foco, ainda que estivessem apenas transcrevendo um texto manuscrito.

Sempre fui um entusiasta de máquinas de datilografar, mas, confesso, são impraticáveis para o que nos propomos a fazer diariamente.

Nem que lançasse mão de centenas de digo, ainda assim, essas máquinas me são reservadas para outro tipo de produção textual. Se bem que há erros que são necessários, pois o processo de criação textual é assim mesmo.

Ao contrário do que se pena, simplesmente não nos vem à cabeça e, por vezes, é muito trabalhoso e angustiante organizar as ideias e manter a coesão e coerência.

Na verdade, é mais um modo de me desafiar mentalmente. Qualquer dia vou contar quantos digo precisarei utilizar numa crônica.

Todavia, uma coisa tenho certeza: o que tá dito, tá dito. Com erro ou sem erro.

Aliás, se você lê o mesmo que todo mundo lê, fatalmente você vai escrever e pensar como todo mundo pensa.

É uma questão de destino, digo, escolha.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Italo praxedes diz:

    Fiz curso de datilografia

  2. Marcos Pinto. diz:

    Digo, mas la na frente “desdigo”,
    Com manhas e artimanhas de mendigo,
    Olho, vejo, em sutil bestunto me maldigo,
    Enveredo pelas sutilezas da madrugada
    dos Vira-latas, mordendo a minha própria raiva.

  3. Marcos Pinto. diz:

    Entre digos e desdigos, me vem á lembrança
    A leniência e a letargia do auge da pandemia COVID-19. Tudo parado. Lá vem a lembrança de que o grande Raul Seixas preconizou em sua música a certeza de que existiria “O dia em que a terra parou “.

  4. Marcos Pinto. diz:

    ….E por falar em malucos, o grande Ariano Suassuna, em um dos seus memoráveis relatos, narrou um episodio em que o pai dele durante o mandato de givernador da Paraíba foi inaugurar um hospital psiquiátrico, que primava pela terapia ocupacional. Como sempre acontece, o momento é marvado pelo ritual da solenidade. Todos postados, houve o desfile dos mentecaptos empurrando carr8s de mãos, numa pr8va de que existia terapia ocupacional.. Pois num é que passou um dos malucos empurrando o carro-de-mão virado pra baixo. Terminado o desfile, o governador perguntou ao dito doido porque ele usava o carro de mão virado pra baixo, tendo doido respindido que não era beata, porque se usasse nkrmalme te iriam col8car tijolos pra ele carregar..

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