Por Marcos Ferreira
Confiro as horas aqui no canto inferior direito do computador: meio-dia e vinte e dois minutos. Há pouco abri o portão e dei uma olhada na rua. Os postes da companhia energética continuam com as luminárias acesas. Até o momento o Sol não deu as caras. É isto, o dia não amanheceu. Este domingo de um outubro nefasto está encravado nas trevas. Alguns gatos lamuriam nos arredores deste domicílio. Não pude ver nem ouvir nenhum passarinho, apenas corujas e morcegos riscam o céu repleto de estrelas.
Meus vizinhos ainda não puseram a cara fora. O Conjunto Walfredo Gurgel parece morto. Um veículo sequer cruzou esta Euclides Deocleciano. Muito distante, porém, é possível escutar os estampidos de fogos de artifício. Não sei o que supostamente estão festejando. Uma angústia profunda toma conta do meu peito.
Levantei-me em torno das nove horas e me deparei com esta atmosfera sepulcral, inexplicável. Nenhum vestígio do astro-rei. Mesmo assim tomei banho na esperança de em breve as coisas se ajeitarem. Tolice! Nada se endireitou. Embora tenso, nervoso, fiz café e comi um pão francês com manteiga. Liguei a televisão durante uma meia hora e não obtive informação nenhuma sobre isto. Fiquei com a forte impressão de que somente este município foi tragado pelas sombras.
Outra vez, então, com mãos trêmulas e olhos incrédulos, abri o portão e fui observar a rua durante mais um tempo. Não deparei com uma só vivalma nas calçadas. Paisagem inalterada. A única mudança foi o vira-lata da senhora Esmeralda, que surgiu na esquina, farejou o meio-fio e urinou no poste de energia diante da residência do velho Agostinho Barata, aposentado dos Correios, que no mês passado completou oitenta e cinco anos de idade. Recolhi-me atordoado e dei continuidade a este relato distópico. O que terá ocorrido? Para onde foi o Sol? Não obtenho resposta alguma. Coço a cabeça e imagino que ainda estou dormindo, e que essa anomalia toda não passa de um pesadelo. Esfrego os olhos, porém constato que estou completamente acordado. Os distantes estampidos dos fogos de artifício não terminam.
Acho impossível que ninguém mais à volta de meu endereço não esteja aflito com tudo isso que ora me deixa atônito. O problema, no entanto, é precisamente a falta de um acontecimento natural e infalível, como o raiar do dia. A tevê não oferece nenhuma notícia ou explicação acerca deste evento insólito. Tudo o que a televisão exibe é tão somente os desdobramentos da eleição e dos políticos envolvidos neste pleito escatológico. Nada no tocante ao que neste momento presencio. Recuso-me a acreditar, repito, que ninguém mais esteja ciente do que se passa ao menos neste bairro. Exceto pelas regulares explosões dos fogos, tudo o mais é quietude e trevas.
Não suporto este fenômeno inexplicável. Acho que vou bater à porta da senhora Maria dos Remédios, vizinha que muitas vezes tem se mostrado uma pessoa bem informada. Se Remédios não tiver uma explicação razoável para este acontecimento estapafúrdio, ninguém mais terá. Pensando melhor, não vou consultar a vizinha. Pois não duvido de que isto seja mais uma das alucinações de minha mente enfermiça. Melhor colocar um ponto-final nesta narrativa terrificante e voltar para a cama. Quem sabe quando eu acordar de novo tudo se mostre em perfeita ordem.
Marcos Ferreira é escritor
























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