domingo - 28/06/2026 - 09:50h

Heimlich

Por Bruno Ernesto

Restaurante, foto do autor da crônica

Restaurante, foto do autor da crônica

Nem sempre o tempo permite aproveitar o almoço com a calma que merece, e você sabe bem disso.

Uma boa dica é tomar uma xícara generosa de café antes e outra após o almoço.

Mas nem tanta calma. Mastigar oitenta vezes antes de deglutir já é paciência demais.

Nem vamos falar sobre misofonia.

O certo é que, se for enfrentar uma fila num “selvisérvice”, aí que temos que ter paciência.

Tem gente que, quando não tosse, conversa ou espirra em cima do bufê; fica três ou cinquenta minutos separando a cebola do feijão verde; uns cinco ou sessenta minutos calculando o número de grãos de arroz branco que pretende comer; outros nove ou duzentos minutos para decidir se vai querer macaxeira frita ou cozida – e pensa que devemos aguardar o ritmo dela, como se o Código de Trânsito Brasileiro tivesse eficácia plena em frente à bandeja com salada de batatas – e, após, solenemente,  vai direto para aquela mesa que você estava de olho desde quando chegou ao restaurante.

Não sei você, – acredito que sim – mas, em certos restaurantes temos um garçom preferido. Não, não se trata de uma relação simbiótica ou que tomemos aquela sincronia como algo combinado.

Por vezes, uma cortesia, a rapidez no atendimento, quer seja pela ortodoxia, ou apenas e tão somente os santos se bateram.

A bem da verdade, também acredito que haja essa reciprocidade tácita entre nós e eles.

Ultimamente tenho evitado restaurantes pelos mais diversos motivos, mas, inevitavelmente, preciso frequentá-los.

Num deles surgiu um novo garçom, sempre impecável, e deve contar com seus menos de vinte e cinco anos de idade. Muito cortês, atencioso e atento. Lacônico desde sempre – isso pude perceber – mas com um profissionalismo pouco visto ultimamente.

Duas ou três vezes após o primeiro contato, notei que ele sempre me olha de modo enviesado quando pergunta o que quero beber para acompanhar o almoço.

Sempre digo a mesma coisa: nada, obrigado.

– Não vai beber nada?

Não, obrigado.

Ele põe as mãos nos bolsos da calça. Me olha dois ou três segundos, franze a testa e depois o canto da boca discretamente. Olha pra cima como quem não acredita, suspira e sai em direção à mesa ao lado. Não sem antes olhar novamente.

Acho que ele pensa:

– Esse cara nunca almoça bebendo nada! Vai se entalar!

Das seguintes vezes, aparentemente indignado, vai e volta. Olha de longe, de perto. Passa com um olho fixo, enquanto o resto do corpo segue.

Será que torce ou espera eu me engasgar?

Certamente diria: – Eu sabia!?

Acredito que não. Certamente não. Talvez não. Não duvido. Eu diria!

Como diz o velho brocardo africano, só um tolo testa a profundidade da água com os dois pés.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Marcos Pinto. diz:

    …E por falar em tolo, me vem ao bestunto a historia verdade verdadeira de um doido da minha querida e nunca esquecida Apodi. Trata-se de⁸ um tolo adoidaiado de nome “Neguinho de Jacó”. Pois num em uma noite de lua-cheia o dito doido pulou o muro baixo do Cemitério e se apossou de muitos Terços e Rosários pendurados em Cruzes fincadas em Covas de antigos defuntos e, em adiantado estado de loucura subiu a Serra Apodi onde existia um antigo Cata-Ventos do DNOCS (Departamento de Obras Contra as Secas) , ali instalado no governo do grande humanista Juscelino Kubistchek, atendendo solicitação do meu tio-avô Coronel Lucas Pinto, via Deputado Federal Major Theodorico Bezerra. O certo é que o doido subiu até o pico do cata-vento e passou toda a noite a cantarolar melodias sertanejas do grande Luiz Gonzaga Ao saber deste melodrama, a familia procurou o Delegado de Policia para que o meamo diligenciasse juntamente com três soldados convencer o doido a descer do Cata-vento. Após insistentes pedidos do Delegado, o doido respondia : Se quiser pode subir aqui e me dar voz de prisão. O ajuntamento da gente curiosa caiy em estrepitosa gargalhada. Alguns comentaram: pense num doido sabido !. Saudade do doido sabido da minha amada terra.

  2. Bernadete Lino diz:

    Ótima crônica! Certas situações de restaurantes são muito desagradáveis. As de selfie Service são horríveis. Agora que os protocolos de luvinhas foram abolidos, dá um certo receio de contaminação: pessoas que mexem no nariz e outras espirram e vão sujando o que tocam. Às vezes causam constrangimento a insistência de alguns garçons e a postura de vigias. Acho-as incômodas. Mas o que fazer? Quando viajamos é bem pior! Fico desconfortável quando a pessoa coloca o pão baguete no saco de papel e com a mesma mão pega o dinheiro e passa o troco, na França. Como eles se comportaram na pandemia? Depois desse comentário alongado, aconselho comer devagar pra não engasgar! Vai que o garçom não foi treinado em manobra de desengasgue!

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