domingo - 18/10/2026 - 08:28h

Mais do mesmo

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva em estilo de aquarela, com recursos de IA, para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva em estilo de aquarela, com recursos de IA, para o BCS

Ontem não teve jeito. Durante um bom tempo espremi a esponja do cérebro e não pingou nada. Desconfio de que hoje eu também não obtenha êxito neste exercício tantas vezes medíocre e solitário. Pois é. Outra vez aqui estou tentando tirar leite de pedra. Tarefa difícil. É sábado à noite, vinte horas e treze minutos, e não sinto que isto ultrapasse um parágrafo. Ainda assim, por incrível que pareça, alimento um tantinho de esperança. Quem sabe aos poucos a página vá sendo ocupada por algo digno de atenção. Vamos ver até onde isso continua brotando a duras penas.

Olho para os temas do momento e não me sinto disposto a abordar nenhum. A atmosfera inteira está repleta de política. Este é um assunto intragável para mim no presente instante. Desejo tão só que esse segundo turno passe logo, e possamos respirar aliviados. Os cargos de governador e presidente estão em jogo. Vejo-me chovendo no molhado. Todos têm pleno conhecimento disso.

Juju está enrodilhada ao pé da escrivaninha, tirando um cochilo. Mostra constante necessidade de ficar perto de mim. Há pouco, entretanto, corria de um lado para o outro mordiscando um dos seus brinquedinhos de plástico. Antes disso havia ido ao portão e latido para não sei o quê. Às vezes, como se quisesse apenas mostrar serviço, ela se comporta dessa maneira. Procura chamar minha atenção. Juju, perdoem a metáfora, é uma ótima pessoa. Possui mais humanidade do que certos indivíduos. Completará três anos no próximo dia 24 de novembro. Dá um certo trabalho, porém compensa na afetividade, no carinho e afeição que me dedica diariamente.

Bom, deixemos Juju tirar seu cochilo em paz. Ao menos agora ela não ocupa uma página. Indago a mim mesmo o que mais terei para transmitir nesta aventura de tirar uma carta salvadora da manga, uma crônica da cartola. Peço-lhes desculpas, então, por mais uma vez me ocupar com o repisado tema de escrever acerca dos apuros da própria escrita. Não quero enganar ninguém. Muitos cronistas de alto coturno, destaco, recorreram e seguem recorrendo a esse tipo de subterfúgio.

Tenho absoluta consciência de que a maior parte dos leitores sabe quando está sendo enrolada. Por isso é que não busco encobrir esse artifício. Aqui me encontro em papos de aranha e não vou bancar o dono da verdade e da razão. De forma humilde, portanto, entrego o braço à seringa. Por que não admitir que me agarro ao lugar-comum? Não vejo nenhum problema nisso. Penso que é melhor ser sincero do que mentiroso. Torço, entrementes, que perdoem minha falta de novidade. É mais um conteúdo pouco apetecível. Eis a realidade. Não me encontro inspirado, interessado noutro tema. Estou aqui, enfim, oferecendo mais do mesmo.

Juju continua dormitando ao lado da mesa; os olhos um tanto quanto entreabertos. O sábado passou voando. Aliás, reparando bem, esta semana correu feito um rastilho de pólvora. A duras penas, repito, percebo que escapei da esterilidade absoluta. Eis a página deste domingo. É o que temos para hoje.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

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