Por Ivan Maciel de Andrade
Devo admitir que considero delicioso — bote delícia nisso! — um livro escrito em 1985 por Augusto Severo Neto, com o título de “Ontem vestido de menino”, relembrando figuras e o próprio estilo de vida de Natal durante os anos 40 e 50.
Algumas dessas figuras são de uma riqueza humana tão extraordinária que se tornaram simbólicas de toda uma época de nossa cidade: Paulo Lyra, Luís Tavares, o Conde de Miramonte (João Alfredo Pegado Cortez), Luiz de Castro Cortês (dono do Zepelim, um quiosque “plantado bem no coração do Grande Ponto”), Luiz Romão (dono da Agência Pernambucana, que vendia as “revistas de maior procura da época”).
As melhores páginas são, a meu ver, sobre a antiga Doutor Barata e a Tavares de Lyra. Lá estavam lojas de artigos elétricos, de construção, de ferragens, armarinhos, confeitarias, joalherias, livrarias, farmácias, alfaiatarias, consultórios médicos e dentários e escritórios de advocacia. Era o comércio dos Lamas, dos Faraj, dos Calife, dos Gondim, de Limarujo, de Henrique Santana, de Amadeu Grandi, de Abrahão Tahim, de Vicente Mesquita, de Fortunato Aranha, de Amaro Mesquita, de Múcio Miranda, dos Farache.
Havia em Natal cinemas, bares, hotéis, lugares de encontros que constituíam verdadeiras instituições. Sua história reflete os costumes e as características socioculturais da cidade. Eram o Cine Polytheama, o Magestic, o bilhar do Acácio, o Royal Cinema, a “Rôtisserie”, o “OK” Bar, o Carneirinho de Ouro, O Cão Jaraguá, o Natal Clube, o Hotel Internacional, o Terpsichope Clube de Natal, o “Cova da Onça” (local de reunião de políticos).
O “Wonder Bar” era outro tipo de instituição. Segundo Augusto Severo Neto, “foi um capítulo à parte na vida noturna, lírica e ‘pecaminosa’ de nossa cidade”. Por sinal, eram numerosas as donas de boate (eufemismo de cabaré) que se transformaram em “rainhas da noite”: Maria Boa, Franscisquinha, Rita Loura, Belinha, Alaíde. Algumas desfrutavam de tanta popularidade que adquiriam o status de comerciantes bem-sucedidas, dignas do apreço ou pelo menos da complacência das famílias de “classe alta” menos preconceituosas.
Augusto Severo Neto foi empresário, poeta, apaixonado por literatura e por viagens. Tinha uma casa pitoresca na praia de Pirangi do Norte, em que recebia, com sua inteligente e simpaticíssima Lucinha, amigos de sua especial afeição. Nunca conheci ninguém que recebesse com tanta satisfação e soubesse criar um ambiente de tanta descontração, alegria, bom humor.
Havia música, poesia, bebida e liberdade para afirmar e contestar. Uma espécie de pequena Shangri-La, o mosteiro budista nas montanhas do Tibete imaginado por James Hilton em “Horizonte Perdido”.
Ivan Maciel de Andrade é professor, advogado, escritor e membro da Academia Norte-riograndense de Letras (ANRL)

























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