domingo - 28/06/2026 - 12:10h

O União das Aguilhadas

Por Carlos Eduardo Andrade e Silva

Arte ilustrativa cedida pelo próprio autor

Arte ilustrativa cedida pelo próprio autor

O futebol brasileiro não vive um grande momento. A seleção brasileira não passa confiança, não temos craques como protagonistas nos principais clubes do mundo, a arbitragem brasileira é um espetáculo de horrores e a imprensa esportiva, então…

Logo nos primeiros dias da preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2026, significativa parcela da imprensa esportiva passou horas dando ênfase a um lance bobo envolvendo o veterano volante Casemiro e o jovem atacante Endrick.

O carrinho do volante no atacante foi objeto de infindáveis debates. Houve quem apontasse até mesmo um indício de racha no grupo apenas com base em um lance entre dois atletas profissionais, que treinam munidos dos melhores equipamentos de proteção, em um gramado perfeito da charmosa Granja Comary.

Quando criança, sob a sombra de um pé de juá, geralmente acompanhado do saudoso Chico Carlos Oliveira e, por vezes, dos comentários engraçados de Chico Lequetê, acompanhei vários treinos do União das Aguilhadas (zona rural de Governador Dix-sept Rosado, região Oeste do RN), no antigo campinho do Pé de Tamarindo.

O escrete do esmeraldino das Aguilhadas tinha entre os selecionáveis: Peba de Chico de Panta, Cigano de Tião Viana, Miranda de Tião Carlos, Chico de Gato, César de Gato, Everaldo de Gato, Paulo de Gato, Ronaldo de Gato, Dé de Xoxó, Chagas de Anélio, Jacó de Elzira, Genário de Expedito Viana, entre outros.

Naquele campo, limitado por um cerrado de um lado, viuvinhas ao fundo e um cercado do outro, vi treinos protagonizados por jogadores sem equipamentos de proteção de primeira linha e vindos da labuta diária. Ali, sim, aconteciam divididas tão fortes que arrancavam o comentário ácido de Chico Lequetê:

— Vão quebrar a bola!

Há uma parcela da imprensa esportiva brasileira — uma turma tão necessitada de protagonismo, como se a partida de futebol fosse mero detalhe necessário para o brilho dos comentaristas — que se tivesse de comentar um treino daquele nível, chamaria a polícia de tão horrorizada.

Naqueles treinos do União das Aguilhadas havia, sim, entradas duras e divididas fortes. No entanto, era muito mais pela falta de técnica e pelo excesso de vontade de disputar a bola do que por qualquer outro motivo.

Já no treino da seleção brasileira, espera-se que prevaleça a técnica. E muita vontade e disposição. Na disputa por cada vaga de titular, se necessário, que demonstrem o mesmo empenho e a mesma coragem que o peladeiro tem ao colocar o pé nas divididas.

E para sair dessa fila de vinte e quatro anos sem títulos, se a seleção brasileira não pode contar com o protagonismo de grandes craques como outrora, que a taça venha na base da raça e da vontade — nem que seja preciso quebrar a bola.

Carlos Eduardo Andrade e Silva é colaborador do Blog, natural de Governador Dix-sept Rosado

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Marcos Pinto. diz:

    Parabéns para o inspirado historiador -Autor desta enlevante Crônica.. O homi fez a perfeita tessitura de uma marcante época.. E de arrepiar os cabelios do cocoruto do grande e inesquecível Câmara Cascudo. Não tuve como comter os diques da alma que transbordaram pelos olhos que vêem o mundo eapiritual. Abraçaço.

Faça um Comentário

*


Current day month ye@r *

Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2026. Todos os Direitos Reservados.