Por Marcos Ferreira
Assim como todos, embora sem dizer uma palavra ao longo de vários anos, sinto falta de certas pessoas que um dia pertenceram ao meu estreito círculo de amizades. Gente com quem eu mantinha um contato regular, quase que diário. Mas eis que algumas coisas sucedem e, quando menos nos damos conta, já se passou uma década ou duas sem que reencontremos aquele velho amigo extraviado.
Suponho que não tenho contato algum com o jornalista e escritor Vicente Serejo há uns dezessete anos. Senão um pouco mais; minha memória vai de mal a pior. Torço que esteja bem, gozando de boa saúde. Éramos bastante chegados naquela época mágica da Revista Papangu, versão impressa. Mestre notável no gênero da crônica, vez por outra soltava umas notinhas de incentivo a estes meus escritos sem estilo ou estilística.
Um dia, no entanto, sem que eu me desse conta nem soubesse o porquê, Serejo desapareceu do meu radar e do meu mapa afetivo. E vice-versa. Foi isso: perdemos o vínculo de repente; da noite para o dia. Súbito, portanto, nos tornamos dois confrades que seguiram direções opostas. Deve, obviamente, ter as suas razões para se manter silencioso e distante esse tempo todo. “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, diria o filósofo e matemático francês Blaise Pascal. Nunca mais tocou no meu nome, sequer uma vírgula. Nem toquei no dele. Hoje, contudo, ele me vem de novo à lembrança e me permito evocá-lo aqui. Sim, decidi lançar este sinal de fumaça.
Entre outras gentilezas, Vicente Serejo me presenteou com um exemplar de seu belo Canção da Noite Lilás, volume de crônicas que já não tenho. Doei todos os meus poucos livros quando minha casa (apenas um endereço, aliás) foi ao chão. Esse pequeno acervo está hoje nas mãos de Elias Epaminondas. Abandonei o hábito, o prazer de acumular livros físicos. Gosto de ler, continuo com a preferência pela forma tátil, assim mesmo costumo me livrar das brochuras quando termino de ler determinada obra.
Aqui ainda guardo, acomodados em uma cadeira, mais ou menos uns dez títulos de boa literatura. Inclusive um Dostoiévski. As três estantes de ferro também foram doadas na época em que a casa foi demolida. Os cupins desapareceram. Aqueles trezentos ou quatrocentos tomos eram perseguidos amiúde pelos devoradores de papel e madeira. Felizmente, graças à bondade de uma porção de amigos, foi erguida outra moradia. Projeto conciso, porém aconchegante. A anterior era algo inóspito.
Eis a situação em que eu e o craque da Cena Urbana nos encontramos atualmente: perdidos no tempo. Quiçá não esteja mais no Brasil. É um literato de talento cosmopolita, deveras universal. A sua bela escrita fará sucesso em qualquer parte do planeta. Produzo estas linhas, todavia não almejo com isso cobrar nada ou reatar aquela amizade não menos efêmera do que intensa. Foi eterna enquanto durou.
Torço, volto a dizer, que o senhor Vicente Serejo esteja em paz e com saúde. Não duvido de que tenha afivelado as malas e se mandado para Lisboa, Nova Iorque ou Londres. Também não me surpreenderá se tiver pegado um foguete do Elon Musk para Saturno, Marte ou Júpiter. A vida aqui na Terra vai se tornando cada vez mais insustentável.
Marcos Ferreira é escritor
























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