domingo - 20/12/2015 - 10:34h

Reflexões do notário

Por François Silvestre

“Nem sei o porquê desse “n” que se agregou ao nome da minha atividade”. É assim que seu Genaro, tabelião aposentado, refere-se à denominação da sua atividade.

Cáustico consigo mesmo, ao ponto de julgar-se estúpido, seu Genaro prefere pôr em si a culpa dos defeitos que aprecia nos outros. “Essa minha mania de ver nas pessoas as ruindades que são minhas”.

E assim, aparentemente despido de autoestima, vai tecendo com fina ironia o lençol furado que cobre a dignidade dos nossos tempos.

“Você tá vendo o cuidado das nossas autoridades locais com a economia de água”. Comenta ele. “Não se pode furar poços nem se abastecer além do máximo permitido”. Seu Genaro reconhece que é uma boa providência.

Mas pergunta: “Não pode furar poços, mas pode tocar fogo nas grotas”. E ele não tá falando dos incêndios criminosos ou acidentais. Não. Tá falando dos broques “legais”. Daqueles que são preparados durantes dias ou até meses, para depois queimar o pouco que ainda resta da vegetação nativa.

E junto com a vegetação morrem bichos e secam olhos d’água. “Água num pode buscar, mas pode tocar fogo”. Quais são os órgãos oficiais que cuidam da natureza?. “Talvez sejam os órgãos genitais de Zé Pelintra”.

Fora da vida notarial ele guarda mais alívio do que saudade. “Quando vejo um cartório, sinto arrepios”. E conta que ainda hoje tem pesadelos com carimbos. Reouve o senso de humor.

“O fórum e seus cartórios são engenhos de moer malucos”. Diz e completa: “E todos são escravos dos papéis”.

Seu Genaro, nos trinta e cinco anos de vida forense, colecionou cacoetes, tiques e assombrações. Foi do tempo da datilografia, fitas rubro-negras, capas de papel madeira. Estantes de cumaru e cadeiras de palhinhas. O cheiro de mofo mora no seu nariz.

Sua secretária chamava-se Clara. Cabelo preso por uma marrafa e óculos de grau grosso. Conta-se que Tibúrcio a flagrou acariciando o carimbo do protocolo.

Dona Clara arrumava os carimbos em filas, pelo tamanho. Pareciam soldados de chumbo, na batalha estulta da burocracia. O burocrata é um cupim de roer paciência.

Numa audiência de partilha, o inventariante passou mal e pediu: “Posso ir ao banheiro, dona Clara”? Ela não ouviu direito nem levantou a vista; só respondeu: “Faça um requerimento”.

Seu Genaro goza contando dessas. Certa vez ele deu ao inventariante uma relação de documentos necessários para o processo. Em casa, o interessado não conseguiu ler a letra do notário.

Voltou ao cartório. Seu Genaro viajara para Mossoró. E agora? Lembrou que seu Rivadávia, da farmácia, sabia ler letra ruim.

Ao mostrar o papel ao farmacêutico, seu Rivadávia disse: “Esse antibiótico, não tem; só o substituto. O xarope e os comprimidos eu tenho”. Disse e comentou: “Essa letra num é dos médicos daqui”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. naide maria rosado de souza diz:

    Adorável! Tudo incrivelmente real. Salve, Genaro.

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