domingo - 14/12/2025 - 03:38h

Retrato antigo

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Começo a escrever esta página às sete e onze da noite. É precisamente o dia 10 de dezembro deste restinho de 2025. Domingo passado, como raras vezes acontece, fui com Natália a um evento cultural. Cada vez mais a vida em sociedade (lugares cheios e com música alta) me desgosta. Não me sinto à vontade. Tenho a desagradável sensação de que vou topar com determinado indivíduo peçonhento, ou me envolver em algum tipo de situação embaraçosa. Ainda assim botei a cara fora e rumei para a referida programação.

Era por volta das vinte horas. Não descreverei o mencionado ensejo, cuja atração musical fez valer a pena colocar uma roupa melhorzinha e quebrar a rotina. Roupas comuns, devo destacar. Nada de coisa chique ou sofisticada: apenas uma calça jeans seminova, camiseta marrom de algodão e uns tênis baratos já com certa quilometragem. Ao contrário de mim, posso dizer que Natália estava graciosa, deveras bonita em um vestido preto bem-conformado, calçando sandálias de couro rutilante e com uma bolsa a tiracolo. Lógico que nesse dia ela foi a um salão dar uma arrumada no cabelo, algo com que não preciso me preocupar tendo estes escassos e grisalhos fios.

Apesar do introito, meu objetivo aqui não é relatar nada mais do passeio noturno de que usufruímos entre o Memorial da Resistência e a Estação das Artes Elizeu Ventania. O que de fato despertou minha atenção (tanto na ida quanto na volta) foi a lástima em que vive um expressivo número de indivíduos miseráveis que à noite podemos encontrar dormindo, deitados sob marquises de lojas no Centro, usando por cama somente pedaços de papelão e, quando muito, um cobertor velho e sujo com que se enrolam. Então, como fiz outras vezes, trago novamente este assunto para o BCS — Blog Carlos Santos. Sim, a miséria daquelas pessoas sempre me toca.

Fico agora a imaginar o que eles fazem, como se viram na rua para realizar coisas que, ao menos para nós, são tão banais, tão fáceis. Pois é, penso nessas pessoas diante da simples necessidade, por exemplo, de urinar ou defecar em algum ponto desta urbe. Podem crer. Esses infelizes devem enfrentar todo tipo de obstáculos quando são apertados por tais necessidades fisiológicas. Trata-se, repito, de figuras sem-teto, aos deus-dará. Não é difícil, a julgar pelo aspecto de alguns, deduzir que passam longo tempo sem tomar um banho, escovar os dentes, cortar o cabelo, fazer a barba. E as mulheres?

Como fazem, vivendo na sarjeta, para lidar com a menstruação, adquirir um absorvente? Suponho que são, entre os mendigos, as que mais sofrem. Miseráveis de várias idades ocupam nossas ruas, avenidas e praças. Entre esses estão crianças e idosos. Quanto a isso, porém, todo mundo tem conhecimento. O problema é que a grande maioria dos cidadãos abastados (é claro que há exceções) não dá qualquer importância; dizem para si mesmos que isso não é da conta deles, que é responsabilidade dos governos, dos homens e mulheres públicos. Muitos desses políticos também se fingem de cegos, olham tão só para o próprio umbigo. O Altíssimo, se quiser, que faça algo.

Mossoró, igual a outros municípios potiguares, brasileiros e do mundo, não dá a mínima para esses desvalidos, espantalhos urbanos que determinadas pessoas fazem de conta que não sabem de nada. Mas os “invisíveis” não podem ser ignorados por completo. Uma hora ou outra um deles nos atravanca o caminho, agarra um braço nosso e suplicam por caridade: algumas moedas, algo para comer. Há aqueles cristãos que se condoem, apiedam-se dos coitados, e lhes oferecem uma esmola, um prato de comida, um suco ou copo d’água. Cada um de nós, se tiver boa vontade, pode ajudar de acordo com suas condições. Basta ter amor ao próximo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Odemirton Filho diz:

    Infelizmente, meu caro, é uma realidade nua e crua que desde sempre assola este país. Parabéns por abordar assunto tão sensível.
    Abraços!

  2. Francisco Nolasco diz:

    Boa tarde, poeta e amigo Ferreira!
    Esse assunto é por demais dorido , recorrente e infelizmente insolucionável…a gente de boa vontade faz o paliativo e o problema continua crescendo…

    • Marcos Ferreira diz:

      Caro poeta Francisco Nolasco,
      Grato por sua leitura e opinião. É muita desigualdade e injustiça sob as barbas do Altíssimo. Só posso torcer pela compaixão do Todo-Poderoso.
      Abraços.

  3. Marcos Pinto. diz:

    Dói .muito na alma a cruel constatação de tão cruenta realidade : Poucos com tão muito, e muitos com tão pouco. De tanro investigar e interrogar, encontrei a xonvincente resposta na Doutrina Espírita Kardecista. Nesta encarnação, colhemos o que semeamos em encarnações anteriores. Só se colhe o que se planta. O plantio é livre. A colheita é obrigatória. Que DEUS nos ilumine e guie neste longo roçado meio espinhoso que é a vida.

    • Marcos Ferreira diz:

      Prezado xará Marcos Pinto,
      É muito choro e ranger de dentes. Tantos com tanto e tantos sem nada, como você bem disse. Mas a teoria da semeadura e da colheita me parece fatalística demais. Sendo assim, meu caro, esse pessoal do agronegócio deve estar do Inferno para dentro, salvo exceções. Torço que o Altíssimo seja menos severo.
      Forte abraço.

  4. Bernadete Lino diz:

    É uma paisagem que mexe com os sentimentos de quem os tem! Grande parte da população tem medo desses carentes que, no mais das vezes, acabam nas drogas. Não drogas sofisticadas; alguns pegam os trocados e compram cola pra cheirarem; os cheira-cola! Ficam embriagados no cheiro que neutraliza a fome. É um problema social que parece não ter solução. Essas pessoas não votam e não são interessantes para os governantes. Não dão retorno. Pessoas são objetificadas. Crianças são usadas para pedirem e ficam fora da escola. A gente sabe que ajuda um pouco e alivia, pelo menos a nossa consciência. O problema continua existindo. Faltam políticas públicas para atuarem de forma eficaz na solução desse problema que existe no mundo todo. Você viaja e encontra paisagem idêntica, com exceção para países onde a fome é zero. É doloroso ver situações assim e não poder resolvê-las.

    • Marcos Ferreira diz:

      Querida amiga Bernadete Lino,
      Sua sensibilidade e bom senso sempre me surpreendem positivamente. Muito obrigado por sua leitura e opinião neste espaço do BCS – Blog Carlos Santos. Uma semana abençoada para você, saúde e paz.
      Abraços.

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