domingo - 09/08/2026 - 03:00h

Selvagem da escrita

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Havia neste espaço um leitor cujo nome não me recordo mais. Sim, havia. Já não existe. Não ao menos que se manifeste de algum modo. Talvez, quem sabe, continue por aqui às ocultas, apenas conferindo o conteúdo do blogue sem dar um palpite a respeito de nada. O referido leitor, que não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, a exemplo de outros que frequentam este espaço de opinião e cultura, acompanhava em particular a minha produção, minhas crônicas. Pois é, o homem falava que me seguia desde o tempo em que atuei em outros periódicos, sobretudo em uma revista impressa que fez muito sucesso em Mossoró e também em Natal.

Tratava-se, a julgar por seus comentários em meus escritos, de um elemento dono de um intelecto acima da média. Isso, obviamente, me deixava um tanto vaidoso. Porque leitor é sempre uma categoria nobre e arisca, uma classe difícil de se cativar com qualquer meia dúzia de parágrafos. Esse, entretanto, deixou logo às claras que não perdia nenhum dos meus textos dominicais.

Comentava, entretanto, que tinha saudade do tempo em que eu, como um selvagem da escrita norte-rio-grandense, escrevia com o ímpeto de uma fera indomável e raivosa. É isso, o senhor Nelson Peixoto, vamos chamá-lo assim, volta e meia me açulava a retomar aquele estilo incivil que só me rendeu muitos desafetos e portas na cara. Naquela época, quando dos meus vinte e poucos anos, é verdade que minha parcela de leitores na dita revista era invejável. Eu me destacava no espaço do veículo destinado a publicar a opinião dos leitores.

A classe das mulheres e dos homens públicos, entenda-se os políticos, sofria um bocado com o meu verbo causticante. No mais das vezes, quando o chumbo era de grosso calibre, eu me escondia por trás de pseudônimos. Nunca fui molestado pelos engravatados, entretanto a revista ganhou alguns processos movidos por gente de poder e destaque no olimpo dos morubixabas e mandachuvas.

Hoje não faço mais isso. Sou agora uma espécie de Tereza Batista cansada de guerra, como na obra de Jorge Amado. Exceto pela adrenalina e aplauso de certo número de leitores, o fato é que não ganhei nada com aquele estilo metralhadora giratória. Não demorou para que os meus alvos ambulantes descobrissem que eu estava me escondendo nos criptônimos. Aí fui convidado a sair de pelo menos dois subempregos que ocupei neste País de Mossoró, suposta terra da liberdade.

A própria revista, sob forte pressão e influenciada por um marqueteiro da família Machado, também me apontou a porta da rua. Ou seja, terminei sozinho, fodido e mal pago. Atualmente, portanto, busco apenas sossego, e vou assim cultivando o estilo paz e amor. Por essas e por outras é que não embarquei na dica do entusiasmado Nelson Peixoto.

É isto. Depus as armas. Aposentei o trabuco e o soco-inglês da minha literatura camicase. Não tenho mais idade nem ânimo para aquela pancadaria toda. Sigo hoje no lirismo e na política da boa vizinhança. Ao prezado senhor Nelson Peixoto, acaso tenha acesso a este relato pacífico, peço desculpas por eu ter me reconciliado com esta cidade e deixado em paz os seus habitantes poderosos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

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