domingo - 07/06/2026 - 09:52h

Depois do medo, vem o mundo

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa (Arquivo)

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A frase acima, dizem, foi escrita pela poetisa Clarice Lispector. Não sei. Na verdade, para mim pouco importa a autoria. O importante é a reflexão que dela podemos extrair. Ademais, a leitura dominical deve ter leveza, para suavizar o coração. Mas quais são os nossos medos?

Com certeza, muitos enfrentam cotidianamente os seus medos. Temos incertezas que estremecem a alma e nos fazem vacilar na caminhada. Aqui e ali, tropeçamos. Ficamos na dúvida se as veredas que desbravamos estão corretas ou, talvez, pegamos o bonde errado.

Nesta vida desembestada, neste mundo das redes sociais onde quase tudo parece perfeito, ficamos a matutar se realmente estamos a fazer o certo. Ser CLT ou um empreendedor? Estudar e/ou trabalhar? Ou, quem sabe, tentar ser um influenciador de sucesso para ganhar muito dinheiro.

Nesse turbilhão no qual vivemos, com mentiras a mancheias, muitas vezes ficamos angustiados, pois a cobrança diária para sermos o melhor naquilo que nos propormos a fazer tornou-se abusiva. Em alguns casos, metas precisam ser cumpridas, sob pena de demissão, diminuição salarial ou empecilho para ascender na carreira profissional.

Quando lecionava, inúmeros alunos e alunas me confidenciavam que estavam com ansiedade, quiçá depressivos, com medo de não conseguirem ser aprovados na OAB e não lograr êxito na profissão. Eram pessoas jovens, tristes, sem o viço e a alegria da juventude.

É claro que é preciso se esforçar para alcançar objetivos, todavia, em tudo deve haver limites, sobretudo em respeito à saúde e ao bem-estar.

Decerto, cada um de nós sabe quais são os seus medos. Há os que temem não constituir uma família ou findar os dias sem alguém ao seu lado; no entanto, há quem prefira viver sozinho em seu mundo.

Enfim, depois de vencer o medo, vem o mundo, e, como já disse Nelson Mandela, “bravo não é quem não sente medo, é quem o vence”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/06/2026 - 08:14h

Antes que eles cresçam

Por Affonso Romano de Sant’Anna

Arte ilustrativa (Arquivo)

Arte ilustrativa (Arquivo)

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. É que as crianças  crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença.

Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto.

Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções.

Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta   dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais  vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir  sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e Cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto. No princípio  subiam a serra ou iam à casa de  praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis.

Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo  com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio  dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos.

Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes. O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.

Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025) foi escritor, professor e cronista brasileiro

*Texto originalmente publicado dia 9 de outubro de 2011 nesta página.

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  • Art&C - PMM - 09 a 30 de Junho de 2026 - Cidade Junina
domingo - 07/06/2026 - 05:44h

Lá de cima

Por Bruno Ernesto

Foto extraída dos endereços @hansenecotur @rnatural

Foto extraída dos endereços @hansenecotur @rnatural

O ciclo de chuvas na região Nordeste, sem dúvida, é o período mais aguardado pelo sertanejo.

A cheia dos açudes, com as tão esperadas sangrias, é um espetáculo que jamais perderá sua beleza.

Quando criança, acompanhava meu pai nas suas aulas de campo da então Esam, hoje Ufersa, onde meu pai era professor no curso de agronomia.

Por inúmeras vezes, passávamos o dia inteiro no meio da mata; ele explicando aos alunos e eu apenas a olhar ao redor, admirado com o aguçamento de todos os meus sentidos, especialmente o olfato e a visão; sentindo o cheiro de mato recém-quebrado, e, por vezes, o cheiro de chuva, além de ficar impressionado com a imensidão das planícies ou das serras e montanhas por onde passávamos.

O que mais me impressionava naquele tempo era a visão que tinha de cima das serras. O sertão era infindável dali de cima.
Diante de tudo aquilo, um pensamento recorrente me vinha à mente: como chegamos ali? Não nós, ali reunidos; mas como o homem ali chegou?

Para mim era tudo muito confuso, distante e estranho.

Com meu pai e os inúmeros alunos dele, pude percorrer locais que pouca gente tem acesso ainda hoje.

Vi açudes, montanhas, serras, rios, córregos, cavernas, minas, salinas, dunas, mangue, muitas cidades do interior e o sertanejo. Muitos sertanejos.

Foi assim que despertei, sem saber, para um dos assuntos dos quais hoje, poucas pessoas dão importância: a historiografia.
Evidentemente que muitos se dedicaram a escrever sobre o período colonial do Brasil, especialmente da região Nordeste brasileira. Sua ocupação, exploração e expansão territorial.

Entretanto, a árdua tarefa de análise e interpretação documental é sempre desafiadora a novas escritas. Mas nada como andar pelo sertão.

Com a historiografia de um lugar, é possível traçar como se deu a ocupação territorial de qualquer lugar. Pelo menos, seu passado recente.

No caso da região Nordeste, é incalculável a quantidade de registros históricos da sua ocupação; desde a chegada dos europeus ao continente sul-americano, sendo possível traçar o seu desenvolvimento nos aspectos econômicos, sociais e políticos até a atualidade.

Um aspecto relevante nos recortes históricos, é que, como qualquer outra região do mundo, a historiografia do lugar fez-se a partir de seus habitantes, hábitos, costumes e tradições.

Entretanto, mais que a geografia e o acaso, na historiografia, a convicção dos homens também moldaram o que hoje se vê.

Embora os fatos, em si, não sejam os únicos objetos de observação e estudo, uma vez que a historiografia observa e vai muito além dos homens como únicos protagonistas, é impossível querer explorar uma temática sem que se nomine seus atores. Ainda que não se possa fazê-la, exclusivamente sobre os mesmos.

No caso do sertanejo, basta buscar um pouco de nossa própria história familiar para constatarmos que a grande maioria de nos somos oriundos do interior.

Muitos de nós tem uma história ou tem registrado na memória as visitas de familiares, especialmente os avós, que moram em pequenas cidades do interior.

Talvez sejam as melhores recordações que muitos de nós temos da infância.

E nesses tempos de chuvas no nosso sertão, mais uma vez essas recordações se avivam em nossas mentes e nos faz reviver aquele bom e feliz tempo, renovando a vida com as cheias e sangrias dos açudes, revigorando a coragem e convicção do sertanejo.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 31/05/2026 - 12:50h

O delicioso ontem de Natal

Por Ivan Maciel de Andrade

Rua Tavares de Lyra na Ribeira do passado (Foto: Reprodução do Tribuna do Norte)

Rua Tavares de Lyra na Ribeira do passado (Foto: Reprodução do Tribuna do Norte)

Devo admitir que considero delicioso — bote delícia nisso! — um livro escrito em 1985 por Augusto Severo Neto, com o título de “Ontem vestido de menino”, relembrando figuras e o próprio estilo de vida de Natal durante os anos 40 e 50.

Algumas dessas figuras são de uma riqueza humana tão extraordinária que se tornaram simbólicas de toda uma época de nossa cidade: Paulo Lyra, Luís Tavares, o Conde de Miramonte (João Alfredo Pegado Cortez), Luiz de Castro Cortês (dono do Zepelim, um quiosque “plantado bem no coração do Grande Ponto”), Luiz Romão (dono da Agência Pernambucana, que vendia as “revistas de maior procura da época”).

As melhores páginas são, a meu ver, sobre a antiga Doutor Barata e a Tavares de Lyra. Lá estavam lojas de artigos elétricos, de construção, de ferragens, armarinhos, confeitarias, joalherias, livrarias, farmácias, alfaiatarias, consultórios médicos e dentários e escritórios de advocacia. Era o comércio dos Lamas, dos Faraj, dos Calife, dos Gondim, de Limarujo, de Henrique Santana, de Amadeu Grandi, de Abrahão Tahim, de Vicente Mesquita, de Fortunato Aranha, de Amaro Mesquita, de Múcio Miranda, dos Farache.

Havia em Natal cinemas, bares, hotéis, lugares de encontros que constituíam verdadeiras instituições. Sua história reflete os costumes e as características socioculturais da cidade. Eram o Cine Polytheama, o Magestic, o bilhar do Acácio, o Royal Cinema, a “Rôtisserie”, o “OK” Bar, o Carneirinho de Ouro, O Cão Jaraguá, o Natal Clube, o Hotel Internacional, o Terpsichope Clube de Natal, o “Cova da Onça” (local de reunião de políticos).

O “Wonder Bar” era outro tipo de instituição. Segundo Augusto Severo Neto, “foi um capítulo à parte na vida noturna, lírica e ‘pecaminosa’ de nossa cidade”. Por sinal, eram numerosas as donas de boate (eufemismo de cabaré) que se transformaram em “rainhas da noite”: Maria Boa, Franscisquinha, Rita Loura, Belinha, Alaíde. Algumas desfrutavam de tanta popularidade que adquiriam o status de comerciantes bem-sucedidas, dignas do apreço ou pelo menos da complacência das famílias de “classe alta” menos preconceituosas.

Augusto Severo Neto: vida poética (Foto: Reprodução do BCS)

Augusto Severo Neto: vida poética (Foto: Reprodução do BCS)

Augusto Severo Neto foi empresário, poeta, apaixonado por literatura e por viagens. Tinha uma casa pitoresca na praia de Pirangi do Norte, em que recebia, com sua inteligente e simpaticíssima Lucinha, amigos de sua especial afeição. Nunca conheci ninguém que recebesse com tanta satisfação e soubesse criar um ambiente de tanta descontração, alegria, bom humor.

Havia música, poesia, bebida e liberdade para afirmar e contestar. Uma espécie de pequena Shangri-La, o mosteiro budista nas montanhas do Tibete imaginado por James Hilton em “Horizonte Perdido”.

Ivan Maciel de Andrade é professor, advogado, escritor e membro da Academia Norte-riograndense de Letras (ANRL)

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 31/05/2026 - 08:00h

A matemática, o papa e a teoria do hexa inevitável

Por Marcello Benevolo

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Gostaria de dizer, logo de início e com a mais absoluta franqueza, que de futebol eu não entendo absolutamente nada. Sou daquele tipo que ainda precisa pensar duas vezes para entender a regra do impedimento. Mas, anotem aí o que estou dizendo: este ano, o hexa vem!

E eu não digo isso baseado em táticas de jogo, esquemas com falsos noves ou marcação sob pressão. Digo isso amparado em forças muito maiores.

Primeiro, porque eu tenho fé. E se o próprio papa Francisco já afirmou com todas as letras que “Deus é brasileiro”, quem sou eu, um mero mortal, para duvidar de Sua Santidade? Se o chefe lá de cima está do nosso lado, metade do caminho já está andado. Segundo, porque carrego aquele lema no meu DNA: sou brasileiro e não desisto nunca!

Mas o terceiro motivo é para os mais céticos. Eu acredito nos números, nas estrelas e nas coincidências cósmicas que regem o universo da bola. Vamos fazer as contas?

Quando o Brasil conquistou o tetra na Copa do Mundo de 1994, fazia exatos 24 anos da nossa última conquista, o lendário esquadrão de 1970. Pois bem. Sabe quantos anos faz que o Brasil não ganha um mundial? Isso mesmo, acertou quem gritou “24 anos” no fundo da sala! A última vez que a seleção levantou a taça foi na conquista do penta, em 2002. A matemática é exata e não costuma mentir.

E se você acha que as coincidências param por aí, espere até olhar para o mapa múndi. O Brasil foi tricampeão do mundo na Copa de 1970, realizada onde? No México. O tetracampeonato veio no campeonato realizado nos Estados Unidos, em 1994.

Agora, valendo um milhão de reais (na conta do editor), adivinhe onde será realizada a edição 2026? O jogo de abertura será no histórico Estádio Azteca, no México! E a grande final será disputada em solo norte-americano! É a geografia conspirando a favor da amarelinha.

Há, ainda, o fator drama, que nunca pode faltar na nossa história. A seleção brasileira de 1994 chegou àquele mundial completamente desacreditada. Estávamos todos traumatizados com aquela lambança na Copa de 1990, na Alemanha, quando a equipe canarinho fez as malas mais cedo ao ser eliminada ainda nas oitavas de final. Mas o time comandado por Parreira deu a volta por cima, calou os críticos, quebrou o amargo jejum de duas décadas e meia e levantou a taça, bordando mais uma estrela no peito.

Hoje, o roteiro é um espelho. O atual time, comandado pelo italiano Carlos Ancelotti, também chega para a disputa deste mundial sem muito crédito (para não dizer nenhum) por parte da sua torcida. O clima de desconfiança é o mesmo de quase três décadas atrás.

O cenário está montado. Os astros estão alinhados. Os números batem. A geografia concorda. Agora, para eu ter 100% de certeza de que o hexa já é nosso, só falta um minúsculo detalhe: os jogadores da seleção precisam entrar em campo nos jogos desta Copa de mãos dadas, exatamente como fez o time comandado pelo capitão Dunga lá em 1994.

Se isso acontecer logo na estreia… ah, meus amigos, podem preparar a festa. O hexa vem, e não tem quem tire!

Alô, CBF: fica a dica!

Marcello Benevolo é advogado e jornalista.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 31/05/2026 - 03:40h

Velhos hábitos

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

Não sei se você percebeu, mas o velho hábito de personalizar nosso lar e resgatar a memória dos nossos ancestrais, vem perdendo a força de forma silenciosa e cada vez mais rápido.

É como se o último elo de familiaridade, aquele sentimento de pertencimento a um lugar ou ter uma conversa sem cerimônia, estivessem saindo de cena. O apagar das luzes.

Certo que algumas crenças e superstições ainda são levadas muito a sério, como, por exemplo, aquela de que se manter fotografias de parentes defuntos na mesa de cabeceira é um convite para fazer companhia no além mundo.

Não sei. Mas se acreditam, talvez já tenha acontecido.

O traço comum, o trejeito, os cabelos, o olhar e a expressão é fácil indicador que pode nos levar àquela que foi, talvez, a última conversa parental.

Você se olha no espelho e, de repente, parece um tio-avô.

Recebe a ligação de um primo e percebe que ele agora fala igual a um tio.

Porém, uma simples fotografia tem a capacidade de resgatar tudo isso de volta numa fração de segundo.

Experimente olhar para uma foto de um momento que jaz esquecido na memória.

Nem sempre a lembrança pode ser das melhores. Vem os conselhos, vem as observações e nem sempre o que se fala, e quem lhe fala são os melhores. Ainda que parentes. Embora não seja regra.

Como diz o velho ditado: sempre escute duas vezes. Primeiro o que lhe dizem. Depois, quem lhe diz.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 24/05/2026 - 15:38h

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Por Bruno Ernesto

Peça “A Invenção do Nordeste”, Grupo Carmin, Teatro Lauro Monte Filho Foto: Bruno Ernesto, 14/05/2026)

Peça “A Invenção do Nordeste”, Grupo Carmin, Teatro Lauro Monte Filho (Foto: Bruno Ernesto, 14/05/2026)

Todo palco teatral é, e sempre deve ser, um espaço sagrado, livre de mordaças, instigador, contestador, incitador, revolucionário e, sobretudo, acolhedor.

Arte que é arte, deve provocar os melhores e piores sentimentos em nós. Nisto reside a sua essência.

A maturidade de um povo se mede também pelo alcance da arte. A identidade e memória de um povo passa pela cultura; arte, literatura, cinema e teatro.

A arte pode ser o remédio para muitos males e mazelas, muito embora seja necessário reconhecer que ainda precisamos avançar muito para que ela seja e esteja, de fato, ao alcance de todos.

O apoio à cultura deve ter mão dupla, incentivar e apoiar tanto quem produz quanto quem a consome, num verdadeiro processo simbiótico, pois não podemos criar, permitir ou manter um abismo estrutural, geográfico e econômico, de modo a impedir o seu pleno acesso. Na cultura não deve existir elite.

Neste ponto, é dever do poder público manter uma política cultural permanente, especialmente para os artistas locais os quais, muitas vezes são os primeiros a nos apresentar a face viva da arte e cultura, porém são injustamente preteridos. É um paradoxo.

Tomemos como exemplo o que a Noruega estabeleceu como política de incentivo cultural, ao exigir que toda cidade mantenha um teatro, mínimo que seja, de modo a garantir o acesso da população local a grande parte os espetáculos, o que fortalece tanto os grupos teatrais locais quanto a própria comunidade, que tem acesso fácil aos espetáculos.

Uma coisa se interliga com outra. Se há um evento cultural, toda a cadeia econômica local se beneficia instantaneamente.

E isso reflete diretamente em outros campos da economia como, por exemplo, a redução da jornada de trabalho, renúncia de receita fiscal, valorização de espaços, busca por conhecimento cultural, dentre tantos outros aspectos.

Parece inatingível para nossos padrões, não é? Mas, e se fosse uma realidade?

A capilaridade cultural é extremamente importante e necessária para toda e qualquer política cultural, pois ninguém deixa de prestigiar o que está ao seu alcance, especialmente o livre acesso à cultura.

Assim, a inauguração ou reabertura de qualquer equipamento cultural é sempre motivo de comemoração, não só para a classe artista, mas para todos que fazem parte dessa engrenagem cultural, especialmente para o público, que sempre aguarda por bons eventos, com mais espetáculos, mais literatura, mais arte e mais lazer.

E é justamente o caso do Teatro Lauro Monte Filho que, após dezoito anos sem atividades, foi reaberto no último dia 14 de maio, e pelos próximos vinte anos abrigará o projeto Banco do Nordeste Cultural, ampliando a rede cultural na cidade de Mossoró/RN e região.

Foi emocionante assistir à sua retomada, ver aquele palco pulsar novamente, e saber que nele não deve haver neutralidade, lado A ou lado B, dualismo ou dicotomia, pois o torpor que ele proporciona é único, e tão democrático, que nele há espaço para Deus e para o Diabo – às vezes até ao mesmo tempo -, e ambos agradam à plateia.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM @ihgmossoro e curador do portal cultural marsertao.com @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica / Cultura
domingo - 24/05/2026 - 06:40h

As mangas de doutor Paulo Renato

Por Marcos Ferreira

Imagem ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Imagem ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Vejam só o título a seguir: “As mangas de doutor Paulo Renato”. Pertence a um texto homônimo de autoria do poeta e prosador mossoroense Júlio Rosado. Recebi o link com o conto (este o gênero literário em destaque) enviado através do WhatsApp pelo próprio Júlio. O enredo foi publicado no Blog João Dantas, mais precisamente no dia 19 deste mês. Trago aqui essa informação por julgar que o referido conto merece, ao contrário das mangas, ser saboreado por outros leitores.

Admito que o nome do relato não me causou muita curiosidade. Avançando na trama, porém, senti logo que não era mais possível não ir adiante. Isto porque Júlio Rosado sabe contar uma história e prender o leitor com admirável competência. Foi o que se deu comigo, que a princípio julguei ter em mãos uma simples crônica ou um mero artigo.

O doutor Paulo Renato, a exemplo da senhora Gildete, pessoa esta de idade avançada e saúde precária, não recebem muito tratamento descritivo. Aliás, pouco sabemos acerca dessas duas personagens. E isso já é o bastante, sem prejuízo para o desenrolar dos fatos. Considero que as mangas é que assumem o protagonismo da fabulação. Exato, as frutas são as protagonistas da narrativa.

Nada mais comentarei a respeito da urdidura que lhes recomendo ler. Agora o que me resta é providenciar um pouco de café para animar as minhas ideias, deitar na página fluorescente do computador algum assunto que também desperte interesse nos leitores. Sei que ultimamente estou deixando a desejar nas linhas que remeto ao BCS — Blog Carlos Santos. É isso mesmo, estou devendo ao meu editor uma página à altura desse espaço de opinião e cultura.

Quem sabe seja interessante requentar um tema mais badalado, o das guerras que estão em curso no Oriente e Europa. Os Estados Unidos, país que possui o maior número de armamento nuclear, não querem permitir que o pequenino Irã também desenvolva as suas armas atômicas. É um poder soviético, como se dizia antigamente no tocante a algo muito autoritário.

Ninguém, todavia, suporta mais falar em guerras. Porque isso é despejado de maneira abundante na cabeça de todo mundo via televisão, internet e redes sociais. Alguém aí tem por acaso um tema que possa me recomendar? Estou aberto a sugestões. Não esqueçam as mangas de doutor Paulo Renato.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 17/05/2026 - 08:50h

O dobro

Por Bruno Ernesto

Missa Convento Santo Antônio/RJ (Foto de autoria de Bruno Ernesto, 01/2026)

Missa Convento Santo Antônio/RJ (Foto de autoria de Bruno Ernesto, 01/2026)

Ajudar alguém nem sempre é questão de princípio. Por vezes, pode ser de meio e, até mesmo, de fim.

Pior do que o calor, falta de tempo ou quando alguém mastiga de boca aberta ao seu lado cuspindo mais do que come, sugando o café feito um aspirador de pó de 1500 watts de potência, conversando aos berros na mesa ao lado, escutando mensagens de uatizape no volume máximo, como se estivesse em casa sentado no vaso sanitário – algumas delas indecorosas -; sem falar naquelas gargalhadas hiperbolicamente desproporcionais e descompassadas, dentre outras coisas, nada pior que ser abordado por um pseudoprofeta.

Não sei você, caro leitor; mas acredito que ultimamente alguns deles estejam considerando que deixei de criar gatos e adotei baphomet como animal de estimação.

Talvez até tenha cadastro ativo de Mémé – sim, é o seu hipocorístico – no programa SinPatinhas, na plataforma pontogove.

Amiúde, e em locais cada vez mais improváveis, tenho sido abordado por oradores ávidos por me desencapetar e, confesso, fico surpreso com algumas abordagens.

Às vezes chego até a me aliviar por pensar tratar-se de um assalto. Ledo engano.

Não se engane; numa fração de segundo – milionésimo de segundo, melhor dizendo – todos nós somos potencial, perigosa e repetidamente violadores de leis. Ora divinas, ora morais, ora seculares.

A par disso, numa dessas abordagens, após muita insistência e já estar encabulado por ter aquele braço em riste mirando meus olhos com um panfleto na ponta dos dedos, tal qual uma baioneta, perguntei o porquê dele concluir que eu precisava de uma oração enquanto tomava um café e esticava as pernas num canto.

Olhei para a mesa e tive certeza que não havia adoçado o café. Também não estava com o fecho-éclair das alças aberto – estava sentado – ou mesmo fumando – parei há muito tempo. Nem mesmo blasfemei.

Será que aparentava estar contrito? Onde pequei, afinal?

Aliás, se me permitir uma colocação neste ponto do texto, proponho aos proprietários de restaurantes, cafeterias, sorveterias, clínicas médicas, hospitais etc., que instalem um decibelímetro, se não em cada mesa ou assento, ao menos num lugar visível; e se pensam em laurear alguém considerando a métrica, a disputa será acirrada.

Após uma breve contenda espiritual, enquanto eu bebericava calmamente o café, ele se virou e me abençoou com um sentimento preterdoloso tão genuíno e um olhar tão fulminante, ao dizer que Deus lhe daria em dobro tudo o que eu lhe desejasse, que não me contive e concluí aquela oração: então, certame iremos de mãos dadas para o inferno.

Você também já pensou.

Quem nunca?

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica
domingo - 10/05/2026 - 11:44h

Cortez Pereira

Por Honório de Medeiros

Cortez Pereira enfrentou forças da própria Arena, seu partido, no governo e política (Foto: reprodução)

Cortez Pereira foi governador do RN (Foto: reprodução/Arquivo)

Conheci Cortez Pereira pessoalmente quando, presidente do Centro Acadêmico do curso de Direito, convidei-o para proferir palestra acerca das relações entre marxismo e Filosofia do Direito, em um dos seminários que nós regularmente promovíamos.

De pronto, aceitou.

Na ocasião, dentre as críticas ao marxismo por ele esgrimidas, estava a do descompasso entre as previsões de Karl Marx quanto ao surgimento da revolução socialista na Inglaterra – único país, naquela época, que cumpria a necessária etapa do aprofundamento das contradições da classe burguesa através da revolução industrial -, e o fato de o processo revolucionário ter acontecido na Rússia feudal.

Perguntei-lhe se a teoria de Lênin acerca da tensão revolucionária queimar a etapa da ascensão da burguesia não seria correta, ao que ele me redargüiu que a tese carecia de comprovação histórica. Perfeito.

É difícil explicar nosso fascínio juvenil por Cortez Pereira naquela época, pois ele era um liberal e havia sido Governador através do Movimento de 64, enquanto nós, no verdor de nossa carreira intelectual, ávidos para salvarmos o Brasil e o mundo, pertencíamos a algum dos matizes esmaecidos da esquerda tupiniquim.

Talvez a presença de sua retórica envolvente, misto de conhecimento técnico e arroubo poético; o eco de sua difícil e romanesca vitória no concurso para professor de Introdução ao Estudo do Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; suas memoráveis defesas de projetos e programas de Governo e, principalmente, sua imolação no altar da ditadura, através de uma cassação hipócrita, fruto de politicalha, tivesse construído essa aura de respeito que lhe tributávamos.

Pouco depois, ainda no tempo em que todos os cursos da Universidade Federal do RN (UFRN) colavam grau juntas e o orador das turmas concluintes era escolhido por concurso, nós o tivemos como paraninfo – salvo engano a primeira homenagem pública pós-cassação.

Quando terminou de nos falar pediu ao cerimonial que me trouxesse a sua presença para confirmar se eu, “de fato, pelo que pude perceber do seu discurso, não era mais marxista”.

Disse-lhe que estava em fase de transição, ele me abraçou dizendo baixinho: “também eu sonhei seus sonhos”.

Entretanto, o mais emocionante dos momentos que vivi através de Cortez Pereira ocorreu quando assisti seu depoimento em “Memória Viva”.

Várias vezes meus olhos se encheram de lágrima – uma delas mais intensamente: ele nos contava, aos seus interlocutores e espectadores, qual o instante mais intenso que vivera no seu Governo, e não hesitara em dizer que fora aquele no qual, no final de uma tarde, pleno pôr-do-sol, arriou a Bandeira do Brasil do seu mastro, saudado por quase uma centena de cantadores de viola que tinham vindo até o Palácio Potengi prestar-lhe uma homenagem.

Agora, na maturidade, ainda permaneço fascinado pela concepção estratégica de seu plano de governo e sua capacidade de agregar valores humanos no seu entorno.

Tão importante é sua contribuição, nesse aspecto, que ela permanece como referência aos políticos e administradores públicos.

Honro sua memória com essas lembranças quase esmaecidas e o respeito que alguém intelectualmente superior sempre nos suscita, quaisquer que tenham sido seus erros, se os houve.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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domingo - 10/05/2026 - 09:44h

Tenho minhas dúvidas

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Em vários sites de notícias do país (UOL, CBN e G1, entre outros) consta que o nosso vice-presidente da República, o doutor Geraldo Alckmin, em entrevista ao Estúdio i Globonews, andou defendendo o estabelecimento de mandato, portanto com limitação temporal de exercício, para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, isso seria já “um bom caminho na reforma do judiciário”.

Tenho minhas dúvidas.

É verdade que, em muitos países da Europa, os membros das cortes/tribunais/conselhos constitucionais têm mandatos com limitações temporais devidamente estabelecidas. Por exemplo, o Tribunal Constitucional espanhol é composto de doze membros, não vitalícios, com mandatos de nove anos, renovada uma terça parte a cada triênio. Já o Tribunal Constitucional italiano é constituído por quinze membros, com mandatos de nove anos, sem recondução.

O Conselho Constitucional da França é composto por nove conselheiros, e o mandato é de nove anos, vedada a recondução, salvo do membro que tenha assumido, em substituição, um mandato tampão (curiosamente, os ex-presidentes da República Francesa vivos são membros natos do Conselho, embora, por tradição, não exerçam os seus ofícios).

Segundo a Constituição Portuguesa de 1976 (e suas sucessivas revisões), o Tribunal Constitucional é composto por treze membros, com mandatos, pelo que me recordo, de nove anos. Para o Tribunal Constitucional Federal alemão, composto por dezesseis membros, os mandatos são, se não me engano, de doze anos. E por aí vai.

Mas estamos diante, nos exemplos dados acima, de verdadeiras cortes constitucionais, que, fazendo parte ou não da estrutura do Poder Judiciário de cada país, têm funções eminentemente políticas. Nos países acima referidos, nas suas arquiteturas constitucionais, convivem com as respectivas cortes/tribunais/conselhos constitucionais, guardadas as devidas competências, os seus diversos tribunais supremos, cujos juízes, via de regra, como não poderia deixar de ser, são estáveis/vitalícios.

O nosso STF não é apenas uma corte constitucional. É acima de tudo um tribunal supremo – e a sua larga competência criminal não nos deixa dúvida sobre a minha afirmação.

Na verdade, o nosso modelo de Tribunal Supremo/Constitucional está inspirado na Suprema Corte dos Estados Unidos, em que o conceito de vitaliciedade dos seus membros – apelidados de Justices – se aplica na “precisão integral do termo” (para usar a bela expressão uma vez cunhada pelo nosso Euclides da Cunha – e me desculpem o trocadilho): eles não têm uma aposentadoria compulsória a certa idade; querendo, eles só partem da US Supreme Court quando partem desta vida.

A meu ver, o problema com o nosso STF não está no modelo de indicação de seus membros ou mesmo no estabelecimento ou não de mandato para o exercício do cargo. Claro que um ajuste aqui, outro acolá, pode ser discutido, como, por exemplo, a exigência de um quórum maior para aprovação no Senado (isso evitaria a indicação de sectários). A solução para que tenhamos sempre bons ministros do STF está mais na correção e transparência do processo de escolha (com a participação altiva do Senado Federal), no acompanhamento constante por parte da sociedade da inteireza do exercício dos cargos, do que em “coelhos tirados da cartola”.

Para falar a verdade, tenho medo de que se tente, a essa altura do campeonato, inventar tronchamente a roda. Acho até que essa coisa de mandato pode politizar ainda mais a Corte – e falo partidariamente mesmo. Sobretudo se permitida a reeleição… ops, digo, recondução.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Artigo
domingo - 10/05/2026 - 08:22h

A praça da vergonha

Por Bruno Ernesto

Imagem de autoria do autor da crônica

Imagem de autoria do autor da crônica

Há exatos noventa e três anos, em dez de maio de 1933, uma fogueira ardeu bem em frente à Universidade Humboldt, em Berlim.

Embora hoje quase não lembre mais uma praça, a Bebelplatz testemunhou o prelúdio de um período sombrio, não só para o povo alemão, porém do mundo inteiro, e que até hoje parece estar em processo rescaldado.

O ato simbólico daquele dia foi eficazmente substituído por outros mecanismos que destilam o ódio e a intolerância utilizando agora mecanismos altamente sofisticados, porém eficazmente silenciosos, como a gentrificação, o isolamento social, o radicalismo político, a segregação religiosa e a já tão conhecida e clássica segregação econômica; além da massificação da frustração pessoal. Talvez esta seja o motor da nova era.

Pensando bem, hoje em dia, queimar livros pare ser coisa de amador; além de que não é um ódio civilizado. Ser explícito demais nem sempre é um excelente método.

Diria que o segredo da maldade está justamente na voz mansa, na mão meio estendida que lhe aperta com as ponta dos dedos, e um sorriso enviesado.

Se você não percebeu, a civilidade do ódio e da intolerância parece ser mais apreciada e valorizada pois utiliza a mesma lógica do magarefe: são poucos os que querem esfolar, mas são muitos os que não dispensam um bom corte de carne no prato.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 03/05/2026 - 10:46h

As minhas janelas

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Estou lendo algumas crônicas de autoria de Paulo Mendes Campos. Segundo Flávio Pinheiro, em prefácio de um livro que reúne alguns textos do cronista, Mendes Campos “iluminou becos sem saída da vida, mas não cuidou apenas deles. Suas meditações eram temperadas por um ceticismo produtivo, para além do que há de enfadonho no niilismo ou de cômodo no pessimismo. Sempre teve, porém, um olhar perspicaz para descobrir o sabor oculto nas miudezas e circunstâncias da vida, com humor e ironia refinados e uma destreza para lidar com as palavras decantadas em invenção poética”.

Entre as crônicas, uma salta aos olhos. Trata-se de Minhas janelas, na qual o cronista discorre sobre a visão que tinha através das janelas das casas onde morou. Por ali, ele via o mundo em derredor, o vai e vem das pessoas, o caótico trânsito das regiões metropolitanas. “Morei em Belo Horizonte, no Leme, Copacabana, Leblon, Botafogo, Silvestre, andei aí pelo Brasil e por outros países”. Com efeito, o cronista perscrutava era a sua alma à procura de respostas.

Cá de minha parte, não posso afirmar que sou um andarilho. Quando eu era adolescente, morei por um ano na capital Alencarina. No entanto, a saudade bateu, e logo retornei à minha terra natal. Nunca tive – e não tenho – vontade alguma de sair do meu torrão, de residir em outras plagas. Viajar é bom, mas voltar pra casa é “felomenal”, diria Geovanni Improtta, personagem interpretado pelo ator José Wilker.

Assim, recuando no tempo, da janela da casa localizada na rua Tiradentes, n. 53, eu via a torre da igreja que foi trincheira para combater o bando do cangaceiro Lampião. Via seu Pedro Borges e dona Zélia, ao entardecer, sentados na calçada, saindo, vez ou outra, no Corcel I, verde. Eu via os meninos que moravam na rua jogando bola ou pedalando as suas bicicletas; via o pequeno muro da frente da casa de seu Sebastião Vieira e dona Ritinha, onde se cultivava um pequeno jardim.

Vislumbrava, outrossim, o vetusto prédio do Cine Teatro Caiçara. Aliás, permita-me fazer um parêntese. Certa vez eu assisti a uma peça de teatro no Caiçara, e nunca esqueci as palavras da atriz Aracy Balabanian, no palco, ante um prédio deteriorado e sem estrutura: “se os artistas de Mossoró fazem teatro nessas condições, eu também estou aqui para fazer”.

Pois bem. Através de uma janela lateral, eu via o quintal da minha casa, com um frondoso pé de seriguela que, não sei quantas vezes, deu sabor aos dias da minha infância. Pelas janelas da minha alma, eu via sonhos enquanto menino/adolescente que buscava desbravar o mundo.

Contudo, em nossas vidas nem sempre conseguimos cumprir o roteiro traçado, pois vamos, paulatinamente, construindo a nossa história, às vezes, por caminhos outros. Entretanto, nada tenho a reclamar, somente agradecer.

O narrado acima são recortes de tempos idos; as minhas janelas. Hoje, porém, vejo que é na sutileza dos detalhes que encontramos a grandeza da vida.

Por derradeiro, transcrevo as palavras do cronista Paulo Mendes Campos, extraídas da crônica anteriormente citada:

“Ando cansado de andanças, isto é, a idade vai chegando. Não quero mais ir, quero ficar; não quero mais procurar, quero conhecer o que já encontrei; para quem sou, as alegrias e as tristezas que tenho já estão de bom tamanho”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/05/2026 - 08:50h

Tirna

Por Bruno Ernesto

Chaleira no fogão à lenha Foto: Bruno Ernesto)

Chaleira no fogão à lenha (Foto: Bruno Ernesto)

É curioso observar como um simples hábito pode se transformar em um retorno à simplicidade.

Esse modernismo exacerbado, essa esterilização cultural, a restaurantização, parecem comprovar a teoria de Charles Darwin.

Aliás, de todas as grandes teorias, parece que ela é a única que vem se fortalecendo a cada dia e, claro, não podemos contabilizar neste raciocínio as teorias conspiratórias isoladamente, pois elas estão inseridas na própria teoria evolucionista darwiniana.

Claro que a modernidade – os novos tempos – e a praticidade que ela proporciona, mudaram definitivamente nosso modo de viver e sobreviver.

Ninguém em sã consciência quer lavar roupas à mão, passar roupa com ferro à brasa, viajar mil quilômetros no lombo de um cavalo ou buscar água na lata para abastecer sua casa; embora às vezes seja necessário fazer o complicado, porém não desútil.

Acordar às quatro horas da manhã e acender o fogão à lenha não é minimamente praticável para quem vai pegar um voo às sete horas, ou deixar o filho no colégio em idêntico horário.

Mas, guardadas as proporções, se você tivesse tempo e disposição, vez ou outra, certamente faria isso.

Se você pudesse, certamente gostaria de acordar sentindo o cheiro de café, queijo e ovos caipiras sendo preparados num fogão à lenha, fumaçando deliciosamente na cozinha e perfumando a sua roupa.

Não tenho dúvida que o seu lado piromaníaco lhe faria observar por vários minutos a labareda lambendo o fundo da panela e a carimbando de tirna.

Talvez, até mesmo se disporia a cortar a lenha, cheiraria o pedaço de queijo de coalho amarelo – deliciosamente gorduroso -, separaria os ovos caipiras e moeria o café manualmente na noite anterior, já sentindo o gosto e cheiro deles sendo preparados.

Até demoraria para dormir de ansiedade.

Carl Jung ficaria orgulhoso dessa sua sincronicidade.

Não duvido que também olhasse para aquela galinha pedrês solta no terreiro, e a imaginasse coberta de coentro, cebola roxa, perfumada com cominho e lateada por batata doce, feijão de corda com nata, arroz de leite, farofa e uma maxixada.

Se pudesse, vez ou outra, chegaria ao compromisso cheirando à fumaça, com as mãos sujas de tirna, mas de corpo e mente limpos e perceberia que nem sempre o que facilita a nossa vida é o melhor para ela.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - 09 a 30 de Junho de 2026 - Cidade Junina
domingo - 03/05/2026 - 04:30h

Outras recordações

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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Penso agora no tempo dos primeiros passos, os avanços que demos. É isso. Poderia ter se livrado de mim naqueles anos do Facebook. Teria pulado uma fogueira, como se costuma dizer. Mas não, ela não me ignorou na rede social do Mark Zuckerberg nem quis pular a tal fogueira. Algo em mim, de modo recíproco, agiu de um jeito que fomos passo a passo nos aproximando. Continuou me dando fôlego, a encorajar os meus sutis e dissimulados galanteios, certas atitudes, fagulhas de ousadia. Coisa discreta, com disfarce, subjacente tipo assim uma brasa ainda viva que arde por baixo das cinzas.

O clima foi melhorando, ganhando afeições, encantamento, elogios moderados. Até que um amigo comum nos apresentou em certa ocasião. Um seu colega de trabalho que enfeitou ainda mais este pavão desimpedido àquela época.

Com pouco já havíamos adquirido certo entrosamento, trocamos afinidades. Vieram alguns elogios (todos recíprocos) e, quando me dei conta, nossos números telefônicos estavam compartilhados. Devagar transcendemos a rede social do americano cheio da grana. O celular, que naquele tempo era bastante caro, tornou-se o elo, o meio pelo qual um dia estreitamos laços. Não revelarei aqui o dia, porém informo tão só que foi em um feriado nacional quando em uma noite de setembro nos colocamos cara a cara. Isso já tem dez anos. Aí todo o cerca-lourenço findou.

O jogo foi aberto, tudo posto às claras, e a pequenina brasa do desejo já estava exposta. Então nunca mais nos desgrudamos. Até parece que foi ontem. Alguns meses depois, infelizmente, surgiram tribulações, passei por grandes terremotos e maremotos existenciais, contudo ela não me largou, continuou ao meu lado, não pulou a fogueira do meu desgoverno. É isso aí, eu me encontrava desgovernado. Enfermo sem tratamento, sem diagnóstico.

Fui parar em um famoso e extinto manicômio deste município; minha situação se complicara, exigia uma medida extrema. Ainda assim não me virou as costas. Nossos amigos entraram na raia, deram apoio, todavia foi ela quem segurou a barra, continuou firme junto a mim. Não demorou e recobrei a razão, tomei remédios fortes e readquiri o prumo. Sigo em tratamento até hoje.

Ela foi (ainda é) o maior e melhor presente que ganhei na vida. Ora retomo este assunto, quem sabe esteja me repetindo, porque existem alguns momentos em que a rotina, a monotonia, concorre para que esqueçamos do quanto bonita e vencedora é nossa história. Uma história que merece ser escrita, louvada e enaltecida sempre que este coração disser que sou privilegiado por tudo. Outras recordações, a exemplo destas, poderão surgir novamente. Não cansarei de me repetir.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/04/2026 - 06:44h

Nasce um poeta

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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Semana passada, talvez na terça-feira, um rapaz de minha rua, residente bem perto de minha casa (somente dois números distante de meu domicílio) disse-me que precisava que eu o ensinasse a escrever poesia. Sim. Fiquei impactado, quase sem voz. Custei uns dois segundos a quebrar o silêncio. Eu me encontrava nesse instante com uma pequena enxada limpando uma ilhazinha teimosa de capim que surgiu ao pé de minha calçada.

Ele ia passando de bicicleta e, além de me saudar de modo simpático, comentou a respeito da persistência do mato que brota entre as pedras do calçamento. Depois, sem mais rodeios, desferiu o pedido repentino. Nunca pensei que Raimundo Soares, vamos chamá-lo assim, tivesse interesse em tipo algum de assunto.

Conheço tal cidadão há um punhado de anos e se trata de alguém reservado, a ponto de durante esses anos todos apenas interagir comigo me dando um bom-dia, um boa-tarde ou um boa-noite. Precisei lhe confessar, sendo deveras honesto, que não esperava dele essa espécie de desejo. Nos finais de semana, do fim da tarde até determinado horário da noite, o avisto na sua calçada com uma caixa de som ouvindo suas músicas preferidas e tomando umas garrafinhas de cerveja. O som fica regulado em volume alto, como se Raimundo desejasse que os demais vizinhos usufruíssem de sua preferência musical. Por vezes bebe até ficar embriagado.

A mãe chega e pede que baixe os decibéis e pare a bebedeira. Embora alcoolizado, nunca o vi se exaltar, irritar-se com nada. Baixa o volume momentaneamente, mas, quando a mãe volta para dentro de casa, dá mais uma aumentada no volume. Na ocasião em que manifestou seu desejo, o de aprender a escrever poesia, estava absolutamente sóbrio. Eu é que fiquei um pouco entontecido diante do pedido do rapaz. Não sei como descobriu que lido com essa coisa de literatura, embora ultimamente eu tenha me dedicado mais à prosa do que a compor versos. Entretanto, para minha surpresa, Raimundo tem conhecimento do meu exercício no campo da versificação. Acrescentou que almejava escrever poesia rimada. Para a minha sorte, não falou acerca de métrica, algo assim mais complexo quanto um soneto, por exemplo.

Considero improvável, levando-se em conta o gênero de música que ele ouve durante horas a fio, que o aspirante a poeta adquira “inspiração” da noite para o dia. Pois a trilha sonora que exibe na calçada é uma coisa escatológica do ponto de vista poético. Trata-se (questão de gosto é diferente de questão de mau gosto) de uma categoria de canções da pior qualidade. Disse-lhe, então, que poesia vai além, e é extremamente irrelevante, de rima ou mesmo de métrica.

Existem por aí vários poemas sem poesia. Autores que aprenderam a rimar e metrificar, contudo publicam poemas de uma pobreza biafriana. Isto é, trazem a lume, ocupam os espaços em jornais e blogues, com versos de uma saúde ruinzinha, sem uma essência literária que alcance os nossos corações de maneira apaixonante, com um sentimento encantatório.

Claro que isso não é nenhuma receita pronta. Um poeta não irrompe do nada, tem que ter leitura. Há indivíduos que se queixam de ser poetas que possuem mais vida literária do que literatura. Não sou professor de coisa alguma, ainda menos de poesia. Não raro escrevo determinadas páginas sem poeticidade. Ao menos possuo discernimento para saber quando devo mandar um ou outro poema para a lixeira, deletar da telinha fluorescente do computador. O nome disso é autocrítica. Sei, obviamente, que a gente não nasce pronto. Alguém como Raimundo, apesar do tipo de música que consome rotineiramente, pode, a depender da perseverança e estudo do gênero, tornar-se um poeta meritório, que bote no bolso certos autores desta urbe.

Isso tudo vai depender de obstinação, de sensibilidade e aproximação dos bons e tantos poetas que existem no Brasil e no mundo. Não me anuncio como um poeta consumado, sempre temos muito o que absorver nesse tatame das letras, entrementes, perdoem a imodéstia, já possuo alguma bagagem. Respondi a Raimundo que não me nego a lhe dar alguns palpites no tocante a essa temática, no entanto frisei que não sou mestre nessa categoria versífica. Decerto também aprenderei alguma coisa com ele. Porque sempre é possível aprender no processo de ensinar.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 19/04/2026 - 14:44h

Seu Pedro

Por Bruno Ernesto

Pedro Bezerra Sobrinho tem 95 anos e é um mestre em ofício que parece estar desaparecendo Foto: Bruno Ernesto)

Pedro Bezerra Sobrinho tem 95 anos e é um mestre em ofício que parece estar desaparecendo (Foto: Bruno Ernesto)

Pedro é atemporal. Tanto pode ser Seu Pedro, quanto Pedrinho. Mas chamo o meu de Dandão.

Do mais Pedro já foi pescador, apóstolo, navegador, ator, escultor, estudante e tantos outros.

Admiro tanto o significado deste nome, que é simbólico e ao mesmo tempo simples, que meu filho é Pedro.

Parece que simbólico, tive uma conversa reservada abaixo do altar principal e do Baldaquino de Bernini.

Os demais Pedros, encontro todos os dias; cada um com a sua importância e simbolismo.

Há um Pedro, todavia, com quem posso interagir e observar de uns anos para cá, e cuja a simplicidade e aparente fragilidade, me fazem, vez ou outra, passar à sua porta, nem que seja para dar um oi.

Exceto na hora da sua siesta.

Seu Pedro Bezerra Sobrinho é um senhor de noventa e cinco anos de idade.

Natural de Campo Grande/RN, foi criado no Sítio Laje, vizinho ao Sítio Chafariz, na zona rural de Mossoró.

Encontrei Seu Pedro enquanto procurava um sapateiro para consertar um sapato que estimo muito.

Nos fundos da Catedral de Santa Luzia, me apontaram o dedo em direção ao famoso beco das frutas.

-Ali, naquela esquina. Praticamente o último sapateiro da cidade.

-Fale alto, e pausado, que ele não escuta bem.

-É flamenguista.

Há mais de sessenta anos é sapateiro, está no atual há cinco anos.

Mora lá sozinho, num pequeno anexo, que muito me lembrou o anexo da casa de Anne Frank. Pelo menos a sensação que tive foi a mesma, quando vi um e outro.

Trabalha e mora no prédio, tem oito filhos, dos quais apenas seis vivos.

Nessa minha última visita, além do filho que o ajuda no ofício, o mais velho também estava lá, mas se despediu avisando que precisaria voltar para Natal.

Trabalhou muito tempo como vendedor da A Passarela, percorrendo o Vale do Jaguaribe (Russas), Paraíba e o próprio Rio Grande do Norte.

Falou com uma certa nostalgia que trabalhou para várias fábricas locais,  mas que a sola subiu de preço e a de borracha arruinou o mercado de vez.

-Entrou a sola de borracha, e veio o tênis. Acabou com tudo.

Fazia sapato por encomenda para os moradores de Mossoró, mas contou que a última encomenda foi há 40 anos.

Ficou viúvo há dezoito anos. Casou só 1 vez.

-Dá certo não!

Seu Pedro Bezerra é o Pedro que nos lembra a simplicidade da vida.

Apesar da longa estrada, ainda segue firme no ofício de sapateiro, rumando para os noventa e seis anos de idade no próximo dia treze de maio.

Não é que não se precise mais de sapateiros. O que precisamos é de mais Pedros.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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domingo - 19/04/2026 - 06:24h

Situações inoportunas

Por Marcos Ferreira

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Achava-me no banheiro, enxugara-me parcialmente e estava prestes a passar o desodorante roll-on. Aí escuto umas pancadinhas no portão. Quem seria a essa hora? Momento de sol forte, calor demais. Imediatamente, como autoridade constituída, Juju se pôs a latir com teatral bravura, engrossando a voz de modo a me parecer autêntica protetora deste domicílio. Isso foi ontem, por volta das quatorze horas. Vesti-me da cintura para baixo com a toalha e fui ver o que havia.

Não abri, limitei-me a espiar e falar pela minúscula fresta entre o muro e o portão corrediço. Não estava em condições de receber ninguém semivestido com uma toalha. Já procedi assim algumas vezes com certas pessoas cuja voz não me pareceu familiar. Perguntei sobre quem era e o que desejava. Felizmente, talvez pela proximidade, fui logo visto e ouvido através da referida frincha. Um tanto surpreso, então, com o pouco cabelo despenteado e o corpo com bolhas d’água em determinados pontos, pude ver o recorte de um rostinho feminino. Pois é. Estava ali uma garota que se anunciou como testemunha de Jeová.

Tive, pelo timbre daquela voz, a impressão de que não tivesse nem dezoito anos. Julgando o falatório confuso do outro lado, presumi que a mocinha não estava só. Ela disse se chamar Luana e revelou que andava em companhia de outras duas moças cujos nomes não os recordo. Amigas talvez tão jovens quanto ela, quem sabe adolescentes. Indaguei de mim para comigo como alguém tão jovem possa se dizer testemunha de uma história tão velha quanto o próprio mundo.

É isso, a mocinha esperava ser recebida de maneira mais apropriada. Esforçava-se para usufruir do nosso mínimo campo de visão e diálogo. Eu não tinha o menor intuito de convidá-las a entrar, oferecer água ou café. Por isso dei um jeito de encurtar a conversa e me livrar daquela situação inoportuna para os dois lados. Uma lateral da armação dos óculos de grau dela tocava a parede do muro.

Imagino que Luana tenha visto ao menos que eu estava sem camisa. Educadamente, enfim, ela agradeceu pela atenção e disse que poderíamos conversar melhor em outra oportunidade. E lá se foram as testemunhas do Criador. Fico aqui imaginando se este relato pode interessar a quem quer que seja. Entrementes quero supor que a história sirva de exemplo, ao menos para que vejamos que ainda há neste planeta pessoas voluntariosas e de bom coração. Aquelas meninas não tiveram a chance de me transmitir a sua mensagem de fé e amor, porém acho justo fazer o registro dessas três boas almas que tentaram me catequizar na tarde de ontem.

Lembro que certa feita, há coisa de dois ou três anos, despachei sumariamente dois jovens mórmons que me encontraram em outro tipo de circunstância na qual não pude lhes dar maior atenção. Apareceram-me justamente quando eu ia chegando em casa apertado por uma perigosa dor de barriga. Argumentei às pressas sobre a impossibilidade do diálogo e por pouco não borrei as calças.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 12/04/2026 - 14:22h

Banhos de chuva

Por Odemirton Filho

Ah, você não sabe o quanto é bom esse banho de chuva (Foto ilustrativa)

Ah, você não sabe o quanto é bom esse banho de chuva (Foto ilustrativa)

O menino tomava banho de chuva. Feliz. Dava voltas e mais voltas em derredor da rua Tiradentes e da rua José de Alencar, no centro de Mossoró. Aproveitava as biqueiras dos prédios e das casas. Vez em quando, seu pai e suas irmãs o acompanhavam nesses banhos de alegria.

Às vezes, ao lado de amigos, o menino andava pelas ruas adjacentes, na sua bicicleta Caloi. Ele se arriscava, diga-se, pois os raios rasgavam o céu. No entanto, sabe-se que quando somos crianças o medo não faz parte do dia a dia, porquanto o desejo de se aventurar sempre fala mais alto.

É certo que a infância deixa um legado de bons momentos. O menino sente saudades dumas coisas. O banho de chuva é uma delas. Por quê? Porque a água que caia do céu era sinônimo de alegria. Naqueles anos do início da década de oitenta, o menino sonhava, brincava, sorria, e também chorava.

Em 1985 o rio Mossoró transbordou. Foi um inverno inclemente; uma enchente daquelas. As ruas do centro da cidade ficaram alagadas, e o comércio cerrou as portas. O menino estava lá, andando pelas ruas, com as águas batendo em sua cintura.

Muito jovem, ele começou a ajudar na padaria de seu pai em pequenas tarefas, condizentes com a idade, a exemplo de encher os pacotes com bolachas sete capas. Decerto, essa pequena labuta contribuiu sobremaneira para moldar o caráter do homem que enfrentou, e enfrenta, desafios.

Como toda criança, o menino cultivava sonhos. Quando se é jovem, na maioria das vezes não se sabe qual o rumo seguir. É preciso que os pais ou o responsável pela educação, mostre-lhe o caminho. Nem todos, infelizmente, podem contar uma história feliz sobre a sua infância.

E aí, com o passar do tempo, seguimos outros rumos. Encontramos pedras na estrada, dificuldades que embaçam a visão sobre o mundo. A vida, como sabemos, não é linear, já que existem sinuosas curvas no decorrer de nossa existência.

Entretanto, quando volvemos os olhos para a nossa infância, e lá tínhamos o mínimo de amor e de alegria, tem-se a certeza que, apesar de curta, a infância ocupa um pedaço no coração de cada um.

O menino, hoje adulto, aqui e acolá abre um tímido sorriso quando vê a chuva caindo, pois lembra daqueles banhos de chuva, quando, todo molhado, saboreava as bolachas sete capas da padaria de seu pai.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 12/04/2026 - 07:30h

Civilização e livros

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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Retornando recentemente de férias (inclusive no que diz respeito às nossas crônicas semanais), a minha intenção era hoje escrever suavemente sobre as paragens por onde andei nesse período “sabático”. Marrocos e Portugal, para ser mais preciso. E misturando a coisa com um quê de literatura e cinema, como de praxe.

Todavia, nestes últimos duros dias, não se fala de outra coisa senão da guerra pelas bandas do Oriente Médio – no Irã/Pérsia, no respectivo Golfo e seus múltiplos países, na Palestina/Israel, no Levante/Líbano e por aí vai – e de suas consequências políticas e econômicas globais. Muita destruição e morte. Houve até quem prometesse acabar, da noite para o dia, suponho que com bombas – quiçá radioativas, estúpidas e inválidas –, uma civilização inteira. Milênios de história da Pérsia – e vidas, não esqueçamos – eliminados por um ato unilateral de vontade. Desnecessário comentar a barbárie da coisa. Ela é estupidamente eloquente. Coisa do Coisa Ruim, diriam os mais espiritualizados.

Naquelas bandas, no Golfo Pérsico, já pus os meus pés (o tal “boots on the ground”, embora pacificamente) nos Emirados Árabes Unidos e no Qatar, por um punhado de dias, de passagem para a Índia (sonhando ser um E. M. Forster?) e para o Japão. Mas nunca estive no Irã. Nem sei se, em meio a esses radicalismos e essas estúpidas guerras, um dia terei oportunidade de lá ir.

Da grande Pérsia, da sua história, da sua civilização e das civilizações que ao derredor deixaram suas marcas (Babilônia, Báctria e por aí vai), o que aprendi, ou por onde “viajei”, o fiz sobretudo através dos livros. E, desses livros, um deles tem lugar especial na minha alma literária (um dos meus top 5, como já disse em outras oportunidades): “Creation” (1981), de Gore Vidal (1925-2012), que, para escrever esta crônica, tenho em mãos em duas edições, uma em inglês (Abacus, 2008) e outra no nosso bom português (“Criação”, Nova Fronteira, 1984).

Nessa obra-prima, Cyrus Spitama, a personagem principal, grego e persa ao mesmo tempo, é neto do profeta Zoroastro/Zaratustra (fundador do Zoroastrismo, uma das religiões monoteístas mais antigas do mundo, originária da antiga Pérsia). Representação perfeita do “homem viajado”, ao derredor do século V antes de Cristo, foi embaixador persa perante a Índia, a China e a Grécia de então. Através de Cyrus Spitama, somos apresentados a Cyro (o Grande), a Cambisses, a Dario (o Grande) e a Xerxes, os grandes (e haja grandes nisso) governantes persas da dinastia dos Aquemênidas.

Cyrus Spitama é um homem que, através de pequenos ajustes de datas confessados por Vidal (uma mentirinha branca, a favor do nosso deleite), topa, em direção ao Ocidente, com os gregos Péricles, Pitágoras, Demócrito, Tucídides e Heródoto, entre outros luminares que aquela civilização produziu.

Vai à China, de mestres do Taoísmo e de Confúcio, no Oriente mais distante. No meio do caminho, ele passeia pela Índia de Sidarta Gautama (o Buda), de Mahavira (fundador do Jainismo) e de seu discípulo/rival Gosala, com suas filosofias e teologias tão misteriosas para nós “ocidentais”. Uma vida entre reis, pensadores, profetas e magos, de encontros e desencontros, um romance que é, antes de tudo, uma aula de história, geografia, filosofia, religião e política.

O nosso Paulo Francis – e que saudades do “Manhattan Connection” de outrora –, polemista dos bons, em crônica intitulada “A criação de Gore Vidal”, republicada no seu livro “Diário da Corte” (Três Estrelas, 2012), afirma, entre outras diatribes, que “Creation”, retratando o apogeu do grande Império Persa, “sugere que o humanismo já disse tudo o que tinha a declarar em 500 a.C.”. Não sei se é bem assim. Mas, definitivamente, não quero que a “antirrosa atômica” transforme a civilização persa, ou qualquer outra civilização, em algo “sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada”.

No mais, que Jeová, Alá, Zoroastro ou mesmo o Coisa Ruim sempre nos permita conhecer das coisas e viajar através dos livros.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 12/04/2026 - 06:26h

O velório de Epifânia

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com uso de IA para o BCS

Arte ilustrativa com uso de IA para o BCS

Suponho que não tivesse quarenta anos. Ou um pouco mais. Todavia, em razão de um mal súbito, morreu no fim da tarde de ontem enquanto realizava uma faxina na casa da senhora Raimunda, sua vizinha aqui no Conjunto Walfredo Gurgel, precisamente à Rua Euclides Deocleciano, número 37. A trabalhadora Epifânia Santos, eis o nome da falecida, costumava dizer a alguns vizinhos próximos, com os quais tinha bom relacionamento e batia papo, que ela não era nada mais do que uma peniqueira.

Essas conversas descontraídas e bem-humoradas ocorriam na calçada desse nosso grupo que denominei de Fofoca News. A gente se reúne ali (do final da tarde até certo horário da noite) na junção das calçadas da faladeirazinha Rucilene Pinheiro e Maria Sayonara. Para ser justo, Sayonara não dá palpite na vida de ninguém. Com as cadeiras nesse ponto, então, falamos um bocado do varejo urbano, sobre Deus e o mundo. Tudo isso, que fique bem claro, de forma saudável, sem qualquer maldade.

Às vezes, fazendo pouco-caso da própria condição econômica, Epifânia dizia coisas desse tipo sobre si mesma: “Eu só sei fazer faxina e não tenho nem onde cair morta.” Mas caiu, entretanto, justo na residência da senhora Raimunda. Foi um alvoroço medonho. O Samu veio sem demora, contudo só fez confirmar o óbito de Epifânia. Era muito espirituosa e não tinha cabresto na língua. Dizia o que lhe dava na telha, zombando das próprias dificuldades financeiras em certas ocasiões. Uma noite, com seu jeito desbragado e brincalhão, falou o seguinte às amigas: “Ei, bichinha, a minha vida não é fácil, não. É um bêbado chamando na porta, uma velha gemendo e um cachorro perebento de um lado para o outro. Sem falar na ruma de gatos”.

Epifânia se referia a um irmão alcoólatra, à mãe que se queixa de fortes dores de coluna e ao manso cachorro Favelinha, que possuía um câncer metastático e findou sacrificado. Afora Favelinha, ela cuidava de uns vinte gatos. Vivia pelejando com os felinos para que nenhum ficasse atravessando a rua, com receio de que fosse atropelado. Estive no velório de Epifânia, que ocorreu em sua modesta residência. Com o caixão no meio da sala, o corpo era velado por familiares, entre os quais o irmão embriagado, que volta e meia discursava. Não faltou, obviamente, a presença dos bichanos, cuja quantidade era realmente em torno de vinte indivíduos. Nessa manhã, mais ou menos umas onze horas, estava presente, em meio a pessoas que não conheço, toda a representação do Fofoca News: Cilene Freitas, Maria dos Navegantes, o esposo Magno, a senhora Raimunda, Sayonara, Rucilene e o marido, o motorista Francisco Erinaldo. Um grupo de mulheres, cada uma com um rosário, puxava uma ladainha meio enfadonha. A reza era entrecortada pelo irmão bêbado da defunta. Uma parte dos gatos se posicionou embaixo do caixão; outros cruzavam a sala a todo momento.

Além da mãe, daquele monte de gatos e do irmão cachaceiro, a benquista Epifânia deixou um único filho, um rapazinho na faixa dos quinze anos. Fará muita falta a todos. Também devo dizer que o súbito passamento dela representa um enorme desfalque no nosso time do Fofoca News. Que Deus a receba em Seu reino celestial. Era uma criatura de bom coração. Pelo aspecto tristonho, pareceu-me que aqueles felinos tinham ciência de que perderam a sua amorosa cuidadora.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/04/2026 - 12:48h

literalmente gótico

Por Marcelo Alves

Da página terror under the bed

Da página Terror: under the bed

“O Castelo de Otranto” (“The Castle of Otranto”), de 1764, é convencionalmente considerado como o título fundador da denominada ficção gótica. O seu autor é Horace Walpole (1717-1797), escritor, político e aristocrata inglês, filho de Robert Walpole (1676-1745), 1º Conde de Oxford, considerado, também convencionalmente, como o primeiro Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha. Curiosa família de “primeiros”.

É certo que “O Castelo de Otranto” possui as características que costumam ser apontadas como marcantes no gênero (literário) gótico. Segundo consta da minha edição do dito cujo (Oxford World’s Classics, Oxford University Press, 2008): “Primeiramente publicado pseudonimamente em 1764, The Castle of Otranto alegava ser uma tradução de uma estória italiana do tempo das cruzadas. Nele, Wolpole buscou, como ele declarou no prefácio da segunda edição, ‘misturar dois tipos de romance: o antigo e o moderno’.

Ele nos dá uma série de catástrofes, intervenções sobrenaturais, revelações de identidades e intrigas excitantes. Repleto de invenção, entretenimento, terror e sofrimento, o romance foi um imediato sucesso e tornou-se o favorito do próprio autor entre os seus numerosos trabalhos. Seu amigo, o poeta Thomas Gray, escreveu que ele e sua família, tendo lido Otranto, restaram doravante com medo, todas as noites, de ir para a cama”.

Hoje difícil de se ler, “O Castelo de Otranto” ganhou status de cult, sendo objeto de referências em outras paragens, como no caso do mui querido “O nome da rosa” (“Il nome della rosa”, 1980), de Umberto Eco (1932-2016), um romance que, embora perpassando outros gêneros da ficção (romance histórico, medieval, policial, sobre livros e por aí vai), é uma obra marcadamente “gótica”: a personagem Adelmo de Otranto, o primeiro frade morto na trama de Eco, é uma referência ao livro seminal de Walpole. E é fato: inseminado por “O Castelo de Otranto”, o romance gótico, com sua “sedutora mistura de bizarro e macabro”, com seus “castelos, caixões e claustrofobia”, com seus “segredos e vinganças”, ganhou o mundo, sendo adorado por muitíssimos leitores. Eu adoro! Registro.

Surfando na onda, dia desses até dei de cara com um artigo/lista da BBC Culture, intitulado “The eight best gothic books of all time”, por Freya Berry, que achei deveras interessante. E antes que vocês me indaguem o porquê desse número de “oito” melhores (confesso que achei bizarro), da lista vou destacar dois títulos: “Frankenstein” (1818), de Mary Shelley (1797-1851) e “A Sombra do Vento” (“La sombra del viento”, 2001), do espanhol Carlos Ruiz Zafón (1964-2020).

“Frankenstein” é provavelmente o clássico dos clássicos dos livros góticos. Nele, Victor Frankenstein cria um ser vivo em seu laboratório. Mas as coisas não saem como ele imaginava. E ele tem de lidar com as consequências. “Frankenstein” é tido também como pioneiro na ficção científica. Mas ele é muito mais do que isso. É sobretudo uma profunda discussão filosófica sobre ambição, criatividade, ciência, educação, paternidade, natureza, humanidade, vida e morte.

Já acerca de “A Sombra do Vento”, repito um trecho do artigo da BBC Culture: “Stephen King [e aqui temos um craque do jogo] disse sobre esta obra espanhola que, ‘se você pensou que o verdadeiro romance gótico morreu com o século 19, ela vai mudar sua opinião’. O best-seller mundial de Zafón de 2001 é de fato quase matematicamente gótico – segredos, castelos, belezas etéreas, bibliotecas perdidas e amor proibido – embora isso ainda não faça justiça a esta fantasia encantadora. Se você quer uma obra-prima na criação de uma atmosfera sombria, leia este livro, de preferência à luz de velas enquanto a noite tudo domina”. No mais, “A Sombra do Vento”, com o seu “Cemitério dos Livros Esquecidos”, é marcadamente um romance sobre livros. E isso é mais que uma maravilha!

De minha parte, acho difícil qualquer romance superar “O Nome da Rosa”, que é também uma estória sobre livros e o poder infinito, muitas vezes macabro, das palavras. O livro de Eco é ainda o meu romance preferido, o número 1 mesmo. Mas vou em busca da “Sombra do Vento”, cair para dentro dele, enterrar-me ali, no seu “Cemitério dos Livros Esquecidos”, já nos próximos dias. Quem sabe algo de ainda mais bizarro e maravilhoso não me acontece?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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