domingo - 11/01/2026 - 10:42h

Boa romaria faz, quem em sua casa está em paz

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Na época da minha juventude, lá pela década de oitenta, comecinho dos anos noventa, qualquer coisa era motivo para sair de casa, fosse um bate-papo na calçada de um amigo, fosse uma festa, eu fazia tudo para comparecer. No entanto, com o passar dos anos, percebemos que pouquíssimos lugares valem o aconchego do nosso lar. Na verdade, não sei se ficamos ranzinzas ou seletivos com o tempo.

Contudo, para garantir o devido processo legal, deixe-me apresentar defesa. Hoje, nem todo lugar me apraz. Penso duas ou três vezes antes de sair de casa. Explico:

As festas de hoje em dia raramente têm mesas e cadeiras para que a gente possa descansar um pouco. Do início ao fim da festa, somos “obrigados” a ficar em pé, com os pés e a lombar doendo, ou seja, uma verdadeira tortura. Compramos a entrada da festa e ainda temos que pagar por uma mesa para colocar a bebida.

Além disso, as filas para se comprar bebidas e tira-gostos são intermináveis. Os banheiros? Ora, ora, são químicos.

Se estamos na praia, principalmente nesse período de veraneio, as barracas e restaurantes estão sempre lotados. Normalmente, esperamos uma eternidade para ser servidos, e ficamos rezando pra cerveja não está quente; e nem vou falar sobre os preços. É claro que existem exceções, há locais com bom atendimento, preço justo e festas organizadas.

Nunca é demais lembrar que a insegurança e a violência são outros motivos pelos quais pensamos com redobrada cautela antes de sair de casa.

Sim, eu sei deve que ser a idade, pois, quando era jovem, todo e qualquer lugar me agradava. Pra se ter ideia, já tomei cerveja quente numa vaquejada; dormi dentro de um carro a noite inteira, e normalmente somente saía das festas quando “pegava o sol com a mão”.

Atualmente, na maioria das vezes, prefiro ficar em casa, tomando umas doses de uísque, acompanhado de tira-gostos. Ao lado da minha mulher, dos meus filhos e neto, escuto as músicas do tempo da minha juventude.

Quando não tô a fim de sair ou beber, deito na minha rede, “curiando” as redes sociais ou assistindo a Netflix, porque, como diz o ditado popular, boa romaria faz, quem em sua casa está em paz.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 11/01/2026 - 09:28h

Nem Nelson

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa de Larissa Amorim (01/2026)

Foto ilustrativa do Teatro Nelson Rodrigues no RJ, de Larissa Amorim (01/2026)

Seria difícil imaginar alguém deixar Nelson Rodrigues encabulado. Logo ele, cuja mão firme, pensamento aguçado, imaginação singular e língua afiada, tanto marcou uma geração.

Aliás, só encabulou quem a carapuça lhe serviu; que se diga.

Dias atrás, num vaivém, acabei por esquecer de fotografar a fachada do teatro homônimo do anjo pornográfico, localizado – estratégica e ironicamente – bem ao lado da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. Acredito que fizeram de propósito.

Ainda mais irônico, é o fato do teatro estar localizado na Avenida República do Paraguai, cujo país no meu tempo era sinônimo de mercadoria falsificada e que toda feira da sulanca que se valorizasse, a vendia com exclusividade. 

Embora Nelson Rodrigues se considerasse um conservador, no que sabia fazer de melhor, era um transgressor dos costumes; um indisciplinado. Um reacionário.

Por sinal, registre-se que a naturalidade da hipocrisia – infelizmente – vem se deteriorando nos últimos tempos. Dificilmente você encontra um hipócrita convicto, embora o comportamento se mantenha inalterado como outrora.

Não por onde, aquele pensamento indizível, que outrora era incorruptível, e somente revelado num descuido, agora se confunde com o a própria naturalidade da pessoa, e já não se mantém aquele segredo imaculado de outrora. 

A surpresa do mau-caratismo até perdeu a graça, diria ele.

Talvez tenha sido essa a razão dele ter dito que não há admiração mais deliciosa do que a do inimigo. Ou, talvez, que o dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.

Acredito que até quando dizia que não se deve apressar em perdoar, pois a misericórdia também corrompe, queria novamente dizer que, além de todos os defeitos do adulto, o jovem tem mais um, que é a imaturidade.

Se naquele tempo escarnecia com propriedade o que de pior existia no comportamento humano – o pensamento indizível e a hipocrisia -, talvez hoje, nem Nelson Rodrigues saberia descrever o que seria o pior.

De todas as suas – digamos – observações, ainda fico com a que melhor retrata o há de pior na natureza humana, pois ainda pode-se dizer que atrás de todo paladino da moral, vive um canalha.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

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domingo - 04/01/2026 - 11:30h

O babaca era eu

Por Cid Augusto

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial

Pedalei durante anos, até ser vítima de um assalto na Duodécimo Rosado, à época já uma das ruas mais movimentadas de Mossoró. Depois, ao superar o trauma, caí na Amaro Duarte. Estabaquei-me no chão feito jaca madura. Recentemente, por ordem da minha junta médica – ortopedista, endocrinologista, cardiologista e psiquiatra – matriculei-me na musculação e ressuscitei a bicicleta.

Um dos poucos exercícios físicos com os quais me identifico é o pedal e, mesmo assim, nem tanto. Minha vocação de “mermo-mermo” é o sedentarismo. Sou sedentário convicto e militante desde a infância. Se dependesse de mim, passaria o dia lendo e escrevendo. Aliás, embora cumprindo a obrigação de paciente bem-comportado, ainda não estou convencido da real necessidade de tanto esforço corporal.

No primeiro dia do recomeço, a bike me conduziu por 10 quilômetros. No segundo, cravei 13 em 50 minutos – e aqui não vai qualquer mensagem subliminar como o disco da Xuxa tocado de trás para frente ou a suposta guinada comunista das Havaianas. Poderia ter feito percurso maior, mas preferi não forçar a barra. Lembrei-me de Trupizupe interpretado por Nonato Santos: “Devagar com a ligeireza, que a vagareza se cansa”.

Fiz as duas últimas rotas em vias de Capim Macio e de Ponta Negra, a primeira em um início de noite e a segunda hoje de madrugada. Natal tem ótimas ciclovias, embora várias delas não me tranquilizem nem um pouco, por congregarem, no mesmo espaço, as faixas de ônibus e de bicicletas. O ciclista se sente o próprio Capitão Ahab desafiando uma Moby Dick a cada cinco minutos, no oceano de carros.

Desculpa se a comparação parece antiecológica. Reconheço que as baleias são criaturas inocentes. Elas não criam problemas, a não ser quando provocadas, diferentemente dos ônibus enfurecidos e dos carros e motos inconsequentes, que invadem a “ciclo-bus-faixa” e ultrapassam quase se esfregando em nós, para evidenciar a relação de poder desigual entre o Senhor Volante e o Senhor Pedalante.

“Ok”, “ok”, “ok”, tomo por empréstimo a expressão do grande Afonso Lemos para anunciar que devo testar áreas menos caóticas nos próximos dias. A Via Costeira – entre Ponta Negra e a Ponta do Morcego – parece segura quanto ao risco de atropelamento. Há também a Rota do Sol. Posso ir ao Pium e voltar sem maior sacrifício, suponho. Só temo o vento. Na hora em que esse camarada se lança com as quatro patas nos peitos de um indigitado, parece até que as catracas estão engatadas em marcha a ré.

Qualquer coisa, se eu não aguentar o tranco, peço a Clarisse Tavares que me resgate na estrada, circunstância previsível que me lembra certa viagem que tentei fazer, com um grupo de ciclistas turbinados, de Mossoró a Assú, em Noite de Lua Nova, na contramão da ventania. Antes da metade do caminho, arreguei e pedi ajuda ao repórter fotográfico Luciano Lellys, que logo saiu em meu socorro no Fiat Uno do jornal O Mossoroense.

Para não ficar esperando na BR-304 – passava das 21h e eu ainda estava assustado com o assalto –, continuei pedalando na expectativa de alcançar Zé da Volta. De repente, vi Luciano passar, lépido e fagueiro. Gritei, gesticulei… e nada. Chegando ao posto, a cerca de 40 quilômetros de distância de Mossoró e 30 de Assú, consegui um telefone emprestado e liguei para Lellys, que há tempos acompanhava o comboio do qual eu me separara por falta de preparo físico e de velocidade.

Meu amigo voltou, ajudou-me a arrumar, no bagageiro do carro, a bicicleta que depois vendi a Gilson Cardoso. Arriamos o banco traseiro do Uno e tiramos o pneu dianteiro da bike para caber. Na volta, já na zona urbana, perguntei se o socorrista, ao passar, não havia me visto no acostamento. E ele respondeu: “Não! Eu vi um babaca quase morrendo, pedalando sozinho, e fui embora”. Pois bem, o babaca era eu.

Cid Augusto é jornalista, advogado, professor, poeta e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/01/2026 - 11:04h

Cônego Bernardino e a Casa Grande da Fazenda João Gomes

Por Honório de Medeiros

Cônego Bernardino José de Queirós e Sá (1820-1884), com melhoria de imagem feita com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Cônego Bernardino José de Queirós e Sá em imagem refeita com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Muitos anos depois, ao recordar, com a leitura de As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, o relato do desaparecimento lento e inexorável da cultura celta na Bretanha do ciclo Arturiano, substituída pela opressiva aliança entre o cristianismo, tal qual o entendia a Igreja Católica de então, e o poderio do Estado romano, associei o sentimento quanto a essa perda à minha própria amargura com a extinção, também impossível de ser detida, da antiga tradição cultural sertaneja nordestina, iniciada no ciclo do gado, nos idos do século XVI.

Rcordei, então, enquanto caminhava, garoto, pelas ruas da minha infância, tangido suavemente por meu pai, a cumprimentar, tímido, os vizinhos, dentre eles seu colega de trabalho, Francisco Alves Cabral (Seu Chico Cabral), a quem eu conectava imediatamente, por ser filho de Pedro Alves Cabral, com a Casa Grande da Fazenda São João, uma das três ou quatro construídas no “início das eras” naquela Região, o Alto Oeste Potiguar, de onde os Fernandes, todos descendentes de Mathias Fernandes Ribeiro, filho de portugueses, se espalharam pelo Brasil.

Pedro Alves Cabral nasceu lá, na lendária Casa Grande que Lampião recusou atacar, por artes de Massilon, quando invadiu o Rio Grande do Norte dirigindo-se a Mossoró, e ouvira suas histórias e estórias nos serões familiares, testemunhou algumas e foi, ele mesmo, o epicentro de um evento contado aos sussurros entre os adultos Fernandes, mas escutados por meninos de ouvidos ávidos, que atribuía seu nascimento em 1879, no dia de São Pedro, às infidelidades do Capitão Childerico José Fernandes de Queirós e Sá, então proprietário do solar senhorial, por casamento com Maria Amélia Fernandes, a Dona Marica do João Gomes, única herdeira de todo o patrimônio do Tenente Coronel Epiphanio José Fernandes de Queirós, conhecido como Major Epiphanio, falecido em 1884, e seu construtor.

Childerico I se casou duas vezes. A primeira com Guilhermina Fernandes Maia, filha do primeiro casamento de Diogo Alves Fernandes Maia com Maria Fernandes Maia. Desse casamento nasceram:

1. Adolpho José Fernandes, conhecido por Sinhô, casado com Primitiva Fernandes;

2. Marcionila Fernandes;

3. Childerico José Fernandes Filho;

4. Maria Fernandes Ferreira;

5. Joana Fernandes Ribeiro;

6. Levina Fernandes;

7. Guilhermina Fernandes de Queiróz;

8. Honorina Fernandes;

9. Francisca Fernandes de Souza.

Do seu segundo casamento, com Maria Amélia Fernandes (Dona Marica do João Gomes), teve os seguintes filhos:

1. João Câncio Fernandes;

2. Ernesto Fernandes de Queiróz;

3. Umbelina Fernandes da Silveira;

4. Francisca Fernandes Távora.

A história de Dona Marica é, por si mesma, uma lenda na família Fernandes.

Consta que Antônio Fernandes da Silveira Queirós (o Major do Exu) teve vários filhos, dentre eles o Major Epiphanio e o Cônego Bernardino José de Queirós e Sá, que foi vigário de Pau dos Ferros de 1849 a 1884.

O Major Epiphanio não teve filhos; o Padre, dez a doze, segundo alguns, dezesseis, dizem outros, de várias mulheres, dentre eles Dona Marica, a primogênita, adotada por seu irmão e dele futura e única herdeira.

Ao assumir a fazenda João Gomes, o Capitão Childerico, ao que consta, segundo as lendas, manteve a tradição inaugurada pelo Cônego Bernardino de povoar os oitões, sótãos e porões da Casa Grande, e dele nasceu Pedro Alves Cabral, pai de Seu Chico Cabral, a quem eu sempre associei ao lendário Solar da família e a proteção que recebeu, ao longo da vida, dos Fernandes descendentes do seu avô.

Bem como lembro, imediatamente, de outras tantas e preciosas histórias e estórias que o pó do tempo insiste em sepultar, lentamente encaminhando toda uma cultura da qual, hoje, quase não há mais testemunhas vivas, para o desaparecimento.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 04/01/2026 - 10:40h

Dias de aventuras

Por Odemirton Filho

Foto de Jânio Rêgo (Arquivo)

Tibau e suas “naus”, em foto de Jânio Rêgo (Arquivo/2018)

O barco estava ancorado. Seria o barco do velho pescador Tidó? Quem sabe.

O que sei é que eu e alguns primos estávamos na adolescência, e ficávamos conversando sobre a possibilidade de irmos até lá. Tomávamos coragem, e íamos. Eram cinco ou seis meninos púberes. Vez ou outra, um tio ou um primo maior de idade ia nadando à frente. Nadávamos o mais rápido que podíamos.

Medo? Sim, tínhamos. No entanto, o desejo de se aventurar era maior. Para um menino entrando na primeira adolescência o medo é de somenos importância. O que realmente importava era desbravar o novo, fazendo-se homem, com uma coragem inabalável; nenhum de nós queria ser tachado como um frouxo.

Não foi uma ou duas vezes. Inúmeras vezes fomos aos barcos que estavam ancorados na praia de Tibau, pois o mês de Janeiro era o momento de se libertar dos compromissos escolares. Era o momento de curtir as férias; de nadar, de jogar bola na areia; de “pegar ondas”, principalmente no período da lua cheia, quando o mar ficava agitado e perigoso. Não conto as vezes que nadava para sair da água, e o mar me puxava, como se tivesse mãos.

Quando chegávamos ao local, subíamos na embarcação e ficávamos mergulhando, sob um sol de rachar o juízo. Conversávamos sobre as próximas aventuras, sobre as paqueras que já começavam a despontar, enfim, conversávamos sobre assuntos de adolescentes.

Depois de um certo tempo, nadávamos de volta pra areia da praia. Estávamos exaustos, queimados pelo sol e com sede. Comprávamos um picolé e íamos para casa, à espera do almoço. À tarde, ficávamos deitados nas redes, no alpendre, jogando conversa fora e aguardando passarem na rua vendendo grude e gelé.

No dia seguinte, tudo de novo. Eram dias de imensa alegria. Sem pressa. A areia da praia e o mar eram nossos amigos inseparáveis.

Hoje, entretanto, “o mar não está pra peixe”. Quando estou à beira-mar, apenas vislumbro o horizonte e os barcos ancorados, mas já não tenho coragem, nem fôlego, de nadar até lá. Então, recordo-me da minha juventude; são lembranças açucaradas, ou melhor, salgadas, daqueles dias de aventuras.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/01/2026 - 09:28h

Cerca

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica (Outubro de 2025)

Foto do autor da crônica (Outubro de 2025)

Não é só impressão sua, o final do ano também muda no sertão. A caatinga tem essa beleza peculiar.

Aliás, de tudo que já vi, não há bioma mais bonito que ela. Até o seu cheiro é melhor.

O que olhos de quem não está acostumado mostram, nunca foi, não é, e nunca será morta.

Sua aparência, especialmente de setembro em diante, é um contraste entre cinzas, marrons, amarelos, vermelhos e surpreendentes verdes pontuais.

Quando passar por ela em dezembro, estenda o seu olhar e verá belos pereiros, juazeiros e cactáceas  verdes, como o Cereus Jamacaru que tanto encantou Frans Post.

Se Claude Monet, Van Gogh e Rembrandt tivessem seguido os passos de Frans Post, a história da arte teria sido outra. Muito mais impressionante, que se diga.

Embora os incautos ainda julguem que a seca nos cerca como uma ferida que nunca cicatriza, como bem disse Neruda, há feridas que abrem a nossa pele; já outras, os nossos olhos.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM)

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domingo - 28/12/2025 - 09:20h

Velho ditado

Por Bruno Ernesto

"Rouquinho", com um monte de coisas para não fazer, segue espichado (Foto: Bruno Ernesto)

“Rouquinho”, com um monte de coisas para não fazer, segue espichado (Foto: Bruno Ernesto)

Por acaso você notou que o rosto do outro desmonta qualquer discurso natalino e que não celebrar o Natal é uma escolha e fingir é uma atitude de má-fé?

Liev Tolstói sintetizou uma palavra numa única frase, quando disse que é mais fácil escrever dez volumes de princípios filosóficos do que pôr um deles em prática.

Se bem que Nelson Rodrigues, sem protocolos, diria a vida como ela é.

Foi-se o primeiro quartel do século XXI. Se não deu tempo para tudo, não se preocupe, pois ainda há tempo para muita coisa. Finado é apenas o ano.

A última semana do ano parece que anda aos solavancos. Ora lenta demais, ora acelerada demais, e tudo converge para o caos de final de ano.

Meu relógio é sempre adiantando mentalmente em dez minutos; para tudo. Especialmente se preciso sair apressado, pois é o tempo necessário para sair catando um a um os meus gatos, entorpecidos pela luz do dia.

Ao contrário do que você possa imaginar, o cochilo deles espalhados pela casa em verdade me dá um recado velado nessa correria diária. E se mesmo chamando para sair, não saem, aquele bocejo e aquela espreguiçada matinal deles apenas reforçam o recado.

Eles têm razão. Talvez seja esse o motivo pelo qual sempre preferi criar felinos.

Se você não pode contra o tempo, alie-se a ele.

Como diz o velho ditado: quem não tem cão, caça como um gato.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM)

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domingo - 28/12/2025 - 07:48h

Uma convivência pacífica e mais equilibrada – para nosso bem

Por Carlos Santos

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Participo de um experimento banal, mas que tem sido libertador. É fruto de escolha autônoma e particular. Veio a partir da percepção de que precisava cuidar mais de mim, para saborear melhor o privilégio de ser parte desse mundão. É saúde mental, é relaxamento físico. É paz.

A opção por viver e não apenas sobreviver tangido, é a essência da mudança. Livre para desfrutar do simples, pois quero ter um monte de coisas para não fazer.

Os primeiros resultados são empolgantes.

Há pelo menos seis meses comecei a combater uma rotina doentia. O indivíduo plugado, conectado, cibernético, mantido vivo por “aparelhos”, ingressou em novo ritmo: a ordem e a marcha são de desaceleração e continuada distância do celular. Um passo para trás, para poder seguir em frente.

O costume de acordar e ter como segundo movimento físico, depois de abrir os olhos, o braço esticado para pegá-lo sobre o criado-mudo ou debaixo da rede, tem sido o primeiro combate diário. Sem pressa, sem ansiedade alguma, deixo essa maravilha tecnológica ‘descansar’ bem mais do que eu. Estou no comando, não o inverso.

Meu domínio sobre um dos maiores vícios da modernidade resgata-me para o controle da própria vida. Avanço, mas não é uma vitória suprema e irreversível. Cada dia é um dia de batalha árdua. E tudo me faz lembrar o hábito da bebida, período em que consumia a “víbora” em escala industrial; ciclo vencido com dores, renúncias e perdas.

Poder passar horas e horas com a leveza de outras escolhas, da leitura de um livro físico ao bate-papo de corpo presente, sem checar tela por dezenas de vezes, é uma conquista. Uh-huuu! Mas, desconfio sempre de mim mesmo. Não baixo a guarda. Posso fraquejar.

Digo-lhe: essa não é uma relação que abomino e tento exorcizar. Muito pelo contrário. Não é um caso de ingratidão ou repulsa gratuita. O celular e a Internet revolucionaram minhas apostas profissionais e relação com o mundo.

Mesmo agora quando mais preciso, é imprescindível estabelecer limites. Proponho-me a recuperar o máximo de senso de controle em meio ao caos.

Para nosso bem, é melhor assim.

Com licença… modo avião. ✈️

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos – BCS

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domingo - 28/12/2025 - 03:46h

Gratidão

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

É lugar-comum dizer que a gratidão é a memória do coração. No entanto, ao finalizar o ano de 2025, eu não posso deixar de agradecer por tudo que vivi neste ano que se encerra.

Como todo e qualquer ano de minha vida, enfrentei desafios, preocupei-me com as dificuldades do cotidiano. Chorei. Sorri. Ao lado da minha família vivenciei momentos de imensa felicidade; o nascimento do meu primeiro neto encheu o meu coração de amor, trazendo mais alegria ao nosso lar.

Não há nada melhor para os pais do que presenciar os filhos trilhando os seus caminhos, lutando e alcançando objetivos. Nesta vida, não se consegue nada sem uma batalha diária; viver, sabe-se, é uma peleja medonha.

Vencer na vida, entretanto, não é somente conseguir um bom emprego ou ser realizado profissionalmente. Vencer na vida, sobretudo, é ser um homem e uma mulher de bem, com caráter e honestidade, pautando-se por valores, cultivando-se bons sentimentos. “Na verdade, quem luta apenas na esperança de bens materiais não colhe nada que vale a pena viver”, disse o escritor Antoine de Saint Exupéry.

Assim, viver o presente é o que importa. Se ontem erramos o caminho, que hoje possamos mudar o rumo e seguir por uma nova rota. O futuro? Coloque-o nas mãos Deus.

Em um mundo repleto de desamor, intolerância, vaidade, egoísmo e violência, é preciso sabedoria e serenidade para se blindar e conduzir a vida. Cada um sabe muito bem o que enfrentou este ano. Com certeza, foram inúmeras batalhas, dificuldades de todos os tipos.

Porém, apesar dos pesares, estamos vivendo, construindo e narrando a nossa história e, o mais importante, com saúde.

Gratidão. Que 2026 seja repleto de bênçãos para todos nós.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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quarta-feira - 24/12/2025 - 21:44h
Noite feliz

A Estrela de Belém

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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O que eu aprendi com o Natal é algo essencialmente humano e levou muito tempo à minha compreensão. Depois de longos anos que atravessam décadas, da infância à idade outonal, passei a ver seu principal significado nas emoções alheias. No outro. Nos outros.

Não escrevo aqui uma exaltação à data. Esse texto também não é uma “mensagem natalina” para atender a qualquer imposição da atmosfera festiva de hoje. Nem me prendo diretamente à religiosidade e à natividade representada pelo Menino Jesus. À cabeça vem seus personagens lúdicos, como aquele senhor de barba grisalha e gorro vermelho que tem uma gargalhada farta e calorosa (Ho-ho-ho!). Aparecem crianças, muitas crianças. Gente, gosto de gente.

Do apelo comercial quem consegue fugir? Eu não faço nenhum esforço para me desvencilhar dessa pressão, porque adoro dar presentes, principalmente aos pequeninos e pequeninas. De receber, não mesmo. Acho desnecessário, mas não desdenho o gesto da lembrança. É o meu jeito. Aceite-me assim.

O Natal que sinto nessa quadra da existência é um pouco reflexo de minha cura afetiva e espiritual. E muitos, sem saber, colaboraram comigo.

Avanço, compreensão, maturidade… Não sei definir com clareza. Apenas sinto-me bem melhor, leve e feliz. Sentimentos opostos ao que carreguei por muito tempo, mergulhado em mim mesmo, isolado ou sozinho; arredio à festa, ao burburinho. No meu canto.

Avanço, compreensão, maturidade… não sei.

Passei a encontrar na felicidade de quem eu gosto, a minha razão natalina. Eis o ponto de virada. Anos, anos, décadas, décadas, para perceber que eu também poderia nascer e renascer, no Natal. Mesmo assim, sem deixar de gostar do sossego que diz muito de mim no cantinho silencioso de casa – espichado no sofá, com livros, música baixinha, minhas memórias e planos.

Daqui a pouco vou à janela espiar o céu. Quem sabe não aparece lá em cima a Estrela de Belém, hein?

Feliz Natal.

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domingo - 21/12/2025 - 10:18h

Romances de formação

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Os romances de formação são um tipo de ficção (alguns até chamam de “gênero literário”), muito comum na literatura alemã, cujo enredo está centrado na evolução moral e psicológica de um protagonista, geralmente desde a sua juventude até a idade adulta. Uma jornada cheia de descobertas (para além do seu ambiente familiar ou zona de conforto), experiências (com muitos erros) e desafios que, de maneira evolutiva, às vezes sob a orientação de mentores ou guias, faz o protagonista confrontar a mundo e, ao final, encontrar/conhecer/aceitar, entre obrigações e desejos, o seu lugar nele.

O gênero tomou a forma convencionada no século XVIII, sendo “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-1796), obra seminal de Goethe (1749-1832), o seu marco referencial, ao mesmo um tempo ponto de chegada e de partida, que exerceu enorme influência sobre a subsequente literatura ficcional no estilo. É universalmente designado pela expressão alemã “bildungsroman”, que, “desconstruída” para o português, nos dá “romance de formação” ou “romance de educação”.

Vou citar três exemplos de “bildungsromane” que foram marcantes na “minha formação”.

Começo pelo já mencionado “Anos de aprendizado”, originalmente estruturado por Goethe em oito livros, que é considerado o protótipo do “bildungsroman”. O seu protagonista, o jovem Wilhelm Meister, para escapar do que ele considera a vida vazia de um futuro comerciante burguês, embarca em uma jornada em busca de significados e de autodescoberta. Amor carnal. Amor fracassado pela arte/teatro. Ironias. E Wilhelm, que Goethe chegou a afirmar, em carta a Schiller, ser um “pobre diabo”, se vê lutando, com seu caráter inacabado, o “jogo inconstante da vida”, com suas exigências e suas desilusões, para até se dedicar a uma misteriosa “Sociedade da Torre”. E se “todas as verdades são meias verdades”, pode até ser esse o caso se apontarmos a obra seminal de Goethe como um completo “bildungsroman”.

Como lembrado por João Barrento na edição portuguesa que possuo (Relógio D’Água Editores, 1998), “nem Goethe usou o termo (que só surge em 1810) nem este romance chega realmente a encenar de forma cabal a ‘formação’ do seu problemático protagonista – deixa-o no limiar desse processo”. Ainda mais porque Goethe, mais tarde, nos apresenta “Os anos de Peregrinação [do mesmo] Wilhelm Meister” (1821 e 1829).

Aponto aqui também “A montanha mágica” (1924), que considero a opus magnum de Thomas Mann (1875-1955). Mann nos presenteia com um “bildungsroman” ao discutir as tendências do pensamento e, sobretudo, os conflitos morais, psicológicos, políticos e sociais pelos quais, se suficientemente aculturados, todos nós um dia passaremos. Formatado logo após a 1ª Guerra Mundial, o romance é a representação de uma Europa enferma e dividida, espiritual e socialmente.

Como consta da edição que possuo (Nova Fronteira, 1980), a ação se dá “na aldeia suíça de Davos-Platz, no sanatório Berghof. Aí se veem reunidos pela doença elementos de todas as raças e credos humanos. Aí se entrelaçam problemas, inquietações, sofrimentos, ilusões dos mais diversos matizes psicológicos. Aí, ainda que isolados do mundo da ‘planície’, os personagens, conscientemente ou não, padecem a influência dos acontecimentos de um continente dilacerado. Hans Castorp, o herói, chega a Berghof em visita a seu primo. Ao seguir o conselho médico de que nada perderia se passasse alguns dias cumprindo o mesmo regime de vida dali, descobre, quase por acaso, que também está doente. Inicia-se assim seu período de adaptação. (…). Entra em contato com diferentes personalidades, dedica-se ao exame das ideias de cada uma delas, ao mesmo tempo que se põe a aprofundar os grandes temas da Fé, da Morte, da Ciência, da Filosofia, do Amor e do Tempo”.

Ao fim, o livro é a história de uma vida, de Hans Castorp ou de qualquer um de nós, à procura de um sentido.

Por derradeiro, cito o livro de maior repercussão de Hermann Hesse (1877-1962): “Demian” (1919). Como registra Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em “A história concisa da literatura alemã” (Faro Editorial, 2013), ele “foi durante anos o breviário da juventude alemã. Teve repercussão profunda”. Mas para entender “Demian” é necessário conhecer a vida do seu autor, marcada por rebeliões e fugas. E a primeira delas, ainda em casa, foi contra a educação protestante imposta pelos pais, que haviam sido até missionários na Índia. Em “Demian”, Hesse poetiza essa rebelião. Emil Sinclair, o narrador da estória, é um menino criado em uma família de classe média, num ambiente de luz e ilusão. Sua existência é uma luta entre dois mundos, um ilusório (representado pela mãe) e o mundo real. A amizade com Demian, seu aliciante colega de classe, estimula-o a revoltar-se contra o mundo das aparências e a buscar, em si mesmo, perigosamente, a própria identidade.

As personagens Emil Sinclair, Demian e Pistórius (também mentor de Sinclair) são todas projeções ou sínteses das vivências do próprio Hesse, que foi um dos precursores do uso, na literatura, da psicanálise, das teorias de Freud e de Jung, já emergentes à época, mas ainda não badaladas nos EUA e mundo afora. Acredito haver Hesse com isso deseducado e reeducado, tirando o entulho do puritanismo educacional e replantando as armas contra a hostilidade do mundo real, muitos dos seus leitores.

Bom, comigo, todos esses livros citados deseducaram educando.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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domingo - 21/12/2025 - 08:40h

A questão é moral

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa do ip.usp.br

Arte ilustrativa do ip.usp.br

Imagine que você precise de uma segunda via do documento do seu carro, e dirige-se ao Órgão apropriado para tirá-lo.

Em lá chegando recebe uma ficha que indica sua vez de ser atendido: pelo número da ficha você percebe que não adiantou chegar cedo e seu atendimento, se acontecer, ocorrerá no final da manhã, começo da tarde, e olhe lá.

No dia seguinte, comentando o episódio com um amigo, escuta: “mas por que você não pagou um Despachante para fazer isso?”. “Ele resolveria tudo na mesma hora e lhe entregaria a segunda via em casa”. “Você não teria incômodo algum”.

O Despachante é aquela figura nebulosa que abre todas as portas, em qualquer momento, das repartições públicas, providenciando soluções para quem não quer se submeter a filas e tem dinheiro suficiente para contratá-lo.

A questão é a seguinte: e quanto aos que não têm dinheiro para contratar um Despachante, acordaram cedo, pegaram a fila, esperaram, mas foram ultrapassados, às vezes sem saber, pelas artes e ofícios de quem abre, na hora que deseja, todas as portas?

Como se percebe facilmente, trata-se de uma questão cujo cerne é constituído por moral e dinheiro.

Moral, aqui, para além de como deve agir o Estado que, conforme a Constituição Federal, deve, por intermédio de seus servidores, agir com absoluto respeito à igualdade entre os cidadãos.

É esse o tema do livro de Michel J. Sandel, O Que O Dinheiro Não Compra, professor em Harvard, professor-visitante na Sorbonne.

Sandel ficou midiático desde que seu curso Justice, no qual interagia com seus alunos lhes propondo questões de natureza moral, apareceu na internet e ganhou o mundo.

Em 2010, a edição chinesa do “Newsweek” o considerou a personalidade estrangeira mais influente no País.

Sandel elenca muitos exemplos de “coisas” que hoje estão à venda, graças à onipresença e influência do mercado. Trocando em miúdos: graças ao afã do lucro.

Alguns até mesmo cômicos, se não fossem trágicos: “upgrade” em cela do sistema carcerário; barriga de aluguel; direito de abater um rinoceronte negro ameaçado de extinção; direito de consultar imediatamente um médico a qualquer hora do dia ou da noite…

Nos EUA, segundo Sandel, é florescente o negócio de comprar apólices de seguro de pessoas idosas ou doentes, pagar as mensalidades enquanto ela está viva, e receber a indenização enquanto morrer.

Ou seja: quanto mais cedo o segurado morrer, mais o comprador ganha.

O professor considera que “hoje, a lógica da compra e venda não se aplica mais apenas a bens materiais: governa crescentemente a vida como um todo”.

Ele não aceita a teoria dos que atribuem à ganância essa falha moral, pois, no seu entender, o que está por trás é algo maior, qual seja a “extensão do mercado, dos valores do mercado, às esferas da vida com as quais nada têm a ver”.

Eu compreendo esse salto que o professor dá desde a ganância até o mercado, mas não concordo.

Para o professor, o mercado deixa o Homem ganancioso; eu, pelo meu lado, penso que foi a ganância que criou o mercado.

Se lá na aurora da história do Homem o primeiro ganancioso tivesse sido silenciado pelo “meio ambiente”, seu “gen” não teria sobrevivido. Ou será que era para ser assim mesmo, caso contrário não existiria a nossa espécie?

Antes que imputem a mim uma percepção simplista da questão, saliento logo que ela é mais profunda: diz respeito a uma discussão de natureza ontológica acerca da realidade social: em última instância, no que concerne a seu surgimento, está o Homem ou a Sociedade?

Por outra: a Sociedade é gananciosa porque o Homem o é, ou o Homem o é porque a Sociedade é gananciosa?

Aceita a premissa de que a Sociedade é gananciosa porque o Homem o é, cabe então perguntar: por que o Homem é ganancioso?

Essa questão, a verdadeira questão, não é enfrentada como deveria ser, hoje em dia, por que virou moda escamotear o óbvio atribuindo, ao “sistema”, ao “meio”, a uma “realidade exterior a nós”, aquilo que somos individualmente.

Fica mais fácil, em assim sendo, fugir da nossa responsabilidade individual, da moral, do caráter, e nos excluir da culpa por nossas decisões e atitudes.

Exemplo patente dessa perspectiva vil e equivocada, mas compreensível e eficaz, foi o escândalo do Mensalão, uma nódoa permanente e intransferível na história da nossa elite política.

Ao invés do mea culpamea maxima culpa, ao qual têm direito nós outros, os cidadãos inocentes deste País de bandalheiras que sustentamos passivamente ao longo dos anos, assim como à escumalha dirigente e sua soturna vocação para a ladroagem, lemos e escutamos cretinices tais quais as que pretendem imputar a responsabilidade pelos malfeitos acontecidos ao sistema eleitoral e de financiamento de campanhas eleitorais, enfim, ao sistema político e legal.

Querem nos fazer crer que quando um deputado foi flagrado escondendo dinheiro enlameado na cueca, em um dos mais grotescos episódios da crônica política tupiniquim, assim agia porque o sistema político/legal não prestava.

Faz parte da própria lógica do aparato intelectual que sustenta uma teoria como essa – a de que o meio cria o Homem (o determinismo social) -, a falta de capacidade técnica para compreender aquilo que está em jogo em termos científicos. Os defensores de teorias como essas pululam nas redes sociais, por razões óbvias.

Mas Charles Darwin está aí, basta lê-lo.

Aliás, como a grande, a imensa maioria dos nossos cientistas sociais é herdeira de uma tradição marxista que eles não compreendem em seus fundamentos por lhes faltar preparo, ou então são devedores de um funcionalismo anêmico de tradição norte-americana para o qual a realidade social é um carro que funciona sem a estrada e quem as produz (positivismo), estão atrasados gerações em relação ao que se discute, em termos científicos, nos centros de pesquisa das grandes universidades do mundo.

Não compreendem, mas usam, porque se aproveitam da situação.

É mais fácil botar a culpa no Sistema. Como se fosse responsabilidade apenas do meio o fato de sermos como somos, nivelando todos por baixo, inclusive aqueles que, ao longo da história, tornaram-se as nossas referências quando, em alguns momentos, fizeram avançar o processo civilizatório.

Mas que se há de fazer?

Talvez responder como a Baronesa Thatcher: “não, você se enganou, a ganância não é um bem; o altruísmo, sim, é um bem”.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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domingo - 21/12/2025 - 05:24h

Quando o amor vai embora

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Tudo se reveste de fascinação e magia quando ele nos aparece (homem ou mulher) e uma voz diz assim bem no fundo do nosso coração: “Essa aí é a pessoa certa para você, é o grande amor que você sempre buscou. Agarre, cuide e ame com todas as suas forças! O resto foi apenas experiências, etapas do seu amadurecimento. Essa, no entanto, é aquela companhia para o fim dos seus dias, vai estar ao seu lado nos momentos alegres e também nos mais difíceis que vierem. Pode crer, sua cara-metade chegou. É sua alma gêmea, seu porto seguro”, diz a voz dentro da gente.

Ficamos de quatro, bobos, arriados. Enfim a felicidade bateu à nossa porta. As coisas mais triviais, mais simplórias, comuns, esses momentos se enchem de significado e satisfação. Qualquer lugar ou instante se torna memorável, precioso, pois o fato de estarmos juntinhos de quem amamos, geralmente de mãos dadas, é aquilo que de fato importa, conta. Compromissos outros nos separam momentaneamente, todavia contamos as horas para estamos com nossa bem-amada. Ou bem-amado. Enfim chega a noite e nos vemos na cama com esse ser maravilhoso, absoluta e insubstituível razão de nosso contentamento. Dormimos e acordamos colados com tal criatura cheia de virtudes e amor recíproco; os dias ficam cheios de encanto.

Fazemos planos em comunhão, gozamos de um relacionamento sem estresse, desgaste. A concórdia é completa. Uma vez ou outra nos ocorre beliscarmos a nós mesmos para descobrirmos se não estamos apenas sonhando. Mas não, nenhum delírio, nenhuma fantasia. A verdade e inegável e cristalina.

Então aquela mulher, ou aquele homem, torna-se nosso prumo, o centro de equilíbrio. Sentimo-nos firmes diante dos desafios que surgem. O cotidiano, por mais adversidades que nos traga, está sob controle. A saúde se fortalece. Não existe um problema para o qual não encontremos uma solução. Só porque sabemos que não mais nos encontramos sozinhos no mundo. A gente irradia felicidade, transborda bem-estar e otimismo. Cuidamos, além do espírito, do corpo; frequentamos uma academia de musculação; queremos estar bonitos para o outro ou outra.

Um dia, entretanto, somos pegos de surpresa. Uma profunda angústia tem início, o caos nos abocanha, o desespero nos domina. A cara-metade se põe diante de nós e, sem dó nem piedade, diz com frieza que não dá, que aquele amor abundante e inabalável simplesmente acabou, morreu, chegou ao fim. Pois é. E realmente nos abandona. Aí desabamos a chorar, ficamos sem chão. Nossa alma, há pouco radiante, cheia de certezas e confiança, planos e sonhos, agora está de joelhos; daí começa a rastejar, humilhar-se, implorar. Em vão, assim como um náufrago que se afoga nas próprias lágrimas, tentamos nos agarrar a frágeis argumentos, insistimos que ela (ou ele) pense melhor, que nos dê uma chance, que não se precipite, que não vá embora, que não nos vire as costas pelo amor de Deus! É inútil. A outra pessoa está decidida.

Não tem conserto. Nosso lindo castelo de amor e ternura tornou-se escombros. Aquele ser encantador, que superestimamos e divinizamos além da conta, talvez já tenha encontrado um outro alguém e não podemos fazer coisa alguma quanto a isso. De repente, então, tudo perde completamente a graça. O prazer e a importância de um monte de coisas súbito se anulam. Não existe uma só mensagem de ânimo, conselho de amigos, o carinho de familiares, nenhum tipo de reza que nos alegre ou conforte o espírito devastado. Afundamos num abismo existencial de onde não temos forças para sair. Fomos arrastados pelo caos violento de nossa mente e coração.

Nenhuma comida nos dá apetite. Perdemos inteiramente o gosto de saborear certos pratos. Sentimos vergonha de reencontrar determinados indivíduos e nos perguntarem por quem se foi. Há aqueles que se entregam à bebida, enchem a cara todo dia. Outros vão a psicólogos ou psiquiatras. As noites são um tormento. A insônia prevalece. Então vêm os remédios para dormir um sono ruim.

Após um longo tempo, contudo, nosso instinto de sobrevivência começa a reagir. Saímos da penumbra do quarto e fazemos as pazes com a luz do sol. Até que em uma inesperada saída (para um supermercado ou shopping center, por exemplo) nosso olhar esbarra em outro olhar. Então, embora com natural receio, começa tudo de novo. Agora é torcer que dessa vez seja para sempre.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 14/12/2025 - 12:02h

Almoço aos domingos

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Segundo o cientista político e escritor Felipe Nunes, no livro Brasil no Espelho, “o hábito do almoço aos domingos – seja na casa da mãe, da sogra ou de outro familiar – é uma instituição nacional, um rito quase sagrado, que há décadas influencia desde piadas até a programação da televisão, os horários do futebol e o comportamento de consumo”.

Certamente, alguns leitores devem lembrar dos almoços em família, nos quais se reuniam uma ruma de gente. Eram os avós, pais, filhos e netos que conversavam sem parar. Às vezes, parecia que estavam brigando, de tão alto que falavam. Já as crianças faziam uma zoada danada, brincavam e corriam pra lá e pra cá. Talvez, em alguns momentos, palavras, sorrisos e lágrimas se misturassem. Era desse jeitinho, nera não, caro leitor?

Puxando os fios de minha memória, lembro-me que em tempos idos não havia uma grande quantidade de restaurantes na cidade. Era costume almoçar em casa, também aos domingos. Com os meus pais e minhas irmãs, ficávamos em casa, jogando conversa fora, enquanto a nossa querida Socorro preparava o almoço.

Normalmente, o menu variava entre galinha, carne de sol, arroz de leite, feijão, picadinho e lombo. Como, na maioria das vezes, eu não gostava de almoçar, preferia comer ovo com arroz e um copo com leite. A sobremesa quase sempre era um delicioso doce de goiaba ou de leite.

Estando à mesa, meu pai, que sempre foi de poucas palavras, de quando em vez comentava algum assunto e, ao final da refeição, fazia o sinal da cruz, em agradecimento. Conversávamos coisas do cotidiano, de como estávamos na escola, do meu boletim com notas vermelhas ou das brigas com minha irmã mais nova. Por outro lado, minha mãe sempre gostou de falar sobre a sua juventude; contava muitas histórias, sobretudo, sobre o meu avô.

Claro que como quase todo menino/adolescente eu achava aqueles momentos um “saco”. Ficava doido para que a refeição terminasse logo, para me trancar no meu quarto ou ir à casa de algum amigo. No entanto, não me dava conta que aqueles momentos passariam, e ficariam guardados em minha memória.

O tempo passou. Casei. Vieram os filhos e o neto.

Os almoços aos domingos viraram uma ocasião especial, nos quais eu sinto uma profunda alegria. Entre sorrisos e histórias, ao lado da minha mulher, dos meus filhos, nora e neto, encontro o verdadeiro sentido da vida. Aqui e acolá, como aperitivo tomo duas ou três doses de cachaça, enquanto meu filho toca violão.

Na verdade, não há nada melhor do que estar ao lado de quem amamos e nos sentimos amados. Ver o sorriso do meu neto, ao se lambuzar com a sua comida, arrastando-se pela casa, aprendendo a andar e balbuciando, aquece o meu coração.

Pois é, de uns tempos pra cá percebi que a felicidade também está nesses singelos momentos; entre os quais, os almoços aos domingos.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 14/12/2025 - 11:24h

De repente, mais do que de repente, os bons ventos sopram

Por Aldaci de França

Foto de evento com Repente (Acervo de João Miguel Sautchuk)

Foto de evento com Repente (Acervo de João Miguel Sautchuk)

Como em outros anos ou temporadas, nunca foi fácil a nossa luta em prol da difusão e movimentação do Repente e afins, em Mossoró. Mas, se cruzarmos os braços e investirmos tempo em reclamação e desestímulo, facilmente encontraremos o caminho do nada.

Essa hipótese, de desânimo, foi  há muito sepultada e sem direito à renascença, por nós repentistas e coordenadores de eventos que elevam a poesia popular nordestina.

Preferimos concordar com Churchill, ex primeiros ministro do Reino Unido e nos espelhar na sua afirmativa: “a coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras” e no que foi mais além, “a coragem conduz às estrela, e o medo a morte”.

Tomando por base as assertivas mencionadas, e graças à persistência dos poetas populares e eruditos que sempre dedicaram parte do seu tempo à valorização do Repente, a gente não para nem vai parar. Seguimos “brigando” por espaço à inclusão dessa habilidade poética em palcos adequados, cobrando apoio dos órgãos de cultura em instâncias Municipal, Estadual e Federal, e objetivando a captação de recursos financeiros e estruturais à realização de Festivais de Repentistas e cantorias de pés-de-parede. É nosso destino e seguimos os caminhos que nos levarão à concretização de bons resultado positivos em prol do Repente.

Acrescentamos que, entre esses abnegados de boa vontade com a cultura, nos incluímos, sem jamais  esquecer Crispiniano Neto, Antônio Lisboa, o saudoso Luiz Antônio (in memoriam), dentre outros, com quem aprendemos muito desde a década de 1980, convivendo no campo da cultura, objetivando êxito em nossas ações.

A sociedade testemunha que trazemos projetos que fortalecem a poesia popular nordestina, sempre procurando inovar, mas sem fugir à legitimidade e origem, por também entendermos que não há civilização sem cultura, e se houver viverá sempre fadada ao fracasso.

Não vamos aqui nos apronfundar na rica história da Cantoria Nordestina, mas nos referir  especificamente ao ano de 2025, o qual considremaos promissor para às nossas atividades culturais que propagam e consequentemente estimulam o Repente em nosso meio.

Neste 2025, em Mossoró, foram desenvolvidos idos projetos enfatizando o coco de embolada, ramo da poesia popular nordestina, pelas Leis Audir Blanc e Paulo Gustavo, alguns desses eventos sob a coordenação da Pró-Reitoria de Extensão da UERN (PROEX), outros sob a responsabilidade dos poetas populares que foram a alguns logradouros, espaços adequados à cultura popular, expressar o seu talento.

O XXIII Festival de Repentistas do Nordeste no Mossoró Cidade Junina (MCJ) e a primeira edição do Projeto “O Repente em Desafio e a Melhor Canção”, iniciativa nossa com o apoio do Rotary Clube de Mossoró e dos apologistas do Repente, ocorrida nesse 27 de Novembro/25, no Catamarã – espaços de eventos -, na Duodécimo Rosado, Doze  Anos, entendemos que figuram entre os mais fortalecidos e legítimos projetos culturais realizados neste ano no nosso Município.

No entanto, nada mais justo e viável será a continuidades dos projetos culturais, pelo relevante serviço que prestam a sociedade em se tratantando de lazer e cultura de fácil acesso.

Mais ou menos assim tem sido o ano de 2025, para a nossa cultura popular em nossa comuna, e, de nossa parte, planos estão sendo elaborados para a continuidade dos projetos tradicionais, e do mais recente, O Repente em Desafio e a Melhor Canção, além de outros desafios que fatalmente irão surgir para 2026.

Aldaci de França é poeta repentista, escritor, cordelista e coordenador dos Festivais de Repentistas do Nordeste no Mossoró Cidade Junina.

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domingo - 14/12/2025 - 08:18h

Uma história da vida real

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Nas Seleções do Reader Digest que meu pai colecionava na década de 50 eu lia, anos depois, entre menino e adolescente, uma seção cujo título era “Histórias da Vida Real”.

Não mais me recordo de qualquer dessas “histórias”, exceto uma: durante a Segunda Guerra Mundial, as moças americanas eram incentivadas a participarem do esforço comum americano escrevendo para seus compatriotas combatentes mundo afora.

Um desses combatentes começou a se corresponder com uma garota do interior de um daqueles estados americanos do Oeste.

Passaram-se os anos e as cartas, que começaram cordiais, mas distantes, assumiram um teor cada vez íntimo, com troca de confidências, sonhos, planos e tudo quanto diz respeito a, finalmente, uma correspondência amorosa.

Tudo corria perfeitamente bem, exceto pela recusa obstinada da moça em enviar, para seu correspondente, uma fotografia e o nome da cidadezinha na qual morava. Todas suas cartas eram enviadas da Estação Central de Trem da capital do seu Estado.

Ele argumentava dizendo que gostaria de ter, perto de si, não apenas suas cartas e tudo quanto de bom elas lhe traziam, mas, também, uma imagem sua para a qual pudesse olhar naqueles momentos terríveis pelo qual estava passando.

Ela lhe respondia, justificando-se, que o amor, entre eles, começara pelo espírito, e assim deveria continuar até o momento em que, finalmente, pudessem se encontrar frente a frente, e uma fotografia poderia lhe dar uma falsa impressão que a realidade viria desmascarar.

Finalmente a guerra terminou. Ele lhe escreveu para combinar o encontro e ela lhe pediu que estivesse em certo dia e hora marcados, na Estação Central de Trem da capital do seu Estado, quando seria reconhecida por trazer, nas mãos, um ramo de rosas.

Essa era a única forma de reconhecê-la que ele dispunha: não sabia nada dela, de sua aparência, família, em qual cidade vivia, e, mesmo, se seu nome era real ou fictício. Todas as conversas mantidas por correspondência diziam respeito a aspectos da guerra e abstrações sentimentais.

No dia e hora combinados, meio-dia em ponto, lá estava ele. Para o trem e ele salta e olha, ansioso, para todos os lados.

Há poucos transeuntes na Estação. Ninguém que aparente ser uma moça desacompanhada portando um ramo de rosas nas mãos. Começa sua frustração.

Será que foi enganado ao longo de todos os anos? Será que tudo quanto ela lhe dizia por carta, o amor que nascera, os planos construídos, eram mentiras?

Parado, a maleta aos pés, a expressão ansiosa, ele olhava em todas as direções tentando encontrar uma explicação para um possível atraso, tal qual um acontecimento de última hora, um obstáculo inesperado…

O tempo passou. Uma hora depois, convicto que tinha sido iludido, ele começou a se dirigir para o guichê de vendas de passagens. Pretendia ir embora o mais rápido possível. Quando se aproximou do guichê viu, sentada, próxima ao local, uma senhora de aproximadamente sessenta anos trazendo, em suas mãos, um buquê de rosas.

“Então é isso?”. “Ela é esta senhora, e por essa razão não teve coragem de me enviar uma fotografia sua?”

Parado, perplexo, pensou em se esconder – não era possível aceitar que aquela senhora fosse sua amada! “E agora?” perguntou a si mesmo, deveria honrar o amor espiritual com o qual se comprometera e que independia de idade ou poderia justificar sua fuga alegando ter sido manipulado?

Não resistiu. Aproximou-se. “Senhora, seu nome é Lucy?”, indagou usando o nome usado por ela nas cartas.

“Não, ela me pediu para ficar aqui algum tempo, com essas rosas na mão, aguardando que alguém viesse a sua procura; ela está ali”, e apontou. Um pouco além, vindo em sua direção, com outro buquê de rosas nas mãos, uma belíssima mulher lhe sorria, enquanto acenava discretamente…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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domingo - 14/12/2025 - 03:38h

Retrato antigo

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Começo a escrever esta página às sete e onze da noite. É precisamente o dia 10 de dezembro deste restinho de 2025. Domingo passado, como raras vezes acontece, fui com Natália a um evento cultural. Cada vez mais a vida em sociedade (lugares cheios e com música alta) me desgosta. Não me sinto à vontade. Tenho a desagradável sensação de que vou topar com determinado indivíduo peçonhento, ou me envolver em algum tipo de situação embaraçosa. Ainda assim botei a cara fora e rumei para a referida programação.

Era por volta das vinte horas. Não descreverei o mencionado ensejo, cuja atração musical fez valer a pena colocar uma roupa melhorzinha e quebrar a rotina. Roupas comuns, devo destacar. Nada de coisa chique ou sofisticada: apenas uma calça jeans seminova, camiseta marrom de algodão e uns tênis baratos já com certa quilometragem. Ao contrário de mim, posso dizer que Natália estava graciosa, deveras bonita em um vestido preto bem-conformado, calçando sandálias de couro rutilante e com uma bolsa a tiracolo. Lógico que nesse dia ela foi a um salão dar uma arrumada no cabelo, algo com que não preciso me preocupar tendo estes escassos e grisalhos fios.

Apesar do introito, meu objetivo aqui não é relatar nada mais do passeio noturno de que usufruímos entre o Memorial da Resistência e a Estação das Artes Elizeu Ventania. O que de fato despertou minha atenção (tanto na ida quanto na volta) foi a lástima em que vive um expressivo número de indivíduos miseráveis que à noite podemos encontrar dormindo, deitados sob marquises de lojas no Centro, usando por cama somente pedaços de papelão e, quando muito, um cobertor velho e sujo com que se enrolam. Então, como fiz outras vezes, trago novamente este assunto para o BCS — Blog Carlos Santos. Sim, a miséria daquelas pessoas sempre me toca.

Fico agora a imaginar o que eles fazem, como se viram na rua para realizar coisas que, ao menos para nós, são tão banais, tão fáceis. Pois é, penso nessas pessoas diante da simples necessidade, por exemplo, de urinar ou defecar em algum ponto desta urbe. Podem crer. Esses infelizes devem enfrentar todo tipo de obstáculos quando são apertados por tais necessidades fisiológicas. Trata-se, repito, de figuras sem-teto, aos deus-dará. Não é difícil, a julgar pelo aspecto de alguns, deduzir que passam longo tempo sem tomar um banho, escovar os dentes, cortar o cabelo, fazer a barba. E as mulheres?

Como fazem, vivendo na sarjeta, para lidar com a menstruação, adquirir um absorvente? Suponho que são, entre os mendigos, as que mais sofrem. Miseráveis de várias idades ocupam nossas ruas, avenidas e praças. Entre esses estão crianças e idosos. Quanto a isso, porém, todo mundo tem conhecimento. O problema é que a grande maioria dos cidadãos abastados (é claro que há exceções) não dá qualquer importância; dizem para si mesmos que isso não é da conta deles, que é responsabilidade dos governos, dos homens e mulheres públicos. Muitos desses políticos também se fingem de cegos, olham tão só para o próprio umbigo. O Altíssimo, se quiser, que faça algo.

Mossoró, igual a outros municípios potiguares, brasileiros e do mundo, não dá a mínima para esses desvalidos, espantalhos urbanos que determinadas pessoas fazem de conta que não sabem de nada. Mas os “invisíveis” não podem ser ignorados por completo. Uma hora ou outra um deles nos atravanca o caminho, agarra um braço nosso e suplicam por caridade: algumas moedas, algo para comer. Há aqueles cristãos que se condoem, apiedam-se dos coitados, e lhes oferecem uma esmola, um prato de comida, um suco ou copo d’água. Cada um de nós, se tiver boa vontade, pode ajudar de acordo com suas condições. Basta ter amor ao próximo.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 07/12/2025 - 11:22h

Textualidades digitais (II)

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Como aqui dito na semana passada (veja AQUI), a escrita, a “memória de humanidade”, sob certo sentido, “torna estático o jogo livre do pensamento. (…) A palavra escrita não escuta o que diz seu leitor. Não toma conhecimento de suas perguntas e objeções”; doutra banda, a sabedoria/ensino oral “propicia uma grande variedade de erros criativos, com as possibilidades de serem corrigidos e contraditados” (George Steiner, “Lições dos mestres”, Record, 2005).

Ademais, na sabença oral, motivados pela sua instantaneidade e interatividade, para além do conteúdo estritamente lógico do discurso, podemos apreender o tom exato, os efeitos indiretos, as intenções ocultas do orador. Talvez por isso, Platão, genial estilista da escrita e dos diálogos, paradoxalmente, tenha advogado ser somente a palavra dita face a face capaz de conjurar a verdade e assegurar um ensino honesto.

Mas é possível conciliar essas duas realidades – memória e flexibilidade – aparentemente incompatíveis? Um caminho auspicioso parece ser o das textualidades/literaturas digitais contemporâneas, superpotencializadas com a revolucionária Internet e que sequer imaginamos onde vai parar com a imprevisível Inteligência Artificial.

A definição de literatura digital ou eletrônica – também chamada de ciberliteratura, infoliteratura, literatura cibernética, e-literatura e literatura computacional – deve levar em consideração, como explicam Andréa Catrópa, Vinícius Carvalho Pereira e Rejane Rocha no “Glossário LITDIGBR – Literatura Digital Brasileira” (texto disponível na Internet), “o fato de que ela não se restringe a um gênero literário, a um estilo ou a um tipo de texto. Se tais elementos são importantes para a sua caracterização, igualmente imprescindíveis são os aspectos relacionados à materialidade dos textos e dos ambientes em que se inscrevem, seus modos de circulação e as relações entre os produtores, os consumidores, as instituições e o mercado, todos insertos no contexto da digitalidade. A literatura digital/eletrônica caracteriza-se por sua natureza limiar e experimental, o que exige uma abordagem multidisciplinar para sua compreensão”.

“Falamos” assim das “textualidades digitais” como as formas de “escrita” e comunicação – ubiquamente presentes na nossa vida, diuturnamente ressurgindo repaginadas e que cada vez mais fazem do nosso cotidiano mundo virtual – proporcionadas pelos já “antigões” processadores de texto (o Word, por exemplo), os muitos sistemas/aplicativos de mensagens/chats (e-mail, WhatsApp, Telegram, entre outros) e as mais diversas redes sociais (como o Facebook, o Twitter/X ou o Instagram), além de blogs, vlogs, plataformas de vídeo/streaming, comunicação via emojis, GIFs ou memes, histórias fanfics e por aí vai.

Essas textualidades/literaturas digitais são sobretudo caracterizadas pela: (i) multimodalidade, combinando diferentes linguagens, como a escrita/textual, a visual (imagens, vídeos, emojis), a sonora (em podcasts e mensagens de voz) e mesmo curiosas animações (GIFs); (ii) hibridez, pois aproveitam/mesclam características de gêneros tradicionais com as potencialidades dos gêneros digitais, como a carta evoluindo para o e-mail ou a combinação de texto e voz dominando os papos no WhatsApp; (iii) intertextualidade, fazendo ligações entre diferentes textos ou conteúdos, por meio de hiperlinks, que permitem explorar além e esquadrinhar toda uma temática; (iv) objetividade, pois muitíssimas vezes seus textos/conteúdos são bem mais curtos e diretos que os textos tradicionais;  (v) instantaneidade, pois, em redes sociais, chats etc., eles se dão e se propagam imediatamente; e (vi) interatividade, pois incluem a participação ativa e constante do leitor/usuário, que curte, repercute, comenta, interrompe, debate, contradita, corrige, compartilha e mesmo desenvolve o texto/conteúdo.

De fato, de maneira fascinante, as textualidades digitais, multimodais, instantâneas e interativas, podem vir a ser “um retorno à oralidade, ao que Vico chamaria de ricorso”.  Essas características podem restaurar as maravilhas de uma sabedoria mais autêntica, como a praticada por Sócrates, dramatizada por Platão e inspirada por Jesus.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 07/12/2025 - 10:48h

Não o convenceu

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

Observar. Só observar, tem muitas vantagens.

Apesar de gostar muito de fotografias, em especial em preto e branco, nunca fui um exímio fotógrafo.

Muito pelo contrário, estou equidistante entre o regular e o semiamadorismo. Entretanto, não me falta disposição e teimosia.

Aliás, sempre gosto de dizer que a teimosia é inegociável. Pois bem.

Além de um bom equipamento fotográfico – acredito eu -, me falta uma característica fundamental a um fotógrafo: paciência.

Não é que não tenha. Até tenho; só não muita. Se tiver calor, menos ainda.

Aliás, assim como na falta de um bom café sem açúcar, no calor, me falta é o juízo inteiro e nunca será um bom momento para resolver certos assuntos ou quizila.

Fotografar como passatempo – com é o meu caso – precisa da mesma calma, tempo, disposição, serenidade, criatividade e, sobretudo, sensibilidade exigida para se escrever um texto literário.

Muito embora tenha esse déficit fotográfico, nos últimos tempos, com o auxílio e o incentivo da minha esposa – que é exímia fotógrafa -, tenho procurado praticar e aperfeiçoar essa arte; embora, geralmente, meus registros sejam feitos despretensiosamente.

Acredito que a cada cem fotos, uma ou duas fiquem realmente apresentáveis.

Como num pleonasmo, gosto de capturar cenas do cotidiano diário; ver gente e a vida pulsante da cidade, seus personagens, lugares e, sobretudo observar o movimento frenético dessa central que se inicia ainda pela madrugada, e vai se amainando já pelo meio da manhã, como toda e qualquer central de abastecimento de alimentos em qualquer lugar do mundo.

Dia desses, passando bem cedo pelo centro da cidade – antes das seis e meia – bem em frente à central de abastecimento (Mercado da Cobal), um dos lugares – talvez – mais bem frequentados da cidade, uma cena me chamou bastante atenção.

Enquanto aguardava o sinal de trânsito abrir, escutava as notícias do rádio – sim, sou ouvinte assíduo de rádios – e tentava organizar mentalmente o meu dia quando, de dentro do carro, percebi que dois homens conversavam na esquina ali, bem ao meu lado.

Um deles – o ouvinte – tinha a barba grande e descuida; cabelos retorcidos e convulsionados; calçava havaianas e vestia camiseta e calção amarrotados, como quem tivesse há dias com a mesma roupa e sem tomar um banho;

Sentado bem ali na calçada da esquina – olhos inchados -, tinha as mãos soltas e descansadas entre as pernas.

Estava totalmente inerte e num estado indescritível de afastamento e melancólica visão perdida no infinito.

De tão profundamente perdida, não indicava qualquer conexão com o mundo, no meio daquele vai e vem de carros e, certamente, muito barulho.

Ao seu lado direito, porém não tão próximo, jaziam duas sacolas pretas, uma garrafa pequena de uma marca de água mineral conhecida. No asfalto, encostado no meio-fio, uma sacola plástica branca.

Já encostada à sua perna direita, havia uma sacola plástica branca, o que parecia ser uma garrafa plástica de refrigerante de um litro sem o rótulo e, ao alcance imediato de sua mão, duas garrafas pequenas, rechonchudas, com tampas brancas enroscadas, como se dois pequenos barris fossem.

No rótulo dessas duas pequenas garrafas em formato de barril – depois pude ver – havia uma silhueta feminina em pose sensual.

Paradoxalmente à postura daquele homem ali sentado e intrigantemente inerte, outro – bem aparentado, de tênis e boné -, se postava de pé bem diante dele e, gesticulando os braços, com veemência e vigorosamente, aparentemente vociferava aos brados e colericamente, como se o tentasse convencer de algo. Talvez um conselho.

Dez segundos se passaram entre eu parar o carro e o sinal abrir. Consegui uma sequência de quatro fotos e precisei seguir.

Trinta minutos após meu compromisso, na volta, passei pela mesma esquina – agora no outro sentido da via – e lá ficaram apenas a garrafa pequena de uma marca de água mineral conhecida e a garrafa plástica de refrigerante de um litro sem o rótulo.

Aparentemente, o homem de boné não o convenceu.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/12/2025 - 09:36h

Vida boa é a dos outros

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Um dia desses, eu tomava um café lá em Duart´s, de propriedade dos amigos Toinha e Rafael Arcanjo, no centro da cidade de Mossoró. Como de costume, papo vai, papo vem. Depois de um certo tempo, chegou ao estabelecimento, uma senhora, de uns setenta e poucos anos. Sentou à mesa, pediu um café e perguntou quanto custava uma fatia de bolo.

Ao saber o valor (que não é caro), recusou. Então, pedi aos proprietários que lhe servissem. Ela me olhou, agradecida, e conversamos um pouco. Falou-me que tinha vindo ao centro da cidade para receber o seu “aposento”.

Após tomar o café e comer o pedaço do bolo, a senhora abriu a sua bolsa, retirando uma cédula de vinte reais. Porém, como eu tinha lhe oferecido o desjejum, não deixei que efetuasse o pagamento.

Ela, para o meu espanto, começou a chorar, lágrimas escorreram pelo seu rosto. Eu pedi para que se acalmasse, pois o que fiz foi apenas um ato de gentileza.

Ela agradeceu, guardou o dinheiro em sua bolsa e se despediu. Foi cuidar da vida, como me disse. Quando fiquei sozinho, fiquei a imaginar quais os problemas àquela senhora estivesse atravessando. Talvez, fosse arrimo de família, e precisasse economizar os vinte reais para findar o mês.

Com se sabe, cada um de nós enfrenta inúmeras batalhas. São problemas emocionais, de saúde, financeiros ou com algum membro da família. Ninguém, absolutamente ninguém, consegue mensurar as lutas que o outro está enfrentando.

“Vida boa é a dos outros”, costuma-se dizer. No entanto, é no fundo da alma, na solidão dos nossos pensamentos, que digladiamos dia e noite com os nossos problemas. A vida não é fácil. Nunca foi. Nunca será.

Por isso, um ato de gentileza pode ser um lenitivo para alguém. No mais das vezes, não precisa ser dinheiro. Quem sabe, apenas uma palavra de conforto, um sorriso, um abraço, ou um simples café, sejam suficientes.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 07/12/2025 - 08:38h

O assassinato da palavra (“Palavricídio”) e o alfabeto infantil dos Emojis

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Um dos fenômenos linguísticos desse tempo da digitalidade é a substituição da palavra pela figuração de um emoji. A humanidade, que um dia produziu Homero, Cervantes, Dante e Machado, agora se contenta com um polegar apressado e um rostinho amarelo piscando. Que triunfo.

Passamos milênios aperfeiçoando a linguagem — essa máquina complexa capaz de erguer filosofias, ciências e tragédias — para hoje substituí-la por um catálogo de figurinhas. É a consagração do Homo Sapiens versão fast-food: mastiga menos, pensa menos, fala menos. Basta um emoji e pronto: você comunica tudo… ou melhor, nada com aparência de tudo.

Não se trata de nostalgia filológica; trata-se de constatar um fenômeno linguístico preocupante: a regressão voluntária da competência verbal. A substituição sistemática de palavras por emojis não representa modernização, mas infantilização expressiva. E infantilização não no sentido doce: infantilização cognitiva, aquela que encolhe o pensamento ao tamanho de um balãozinho colorido.

O problema não é o emoji — o problema é o que ele substitui. Quando o ícone ocupa o lugar da frase, não economizamos tempo: empobrecemos o repertório mental. A linguística é clara e cruel: palavras não são ornamentos, são instrumentos de raciocínio. Ao abandoná-las, abrimos mão da única tecnologia capaz de organizar ideias complexas. O emoji, afinal, não argumenta; apenas sinaliza emoções básicas.

Há quem romantize o fenômeno, comparando emojis a hieróglifos. É uma analogia conveniente — e profundamente equivocada. Os hieróglifos eram sistemas semânticos sofisticados; os emojis são reações emocionais pré-fabricadas. Confundir ambos é o primeiro sintoma da crise linguística que fingimos não ver.

A linguística explica, mas o cotidiano comprova: quando você reduz palavras, reduz sentidos. Cada palavra abandonada é um conceito amputado, uma nuance enterrada viva. E ainda há quem comemore: “olha que lindo, agora todo mundo se entende!” Sim, claro. Basta reduzir a humanidade ao vocabulário emocional de uma criança de dois anos. Universalidade garantida.

Se a palavra é a espinha dorsal da civilização, o emoji é sua vértebra de plástico: simpática, decorativa e absolutamente incapaz de sustentar qualquer estrutura que não desabe ao primeiro vento.

Mas o melhor — ou o pior — é a ilusão de profundidade. O sujeito manda um 😔 e acredita ter comunicado sofrimento existencial. Um 😂 resolve qualquer conversa. Um ❤️ substitui qualquer afeto. É a terceirização absoluta das emoções: não formulamos mais sentimentos, escolhemos ícones.

Não deixa de ser trágico assistir à humanidade, orgulhosa de sua própria racionalidade, entregando sua herança linguística em troca de conveniência. Talvez, quando a última biblioteca silenciar, sobre apenas um símbolo iluminado na tela.

Provavelmente um 👍

Marcos Araújo é professor da Uern, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/12/2025 - 07:30h

Missão cumprida

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Como era de se esperar, estou de volta à crônica, esse tipo de escrita ainda marginalizado ou depreciado perante as demais categorias literárias. De um modo geral, e isto não é novidade, o romance, o conto e a poesia têm maior público. Exatamente nesta ordem. Porém, ao que me parece, aqui a crônica possui certa firmeza junto aos seus adeptos e amantes. Pois é, tenho essa impressão. Neste município, e decerto em nosso estado, a produção dos cronistas faz algum sucesso. Conforme declarei, então, estou outra vez na pequena área tentando cavar um pênalti. Quem sabe assim, ao contrário das tentativas anteriores, eu consiga marcar um golzinho.

Publiquei neste blogue, até o domingo passado, ao longo de vinte e sete semanas ininterruptas, um romance denominado “O Efeito Casulo”. Do ponto de vista do ibope, entre outros, foi um grande fiasco. É isso aí. Apenas uns oito ou dez leitores, se não estou sendo otimista demais, acompanharam e emitiram suas impressões a cada capítulo. Eu já esperava pelo desinteresse da maior parte dos leitores. Alguns entendem tanto de romance quanto de engenharia atômica.

Outros, embora familiarizados com o gênero, optaram friamente pelo silêncio e indiferença. Esses (não todos, obviamente) são os que talvez não gostem deste autor e torceram, de modo secreto, que me faltasse fôlego para a empreitada de verter tal obra à maneira de folhetim.

Nada de extraordinário, nada de incomum. A arte, lançando mão de um termo mais abrangente, padece de inanição, de falta de prestígio ou audiência desde o tempo das pinturas, dos hieróglifos e desenhos em paredes de cavernas. O artista, independente da modalidade artística, sempre foi e permanece um animal ameaçado de extinção.

Todavia esse mesmo animal se mostra um tipo de fênix que prossegue renascendo das próprias cinzas, como na história da ave mitológica. Porque o que deveras rende cliques no universo virtual de hoje em dia são duas coisas díspares e insuperáveis: celebridades e tragédias. Sangue ainda vende jornais. Os veículos impressos foram quase todos aniquilados pelo imparável advento da Internet, no entanto os telejornais, blogues, sites e portais continuam com notável êxito financeiro.

Não imaginem que esta retomada da crônica tem o intuito de resmungar devido à pífia repercussão de “O Efeito Casulo”, que vem a ser o segundo romance que publico no BCS — Blog Carlos Santos. O primeiro foi “A Cidade que Nunca Leu um Livro”, cuja receptividade teve melhor resultado. Estou de bem comigo e vacinado contra melindres ou queixumes em relação ao leitor deste espaço. Totalmente longe do sentimento de que ofereci (ou ofereço) pérolas aos porcos.

A sensação que guardo, apesar do registro de malogro editorial, é que cumpri a missão que reservei para mim próprio. Quanto ao resto, sem nenhum rancor ou falsa modéstia, digo que valeu a pena cada página, cada capítulo gestado. Sou um escritor obscuro, por mais que os amigos digam o contrário, entrementes realizo com pleno amor e paixão este honroso sacerdócio da literatura.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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