domingo - 15/03/2026 - 11:50h

A dona da rua

Por Marcelo Alves

Rive Gauche (Reprodução do WIkipedia)

Rive Gauche (Reprodução do WIkipedia)

Minha estada na festiva Paris, quando jovem, não se resumiu a café e cafeterias. Até acho que, de longe, a coisa que mais fiz foi caminhar. Muitas vezes sem destino, apenas pelo simples prazer de flanar. Pela Rive Droite (a tal margem direita do Sena), do Louvre à Opéra Garnier e pelos bulevares que dali partem. Pela Avenue des Champs-Élysées até o Arc de Triomphe. Pelo entorno do Centre Georges-Pompidou. Pelo agradabilíssimo Marais. E por aí vai.

Entretanto, a minha praia mesmo era a Rive Gauche, especialmente as regiões de Saint-Germain-des-Prés (onde morava) e do Quartier Latin. Sempre que podia, saía do meu hotel na Rue Madame, rezava um Santo Anjo na Igreja de Saint-Sulpice e passava na pertíssima livraria La Procure. Observava muitos rostos no Boulevard Saint-Germain. Chegava no Boulevard Saint Michel. Ali xeretava as enormes livrarias Gibert Joseph e Gibert Jeune. Voltava em direção à Notre Dame e à Shakespeare & Cia. Bisbilhotava os bouquinistes do Sena. E fazia tantas outras coisas que retornava, já tarde da noite, qual o elefante do poeta, invariavelmente fatigado.

Já na mistura de Saint-Germain-des-Prés com Montparnasse, havia uma jornada que eu fazia todos os dias, animado, para assistir aula na Alliance Française, no Boulevard Raspail, 101. E não demorei para descobrir que esse caminho passava em frente a um dos mais significativos endereços da Paris literária: a antiga casa de Gertrude Stein (1874-1946), na Rue de Fleurus, 27.

Conhecia Gertrude Stein de fama e, em especial, das suas memórias “A autobiografia de Alice B. Toklas”, de 1933. Na edição que tenho em mãos (L&PM, 2006) consta: “Mais moderna do que todos os modernos, mais vanguardista do que os cubistas cujos quadros forravam as paredes da sua casa, Gertrude Stein – mulher de opiniões inusitadas, opção sexual heterodoxa, americana auto-exilada na Europa – embebeu sua literatura com o caráter experimental da sua vida”.

Inteligentemente, ela “redigiu a autobiografia da sua amante, apenas para nela aparecer como personagem e narrar suas próprias experiências na terceira pessoa”. E essa sacada, um dos mais coloridos retratos da vida intelectual e artística de Paris, “transformou a influente escritora, crítica e colecionadora de arte Gertrude Stein em um dos célebres nomes da literatura norte-americana da primeira metade do século XX”.

De fora, a famosa habitação, com aquela placa indicando a ex-moradora, logo me pareceu elegante, mas não chique. Mas dizem que era apenas a escritora ou a sua amante abrirem a porta e o visitante quedava impressionado. O interior era luxuoso, com móveis em estilo renascentista italiano. Pouco confortáveis, também dizem. As paredes eram preenchidas, chão a teto, com quadros e telas. E aquele salão, sábado à noite, estava sempre “repleto de gênios, quase gênios e futuros gênios”, nas palavras da própria Gertrude.

De início, gente como Apollinaire, Picasso, Matisse, Braque e Juan Gris, tirando o primeiro, todos pintores, com obras expostas ali. Mas foi com o fim da 1ª Guerra Mundial, na virada de 1919 para os anos 1920, que a coisa, para o meu gosto, tornou-se mais interessante. Como anota Jessica Powell, em “Literary Paris: a Guide” (The Little Bookroom, 2006), uma nova leva de “americanos havia chegado em Paris e novos rostos logo encheram o seu apartamento térreo, entre eles Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Robert McAlmon e Ford Madox Ford.

A casa de Gertrude Stein (1874-1946)

A casa de Gertrude Stein (1874-1946)

A tradição do velho salão de Stein seria substituída nos anos 1920 por essa ‘geração perdida’ (um termo mais tarde atribuído a Gertrude mas que ela alegava lhe ter sido dito por um gerente de hotel francês). Stein, então aproximando-se dos 50 anos, era tida por alguns desses jovens escritores como a ‘mãe de todos nós’, em parte pelo seu papel de mentora”. Consta, para dar um exemplo, que Hemingway lhe era grande devedor na formatação dos seus primeiros contos.

Nunca entrei no endereço da Rue de Fleurus. Apenas sonhava com o café e a conversa naquele salão avant-garde, de ideias radicais e geniais, numa Paris de outrora. Paciência. Devo me contentar em reler “A autobiografia”. Há muitas fofocas e meias-verdades no livro, dizem. Os americanos adoraram. Alguns ilustres franceses também. Outros nem tanto, Braque, Matisse e Tzara entre eles. Amigos romperam com a autora. Bom, eu não tenho nada com isso. Acreditarei em tudo. E vai ver Miss Stein, assim como fez com Hemingway, procede à minha instrução.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 15/03/2026 - 05:20h

Eudaimonia

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa produzida por Larissa Amorim

Foto ilustrativa produzida por Larissa Amorim

A par do que os “livros” de autoajuda têm pregado aos quatro ventos nos últimos anos, abarrotando livrarias duvidosas, fertilizando cal, pedra, além de regar filosofias de vida com água destilada, viver de forma plena e virtuosa, como a verdadeira filosofia aristotélica eudaimônica ainda é um desafio.

Se não pessoal, ao menos prático, diria.

Embora gostemos em grande parte de pequenas poções de felicidade, que, de fato, são as que mais nos marcam, esse prazer passageiro também pode representar um sério perigo a longo prazo.

O bom é – seria – a realização plena.  Pequenas poções de felicidade plenas.

A despeito disso, sempre gosto de tomar como exemplo um fato que um amigo norueguês me contou quando fui visitá-lo em Oslo.

Seu pai, um grande apreciador de vinhos, sempre o alertava que poderia tomar os vinhos que quisesse da adega. Salvo, um tal rótulo.

O tal rótulo era de uma safra específica; com corpo, acidez e perfil aromático que só enólogos sabem comentar.

Aliás. Confesso que de vinho, só sei falar com propriedade da ressaca.

Foi então que meu amigo, nos arroubos das juventude, numa noite descontraída com uma turma de amigos, após tomarem várias salvas de vinhos; garrafas após garrafas, resolveram beber o tal rótulo.

No dia seguinte, seu pai – muito atento -, percebeu que seu vinho especial havia sido deliberadamente bebido na noite anterior.

Como a autêntica estabilidade emocional de um norueguês, ele aguardou meu amigo acordar e queria saber se o vinho do tal rótulo havia sido bebido primeiro que os demais.

Meu amigo, ainda sonolento, respondeu negativamente.

-Então vocês sequer o degustaram?

-Não.

Claro que seu pai entendeu que o que ele e seus amigos fizeram era naturalmente esperado de uma turma de jovens ávidos por uma boa noite – gélida – regada a vinho e, provavelmente, brunost.

Seu desapontamento foi maior, pois aquela pequena felicidade engarrafada, efêmera, de uns poucos goles; aquela pequena poção de felicidade, se desfez na ebriedade imotivada.

Não foi pelo vinho.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográf

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Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 15/03/2026 - 03:18h

Drama antigo

Por Marcos Ferreira 

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Certo dia, isto há mais ou menos um mês ou um pouco além, tive a infelicidade de ver um desses vídeos que se propagam na internet, tornam-se “virais”, eis a palavra da moda e também a mais apropriada. Com um aparelho celular, vejam só, alguém gravou de dentro de um carro uma pessoa (não sei até que ponto posso dizer que se trata de ser humano) que acabara de abandonar um cão à margem de uma estrada.

O sujeito pegou o seu automóvel e partiu sem a menor piedade, sem compaixão alguma. Pura malvadeza! O pobre do animal, aflito, usando todas as suas forças, saiu na carreira tentando alcançar aquele elemento insensível, mau-caráter.

Fiquei arrasado com aquela imagem, o cachorro correndo desesperadamente, perseguindo o veículo de seu desalmado dono durante não sei quanto tempo. Não me agrada ver ou tomar conhecimento de ações desse tipo. Prefiro não saber. É que dói no coração, sabe? Um sentimento de impotência me machuca demais o espírito. Desvio a vista, por exemplo, quando no meu caminho me deparo com um animalzinho atropelado em algum ponto deste município, sobretudo gatos.

Houve um certo tempo em que muitas coisas me comoviam menos. Hoje em dia está tudo mudado. Tornei-me, como se costuma dizer, um tipo de manteiga. É isso, me derreto fácil perante ocorrências dessa espécie e de várias outras. No passado, repito, aquelas imagens naturalmente me tocavam, entretanto não como agora. Sinto bastante pena dos excluídos, de gente ou bichos, que vagam por esta urbe sem a proteção de ninguém, ao léu, desnorteados, no mais das vezes com fome e sede.

Está cada vez mais difícil fazer de conta que não temos nada a ver com isso. O número de animais de rua, de homens e mulheres rifados em toda parte é imenso.

Tenho a impressão, falando de modo realmente amplo, de que tivemos um coração melhor, menos frio, mais empático. Nos tempos atuais, apesar da carestia não ser tão abrangente como antes, quase toda a gente lava as mãos para a desgraça alheia; a ruína de nossos semelhantes e animais abandonados mundo afora. É mesmo uma pena que sejam tão poucos os que pratiquem a caridade.

Não é a primeira vez que escrevo acerca dessas coisas lamentáveis. Decerto há elementos que não gostam disso, acham que estou aqui sendo demagogo ou hipócrita. Querem (não todos) apenas historinhas felizes. Sim, um bom número de cidadãos não curte essa temática, espera-se ler unicamente um conteúdo positivo, deseja-se acessar o blogue no domingo e se deparar com textos ricos em otimismo e narrativas brandas. Nada de queixumes, nada de cenas tristes do dia a dia. Essas almas empedernidas, tão calorosas quanto uma pedra de mármore, estão mais a fim é de, volto a dizer, amenidades, relatos edificantes, sem notícias melancólicas.

Não vou me alongar nesta temática soturna, incômoda. No entanto fico na torcida, na esperança de que aquele cachorro rejeitado tenha descoberto em algum lugar um tutor sensível, pessoa de coração gentil, caridosa. E que São Francisco de Assis, santo padroeiro dos animais e da natureza, oferte alguma proteção a esses bichinhos desamparados, sem acolhida, que vivem ao deus-dará.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/03/2026 - 11:38h

Relatos sobre Tibau

Por Odemirton Filho

Residências de veranistas abastados no século passado (Foto: Wikipedia)

Residências em Tibau de veranistas abastados em registro do século passado (Foto: Wikipedia)

Não é novidade para os leitores deste Blog que eu gosto de escrever sobre a cidade de Tibau. Por qual razão? Lembranças. Lembranças que, vez ou outra, invadem a minha alma e me fazem buscar memórias recônditas no coração.

Dessa vez, no entanto, quero falar sobre o I Festival Literário de Tibau (FliTibau), realizado no último dia 31 de janeiro e, principalmente, sobre o Volume II do livro Tibau De Todos os Tempos, de autoria da Jornalista Lúcia Rocha. Por causa do cronograma de artigos e crônicas que publico semanalmente neste espaço, somente agora me debrucei sobre o assunto.

Inicialmente, é de se louvar a iniciativa de Lúcia Rocha, Raí Lopes, Emanuela de Sousa e Júlio Rosado, pois sabemos o quão é difícil organizar um evento literário. Contudo, eles fizeram com denodo e competência, merecendo todos os aplausos, uma vez que foi um momento singular.

Na ocasião, houve o lançamento do mencionado livro, bem como, um gostoso bate-papo entre escritores, escritoras, poetas e poetisas. Eu estava lá, sentado à mesa com Morgana, minha mulher. Enquanto tomávamos um cafezinho e saboreávamos um delicioso bolo, acompanhávamos a programação.

Em relação ao livro sobre Tibau, é claro que não darei “spoiler”, a fim de instigar o leitor a adquiri-lo e navegar por suas belas páginas. Na obra, encontram-se relatos de moradores e veranistas que viveram e curtiram os veraneios de Tibau ao longo do tempo.

Entretanto, quero destacar alguns relatos que aguçaram a minha curiosidade. Entre eles, o fato de no terreno, onde há cinquenta anos está edificada a casa de meus pais, ter tido uma “bodega, com pouca coisa, bolacha e cachaça para os pescadores”, conforme relatado por dona Elizabeth Negreiros.

Outro relato que me chamou atenção foi o da senhora Aída Mendes. Ela disse que seu irmão, Eider, estava passeando com sua babá, Belisa, ali próximo a Pedra da Furna da Onça. Referida pedra ficava depois da casa de doutor Vingt-un Rosado, e sempre foi envolta em lendas e histórias. Conforme narrou, o seu irmão viu uma bonita mulher, carregando flores nas mãos, segundo ele, tratava-se de Santa Teresinha.

Ah, e quem viveu naquela época, com certeza se recordará do “morrinho”, no qual a juventude se encontrava para jogar conversa fora, flertar e namorar, tudo sob a luz do luar e, talvez, pela suave melodia de um violão.

São muitos, muitos são os relatos sobre Tibau no livro. Não tenho dúvidas que, ao adquiri-lo, o leitor conhecerá e relembrará alguns fatos, deleitando-se. Quem sabe, até se emocione ao rememorar tempos idos.

Por essas e outras razões que me apraz escrever sobre Tibau, pois foi lá que brinquei muitos dias da minha infância, curti parte da juventude, conheci e comecei a namorar aquela que seria a minha esposa. Tempos depois, levamos os nossos filhos para tomar banho de mar, nas águas que abençoaram a nossa união.

Pra finalizar, faço minhas as palavras do poeta e amigo, Cid Augusto: “na minha infância, Tibau era o que existia mais próximo do paraíso”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 08/03/2026 - 10:32h

A hora de sair

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa em estilo aquarela, com recursos de Inteligência Artificial, a partir de foto do autor da crônica, para o BCS

Arte ilustrativa em estilo aquarela, com recursos de Inteligência Artificial, para o BCS, a partir de foto do autor da crônica

Um homem tem que saber a hora de sair.

Recolher-se.

Perceber que o tempo passou.

Tirar as esporas, encostar a cela.

Pendurar as armas, despir a armadura.

Não mais se afadigar debaixo do sol.

Beber seu café; contar casos.

Ver seus rebentos irem para a arena.

Sair de cena.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/03/2026 - 09:00h

A urgência de ir devagar

Por Cesar Amorim

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

A gente corre como se houvesse uma linha de chegada invisível.
E aprendemos a sentir culpa sempre que ousamos estacionar.

O dia começa antes mesmo de o corpo acordar.
O celular vibra, a mente dispara, e o tempo já parece atrasado mesmo sem ter começado.

Tudo é urgente.
Tudo exige resposta.
Tudo pede pressa.

Mas viver nunca foi uma atividade de alta velocidade.

Desacelerar virou sinônimo de perder tempo, quando, na verdade, talvez seja o único jeito de encontrá-lo.

É na pausa que o café revela o gosto.
É no silêncio que a conversa ganha sentido.
É no intervalo que a gente se percebe inteiro.

Houve um tempo em que esperar não causava angústia:
a fila, o semáforo, a tarde sem compromisso.

Hoje, qualquer segundo vazio parece uma falha do sistema.

Talvez o cansaço não venha apenas do excesso de tarefas,
mas da falta de presença nelas.

Desacelerar não é desistir.
É escolher.

É entender que nem tudo precisa acontecer agora;
e que quase nada acontece melhor quando estamos apressados.

A vida não cobra velocidade.
Ela pede atenção.

E talvez viver bem seja justamente isso:
aprender a caminhar mais devagar
num mundo que insiste em correr.

Para não chegar rápido demais
a um lugar que não vale a pena.

Cesar Amorim é advogado especialista em Direito dos Servidores Públicos

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 08/03/2026 - 08:22h

O que se sente

Por Bruno Ernesto

Gravuras de Assis Marinho (Foto: Bruno Ernesto/28-02-2026)

Gravuras de Assis Marinho (Foto: Bruno Ernesto/28-02-2026)

Arte é tudo aquilo que, intencionalmente emociona, convida a refletir por uma outra perspectiva ou, simplesmente mostra que o extraordinário para um não passa de ordinário para outro, e vice-versa.

Se você puser os olhos em algo que se encaixe minimamente nessa perspectiva, ela alcançou o seu objetivo. Não importa se o que despertou em você seja um bom ou mau sentimento. A arte é assim mesmo.

Muitas vezes, a intenção da obra é mesmo prospectar um sentimento antinômico entre o objeto e o espectador.

Não por onde, o papel do curador de uma exposição anda pari passu ao do próprio artista, e convida o espectador a percorrer um percurso que, se não lhe passa uma impressão direta sobre a mensagem do autor ou temática daquelas obras, ao menos mostra que é possível enxerga-la sob outra ótica.

Não é incomum – por vezes até compreensível – que alguém pense que cabe exclusivamente ao curador direcionar a impressão do público de uma exposição. Nem sempre.

Assim como qualquer arte, um pintor, um escultor, um fotógrafo, um músico ou um escritor, percorrem verdadeiros ciclos criativos ou desimaginativos. E é aí que um curador atento pode pinçar o que aquele ciclo pode despertar no expectador.

Evidente que, desde a concepção, com a escolha do tema ou obras de determinado artista, passando pela expografia, com a organização da galeria, iluminação, cores, público e circulação dele, até a exposição em si, antes de tudo, a curadoria é uma operação intelectual que envolve teoria crítica de matizes cultural, política, estética e de visão de mundo.

E essa condição do curador, além de envolver escolhas do curador, envolve escolhas e consequências do próprio autor – e do curador também -, e propõe uma interpretação que estrutura, em última análise, nossa relação com a própria arte, quer seja ela visual, olfativa, tátil ou sonora.

Claro que a mesma obra pode ter inúmeras leituras com o passar dos tempos ou com o tipo de público que a observa, pois é uma relação sinalagmática.

O que faz da obra ou de uma exposição realmente interessante e instigadora é, em última análise, o que ela desperta em você; ainda que inconscientemente.

Bruno Ernesto é professor, advogado, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/03/2026 - 03:50h

Pequeno manual para se escrever uma crônica

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Agora vejo que a semana expirou. A labirintite, um tanto de esquecimento e outro de preguiça findaram por prejudicar o envio de meu texto para o BCSBlog Carlos Santos. Não bastasse, nocauteado pelos antipsicóticos, hoje só me acordei às nove e quinze da madrugada. É dia 6 de março. Noite veloz. Há pouco eu estava no mercado fazendo umas compras, gêneros alimentícios, quando súbito ouço um bipe. Peguei o telefone. Meu editor (lacônico) havia deixado uma mensagem no WhatsApp me cobrando a fatura.

Foi só aí que esta tarefa me veio à lembrança. “Mais tarde eu mando”, respondi também de modo telegráfico. Sendo franco, não tenho muita convicção disso: tirar da cartola algo dessa ordem assim, em cima da hora. Às sextas, tipo uma poção mágica, é o dia que tacitamente estabelecemos como prazo. Meu laboratório de escrita possui umas fórmulas pouco criativas quanto surradas.

Não tenho, ao contrário de Otto Lara Resende, redação fluente. Escrevo deveras a custo; inicio um parágrafo e por vezes fico sem o que dizer no período seguinte. Quem sabe este pequeno manual para se escrever uma crônica seja útil a alguém. Vou me afundando no lugar-comum, e a necessidade de produzir literatura de qualidade ao menos razoável descamba para o brejo. Estou às voltas com um exercício autopunitivo e sigo tocando esta barca furada a duras penas.

Nem tudo, entretanto, é só engodo e fracasso. É possível, embora apresentando um recurso batido, repisado, avançar no manejo desta sopa de letrinhas. O sabor é de fato ruim, todavia o caldo pode se tornar nutritivo. Claro que ninguém é forçado ou manipulado a consumir este miojo pouco substancial, inapetente. No que se refere ao improviso, contudo, desconfio de que o resultado será exitoso.

Porque uma narrativa deste naipe pode ser elaborada com boa quantidade de rodeios e delongas. Indivíduos de alto coturno no universo das letras passaram e passam por esse tipo de aperto e quase todos, para não faltarem aos seus espaços culturais, optaram por esta velha receita de escrever sobre a falta do que escrever. Então, conforme mencionei algumas linhas atrás, essa malandragem inócua vai devagarinho ganhando peso.

Estou, podem crer no que lhes digo, resignado para receber uma chuva de canivetes. Dou a cara à tapa sem ressentimento algum. Fico imaginando o semblante do solene editor deste blogue diante da minha artimanha palavrosa. O que dirão (ou tão só farão vista grossa) determinados habitantes deste ilustrado recinto de opinião e cultura? Tenho para mim que, no mínimo, devem exibir um ar de decepção. Não lhes condeno os resmungos ou apenas o silêncio. Fazer o quê?! Depois de todo este circunlóquio, após um nariz de cera sem tamanho, posso assegurar que já escrevi algumas coisas bem piores. O que sempre me incomoda é requentar o pão.

Entrementes, assim maculando a pureza desta página, noto que sobrevivi à complexidade da missão: fugir da guilhotina. Meus colegas de blogue (alguns nunca vi mais gordos) podem perfeitamente concluir que sou um escriba de menor estatura, de cabedal nitidamente limitado. Não reúno, por exemplo, o misto de erudição e didática do escritor e causídico Marcos Araújo, meu xará, que é mais difícil de se ver do que um político reeleito.

Existe também, entre outros, a mansuetude cativante do cronista Odemirton Filho. Quanto ao meu tiquinho de leitores, cujos nomes prefiro não citar, de modo a não cometer o pecado da omissão, conto com a tolerância e o carinho deles. Isso não é pouca coisa. Classifico esse tratamento ou indulgência para comigo como um grande privilégio, um voto de confiança de especial nobreza.

De resto, para aqueles que padecem com a falta de assunto, de inspiração, recomendo que não se desesperem. Tomem um gole de café e, por que não, façam uso deste pequeno manual para se escrever uma crônica. Não têm nada a perder. Talvez isto dê certo e lhes salve o pescoço da guilhotina.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
sábado - 07/03/2026 - 20:24h
Encontro e encontro

Depois de tantos e tantos anos

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Coincidência? Que seja.

Num mesmo dia, em locais distintos, reencontro dois colegas da faculdade, ainda do primeiro período do curso de Direito.

Lá se vão 20 anos. Eles recordaram, me reconheceram e me transportaram para 2006.

Um deles, desistiu de ingressar na advocacia e enveredou por outra área, herança profissional do pai.

O outro, não. É advogado militante. Seguiu carreira.

Ambos felizes nas escolhas, caminhos e vida.

Eu também.

Encontros fugazes, mas que embalaram meu coração neste sábado (07), depois de tantos e tantos anos sem vê-los.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/03/2026 - 09:40h

Carne e osso

Por Bruno Ernesto

Teatro Municipal Casa da Ópera, Ouro Preto/MG Foto de Bruno Ernesto/ Dez de 2025)

Teatro Municipal Casa da Ópera, Ouro Preto/MG Foto de Bruno Ernesto/ Dez de 2025)

Desde setembro de 2023, quando passei a contribuir com o Blog Carlos Santos, procuro desconectar os textos de minha atividade profissional como advogado militante, e convirjo para o conteúdo cultural, sem pretensão de inculcar ideias, dogmas, correntes filosóficas, convencer alguém ou pregar o escárnio. Este, se necessário, talvez.

Proponho apenas contribuir com o domingo dos leitores com que se dispõem a lê-los, pois acredito que após uma semana intensa, esticada e estresso-irritante, ninguém queira ler conteúdo técnico ou enfadonho num espaço dominical.

Não por onde, embora exclua o viés técnico, não esqueça que entre a cadeira do escritório e as salas dos fóruns, há o cotidiano.

Embora há mais de vinte anos o processo judicial virtual seja uma realidade, a pandemia do Covid-19 acelerou o fim da papelada e sedimentou a virtualização do Judiciário.

Até mesmo o que mais resistia a ser implementado, que eram as audiências virtuais para todas as esferas foi, enfim, sedimentado, de modo que hoje, quando apenas imprescindível, as audiências são realizadas presencialmente.

Consequência disso, foi o esvaziamento dos corredores dos fóruns.

Esse esvaziamento também interrompeu uma cadeia intrincada de atividades e serviços correlacionados ao fluxo de pessoas, especialmente a socialização.

Aquele simples ato de chegar ao fórum e se deparar com vários amigos, colegas e conhecidos, por si só, muitas vezes já representava um ponto de ruptura da tensão do dia.

Uma breve, porém descontraída e cordial conserva entre advogados, servidores, magistrados, promotores, e todas as pessoas que frequentam, azeitam essa complexa engrenagem social – lembre-se, o Judiciário serve de controle social –, pois todos ainda são de carne e osso.

A presença, de alma e corpo é tão importante nesse ambiente, que essa semana, ao me dirigir para uma diligência presencial no Fórum de Mossoró, o vigilante que sempre nos recepciona com muita gentileza e cordialidade, disse que estava contente em ver o grande movimento do dia, pois ver os corredores vazios é uma tristeza só:

– Ninguém quer vir mais ao Fórum.

– Ninguém encontra mais nenhum conhecido.

– Não se tem notícia das pessoas, da vida. Nada.

Embora estivesse apressado, aquele breve momento me fez desacelerar e parei para conversar com ele. Claro, tive que concordar com ele.

Muitas vezes sequer olhamos para as pessoas, pois o nosso hiperfoco é o tempo. Sempre, e a todo tempo, o tempo.

Após uma breve conversa, entre risos e nostalgia, disse a ele que o que mais sentimos saudade da vida nos corredores dos fóruns – além dessas excelentes conversas – são as confusões. Nada como uma confusão, um arranca-rabo presencial!

Ele deu uma gaitada tão generosa, que ganhei o dia.

No fundo – não sei – tenha plantado uma semente desnecessária, pois, pensando melhor, de agora em diante, talvez ele até torça para que um arranca-rabo se suceda, sem maiores consequências, decerto. Ainda somos de carne e osso.

Lembre-se, caro leitor: todo mundo pode proporcionar uma grande alegria no dia alguém. Uns com a sua chegada, outros com a sua saída.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 01/03/2026 - 06:48h

Lições de vida

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Acredito que se passaram três semanas, senão um mês ou mais, que uma passarinha colorida começou a construir um ninho com pequenos ramos de mato seco no recanto de duas linhas de madeira apoiadas sobre uma coluna de minha área de serviço. Achei que fosse desistir da empreitada, o mato estava caindo com frequência. Mas, graças aos recursos da natureza, ela superou as dificuldades e o ninho ficou pronto. Ali depositou três ovinhos.

Desde então, toda vez que olho para o local, lá está a pequena ave fiel ao seu propósito de chocar os ovos. Não sei como faz para adquirir meios para manter a si própria, como adquirir comida e água. Porque sempre a vejo acomodada em seu ninho, empenhada em sua obstinação materna.

Daí para cá tenho evitado movimentos bruscos no terraço, a fim de não assustar a avezinha e fazer com que ela saia momentaneamente do local. Porque isso já aconteceu algumas vezes, na fase de construção da estrutura. À noite, quando necessário, acendo a luz da área de serviço durante o menor tempo possível, isso para que a claridade não incomode esta que em breve terá filhotes.

Admito que me preocupo com a chegada dos rebentos que estão (quem sabe) prestes a quebrar a casquinha dos ovos. Temo que algum desabe enquanto a mãe estiver fora, em busca de alimento para si e as suas crias. Receio ainda que, no caso de algum cair, Juju abocanhe o recém-nascido, mesmo que não tenha a intenção de comer o passarinho implume. Juju ainda é uma cadelinha muito nova, cheia de infantilidade e desastrada. Receio que machuque ou mate a ave. Seria uma fatalidade ante a qual me vejo impotente, sem meios de evitar a queda e os dentinhos de Juju. Torço para que nenhum dos seres alados despenque de sua morada provisória.

Considero admirável demais a tenacidade e zelo com que a passarinha se mantém ali cuidando da minúscula e precária habitação por ela construída de forma intuitiva, instintiva. Deduzo que seja esta a primeira vez que se empenhou nesse desafio, possivelmente se alimentando mal e também passando sede. É muita pureza de instinto, amor desmedido dessa mãe à espera de seus filhos.

Isso tudo me recorda uma história por demais triste e dramática que ouvi narrada por uma de minhas vizinhas na calçada onde nos reunimos com cadeiras para falar um pouco da vida alheia do final da tarde até certo horário da noite. Sim, tratamos um pouco sobre a vida de terceiros, que ninguém é de ferro. Não recordo a fonte de onde a senhora Cilene Freitas (eis o nome da vizinha) obteve esta informação: uma jovem mãe, com aproximadamente catorze ou quinze anos, vendeu o filho com apenas três meses de idade em uma boca de fumo. Corajosa, a avó interveio, enfrentou os marginais e recuperou o neto. Maldito vício (precisamente o crack) que faz com que uma dependente química troque sua criancinha por esse tipo de droga.

Enquanto isso, com amor, pertinácia, e sem dependência em nenhuma espécie de substância, a ave que se aninhou no meu terraço aguarda pacientemente a chegada dos seus nascituros. É admirável o quanto esses seres ditos irracionais nos dão certas lições de vida. Fico aqui esperando os filhotes. De alguma maneira me sinto responsável pela segurança e o bem-estar dessas criaturinhas.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 22/02/2026 - 09:16h

Os subterrâneos de cada um

Por Marcelo Alves

o eu, o outro, paixão, amor,

André Gide (1869-1951) não foi bem um “escritor maldito” – para parodiar a expressão cunhada por Paul Verlaine (1844-1896), sobre os seus compatriotas Tristan Corbière (1845-1875), Arthur Rimbaud (1854-1891) e Stéphane Mallarmé (1842-1898), no ensaio “Les Poètes Maudits” (1884) –, já que fez muito sucesso em vida. Mas ele teve seus subterrâneos.

Gide nasceu em Paris numa família burguesa e protestante. Perdendo o pai na infância, ele foi educado puritanamente pelas mulheres da casa. Buscou refúgio na literatura. Começou seu diário/memórias aos quatorze anos. Cresce tímido, quase aterrorizado com público. Mas tem conhecenças decisivas, em oportunidades distintas, com Paul Valéry (1871-1945) e Oscar Wilde (1854-1900).

Frequenta os círculos literários parisienses. Viaja ao estrangeiro, o que viria a ser uma constante em sua vida, objeto de aventuras e escritos. É um escritor de renome antes da virada para o século XX. Embora homossexual, casa com a prima Madeleine Rondeaux (1867-1938). Em 1909, funda e dirige a badalada Nouvelle Revue Française – NRF, que, pelas mãos de Gaston Gallimard (1881-1975), vem dar na célebre Éditions Gallimard.

Foi comunista. Rompe com o PCF após retornar da União Soviética. Seus livros, vários traduzidos para o português, são muitíssimos: “Os Frutos da Terra” (1897), “Os subterrâneos do Vaticano” (1914), “A Sinfonia Pastoral” (1919), “Corydon” (1924), “Os Moedeiros Falsos” (1925), “De Volta da URSS” (1936) e por aí vai. Os meus preferidos são “Os Moedeiros Falsos” e “Os subterrâneos do Vaticano”, que considero obras-primas. Intelectual multifacetado, ele arrebata o Nobel em 1947.

André Gide foi o guru (para usar do termo em moda) de uma nova estirpe de intelectuais e de leitores. Entretanto, para fazer “nascer” essa nova geração, ele teve de romper com um mundo de tradições já moribundas, inclusive o seu próprio mundo, cômodo e seguro na infância, mas, sendo ele cristão, casado e homossexual, preconceituoso e doloroso na vida adulta.

Na busca da própria razão de existir, Gide ousou “destruir para ser”, falando em prol dos direitos dos homossexuais e enfrentando as consequências na sociedade de então. E foi politicamente engajado. Como registra o meu “Français: littérature & méthodes” (Éditions Nathan, 1995), de Christophe Desaintghislain et al., “cada obra de André Gide se distingue da precedente por um estilo e um tom novos, e se desvia da concepção tradicional do romance. A publicação de Os Moedeiros Falsos, em 1925, marca o clímax dessa empreitada. A partir daí, o engajamento político é a principal preocupação de André Gide. Ele denuncia alternadamente o colonialismo, o fascismo e o comunismo, impondo-se pouco a pouco como o mentor de uma geração. A carreira de escritor é coroada em 1947 pelo prêmio Nobel de literatura. Gide se dedica doravante às suas memórias. Ele morre em 1951 de um edema pulmonar”.

Talvez seja no meu preferido “Os subterrâneos do Vaticano” que Gide leva essa destruição/renascimento às últimas consequências. O romance, intencionalmente caótico, possui muitas intrigas e personagens. Há discussões e tensão entre o ultracatolicismo e o pensamento liberal. Há um grupo terrorista. E se diz até que o Papa foi sequestrado e está encarcerado nos subterrâneos do Vaticano. A obra de Gide foi bater no “Index Librorum Prohibitorum” da Santa Sé. Há quem desgoste do seu gênio. “C’est une question de mentalité”, eu diria.

Já finalizando, para os interessados em direito, lembro que Lafcadio, protagonista da trama de “Os subterrâneos do Vaticano”, comete um crime sem motivo, um homicídio, para, na sua crença mística do “ato gratuito”, provar a existência dessa espécie de conduta/delito. Mas será que esse tal “crime sem motivo” existe mesmo?

Os entendidos recomendam: “Follow the money”. Os franceses diriam: “Cherchez la femme”. Talvez nenhuma dessas recomendações faça sentido para o outrora comunista e abertamente homossexual André Gide. Será que temos apenas mais uma das ironias perturbadoras do escritor?

Ao cabo, Lafcadio cai em profundo remorso. Isso não surpreende. A liberdade e a loucura – ideológicas ou não – têm consequências. Cobram preço. Seja na sátira de Gide ou na vida real.

Marcelo Alves é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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domingo - 22/02/2026 - 07:28h

Todo Judas se revela com o tempo

Por Patrick Nilo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Judas não está nos livros. Está na agenda do telefone.

Na mesa do jantar.

Na foto sorrindo ao seu lado.

Ele te abraça forte, chama de irmão, ri alto das suas piadas. Mas, por dentro, se incomoda com tudo que você é.

Porque a sua luz ilumina o lugar onde ele fracassou e nunca teve coragem de reconstruir.

O invejo não quer apenas o que você tem. Ele quer que você deixe de ter.

Sua alegria o acusa. Sua paz o perturba. Seu crescimento o humilha sem que você faça nada.

Por trás da inveja quase sempre existe alguém ferido, mal resolvido, vazio de amor e cheio de ressentimento.

Alguém que não conseguiu construir algo bonito e passou a torcer para que, o bonito dos outros, desmorone. É miséria emocional.

Nem todo mundo que entra em sua vida merece permanecer. Alguns chegam apenas para mostrar quem você nunca deveria ter deixado entrar.

Crescer exige seleção. Amadurecer exige cortes. Paz exige distância de quem vibra pelo seu fracasso.

Você não precisa odiar. Precisa apenas parar de oferecer acesso.

Quem não suporta sua felicidade não merece sua intimidade.

Quem se alimenta de sua queda não pode continuar sentado à sua mesa.

Nem todo Judas será exposto. Mas todo Judas se revela com o tempo. E quando se revelar, não discuta, não explique, não tente consertar.

Apenas feche a porta e siga em paz.

Patrick Nilo é procurador da República

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domingo - 22/02/2026 - 06:50h

Força e fé

Por Odemirton Filho

Ilustração da Biblioteca do Pregador

Ilustração da Biblioteca do Pregador

De vez em quando converso com um amigo sobre o seu estado de saúde. Ele vem atravessando um momento delicado na vida, pois, há algum tempo, foi diagnosticado com uma séria doença, necessitando de tratamento e acompanhamento constantes para debelar o mal.

Porém, o que me deixa admirado é a sua força e a sua fé. Apesar de aqui e acolá ter momentos de fraqueza, o que é natural, ele continua a lutar, a rogar a Deus pela sua plena recuperação. E o faz, diga-se, com uma energia contagiante; não desanima, acredita piamente que sairá dessa. E sairá, se Deus quiser.

Lembro-me de uma passagem do Evangelho na qual Jesus segura na mão de um discípulo e lhe diz: “homem de pouca fé, por que duvidaste? E levantando-se repreendeu o vento e o mar, e se fez calmaria”. (Mateus 14:31).

Com efeito, quem de nós, às vezes, não fica temeroso ao enfrentar uma tempestade na vida? Todos, creio. É comum vacilar, tremer, fraquejar. Entretanto, para quem tem fé, o fardo fica mais leve. Encontra-se força de onde nem se imagina; levanta-se a cabeça e segue-se em frente, firme e forte.

O fato é que ninguém sabe o que o outro está enfrentando. As batalhas da vida muitas vezes são silenciosas, e precisamos de força interior para digladiar com os problemas. Vez outra, como sabemos, perdemos uma batalha. No entanto, o que realmente importa é levantar, bater a poeira, erguer a cabeça e seguir adiante. Se hoje não deu certo, amanhã, certamente, dará.

Por falar nisso, noutro dia eu vi uma carreata pelas ruas de Mossoró que me deixou bastante emocionado. Uma mulher, dentro de um carro, acenava para as pessoas nas ruas e nas calçadas, feliz da vida, pois tinha conseguido vencer a luta contra o câncer. Por onde ela passava, as pessoas acenavam de volta, vibrando com a sua vitória, emanando boas energias.

Bom, não sei quais batalhas você está enfrentado. Só sei que eu tenho as minhas e procuro enfrentá-las com força e fé, tal qual o meu querido amigo. Desistir, decerto, não é uma opção.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 22/02/2026 - 06:02h

Nem tudo é saudade

Por Bruno Ernesto

Bancos na Praça da saudade, Cemitério São Sebastião/Mossoró (Foto: Bruno Ernesto, 04-02-2026)

Bancos na Praça da saudade, Cemitério São Sebastião/Mossoró (Foto: Bruno Ernesto, 04-02-2026)

Já reparou que tem dia que pensamos estar numa época distante de nossa vida?

Num dia lembra a nossa adolescência – a volta do colégio, da casa dos avós, da missa, da volta do supermercado, ou até do ambulatório quando sequer existia o SUS -, no outro, só dá saudade.

Mesmo que estejamos equidistantes entre o início e o fim, é mais que uma nostalgia.

Enquanto o sinal do trânsito está fechado num de chuva copiosa, você percebe a sua total desnecessidade, pois o trânsito, por si só trava. Nem vem, nem vai.

Você olha a chuva, o trânsito, o relógio, a correria, o cansaço de uma noite mal dormida, o compromisso daqui a quinze minutos – no trajeto de vinte e cinco ou trinta minutos.

Mais tarde, alguém surge com uma gentileza imponderável de deixar o carrinho de compras bem no meio da única vaga do estacionamento do supermercado ou escolhe indecisamente o que quer pedir para o almoço, quando o restaurante só tem um garçom e quinze mesas.

Quem sabe, bem na hora de você abastecer o seu carro, a motocicleta avança na sua vez, embora você tenha esperado impacientemente por quase cinco minutos, e o frentista vai atender primeiro o motociclista, claro.

Decerto, uma hora ou outra, alguém vai demonstrar o verdadeiro charme que o filósofo francês Gilles Deleuze dizia sempre residir nas pessoas, que é justamente quando elas perdem as estribeiras, quando essas pessoas não sabem muito bem em que ponto estão.

Ao contrário do que se pense – dizia -, não são pessoas que desmoronam. Pelo contrário, nunca desmoronam.

E neste ponto, que se você não captar a pequena marca de loucura de alguém, não pode gostar deste alguém.

Simplesmente você jamais gostará dele, pois é justamente este lado que de fato interessa. É esse lado que todos nós temos.

Os inimigos e invejosos se revelam no nosso velório. Os amigos verdadeiros nos prestigiam em vida e sem obrigação.‎

Não entenda mal. Eu quis dizer isso mesmo.

Nem tudo é saudade.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de -Mossoró – IHGM

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domingo - 22/02/2026 - 05:24h

Confortável quietude

Por Marcos Ferreira

Local de escrita (Foto elaborada pelo autor da crônica)

Local de escrita (Foto elaborada pelo autor da crônica)

Agora dou início a esta página exatamente no dia 21 de fevereiro deste beligerante 2026. São quinze horas e vinte e dois minutos de um sábado com o maior jeitão de domingo. É o que eu acho. Quase não se escuta um veículo cruzando esta periférica Euclides Deocleciano, aqui no Conjunto Walfredo Gurgel. Alguém há de dizer, e está coberto de razão, que falo demais acerca de meu endereço nestas surradas crônicas que apresento dominicalmente neste espaço de opinião e cultura. O leitor e escritor Luiz Soares Filho, por exemplo, já me alertou sobre esse detalhe.

Há pouco, embora sofrendo com a coluna e convalescendo de uma forte crise de labirintite, concluí a faxina deste domicílio. Uma sensação por demais amena. Vejo-me curtindo um ócio criativo; o banho afugentou quase a totalidade da fadiga. Usufruo do bem-estar de me ver nesta casa limpinha. Banalidade que me propicia ânimo para tocar esta página cujo rumo ainda não sei qual será. Imagino que, de um modo ou de outro, algo de interessante restará. Embora com o corpo meio cansado, repito, desfruto de um agradável estado de espírito. Não preciso de nada de muito valor (como uma vultosa quantia na conta-corrente) para me sentir à vontade, em paz e, como se pode perceber, motivado para produzir, aos pouquinhos, estas linhas um tanto prolixas. Trata-se, a meu ver, de uma receitinha tipicamente caseira.

Acho que é isto. Falo tão somente com meus botões, de mim para comigo. É como pretendo que seja a minha narrativa: serena, pacífica. Nenhuma vírgula acerca de política. Um texto leve e escorreito como uma crônica de Odemirton Filho. Pois é, a escrita de Odemirton é uma seda. Deixemos, enfim, a política de lado. E reparem que têm surgido, há mais ou menos duas semanas, certas novidades nesse mundaréu dos homens e mulheres públicos. Em especial no tocante às diatribes do senhor Trump. Mas nada que o tempo não se encarregue de resolver. Ele, assim como os outros, passará. Não desejo, portanto, me ocupar com os assuntos da hora e da moda. Fico com este relato tão quente e revoltoso quanto uma pedra de gelo. Não me disponho a cutucar os engravatados. Há muita gente versada, pronta e afoita para tal expediente.

Gosto dessa confortável quietude, do remanso que permeia este meu recinto. Juju, após se divertir com seus brinquedos de borracha e correr à beça para um lado e outro, encontra-se tirando um cochilo no meio da sala. Estou satisfeito com a felicidade que Juju expõe nesses instantes de lazer e energia. Às vezes, cheia de autoridade, ela se põe a latir quando avista um felino cruzando o muro.

Neste minuto a paz reina absoluta. Ouço mais claramente apenas o barulhinho do teclado. Pedaço de tarde bem tranquilo, quieto como se fora meia-noite, madrugada. Algo assim raro. Silêncio (nesses caminhos velozes e agônicos que percorremos) não é nada comum. Isso me recorda o meu livrinho de versos “A Hora Azul do Silêncio”, trabalho que, em grande parte, foi gestado a horas mortas, nas propícias quietudes daqueles remotos meses do ano de 2005. Nossa! Lá se foram vinte e um anos. Por falar nisso, instigado por alguns amigos, talvez eu traga a lume até dezembro próximo uma de minhas obras de ficção confinadas nas entranhas do computador. Pois é. Não lanço uma obra há décadas. É que autopublicação custa uma grana alta.

Neste minuto, enfim, dou esta conversa por concluída. Suponho que cumpri o desafio de produzir mais um relato pretensamente literário neste blogue. Ao menos no meu universo, que vem a ser o País de Mossoró. Aqui, com raras exceções, encontra-se reunida minha dúzia ou um pouco mais de leitores.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 15/02/2026 - 12:10h

Nem nós

Por Bruno Ernesto

Telefones fixos antigos (Foto do autor da crônica)

Telefones fixos antigos (Foto do autor da crônica)

A despeito da praticidade, os esmartefones serão a nossa desgraça.

A verdade é que gostamos do que nos tira o sono, a paciência, a atenção e atrasa a vida.

Não tente me convencer: você está lendo este texto de um.

Disseram isso também quando Samuel Morse criou o telégrafo em 1837; e o mesmo em 1875 quando Alexander Graham Bell criou o telefone; e o mesmo quando Philo Farnsworth, em 1927, concebeu o que hoje conhecemos como televisor.

Até mesmo a Acta Diurna, criada pelo imperador romano Júlio César, por volta do ano 59 antes de Cristo, e é considerada a precursora do que temos hoje como jornal impresso, já foi ameaçada no início dos anos de 1990 com a criação da internet.

Se bem que ainda lemos jornal impresso.

Aliás, nada mais gratificante como sentir o cheiro de um livro recém-aberto e um jornal recém-impresso.

A desgraça a que me refiro, é que somos diuturnamente atraídos para o que o submundo do crime chama de “O cheiro do queijo”, embora virtualmente.

Vamos checar um e-mail e, do nada, já estamos comentando uma postagem numa rede social.

Vamos verificar se a atendente do consultório médico confirmou a consulta e, do nada, caímos numa notícia espetaculosa sobre uma prévia de carnaval.

Se for um meme viral, até a consulta que acabamos de confirmar, corre o risco de ser perdida.

É bom, é útil, é prático. Porém, ao fim e ao cabo, não vai acabar bem.

Não por onde, quando ponho os olhos naqueles telefones analógicos, que cobrava a ligação por pulso – lembra ? -, lembro como o hábito era outro.

Todos nós daquele tempo, de uma certa maneira, ainda têm a mesma sensação de que não abandonamos totalmente aquele tempo.

Vadim Nikitin, o tradutor e dramaturgo russo-brasileiro, falecido no último dia sete de fevereiro, soube, como ninguém, dizer o que é pertencer a outro lugar.

Numa de suas últimas entrevistas, disse que ao traduzir cada frase, cada expressão ou situação, da língua russa para o português, percebia que, embora tivesse vindo para o Brasil aos quatro anos de idade, sente que, de fato, nunca chegou de Moscou por inteiro.

Nem nós.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

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domingo - 15/02/2026 - 09:20h

Vou de filme

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Já disse aqui algumas vezes que é meu costume, antes de viajar para o exterior, ler um livro cuja história/estória esteja ambientada na cidade/país para onde eu vou. É muito bom, asseguro.

Não seria diferente neste verão, já que tinha/tenho uma viagem programada, para o período do Carnaval, com destino ao Marrocos. Portanto, em janeiro, fui para Pirangi/RN misturado na seguinte lógica: litoral, praia e calor. Marrocos: litoral, praia, deserto e, talvez, até mais calor. Mas não achei o livro ideal sobre o Marrocos. Então, escolhi um livro ambientado na Argélia. São países alegadamente com geografia e urbanização comuns, litorâneos, vizinhos, calorentos, ali no Magrebe africano.

O livro escolhido: “La peste” (1947), de Albert Camus (1913-1960), nesse caso com o adendo de ser uma edição em francês (edição de poche da coleção “Folio” da editora Gallimard, 2003), o que, de quebra, ajudaria na proficiência desse idioma ainda falado por aquelas bandas. Daria certo. Afinal, como consta do primeiro parágrafo deste clássico de Camus: “Os curiosos acontecimentos que são o tema desta crônica ocorreram em 194., em Oran. (…) À primeira vista, Oran é, crucial que se diga, uma cidade comum, nada mais que uma administração francesa no litoral argelino”.

“A peste”, rivalizando com “O estrangeiro (1942), é o mais badalado romance de Albert Camus. É muito provavelmente o mais célebre romance sobre “epidemias”. O título ajuda bastante, é verdade. É impactante. Mas o conteúdo é também excepcional.

Em 1940, substituindo os horrores da 2ª Guerra Mundial, uma peste bubônica devasta a cidade de Oran, na costa argelina. A verdadeira Oran foi outrora tomada por outras pragas, a bubônica e a cólera entre elas, mas a narrativa de Camus supera os fatos. Namora com o absurdo. Romance existencialista, é a crônica de uma luta, a dos habitantes da cidade, subjugados pela natureza humana e pelo destino, contra a doença que se torna cada dia mais assustadora. E, claro, há o prestígio do autor.

Camus, argelino, órfão de pai, crescido entre o mar e o sol, resistente francês, diretor da revista Combat, filósofo e ficcionista, prêmio Nobel de literatura em 1957 e falecido muito jovem, em 1960, em um acidente de carro tão absurdo como foi sua própria vida. Tudo isso junto faz de “A peste” um clássico das letras francesa e universal.

Ledo engano. A praia e o calor de Pirangi não estavam propensos à leitura, sobretudo de um livro em francês de um autor existencialista. Cansei nas primeiras páginas. Fui tomar banhos de mar com o pequeno João e, quando podia, “pernas pro ar”, que ninguém é de ferro. No mais, divaguei, xeretei, pensei e me lembrei de Casablanca, a cidade (que seria/será a primeira parada do nosso périplo pelo Marrocos) e, em especial, do filme homônimo. Fui de filme. Ingrid Bergman

Casablanca é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, um clássico do ano de 1942 (direção de Michael Curtiz e vencedor de três Oscars), um drama romântico que busca, em tempos de guerra, traçar a saga dos que tentavam fugir da Europa e África, ocupadas pelos nazistas, para regiões livres do mundo. E talvez nada no filme chame mais atenção do que o fato de a personagem de Humphrey Bogart (Rick) abrir mão do amor de Ingrid Bergman (Ilsa), sob um aparente sentimento patriótico, que ele parecia não possuir. “Sempre teremos Paris”, disse. É um tanto revoltante. Só podiam ser tempos de guerra...

De toda sorte, pesquisando sobre Casablanca” (o filme), descobri num curioso livro que possuo, “Film Facts” (Aurum Press, 2001), de Patrick Robertson, o seguinte: “Crédito único para uma única versão de Casablanca é o caso da violação de Copyright por João Luiz Albuquerque. O dito cineasta brasileiro recortou o filme para uma exibição privada no antigo FestRio. Na célebre cena do aeroporto, Ingrid Bergman não toma o avião que deixa Casablanca e, sim, volta para os braços de Humphrey Bogart”.

Bom, assim irei ao Rick’s Cafe Americain de Casablanca na (vã) esperança de que despedidas eternas nunca mais aconteçam.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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domingo - 15/02/2026 - 08:00h

Sobre o cotidiano

Por Odemirton Filho

A retratada em pose com o autor da crônica (Foto: Marcos Ferreira)

A querida “Juju”, cria do escritor Marcos Ferreira, já foi retratada por ele em crônicas diversas (Foto: Marcos Ferreira)

Entregar aos webleitores um bom texto, por vezes, torna-se uma difícil missão, hercúlea, diga-se. Até o nosso competente cronista, contista, romancista e poeta, Marcos Ferreira, padece da falta de inspiração, vez ou outra, como já confidenciou. Sei que me faltam o conhecimento jurídico do professor Marcos Araújo, a bagagem histórica do advogado Bruno Ernesto, os textos reflexivos do escritor Honório de Medeiros e a sensibilidade literária do Procurador da República, Marcelo Alves. Sem esquecer do editor deste Blog, exímio jornalista e cronista.

Desse modo, eu escrevo sobre o cotidiano e, de vez em quando, resgato fatos do passado. Escrevo sobre o que parece banal, o simples da vida. Às vezes, quando estou andando pelas ruas, vejo algo que me chama atenção, inspirando-me, a exemplo de um voo de um pássaro, como faziam as andorinhas da Igreja de São Vicente, ou um homem que caminha, apressado, rumo ao seu destino, como se não tivesse tempo a perder.

Por falar nisso, ao parar em um posto de combustível, lá em Areia Branca, terra do saudoso cronista José Nicodemos, pedi um pouco de chá ao frentista. Ele me olhou e disse: “você sabe trabalhar o tempo, né”? Confesso que fiquei espantado com a afirmação. Creio que ele quis dizer que eu não perdia tempo, pois eu estava esperando pra abastecer o carro, conferindo os mandados judiciais a serem cumpridos e tomando chá num pequeno copo descartável.

Eu gosto de escrever sobre o cotidiano, sobre sentimentos, sobre o passado. Na verdade, ao escrever neste Blog cada colaborador deixa um pouco de si. Desnudamos nossa alma, entregamos textos que refletem um pouco de nós, o que somos e pensamos.

Enfim, “o professor Antônio Cândido definiu o cronista como um cão vira-lata, livre farejador do cotidiano, e a crônica como a vida aos rés do chão, pela sua busca ao comum. Exige-se estilo, graça, uma voz própria e todos os demais adereços inerentes à insustentável leveza de ser crônica”. (prefácio do livro Um século em cem crônicas, por Joaquim Ferreira dos Santos).

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 15/02/2026 - 04:16h

Quando menos esperamos

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Transitória. Fugaz. Assim é a vida. Então é preciso viver cada dia com a maior intensidade. Como se diz popularmente, não deixemos para amanhã (ou depois de amanhã) o que podemos fazer hoje. De repente, quando menos esperamos, a gente se depara com a notícia de alguém que, de maneira natural ou trágica, despediu-se deste plano físico, terreno. Pois é. Nunca sabemos, não fazemos ideia de qual será o dia de cerrarmos os olhos para sempre. Aproveitemos o agora ao máximo. Ainda que esse máximo signifique boas horas de simples repouso, ou ócio criativo. Mas abracemos aquele amigo (decerto no plural) enquanto podemos. Não aprontamos as malas, entretanto, como é de praxe, o nosso passaporte já está carimbado.

Sei, e isto é uma grande obviedade, que estou chovendo no molhado. Não há nada de novo na minha advertência, nesta página carregada de uma saudade recorrente. Todos temos ciência disso. Espero que minhas palavras tenham ao menos o valor de um lembrete, de um carinhoso puxãozinho de orelha. Recordo-me de que outro dia meu xará Marcos Araújo escreveu acerca da frieza contida nessas figurinhas abreviadoras do WhatsApp. Ou seja, eliminamos até as palavras, uma mensagem de texto concisa, curtinha. Estamos sempre tão apressados, tão cheios de afazeres, de compromissos, sem tempo para abraçar familiares e indivíduos que estimamos. Vamos nos contentando só com os aplicativos das redes sociais. Sem calor humano.

Tenho amigos que vez por outra me dizem algo desse tipo: “Hoje eu vou tomar aquele cafezinho com você.” Depois de alguns minutos ou horas, porém, enviam uma mensagem de áudio ou texto desmarcando o encontro. Porque, segundo justificam, surgiu um imprevisto, qualquer coisa mais importante, urgente, certa situação impeditiva. Aí me sinto um tanto frustrado. Pois não raro dou uma arrumada na casa, mesmo às pressas. Removo a poeira fininha da mesa, deixo-a limpa; preparo as xícaras e canecas para receber a visita muito bem-vinda. Há ocasiões em que mais de um amigo se compromete para comparecer a esta Casa Branca da Euclides Deocleciano, 32, aqui no periférico Walfredo Gurgel. Todavia, por motivo justo, não vêm.

Assim, por uma razão ou por outra, postergamos o abraço afetuoso, o bate-papo leve, descontraído. Apesar disso, da ausência de pessoas às quais quero bem, tenho plena certeza de que estamos conectados, embora à distância. Sei que a nossa amizade é sólida e benéfica não só de corpo presente. É verdadeira, edificante. Contudo, volto a dizer, nossa existência é imprevisível. Vivemos sob a ameaça da Moça da Foice. Está à espreita, de tocaia. Súbito, implacável, sem pena, sem dó, a Indesejada nos alcança, põe termo aos nossos planos, intenções, projetos, sonhos. Vou ficando por aqui. A reflexão está exposta. Torço que nos reencontremos em breve. Antes que a cortina do palco da vida desabe, desça em definitivo. Aí será tarde demais.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 08/02/2026 - 07:40h

Trafilata al bronzo

Por Bruno Ernesto

Sinos de bronze (Foto: Bruno Ernesto)

Sinos de bronze (Foto: Bruno Ernesto)

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, é um permanente lampejo dos paradoxos com os quais corriqueiramente nos deparamos.

Se em atos, palavras, gestos e omissões, tudo parece controlável e tentamos amiúde seguir todos os rituais, crenças e valores o pensamento é incontornável. Incontrolável, diria melhor.

Se o personagem não lhe é familiar, é só lembrar que ele tem todos os problemas mundanos que temos. Entretanto, além dos próprios coitado -, precisa cuidar dos pecados dos outros.

Às vezes fico a imaginar, pelos recantos mais obscuros da mente, quantas ideias surgem após uma confissão.

Certa vez o Papa Francisco, ao ser indagado da real necessidade de sempre se confessar e pedir perdão, respondeu de forma reflexiva, que nossa alma é como uma casa, e como tal, sempre há cômodos e cantinhos a serem limpos.

Não é fácil manter-se afastado do mau caminho, das tentações, dos refugos morais e dos porões da consciência.

Sejamos francos: nem você tem certeza de sua inocência. E não estou falando consciência. O que não está escrito também faz parte do livro.

Sob a lógica hedonista, fomos comer uma pizza num restaurante recém inaugurado em Natal, com um nome italianíssimo, mas sem aquele gosto e jeito de uma tradicional comida italiana.

Embora não venha ao caso, quando surge alguma novidade na gastronomia local, sempre gosto de enviar as novidades para o meu amigo Armando Paolo, italianíssimo em tudoespecialmente na sinceridade -, que logo dispara:

– Misturaram frutos do mar com queijo? Não entende nem de culinária quer entender de comida italiana!

Pelo adiantado da hora, cheguei disposto a cometer o pecado da gula e conhecer melhor aquele neófito restaurante na capital Potiguar.

Como sou abstêmio, – não, nunca fui adicto. Exceto pela cafeína não pedi nem uma taça de vinho, e fui direto à comida.

Pela fama de outra capital, resolvemos pedir uma pizza. Embora há vinte cinco anos tenha a Pasta da Walter como minha preferida, especialmente a pizza de aliche, a ginga dos italianos.

Embora com fome, naquela noite, confesso que me senti um pecador, indigno de me sentar àquela mesa.

Quando pus os olhos naquela pizza, posta ali na mesa de forma tão delica pelo atendente, era tão fina, que tive a sensação de que iria comungar.

Disse logo: Não posso comer!

Ela me olhou séria e disparou, surpresa:

– E por que não?

Não me confessei!

No outro dia, fomos à Pasta da Walter.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

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domingo - 08/02/2026 - 03:30h

Fim da Linha

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Passaram-se mais de dez anos, talvez uns quinze, sem que me veja acometido por uma clássica dor de cotovelos. Dor de amor, roedeira, se me faço entender. Sim. Às vezes a mulher, ou o homem, chega para o outro ou a outra e diz solenemente, com aquela cara de que não se trata de coisa boa: “Precisamos ter uma conversa.” Aí bate logo um gelo, um friozinho na barriga. O sangue nos foge das faces. Em seguida, conforme desconfiamos, o assunto é mesmo de alta gravidade.

A pessoa nos olha com expressão de pena, as palavras custam a sair, mas enfim desembucha, põe tudo às claras. Não dá. Decidiu que o relacionamento não tem mais sentido algum, que é preciso colocar um ponto final. Acabou o amor. Pede desculpas, mas sustenta que é melhor assim. O olhar se desvia com frequência. Exibe dificuldade de nos encarar. Trata-se de algo muito difícil para se dizer e também de se ouvir. O cara ou a fulana desmorona intimamente. Perde-se o chão. A partir desse instante a pessoa rejeitada já começa a viver um luto devastador.

Não faz tempo escrevi a respeito dessa tragédia chamada separação. Volto a bater na mesma tecla porque tenho a desconfiança de que deixei de abordar certos pontos. Há alguns meses três casais com quem tenho afinidade romperam a relação. E nos três casos foram as mulheres que decidiram terminar.

Não é mole. Principalmente quando o lado excluído da vida de quem rompe nutre absoluto amor por quem optou pelo desquite, divórcio, etc. O coração fica em frangalhos. Não tem jeito. Nenhum argumento é acatado pela criatura que está nos largando. Pior ainda quando a pessoa vítima do desamor precisa juntar o que lhe pertence, os objetos pessoais, e deixar a residência. É isso. Na maioria dos casos é o homem que tem que pegar a porta da rua. O tipo, emocionalmente falando, fica ao rés do chão. Sente-se desimportante como o cocô do cavalo do bandido.

Em nenhum dos três casos o sujeito foi trocado por outro. Não. As mulheres apenas chegaram para os ex-maridos e comunicaram que o motivo do rompimento foi simplesmente porque não gostam mais deles.

De um modo ou de outro, digo com propriedade, a rejeição machuca, fere o peito e a alma. Isso me lembra uma música do Chico Buarque chamada “Atrás da porta”. Como diz a letra, o camarada fica sem acreditar. Insiste na argumentação, rasteja, pede que ela não se precipite, que lhe dê uma chance. Não há remédio. A bem-amada está resoluta. Só resta ao elemento juntar suas coisas, seus pertences, e partir. A mulher, como se se livrasse de um fardo, respira fundo, feliz consigo.

Ainda jovem, com a beleza preservada, ela sabe que qualquer dia encontrará um outro homem e se apaixonar de novo. Por enquanto, sobretudo se o casal tem filhos, ela ficará quietinha, dedicar-se-á (perdoem a mesóclise) à criança ou crianças. Compreende, no entanto, que mais cedo ou mais um estranho vai olhá-la dos pés à cabeça, sorrir de um jeito encantador e lhe dirá algo decisivo.

Nessas situações, feito me ocorreu, não há o que se possa fazer. Exceto viver um luto que vai durar por tempo indefinido. É o fim da linha para o casal outrora tão apaixonado. Como diria o saudoso humorista Espanta, tenho mais experiência em ser descartado do que a Caixa Econômica com poupança.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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