domingo - 28/06/2026 - 13:04h

Às máquinas, o mundo

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa da Web

Arte ilustrativa da Web

Conto, em meu Poder Político e Direito – A Instrumentalização Política da Interpretação Jurídica Constitucional, um fato narrado a partir de Sir Winston Churchill em My Early Life – A Roving Comission, para ressaltar seu “lado” pouco conhecido de epistemólogo que fez uma opção decidida pelo Realismo, em oposição ao Idealismo.

Esse seu “lado” de filósofo – é bom lembrar que ele foi também escritor, pintor e memorialista e a sua obra, nomeadamente as Memórias de Guerra (1948-1954), valeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1953 – me veio à mente ao ler, quase que por acaso, uma frase que ele proferiu: “Moldamos os nossos prédios e depois eles nos moldam”.

A leitura foi na excelente resenha que Ricardo Abromovay publicou na Revista “Quatro Cinco Um”, acerca de três obras ainda não traduzidas para o português e que tratam daquilo que é denominado de “Sociedade da Vigilância em Rede”.

Pois bem: Abromovay nos induz ao seguinte raciocínio analógico: se nos moldam os prédios que nós construímos, segundo o brilhante “insight” de Churchill, podemos esperar algo diferente em relação à “Rede”?

Até então tudo tranquilo. É difícil quem pense o contrário. O problema é que o diabo mora nos detalhes, como diz o famoso provérbio alemão.

Cito Abromovay:

“Na verdade, as informações permanentemente coletadas e analisadas por algoritmos, cujo funcionamento nos é completamente opaco, permitem que nossa conduta seja previsível e, justamente por isso, abrem caminho a uma interferência em nosso cotidiano que é inédita e atinge todas as esferas da vida social.

Em 2014, por exemplo, a Amazon patenteou um sistema que permite antecipar o que os clientes querem comprar, antes mesmo que eles próprios o saibam. A mágica está nas informações reunidas sobre cada um de nós e na análise que delas é feita”.

Apavorante.

Lembrei-me que certa vez perguntaram a Stephen Hawking se a inteligência artificial iria nos superar – a chamada “singularidade tecnológica”.

“É bem provável que sim”, respondeu ele. E propôs embutir sensores éticos nas nossas máquinas inteligentes.

“Como assim”, me perguntei. “Sensores éticos?”

E me lembrei da sociedade distópica imaginada por George Orwell em 1984: no futuro totalmente controlado por intermédio da inteligência artificial não é o “Grande Irmão” quem dará as cartas.

Serão as máquinas.

Honório de Medeiros é professor, escritor, ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 28/06/2026 - 09:50h

Heimlich

Por Bruno Ernesto

Restaurante, foto do autor da crônica

Restaurante, foto do autor da crônica

Nem sempre o tempo permite aproveitar o almoço com a calma que merece, e você sabe bem disso.

Uma boa dica é tomar uma xícara generosa de café antes e outra após o almoço.

Mas nem tanta calma. Mastigar oitenta vezes antes de deglutir já é paciência demais.

Nem vamos falar sobre misofonia.

O certo é que, se for enfrentar uma fila num “selvisérvice”, aí que temos que ter paciência.

Tem gente que, quando não tosse, conversa ou espirra em cima do bufê; fica três ou cinquenta minutos separando a cebola do feijão verde; uns cinco ou sessenta minutos calculando o número de grãos de arroz branco que pretende comer; outros nove ou duzentos minutos para decidir se vai querer macaxeira frita ou cozida – e pensa que devemos aguardar o ritmo dela, como se o Código de Trânsito Brasileiro tivesse eficácia plena em frente à bandeja com salada de batatas – e, após, solenemente,  vai direto para aquela mesa que você estava de olho desde quando chegou ao restaurante.

Não sei você, – acredito que sim – mas, em certos restaurantes temos um garçom preferido. Não, não se trata de uma relação simbiótica ou que tomemos aquela sincronia como algo combinado.

Por vezes, uma cortesia, a rapidez no atendimento, quer seja pela ortodoxia, ou apenas e tão somente os santos se bateram.

A bem da verdade, também acredito que haja essa reciprocidade tácita entre nós e eles.

Ultimamente tenho evitado restaurantes pelos mais diversos motivos, mas, inevitavelmente, preciso frequentá-los.

Num deles surgiu um novo garçom, sempre impecável, e deve contar com seus menos de vinte e cinco anos de idade. Muito cortês, atencioso e atento. Lacônico desde sempre – isso pude perceber – mas com um profissionalismo pouco visto ultimamente.

Duas ou três vezes após o primeiro contato, notei que ele sempre me olha de modo enviesado quando pergunta o que quero beber para acompanhar o almoço.

Sempre digo a mesma coisa: nada, obrigado.

– Não vai beber nada?

Não, obrigado.

Ele põe as mãos nos bolsos da calça. Me olha dois ou três segundos, franze a testa e depois o canto da boca discretamente. Olha pra cima como quem não acredita, suspira e sai em direção à mesa ao lado. Não sem antes olhar novamente.

Acho que ele pensa:

– Esse cara nunca almoça bebendo nada! Vai se entalar!

Das seguintes vezes, aparentemente indignado, vai e volta. Olha de longe, de perto. Passa com um olho fixo, enquanto o resto do corpo segue.

Será que torce ou espera eu me engasgar?

Certamente diria: – Eu sabia!?

Acredito que não. Certamente não. Talvez não. Não duvido. Eu diria!

Como diz o velho brocardo africano, só um tolo testa a profundidade da água com os dois pés.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 28/06/2026 - 09:02h

Tudo que a fé pode tocar

Por Odemirton Filho

No momento, estou a escrever, em casa, sem nenhum tico de pressa. Enquanto escrevo, tomo um cafezinho, e vasculho nas gavetas da memória palavras que possam traduzir a letra da bela música do cantor Tiago Iorc. A canção fala sobre fé, de como conseguir tocar alguém que já se foi, e que deixou profundas saudades no coração.

Como se sabe, para escrever é preciso reflexão, inspiração. No entanto, nem sempre a razão é suficiente para que possamos discorrer sobre algo. Na maioria dos casos, ao escrever, é imprescindível inspiração. E ela nem sempre vem. Aí, nesse solilóquio, buscamos no fundo da alma algo que vale a pena expressar.

Peço licença, caro leitor, por um instante. Vou ali, ao quintal da minha casa, soltar estalos de salão (chumbinho) com o meu neto, pois o sorriso dele, ao escutar o estrondo”, faz-me feliz; ele também adora observar um canário que pousa na pequena poça d´água. Esses lúdicos momentos ao seu lado rejuvenesce o meu espírito, trazendo-me inspiração.

Agora, após brincar com o meu neto, retomo este texto, e encaro a tela do computador, duelando com as palavras. Volto à letra da música de Tiago Iorc. Imagino a saudade das pessoas que perderam alguém especial, a exemplo do pai, da mãe, do filho ou filha, dos avós, do marido ou da mulher; quem sabe, dum amigo ou amiga. “Como é o cheiro daí, o seu eu não esqueci, nessas horas da vontade ligar pra te ouvir e saber como você está”.

Então, num átimo, a saudade bate no peito de algumas pessoas. E devem pensam: por que não aproveitei mais a presença dela ou dele? Por que não conversamos mais? Por que não encontrei tempo para vivenciar momentos ao seu lado? Por quê?

Porque estamos sempre correndo pra lá e pra cá. Achamos que temos todo o tempo do mundo. Não. Não temos. Ele passa a galope. Deixamos transcorrer, “in albis” (em branco), o melhor da vida, isto é, estar na presença das pessoas que amamos. Aí, quando as perdemos, passamos a viver de arrependimentos e saudades.

Há um trecho da letra da música que diz assim: “eu te vejo em todo o canto, todo olhar, onde tem amor, sei que você está, agora você é tudo que a fé pode tocar”. Ou seja, é por meio da fé, do amor, que se toca na pessoa que já não está entre nós, numa profunda conexão espiritual.

Bom, finalizarei esta crônica, pois acredito que já disse tudo o que havia para dizer. Vou me arrumar para ir à cidadela curtir as festas juninas, na companhia da minha mulher, dos meus filhos, da minha nora e do meu neto.

E você, estimado leitor, tente aproveitar a vida ao lado dos seus, fazendo o que gosta; não espere para viver somente de saudades.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 28/06/2026 - 04:22h

Aos amigos com carinho

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Ultrapasso meio século de idade com um patrimônio afetivo invejável. Os amigos que tenho (fortuna sem tamanho) são pessoas extraordinárias. Nutro verdadeiro amor e admiração por cada um deles. Alguns me frequentam um pouco mais, todavia nenhum tem maior ou menor peso na balança do meu benquerer. É verdade que não posso contar vantagem acerca da quantidade, entretanto o tipo de seres humanos que essas pessoas representam é do mais alto quilate. Cada um com seu modo de ser e de me orgulhar por fazer parte desse grupo de indivíduos fora de série. Não me renderei à tentação de citar nomes, contudo estou certo de que este relato amorável alcançará a todos. Até porque, repito, não constituem um número quilométrico. O que deveras me fascina em cada um são o caráter excepcional e o coração fraterno.

Para ser mais justo e exato, é preciso registrar aqui o detalhe de que passo um tempo por vezes longo sem trocar um abraço com esses amigos e amigas. Entrementes, também para ser verdadeiro, volta e meia estamos partilhando umas ideias via chamada telefônica ou por meio de mensagens de áudio ou de texto no WhatsApp. Quando nos reencontramos cara a cara, aí é uma alegria só.

Hoje, portanto, acometido por um bocadinho de saudade, venho expor estas linhas um tanto açucaradas aqui no BCS — Blog Carlos Santos. Este que é um reduto onde quase todos nós marcamos presença desde as primeiras horas dos domingos com uma porção de artigos, crônicas, poemas, notícias e textos outros. É isso mesmo! Aqui a maior parte de nós se reúne dominicalmente para relatar as suas impressões e pontos de vista a respeito de uma variedade de assuntos os mais em voga ou na moda. Destarte, meus caros, como um simples e saudoso missivista, aproveito este espaço plural para enviar este recadinho do coração a esses indivíduos aos quais estimo e dedico o meu aplauso. Tanto aos que figuram aqui na condição de autores quanto àqueles que (não menos importantes) compõem o time de leitores cativos deste blogue.

Bem, agora vou ficando por aqui. Isto é o que tenho para hoje. Estou em paz, feliz e orgulhoso dos amigos que possuo. Este, posso dizer, é um patrimônio afetivo que não pode ser pesado, medido ou mensurado. Quem tem amigos desse tipo pode se sentir abençoado. Amanhã ou depois, quem sabe, o tempo esteja favorável e aí me reencontre com algum desses amigos-irmãos para um bate-papo.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 21/06/2026 - 11:30h

Aquele cafezinho

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Fazemos planos todos os dias. Tanto para o amanhã quanto para daqui a pouco, ao cair da noite. Penso nisso agora que me recordo de quantas vezes adiamos aquele cafezinho cogitado para determinado dia da semana com amigos de agendas superlotadas. Então, no corre-corre em que vivemos cotidianamente, esse café acaba sendo postergado. É isso aí. Toco nesse tipo de assunto porque volta e meia me vejo refletindo sobre o quanto a areia de nossa ampulheta pode estar pouca. Não pretendo sugerir que não devamos traçar objetivos, ainda que a longo prazo. Dessa maneira, sem pensarmos na finitude de nossa existência, perseguimos certos projetos, empenhamos esforços e adquirimos, por exemplo, um apartamento ou um carro novo.

No mais das vezes, claro, em prestações a perder de vista. Assim ignoramos a Indesejada, que talvez já nos ronde ou ainda se mantenha a diversos anos ou décadas distante.

Fato é que não vale a pena encucar, pôr freios demais nas coisas que almejamos adquirir ou realizar. Do contrário, como se diz popularmente, a gente pira, funde a cuca. Ocorre, entretanto, que muitos sonhos e intentos ficam no meio do caminho, lá no comecinho ou bem perto de serem concretizados.

Dou uma olhada à volta e me deparo com tanta coisa fora dos seus devidos lugares. São roupas em locais impróprios, poeira acumulada, sapatos, sandálias e tênis em pontos indevidos; a casa toda gritando por uma faxina. Não nego que a lembrança de um enfarto fulminante me vem à cabeça e aí tudo isso, toda essa desordem será encontrada por terceiros após meu bater de botas.

Talvez seja esta uma das desvantagens de morar só, de anoitecer e amanhecer longe das vistas de todos. Após um ou dois dias, quem sabe, começariam a notar minha ausência e aí descobririam este hipotético defunto já em avançado estado de enrijecimento. É um transtorno que eu não gostaria de causar a ninguém. Até porque a ideia de morrer não me seduz.

Temos, em um número considerável de indivíduos, o costume de nutrir ideias e agir pouco, não fazer por onde se efetivem. Dessa maneira a rodada do moca pode ser considerada uma dessas ideias que protelamos com frequência. É óbvio que os amigos permanecem, ainda que afastados fisicamente, com a mesma benquerença de sempre. Nesse caso a carapuça também me serve. Um bocado de vezes, portanto, deixamos aqueles salutares encontros para um dia qualquer.

Dito isto, meus caros, façamos contato; lancemos mão do WhatsApp. É bem possível que amanhã (persistindo na temática que ora me serve de mote para a produção desta página) aquele cafezinho enfim dê certo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/06/2026 - 10:28h

Grande jogada

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa do Midjourney

Arte ilustrativa do Midjourney

O jogo de azar, em que o ganho e/ou a perda dependem exclusivamente da sorte, é um problema da sociedade desde tempos imemoriais. E falo aqui tanto do jogo proibido por lei como daquele por ela autorizado. Como outrora dizia Lemos Brito, no seu clássico “O crime e os criminosos na literatura brasileira” (Livraria José Olympio Editora, 1946), “ele perverte o caráter, dissipa a riqueza, subjuga todos os pensamentos, esmaga a capacidade de trabalho regular, oblitera a consciência, fazendo-a esquecer os deveres morais, leva ao abandono da família, conduz o funcionário, público ou privado, à prevaricação ou ao desfalque, é germe de todas as infidelidades, terminando muita vez pelo roubo, o homicídio ou o suicídio”.

Não sou totalmente contra o jogo de azar. Acho até que os jogos de Cassino, em lugares turísticos, frequentados por gente com capacidade financeira para ganhos e perdas, devidamente fiscalizados, podem ser uma boa para a economia local e até nacional. Não me tomem, portanto, por uma Dona Santinha. De carolas, quero distância. E acho mesmo que todos os homens devem ter os seus pecados/vícios/defeitos; eles são até mais humanos e melhores por isso.

O problema está na dimensão que a coisa agora tomou. Agigantou-se deveras. O jogo industrializou-se e, para além disso, tornou-se multinacional. Falo do fenômeno das bets ou casas de apostas online, hoje malditamente amalgamadas ao futebol e que, ao contrário dos cassinos, para onde devemos ir se queremos jogar, entram nos nossos telefones celulares, nas nossas casas, nas nossas vidas, sem pedir qualquer licença. E, não raramente – quem não conhece alguns exemplos?  –, destroem o viciado jogador e famílias inteiras.

Ademais, se outrora, como relatava Lemos Brito, o jogo era o foco de atração “das almas frágeis, dos incomodados à mediana social”, dos que não sabiam “conquistar metódica e gradativamente a felicidade”, que queriam facilmente transpor de um salto todos os obstáculos para a conquista financeira, hoje a coisa é totalmente diferente. Sobretudo ele não trabalha mais majoritariamente nos meios “elegantes”. Como o álcool não é apenas “a champanhe dos casinos, o jogo não se limita [mais apenas] a corromper as classes elevadas”, ele “vai até onde a cachaça” está (…), onde “se reúnem os operários, os pequenos funcionários, os caixeiros, os menores que furtam dinheiro em casa para satisfazer o vício terrível, os pais de família sem escrúpulos que vão deixar nas mãos de espertos os pingues salários destinados ao sustento da esposa e dos filhos”. Vai até onde é pago o mais que necessário Bolsa Família, tirando dessas famílias o indispensável sustento. Tirando também o sustento da economia local, pois o dinheiro dos programas sociais, que deveria ser gasto nos sítios mais pobres do nosso sertão ou das nossas periferias, vai digitalmente acabar nos bolsos dos influencers e dos donos do jogo, que vivem e luxam não se sabe sequer onde.

É por isso que vai aqui um caloroso aplauso ao jogador francês Kylian Mbappé, que teve sua imagem indevidamente associada, sem sua autorização, a uma propaganda de uma casa de apostas/bet. Mbappé, ele mesmo nascido em banlieue/subúrbio/periferia de Paris, sem medo de polemizar, foi assertivamente crítico às bets: “Muitos de nós vimos de bairros onde estas coisas destruíram muita gente. Eu mesmo conheço pessoas que sofreram”.

Mbappé, a quem não desejo sorte em campo contra o nosso Brasil, marcou um golaço fora das quatro linhas.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 14/06/2026 - 08:38h

Só um palpite

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Minha cidade não é mais a mesma, claro que não. Mudou positivamente. Mas essa mudança não foi muito para melhor se levarmos em conta a tríade igualdade, fraternidade e liberdade. De qualquer modo, pelo que tenho visto, o mossoroense anda exultante em meio a toda a pirotecnia e carnavalização de uma terra que há tempos jogou para o escanteio preceitos sociais, morais e ideológicos. Ao povo (há exceções!) basta o furdunço, a folia, as decorações juninas, o foguetório retumbante e um entorpecedor e aclamado carnaval fora de época. É aí que são adquiridos uns trapinhos coloridos com que os caboclos e as caboclas daqui se vestem e curtem sua apoteose em camarotes custando os olhos da cara. Isso não é problema, alguns se estrepam no cartão de crédito e tudo dá certo, sem que se importem com a ressaca econômica.

Hipnotizantes eventos fazem desaparecerem das vistas dos nativos a enorme buraqueira nos bairros periféricos, a superpopulação de animais abandonados e a fome, a desvalia dos sem-teto; pessoas sem amparo nenhum por parte dos órgãos públicos desta nossa feliz e purificada pátria do faz de conta.

Apesar dos pesares, e a bem da verdade, minha cidade melhorou ao longo dessas últimas três ou quatro décadas; está indubitavelmente mais apresentável, entretanto piorou sobremaneira no tocante à insensibilidade para com os necessitados, gente invisível, sujeira social varrida para debaixo do tapete do Executivo e do Legislativo desde sempre. Chato falar sobre o óbvio, eu sei. Assunto desagradável e repisado. Tenho consciência de que estou ferindo susceptibilidades, abespinhando melindres. É isto, admito que venho chovendo no molhado e enfeando o verniz reluzente na carranca de certos cidadãos baludos. Assim mesmo ponho o dedo nessa ferida. Porque o mutismo geral, absoluto, produz uma infecção do tipo “cada um que se vire”.

Acho que podemos ser mais que estampidos e cheiro de pólvora. Mossoró, com necessária boa-fé e freio em obras de orçamentos suspeitos, pode agir em favor dos maltrapilhos, desses conterrâneos que agora se encontram na sarjeta. Cães e gatos magríssimos e famintos perambulam por toda parte!

Que o povo se divirta, ora essa! Que festeje e se esbalde nos carnavais e no são-joão, mas sem perder a ternura, a sensibilidade. Avanços graúdos já foram conquistados; obras de relevo e projetos estruturais realizados em diversos pontos do município. Falta, porém, destinar recursos para a vida de quem não tem nada na vida. Ações sociais precisam ser desenvolvidas e contar com lastro financeiro do governo municipal. Não é possível sustentar um país (mesmo que o País de Mossoró) apenas com pão e circo.

A propósito, se olharmos com um pouco mais de atenção, veremos que há cada vez menos pão. O circo armado e nutrido com milhões de reais pela prefeitura na Estação das Artes Elizeu Ventania é algo de nível primeiro-mundista.

Admito que minha cidade está bonita. Tem futuro, potencial, contudo é da conhecida ordem de inúmeras outras que empurram no miolo dos munícipes o ópio das festanças e da fuzarca. Precisamos assegurar meios para oferecer o mínimo aos desvalidos, criar um programa de controle populacional de gatos e cachorros, que também passam fome e sede nesta urbe. Podemos ser melhores sob o aspecto humano, caridosos, comprometidos com o bem-estar daqueles que precisam de nós.

Isto é só um palpite; sequer um puxão de orelha. Longe de ser uma receita para a prosperidade geral. Todavia, quem sabe, represente um grito para que não percamos a boiada no precipício do egoísmo. O gado tem disso; é facilmente tangido, transformado em massa de manobra em currais eleitoreiros.

Vejam! Mais uma eleição se aproxima.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 14/06/2026 - 06:22h

Aqui há de um tudo

Por Odemirton Filho

Efeito de câmera e edição mostra o Corredor Cultural e seu entorno no dia do Pingo da Mei Dia (Foto: Realize Filmes)

Efeito de câmera e edição com o Corredor Cultural e seu entorno no dia do Pingo da Mei Dia (Foto: Realize Filmes/Arquivo/2025)

O mês de junho chegou chegando. O Pingo da Mei dia, como sempre, abriu brilhantemente os festejos juninos. O Mossoró Cidade Junina há tempos está consolidado. É uma festa bonita, a cidade, em alguns locais, fica lindamente decorada, sente-se um clima de alegria. Há quem não goste, é claro, o que devemos respeitar.

Entretanto, o que eu quero dizer, é que no tempo da minha juventude não havia tantas festividades juninas por estas bandas, pelo menos que me lembre. Nalgumas escolas e nos bairros mais afastados da cidade é que havia arraiás. Lembro que acendíamos uma pequena fogueira pra assar milho em frente da nossa casa e que preparavam algumas comidas típicas. E Só.

Contudo, festa junina como a de hoje, sinceramente, não recordo. Se havia, levei falta.

Aliás, como em toda cidade, nos tempos de minha adolescência, em Mossoró havia quase de um tudo. Porém, o que me vem à memória mais vivamente são as festas na ACDP, na AABB, no Realce e no clube do BNB. E como esquecer os grandes comícios no largo do Jumbo e da Cobal? O Potiba? Os bingos no Nogueirão?

Havia, também, a churrascaria Kancela, as noites no Meca Shopping, o burburinho do Burburinho, a pizzaria de Patrício Português, a sorveteria do Juarez e as festas no Imperial. Inesquecíveis, outrossim, são as Festas de Santa Luzia de antigamente.

O leitor chegou a prestigiar as vaquejadas do Puxaboi? Chegou a frequentar o Ferrão? Bons tempos, né?

Vale acrescentar que o carnaval na minha época de rapaz não era o forte em Mossoró. Dizem os mais velhos que carnaval bom de verdade eram os realizados na ACDP e no Ypiranga. Não posso afirmar, nem desafirmar, apenas escuto as histórias, e vejo um leve sorriso no rosto do meu pai quando fala sobre aqueles tempos.

Além disso, eu jamais poderia esquecer dos vesperais no Cine Pax, das sessões no Cine Cid e no Caiçara. Era um bocado de meninos e meninas indo assistir aos filmes de Caratê e de ação. Era bom que só andar de bicicleta no patamar da Igreja de São Vicente.

Tudo isso, são algumas de minhas lembranças. Certamente, os leitores têm as suas, pois cada um traz no peito algumas recordações, às vezes, até umas saudades. Não que eu queira voltar ao passado. Absolutamente. No entanto, para algumas pessoas relembrar o passado pode ser lenitivo para a alma. Eu, todavia, “vou viver as coisas novas que também são boas”.

E, pra finalizar o texto deste domingo, transcrevo um pedaço de uma crônica escrita pelo mestre Dorian Jorge Freire há muitos, muitos anos:

“Aqui há de um tudo. As miscigenações, lá fora temerárias, aqui são saudáveis, revelam o pluralismo democrático. Aqui todo mundo é partidário, toda gente passional, 8 ou 88. Tomamos partido em briga de galo, brigamos em dança de pastoril, eu com a Diana do cordão encarnado, você escravo da Diana do cordão azul. Aqui tudo é nosso: nossa cidade, nossa Catedral, nosso rio, nosso O Mossoroense, nosso baixo meretrício. (…) Sabe lá, Tágide minha, o que é viver em Mossoró, sem perder a perspectiva do futuro improvável, nem a saudade do passado presente”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 07/06/2026 - 09:52h

Depois do medo, vem o mundo

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa (Arquivo)

Arte ilustrativa (Arquivo)

A frase acima, dizem, foi escrita pela poetisa Clarice Lispector. Não sei. Na verdade, para mim pouco importa a autoria. O importante é a reflexão que dela podemos extrair. Ademais, a leitura dominical deve ter leveza, para suavizar o coração. Mas quais são os nossos medos?

Com certeza, muitos enfrentam cotidianamente os seus medos. Temos incertezas que estremecem a alma e nos fazem vacilar na caminhada. Aqui e ali, tropeçamos. Ficamos na dúvida se as veredas que desbravamos estão corretas ou, talvez, pegamos o bonde errado.

Nesta vida desembestada, neste mundo das redes sociais onde quase tudo parece perfeito, ficamos a matutar se realmente estamos a fazer o certo. Ser CLT ou um empreendedor? Estudar e/ou trabalhar? Ou, quem sabe, tentar ser um influenciador de sucesso para ganhar muito dinheiro.

Nesse turbilhão no qual vivemos, com mentiras a mancheias, muitas vezes ficamos angustiados, pois a cobrança diária para sermos o melhor naquilo que nos propormos a fazer tornou-se abusiva. Em alguns casos, metas precisam ser cumpridas, sob pena de demissão, diminuição salarial ou empecilho para ascender na carreira profissional.

Quando lecionava, inúmeros alunos e alunas me confidenciavam que estavam com ansiedade, quiçá depressivos, com medo de não conseguirem ser aprovados na OAB e não lograr êxito na profissão. Eram pessoas jovens, tristes, sem o viço e a alegria da juventude.

É claro que é preciso se esforçar para alcançar objetivos, todavia, em tudo deve haver limites, sobretudo em respeito à saúde e ao bem-estar.

Decerto, cada um de nós sabe quais são os seus medos. Há os que temem não constituir uma família ou findar os dias sem alguém ao seu lado; no entanto, há quem prefira viver sozinho em seu mundo.

Enfim, depois de vencer o medo, vem o mundo, e, como já disse Nelson Mandela, “bravo não é quem não sente medo, é quem o vence”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/06/2026 - 08:14h

Antes que eles cresçam

Por Affonso Romano de Sant’Anna

Arte ilustrativa (Arquivo)

Arte ilustrativa (Arquivo)

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. É que as crianças  crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença.

Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto.

Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções.

Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta   dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais  vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir  sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e Cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto. No princípio  subiam a serra ou iam à casa de  praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis.

Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo  com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio  dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos.

Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes. O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.

Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025) foi escritor, professor e cronista brasileiro

*Texto originalmente publicado dia 9 de outubro de 2011 nesta página.

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Categoria(s): Crônica / Grandes Autores e Pensadores
  • Art&C - PMM - 09 a 30 de Junho de 2026 - Cidade Junina
domingo - 07/06/2026 - 05:44h

Lá de cima

Por Bruno Ernesto

Foto extraída dos endereços @hansenecotur @rnatural

Foto extraída dos endereços @hansenecotur @rnatural

O ciclo de chuvas na região Nordeste, sem dúvida, é o período mais aguardado pelo sertanejo.

A cheia dos açudes, com as tão esperadas sangrias, é um espetáculo que jamais perderá sua beleza.

Quando criança, acompanhava meu pai nas suas aulas de campo da então Esam, hoje Ufersa, onde meu pai era professor no curso de agronomia.

Por inúmeras vezes, passávamos o dia inteiro no meio da mata; ele explicando aos alunos e eu apenas a olhar ao redor, admirado com o aguçamento de todos os meus sentidos, especialmente o olfato e a visão; sentindo o cheiro de mato recém-quebrado, e, por vezes, o cheiro de chuva, além de ficar impressionado com a imensidão das planícies ou das serras e montanhas por onde passávamos.

O que mais me impressionava naquele tempo era a visão que tinha de cima das serras. O sertão era infindável dali de cima.
Diante de tudo aquilo, um pensamento recorrente me vinha à mente: como chegamos ali? Não nós, ali reunidos; mas como o homem ali chegou?

Para mim era tudo muito confuso, distante e estranho.

Com meu pai e os inúmeros alunos dele, pude percorrer locais que pouca gente tem acesso ainda hoje.

Vi açudes, montanhas, serras, rios, córregos, cavernas, minas, salinas, dunas, mangue, muitas cidades do interior e o sertanejo. Muitos sertanejos.

Foi assim que despertei, sem saber, para um dos assuntos dos quais hoje, poucas pessoas dão importância: a historiografia.
Evidentemente que muitos se dedicaram a escrever sobre o período colonial do Brasil, especialmente da região Nordeste brasileira. Sua ocupação, exploração e expansão territorial.

Entretanto, a árdua tarefa de análise e interpretação documental é sempre desafiadora a novas escritas. Mas nada como andar pelo sertão.

Com a historiografia de um lugar, é possível traçar como se deu a ocupação territorial de qualquer lugar. Pelo menos, seu passado recente.

No caso da região Nordeste, é incalculável a quantidade de registros históricos da sua ocupação; desde a chegada dos europeus ao continente sul-americano, sendo possível traçar o seu desenvolvimento nos aspectos econômicos, sociais e políticos até a atualidade.

Um aspecto relevante nos recortes históricos, é que, como qualquer outra região do mundo, a historiografia do lugar fez-se a partir de seus habitantes, hábitos, costumes e tradições.

Entretanto, mais que a geografia e o acaso, na historiografia, a convicção dos homens também moldaram o que hoje se vê.

Embora os fatos, em si, não sejam os únicos objetos de observação e estudo, uma vez que a historiografia observa e vai muito além dos homens como únicos protagonistas, é impossível querer explorar uma temática sem que se nomine seus atores. Ainda que não se possa fazê-la, exclusivamente sobre os mesmos.

No caso do sertanejo, basta buscar um pouco de nossa própria história familiar para constatarmos que a grande maioria de nos somos oriundos do interior.

Muitos de nós tem uma história ou tem registrado na memória as visitas de familiares, especialmente os avós, que moram em pequenas cidades do interior.

Talvez sejam as melhores recordações que muitos de nós temos da infância.

E nesses tempos de chuvas no nosso sertão, mais uma vez essas recordações se avivam em nossas mentes e nos faz reviver aquele bom e feliz tempo, renovando a vida com as cheias e sangrias dos açudes, revigorando a coragem e convicção do sertanejo.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 31/05/2026 - 12:50h

O delicioso ontem de Natal

Por Ivan Maciel de Andrade

Rua Tavares de Lyra na Ribeira do passado (Foto: Reprodução do Tribuna do Norte)

Rua Tavares de Lyra na Ribeira do passado (Foto: Reprodução do Tribuna do Norte)

Devo admitir que considero delicioso — bote delícia nisso! — um livro escrito em 1985 por Augusto Severo Neto, com o título de “Ontem vestido de menino”, relembrando figuras e o próprio estilo de vida de Natal durante os anos 40 e 50.

Algumas dessas figuras são de uma riqueza humana tão extraordinária que se tornaram simbólicas de toda uma época de nossa cidade: Paulo Lyra, Luís Tavares, o Conde de Miramonte (João Alfredo Pegado Cortez), Luiz de Castro Cortês (dono do Zepelim, um quiosque “plantado bem no coração do Grande Ponto”), Luiz Romão (dono da Agência Pernambucana, que vendia as “revistas de maior procura da época”).

As melhores páginas são, a meu ver, sobre a antiga Doutor Barata e a Tavares de Lyra. Lá estavam lojas de artigos elétricos, de construção, de ferragens, armarinhos, confeitarias, joalherias, livrarias, farmácias, alfaiatarias, consultórios médicos e dentários e escritórios de advocacia. Era o comércio dos Lamas, dos Faraj, dos Calife, dos Gondim, de Limarujo, de Henrique Santana, de Amadeu Grandi, de Abrahão Tahim, de Vicente Mesquita, de Fortunato Aranha, de Amaro Mesquita, de Múcio Miranda, dos Farache.

Havia em Natal cinemas, bares, hotéis, lugares de encontros que constituíam verdadeiras instituições. Sua história reflete os costumes e as características socioculturais da cidade. Eram o Cine Polytheama, o Magestic, o bilhar do Acácio, o Royal Cinema, a “Rôtisserie”, o “OK” Bar, o Carneirinho de Ouro, O Cão Jaraguá, o Natal Clube, o Hotel Internacional, o Terpsichope Clube de Natal, o “Cova da Onça” (local de reunião de políticos).

O “Wonder Bar” era outro tipo de instituição. Segundo Augusto Severo Neto, “foi um capítulo à parte na vida noturna, lírica e ‘pecaminosa’ de nossa cidade”. Por sinal, eram numerosas as donas de boate (eufemismo de cabaré) que se transformaram em “rainhas da noite”: Maria Boa, Franscisquinha, Rita Loura, Belinha, Alaíde. Algumas desfrutavam de tanta popularidade que adquiriam o status de comerciantes bem-sucedidas, dignas do apreço ou pelo menos da complacência das famílias de “classe alta” menos preconceituosas.

Augusto Severo Neto: vida poética (Foto: Reprodução do BCS)

Augusto Severo Neto: vida poética (Foto: Reprodução do BCS)

Augusto Severo Neto foi empresário, poeta, apaixonado por literatura e por viagens. Tinha uma casa pitoresca na praia de Pirangi do Norte, em que recebia, com sua inteligente e simpaticíssima Lucinha, amigos de sua especial afeição. Nunca conheci ninguém que recebesse com tanta satisfação e soubesse criar um ambiente de tanta descontração, alegria, bom humor.

Havia música, poesia, bebida e liberdade para afirmar e contestar. Uma espécie de pequena Shangri-La, o mosteiro budista nas montanhas do Tibete imaginado por James Hilton em “Horizonte Perdido”.

Ivan Maciel de Andrade é professor, advogado, escritor e membro da Academia Norte-riograndense de Letras (ANRL)

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - 09 a 30 de Junho de 2026 - Cidade Junina
domingo - 31/05/2026 - 08:00h

A matemática, o papa e a teoria do hexa inevitável

Por Marcello Benevolo

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Gostaria de dizer, logo de início e com a mais absoluta franqueza, que de futebol eu não entendo absolutamente nada. Sou daquele tipo que ainda precisa pensar duas vezes para entender a regra do impedimento. Mas, anotem aí o que estou dizendo: este ano, o hexa vem!

E eu não digo isso baseado em táticas de jogo, esquemas com falsos noves ou marcação sob pressão. Digo isso amparado em forças muito maiores.

Primeiro, porque eu tenho fé. E se o próprio papa Francisco já afirmou com todas as letras que “Deus é brasileiro”, quem sou eu, um mero mortal, para duvidar de Sua Santidade? Se o chefe lá de cima está do nosso lado, metade do caminho já está andado. Segundo, porque carrego aquele lema no meu DNA: sou brasileiro e não desisto nunca!

Mas o terceiro motivo é para os mais céticos. Eu acredito nos números, nas estrelas e nas coincidências cósmicas que regem o universo da bola. Vamos fazer as contas?

Quando o Brasil conquistou o tetra na Copa do Mundo de 1994, fazia exatos 24 anos da nossa última conquista, o lendário esquadrão de 1970. Pois bem. Sabe quantos anos faz que o Brasil não ganha um mundial? Isso mesmo, acertou quem gritou “24 anos” no fundo da sala! A última vez que a seleção levantou a taça foi na conquista do penta, em 2002. A matemática é exata e não costuma mentir.

E se você acha que as coincidências param por aí, espere até olhar para o mapa múndi. O Brasil foi tricampeão do mundo na Copa de 1970, realizada onde? No México. O tetracampeonato veio no campeonato realizado nos Estados Unidos, em 1994.

Agora, valendo um milhão de reais (na conta do editor), adivinhe onde será realizada a edição 2026? O jogo de abertura será no histórico Estádio Azteca, no México! E a grande final será disputada em solo norte-americano! É a geografia conspirando a favor da amarelinha.

Há, ainda, o fator drama, que nunca pode faltar na nossa história. A seleção brasileira de 1994 chegou àquele mundial completamente desacreditada. Estávamos todos traumatizados com aquela lambança na Copa de 1990, na Alemanha, quando a equipe canarinho fez as malas mais cedo ao ser eliminada ainda nas oitavas de final. Mas o time comandado por Parreira deu a volta por cima, calou os críticos, quebrou o amargo jejum de duas décadas e meia e levantou a taça, bordando mais uma estrela no peito.

Hoje, o roteiro é um espelho. O atual time, comandado pelo italiano Carlos Ancelotti, também chega para a disputa deste mundial sem muito crédito (para não dizer nenhum) por parte da sua torcida. O clima de desconfiança é o mesmo de quase três décadas atrás.

O cenário está montado. Os astros estão alinhados. Os números batem. A geografia concorda. Agora, para eu ter 100% de certeza de que o hexa já é nosso, só falta um minúsculo detalhe: os jogadores da seleção precisam entrar em campo nos jogos desta Copa de mãos dadas, exatamente como fez o time comandado pelo capitão Dunga lá em 1994.

Se isso acontecer logo na estreia… ah, meus amigos, podem preparar a festa. O hexa vem, e não tem quem tire!

Alô, CBF: fica a dica!

Marcello Benevolo é advogado e jornalista.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 31/05/2026 - 03:40h

Velhos hábitos

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

Não sei se você percebeu, mas o velho hábito de personalizar nosso lar e resgatar a memória dos nossos ancestrais, vem perdendo a força de forma silenciosa e cada vez mais rápido.

É como se o último elo de familiaridade, aquele sentimento de pertencimento a um lugar ou ter uma conversa sem cerimônia, estivessem saindo de cena. O apagar das luzes.

Certo que algumas crenças e superstições ainda são levadas muito a sério, como, por exemplo, aquela de que se manter fotografias de parentes defuntos na mesa de cabeceira é um convite para fazer companhia no além mundo.

Não sei. Mas se acreditam, talvez já tenha acontecido.

O traço comum, o trejeito, os cabelos, o olhar e a expressão é fácil indicador que pode nos levar àquela que foi, talvez, a última conversa parental.

Você se olha no espelho e, de repente, parece um tio-avô.

Recebe a ligação de um primo e percebe que ele agora fala igual a um tio.

Porém, uma simples fotografia tem a capacidade de resgatar tudo isso de volta numa fração de segundo.

Experimente olhar para uma foto de um momento que jaz esquecido na memória.

Nem sempre a lembrança pode ser das melhores. Vem os conselhos, vem as observações e nem sempre o que se fala, e quem lhe fala são os melhores. Ainda que parentes. Embora não seja regra.

Como diz o velho ditado: sempre escute duas vezes. Primeiro o que lhe dizem. Depois, quem lhe diz.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - 09 a 30 de Junho de 2026 - Cidade Junina
domingo - 24/05/2026 - 15:38h

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Por Bruno Ernesto

Peça “A Invenção do Nordeste”, Grupo Carmin, Teatro Lauro Monte Filho Foto: Bruno Ernesto, 14/05/2026)

Peça “A Invenção do Nordeste”, Grupo Carmin, Teatro Lauro Monte Filho (Foto: Bruno Ernesto, 14/05/2026)

Todo palco teatral é, e sempre deve ser, um espaço sagrado, livre de mordaças, instigador, contestador, incitador, revolucionário e, sobretudo, acolhedor.

Arte que é arte, deve provocar os melhores e piores sentimentos em nós. Nisto reside a sua essência.

A maturidade de um povo se mede também pelo alcance da arte. A identidade e memória de um povo passa pela cultura; arte, literatura, cinema e teatro.

A arte pode ser o remédio para muitos males e mazelas, muito embora seja necessário reconhecer que ainda precisamos avançar muito para que ela seja e esteja, de fato, ao alcance de todos.

O apoio à cultura deve ter mão dupla, incentivar e apoiar tanto quem produz quanto quem a consome, num verdadeiro processo simbiótico, pois não podemos criar, permitir ou manter um abismo estrutural, geográfico e econômico, de modo a impedir o seu pleno acesso. Na cultura não deve existir elite.

Neste ponto, é dever do poder público manter uma política cultural permanente, especialmente para os artistas locais os quais, muitas vezes são os primeiros a nos apresentar a face viva da arte e cultura, porém são injustamente preteridos. É um paradoxo.

Tomemos como exemplo o que a Noruega estabeleceu como política de incentivo cultural, ao exigir que toda cidade mantenha um teatro, mínimo que seja, de modo a garantir o acesso da população local a grande parte os espetáculos, o que fortalece tanto os grupos teatrais locais quanto a própria comunidade, que tem acesso fácil aos espetáculos.

Uma coisa se interliga com outra. Se há um evento cultural, toda a cadeia econômica local se beneficia instantaneamente.

E isso reflete diretamente em outros campos da economia como, por exemplo, a redução da jornada de trabalho, renúncia de receita fiscal, valorização de espaços, busca por conhecimento cultural, dentre tantos outros aspectos.

Parece inatingível para nossos padrões, não é? Mas, e se fosse uma realidade?

A capilaridade cultural é extremamente importante e necessária para toda e qualquer política cultural, pois ninguém deixa de prestigiar o que está ao seu alcance, especialmente o livre acesso à cultura.

Assim, a inauguração ou reabertura de qualquer equipamento cultural é sempre motivo de comemoração, não só para a classe artista, mas para todos que fazem parte dessa engrenagem cultural, especialmente para o público, que sempre aguarda por bons eventos, com mais espetáculos, mais literatura, mais arte e mais lazer.

E é justamente o caso do Teatro Lauro Monte Filho que, após dezoito anos sem atividades, foi reaberto no último dia 14 de maio, e pelos próximos vinte anos abrigará o projeto Banco do Nordeste Cultural, ampliando a rede cultural na cidade de Mossoró/RN e região.

Foi emocionante assistir à sua retomada, ver aquele palco pulsar novamente, e saber que nele não deve haver neutralidade, lado A ou lado B, dualismo ou dicotomia, pois o torpor que ele proporciona é único, e tão democrático, que nele há espaço para Deus e para o Diabo – às vezes até ao mesmo tempo -, e ambos agradam à plateia.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM @ihgmossoro e curador do portal cultural marsertao.com @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica / Cultura
domingo - 24/05/2026 - 06:40h

As mangas de doutor Paulo Renato

Por Marcos Ferreira

Imagem ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Imagem ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Vejam só o título a seguir: “As mangas de doutor Paulo Renato”. Pertence a um texto homônimo de autoria do poeta e prosador mossoroense Júlio Rosado. Recebi o link com o conto (este o gênero literário em destaque) enviado através do WhatsApp pelo próprio Júlio. O enredo foi publicado no Blog João Dantas, mais precisamente no dia 19 deste mês. Trago aqui essa informação por julgar que o referido conto merece, ao contrário das mangas, ser saboreado por outros leitores.

Admito que o nome do relato não me causou muita curiosidade. Avançando na trama, porém, senti logo que não era mais possível não ir adiante. Isto porque Júlio Rosado sabe contar uma história e prender o leitor com admirável competência. Foi o que se deu comigo, que a princípio julguei ter em mãos uma simples crônica ou um mero artigo.

O doutor Paulo Renato, a exemplo da senhora Gildete, pessoa esta de idade avançada e saúde precária, não recebem muito tratamento descritivo. Aliás, pouco sabemos acerca dessas duas personagens. E isso já é o bastante, sem prejuízo para o desenrolar dos fatos. Considero que as mangas é que assumem o protagonismo da fabulação. Exato, as frutas são as protagonistas da narrativa.

Nada mais comentarei a respeito da urdidura que lhes recomendo ler. Agora o que me resta é providenciar um pouco de café para animar as minhas ideias, deitar na página fluorescente do computador algum assunto que também desperte interesse nos leitores. Sei que ultimamente estou deixando a desejar nas linhas que remeto ao BCS — Blog Carlos Santos. É isso mesmo, estou devendo ao meu editor uma página à altura desse espaço de opinião e cultura.

Quem sabe seja interessante requentar um tema mais badalado, o das guerras que estão em curso no Oriente e Europa. Os Estados Unidos, país que possui o maior número de armamento nuclear, não querem permitir que o pequenino Irã também desenvolva as suas armas atômicas. É um poder soviético, como se dizia antigamente no tocante a algo muito autoritário.

Ninguém, todavia, suporta mais falar em guerras. Porque isso é despejado de maneira abundante na cabeça de todo mundo via televisão, internet e redes sociais. Alguém aí tem por acaso um tema que possa me recomendar? Estou aberto a sugestões. Não esqueçam as mangas de doutor Paulo Renato.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 17/05/2026 - 08:50h

O dobro

Por Bruno Ernesto

Missa Convento Santo Antônio/RJ (Foto de autoria de Bruno Ernesto, 01/2026)

Missa Convento Santo Antônio/RJ (Foto de autoria de Bruno Ernesto, 01/2026)

Ajudar alguém nem sempre é questão de princípio. Por vezes, pode ser de meio e, até mesmo, de fim.

Pior do que o calor, falta de tempo ou quando alguém mastiga de boca aberta ao seu lado cuspindo mais do que come, sugando o café feito um aspirador de pó de 1500 watts de potência, conversando aos berros na mesa ao lado, escutando mensagens de uatizape no volume máximo, como se estivesse em casa sentado no vaso sanitário – algumas delas indecorosas -; sem falar naquelas gargalhadas hiperbolicamente desproporcionais e descompassadas, dentre outras coisas, nada pior que ser abordado por um pseudoprofeta.

Não sei você, caro leitor; mas acredito que ultimamente alguns deles estejam considerando que deixei de criar gatos e adotei baphomet como animal de estimação.

Talvez até tenha cadastro ativo de Mémé – sim, é o seu hipocorístico – no programa SinPatinhas, na plataforma pontogove.

Amiúde, e em locais cada vez mais improváveis, tenho sido abordado por oradores ávidos por me desencapetar e, confesso, fico surpreso com algumas abordagens.

Às vezes chego até a me aliviar por pensar tratar-se de um assalto. Ledo engano.

Não se engane; numa fração de segundo – milionésimo de segundo, melhor dizendo – todos nós somos potencial, perigosa e repetidamente violadores de leis. Ora divinas, ora morais, ora seculares.

A par disso, numa dessas abordagens, após muita insistência e já estar encabulado por ter aquele braço em riste mirando meus olhos com um panfleto na ponta dos dedos, tal qual uma baioneta, perguntei o porquê dele concluir que eu precisava de uma oração enquanto tomava um café e esticava as pernas num canto.

Olhei para a mesa e tive certeza que não havia adoçado o café. Também não estava com o fecho-éclair das alças aberto – estava sentado – ou mesmo fumando – parei há muito tempo. Nem mesmo blasfemei.

Será que aparentava estar contrito? Onde pequei, afinal?

Aliás, se me permitir uma colocação neste ponto do texto, proponho aos proprietários de restaurantes, cafeterias, sorveterias, clínicas médicas, hospitais etc., que instalem um decibelímetro, se não em cada mesa ou assento, ao menos num lugar visível; e se pensam em laurear alguém considerando a métrica, a disputa será acirrada.

Após uma breve contenda espiritual, enquanto eu bebericava calmamente o café, ele se virou e me abençoou com um sentimento preterdoloso tão genuíno e um olhar tão fulminante, ao dizer que Deus lhe daria em dobro tudo o que eu lhe desejasse, que não me contive e concluí aquela oração: então, certame iremos de mãos dadas para o inferno.

Você também já pensou.

Quem nunca?

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica
domingo - 10/05/2026 - 11:44h

Cortez Pereira

Por Honório de Medeiros

Cortez Pereira enfrentou forças da própria Arena, seu partido, no governo e política (Foto: reprodução)

Cortez Pereira foi governador do RN (Foto: reprodução/Arquivo)

Conheci Cortez Pereira pessoalmente quando, presidente do Centro Acadêmico do curso de Direito, convidei-o para proferir palestra acerca das relações entre marxismo e Filosofia do Direito, em um dos seminários que nós regularmente promovíamos.

De pronto, aceitou.

Na ocasião, dentre as críticas ao marxismo por ele esgrimidas, estava a do descompasso entre as previsões de Karl Marx quanto ao surgimento da revolução socialista na Inglaterra – único país, naquela época, que cumpria a necessária etapa do aprofundamento das contradições da classe burguesa através da revolução industrial -, e o fato de o processo revolucionário ter acontecido na Rússia feudal.

Perguntei-lhe se a teoria de Lênin acerca da tensão revolucionária queimar a etapa da ascensão da burguesia não seria correta, ao que ele me redargüiu que a tese carecia de comprovação histórica. Perfeito.

É difícil explicar nosso fascínio juvenil por Cortez Pereira naquela época, pois ele era um liberal e havia sido Governador através do Movimento de 64, enquanto nós, no verdor de nossa carreira intelectual, ávidos para salvarmos o Brasil e o mundo, pertencíamos a algum dos matizes esmaecidos da esquerda tupiniquim.

Talvez a presença de sua retórica envolvente, misto de conhecimento técnico e arroubo poético; o eco de sua difícil e romanesca vitória no concurso para professor de Introdução ao Estudo do Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; suas memoráveis defesas de projetos e programas de Governo e, principalmente, sua imolação no altar da ditadura, através de uma cassação hipócrita, fruto de politicalha, tivesse construído essa aura de respeito que lhe tributávamos.

Pouco depois, ainda no tempo em que todos os cursos da Universidade Federal do RN (UFRN) colavam grau juntas e o orador das turmas concluintes era escolhido por concurso, nós o tivemos como paraninfo – salvo engano a primeira homenagem pública pós-cassação.

Quando terminou de nos falar pediu ao cerimonial que me trouxesse a sua presença para confirmar se eu, “de fato, pelo que pude perceber do seu discurso, não era mais marxista”.

Disse-lhe que estava em fase de transição, ele me abraçou dizendo baixinho: “também eu sonhei seus sonhos”.

Entretanto, o mais emocionante dos momentos que vivi através de Cortez Pereira ocorreu quando assisti seu depoimento em “Memória Viva”.

Várias vezes meus olhos se encheram de lágrima – uma delas mais intensamente: ele nos contava, aos seus interlocutores e espectadores, qual o instante mais intenso que vivera no seu Governo, e não hesitara em dizer que fora aquele no qual, no final de uma tarde, pleno pôr-do-sol, arriou a Bandeira do Brasil do seu mastro, saudado por quase uma centena de cantadores de viola que tinham vindo até o Palácio Potengi prestar-lhe uma homenagem.

Agora, na maturidade, ainda permaneço fascinado pela concepção estratégica de seu plano de governo e sua capacidade de agregar valores humanos no seu entorno.

Tão importante é sua contribuição, nesse aspecto, que ela permanece como referência aos políticos e administradores públicos.

Honro sua memória com essas lembranças quase esmaecidas e o respeito que alguém intelectualmente superior sempre nos suscita, quaisquer que tenham sido seus erros, se os houve.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 10/05/2026 - 09:44h

Tenho minhas dúvidas

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Em vários sites de notícias do país (UOL, CBN e G1, entre outros) consta que o nosso vice-presidente da República, o doutor Geraldo Alckmin, em entrevista ao Estúdio i Globonews, andou defendendo o estabelecimento de mandato, portanto com limitação temporal de exercício, para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, isso seria já “um bom caminho na reforma do judiciário”.

Tenho minhas dúvidas.

É verdade que, em muitos países da Europa, os membros das cortes/tribunais/conselhos constitucionais têm mandatos com limitações temporais devidamente estabelecidas. Por exemplo, o Tribunal Constitucional espanhol é composto de doze membros, não vitalícios, com mandatos de nove anos, renovada uma terça parte a cada triênio. Já o Tribunal Constitucional italiano é constituído por quinze membros, com mandatos de nove anos, sem recondução.

O Conselho Constitucional da França é composto por nove conselheiros, e o mandato é de nove anos, vedada a recondução, salvo do membro que tenha assumido, em substituição, um mandato tampão (curiosamente, os ex-presidentes da República Francesa vivos são membros natos do Conselho, embora, por tradição, não exerçam os seus ofícios).

Segundo a Constituição Portuguesa de 1976 (e suas sucessivas revisões), o Tribunal Constitucional é composto por treze membros, com mandatos, pelo que me recordo, de nove anos. Para o Tribunal Constitucional Federal alemão, composto por dezesseis membros, os mandatos são, se não me engano, de doze anos. E por aí vai.

Mas estamos diante, nos exemplos dados acima, de verdadeiras cortes constitucionais, que, fazendo parte ou não da estrutura do Poder Judiciário de cada país, têm funções eminentemente políticas. Nos países acima referidos, nas suas arquiteturas constitucionais, convivem com as respectivas cortes/tribunais/conselhos constitucionais, guardadas as devidas competências, os seus diversos tribunais supremos, cujos juízes, via de regra, como não poderia deixar de ser, são estáveis/vitalícios.

O nosso STF não é apenas uma corte constitucional. É acima de tudo um tribunal supremo – e a sua larga competência criminal não nos deixa dúvida sobre a minha afirmação.

Na verdade, o nosso modelo de Tribunal Supremo/Constitucional está inspirado na Suprema Corte dos Estados Unidos, em que o conceito de vitaliciedade dos seus membros – apelidados de Justices – se aplica na “precisão integral do termo” (para usar a bela expressão uma vez cunhada pelo nosso Euclides da Cunha – e me desculpem o trocadilho): eles não têm uma aposentadoria compulsória a certa idade; querendo, eles só partem da US Supreme Court quando partem desta vida.

A meu ver, o problema com o nosso STF não está no modelo de indicação de seus membros ou mesmo no estabelecimento ou não de mandato para o exercício do cargo. Claro que um ajuste aqui, outro acolá, pode ser discutido, como, por exemplo, a exigência de um quórum maior para aprovação no Senado (isso evitaria a indicação de sectários). A solução para que tenhamos sempre bons ministros do STF está mais na correção e transparência do processo de escolha (com a participação altiva do Senado Federal), no acompanhamento constante por parte da sociedade da inteireza do exercício dos cargos, do que em “coelhos tirados da cartola”.

Para falar a verdade, tenho medo de que se tente, a essa altura do campeonato, inventar tronchamente a roda. Acho até que essa coisa de mandato pode politizar ainda mais a Corte – e falo partidariamente mesmo. Sobretudo se permitida a reeleição… ops, digo, recondução.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Artigo
domingo - 10/05/2026 - 08:22h

A praça da vergonha

Por Bruno Ernesto

Imagem de autoria do autor da crônica

Imagem de autoria do autor da crônica

Há exatos noventa e três anos, em dez de maio de 1933, uma fogueira ardeu bem em frente à Universidade Humboldt, em Berlim.

Embora hoje quase não lembre mais uma praça, a Bebelplatz testemunhou o prelúdio de um período sombrio, não só para o povo alemão, porém do mundo inteiro, e que até hoje parece estar em processo rescaldado.

O ato simbólico daquele dia foi eficazmente substituído por outros mecanismos que destilam o ódio e a intolerância utilizando agora mecanismos altamente sofisticados, porém eficazmente silenciosos, como a gentrificação, o isolamento social, o radicalismo político, a segregação religiosa e a já tão conhecida e clássica segregação econômica; além da massificação da frustração pessoal. Talvez esta seja o motor da nova era.

Pensando bem, hoje em dia, queimar livros pare ser coisa de amador; além de que não é um ódio civilizado. Ser explícito demais nem sempre é um excelente método.

Diria que o segredo da maldade está justamente na voz mansa, na mão meio estendida que lhe aperta com as ponta dos dedos, e um sorriso enviesado.

Se você não percebeu, a civilidade do ódio e da intolerância parece ser mais apreciada e valorizada pois utiliza a mesma lógica do magarefe: são poucos os que querem esfolar, mas são muitos os que não dispensam um bom corte de carne no prato.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 03/05/2026 - 10:46h

As minhas janelas

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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Estou lendo algumas crônicas de autoria de Paulo Mendes Campos. Segundo Flávio Pinheiro, em prefácio de um livro que reúne alguns textos do cronista, Mendes Campos “iluminou becos sem saída da vida, mas não cuidou apenas deles. Suas meditações eram temperadas por um ceticismo produtivo, para além do que há de enfadonho no niilismo ou de cômodo no pessimismo. Sempre teve, porém, um olhar perspicaz para descobrir o sabor oculto nas miudezas e circunstâncias da vida, com humor e ironia refinados e uma destreza para lidar com as palavras decantadas em invenção poética”.

Entre as crônicas, uma salta aos olhos. Trata-se de Minhas janelas, na qual o cronista discorre sobre a visão que tinha através das janelas das casas onde morou. Por ali, ele via o mundo em derredor, o vai e vem das pessoas, o caótico trânsito das regiões metropolitanas. “Morei em Belo Horizonte, no Leme, Copacabana, Leblon, Botafogo, Silvestre, andei aí pelo Brasil e por outros países”. Com efeito, o cronista perscrutava era a sua alma à procura de respostas.

Cá de minha parte, não posso afirmar que sou um andarilho. Quando eu era adolescente, morei por um ano na capital Alencarina. No entanto, a saudade bateu, e logo retornei à minha terra natal. Nunca tive – e não tenho – vontade alguma de sair do meu torrão, de residir em outras plagas. Viajar é bom, mas voltar pra casa é “felomenal”, diria Geovanni Improtta, personagem interpretado pelo ator José Wilker.

Assim, recuando no tempo, da janela da casa localizada na rua Tiradentes, n. 53, eu via a torre da igreja que foi trincheira para combater o bando do cangaceiro Lampião. Via seu Pedro Borges e dona Zélia, ao entardecer, sentados na calçada, saindo, vez ou outra, no Corcel I, verde. Eu via os meninos que moravam na rua jogando bola ou pedalando as suas bicicletas; via o pequeno muro da frente da casa de seu Sebastião Vieira e dona Ritinha, onde se cultivava um pequeno jardim.

Vislumbrava, outrossim, o vetusto prédio do Cine Teatro Caiçara. Aliás, permita-me fazer um parêntese. Certa vez eu assisti a uma peça de teatro no Caiçara, e nunca esqueci as palavras da atriz Aracy Balabanian, no palco, ante um prédio deteriorado e sem estrutura: “se os artistas de Mossoró fazem teatro nessas condições, eu também estou aqui para fazer”.

Pois bem. Através de uma janela lateral, eu via o quintal da minha casa, com um frondoso pé de seriguela que, não sei quantas vezes, deu sabor aos dias da minha infância. Pelas janelas da minha alma, eu via sonhos enquanto menino/adolescente que buscava desbravar o mundo.

Contudo, em nossas vidas nem sempre conseguimos cumprir o roteiro traçado, pois vamos, paulatinamente, construindo a nossa história, às vezes, por caminhos outros. Entretanto, nada tenho a reclamar, somente agradecer.

O narrado acima são recortes de tempos idos; as minhas janelas. Hoje, porém, vejo que é na sutileza dos detalhes que encontramos a grandeza da vida.

Por derradeiro, transcrevo as palavras do cronista Paulo Mendes Campos, extraídas da crônica anteriormente citada:

“Ando cansado de andanças, isto é, a idade vai chegando. Não quero mais ir, quero ficar; não quero mais procurar, quero conhecer o que já encontrei; para quem sou, as alegrias e as tristezas que tenho já estão de bom tamanho”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/05/2026 - 08:50h

Tirna

Por Bruno Ernesto

Chaleira no fogão à lenha Foto: Bruno Ernesto)

Chaleira no fogão à lenha (Foto: Bruno Ernesto)

É curioso observar como um simples hábito pode se transformar em um retorno à simplicidade.

Esse modernismo exacerbado, essa esterilização cultural, a restaurantização, parecem comprovar a teoria de Charles Darwin.

Aliás, de todas as grandes teorias, parece que ela é a única que vem se fortalecendo a cada dia e, claro, não podemos contabilizar neste raciocínio as teorias conspiratórias isoladamente, pois elas estão inseridas na própria teoria evolucionista darwiniana.

Claro que a modernidade – os novos tempos – e a praticidade que ela proporciona, mudaram definitivamente nosso modo de viver e sobreviver.

Ninguém em sã consciência quer lavar roupas à mão, passar roupa com ferro à brasa, viajar mil quilômetros no lombo de um cavalo ou buscar água na lata para abastecer sua casa; embora às vezes seja necessário fazer o complicado, porém não desútil.

Acordar às quatro horas da manhã e acender o fogão à lenha não é minimamente praticável para quem vai pegar um voo às sete horas, ou deixar o filho no colégio em idêntico horário.

Mas, guardadas as proporções, se você tivesse tempo e disposição, vez ou outra, certamente faria isso.

Se você pudesse, certamente gostaria de acordar sentindo o cheiro de café, queijo e ovos caipiras sendo preparados num fogão à lenha, fumaçando deliciosamente na cozinha e perfumando a sua roupa.

Não tenho dúvida que o seu lado piromaníaco lhe faria observar por vários minutos a labareda lambendo o fundo da panela e a carimbando de tirna.

Talvez, até mesmo se disporia a cortar a lenha, cheiraria o pedaço de queijo de coalho amarelo – deliciosamente gorduroso -, separaria os ovos caipiras e moeria o café manualmente na noite anterior, já sentindo o gosto e cheiro deles sendo preparados.

Até demoraria para dormir de ansiedade.

Carl Jung ficaria orgulhoso dessa sua sincronicidade.

Não duvido que também olhasse para aquela galinha pedrês solta no terreiro, e a imaginasse coberta de coentro, cebola roxa, perfumada com cominho e lateada por batata doce, feijão de corda com nata, arroz de leite, farofa e uma maxixada.

Se pudesse, vez ou outra, chegaria ao compromisso cheirando à fumaça, com as mãos sujas de tirna, mas de corpo e mente limpos e perceberia que nem sempre o que facilita a nossa vida é o melhor para ela.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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