domingo - 12/07/2026 - 11:26h

Limítrofe

Por Bruno Ernesto

Foto do próprio autor da crônica

Foto do próprio autor da crônica

Até que ponto a degradação humana lhe afeta?

Lembro de um filme alemão chamado Das experiment (A experiência), lançado em 2002 e dirigido por Oliver Hirschbiegel, o qual reproduz um experimento realizado no ano de 1971 na universidade de Stanford.

Nele, vinte voluntários são divididos em dois grupos, sendo oito deles carcereiros e demais prisioneiros.

O experimento consistia em observar o comportamento dos dois grupos simulando uma prisão.

Uma semana após o início, o nível de violência e degradação humana foi tão surpreendente, com uma total falta de controle dos voluntários que faziam o papel de carcereiros, que esses passaram a praticar todos os tipos de violência contra os voluntários no papel de prisioneiros, o que forçou sua interrupção.

Quando falamos de degradação humana pela violência física, estranhamente, ela desperta mais interesse e é incrivelmente mais atraente para as pessoas; embora muitos não admitam.

Entretanto, há uma degradação humana, muitas vezes silenciosa, porém tão cruel e, por vezes, igualmente mortal.

Vez ou outra vemos nos noticiários matérias acerca da situação econômica no Brasil e mundo a afora. Invariavelmente, não muito animadoras. Mas a vida segue.

Há dois autores que escreveram sobre privações e dificuldades em dois sistemas político-econômicos distintos e que, ainda hoje, geram grandes discussões: capitalismo e socialismo.

A diferença básica entre suas obras, é que uma, tal qual o filme, foi um experimento; e outra, foi pura realidade.

Conhecido pelo seu famoso livro 1984, o ingglês, George Orwell, uma obra tanto distópica quanto satírica, iniciou sua vida literária com o livro “Na pior em Paris e Londres”, escrito na década de 1920, quando largou tudo para iniciar sua vida literária, entretanto, só publicado em 1933.

A obra foi idealizada por Orwell para relatar a situação limite de pessoas com dificuldades financeiras. Uma população invisível.

Conta a vida das mais variadas pessoas. Desde sapateiros, pedreiros, cozinheiros, trabalhadores braçais, desempregados, até estudantes universitários, demonstrando que a ruína financeira, a miséria e o desamparo material, deterioram rapidamente qualquer perspectiva, quando se está extremamente necessitado, alterando e, repetidamente, interrompendo planos, ainda que seja por um prato de comida ou um lugar para passar a noite, registrando vividamente o desespero e luta diária de uma pessoa no intuito único de conseguir o básico naquela situação crítica de sobrevivência naquelas duas cidades que representam, ainda hoje, o capitalismo: Paris e Londres.

Para tanto, como uma forma de melhor imergir naquele mundo, passou, literalmente, a viver naquelas mesmas condições e, assim, poder relatar fielmente como era aquela situação de vida.

Orwell, brilhantemente registrou que a primeira experiência com a pobreza vem carregada com o temor de que ela estava prestes a acontecer.

Dizia ele que muito embora as pessoas relutassem, mais cedo ou mais tarde, ela – a pobreza – se materializaria, e tudo se dava de forma prosaicamente diferente, porém, de forma completa, extremamente diferente e extraordinariamente complicada.

E a primeira coisa que se conhecia era a baixeza peculiar da pobreza e as mudanças que ela impõe; o desnudamento de si mesmo, e a invisibilidade.

De uma hora para a outra, tudo se esvai entre os dedos e diante dos olhos.

O outro autor é russo Serguei Dovlátov, autor do livro “A mala”.

Em “A mala”, ele traz à tona sua história de como emigrou da antiga União Soviética para os Estados Unidos da América no final da década de 1970, relatando as dificuldades de sobreviver em sua terra natal no auge da Guerra Fria.

Ilustradamente, no início de sua obra, ele resume, sarcasticamente, que o regime socialista solucionava tudo, até a oferta e a procura de meias de crepe, como foi ocaso do fiasco de sua negociação na compra de uma grande carga de meias de crepe finlandesas verdes, e que no outro dia houve uma inundação de meias de crepe russas custando um décimo do valor que pretendia vendê-las.

Além disso, descreveu, de forma sutil, entretanto, bastante direta e crua, que a situação econômica estava tão deteriorada, que mesmo tendo ficado revoltado ao saber que, pelas regras da União Soviética, quem emigrava só poderia levar consigo três malas, descobriu que tudo que possuía naquele tempo, mal ocupava uma mala.

Assim, apesar de situações distintas, o aviso é o mesmo: tudo é limítrofe.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/07/2026 - 10:52h

Simpáticos

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Lemos Brito, quando da redação do seu clássico “O crime e os criminosos na literatura brasileira” (Livraria José Olympio Editora, 1946), aduz: “No momento em que inicio este capítulo toda a imprensa está preocupada com o que se conveio chamar O crime do olheiro. Olheiro, no Rio, é o indivíduo que ‘olha’, vigia os automóveis particulares nos pontos de estacionamento, recebendo em troca uma gratificação qualquer.

Foi um desses ‘olheiros’ que, penetrando na loja de um sírio, após o fechamento regulamentar, praticou horrível latrocínio, estrangulando o indefeso comerciante para lhe roubar as férias do dia. E a imprensa alude a este crime, que se revestiu de rara frieza e ferocidade, fazendo ressaltar alguns caracteres somáticos do ‘olheiro’, notadamente ‘suas mãos enormes’, de ‘verdadeiro delinquente’, as quais apareceram em grandes clichés nas edições subsequentes”.

Era a convicção, ainda muito em moda, “de que os verdadeiros delinquentes, os grandes criminosos, possuem juntamente com os estigmas fisiológicos e psicológicos, da diferenciação de Ferri, os morfológicos, tão em voga com Lombroso, Marro e outros da escola antropológica”. Convicção esta ainda não de todo desaparecida. Tenho um tio querido que, vez ou outra, sobre este ou aquele sucedido penal, ainda manifesta sua convicção lombrosiana sobre o delinquente do momento.

Para quem não sabe, Lombroso foi um famoso médico, psiquiatra, antropólogo e criminologista italiano. Formado em medicina pela Universidade de Pavia, ele exerceu a profissão percorrendo o seu país, vinculado a hospitais e universidades. Finalmente juntou-se à Universidade de Turim. Ali, já mais para o fim do século XIX, teve o seu melhor período produtivo. Publicou bastante: de “Gênio e Loucura” (1874) a “O crime, causas e remédios” (1894), passando por “O Homem Delinquente” (1876), sua obra mais célebre. Se Lombroso é merecidamente considerado o iniciador da antropologia criminal, no nosso imaginário, Lombroso é sobretudo lembrado pela sua descrição do “criminoso nato”, como parte de uma classificação, toda sua, dos delinquentes. Aquele sujeito disforme, assustador até, que nos acostumamos a chamar de lombrosiano.

Bom, por estes dias, enquanto matutava sobre um tema para a redação desta crônica, li na nossa animada imprensa que um ex-presidente do Brasil, também reconhecido jurista, afirmou, sobre um ex-banqueiro hoje penalmente muito mal afamado, ser ele “uma figura muito doce”, certamente “simpático” (eu assim suponho), mas “que exagerou nas atitudes…”.

Quem estaria certo sobre o “ser criminoso”? Lombroso, na sua imagem morfologicamente degenerada do criminoso nato? “Será mesmo que os indivíduos de mãos imensas, pesadas ou disformes, são tipos nos quais se observa uma regressão atávica ao homem primitivo, ao selvagem, e que trazem diluída no sangue a vontade mórbida de matar por estrangulamento?” Ou o nosso ex-presidente jurista na descrição de um delinquente “muito doce”…

Como sugeriu o multicitado Lemos Brito, “fujamos, enquanto é tempo, ao desejo de discutir cientificamente esta questão”. Mas devo concordar, todavia, que muitos indivíduos, acostumados autores de crimes graves, de fato em nada se parecem com os ditos “delinquentes lombrosianos”. O famoso Baby Face Nelson, ladrão de bancos estadunidense assim apelidado por sua fisionomia de adolescente, não nos deixa mentir; o ex-banqueiro simpático do presidente, idem. Atentemos!

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 12/07/2026 - 09:10h

Sobre confiança, conselhos e saudade…

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Há uma solidão e uma angústia silenciosa que acompanham todo jovem profissional. Ela não está na ausência de conhecimento, mas no desejo de uma oportunidade para demonstrá-lo. Assome-se a isto uma justa expectativa – dele próprio e dos próprios pais – da obtenção de uma independência financeira logo que o diploma seja pendurado na parede. Foi assim comigo também…

Fui diplomado em Direito logo após fazer vinte anos. Trazia comigo a ousadia própria da juventude e as inquietações de mudança de vida, uma vez que era cobrador e garçom, simultaneamente. Fazia com a formatura um “up grade” profissional: de cobrador e garçom passava a ser advogado. Na primeira sala locada de Almir Gomes da Silveira (“Almir do Laçador”), na rua Dionísio Filgueira, pensava eu– erroneamente – que se encarrilhariam atendimentos contínuos de clientes…

Passei dias, meses, e até mais de um ano, em que a clientela consistia em dois ou três “gatos pingados”, amigos da família, sem qualquer remuneração. Eles serviram para associar a teoria à prática. E eu ainda era grato por ter a possibilidade de testar meus conhecimentos. Hoje em dia, o recém-formado imagina que o cliente é um privilegiado em ter lhe escolhido e que o diploma expedido há pouco já é uma prova de sua “elevada” qualificação técnica.

Escrevo estas linhas movido pela gratidão aos amigos (prefiro chamá-los assim, em vez de “clientes”) que confiaram naquele advogado ainda muito jovem, com pouco mais de vinte anos, inseguro e quase sem experiência.

Essa lembrança voltou a ativar o meu córtex cerebral depois de uma conversa nostálgica com o casal João Marcelo Fernandes e Lorna Frota Rosado, sobre o avô dela, seu Cristóvam Gurgel Frota. Foi um dos meus primeiros clientes, juntamente com Avelino Borges, Raimundo Alves, João Marinaldo e seu Chiquinho Germano. Foram eles os primeiros depositantes do critério validador de um profissional: a confiança. Em comum, para minha tristeza e desconforto pessoal, todos eles estão entre as miríades celestiais e têm assento no colo sagrado de Deus.

Outra característica em comum é que eles já eram pessoas maduras quando recorreram aos serviços daquele jovem. De seu Cristovam, ganhei um presente que remuneraria qualquer grande causa: uma caneta folheada a ouro, que guardo com muito carinho. De seu Chiquinho Germano, igualmente, ganhei como prova de nossa amizade um relógio de algibeira que foi do seu pai, o Desembargador José Vieira. São esses mimos meus grandes tesouros, juntamente com imagens de santos, terços, quadros e outros presentes de amigos/as queridos/as que fui acumulando ao longo de minha trajetória, todos guardados com inestimável carinho e muito cuidado.

Lembro demais de seu Chiquinho Germano. De vez em quando, ao abrir um arquivo com seu nome, ao manusear papéis de Rodolfo Fernandes, deparo-me com a letra dele. E aí, é como se a sua voz voltasse à minha memória, pedindo licença, perguntando pela família, oferecendo queijo de manteiga e cajus trazidos da fazenda São Gabriel. E brigando comigo porque estava respondendo mensagens pelo celular e não estava olhando direto para ele…

A minha clientela envelheceu comigo. Se os maduros me abriram as portas quando eu era um moço de mãos sem calo; agora sou eu quem lhes abre a porta, lhes ofereço a cadeira, lhes escuto as histórias longas … Não é apenas clientela: é gratidão convertida em ofício.

O advogado que atende gente madura aprende cedo uma lição que não está nos manuais: o cliente não procura apenas justiça, procura escuta. Ele quer que alguém acredite na sua versão dos fatos, sim, mas quer sobretudo que alguém acredite na sua versão da vida. E nós, que os escutamos, vamos ficando depositários involuntários de um acervo imenso: genealogia, histórias da família, disputas patrimoniais, safras perdidas, heranças disputadas, amores antigos, salinas, roçados, promessas pagas a santos e a homens. Por isso, adoro escutar Marcelo Monteiro, Vilmar Pereira, Fernando Rosado, seu Masatoshi Otani, dona Euvércia, dona Loyola, entre outros.

Pensando em conselhos e sabedoria, tenho muita saudade de meu pai. Carlos Drummond de Andrade, matuto de Itabira que entendia dessas coisas, escreveu que a ausência é um estar em si. É exatamente isso, meu pai me habita como habita um alicerce.

Mesmo amadurecido, já professor, já doutor, eu continuava subindo uma escada que nenhum sucesso dispensa: a da casa do meu pai. Ele, beirando os noventa anos, seguia sendo o meu primeiro conselheiro. Seu Ary era muito inteligente, e ainda por cima metido a filósofo, criador de frases soltas, dando orientações de vida com muita precisão.

Sentava-me diante dele como quem se senta diante de um oráculo, e escutava de tudo: conselhos sobre a vida, sobre a família, sobre a profissão… Descobri, então, que a idade não me havia emancipado da sabedoria dos mais velhos; havia apenas me ensinado a valorizá-la ainda mais. Diante do meu pai, mesmo como advogado, por mais rodado que fosse, voltava a ser um inseguro estagiário da vida. E, quando decidia azucriná-lo com brincadeiras, ele respondia impassível:

– Dizem que esse menino é inteligente, mas é mentira. Ô menino besta!

E eu adorava provocar essa reação dele, para ser desconstituído e desapossado dos rótulos formais, colocado em situação de inferioridade e dá-lo a condição de poder me chamar enfaticamente de “besta”. Queria muito que os meus filhos, e os filhos dos meus amigos, mesmo sendo adultos, tivessem esse mesmo privilégio de aceitar os conselhos dos pais, como poetizou Sebastião Dias, aprendendo que “O mundo tem dois caminhos um é certo o outro errado /  Na escolha de um deles é preciso ter cuidado.”

Há noites em que a memória faz uma ronda pelo meu cérebro e lá estão todos: meu pai, meus avós, os tios, os velhos clientes, os amigos do Inocoop, dormindo o sono fundo dos que já cumpriram sua sentença de viver. Mas o sono deles não é ausência definitiva. Mario Quintana ensinou que morrer é apenas deixar de ser visto. Eu os vejo. Vejo-os toda vez que atendo um senhor de oitenta anos que chega devagar, saco de plástico com documentos na mão, e começa a conversa pelo tempo e pela chuva antes de chegar ao assunto.

Por isso, quando fecho o escritório ao fim da tarde e apago a luz, tenho a impressão de que a cadeira do outro lado da mesa não fica vazia. Fica encantada, como diria Guimarães Rosa.

Cícero dizia que a gratidão é a maior de todas as virtudes. A eles, meus oráculos do passado e do presente, minha gratidão e o meu amor fraternal. Dizia Esopo que a gratidão é a virtude das almas nobres. Shakespeare denominava a gratidão como o tesouro dos humildes. Não sei se tenho virtude alguma, mas sou muito grato a todos esses que confiaram – e continuam a confiar – em mim! Aos jovens, aos nossos sucessores, a minha confiança plena também. Desejo-lhes sucesso, com virtude e respeito aos nossos antecessores.

Marcos Araújo é advogado e professor da Uern

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/07/2026 - 08:26h

Viver não é preciso

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Calma, dileto leitor, não se impressione com o título desta crônica. Como muitos sabem, sobredita expressão faz parte de um poema de Fernando Pessoa, que diz: “navegar é preciso, viver não é preciso”.

Aliás, dizem que o verso foi inspirado nas palavras do general romano Pompeu, o qual exigiu que os seus marinheiros navegassem sob forte tempestade.

O poema, sem dúvida, concede-nos a oportunidade de interpretá-lo, pois para navegar é imprescindível traçar rotas, abastecer de mantimentos a embarcação, verificar as condições climáticas, entre outras providências, ou seja, tudo deve ser feito de forma precisa.

Doutro lado, viver, muito embora façamos planos, nem sempre acontece da forma como almejamos. Muitas vezes, a vida nos remete para outros caminhos; o que traçamos para nossa existência pode não sair como esperávamos.

Quantos de nós, apesar de arquitetar um projeto com régua e compasso, não conseguem executar a obra? Muitos, com certeza. Por quê? Porque a vida não é linear, ela, aqui e acolá, direciona-nos para outros lugares, por isso, o bardo português afirmou que viver não é preciso.

Eu, à guisa de exemplo, laborei em múltiplas atividades profissionais. Trabalhei no setor pessoal do antigo supermercado Pague Menos, em loja de peças de automóveis, comercializando carros, material de construção, com copiadora (xerox).

Posteriormente, fui aprovado num concurso público de agente educacional para trabalhar com adolescentes infratores, advoguei durante três anos, lecionei no curso de direito por quinze anos e há vinte anos exerço o cargo de oficial de justiça.

No tocante à vida pessoal, casei-me com apenas dezoito anos de idade, porém, jamais imaginei ser papai tão jovem.

Além disso, nunca cogitei que, um dia, escreveria crônicas. É certo que sempre admirei os textos de Dorian Jorge Freire e de José Nicodemos, achava bacana a forma como eles escreviam, narrando com sensibilidade e maestria as minúcias da vida. Somente tempos depois fui apresentado aos textos de cronistas reconhecidos nacionalmente, como Rubem Braga, Antônio Maria, entre outros de igual quilate, os quais me inspiram.

O fato é que boa parte do que aconteceu não foi planejado, as coisas foram acontecendo, as contingências da vida me levaram por essas veredas. Na verdade, tudo o que passamos na vida tem um propósito, são ensinamentos, mesmo que deixem marcas na alma; e sempre, sempre deixam cicatrizes.

Mas, enfim. Talvez o sentido e a beleza da vida estejam na imprecisão, nas curvas que encontramos no meio do caminho, forjando o espírito, fortalecendo-o para as batalhas do cotidiano.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 12/07/2026 - 06:56h

Autoanálise

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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Embora modesto, financeira e intelectualmente, digo de mim para comigo que sou um tipo afortunado, que vivo uma condição invejável por parte de outros indivíduos que se encontram abaixo da minha condição econômica. Acho que é isso. Quem olha de fora, quem põe uma lupa sobre meu minúsculo poder aquisitivo, talvez tenha até a impressão de que sou infeliz. É claro que às vezes, aqui recolhido com os meus botões, reflito um pouco e também me sinto menos que medíocre.

Mas, considerando minhas origens e uma malsegura trajetória de subempregos, além da falta de um diploma de nível superior, sinto que estou no lucro. Talvez eu não tenha me tornado um elemento de fato remediado, sem me preocupar com os algarismos que me cobram as companhias de água e de luz, entretanto hoje em dia levo uma existência sem grandes transtornos monetários. Passei por muitos perrengues, enfrentei tempos bicudos num passado não tão distante.

Primogênito de uma prole de onze filhos, comi o pão que o diabo amassou e vi dois irmãos pequenos morrerem de diarreia e desnutrição. Por pouco não fui parar na sarjeta, como tantos por aí. Minha salvação foi que um dia, após doze anos de completo analfabetismo, topei com a Língua Portuguesa, e esta me disse assim: “Vem! Sou tua tábua de salvação”.

Foi mais ou menos desse jeito. O nosso idioma, ao contrário da matemática e das outras ciências exatas, tornou-se o meu bote salva-vidas; um amor à primeira vista. Agarrei-me com o alfabeto e nunca mais o larguei. Aquela infância miserável e a adolescência constrangedora foram se desprendendo de mim lentamente. Aprender a ler e a escrever naqueles começos de minha educação formal foi o maior alumbramento do meu mundo. Não é a primeira vez que digo isso, porém repito.

Minha permanência em sala de aula foi curta; eu era então um sapateiro ganhando meio salário mínimo naqueles primeiros anos de fábrica de calçados Mossoró, mas nunca abandonei os livros: entenda-se a literatura. Li (outra vez repito) com uma fome ancestral. Sempre me faltaram alguns tostões, no entanto os livros de grandes autores pareciam destinados a chegarem às minhas mãos. Começar a escrever foi uma consequência. Hoje não mais, minha memória sofreu grande atrofia depois que entrei em colapso psiquiátrico, contudo naquela época de pouca comida e muita leitura eu sabia de cor e salteado uma variedade admirável de poesia. Crônicas e contos de menor tamanho (permitam a imodéstia) eu lia e relia até conseguir memorizá-los.

Por que, então, hoje estou batendo nesta tecla de autoanálise e vanglória? Faço isso para recordar a mim mesmo que não sou de todo uma criatura falhada na vida. Trilhando caminhos tortuosos, caindo e levantando aqui e acolá, cheguei ao nível social onde agora me encontro. Pois volta e meia é preciso a gente relembrar as nossas origens (especialmente quem saiu do útero da miséria e sabe o que é passar fome) para conseguir valorizar o que conquistamos, apesar dos pesares.

Este breve relato não é direcionado a você. Esta é tão somente uma reflexão que destino à minha própria pessoa. Tais palavras não têm outro endereço senão este cronista dominical. Para não me esquecer de quem sou.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/07/2026 - 11:30h

Conhecimento horizontal e conhecimento vertical

Por Honório de Medeiros

Foto ilustrativa captada pelo autor da crônica

Foto ilustrativa captada pelo autor da crônica

Visitei Antônio Gomes na Serra das Almas.

Ficamos de conversa vai, conversa vem, temperada com café e nacos de rapadura enquanto D. Ciça preparava a galinha com fava verde e Raimundo colhia umas cajaranas para o suco.

“Tá escrevendo alguma coisa”, perguntou ele.

“Não, ninguém mais se interessa por leitura”.

“Eu acho que você está enganado”.

“Como assim?”, perguntei.

“Antes de responder, vamos ampliar o sentido de Ler para o de Conhecer. Talvez seja verdade que não se leia hoje como se lia antigamente, não se sabe ao certo porque envolve estatísticas improváveis”. “Entretanto, nunca se conheceu tanto quanto se conhece hoje em dia”. Há o conhecimento que cresce horizontalmente, e aquele que cresce verticalmente”; um é raso, o outro, profundo”.

Acrescentou: “hoje em dia, qualquer matuto de pé de serra sabe muito mais acerca das coisas que seus antepassados do século passado, mesmo que seu conhecimento seja horizontalizado”.

Ele fez uma pausa, olhou para o imenso céu azul, quase despido de nuvens à sua frente, e rematou: “ainda por cima, à força de ouvir rádio, ver televisão, e ter sua atenção abduzida pelo celular, sua capacidade de raciocínio, quer queira, quer não, está sendo provocada, instigada, acelerada, e seu conhecimento está crescendo exponencialmente”.

É assim que acontece quando vou lá. Ele provoca e, depois, sigo estrada afora, convicto que meu conhecimento cresceu, não sei se horizontal ou verticalmente…

Quinta da Aroeira, 2 de julho de 2026.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 05/07/2026 - 11:02h

Solilóquio

Por Bruno Ernesto

Foto de autoria do autor da crônica

Foto de autoria do autor da crônica

Andar por uma galeria de arte, museu ou espaço cultural pode revelar muito mais sobre os seus frequentadores, do que as próprias obras.

Chamamos de expografia o conjunto de técnicas para compor a cenografia, dispor as obras e guiar os visitantes.

O mínimo de informações sobre uma determinada obra, um determinado artista, ou mesmo sobre um movimento, já é um bom ponto de partida para aproveitar algumas exposições, mas isso não é essencial. O essencial é você aproveitar a visita para se recompor mentalmente.

Aliás, se uma obra parece não transmitir muita coisa, ou não lhe instiga em nada no momento, sugiro que observe os frequentadores.

Olhe ao redor. Olhe de longe; veja o grupo de crianças no final do corredor observando um frequentador solitário fotografando.

Observe os casais; a mulher que aparenta estar num intervalo de uma reunião importante e não quis deixar de visitar a galeria nesse dia, embora não desgrude o telefone do ouvido.

Pare um pouco e perceba que um jovem com os cabelos desgrenhados observa detidamente uma carta de Frida Kahlo a Diego Rivera e depois toma nota.

Observe os funcionários e pessoal de apoio do museu; observe tudo.

Arte sem o observador não existe.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/07/2026 - 10:20h

O “País do Inocoop” entardece…

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Há países que não constam em atlas nenhum. Não têm assento na ONU, não emitem passaporte, não cunham moeda. E, no entanto, são mais reais do que muitos que figuram nos mapas, porque seus cidadãos os carregam no peito a vida inteira. O meu, chama-se “País do Inocoop”. Ele está encravado num território maior (Nova Betânia), em um pequeno continente chamado Mossoró.

Começou a ser povoado no início da década de 80. Chegamos por lá em 1982, quando os meus pais Ary e Clotilde montaram um pequeno restaurante, sendo uma habitação mista (comércio e residência). Era início da minha adolescência, e o desenvolver da infância dos meus dois irmãos Odinha e Evans.

Tinha fronteiras precisas, aquele país: começava no primeiro poste do lado do poço da CAERN por uma rua projetada que se chamaria depois de Eduardo Mendes, e terminava no último poste posicionado na estrada vicinal que viria ser no presente a Av. João da Escóssia. Meu “país” tinha até governo eleito. Para seu comando, foi criada uma associação, chamada inicialmente de ASCONOBE (Associação dos moradores do Conjunto Nova Betânia), modificada depois para ASNOBE (tiraram o “CO” do “Conjunto” porque uns gaiatos começaram a dizer que a sigla era de “cornos” da Nova Betânia…). E o Presidente e o Vice – seu Álvaro Souza e Teteca (José Belarmino) – se alternavam em mandatos semi-vitalícios, reeleitos sempre à unanimidade dos votos dos eleitores.

Meu país tinha até um “hino”, escolhido por seu Luciano Pedrosa e sua esposa Dodora, cuja execução era obrigatória nos eventos sociais do conjunto. Sempre que eles estavam em uma festa, pediam que tocassem “Perfídia” (bolero composto pelo mexicano Alberto Domínguez em 1939, com versão em português adaptada por Lamartine Babo).

Tinha também sua bandeira, hasteada todo mês de junho em forma de bandeirola de papel de seda num campinho de terra onde hoje existe a praça com o mesmo nome, sendo ali o palco para as festas juninas e os encontros das famílias. Era uma concentração enorme de gente feliz (e bêbada!).

E tinha, sobretudo, povo — porque país nenhum se faz de território; faz-se de gente. Na nossa rua, contando da casa do início, havia Rui Vieira e dona Francisca; o médico Antonio Martins e Fátima; Rodovalho e Conceição; Raimundo Negreiros e Iridea; seu Gilson e dona Irene; caldas Neto e Fátima; Chico da Marpen e esposa; Dona Hélia; Lucinha Gurgel e Bonifácio; os irmãos Tito e Pereira, que viria a casar com Clarissa. Na primeira rua transversal, havia Marlene e Assis Neto; Raimundo e Lúcia; Conceição e Edinardo Jales. Lembro os confinantes dos fundos: Maiza, minha irmã; dona Letinha e esposo; Marconi Amorim e Ângela; José Carlos Barbosa e Dra. Flor de Maria; a Professora Lurdes e filhos; Assis Alves e Graça; Paulo Gameleira e Laurinha; o casal dono da loja Casa dos Parafusos…

Nas ruas adjacentes, residiam Ermano Gameleira e Elisabeth; Canindé Alves e Ivanilda Linhares; Damião e Leomar; Chicozinho, Getúlio e suas irmãs; Gerôncio e Andrea; Sinval e Graça; Dr. Ezequiel e sua irmã; Geraldo Pires e família…Pelas bandas do que hoje é uma praça, formava um quadrilátero de pessoas especiais: Zé Ilo e Lúcia; seu Álvaro e dona Lurdes; Dr. Hugo Brasil e Netinha; Amaral e Fátima; Chibanca e dona Lourdes; Amaury e esposa; Tarcísio e dona Noilde; Teteca e dona Selma; Ladislau e esposa; Dr. Joel de Souza Neto e Fátima; Queiroz advogado e Fátima; dona Salete Fernandes; Padre Américo; Júnior Rego e Cacilda; Elder Heronildes e Zélia. Era a chancelaria do nosso país.

Na zona limítrofe da nação inocopeana, vinha as casas de Domício Couto e dona Isa; Inácio Silveira e dona Assunção; Costa e Ione; Hilton e Nevinha Gurgel; Ferrer e dona Deisinha; dona Chiquita e seu Afonso; Profs. Cristóvão e dona Graça; Emanuel e esposa; Dr. Dauri e Tereza; Lobato vereador e dona Francinete; Getúlio Vale e Regina, entre outros.

Era gente que hoje me parece ter sido posta ali por um romancista caprichoso. Era uma comunidade de afeto e bem-querer. Os vizinhos se ajudavam reciprocamente. Claro que numa diversidade dessas, qualidades e defeitos são inatos a todos os tipos humanos.  Um “país” se forma com vizinhos que sejam: risonhos, alegres, carrancudos, briguentos, bem-humorado(a), intelectual, bom profissional, fofoqueiro(a), prestativo(a), indiferente, e por ai vai. No entanto, eram todos eles almas boas e generosos de coração. Gente que me ensinou a pedagogia do afeto. Os pais dos meus amigos, que eram um pouco pais de todos nós, numa época em que educar era tarefa da rua inteira. No País do Inocoop, criança tinha muitas casas e nenhuma porta fechada.

Fui adolescente naquele país como Carlinhos foi menino no engenho de José Lins do Rego: moldado pela geografia miúda do lugar, pelo cascalho e pedras das ruas de barro; pelos chamboques arrancados dos dedos jogando no campo onde hoje é a praça; nas lamas nas costas no período de inverno, quando vinha de bicicleta rompendo o matagal e as vielas periféricas que davam acesso ao Inocoop. Casimiro de Abreu, que decorei no grupo escolar, já tinha escrito por nós: “Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida”. A aurora da minha vida tinha CEP, e ele ficava no Inocoop.

Contudo, os países envelhecem junto com seus fundadores. E há semanas, como esta que se finaliza (graças a Deus!), em que a notícia atravessa a cidade e vem me encontrar: partiu para o céu mais um morador daquele tempo. Um não, desta vez, foram três. Em uma só semana, choramos a partida de Elder Heronildes, dona Selma Carneiro e Nevinha Gurgel. Três em quatro dias. E cada partida dessas não leva apenas uma pessoa; leva um pedaço do território. Porque aqueles vizinhos eram os marcos da nossa cartografia sentimental: a esquina de Dr. Elder só era esquina porque ele estava nela; a calçada de Dona Selma só era ponto de encontro porque ela vinha sentar-se ali no fim da tarde; a rua de Dª. Nevinha era frequentada pelos eu riso. Quando essas pessoas morrem, o mapa perde referências, e a gente passa a se orientar por lembranças.

Drummond, itabirano incurável, olhava a cidade natal reduzida a um retrato na parede e concluía, em três palavras que valem uma literatura inteira: “Mas como dói!”. Dói assim o País do Inocoop entardecendo. Câmara Cascudo, nosso vizinho de província, gostava de se dizer “provinciano incurável” — e eu entendo cada vez melhor: não se emigra do primeiro país. Gaston Bachelard sustentava que a casa natal fica fisicamente inscrita em nós, nos gestos, no modo de subir uma escada no escuro. Pois digo que o bairro natal também: até hoje meus pés conhecem de cor os desníveis daquelas calçadas.

Penso em Macondo, a aldeia de García Márquez, que só existiu de verdade quando virou memória contada. Talvez seja esse o destino dos países da infância: seu território definitivo é a lembrança, e seus habitantes vão, um a um, mudando de endereço — da rua para a saudade. Guimarães Rosa, porém, deixou dito o que prefiro acreditar: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Os moradores do País do Inocoop não partiram; foram promovidos a fundadores eternos, patronos das nossas esquinas, nomes que doravante pronunciaremos como quem pronuncia rua de cidade histórica.

Minha fé me ensina que há um tempo de nascer e um tempo de morrer, e que nenhuma despedida é definitiva para quem espera a manhã da ressurreição. Por isso não escrevo esta crônica como quem lavra um atestado de óbito do meu país, mas como quem renova seu passaporte. O País do Inocoop entardece, é verdade, mas entardecer não é acabar. Acredito piamente que Evans, meu irmão, seus amigos Belarmino, Iuri, Wendell, Dimitri e Winglio, e os seus amigos contemporâneos, reconstruirão uma nova nação.

Pois puxemos as cadeiras da memória. Enquanto um de nós, meninos daquele tempo, contar essas histórias aos filhos e netos, o País do Inocoop terá população, território e soberania. E os que partiram esta semana não serão cidadãos a menos: serão, para sempre, os moradores ilustres de um país que não entrega suas fronteiras à morte.

Marcos Araújo é cidadão nato do País do Inocoop

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/07/2026 - 09:40h

Plano de saúde funerário

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Estamos partindo. Uma partida para nunca mais. Não há nisso nenhuma novidade, eu sei. Sempre foi dessa maneira. E dessa forma continuará por tempos infindos. Ultimamente, porém, tenho a sensação de que a Moça da Foice nos ronda mais acintosamente. Nos últimos meses (ou há poucos anos) a Indesejada já levou embora um monte de pessoas as quais desconhecemos, como também aquelas com relevante destaque na sociedade e outras bem próximas de nós: amigos, familiares, vizinhos. É muita gente fazendo a “extrema curva do caminho extremo”, como naquele soneto de Olavo Bilac.

Este verso é o mais perfeito eufemismo que conheço para denominar o fim peremptório, irremediável. Não posso negar que tenho pensado com certa frequência nessa passagem para a outra dimensão, acaso exista uma outra dimensão.

Volta e meia topamos com a notícia de que fulano ou fulana morreu. Aí me ocorre esta inevitável e íntima pergunta: “Quanto tempo será que ainda me resta?” Ou algo desse tipo: “Quando chegará minha hora?” Refletimos sobre nossa idade e, a depender da soma dos anos, recordamos aqueles cidadãos que se foram mais cedo, jovens ainda. Olho para mim mesmo e verifico que sou um indivíduo de meia-idade. Tenho mais passado que futuro. Mas não sinto medo da morte. O que deveras me assusta é morrer. Aqui me refiro àquele tipo de passamento longo e sofrido. Todavia tenho receio de ser pego de surpresa. Um mal súbito pode acometer este escriba.

Considero chato, por exemplo, bater as botas e deixar tanta coisa desorganizada. Olho novamente para meu caso e certos detalhes me vêm à cabeça. Moro só há quase duas décadas e imagino o transtorno de ser encontrado mortinho da silva apenas após alguns dias. Quando enfim entrarem aqui (deixei cópias das chaves com uma vizinha) possivelmente estarei sem camisa, a barriga saliente à mostra, a casa um tanto bagunçada, calçados e roupas largados em lugares impróprios. É mais ou menos assim. Tenho, por mais tolo que isto pareça, certos pudores de como venham a topar com meu cadáver. Possuo um temor enorme de ser encontrado no banheiro, inteira e lastimavelmente nu. Quem sabe até fulminado por um infarto.

Agora me vem à memória o seguinte: uma de minhas irmãs contratou e me incluiu em um plano funerário. À época, desconfortável com essa providência, senti a desagradável sensação de que estavam apressando as coisas. De repente, embora gozando de saúde, um arrepio percorreu a minha espinha. Não posso negar a importância de um serviço dessa natureza. “Viver é muito perigoso”, como escreveu (em Grande Sertão: Veredas) o escritor mineiro Guimarães Rosa. Essa ideia de plano funerário pode representar uma espécie de aceno, algo como se a gente dissesse ao além-túmulo: “Ei, estou aqui! Pode vir. Estou pronto!” Eis o meu desconforto com a proposta de um plano funerário. Poderíamos ao menos chamar de outra forma, como “plano de saúde funerário”. Desse modo, a meu ver, seria uma coisa mais discreta.

Tudo bem, podem dizer que isso é tolice, que não se pode enganar a morte e todo mundo nasce com o destino traçado. Devo concordar. Até hoje ninguém comemorou aniversário de cento e cinquenta ou duzentos anos. De igual modo nenhum sujeito que partiu nunca entrou em contato com os vivos para explicar de fato como é o processo. Dizem que o Nazareno está voltando. Vamos esperar.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/07/2026 - 07:04h

A avenida Presidente Dutra

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Numa madrugada do último mês de junho, pelas três horas, com sono, e sentindo um tiquinho de frio, levantei-me para ir buscar a minha filha na Estação das Artes, em Mossoró. Ela está no vigor da mocidade e gosta de curtir as festividades juninas que acontecessem.

Então, lá fui eu. Tirei o carro da garagem, atento a qualquer movimento suspeito. Com redobrada cautela, conduzi o veículo pela avenida presidente Dutra, apesar de achar que àquela altura da madrugada as ruas estivessem vazias, sem um pingo de gente.

Sabe de nada, inocente! Havia várias pessoas subindo o grande alto de São Manoel, a pé, retornando das festas. Eram grupos de amigos e amigas, talvez, casais enamorados. Confesso que fiquei surpreso, pois pensava que, diante da insegurança na qual vivemos, as pessoas não cultivavam mais esse costume, e utilizassem o serviço de Uber; eu sei, eu sei, o dinheiro é contado e, na maioria das vezes, só dá mesmo pra tomar umas.

Lembro que na década de oitenta, quando se curtiam as noites da cidade, era comum as pessoas voltarem caminhando, depois dos grandes showmícios, das festas no posto Imperial ou de outros clubes. Cansei de ver inúmeras pessoas voltando para as suas casas, no frescor da madrugada.

Recordo-me que as carreatas/passeatas se concentravam na churrascaria O Laçador, para só depois desceram o grande alto. Várias vezes fiz esse percurso ao lado de amigos, não raro, tomávamos porres de “juntar menino”. Somente anos depois as carreatas das campanhas eleitorais e as comemorações da vitória de um time de futebol começaram a se concentrar no posto de “ceguinho”.

Na época da minha mocidade não existia o famoso Sebosão, nem as conveniências, como hoje em dia. Após as festas, íamos comer na lanchonete de Zecão, que se localizava próximo a uma das pontes, e a resenha dos jovens “boêmios” se estendia pela madrugada.

Por isso, enquanto eu descia a avenida Presidente Dutra naquela madrugada insone, e vi a galera voltando para as suas casas, viajei no tempo; lembrei, com um sorriso, do junho da minha vida. Foi um tempo danado de bom.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - UnP - 17 de Junho de 2026
sábado - 04/07/2026 - 08:38h
Saúde

Sobrevivente eu sou

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Virose, gripe, como queira. Não importa. Estou há 27 dias torturantes tomado por fadiga/prostração, coriza, falta de apetite etc.

Febre e dor de cabeça foram mínimas; tosses surgiram com maior incidência. Quando penso que estou me desgarrando disso, ledo engano.

Trabalhar e exercitar o físico de canário belga e canelas de talo de coentro não têm sido fácil. Mas espero entrar a nova semana melhor.

Como diria Dona Maura, minha Santa Mãezinha: “Que os anjos da boca mole digam amém.”

Amém.

Sobrevivente eu sou.

Saúde!

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Categoria(s): Crônica
domingo - 28/06/2026 - 13:04h

Às máquinas, o mundo

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa da Web

Arte ilustrativa da Web

Conto, em meu Poder Político e Direito – A Instrumentalização Política da Interpretação Jurídica Constitucional, um fato narrado a partir de Sir Winston Churchill em My Early Life – A Roving Comission, para ressaltar seu “lado” pouco conhecido de epistemólogo que fez uma opção decidida pelo Realismo, em oposição ao Idealismo.

Esse seu “lado” de filósofo – é bom lembrar que ele foi também escritor, pintor e memorialista e a sua obra, nomeadamente as Memórias de Guerra (1948-1954), valeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1953 – me veio à mente ao ler, quase que por acaso, uma frase que ele proferiu: “Moldamos os nossos prédios e depois eles nos moldam”.

A leitura foi na excelente resenha que Ricardo Abromovay publicou na Revista “Quatro Cinco Um”, acerca de três obras ainda não traduzidas para o português e que tratam daquilo que é denominado de “Sociedade da Vigilância em Rede”.

Pois bem: Abromovay nos induz ao seguinte raciocínio analógico: se nos moldam os prédios que nós construímos, segundo o brilhante “insight” de Churchill, podemos esperar algo diferente em relação à “Rede”?

Até então tudo tranquilo. É difícil quem pense o contrário. O problema é que o diabo mora nos detalhes, como diz o famoso provérbio alemão.

Cito Abromovay:

“Na verdade, as informações permanentemente coletadas e analisadas por algoritmos, cujo funcionamento nos é completamente opaco, permitem que nossa conduta seja previsível e, justamente por isso, abrem caminho a uma interferência em nosso cotidiano que é inédita e atinge todas as esferas da vida social.

Em 2014, por exemplo, a Amazon patenteou um sistema que permite antecipar o que os clientes querem comprar, antes mesmo que eles próprios o saibam. A mágica está nas informações reunidas sobre cada um de nós e na análise que delas é feita”.

Apavorante.

Lembrei-me que certa vez perguntaram a Stephen Hawking se a inteligência artificial iria nos superar – a chamada “singularidade tecnológica”.

“É bem provável que sim”, respondeu ele. E propôs embutir sensores éticos nas nossas máquinas inteligentes.

“Como assim”, me perguntei. “Sensores éticos?”

E me lembrei da sociedade distópica imaginada por George Orwell em 1984: no futuro totalmente controlado por intermédio da inteligência artificial não é o “Grande Irmão” quem dará as cartas.

Serão as máquinas.

Honório de Medeiros é professor, escritor, ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 28/06/2026 - 09:50h

Heimlich

Por Bruno Ernesto

Restaurante, foto do autor da crônica

Restaurante, foto do autor da crônica

Nem sempre o tempo permite aproveitar o almoço com a calma que merece, e você sabe bem disso.

Uma boa dica é tomar uma xícara generosa de café antes e outra após o almoço.

Mas nem tanta calma. Mastigar oitenta vezes antes de deglutir já é paciência demais.

Nem vamos falar sobre misofonia.

O certo é que, se for enfrentar uma fila num “selvisérvice”, aí que temos que ter paciência.

Tem gente que, quando não tosse, conversa ou espirra em cima do bufê; fica três ou cinquenta minutos separando a cebola do feijão verde; uns cinco ou sessenta minutos calculando o número de grãos de arroz branco que pretende comer; outros nove ou duzentos minutos para decidir se vai querer macaxeira frita ou cozida – e pensa que devemos aguardar o ritmo dela, como se o Código de Trânsito Brasileiro tivesse eficácia plena em frente à bandeja com salada de batatas – e, após, solenemente,  vai direto para aquela mesa que você estava de olho desde quando chegou ao restaurante.

Não sei você, – acredito que sim – mas, em certos restaurantes temos um garçom preferido. Não, não se trata de uma relação simbiótica ou que tomemos aquela sincronia como algo combinado.

Por vezes, uma cortesia, a rapidez no atendimento, quer seja pela ortodoxia, ou apenas e tão somente os santos se bateram.

A bem da verdade, também acredito que haja essa reciprocidade tácita entre nós e eles.

Ultimamente tenho evitado restaurantes pelos mais diversos motivos, mas, inevitavelmente, preciso frequentá-los.

Num deles surgiu um novo garçom, sempre impecável, e deve contar com seus menos de vinte e cinco anos de idade. Muito cortês, atencioso e atento. Lacônico desde sempre – isso pude perceber – mas com um profissionalismo pouco visto ultimamente.

Duas ou três vezes após o primeiro contato, notei que ele sempre me olha de modo enviesado quando pergunta o que quero beber para acompanhar o almoço.

Sempre digo a mesma coisa: nada, obrigado.

– Não vai beber nada?

Não, obrigado.

Ele põe as mãos nos bolsos da calça. Me olha dois ou três segundos, franze a testa e depois o canto da boca discretamente. Olha pra cima como quem não acredita, suspira e sai em direção à mesa ao lado. Não sem antes olhar novamente.

Acho que ele pensa:

– Esse cara nunca almoça bebendo nada! Vai se entalar!

Das seguintes vezes, aparentemente indignado, vai e volta. Olha de longe, de perto. Passa com um olho fixo, enquanto o resto do corpo segue.

Será que torce ou espera eu me engasgar?

Certamente diria: – Eu sabia!?

Acredito que não. Certamente não. Talvez não. Não duvido. Eu diria!

Como diz o velho brocardo africano, só um tolo testa a profundidade da água com os dois pés.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica
domingo - 28/06/2026 - 09:02h

Tudo que a fé pode tocar

Por Odemirton Filho

No momento, estou a escrever, em casa, sem nenhum tico de pressa. Enquanto escrevo, tomo um cafezinho, e vasculho nas gavetas da memória palavras que possam traduzir a letra da bela música do cantor Tiago Iorc. A canção fala sobre fé, de como conseguir tocar alguém que já se foi, e que deixou profundas saudades no coração.

Como se sabe, para escrever é preciso reflexão, inspiração. No entanto, nem sempre a razão é suficiente para que possamos discorrer sobre algo. Na maioria dos casos, ao escrever, é imprescindível inspiração. E ela nem sempre vem. Aí, nesse solilóquio, buscamos no fundo da alma algo que vale a pena expressar.

Peço licença, caro leitor, por um instante. Vou ali, ao quintal da minha casa, soltar estalos de salão (chumbinho) com o meu neto, pois o sorriso dele, ao escutar o estrondo”, faz-me feliz; ele também adora observar um canário que pousa na pequena poça d´água. Esses lúdicos momentos ao seu lado rejuvenesce o meu espírito, trazendo-me inspiração.

Agora, após brincar com o meu neto, retomo este texto, e encaro a tela do computador, duelando com as palavras. Volto à letra da música de Tiago Iorc. Imagino a saudade das pessoas que perderam alguém especial, a exemplo do pai, da mãe, do filho ou filha, dos avós, do marido ou da mulher; quem sabe, dum amigo ou amiga. “Como é o cheiro daí, o seu eu não esqueci, nessas horas da vontade ligar pra te ouvir e saber como você está”.

Então, num átimo, a saudade bate no peito de algumas pessoas. E devem pensam: por que não aproveitei mais a presença dela ou dele? Por que não conversamos mais? Por que não encontrei tempo para vivenciar momentos ao seu lado? Por quê?

Porque estamos sempre correndo pra lá e pra cá. Achamos que temos todo o tempo do mundo. Não. Não temos. Ele passa a galope. Deixamos transcorrer, “in albis” (em branco), o melhor da vida, isto é, estar na presença das pessoas que amamos. Aí, quando as perdemos, passamos a viver de arrependimentos e saudades.

Há um trecho da letra da música que diz assim: “eu te vejo em todo o canto, todo olhar, onde tem amor, sei que você está, agora você é tudo que a fé pode tocar”. Ou seja, é por meio da fé, do amor, que se toca na pessoa que já não está entre nós, numa profunda conexão espiritual.

Bom, finalizarei esta crônica, pois acredito que já disse tudo o que havia para dizer. Vou me arrumar para ir à cidadela curtir as festas juninas, na companhia da minha mulher, dos meus filhos, da minha nora e do meu neto.

E você, estimado leitor, tente aproveitar a vida ao lado dos seus, fazendo o que gosta; não espere para viver somente de saudades.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 28/06/2026 - 04:22h

Aos amigos com carinho

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Ultrapasso meio século de idade com um patrimônio afetivo invejável. Os amigos que tenho (fortuna sem tamanho) são pessoas extraordinárias. Nutro verdadeiro amor e admiração por cada um deles. Alguns me frequentam um pouco mais, todavia nenhum tem maior ou menor peso na balança do meu benquerer. É verdade que não posso contar vantagem acerca da quantidade, entretanto o tipo de seres humanos que essas pessoas representam é do mais alto quilate. Cada um com seu modo de ser e de me orgulhar por fazer parte desse grupo de indivíduos fora de série. Não me renderei à tentação de citar nomes, contudo estou certo de que este relato amorável alcançará a todos. Até porque, repito, não constituem um número quilométrico. O que deveras me fascina em cada um são o caráter excepcional e o coração fraterno.

Para ser mais justo e exato, é preciso registrar aqui o detalhe de que passo um tempo por vezes longo sem trocar um abraço com esses amigos e amigas. Entrementes, também para ser verdadeiro, volta e meia estamos partilhando umas ideias via chamada telefônica ou por meio de mensagens de áudio ou de texto no WhatsApp. Quando nos reencontramos cara a cara, aí é uma alegria só.

Hoje, portanto, acometido por um bocadinho de saudade, venho expor estas linhas um tanto açucaradas aqui no BCS — Blog Carlos Santos. Este que é um reduto onde quase todos nós marcamos presença desde as primeiras horas dos domingos com uma porção de artigos, crônicas, poemas, notícias e textos outros. É isso mesmo! Aqui a maior parte de nós se reúne dominicalmente para relatar as suas impressões e pontos de vista a respeito de uma variedade de assuntos os mais em voga ou na moda. Destarte, meus caros, como um simples e saudoso missivista, aproveito este espaço plural para enviar este recadinho do coração a esses indivíduos aos quais estimo e dedico o meu aplauso. Tanto aos que figuram aqui na condição de autores quanto àqueles que (não menos importantes) compõem o time de leitores cativos deste blogue.

Bem, agora vou ficando por aqui. Isto é o que tenho para hoje. Estou em paz, feliz e orgulhoso dos amigos que possuo. Este, posso dizer, é um patrimônio afetivo que não pode ser pesado, medido ou mensurado. Quem tem amigos desse tipo pode se sentir abençoado. Amanhã ou depois, quem sabe, o tempo esteja favorável e aí me reencontre com algum desses amigos-irmãos para um bate-papo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Pensando bem...
domingo - 21/06/2026 - 11:30h

Aquele cafezinho

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Fazemos planos todos os dias. Tanto para o amanhã quanto para daqui a pouco, ao cair da noite. Penso nisso agora que me recordo de quantas vezes adiamos aquele cafezinho cogitado para determinado dia da semana com amigos de agendas superlotadas. Então, no corre-corre em que vivemos cotidianamente, esse café acaba sendo postergado. É isso aí. Toco nesse tipo de assunto porque volta e meia me vejo refletindo sobre o quanto a areia de nossa ampulheta pode estar pouca. Não pretendo sugerir que não devamos traçar objetivos, ainda que a longo prazo. Dessa maneira, sem pensarmos na finitude de nossa existência, perseguimos certos projetos, empenhamos esforços e adquirimos, por exemplo, um apartamento ou um carro novo.

No mais das vezes, claro, em prestações a perder de vista. Assim ignoramos a Indesejada, que talvez já nos ronde ou ainda se mantenha a diversos anos ou décadas distante.

Fato é que não vale a pena encucar, pôr freios demais nas coisas que almejamos adquirir ou realizar. Do contrário, como se diz popularmente, a gente pira, funde a cuca. Ocorre, entretanto, que muitos sonhos e intentos ficam no meio do caminho, lá no comecinho ou bem perto de serem concretizados.

Dou uma olhada à volta e me deparo com tanta coisa fora dos seus devidos lugares. São roupas em locais impróprios, poeira acumulada, sapatos, sandálias e tênis em pontos indevidos; a casa toda gritando por uma faxina. Não nego que a lembrança de um enfarto fulminante me vem à cabeça e aí tudo isso, toda essa desordem será encontrada por terceiros após meu bater de botas.

Talvez seja esta uma das desvantagens de morar só, de anoitecer e amanhecer longe das vistas de todos. Após um ou dois dias, quem sabe, começariam a notar minha ausência e aí descobririam este hipotético defunto já em avançado estado de enrijecimento. É um transtorno que eu não gostaria de causar a ninguém. Até porque a ideia de morrer não me seduz.

Temos, em um número considerável de indivíduos, o costume de nutrir ideias e agir pouco, não fazer por onde se efetivem. Dessa maneira a rodada do moca pode ser considerada uma dessas ideias que protelamos com frequência. É óbvio que os amigos permanecem, ainda que afastados fisicamente, com a mesma benquerença de sempre. Nesse caso a carapuça também me serve. Um bocado de vezes, portanto, deixamos aqueles salutares encontros para um dia qualquer.

Dito isto, meus caros, façamos contato; lancemos mão do WhatsApp. É bem possível que amanhã (persistindo na temática que ora me serve de mote para a produção desta página) aquele cafezinho enfim dê certo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/06/2026 - 10:28h

Grande jogada

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa do Midjourney

Arte ilustrativa do Midjourney

O jogo de azar, em que o ganho e/ou a perda dependem exclusivamente da sorte, é um problema da sociedade desde tempos imemoriais. E falo aqui tanto do jogo proibido por lei como daquele por ela autorizado. Como outrora dizia Lemos Brito, no seu clássico “O crime e os criminosos na literatura brasileira” (Livraria José Olympio Editora, 1946), “ele perverte o caráter, dissipa a riqueza, subjuga todos os pensamentos, esmaga a capacidade de trabalho regular, oblitera a consciência, fazendo-a esquecer os deveres morais, leva ao abandono da família, conduz o funcionário, público ou privado, à prevaricação ou ao desfalque, é germe de todas as infidelidades, terminando muita vez pelo roubo, o homicídio ou o suicídio”.

Não sou totalmente contra o jogo de azar. Acho até que os jogos de Cassino, em lugares turísticos, frequentados por gente com capacidade financeira para ganhos e perdas, devidamente fiscalizados, podem ser uma boa para a economia local e até nacional. Não me tomem, portanto, por uma Dona Santinha. De carolas, quero distância. E acho mesmo que todos os homens devem ter os seus pecados/vícios/defeitos; eles são até mais humanos e melhores por isso.

O problema está na dimensão que a coisa agora tomou. Agigantou-se deveras. O jogo industrializou-se e, para além disso, tornou-se multinacional. Falo do fenômeno das bets ou casas de apostas online, hoje malditamente amalgamadas ao futebol e que, ao contrário dos cassinos, para onde devemos ir se queremos jogar, entram nos nossos telefones celulares, nas nossas casas, nas nossas vidas, sem pedir qualquer licença. E, não raramente – quem não conhece alguns exemplos?  –, destroem o viciado jogador e famílias inteiras.

Ademais, se outrora, como relatava Lemos Brito, o jogo era o foco de atração “das almas frágeis, dos incomodados à mediana social”, dos que não sabiam “conquistar metódica e gradativamente a felicidade”, que queriam facilmente transpor de um salto todos os obstáculos para a conquista financeira, hoje a coisa é totalmente diferente. Sobretudo ele não trabalha mais majoritariamente nos meios “elegantes”. Como o álcool não é apenas “a champanhe dos casinos, o jogo não se limita [mais apenas] a corromper as classes elevadas”, ele “vai até onde a cachaça” está (…), onde “se reúnem os operários, os pequenos funcionários, os caixeiros, os menores que furtam dinheiro em casa para satisfazer o vício terrível, os pais de família sem escrúpulos que vão deixar nas mãos de espertos os pingues salários destinados ao sustento da esposa e dos filhos”. Vai até onde é pago o mais que necessário Bolsa Família, tirando dessas famílias o indispensável sustento. Tirando também o sustento da economia local, pois o dinheiro dos programas sociais, que deveria ser gasto nos sítios mais pobres do nosso sertão ou das nossas periferias, vai digitalmente acabar nos bolsos dos influencers e dos donos do jogo, que vivem e luxam não se sabe sequer onde.

É por isso que vai aqui um caloroso aplauso ao jogador francês Kylian Mbappé, que teve sua imagem indevidamente associada, sem sua autorização, a uma propaganda de uma casa de apostas/bet. Mbappé, ele mesmo nascido em banlieue/subúrbio/periferia de Paris, sem medo de polemizar, foi assertivamente crítico às bets: “Muitos de nós vimos de bairros onde estas coisas destruíram muita gente. Eu mesmo conheço pessoas que sofreram”.

Mbappé, a quem não desejo sorte em campo contra o nosso Brasil, marcou um golaço fora das quatro linhas.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 14/06/2026 - 08:38h

Só um palpite

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Minha cidade não é mais a mesma, claro que não. Mudou positivamente. Mas essa mudança não foi muito para melhor se levarmos em conta a tríade igualdade, fraternidade e liberdade. De qualquer modo, pelo que tenho visto, o mossoroense anda exultante em meio a toda a pirotecnia e carnavalização de uma terra que há tempos jogou para o escanteio preceitos sociais, morais e ideológicos. Ao povo (há exceções!) basta o furdunço, a folia, as decorações juninas, o foguetório retumbante e um entorpecedor e aclamado carnaval fora de época. É aí que são adquiridos uns trapinhos coloridos com que os caboclos e as caboclas daqui se vestem e curtem sua apoteose em camarotes custando os olhos da cara. Isso não é problema, alguns se estrepam no cartão de crédito e tudo dá certo, sem que se importem com a ressaca econômica.

Hipnotizantes eventos fazem desaparecerem das vistas dos nativos a enorme buraqueira nos bairros periféricos, a superpopulação de animais abandonados e a fome, a desvalia dos sem-teto; pessoas sem amparo nenhum por parte dos órgãos públicos desta nossa feliz e purificada pátria do faz de conta.

Apesar dos pesares, e a bem da verdade, minha cidade melhorou ao longo dessas últimas três ou quatro décadas; está indubitavelmente mais apresentável, entretanto piorou sobremaneira no tocante à insensibilidade para com os necessitados, gente invisível, sujeira social varrida para debaixo do tapete do Executivo e do Legislativo desde sempre. Chato falar sobre o óbvio, eu sei. Assunto desagradável e repisado. Tenho consciência de que estou ferindo susceptibilidades, abespinhando melindres. É isto, admito que venho chovendo no molhado e enfeando o verniz reluzente na carranca de certos cidadãos baludos. Assim mesmo ponho o dedo nessa ferida. Porque o mutismo geral, absoluto, produz uma infecção do tipo “cada um que se vire”.

Acho que podemos ser mais que estampidos e cheiro de pólvora. Mossoró, com necessária boa-fé e freio em obras de orçamentos suspeitos, pode agir em favor dos maltrapilhos, desses conterrâneos que agora se encontram na sarjeta. Cães e gatos magríssimos e famintos perambulam por toda parte!

Que o povo se divirta, ora essa! Que festeje e se esbalde nos carnavais e no são-joão, mas sem perder a ternura, a sensibilidade. Avanços graúdos já foram conquistados; obras de relevo e projetos estruturais realizados em diversos pontos do município. Falta, porém, destinar recursos para a vida de quem não tem nada na vida. Ações sociais precisam ser desenvolvidas e contar com lastro financeiro do governo municipal. Não é possível sustentar um país (mesmo que o País de Mossoró) apenas com pão e circo.

A propósito, se olharmos com um pouco mais de atenção, veremos que há cada vez menos pão. O circo armado e nutrido com milhões de reais pela prefeitura na Estação das Artes Elizeu Ventania é algo de nível primeiro-mundista.

Admito que minha cidade está bonita. Tem futuro, potencial, contudo é da conhecida ordem de inúmeras outras que empurram no miolo dos munícipes o ópio das festanças e da fuzarca. Precisamos assegurar meios para oferecer o mínimo aos desvalidos, criar um programa de controle populacional de gatos e cachorros, que também passam fome e sede nesta urbe. Podemos ser melhores sob o aspecto humano, caridosos, comprometidos com o bem-estar daqueles que precisam de nós.

Isto é só um palpite; sequer um puxão de orelha. Longe de ser uma receita para a prosperidade geral. Todavia, quem sabe, represente um grito para que não percamos a boiada no precipício do egoísmo. O gado tem disso; é facilmente tangido, transformado em massa de manobra em currais eleitoreiros.

Vejam! Mais uma eleição se aproxima.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 14/06/2026 - 06:22h

Aqui há de um tudo

Por Odemirton Filho

Efeito de câmera e edição mostra o Corredor Cultural e seu entorno no dia do Pingo da Mei Dia (Foto: Realize Filmes)

Efeito de câmera e edição com o Corredor Cultural e seu entorno no dia do Pingo da Mei Dia (Foto: Realize Filmes/Arquivo/2025)

O mês de junho chegou chegando. O Pingo da Mei dia, como sempre, abriu brilhantemente os festejos juninos. O Mossoró Cidade Junina há tempos está consolidado. É uma festa bonita, a cidade, em alguns locais, fica lindamente decorada, sente-se um clima de alegria. Há quem não goste, é claro, o que devemos respeitar.

Entretanto, o que eu quero dizer, é que no tempo da minha juventude não havia tantas festividades juninas por estas bandas, pelo menos que me lembre. Nalgumas escolas e nos bairros mais afastados da cidade é que havia arraiás. Lembro que acendíamos uma pequena fogueira pra assar milho em frente da nossa casa e que preparavam algumas comidas típicas. E Só.

Contudo, festa junina como a de hoje, sinceramente, não recordo. Se havia, levei falta.

Aliás, como em toda cidade, nos tempos de minha adolescência, em Mossoró havia quase de um tudo. Porém, o que me vem à memória mais vivamente são as festas na ACDP, na AABB, no Realce e no clube do BNB. E como esquecer os grandes comícios no largo do Jumbo e da Cobal? O Potiba? Os bingos no Nogueirão?

Havia, também, a churrascaria Kancela, as noites no Meca Shopping, o burburinho do Burburinho, a pizzaria de Patrício Português, a sorveteria do Juarez e as festas no Imperial. Inesquecíveis, outrossim, são as Festas de Santa Luzia de antigamente.

O leitor chegou a prestigiar as vaquejadas do Puxaboi? Chegou a frequentar o Ferrão? Bons tempos, né?

Vale acrescentar que o carnaval na minha época de rapaz não era o forte em Mossoró. Dizem os mais velhos que carnaval bom de verdade eram os realizados na ACDP e no Ypiranga. Não posso afirmar, nem desafirmar, apenas escuto as histórias, e vejo um leve sorriso no rosto do meu pai quando fala sobre aqueles tempos.

Além disso, eu jamais poderia esquecer dos vesperais no Cine Pax, das sessões no Cine Cid e no Caiçara. Era um bocado de meninos e meninas indo assistir aos filmes de Caratê e de ação. Era bom que só andar de bicicleta no patamar da Igreja de São Vicente.

Tudo isso, são algumas de minhas lembranças. Certamente, os leitores têm as suas, pois cada um traz no peito algumas recordações, às vezes, até umas saudades. Não que eu queira voltar ao passado. Absolutamente. No entanto, para algumas pessoas relembrar o passado pode ser lenitivo para a alma. Eu, todavia, “vou viver as coisas novas que também são boas”.

E, pra finalizar o texto deste domingo, transcrevo um pedaço de uma crônica escrita pelo mestre Dorian Jorge Freire há muitos, muitos anos:

“Aqui há de um tudo. As miscigenações, lá fora temerárias, aqui são saudáveis, revelam o pluralismo democrático. Aqui todo mundo é partidário, toda gente passional, 8 ou 88. Tomamos partido em briga de galo, brigamos em dança de pastoril, eu com a Diana do cordão encarnado, você escravo da Diana do cordão azul. Aqui tudo é nosso: nossa cidade, nossa Catedral, nosso rio, nosso O Mossoroense, nosso baixo meretrício. (…) Sabe lá, Tágide minha, o que é viver em Mossoró, sem perder a perspectiva do futuro improvável, nem a saudade do passado presente”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/06/2026 - 09:52h

Depois do medo, vem o mundo

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa (Arquivo)

Arte ilustrativa (Arquivo)

A frase acima, dizem, foi escrita pela poetisa Clarice Lispector. Não sei. Na verdade, para mim pouco importa a autoria. O importante é a reflexão que dela podemos extrair. Ademais, a leitura dominical deve ter leveza, para suavizar o coração. Mas quais são os nossos medos?

Com certeza, muitos enfrentam cotidianamente os seus medos. Temos incertezas que estremecem a alma e nos fazem vacilar na caminhada. Aqui e ali, tropeçamos. Ficamos na dúvida se as veredas que desbravamos estão corretas ou, talvez, pegamos o bonde errado.

Nesta vida desembestada, neste mundo das redes sociais onde quase tudo parece perfeito, ficamos a matutar se realmente estamos a fazer o certo. Ser CLT ou um empreendedor? Estudar e/ou trabalhar? Ou, quem sabe, tentar ser um influenciador de sucesso para ganhar muito dinheiro.

Nesse turbilhão no qual vivemos, com mentiras a mancheias, muitas vezes ficamos angustiados, pois a cobrança diária para sermos o melhor naquilo que nos propormos a fazer tornou-se abusiva. Em alguns casos, metas precisam ser cumpridas, sob pena de demissão, diminuição salarial ou empecilho para ascender na carreira profissional.

Quando lecionava, inúmeros alunos e alunas me confidenciavam que estavam com ansiedade, quiçá depressivos, com medo de não conseguirem ser aprovados na OAB e não lograr êxito na profissão. Eram pessoas jovens, tristes, sem o viço e a alegria da juventude.

É claro que é preciso se esforçar para alcançar objetivos, todavia, em tudo deve haver limites, sobretudo em respeito à saúde e ao bem-estar.

Decerto, cada um de nós sabe quais são os seus medos. Há os que temem não constituir uma família ou findar os dias sem alguém ao seu lado; no entanto, há quem prefira viver sozinho em seu mundo.

Enfim, depois de vencer o medo, vem o mundo, e, como já disse Nelson Mandela, “bravo não é quem não sente medo, é quem o vence”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 07/06/2026 - 08:14h

Antes que eles cresçam

Por Affonso Romano de Sant’Anna

Arte ilustrativa (Arquivo)

Arte ilustrativa (Arquivo)

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. É que as crianças  crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença.

Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto.

Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções.

Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta   dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais  vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir  sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e Cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto. No princípio  subiam a serra ou iam à casa de  praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis.

Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo  com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio  dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos.

Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes. O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.

Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025) foi escritor, professor e cronista brasileiro

*Texto originalmente publicado dia 9 de outubro de 2011 nesta página.

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Categoria(s): Crônica / Grandes Autores e Pensadores
domingo - 07/06/2026 - 05:44h

Lá de cima

Por Bruno Ernesto

Foto extraída dos endereços @hansenecotur @rnatural

Foto extraída dos endereços @hansenecotur @rnatural

O ciclo de chuvas na região Nordeste, sem dúvida, é o período mais aguardado pelo sertanejo.

A cheia dos açudes, com as tão esperadas sangrias, é um espetáculo que jamais perderá sua beleza.

Quando criança, acompanhava meu pai nas suas aulas de campo da então Esam, hoje Ufersa, onde meu pai era professor no curso de agronomia.

Por inúmeras vezes, passávamos o dia inteiro no meio da mata; ele explicando aos alunos e eu apenas a olhar ao redor, admirado com o aguçamento de todos os meus sentidos, especialmente o olfato e a visão; sentindo o cheiro de mato recém-quebrado, e, por vezes, o cheiro de chuva, além de ficar impressionado com a imensidão das planícies ou das serras e montanhas por onde passávamos.

O que mais me impressionava naquele tempo era a visão que tinha de cima das serras. O sertão era infindável dali de cima.
Diante de tudo aquilo, um pensamento recorrente me vinha à mente: como chegamos ali? Não nós, ali reunidos; mas como o homem ali chegou?

Para mim era tudo muito confuso, distante e estranho.

Com meu pai e os inúmeros alunos dele, pude percorrer locais que pouca gente tem acesso ainda hoje.

Vi açudes, montanhas, serras, rios, córregos, cavernas, minas, salinas, dunas, mangue, muitas cidades do interior e o sertanejo. Muitos sertanejos.

Foi assim que despertei, sem saber, para um dos assuntos dos quais hoje, poucas pessoas dão importância: a historiografia.
Evidentemente que muitos se dedicaram a escrever sobre o período colonial do Brasil, especialmente da região Nordeste brasileira. Sua ocupação, exploração e expansão territorial.

Entretanto, a árdua tarefa de análise e interpretação documental é sempre desafiadora a novas escritas. Mas nada como andar pelo sertão.

Com a historiografia de um lugar, é possível traçar como se deu a ocupação territorial de qualquer lugar. Pelo menos, seu passado recente.

No caso da região Nordeste, é incalculável a quantidade de registros históricos da sua ocupação; desde a chegada dos europeus ao continente sul-americano, sendo possível traçar o seu desenvolvimento nos aspectos econômicos, sociais e políticos até a atualidade.

Um aspecto relevante nos recortes históricos, é que, como qualquer outra região do mundo, a historiografia do lugar fez-se a partir de seus habitantes, hábitos, costumes e tradições.

Entretanto, mais que a geografia e o acaso, na historiografia, a convicção dos homens também moldaram o que hoje se vê.

Embora os fatos, em si, não sejam os únicos objetos de observação e estudo, uma vez que a historiografia observa e vai muito além dos homens como únicos protagonistas, é impossível querer explorar uma temática sem que se nomine seus atores. Ainda que não se possa fazê-la, exclusivamente sobre os mesmos.

No caso do sertanejo, basta buscar um pouco de nossa própria história familiar para constatarmos que a grande maioria de nos somos oriundos do interior.

Muitos de nós tem uma história ou tem registrado na memória as visitas de familiares, especialmente os avós, que moram em pequenas cidades do interior.

Talvez sejam as melhores recordações que muitos de nós temos da infância.

E nesses tempos de chuvas no nosso sertão, mais uma vez essas recordações se avivam em nossas mentes e nos faz reviver aquele bom e feliz tempo, renovando a vida com as cheias e sangrias dos açudes, revigorando a coragem e convicção do sertanejo.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
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