Por Bruno Ernesto
Nada melhor que acordar bem cedo num domingo qualquer, esquentar água e despejar sobre um café moído em flagrante, mexer três ovos caipiras, assar uma lasca de queijo de coalho bem dessorado, uma banana em rodelas com mel de abelha e canela; outra com mel de engenho lá de nós. Se tudo for preparado no fogão a lenha, melhor ainda.
Aquela mistura de cheiros do cumaru e da imburana estalando, exsudando a seiva, enquanto queimam agarrados no fogão, tal qual um casal apaixonado; perfuma, inebria e extasia onde o seu cheiro alcançar. E vai longe.
Mas, falemos do café; pois num certo momento da vida, tomar uma xícara de café deixa de ser hábito aparentemente banal, e passa a ter um outro significado, outro contexto.
Se antes pegávamos um pacote de café na prateleira olhando apenas o preço, e não dávamos o devido valor, agíamos observando apenas um conceito da teoria econômica Valor-Preço, onde o que importava era apenas a variável nominal, o número, a quantidade de dinheiro que você estaria disposto a pagar por ele. Apenas isto.
Grosso modo, é aí onde Adam Smith diz que a mão invisível do mercado, com a oferta e a procura, vira um enxadrista.
Já o Valor-Utilidade, que qualquer economista diplomado – em tese – deve saber de cor, o que se paga é determinado pela satisfação pessoal com a aquisição daquele produto. Ou seja, caro ou barato, quem compra o faz pela satisfação pessoal.
Aliás, como falamos de um café de boa qualidade, diria que você pagaria um bom valor de utilidade para degustar xícara de um grão Catucaí amarelo, de torra média, com nota sensorial floral, caju e licoroso, acompanhando por uma lasca daquele queijo de coalho bem dessorado, ou queijo de manteiga feito pelo Galego da Serra, lá de Tenente Larentino Cruz.
Com todo respeito – convenhamos – há coisas na vida que não precisam do aval da academia. E uma delas, é que todo brasileiro com mais de quarenta anos de idade, de uma certa forma, compulsoriamente também virou economista.
Naquele tempo, do dôtô em medicina, ao simples zelador do cemitério, todos sabiam que tudo estava pela hora da morte, e que aquele café que há duas horas havia sido pego na prateleira do supermercado a um preço, na mesa de casa, já era outro bem maior.
E isso tudo, caro leitor, pude extrair de uma conversa travada entre dois senhores distintos durante um evento em alusão aos cinquenta anos da Noite da Cultura anteontem, parceria cultural entre a Loja Maçônica Jerônimo Rosado e Coleção Mossoroense, selo editorial criado por Vingt-Un Rosado em 1949, e que agora é conduzido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró, que foi convidado a continuar com a parceria e reafirmou o seu compromisso com a preservação da cultura mossoroense.
Entre uma conversa e outra, também disseram em alto e bom som perante os ilustres convidados – muitos -, que era irônico ver naquela mesma sessão alguém que há poucas semanas esnobara publicamente o Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró, e a própria Coleção Mossoroense, ao não dar o devido Valor-Utilidade, mas quis os frutos e beber do café da histórica comemoração do Jubileu de Ouro da Noite da Cultura.
– Visivelmente desambientado! Mas viu foi a reafirmação da parceria umbilical, um amálgama, entre o Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró e a Noite da Cultura.
Disse um dos distintos senhores, enquanto bebericava um café na Sala dos Passos Perdidos.
Como diria Nelson Rodrigues, “Não há admiração mais deliciosa do que a do inimigo”, e se for acompanhado de uma generosa xícara de Catucaí amarelo recém moído, melhor ainda.
Lembre-se, caro leitor: assim como na economia, na história, tudo tem um valor e um preço a se pagar.
Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog















































