quinta-feira - 02/04/2020 - 07:38h
Crônica

O mundo virou Paris?

Por François Silvestre

Dizia Newton Navarro, pintor de cajus sem travo, poeta de palavras e gestos, que em Paris todos os dias eram Domingo.

Completava aquele verso de Valfran de Queiroz, definindo Paris: “Uma maçã no meio do caminho”.

Pois bem. O mundo virou uma Paris opaca, a negar o apodo de Cidade Luz. Por que essa comparação?

Porque nesse tempo de isolamento, confinamento e distâncias você não sabe que dia é da semana, ao acordar.

Todos os dias são Domingo.

Assim mesmo no singular, posto que são dias igualmente chatos. E o Domingo só é alegre para as crianças. Para os vividos o Domingo é apenas o anúncio da Segunda-Feira.

Agora, nem isso. Porque a Segunda não vem. E da Terça-Feira em diante todos os dias sumiram da lembrança ao amanhecer do dia. E na televisão a novidade é a mesma do dia anterior.

Apelo a Albert Camus, “com tanto sol armazenado na memória como pude apostar no absurdo”?

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Categoria(s): Política
quinta-feira - 02/04/2020 - 04:38h
Em casa

Vivo

Meu isolamento por livre arbítrio passa dos 15 dias.

Saídas são episódicas para reposição de mantimentos e outras necessidades, com escassas interlocuções.Nada de BBB, Netflix, bater panelas ou vomitar xingamentos em redes sociais.

Não vi reprise de qualquer jogo e tenho trabalhado muito.

Leitura, rádio, documentários e aulas por diletantismo no YouTube, videoconferências por labor, muitas e muitas horas sem ouvir uma voz, nenhum sintoma de angústia ou depressão.

Não vi fantasmas, não desejei morrer nem fiquei indiferente às dores alheias.

Estou vivo.

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 29/03/2020 - 11:52h

De sintomas e paranoia

Pro François Silvestre

A mulher liga para um amigo médico e informa:

“Carlinhos amanheceu com o dedão do pé muito vermelho e inchado”…

O amigo não deixou ela terminar, interrompendo-a, e falou:

“É. Já foi reportado alguns casos do vírus que provoca inchaço e vermelhidão nos membros inferiores”…

Agora foi ela que o interrompeu:

“Não, doutor, ele tava jogando bola no quintal e deu um trupicão que arrancou a banda da unha do dedão. Quero uma pomada ou qualquer coisa pra aliviar”…

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/03/2020 - 08:10h

Minha sabiá-laranjeira

Por Paulo Menezes

Há quarenta e três anos, quando estava na construção do alicerce da minha morada, plantei no quintal da casa um caroço de manga e uma castanha de caju como sementes para o nascimento de uma mangueira e um cajueiro. Elas brotaram, se fizeram árvores e hoje me dão além de uma sombra grandiosa e fria, nesse clima tão quente, os frutos de delicioso sabor.

Há um ditado que diz: não aprisione pássaros, plante uma árvore que eles vêm. Pois bem. Hoje os frutos e a sombra, apesar de importantes, são para mim secundários.O grande valor que hoje atribuo à mangueira e ao cajueiro é que eles servem de abrigo, do alvorecer ao sol poente, com voos alternados de idas e vindas, a presença constante de uma sabiá-laranjeira que com seu belo canto, flauteado, faz do meu quintal um local extremamente bucólico e agradável.

Agrega-se a isso o zumbir das abelhas, o gorjeio de galos-de-campina, canários-da-terra, bem-ti-vis, rouxinóis e até os barulhentos e inconvenientes pardais que vêm se alimentar do xerém de milho que coloco para atraí-los.

Há também a visita frequente de algumas espécies de beija-flores que vêm sugar o néctar de algumas roseiras existentes nos canteiros.

É  nesse ambiente urbano em que a natureza está tão presente que tenho conseguido “tirar de letra” as preocupações cotidianas dentre as quais se inclui, no presente momento, o isolamento social da quarentena por conta do coronavírus.

Com essa sinfonia de pássaros e o manejo das jandaíras, além de não sentir o tempo passar ainda me livro do noticiário televisivo com suas veiculações voltadas exclusivamente para a tragédia que ora apavora todo o planeta terra.

Como diz o Zeca Pagodinho, é desse modo que vou vivendo e deixando a vida me levar.

Paulo Menezes é apicultor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
sábado - 21/03/2020 - 21:36h
Memória

Vá lavar as mãos

Não estou tendo maiores dificuldades para lavar as mãos várias vezes ao dia.

Essa mania exercito desde criança.

“Vá lavar as mãos. Só senta à mesa com as mãos lavadas”.

“Já lavou as mãos?”

Parece que ouço Minha Santa Mãezinha, Dona Maura.

Tô bem asseadinho, viu?

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Categoria(s): Crônica
sexta-feira - 20/03/2020 - 08:42h
Brasil

Dois analfabetos ignorantes

Por François Silvestre

Bolsonaro e seu Raimundo Cocada. Bolsonaro nunca leu um livro, não sabe o que é filosofia, nem teologia. Duvida dos movimentos dos astros e não acredita que o homem foi à lua. Eleito, não sabe sair da campanha e mantém o país em pastoril permanente; ele numa barraca, a do Azul, arrematando num leilão maluco e provocando a outra barraca, a do Encarnado, que incompetentemente aceita o jogo bruto.

Seu Raimundo Cocada também nunca pegou num livro. Não acredita que o homem foi à lua, nem que a terra gira. “Tudo mentira. Se a terra rodasse, eu acordava cedinho e pegava café barato quando São Paulo passasse puraqui”. E ainda completa, “A lua né grande não. É do tamãe duma arupemba“.

Ele é um dos últimos, se não o último, que ainda carrega água para casa num jumentinho com ancoretas. Vai todo dia à cacimba, na fonte da Marizeira.

Analfabeto e ignorante, igualmente ao presidente do Brasil. Mas há um adjetivo dessa ignorância aboletado em Bolsonaro, que não habita em seu Raimundo.

Seu Raimundo não é irresponsável. Ele torce por sua barraca, no pastoril da Padroeira. Briga, arremata, desfaz dos torcedores da outra barraca, mas passada a festa, a amizade volta, o convívio normal.

Durante a festa, nem se falam.

Quando informaram a ele sobre essa epidemia, ele passou a levar para a cacimba um pedaço de sabão. Antes de abastecer as ancoretas ele lava as mãos com sabão. quando chega em casa, repete o gesto. E ainda obriga todos da casa a fazerem o mesmo, após acordarem.

Seu Raimundo é analfabeto e ignorante, mas, diferentemente de Bolsonaro, não é irresponsável.

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Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
terça-feira - 17/03/2020 - 15:46h
Confinado

Vivo

Tudo que eu tenho em casa, uso.

Nada é acessório, fica encostado ou é supérfluo.

Imprescindíveis? Não.

Apenas úteis.

Imprescindível é gente.

Nesse confinamento, nenhuma angústia.

Preocupo-me com o mundo lá fora, com os meus e quem não conheço.

Aqui sou minimalista.

Sobrevivo.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/03/2020 - 10:56h

Uma saudade a mais

Por Paulo Menezes

Há 18 anos, Antônio Menezes, o Tota, meu querido pai, partiu desta para outra dimensão. Nesse sábado (7 de março de 2020), completaria 102 anos. Viveu 84, bem vividos, com grande intensidade.

Feneceu deixando um legado aos 7 filhos, qual seja, um pai à toda hora presente, criando sua prole com a dificuldade de um orçamento apertado, mas dando aos filhos a educação necessária e um exemplo de vida.

Dele, guardo inúmeras e boas recordações, pois além do convívio doméstico, foi com ele que a partir dos 14 anos iniciei minha vida laboral na empresa “Menezes & Irmão”. Depois, o auxiliei como motorista do Jeep Toyota em nossas viagens semanais à salina de Jorge Moyse França, que ele gerenciava.

Antônio Menezes (Foto: arquivo da família)

O ajudei também na loja “A Preferida”, tendo sido ele o primeiro agente da Loteria Federal e Esportiva da cidade.

Nas férias escolares, conduzia toda a família para a encantadora praia de Tibau. Ali, no fulgor da juventude, vivi um período mágico de minha vida, construindo memórias afetivas tão profundas que nem o tempo conseguiu apagar.

O Tota, era amante das vaquejadas, e eu, pra variar, apesar de não gostar do esporte, estava sempre ao seu lado. Fui também seu companheiro das inenarráveis caçadas de nambu e avoete. Na verdade, nosso passatempo era mais um acampamento de amigos do que a caça propriamente dita.

Para ser franco, deixamos poucas nambus e avoetes viúvas em nossos finais de semana em que passávamos arranchados por esses sertões afora, sempre protegidos pela sombra de um juazeiro copado, uma catingueira florida ou uma oiticica de folhas largas e fria.

Chegávamos sábado à tarde, armávamos nosso rancho, uma lona de 10 x 8 metros, banheiro adaptado numa lata de querosene Jacaré, com direito a chuveiro e a um banho frio e reparador, após a caminhada matinal na caatinga verdejante e esplendorosa com o início da quadra chuvosa.

Estirávamos as redes, abríamos a garrafa de um bom vinho e o papo rolava noite adentro numa confraria em que limpávamos nossa mente do estresse da cidade grande, conturbada e violenta. Manhãzinha cedo, parafraseando o poeta e repentista Ivanildo Vila Nova, acordávamos com a natureza em festa, “pois no sertão quando rompe a alvorada, na floresta desperta a passarada, canta uma canção tão afinada que parece uma orquestra universal, num concerto de música diferente da orquestra sinfônica que Deus fez”.

Tendo como componentes o pio admirável das inhambus xintã e chororó, o canto sonoro das sabiás, galos de campina e corrupiões, o arrulho soturno da juriti, o cantar melancólico do anu-branco, cadenciado da rolinha fogo-apagou, belo e estridente da seriema, deixando a todos nós extasiados com tanta beleza.

Entre os participantes do lazer semanal havia um pescador arremessando a tarrafa e trazendo para a margem, do açude, curimatã, piau, tilápia e tucanaré, que cozidos ou fritos no fogo de chão, faziam parte do cardápio do almoço dominical. Final da tarde, hora de desarmar a barraca e regressar para nos prepararmos para a nova jornada na semana seguinte.

Dezoito anos se passaram de sua partida e em mim sua lembrança continua forte e muito presente.

Agora, com a chegada das chuvas e o prenúncio de um bom inverno, o vejo na calçada, início da noite, cadeira de balanço, rádio sobre o colo, olhar atento para os últimos raios do sol poente em fogo, afirmando:

– Hoje só me recolho quando o relâmpago “cortar” o céu do sertão.

Tempos bons. Saudades. Muita.

Paulo Menezes é apicultor

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 01/03/2020 - 12:30h

Carta às minhas filhas Lana e Patrícia

Por Inácio Augusto de Almeida

Eu tenho mania de criar aforismos. E já criei prá mais de 500 deles. Tem um que eu gosto muito.

Tempo é uma questão de preferência. A gente sempre tem tempo para as coisas que gosta.

Este pensamento nasceu da observação do comportamento das pessoas. Eu nunca vi um jogador de baralho sem tempo para o jogo, um corrupto sem tempo para maracutaias, um boêmio sem tempo para a bebida, um bom estudante sem tempo para a leitura. E por aí vai.

Mas a vida, minhas filhas, não se resume a fazer apenas o que se gosta. O sucesso está diretamente ligado à nossa capacidade de fazer, também, as coisas que não gostamos. Isto porque há uma tendência no ser humano, tendência natural, de buscar o prazer em tudo.

É bom, claro que é bom, mas é preciso ter consciência de que nem sempre nos é permitido só fazer aquilo que gostamos.

Aí entra uma coisa chamada disciplina.  Pois é através da disciplina que vencemos nossas paixões e, consequentemente, submetemos nossa vontade ao objetivo pré-determinado.

É preciso então separar um pouco do nosso tempo para as coisas que PENSAMOS que não gostamos, quando na realidade nós temos é MEDO de realizar estas coisas. Medo do desconhecido, medo de não sermos bem sucedidos, medo do medo. Medo que muitas vezes  é colocado para que nos tornemos escravos de determinadas situações.

Sabe filhas, nem sei por que estou falando isto para vocês. É que às vezes eu sinto vontade de externar estes meus pensamentos. E como gosto de conversar com vocês…

Mudando de assunto.

No ano de 1964 ia muito ao Rio. Tinha um irmão meu, o Laerson, que morava num hotelzinho bem perto do Palácio do Catete. Em frente ao Palácio havia um barzinho-restaurante que, aos sábados, servia uma feijoada muito boa.

Do barzinho a gente saía caminhando até o Largo do Machado, onde havia várias sinucas. Perto do hotel havia também um cinema, o Bruni Flamengo, se não me engano. Foi lá que vibrei com o James Bond, na época o grande sucesso de bilheteria.

Eu conheço esta área muito bem. O Rio é uma cidade linda. Uma cidade desenhada para o desfrute da terceira idade, já que a cada dia a pessoa pode inventar um passeio, tantas são as opções de lazer. Lazer, o Rio é a Cidade do Lazer, nada nessa cidade lembra trabalho.

Seu pai por lutar pelas crianças mais pobres e combater a corrupção em cidades do Nordeste terminou condenado a pagar danos morais a quem está condenado por prática de corrupção. O meu crime foi prática de calúnia, injúria e difamação, mesmo sem nunca ter dito uma só mentira.

O dinheiro que seria usado nas compras de Natal teve que ser destinado ao pagamento dos danos morais. Pior seria, minhas filhas se eu tivesse feito uma retratação. No Natal deste ano vocês ganharão os seus tênis e as suas novas mochilas.

Não consigo esquecer vocês gritando “a polícia veio prender o papai”, quando um agente de polícia bateu tão forte no portão e gritou tão alto POLÍCIA para me entregar uma simples citação. O objetivo era causar escândalo e assustar a todos. Vocês ficaram traumatizadas. Tão traumatizadas que toda vez que alguém bate na porta ainda pensam que é a polícia que vem buscar papai.

Peço perdão a vocês pelo que aconteceu. Eu poderia ter ficado caladinho ante a corrupção. Tão caladinho como os outros.

Sigo para uma hospitalização em Natal. Vou tentar o tratamento de uma doença que desconheço, mas que imagino ser grave. Deus sabe sempre o que é melhor para nós.

Estudem, estudem sempre. E nunca se esqueçam de que quem estuda tem tudo, quem não estuda não tem nada. Quem não estuda não tem nada, mesmo que consiga dinheiro através de meios espúrios. A história está cheia de corruptos que sustentam filhos e genros malandros.

Do seu pai,

Inácio.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 23/02/2020 - 07:48h

Urso de Carnaval

Por Odemirton Filho

São apenas crianças e adolescentes que saem às ruas a procura de diversão.

Alguns andam com os pés descalços, roupas rasgadas e fantasiados com qualquer retalho de pano.

Às escondidas, longe do olhar dos pais, percorrem as ruas e avenidas das cidades, sem hora para voltar para casa, sendo costumeiro adentrar em alguns estabelecimentos comerciais.

O que querem é brincar e, quem sabe, conseguir algum dinheiro para comprar alguma “besteira”.

Há, talvez, os mais afoitos que levam escondido um pouco de bebida alcoólica.

Muitas vezes voltam para casa sob “chineladas” dos pais que não gostam da brincadeira.

À frente da trupe, se é que se pode chamar assim, sempre existe aquele mais desinibido, que não se preocupa em sair pulando e cantando, com as mãos estendidas, pedindo algum trocado.

É o “urso”, que causa medo em algumas crianças de tenra idade.

Não é incomum que muitos faltem à escola ou “gazeiem” as aulas a fim de, juntamente com os amigos, “desfilarem” pelas ruas e avenidas da cidade.

Gostemos ou não da “zoada” de seus instrumentos musicais improvisados, na maioria das vezes latas vazias, os ursos fazem parte do cotidiano carnavalesco.

Dizem os historiadores que a brincadeira surgiu pelas bandas do estado de Pernambuco, tendo origem nos ciganos da Europa que percorriam a cidade com seus animais presos numa corrente, que dançavam de porta em porta em troca de algumas moedas.

O fato que nada é mais característico no período que antecede os dias de carnaval do que a presença dos ursos nas ruas.

Contudo, nos dias de hoje, poucos são os ursos que vemos pela cidade, como outrora.

Atualmente o carnaval é uma mistura de sons e ritmos.

Os mais saudosos dizem que em tempos passados o carnaval era melhor, pois eram realizados nos clubes, ao som das marchinhas, essas, verdadeiramente, típicas do período momesco.

Hoje, ao contrário, brinca-se o carnaval ao som de vários ritmos, seja lá qual for.

Não importa.

Cada época e fase da vida tem seu brilho e alegria.

Que o folião brinque à sua maneira, inclusive no balanço da rede “solasol”.

Um carnaval de paz, caro leitor.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
sábado - 08/02/2020 - 08:32h
Eu

Uma reflexão sobre amigos e amizade

Não quero muitos amigos; quero amigos.

Se forem muitos, ótimo.

Se não, já estou satisfeito com os que tenho.

São bençãos em minha vida.

Amém.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/01/2020 - 07:28h

Mossoró não me ama

Por Inácio Augusto de Almeida

Eu te conheci, Mossoró, quando ainda eras pequena e eu um menino mal saído das fraldas. Banhei-me no teu rio, pisei teu solo, cresci amando o Potiguar.

E vi tuas ruas de areia que levantavam poeira com o vento vespertino das tuas tardes quentes. E te amei, Mossoró.

À noite ouvi tuas histórias contadas por Fernando, Lopes, Luís Bandeirantes. Estes teus filhos legítimos me ensinaram a te amar. Eu te vi chuvosa e seca, e tu sempre me parecias linda.Com nuvens negras ou com sol radiante, tu, para mim, eras sempre como uma noiva. E assim, eu aprendi a te amar, a te querer bem.

E tu me traíste, Mossoró. Nunca vistes o amor que eu sentia e sinto por ti. Com Mário de Almeida e Bernardo de Almeida varei as tuas madrugadas. Mário, que de tanto te amar, ao falar de ti, chorava.

Preferistes dar teu reconhecimento a outra pessoa. Uma pessoa que nunca sequer olhou para ti. Por que, Mossoró? Por quê?

Eu e tantos outros que te amamos fomos postergados, esquecidos, feridos naquilo que temos de mais precioso: O amor que sentimos por ti. Por que, Mossoró? Por quê?

Que estarão a dizer os teus outros filhos? Os que te adoram tanto quanto eu, que de ti sou apenas filho adotivo? E isto, à tua revelia…

Talvez, minha querida, ela nem saiba a tua localização no mapa do Brasil. Talvez, minha cidade amada, ela te confunda com uma cidade qualquer do interior do Rio Grande do Sul, ou, quem sabe, até mesmo com uma cidade dos Estados Unidos. Não, não fiques admirada, não penses que é exagero meu; engenheira química nem sempre sabe muito de geografia.

Teus filhos estão sentidos, muito sentidos.

Mas nós continuaremos a te amar. O nosso amor por ti é mais forte do que a loucura que cometeste. E continuaremos sempre a te amar.

Mas, por favor, em respeito à nossa dor, não cometas outras loucuras iguais a esta.

Graça Foster pode ser tudo, menos tua filha.

Como pode alguém ser filha de quem nem sequer sabia a existência?

Eu e todos os teus filhos continuaremos a te amar e a te querer muito, muito mesmo.

Eu te amo, Mossoró.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 19/01/2020 - 05:40h

Tibau (uma imensa saudade)

Por Paulo Menezes

Estou hoje, início de 2020, na varanda do meu “cantinho” na Praia do Meio em Natal, com uma vista privilegiada da ponte Newton Navarro, estuário do rio Potengi, dunas de Genipabu e das águas verde-azuladas do mar.

Curto uma boa leitura e sinto suave brisa numa rede branca com lençol bastante usado, bem macio, cheirando a guardado. A visão panorâmica de uma beleza sem par do majestoso oceano sempre me leva à Tibau dos meus sonhos. Esteja eu onde estiver.

Pois Tibau foi e sempre será a primeira sem segunda, musa dos meus encantos, razão maior dos meus devaneios.

De repente, incontinenti, surgem algumas interrogações motivadas pela grande desolação que senti. Por onde andam as falésias que na minha juventude eram conhecidas por “morros dos urubus” ?

E os pingas d’água doce?

Cadê as areias coloridas ?

E as redes três maio arrastando milhares de peixes e camarões para a praia nas primeiras chuvas de janeiro?

Qual terá sido a causa de não mais serem vistos os papagaios de papel que ao sabor dos ventos coloriam o céu e faziam a festa da criançada?

Para onde foram as velas brancas da mais frágil das embarcações?

Por onde andarão os vendedores de grude e de gelé?

Ainda há o galanteio das serenatas?

E as tertúlias no início das noites?

Os forrós no final delas?

É verdade que foram substituídos pelo barulho ensurdecedor e infernal dos “paredões de som?”

As reuniões no morrinho? Será que ele ainda existe?

As inúmeras mesas com panos verdes onde rolavam disputadas partidas de pif-paf ainda estão sendo formadas?

E as “peladas” antes do banho de mar?

Por que sumiram da areia branca da praia os caranguejos grauçás com seus deslocamentos laterais à procura de suas moradas?

A misteriosa “Furna da Onça” foi aterrada?

E os coqueirais, porque diminuíram tanto?

Será que foi o motivo do desaparecimento das graúnas com seus maviosos cantos nas frias madrugadas?

A luta para acabar com tanta coisa boa de um passado ditoso e feliz na linda praia tem sido grande. Vão terminar conseguindo. E para quem viveu como eu os anos dourados da antiga e encantadora vila, verdade seja dita: sente falta e saudade de tudo isso.

Sei que faz parte do progresso, mas até a areia fina e fria em que pisávamos nas caminhadas noturnas, trajeto de nossas inenarráveis serestas, foi substituída pela tarja negra e quente do asfalto.

Resistindo, mesmo assim um pouco desgastada pelas altas cíclicas das marés e intempéries inexoráveis, restou apenas a “Pedra do Chapéu”, símbolo maior e cartão postal da orla esplendorosa.

Apesar disso, Tibau continua sendo minha querida e preferida praia. As lembranças aqui relatadas vêm acompanhadas de uma imensa saudade. Muita. Incomensurável. Prazerosa.

Paulo Menezes é apicultor

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domingo - 12/01/2020 - 08:18h

Ano novo, velhas promessas

Por Odemirton Filho

Desde que me entendo por gente escuto a mesma cantilena político-eleitoral.

Entra ano e sai ano e as promessas são as de sempre.

Quais?

Os professores serão valorizados, terão dignas condições de trabalho e os salários serão melhores.

Na saúde não faltarão remédios, leitos hospitalares e insumos básicos para atender bem a população.

A segurança pública será dotada de equipamentos e armamentos para que possa desenvolver a contento o patrulhamento ostensivo e repressivo.

Eis, somente, algumas promessas.

Assim, já sabemos de cor e salteado, para usar uma linguagem coloquial, a retórica de alguns candidatos no próximo ano: irei lutar por saúde, educação e segurança. É a gravação no mesmo disco de vinil.

Não se observa qualquer mudança. É algo cansativo. Enfadonho.

Há tempos que a sociedade brasileira escuta a mesma conversa fiada. Todavia, não se vislumbra, de forma efetiva, qualquer mudança significativa.

São os mesmos vícios e as mesmas práticas. E a culpa, diga-se, não é somente dos políticos.

É, de igual modo, de alguns agentes públicos e do cidadão/eleitor.

Com efeito, o que se presencia, dia a dia, são escândalos de corrupção, em todos os níveis do Poder.

Não se pode negar que existem aqueles que têm bons propósitos, mas são engolfados por um sistema devidamente estruturado para manter o status quo.

O objetivo é levar vantagem. O jeitinho brasileiro é lugar-comum. Neste país ser “esperto” é a atitude correta. Quem assim não age é tachado de bobo ou de querer ser “santo”.

Quanto tempo ainda vamos presenciar a incompetência administrativa e a corrupção?

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 05/01/2020 - 09:05h

Para tentar entender os homens

Por Inácio Augusto de Almeida

No bar do Wellington, Lopes, Sandoval e Izaías continuavam tomando cerveja. A noite já adiantada. No céu, as estrelas formavam uma linda colcha de retalhos. Apenas o barulho do motor da geladeira era ouvido, quando o Lopes, fechando a mão, pigarreou. E, respirando fundo, começou:

– E estava Kung Fu-tse sentado num banquinho de três pernas, quietinho, meditando sobre os homens e suas relações, tanto para com a família como para com o estado, buscando uma definição, quando sem mais nem menos adentra ao pequeno recinto um brutamonte, que vendo aquele homem franzino, resolve escolhê-lo para mostrar a todos o quanto era valente.

E espanca Kung Fu-tse.Ainda no chão, Kung Fu-tse não demonstra estar surpreso com aquela atitude. Entende o ato de covardia. Só não consegue compreender uma coisa. E pergunta ao brutamonte:

– Por que fizestes isto comigo? Eu nunca te fiz o bem.

Sem entender, o brutamonte renova a agressão.

Kung Fu-tse renova a pergunta:

– Por que fazes isto comigo. Quando eu te fiz o bem?

O brutamonte apenas gargalha. Sente-se vitorioso, um mandarim. E na sua ignorância festeja a vitória.

Esta pequena história aconteceu há mais ou menos 2500 anos. Sim, cinco séculos antes do nascimento de Cristo. E que grande lição nos deixou Kung Fu-tse.

Lopes, o grande Boêmio (faz questão da maiúscula no boêmio), terminou de falar e ficou a analisar a reação dos seus ouvintes. Izaías, apenas coçou a cabeça. Sandoval foi que arriscou um palpite de uma forma meio tímida.

– Lopes, este Kung Fu-tse não é o grande filósofo Confúcio?

– Aí, inteligência brilhante. Eu sabia que você conhecia o verdadeiro nome do maior pensador que já passou na face da terra.

Izaías, meio tímido, para não ficar calado, arrisca:

– Lopes, e a história? As pancadas que ele levou do brutamonte?

Lopes abriu o seu largo sorriso. E virando-se para Wellington, pede outra cerveja. É preciso fazer o suspense, e nisto o grande Boêmio é imbatível. Encheu o copo, respirou fundo, bebeu um gole e resolveu continuar.

– Izaías, não me diga que você estava pensando que eu estava falando do Kung Fu daquele seriado da TV. Por favor…

– Não, Lopes, eu sabia que era do Confúcio que você falava.

Sandoval riu. Um riso discreto, mas riu. Lopes observou o riso do Sandoval e muito bem humorado, continuou:

– Vou repetir as palavras do Kung Fu-tse.

Sandoval não agüentou e explodiu:

– Lopes, deixa de qualiragem. Chama o homem de Confúcio mesmo.

Izaías, enchendo-se de moral, emendou:

– Aposto como o Lopes aprendeu hoje o nome do homem e fica bancando o erudito.

O bom Boêmio passa a mão por cima dos olhos, descendo por todo o rosto até ficar apertando o queixo. No gesto mostrava que buscava o autocontrole.

– Então os meus amigos não entenderam a moral da história?

Sandoval, que já estava com mais de seis cervejas na cabeça, não agüentou:

– Deixa de ser besta, Lopes. Para com esta cascaria. Vai, diz logo o que tem de dizer.

– É, fala logo, disse Izaías.

– Não entenderam. Não entenderam. Mas eu vou trocar em miúdos.

Wellington ria a não mais poder. Pela pose do Lopes e por estar entendendo bulhufas daquela lengalenga do Lopes.

– O que acontece se alguém a quem nunca vimos nos agride?

– Ficamos surpresos, apressou-se Izaías.

– Pronto. Aí está a resposta.

– Pera aí, Lopes. Mas ele disse, Confúcio disse. Aliás, você disse que Confúcio disse que nunca tinha feito bem ao brutamonte. Ora, se ele tivesse feito o bem, por que o homem iria agredi-lo?

Sandoval ouviu a argumentação do Izaías e baixou a cabeça. Lopes percebeu que Sandoval já tinha alcançado o sentido da história.

E foi com ar professoral, falando mais do que pausadamente, que o grande Boêmio, não sem antes colocar a mão no ombro do Izaías, disse:

– Voltemos às palavras do grande Confúcio. Prestemos atenção no que ele disse: “POR QUE ME AGRIDES SE EU NUNCA TE FIZ O BEM?”

O bom Boêmio fez a pausa, Sandoval já não agüentava o riso preso.

– Você tem quantos anos, Izaías?

– Minha idade?

– Claro.

– Vinte anos.

– É por isso. Claro que é por isso. Quando você tiver quarenta, cinquenta, você não pedirá que lhe expliquem nada.

– Lopes, eu acho é que você não sabe explicar a fala do Confúcio.

Os olhos negros ficaram bem abertos, as sobrancelhas levantadas, o dedo em riste. Lopes era o retrato da indignação. Sandoval já não conseguia prender o riso.

– Quando você tiver os cabelos brancos, menino, vai saber o que acontece quando se faz o bem a alguém. O que se deve esperar. Entendeu agora a surpresa do Confúcio? Confúcio, claro, não é assim que vocês querem que eu chame o Kung Fu-tse. Mas não é por isso que devemos deixar de fazer o bem. Não devemos é esperar gratidão. Já a ingratidão, esta não deve causar surpresa a ninguém.

Sandoval parou de rir. Izaías começou a iluminar o rosto. E Wellington mostrou a sua dentadura mais do que branca. Aliás, a única coisa que tinha de branco, além da alma.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/12/2019 - 08:20h

Desabafo

Por Inácio Augusto de Almeida

Ah, minha cara amiga. Ah, minha adorável e paciente amiga.

E você me viu neste banco de praça.

E viu o meu desânimo.

É que tem dia que bate uma dor mais doída, daquela que vai cortando devagarzinho, moendo, como se estivesse nos esmagando com prazer, sadicamente. Dor que nos vai transformando num sei lá, como se somente o vazio ficasse dentro de nós.

E sentimos o cansaço da vida, a revolta dos julgamentos em que a defesa foi negada. Somente um gosto amargo fica em nossa boca.Talvez estejamos cansados do caminhar sem norte. Ou, talvez, quem sabe, tornou-se entediante o eterno assistir ao crescimento dos maus.

E por que isto sempre acontece? Por que o final é sempre o mesmo?

Atente minha cara amiga, atente para o fato dos maus sempre agirem em bando, enquanto que o bom sempre está sozinho, isolado.

Veja os super-heróis, minha amiga. Sempre sozinhos. Ah, o Batman e o Robin? Certo, mas viu o que os maus falam da dupla dinâmica?…

A realidade é que os maus se unem contra o bom. E os bons não se unem para combater o mau. Não, não estou me referindo à eterna luta entre o bem e o mal, não, não. Falo da silenciosa, às vezes, nem tanto silenciosa guerra não declarada dos maus contra o bom. Bom, sim, pois os maus na sua grande covardia selecionam os bons um a um, para destruí-los.

Com toda a certeza inspiram-se nas hienas. Talvez por isto vivam sempre a mostrar os dentes, como se estivessem rindo.

E assim vamos indo, buscando consolo na religião ou fantasiando a realidade, sonhando com um ajuste de contas que, sabemos, jamais acontecerá.

Na televisão mostram um assaltante de celular. Um tipo cuja imagem deixa claro tratar-se de uma vítima do nanismo famélico. E durante mais de 80 segundos este assunto, assalto de um celular é mostrado de forma debochada pelo apresentador do telejornal.

Engraçado, este mesmo telejornal nunca falou nada do caso dos corruptos, que condenados por peculato e corrupção, recorreram e conseguiram continuar exercendo cargos eletivos, fazendo licitações, votando leis e aprovando orçamentos.

E assim seguimos nós, assistindo a este eterno crescimento dos que se locupletam, dos que se cevam com o dinheiro arrancado sob a forma de impostos de um povo que não tem o que comer.

Será minha amiga, que Deus tirou umas longas e merecidas férias?

Será?

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 08/12/2019 - 08:30h

Nossas culpas

Por Inácio Augusto de Almeida

Vivemos assustados. Clamamos pela tolerância zero como forma de inibir a delinqüência. Gradeamos as nossas casas e mantemos nossos filhos presos nos jogos televisivos.

Perdemos o direito de ir e vir.

Pagamos o preço da substituição da fraternidade pelo egoísmo.

Trocamos o bom gosto pelo exibicionismo, a beleza pela utilidade, a cultura pela riqueza. Só nos interessa o triunfo do materialismo e da ciência. Importamo-nos muito pouco com a religião e a arte. Arte que desintegramos em manias e maneirismos.Buscamos a riqueza pela riqueza e nos esquecemos de que a riqueza vem e a paz se vai. O corpo prospera, mas a alma decai. Porque a riqueza pela riqueza equivale a perda da honra, do senso de beleza.

Transformamo-nos em amontoadores de coisas, nos ocupamos primordialmente em transferir dinheiro alheio para o nosso bolso.

Vivemos assustados. Clamamos pela tolerância zero.

Pregamos ética, mas só praticamos a ética que nos é conveniente.

Condenamos o egoísmo alheio e nos esquecemos de que a amizade suplanta a filosofia, e as crianças nos tocam a alma com a música mais profunda que todas as sinfonias.

Um dia descobriremos que os homens não são máquinas.

Neste dia, não mais viveremos assustados, não mais clamaremos por tolerância zero. E transformaremos as grades de nossas casas em balanços onde as crianças, risonhas, sentirão a brisa da tarde num parque de diversão, livres de qualquer medo. E prezaremos mais o aperfeiçoamento da vida do que a vitória na vida.

Se hoje as nossas cidades já não possuem alma, amanhã seremos nós que também não mais teremos alma.

Troquemos a nossa montanha de egoísmo, a nossa fraternidade de vitrine, por um grão de humildade, por um pingo de amor ao próximo.

Já é hora de começarmos a reconciliação maior, única maneira de acabarmos com a violência.

E esta reconciliação plena começa dentro de nós mesmos.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
quarta-feira - 27/11/2019 - 09:04h
Meu mundo

Estou muito bem

Algumas pessoas me perguntam por que sou arredio a debates em redes sociais. Por uma questão de civilidade e saúde mental, respondo-lhes.

Não tenho linguagem para sustentar altercações baseadas em insultos, recalques e democracia da opinião única.O silêncio me dá paz.

Estou muito bem.

Redes sociais são um péssimo ambiente para discussões. Assemelham-se ao trânsito, em que qualquer um infla músculos e verbo, numa coragem que talvez não tivesse em outro espaço ou contexto.

A arte de ter razão, aqui lembro Schopenhauer, é arrimada na estupidez.

Sei bem que essa interação gera mais seguidores, projeção e acessos.

Esses ativos não me atraem tanto, que fique claro.

Sou iluminista por convicção e exercício diário, o que por si só contraria essa selvageria virtual entre seres que sabem ‘tudo’ sobre tudo.

Descobri com o tempo que minha Santa Mãezinha, Dona Maura, sempre foi aristotélica: “A virtude está no meio”. Segundo ela, na moderação, na tolerância. Na prática de contar até dez, até 1000, para não perder a cabeça.

Aqui, não. Nesse mundo, aluado tem fãs.

Mentiria se lhe falasse que não gostaria de ter 1 milhão de pessoas me acompanhando.

Quem tem seguidor é líder de seita.

Se milhares me ouvem e, às vezes me escutam, ótimo. Se esperam a ofensa pela ofensa: ‘peguem o beco’.

Sei ouvir.

Falem, por favor.

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 24/11/2019 - 08:24h

Bar raiz

Por Odemirton Filho

Amâncio estava encostado no balcão para tomar umas. O bar de seu Chico de Hemetério era fétido, ou mal frequentado, como diziam os metidos a rico da cidade.

O estabelecimento tinha paredes rachadas com, apenas, uma demão de cal. Não possuía mais do que quatro ou cinco mesas com tamboretes de madeiras.

Uma prateleira ocupava toda a extensão da parede, preenchida com uma grande quantidade de cachaças em garrafas empoeiradas. A ornamentação se resumia a um chifre de boi pendurado.

Amâncio era freguês assíduo, com mais três ou quatro “papudinhos” que frequentavam diariamente o local. Uns falavam em tom alto, outros choravam por motivos diversos, principalmente, ao som das músicas de “sofrência”.Mas para Amâncio não importava o ambiente, queria mesmo era bebericar, comer tripa de porco e esquecer o desemprego.

O país há tempos estava mergulhado em uma crise econômica e, segundo os “entendidos”, por culpa da corrupção e dos desmandos administrativos da classe política.

Não era novidade para ninguém que os políticos somente apareciam em ano de eleição, com aquele sorriso amarelo e abraçando quem encontrassem pela frente, inclusive crianças com catarro escorrendo pelo nariz.

Não podia reclamar. Quantas vezes recebera tijolos, cimento e telhas para reformar a casa em troca de seu voto? Era costume dele e dos vizinhos varar a madrugada, à véspera da eleição, para esperar um agrado que sempre vinha.

Os vizinhos diziam que era a única oportunidade para receber alguma coisa, já que os políticos, em sua maioria, somente olham o próprio umbigo.

Não demoraria e era certo que a sua mulher, D. Francisca, viria buscá-lo, pois, pelo avançado da hora, sabia onde encontrá-lo. Diziam os amigos que era manicaca. Talvez o fosse, era homem de poucas palavras, não gostava de confusão.

Para completar o dia, seu Zé Rosa encostara-se no balcão para puxar prosa e falar da vida alheia. Seu Zé tinha ficado viúvo há pouco tempo, mas se achava o “Don Juan” da redondeza. Arranjara uma mulher bem mais nova, que só queria usufruir do seu “aposento”.

Zé Rosa, querendo-se fazer íntimo, indagou:

– Amâncio, ainda desempregado?

– Sim. Respondeu em tom seco.

E continuou:

– Soube de Toinho? Caiu doente, quando perdeu o emprego na fábrica de móveis.

-Não. Retorquiu sem olhar no rosto do velho.

Continuou a bebericar a dose de cana sem prestar atenção na história de Zé Rosa, que deveria ser sobre uma nova conquista amorosa.

Estava pensando nas contas que tinha a pagar. O seguro-desemprego terminara, os R$500,00 (quinhentos reais) do FGTS que recebera deram somente para quitar umas dívidas em atraso.

A mulher fazia doces e bolos para vender, mas, diante da crise, muitos brasileiros começaram a vender comida e o faturamento mal dava para pagar o básico da casa.

Pensou em procurar o prefeito, uma vez que todos os seus conhecidos assim faziam quando estavam em dificuldade. Tinham em mente que a função do prefeito era pagar as contas dos correligionários e não trabalhar pela cidade.

Contudo, o Chefe do Executivo municipal, como sempre, estava fiscalizando a reforma das praças. Aquele homem só sabe construir e reformar praças? Pensou.

E o vereador da comunidade? Será que não poderia ajudá-lo? Talvez não, deve estar participando de alguma audiência pública, é só o que sabe fazer.

Tomou mais uma. Seu Chico de Hemetério o olhava com cara de poucos amigos, pois sabia que a farra iria ser, de novo, pendurada no “prego”.

Apesar da idade ainda faltava um bom tempo para se aposentar. E pelo que viu na televisão a reforma da Previdência, depois de muito “moído”, foi aprovada. Disseram-lhe que iria “pegar” a transição, seja lá o que diabo isso significasse.

Não demorou muito e ouviu a voz da “patroa”, que veio buscá-lo. Pediu a seu Chico de Hemetério que anotasse na caderneta, que, logo, logo, viria quitar a dívida.

Para agradar o dono do bar, disse-lhe que, ali sim, era um bar de verdade, raiz, como se diz atualmente. O proprietário, entretanto, fez-se de rogado.

Saiu trôpego, sendo conduzido por D. Francisca, ouvindo impropérios.

Ainda ouviu as gargalhadas e o falatório de seu Zé Rosa e dos outros “papudinhos”:

– Ah cabra manicaca!

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 24/11/2019 - 05:40h

Homem

Por Inácio Augusto de Almeida

Mar, terra, céu, homem

Amor, ódio, fidelidade

Traição

Paixão, indiferença, bondade

Homem

 

Correção, cafajestismo

Caridade, maldade

Mar, terra, céu

Homem

Homem, Homem, Homem

 

Insensibilidade, compaixão

Genialidade, loucura

Imbecilidade, Inteligência

Patifaria, honestidade

Homem

 

Mar, terra, céu

Equilíbrio de forças

Homem, Homem, Homem

Simbiose de sentimentos

Antagônicos

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Poesia
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 03/11/2019 - 07:46h

O caso

Por Inácio Augusto de Almeida

São sonhos de criança. Sonhos de uma época em que tudo era possível.

A brisa que entra pela janela chega a incomodar. Reluto em levantar-me, mas é preciso fazer a caminhada matinal, afinal, prescrição médica não pode ser postergada assim sem mais nem menos. Mas que dá uma vontade danada de continuar curtindo esta preguiça…Em vão procuro os chinelos, os óculos eu sei que estão na mesinha de cabeceira que alguém inventou chamar de criado mudo.

Chego até a porta e vislumbro a vista maravilhosa. Lá embaixo, as ondas se quebram e com suas espumas brancas colorem as areias finas e claras da praia. Respiro fundo, respiro o ar que posso respirar. Afinal, foram mais de 40 anos de cigarro.

Andei por este mundo de meu Deus, cruzei muitas fronteiras, ia e vinha, sempre sem pressa de ir, sempre desesperado por voltar. E sempre com a esperança de um dia voltar para não mais ir.

Grande foi a alegria ao conseguir o cantinho onde ficar definitivamente. E no local mais do que sonhado.

Mossoró.

Não, não dá para esquecer o primeiro dia em que ao despertar fiquei com medo de chegar até a janela e descobrir que tudo podia apenas ser um sonho. Hoje rio destes pensamentos. Quando se deseja ardentemente uma coisa, quando se ama desesperadamente algo, somente lentamente é que nos convencemos de que a realidade é a que está à nossa frente. Até parece que nascemos para sofrer, já que assimilamos rapidamente como real o que nos magoa e levamos algum tempo para incorporar o que nos dá prazer.

É período de férias e estou em Tibau.

As areias finas no contato com os meus pés causam algum barulho, uma espécie de chiado. É gostoso caminhar descalço. É como se uma massagem estivesse sendo feita nos pés. Acho que é uma massagem, sim. E a melhor de todas, pois a massagista é a senhora natureza.

De volta da caminhada, a grande rede na varanda, o bom livro de algum poeta que sabe, de verdade, fazer poesias. Da cozinha vem o bom cheiro do camarão aferventando. Na geladeira o vinho de uma boa safra. Depois a rede na varanda.

E com o embalo que o vento dá na rede, difícil manter os olhos abertos. O barulho das ondas no seu vai-e-vem soa aos meus ouvidos como uma canção de ninar.

E assim a tarde se vai lentamente, cheia de preguiça, indo com vontade de ficar.

Na linha do horizonte o sol, entre nuvens vermelhas, inicia o seu desmaio diário e começa a mergulhar nas águas transparentes da linda praia.

A luz da lua toca os meus olhos. Um convite a olhar o enorme espelho que forma ao se refletir no mar.

Na praia casais namoram. Estão preocupados com a preservação da espécie. Traçam planos…

Existe lugar melhor para o amor? A lua, a praia, o barulho do mar, a beleza das alvas areias da mais bela praia do mundo…

Obrigado, meu Deus. Eu não merecia tanto.

Inácio Augusto de Almeida é escritor e jornalista

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Categoria(s): Crônica
domingo - 27/10/2019 - 09:22h

Solidão e liberdade

Por Honório de Medeiros

Encontrei Antônio Gomes em Pau dos Ferros, no rumo de suas terras na Serra das Almas, fugindo do frio na Europa.Tomamos um café coado no “Maria”.

Me disse que gostara muito de uma frase minha postada no blog.

– Qual?

“Somente é livre quem pode dizer não”. Mas observo que primeiro é preciso dizer sim ao projeto de dizer não para ser livre.

– Você sempre um sofista!

Ele riu e observou, quase que como para si mesmo, que “isso tudo o levara a compreender a solidão, no final da vida, de tantos artistas e pensadores…”

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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Categoria(s): Crônica
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