domingo - 09/08/2020 - 07:30h

Figuras humanas de Mossoró

Por Odemirton Filho

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.(Antoine de Saint Exupéry)

Quando era adolescente costumava ir à praça Bento Praxedes, por trás do antigo Cine Pax, pois era próximo a minha casa. Por lá, muitos jovens, como eu. Íamos brincar e jogar conversa fora.

A praça Bento Praxedes, para quem não sabe, é a Praça do Codó ou do Relógio. Para mim, sempre será a Praça do Codó.

Com o recente falecimento de Tarcísio Alves, lembrei-me de algumas pessoas. Tarcísio sempre “pintava” pela praça. Era bastante conhecido.

Além dele, vieram-me à mente outras figuras humanas que marcaram minha geração e, com certeza, a de outras pessoas.Era comum, após o término da sessão dos filmes de caratê, os meninos saírem dando “socos” no ar, imitando Bruce Lee. Comigo não foi diferente.

Lembro-me de “Shaolin” (acho que era esse o apelido) que trabalhava ou sempre ficava pelos arredores do Cine Pax. Um dia, “Shaolin” me deu um golpe nas costas, pois não era de aguentar brincadeira de menino metido a lutador.

Havia um senhor que sempre se fazia presente nas festas de aniversário ou casamento, muitas vezes sem ser convidado, e, ao chegar, dizia solenemente: “vim prestigiar”. Era William Gurgel, conhecido por todos e curtia a festa como os outros convidados

Me lembro, ainda, de Murilo Ludgero, sempre vestido com roupas brancas, homem fervoroso na fé, que sempre me perguntava se eu já tinha ido à missa e feito o sinal da cruz ao passar em frente à Catedral.

Zé Maria da banca de jornal, que adorava falar sobre política e futebol. Ele às vezes se exaltava, ficava “brabo”, mas logo a conversa continuava.

Tinha um rapaz que era apaixonado por fusca – César. Eu tive um fusca. Um dia, para meu azar, ele o “pegou”. Coitado do fusquinha.

Existia, de igual modo, um senhor que acompanhava todos os enterros da cidade. Morreu alguém? Podia apostar, o senhor estaria presente.

No dia de finados ou na procissão de Santa Luzia quem não ouviu a pregação de um senhor vestido com um hábito de Franciscano? Ou a voz de Monsenhor Américo: “Mossoró com alegria, saúda Santa Luzia”!

A hora da coalhada, programa de Seu Mané, na Rádio Rural, quem escutou? E Erasmo fotógrafo, quem bateu uma “chapa” com ele?

Após as festas, ir à Cobal lanchar em Zé Leão ou na lanchonete de Zecão, que ficava no alto de São Manoel. Comer uma panelada, lá em Neto, no Mercado Central.

Quem já não viu “Paulo doido” andando pra lá e pra cá pelas ruas de Mossoró?

Pois é. Toda cidade tem as suas figuras humanas. Pessoas simples que ilustram a cena urbana e que merecem respeito. As que mencionei são, apenas, algumas. O amigo leitor, sem dúvida, conhece outras que marcaram sua geração.

Enfim, não quis dizer que essas pessoas fazem parte da geografia humana e da história de Mossoró.

Seria um clichê.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/08/2020 - 07:20h

À sombra de uma mangueira

Por Paulo Menezes

Plantei essa mangueira há 42 anos. Não sabia se ela vingaria nem se eu alcançaria sua trajetória de vida. O fato é que todos sobrevivemos.

Ela ainda viçosa, florindo e dando frutos doces e saudáveis todos os anos. Eu, já mais pra lá do que pra cá. Com certeza, vou partir para outra dimensão e ela vai continuar sua vida.

O fato é que recebo sua sombra e seus frutos no dia a dia, e isso para mim já compensa o investimento, já que sou um naturalista convicto.

Hoje, no meio dessa pandemia louca que nos afasta dos filhos, noras, netos e amigos, todos do bem querer, é ela, que como sempre e ao longo do tempo tem me dado abrigo e reconforto.

Agora mesmo, estou  usufruindo de sua sombra benfazeja, tomando uma aguardente mineira, ouvindo Roberto Carlos da Jovem Guarda dos anos 60 (precisamente 1965) anos dourados da minha juventude, vivida com a intensidade de quem está com a morte para acontecer no dia seguinte. E o bom disso tudo, é que de repente me sinto bem, apesar do noticiário terrorista da imprensa televisiva.

Não sei se é o álcool o que me deixa assim, pois, via de regra, uma pinga bem dosada nos deixa relaxado, leve e até mesmo um pouco esquecido.

O fato é que na vida, sempre temos que encontrar  uma saída para enfrentar os problemas que ela nos apresenta. Para mim, graças a Deus, eu encontrei essa válvula de escape que foi a sombra dessa árvore frondosa e uma boa caninha para amenizar as vicissitudes da vida.

Afinal, não foi sem motivo que o ator e cineasta norte-americano Jordan Peele afirmou: “Sinto que estamos numa época onde o público precisa escapar do horror da realidade”.

Paulo Menezes é meliponicultor

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quinta-feira - 11/06/2020 - 10:11h
Crônica

Cabo Januário

Por François Silvestre

A cidade tem pouco mais de cinco mil habitantes. Todo mundo se conhece, e a metade se detesta. O sonho de qualquer adolescente é se mandar. Ou então arrumar-se numa filial de facção, das que mandam na região, pra ter o luxo de moto, grana fácil, e vida curta.

O policiamento é chefiado pelo cabo Januário. Ele comanda dois soldados. Jalmir, que tem um bar, e Ademar, que nada tem. De mês em mês, quando dá certo aparece um delegado da polícia civil, que vem de Caraúbas ou Patu, seja para abrir um inquérito ou levar o cadáver de algum assassinado para o Itep de Mossoró.

Pois pois. Cada plantão, na delegacia, é dividido entre eles. Um dia de plantão e dois de folga. Portanto, o policiamento diário é de um só policial. Jalmir melhora o salário com seu bar. E Ademar gasta seu salário no bar de Jalmir. Januário é evangélico, não bebe. Nos dias folga vai à igreja “dos santos dos últimos dias” ou se embrenha nas grotas da serra vizinha caçando o que ainda resta de caça.

Na manhã de ontem, dia de seu plantão, Januário deixou a mulher cismada. Em vez de procurar a farda militar, vestiu-se à paisana para sair. Juliana perguntou: “Pronde vai desse jeito? Tá de plantão não”? E januário respondeu: “Tô de plantão, mas antes vou passar na prefeitura pra resolver esse caso da secretaria”.

A mulher não entendeu: “Qui caso da secretaria”? E ele explicou: “A secretaria da saúde, qui eu vou assumir. Sabia não? Eu sou a maior autoridade militar do município”.

Juliana: “Você num sabe nem tirar um bicho de pé, nem pra qui serve sal de fruta, vai fazer o que lá?”.

E ele: “Num interessa, é assunto militar. E deixe de cunversa qui tô atrasado”.

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terça-feira - 26/05/2020 - 14:50h
Aos Vivos!

Cultura, família, vida e a fome de liberdade de Katharina Gurgel

O segundo programa Carlos Santos – AOS VIVOS dessa segunda-feira (25 de Maio de 2020) recebeu a cantora e produtora cultural Khatarina Gurgel, em nosso endereço no Instagram AQUI.

A gente falou sobre teatro, crônicas, música, família e um monte de abobrinhas.

Confira no vídeo fixado nessa postagem, o papo leve que rolou com a participação dos internautas.

Experiência

Carlos Santos – AOS VIVOS é um projeto experimental, embrionário e laboratorial. Antecede investimento mais esmerado desta página, a ser desenvolvido adiante, em que pretendemos instigar o colaboracionismo de internautas e convergência de mídias num ambiente multiplataforma.

É um canal para a gente jogar conversa fora, não fazer um monte de coisas e sei lá o quê, semanalmente – sempre às segundas-feiras, às 21 horas.

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domingo - 10/05/2020 - 04:08h
Benção

Feliz mãe

Feliz quem vai ter oportunidade de estar com sua mãe num dia que as convenções, comerciais, definiram ser data à sua homenagem.

Que bom que ninguém precisará apenas dar um presente e voltar à rotina.

Que chance o novo vírus lhe dá de curtir mais essa benção.

Agradeça.

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sexta-feira - 01/05/2020 - 12:08h
Microcrônica

Ê saudade!

Saudades do meu sertão!

De pegar estradas que me levem à graça do sertanejo e àquele verde cintilante; à fartura no fogão à lenha e panela de barro.

Da pinga e da prosa embaixo do juazeiro.

Boi barrigudo, passaredo livre, chuva na bica.

O sertão é o mundo, meu amigo.

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domingo - 26/04/2020 - 11:26h

Homem, quem és tu?

Por Honório de Medeiros

Esse homem que o acaso colocou em minha frente é uma incógnita. Nada sei a seu respeito.

Se observo os detalhes que a sua aparência externa coloca ante meus olhos, e concluo algo, posso incidir em um oceano de erros.

Afinal, sob seu verniz de civilização pode se ocultar qualquer ignomínia.Não faz pouco tempo, foi ele gentil com uma criança.

Vi, mesmo, de soslaio, a mãe da criança lhe sorrir complacente, como quem acha muito natural receber, sua cria, as atenções do mundo. O gesto me fez lembrar as contradições do ser humano.

Ele mesmo, o observado, que desarrumou, com um afago, os cachos do cabelo da criança, em outra ocasião, outra circunstância, uma guerra, talvez ordenasse um bombardeio que vitimaria tantos outros sorrisos infantis.

Pode ser que eu não fale a mesma linguagem que ele. Quantas formas há de entender uma só palavra?

Difícil atividade, a dos lógicos, a dos filósofos da linguagem, que pretendem descobrir o meio de diminuir a distância entre aquilo que percebo e o que digo.

Se lhe chamasse a atenção e perguntasse, comentasse algo, poderíamos divergir tanto, e acerca de coisas tão banais…

“Todavia, entre mim e esse homem glacial, sinto todos os espaços vazios que separam os homens”. É como disse Saint-Exupèry, em um artigo para o Paris-Soir, em 1935, contando sua experiência de viajar, à noite, em um trem repleto de mineiros poloneses que voltavam à sua terra natal, expulsos da França pelas contingências da economia.

Vazios semelhantes àqueles expressados por T. S. Elliot, em A Terra Desolada: a angústia da constatação da impossibilidade da comunicação humana; a percepção de sua solidão essencial, primitiva, única. Poderia o amor, esse sentimento tão tipicamente cristão, aproximar os homens?

Desnudar suas almas, lhes fazer não rir, nem chorar, mas compreender, como queria Spinoza?

Dar, a eles, a capacidade de transcender a mesquinha luta pela sobrevivência, que coloca em lados opostos os que deveriam semear juntos?

Ou essa é uma missão utópica, e não há tempo para sentir quando não conseguimos refletir acerca da misteriosa rede de aliciamento e cooptação que nos induz a darmos o pior de nós mesmos em praticamente todos os momentos da vida?

Podemos ter alguma esperança, mesmo depois de tantos milhares de anos de aperfeiçoamento na capacidade de destruir, matar, esmagar, e nenhum progresso quanto a fraternidade humana?

Saint-Exupèry, esse tão injustamente banalizado filósofo da melancolia, da nostalgia, já dissera: “É absolutamente necessário falar aos homens”.

Em sua “Carta ao General X”, escrita em La Marsa, perto de Túnis, julho de 43, para o Le Figaro Littéraire, denunciou: “Ah!, General, só existe um problema, um único, em todo o mundo. Restituir aos homens uma significação espiritual, inquietações espirituais. Não é possível viver-se só de geladeiras, política, orçamentos e palavras cruzadas, não é mesmo?”

Um sentido para a vida.

Teria a vida sentido?

Se nos indagassem: “homem, que és tu?”, teríamos que responder “aquele em cuja biblioteca os livros de poesia perderam seu lugar para os de computação?”.

Meu companheiro anônimo se fora.

Tinha perdido, eu, a chance de lhe falar acerca de tudo isso que poderia nos aproximar ou afastar: a solidão, o sentido da vida…Não seria dessa vez que construiríamos uma ponte entre a clausura de nossas almas.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Mossoró e Governo do RN.

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domingo - 19/04/2020 - 08:48h

Seu Chico Piu e a Teoria da Evolução

Por Honório de Medeiros

Não fossem as fotografias guardadas com muito carinho, nas quais apareço magro e sorridente, sem rugas e cabelos grisalhos, as lembranças daquele inesquecível passeio a cavalo, eu e um amigo que me hospedava, até a fazenda de café de “Seo” Chico Piu, serra acima na área rural de São Carlos, interior montanhoso de São Paulo, tudo seria apenas borrão na minha memória, algo como um filme antigo, com paisagens e pessoas esmaecidas pelo tempo.

Pego-as e sorrio, sempre. Depois, um toque de tristeza toma conta do espírito e lamenta a juventude passada, os amigos que se foram, os sonhos desfeitos, as promessas não cumpridas, os amores perdidos. “C’est la vie”, diriam os franceses.

Naquela tarde conheci “Seo” Chico Piu, homem sob todos os aspectos singular.

Em primeiro lugar vivia quase recluso, lá no seu pé de serra. Raras vezes descia à cidade. Bastava-lhe, para viver bem, estar pisando descalço sua terra rica e roxa, cercado por sua gente, que lhe margeava como uma tribo ao seu cacique.

“Seo” Chico era baixo, moreno gretado pelo sol, de braços e pernas fortes, espadaúdo, e com uma face como que esculpida em bronze, com traços muito demarcados. Mas o que impressionava eram seus pés. Estes, de fato, se viram sapatos, ou mesmo chinelos, foi em tempos muito idos, segundo suas próprias palavras.

Eram verdadeiros cascos, endurecidos por todos os invernos e verões aos quais “Seo” Chico os havia submetido. Segundo nos contou, e sua família confirmava, descia descalço até mesmo para a cidade, onde raramente ia. E, nos pés, não sentia frio ou calor, não era sensível à água ou à rocha mais dura.

“Seo” Chico era homem de pouca conversa quando no trabalho ao qual se entregava como qualquer um dos seus trabalhadores. Junto a eles, colhia o café, batia, ensilava, ensacava, derrubava as reses, ferrava-as… Um maestro em pleno exercício de sua arte, cegamente obedecido por seus músicos. Um general a conduzir seu exército com doçura, mas com firmeza.

Era, basicamente, dono de cafezais e de rebanho leiteiro, que se espargiam serra abaixo, tendo a Casa Grande como epicentro. Vivesse no Sertão nordestino e nele tivesse aquela terra e todo aquele gado seria um homem de posses, por assim dizer.

No final de uma tarde como aquela, no entanto, tempo esfriando ligeiro indicando noite gelada a chegar, visita no pátio da casa grande e rústica, a sisudez era deixada de lado e o café forte e a aguardente feita sob sua própria orientação lhe iluminavam o semblante e abriam seu coração e mente originando conversas recheadas de casos passados e argutas observações acerca da vida, dos homens e das coisas.

Mas tudo que é bom dura pouco.

Com a chegada da noite veio a hora de voltar sob a fria luz da lua, a passo leve, nas trilhas estreitas, para manter a compostura ameaçada pela bebida e a possibilidade de se envolver com a beleza da serra sob o luar.

Tomamos o último café, bebemos a última caneca de cachaça e ele, se despedindo, bateu na anca da mula mansa que me conduzia, apontou para mim e para si próprio, e como que refletindo, me disse para guardar comigo que o tempo havia lhe ensinado ser a vida, acerca da qual tanto havíamos falado, como uma serra de onde cada um descia na justa medida em que outro subia lhe tomando o lugar.

Dito isso, me lembrou que “seu pensamento” se tratava de um presente, assim como a garrafa da mais pura cachaça de sua moenda que me passou às mãos, deu um passo para trás, ajeitou o casaco de lã por sobre os ombros tocados pelo sereno da noite e lá ficou, a nos observar partindo, com seus pés indiferentes à temperatura que caíra bruscamente e, com certeza, desconhecendo meu conhecimento sorvido dos livros acerca da teoria da evolução que diziam, de forma muito pomposa e circunspecta, aquilo que ele concluíra somente observando, no seu pé de serra, a vida passando ao largo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Mossoró e Governo do RN

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sábado - 18/04/2020 - 19:48h
Saudades

Lá e cá, com turno e returno

Saudades do meu Caicó.

Caicó, na região Serido do Rio Grande do Norte, com turno e returno (Foto: Jorge Luiz)

Saudades do Seridó.

Saudades atenuadas à tarde deste sabadão, com prosa longa – mas não o bastante – ao telefone, com meu amigo Pituleira.

Inteligentemente, ele não tem zap-zap.

Depois dessa praga, vamos nos falar em carne viva – lá e cá.

Turno e returno.

Destá!

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sábado - 18/04/2020 - 15:26h
Confinado

Feliz

Saudades da manguaça eu não tenho.

É-me diária a vontade da prosa no café, com casos e causos que desfiamos, donos da verdade e sempre sem solução para nada.

No racha da conta ou na moganga para sacar a carteira, há um pouco da graça da confraria.

De ser feliz bobamente.

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domingo - 12/04/2020 - 08:54h

Dona Efigênia em sua teia

Por Honório de Medeiros

Dona Efigênia pontificava naquela rua onde morei. Muito gorda, um pouco surda – talvez por puro cálculo –, passava o dia sentada em uma cadeira de balanço com espaldar de palhinha na sua ampla sala de estar, que dava para um jardim lateral, onde ficava o portão de ferro batido, pintado de branco, a lhe separar do resto do mundo.

Casa antiga, senhorial, de esquina.

Sempre perfumada alfazema, penteada e bem vestida, ficava o dia inteiro, tirando as fartas refeições, colada a uma mesinha redonda cheia de quinquilharias, na qual reinavam o telefone e o rádio. Tempos antigos.

“Prefiro o rádio”, disse-me ela uma vez quando lhe perguntei qual a razão do eterno silêncio da televisão. “As pessoas participam”.

Eu cumpria fielmente o ritual de visitá-la quando ia à sua cidade. Que era a nossa. Tenho certeza de que ela gostava de minhas visitas. Prova-o o doce de coco verde sempre disponível e do qual eu gostava imensamente.

Acredito até saber a razão de sua simpatia para comigo: ao contrário da grande maioria dos que a procuravam, eu não estava interessado em fofocas, ou, melhor dizendo, meu interesse era secundário, existia apenas na justa medida em que ilustrava alguma opinião sua a respeito de fatos e pessoas, essa sim extremamente interessante, a revelar um agudo poder de observação e análise.

Pois Dona Efigênia, viúva, com pensão mais que razoável deixada pelo falecido, filhos dispersos pelo mundo, era uma renomada e rematada fofoqueira, na opinião de alguns.

Talvez fofoqueira não fizesse jus ao que de fato ela era. Como uma aranha postada no centro de uma imensa teia, ela recebia, analisava e devolvia informações ao longo do dia de uma imensa variedade de informantes: serviçais, comadres, afilhados, sobrinhos, primos, amigos, o carteiro – por quem tinha especial predileção, dado que vivia batendo perna pelos cantos – o leiteiro, as crianças da rua, os vizinhos, pessoas de outros lugares, o padre, o rádio e o telefone.

Devo ter esquecido alguma coisa, óbvio, mas não esqueço sua sala de visitas quase sempre cheia e ela em silêncio escutando, até que, em determinado momento, chamava alguém para sentar em um banco baixo estrategicamente colocado perto da cadeira de balanço, e cochichava algo durante alguns minutos após os quais a conversava era dada por encerrada.

Quando a conheci supus que aquela sua atividade começasse e acabasse conforme comentavam os maledicentes. Diziam que ela era o tipo acabado da velha fofoqueira.

Depois de algum tempo compreendi que criara essa camuflagem. Era assim mesmo que queria ser enxergada. A camuflagem ocultava o verdadeiro propósito de sua atividade diária.

Através da colheita de informações, ficava sabendo o que de errado havia acontecido no seu entorno. Talvez alguma gravidez indesejada, uma demissão inesperada, uma prestação do colégio atrasada, uma virgindade perdida, um exame médico além do alcance de quem dele estava precisando, uma traição que se consumava, uma despensa desabastecida, uma violência doméstica cometida, um recém-nascido abandonado. Pequenas grandes mazelas.

Então entrava em ação: chamava um, chamava outro, cobrava antigos favores, pedia novos, recebia dinheiro de quem lhe devia e repassava para quem estivesse precisando, e a perder de vista, dava carões, espalhava conselhos, apontava caminhos, indicava obstáculos, aproximava pessoas, afastava outras, mandava fazer, mandava desmanchar…

E, assim, disfarçadamente, realizava um metódico, complexo e minucioso bordado social. Bordado do bem.

Dona Efigênia, há muito, descansa em paz e, se existe Céu, nos braços do Senhor.

Ao longo da vida me pego, de vez em quando, lembrando de alguma observação sua.

Paro, componho em minha mente o quadro de sua presença naquela sala de estar hoje silenciosa, sentada na sua cadeira de balanço, abro seu breviário, e me ponho a ler, e essa é a minha oração em louvor de sua memória.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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quarta-feira - 08/04/2020 - 14:52h
Crônica

Minhas mãos alcoólatras

Por François Silvestre

Elas são tudo, mas sempre relegadas ao secundário imerecido. Pois é da condição do polegar opositor aos outros dedos que o ancestral nosso diferenciou-se dos seus primos macacos para evoluírem até onde chegamos. Sem esse polegar tocando a ponta dos outros dedos nós não existiríamos. Nem a tecnologia.

Mas, como tudo que parece fácil e simples, as mãos raramente ocupam lugar de destaque na preocupação médica. Elas pegam as coisas, sustentam a arrumação, tocam punheta. Tudo muito natural. Tão natural que são esquecidas. As unhas, que são os cascos dos dedos, as mulheres enfeitam, os homens cortam e os exóticos exibem.

Mas isso é outra história. Vou tratar das minhas mãos. Sou um dependente de bebida alcoólica. Não vivo sem o álcool. Melhor dizendo, sem cerveja. Bebo quando quero, mas quero todo dia. Não abro mão da cerveja da tarde.

Quando preciso não beber por qualquer motivo, tiro de letra a abstinência. Para tratamento médico ou cirurgia, que já fiz duas de catarata. E cumpro sem problema. Ou como dizia Aluzio Alves, nas campanhas que fizemos, do mesmo lado ou de lados opostos, “você é um bebo manso”. E sou.

Até agora reclamavam da bebida o fígado, o pâncreas, o pulmão, o intestino, o esôfago, o reto, os rins e até o fiofó. Hemorroidas que o digam.

As mãos? Só pra levantar os copos. Excluindo suas atividades eróticas. Mas em matéria de farra alcoólica, foram sempre secundárias. Chegou a vez delas. banhadas de álcool constantemente. Rindo dos órgãos de dentro.

E as vejo alegremente limpas pedindo mais…

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domingo - 05/04/2020 - 04:42h

A “metrópole” do livro “no metro” e seus valores fúteis

Por Carlos Santos

Como são estúpidos os parâmetros que o grosso da sociedade mossoroense tem adotado, para dimensionar sua ascensão social. Tudo baseado na superficialidade e babaquice do “parece ter”.

Estamos medindo esse novo status nos prédios que sobem, nos milhares de carros que invadem ruas, avenidas e ocupam até calçadas. Naqueles que muitas vezes para subir, precisam descer aos subterrâneos.

Ontem, eu tive mais um testemunho do atraso e da distância em que nos encontramos, da inversão de valores e confusão em que nos metemos, em nome do hipotético progresso.

Fuçando livros em um sebo, seu proprietário me fez um relato que fica entre o bizarro e o jocoso. Vamos a ele.Há algum tempo, esse sebista foi procurado por uma “nova rica”, interessada em comprar “um metro de livro”. Isso mesmo. Não era um título específico, coleção ou tomo de encadernamento especial. Tinha que ser no metro, sim.

Explico, reproduzindo o que ouvi: a deslumbrada precisava preencher um espaço em estante desenhada por sua arquiteta, sendo recomendada a colocar livros com a mesma dimensão estética. O espaço disponível pro “enfeite”? Um metro. Um metro de livros simetricamente alinhados.

Mossoró, até o início do século passado, vivia a influência europeia do movimento conhecido como “art nouveau” – daí nascendo até a corruptela de sua área de prostituição, transformada em “Alto do Louvor”, décadas depois.

Era uma cidade com requintes em roupas, moveis, arquitetura, mas também na cultura, desde o teatro ao hábito da leitura e música. Tínhamos cerca de 100 pianos. E as moças bem educadas tocavam. Eles não serviam apenas de ornamento na decoração.

Falar francês era normal para os jovens de ótima extração. Muitos eram poliglotas. Os janotas transitavam sempre impecáveis e ser rico, em verdade, era transformar dinheiro em bem-estar e referência de conteúdo.

Hoje testemunhamos a “Metrópole do Futuro” exultante com seu “crescimento” baseado em carrões pra exibição, TV de LCD e home theater na sala do apartamento, gente mal-educada saracoteando ao som de “lapada na rachada” e enchendo  sacolas com bugigangas de grife.

Os que se salvam dessa manada são tratados como estranhos e afetados, ou seja, anormais.

Portanto não é por acaso que da atividade produtiva à política, estejamos “dominados” pela ignorância que mesmo rica, não reluz.  É opaca ou furta-cor, mas certamente abobalhada e fútil.

Empobrecemos, em verdade, porque na ânsia de ser diferente, a grande maioria é apenas mais um nessa multidão pasteurizada, uniforme, feita em escala industrial: modelo standart. Faz da aparência a sua essência, da borra cosmética a sua alma.

Acredita que Paris é “a cidade luz” por ser muito iluminada; toma Old Parr com Coca-cola, mas preferia um legítimo “Odete”, por ser mais barato.

A propósito, bota uma bicada de Serra Limpa aí, amigo. O sertão é aqui.

* Texto originalmente publicado no dia 10 de Novembro de 2010.

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Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 02/04/2020 - 07:38h
Crônica

O mundo virou Paris?

Por François Silvestre

Dizia Newton Navarro, pintor de cajus sem travo, poeta de palavras e gestos, que em Paris todos os dias eram Domingo.

Completava aquele verso de Valfran de Queiroz, definindo Paris: “Uma maçã no meio do caminho”.

Pois bem. O mundo virou uma Paris opaca, a negar o apodo de Cidade Luz. Por que essa comparação?

Porque nesse tempo de isolamento, confinamento e distâncias você não sabe que dia é da semana, ao acordar.

Todos os dias são Domingo.

Assim mesmo no singular, posto que são dias igualmente chatos. E o Domingo só é alegre para as crianças. Para os vividos o Domingo é apenas o anúncio da Segunda-Feira.

Agora, nem isso. Porque a Segunda não vem. E da Terça-Feira em diante todos os dias sumiram da lembrança ao amanhecer do dia. E na televisão a novidade é a mesma do dia anterior.

Apelo a Albert Camus, “com tanto sol armazenado na memória como pude apostar no absurdo”?

* Acompanha o blog Coluna da Palavra, de François Silvestre, clicando AQUI.

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Categoria(s): Política
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quinta-feira - 02/04/2020 - 04:38h
Em casa

Vivo

Meu isolamento por livre arbítrio passa dos 15 dias.

Saídas são episódicas para reposição de mantimentos e outras necessidades, com escassas interlocuções.Nada de BBB, Netflix, bater panelas ou vomitar xingamentos em redes sociais.

Não vi reprise de qualquer jogo e tenho trabalhado muito.

Leitura, rádio, documentários e aulas por diletantismo no YouTube, videoconferências por labor, muitas e muitas horas sem ouvir uma voz, nenhum sintoma de angústia ou depressão.

Não vi fantasmas, não desejei morrer nem fiquei indiferente às dores alheias.

Estou vivo.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/03/2020 - 11:52h

De sintomas e paranoia

Pro François Silvestre

A mulher liga para um amigo médico e informa:

“Carlinhos amanheceu com o dedão do pé muito vermelho e inchado”…

O amigo não deixou ela terminar, interrompendo-a, e falou:

“É. Já foi reportado alguns casos do vírus que provoca inchaço e vermelhidão nos membros inferiores”…

Agora foi ela que o interrompeu:

“Não, doutor, ele tava jogando bola no quintal e deu um trupicão que arrancou a banda da unha do dedão. Quero uma pomada ou qualquer coisa pra aliviar”…

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 29/03/2020 - 08:10h

Minha sabiá-laranjeira

Por Paulo Menezes

Há quarenta e três anos, quando estava na construção do alicerce da minha morada, plantei no quintal da casa um caroço de manga e uma castanha de caju como sementes para o nascimento de uma mangueira e um cajueiro. Elas brotaram, se fizeram árvores e hoje me dão além de uma sombra grandiosa e fria, nesse clima tão quente, os frutos de delicioso sabor.

Há um ditado que diz: não aprisione pássaros, plante uma árvore que eles vêm. Pois bem. Hoje os frutos e a sombra, apesar de importantes, são para mim secundários.O grande valor que hoje atribuo à mangueira e ao cajueiro é que eles servem de abrigo, do alvorecer ao sol poente, com voos alternados de idas e vindas, a presença constante de uma sabiá-laranjeira que com seu belo canto, flauteado, faz do meu quintal um local extremamente bucólico e agradável.

Agrega-se a isso o zumbir das abelhas, o gorjeio de galos-de-campina, canários-da-terra, bem-ti-vis, rouxinóis e até os barulhentos e inconvenientes pardais que vêm se alimentar do xerém de milho que coloco para atraí-los.

Há também a visita frequente de algumas espécies de beija-flores que vêm sugar o néctar de algumas roseiras existentes nos canteiros.

É  nesse ambiente urbano em que a natureza está tão presente que tenho conseguido “tirar de letra” as preocupações cotidianas dentre as quais se inclui, no presente momento, o isolamento social da quarentena por conta do coronavírus.

Com essa sinfonia de pássaros e o manejo das jandaíras, além de não sentir o tempo passar ainda me livro do noticiário televisivo com suas veiculações voltadas exclusivamente para a tragédia que ora apavora todo o planeta terra.

Como diz o Zeca Pagodinho, é desse modo que vou vivendo e deixando a vida me levar.

Paulo Menezes é apicultor

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Categoria(s): Crônica
sábado - 21/03/2020 - 21:36h
Memória

Vá lavar as mãos

Não estou tendo maiores dificuldades para lavar as mãos várias vezes ao dia.

Essa mania exercito desde criança.

“Vá lavar as mãos. Só senta à mesa com as mãos lavadas”.

“Já lavou as mãos?”

Parece que ouço Minha Santa Mãezinha, Dona Maura.

Tô bem asseadinho, viu?

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
sexta-feira - 20/03/2020 - 08:42h
Brasil

Dois analfabetos ignorantes

Por François Silvestre

Bolsonaro e seu Raimundo Cocada. Bolsonaro nunca leu um livro, não sabe o que é filosofia, nem teologia. Duvida dos movimentos dos astros e não acredita que o homem foi à lua. Eleito, não sabe sair da campanha e mantém o país em pastoril permanente; ele numa barraca, a do Azul, arrematando num leilão maluco e provocando a outra barraca, a do Encarnado, que incompetentemente aceita o jogo bruto.

Seu Raimundo Cocada também nunca pegou num livro. Não acredita que o homem foi à lua, nem que a terra gira. “Tudo mentira. Se a terra rodasse, eu acordava cedinho e pegava café barato quando São Paulo passasse puraqui”. E ainda completa, “A lua né grande não. É do tamãe duma arupemba“.

Ele é um dos últimos, se não o último, que ainda carrega água para casa num jumentinho com ancoretas. Vai todo dia à cacimba, na fonte da Marizeira.

Analfabeto e ignorante, igualmente ao presidente do Brasil. Mas há um adjetivo dessa ignorância aboletado em Bolsonaro, que não habita em seu Raimundo.

Seu Raimundo não é irresponsável. Ele torce por sua barraca, no pastoril da Padroeira. Briga, arremata, desfaz dos torcedores da outra barraca, mas passada a festa, a amizade volta, o convívio normal.

Durante a festa, nem se falam.

Quando informaram a ele sobre essa epidemia, ele passou a levar para a cacimba um pedaço de sabão. Antes de abastecer as ancoretas ele lava as mãos com sabão. quando chega em casa, repete o gesto. E ainda obriga todos da casa a fazerem o mesmo, após acordarem.

Seu Raimundo é analfabeto e ignorante, mas, diferentemente de Bolsonaro, não é irresponsável.

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Categoria(s): Crônica
terça-feira - 17/03/2020 - 15:46h
Confinado

Vivo

Tudo que eu tenho em casa, uso.

Nada é acessório, fica encostado ou é supérfluo.

Imprescindíveis? Não.

Apenas úteis.

Imprescindível é gente.

Nesse confinamento, nenhuma angústia.

Preocupo-me com o mundo lá fora, com os meus e quem não conheço.

Aqui sou minimalista.

Sobrevivo.

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 08/03/2020 - 10:56h

Uma saudade a mais

Por Paulo Menezes

Há 18 anos, Antônio Menezes, o Tota, meu querido pai, partiu desta para outra dimensão. Nesse sábado (7 de março de 2020), completaria 102 anos. Viveu 84, bem vividos, com grande intensidade.

Feneceu deixando um legado aos 7 filhos, qual seja, um pai à toda hora presente, criando sua prole com a dificuldade de um orçamento apertado, mas dando aos filhos a educação necessária e um exemplo de vida.

Dele, guardo inúmeras e boas recordações, pois além do convívio doméstico, foi com ele que a partir dos 14 anos iniciei minha vida laboral na empresa “Menezes & Irmão”. Depois, o auxiliei como motorista do Jeep Toyota em nossas viagens semanais à salina de Jorge Moyse França, que ele gerenciava.

Antônio Menezes (Foto: arquivo da família)

O ajudei também na loja “A Preferida”, tendo sido ele o primeiro agente da Loteria Federal e Esportiva da cidade.

Nas férias escolares, conduzia toda a família para a encantadora praia de Tibau. Ali, no fulgor da juventude, vivi um período mágico de minha vida, construindo memórias afetivas tão profundas que nem o tempo conseguiu apagar.

O Tota, era amante das vaquejadas, e eu, pra variar, apesar de não gostar do esporte, estava sempre ao seu lado. Fui também seu companheiro das inenarráveis caçadas de nambu e avoete. Na verdade, nosso passatempo era mais um acampamento de amigos do que a caça propriamente dita.

Para ser franco, deixamos poucas nambus e avoetes viúvas em nossos finais de semana em que passávamos arranchados por esses sertões afora, sempre protegidos pela sombra de um juazeiro copado, uma catingueira florida ou uma oiticica de folhas largas e fria.

Chegávamos sábado à tarde, armávamos nosso rancho, uma lona de 10 x 8 metros, banheiro adaptado numa lata de querosene Jacaré, com direito a chuveiro e a um banho frio e reparador, após a caminhada matinal na caatinga verdejante e esplendorosa com o início da quadra chuvosa.

Estirávamos as redes, abríamos a garrafa de um bom vinho e o papo rolava noite adentro numa confraria em que limpávamos nossa mente do estresse da cidade grande, conturbada e violenta. Manhãzinha cedo, parafraseando o poeta e repentista Ivanildo Vila Nova, acordávamos com a natureza em festa, “pois no sertão quando rompe a alvorada, na floresta desperta a passarada, canta uma canção tão afinada que parece uma orquestra universal, num concerto de música diferente da orquestra sinfônica que Deus fez”.

Tendo como componentes o pio admirável das inhambus xintã e chororó, o canto sonoro das sabiás, galos de campina e corrupiões, o arrulho soturno da juriti, o cantar melancólico do anu-branco, cadenciado da rolinha fogo-apagou, belo e estridente da seriema, deixando a todos nós extasiados com tanta beleza.

Entre os participantes do lazer semanal havia um pescador arremessando a tarrafa e trazendo para a margem, do açude, curimatã, piau, tilápia e tucanaré, que cozidos ou fritos no fogo de chão, faziam parte do cardápio do almoço dominical. Final da tarde, hora de desarmar a barraca e regressar para nos prepararmos para a nova jornada na semana seguinte.

Dezoito anos se passaram de sua partida e em mim sua lembrança continua forte e muito presente.

Agora, com a chegada das chuvas e o prenúncio de um bom inverno, o vejo na calçada, início da noite, cadeira de balanço, rádio sobre o colo, olhar atento para os últimos raios do sol poente em fogo, afirmando:

– Hoje só me recolho quando o relâmpago “cortar” o céu do sertão.

Tempos bons. Saudades. Muita.

Paulo Menezes é apicultor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/03/2020 - 12:30h

Carta às minhas filhas Lana e Patrícia

Por Inácio Augusto de Almeida

Eu tenho mania de criar aforismos. E já criei prá mais de 500 deles. Tem um que eu gosto muito.

Tempo é uma questão de preferência. A gente sempre tem tempo para as coisas que gosta.

Este pensamento nasceu da observação do comportamento das pessoas. Eu nunca vi um jogador de baralho sem tempo para o jogo, um corrupto sem tempo para maracutaias, um boêmio sem tempo para a bebida, um bom estudante sem tempo para a leitura. E por aí vai.

Mas a vida, minhas filhas, não se resume a fazer apenas o que se gosta. O sucesso está diretamente ligado à nossa capacidade de fazer, também, as coisas que não gostamos. Isto porque há uma tendência no ser humano, tendência natural, de buscar o prazer em tudo.

É bom, claro que é bom, mas é preciso ter consciência de que nem sempre nos é permitido só fazer aquilo que gostamos.

Aí entra uma coisa chamada disciplina.  Pois é através da disciplina que vencemos nossas paixões e, consequentemente, submetemos nossa vontade ao objetivo pré-determinado.

É preciso então separar um pouco do nosso tempo para as coisas que PENSAMOS que não gostamos, quando na realidade nós temos é MEDO de realizar estas coisas. Medo do desconhecido, medo de não sermos bem sucedidos, medo do medo. Medo que muitas vezes  é colocado para que nos tornemos escravos de determinadas situações.

Sabe filhas, nem sei por que estou falando isto para vocês. É que às vezes eu sinto vontade de externar estes meus pensamentos. E como gosto de conversar com vocês…

Mudando de assunto.

No ano de 1964 ia muito ao Rio. Tinha um irmão meu, o Laerson, que morava num hotelzinho bem perto do Palácio do Catete. Em frente ao Palácio havia um barzinho-restaurante que, aos sábados, servia uma feijoada muito boa.

Do barzinho a gente saía caminhando até o Largo do Machado, onde havia várias sinucas. Perto do hotel havia também um cinema, o Bruni Flamengo, se não me engano. Foi lá que vibrei com o James Bond, na época o grande sucesso de bilheteria.

Eu conheço esta área muito bem. O Rio é uma cidade linda. Uma cidade desenhada para o desfrute da terceira idade, já que a cada dia a pessoa pode inventar um passeio, tantas são as opções de lazer. Lazer, o Rio é a Cidade do Lazer, nada nessa cidade lembra trabalho.

Seu pai por lutar pelas crianças mais pobres e combater a corrupção em cidades do Nordeste terminou condenado a pagar danos morais a quem está condenado por prática de corrupção. O meu crime foi prática de calúnia, injúria e difamação, mesmo sem nunca ter dito uma só mentira.

O dinheiro que seria usado nas compras de Natal teve que ser destinado ao pagamento dos danos morais. Pior seria, minhas filhas se eu tivesse feito uma retratação. No Natal deste ano vocês ganharão os seus tênis e as suas novas mochilas.

Não consigo esquecer vocês gritando “a polícia veio prender o papai”, quando um agente de polícia bateu tão forte no portão e gritou tão alto POLÍCIA para me entregar uma simples citação. O objetivo era causar escândalo e assustar a todos. Vocês ficaram traumatizadas. Tão traumatizadas que toda vez que alguém bate na porta ainda pensam que é a polícia que vem buscar papai.

Peço perdão a vocês pelo que aconteceu. Eu poderia ter ficado caladinho ante a corrupção. Tão caladinho como os outros.

Sigo para uma hospitalização em Natal. Vou tentar o tratamento de uma doença que desconheço, mas que imagino ser grave. Deus sabe sempre o que é melhor para nós.

Estudem, estudem sempre. E nunca se esqueçam de que quem estuda tem tudo, quem não estuda não tem nada. Quem não estuda não tem nada, mesmo que consiga dinheiro através de meios espúrios. A história está cheia de corruptos que sustentam filhos e genros malandros.

Do seu pai,

Inácio.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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