domingo - 16/12/2012 - 03:45h

Inveja ínclita

Por François Silvestre

A inveja já foi definida como sentimento mórbido de admiração enrustida. O invejoso admira com ódio o objeto da sua inveja. Mas não é dessa inveja que vou falar. Sou invejoso de forma agradável, que me faz bem sem ambicionar o lugar do invejado.

Invejo com todas as minhas emoções o poeta Manoel de Barros. O filho da mãe consegue desconstruir a sabedoria duvidosa e arrancar do miolo da ignorância a forma bruta de espantar o leitor. Ele não é do litoral nem do sertão. É do charco. O litoral é gracioso e azul; o sertão é profundo e cinza. Só é azul de longe, porque o azul é menos cor e mais distância.

O pantanal é sertão e mar, sem precisar de Antônio Conselheiro. Manoel de Barros é pássaro ímpar daquele mundo vasto que se agasalha no seu ninho.

Invejo Mário Quintana, por conseguir ficar cada vez mais criança quanto mais envelhece o verso. Invejo Gonçalves Dias, que me pôs no quengo versos que não consigo esquecer. Invejo Castro Alves, que feito relâmpago passou pela vida e nunca conheceu a morte. Ninguém foi mais generoso com os oprimidos. E a poesia não é outra coisa senão a língua em forma de liberdade. Mesmo aprisionada em versos. A dialética não desgruda nem da poesia.

Invejo os passarinhos do meu sítio. Principalmente o pardal. Isso mesmo; o mais inútil, feio e desprezível dos passarinhos. Nenhum visitante quer fotografar o pardal. Fotografam rolinhas, paparroz, corró, sabiá, sanhaçu, cucurutas, galos-de-campina, canários da terra. Se na hora da fotografia houver um pardal no meio, o fotógrafo espera o bicho voar.

E o pardal tá cagando pra nós. Enquanto alguns passarinhos só comem frutas e outros só comem sementes, o pardal come de tudo. Se o puser num chiqueiro de bode, come casca de estaca. Mas sobrevive contra tudo e contra todos. Tá nem aí pra agradar.

Por isso eu o invejo. Gostaria de ser assim, mas não sou. Gosto de elogio, mesmo os imerecidos; ou principalmente estes. Invejo quem diz preferir uma crítica séria a um elogio fácil. Invejo; mas tirando por mim, acho que é mentira.

Gente, igual a menino e cachorro, gosta de afago. Essa história de receber crítica com serenidade; aqui, ó. Eu recebo é com coice. Quando agradeço crítica exercito minha cota de hipocrisia.

Não sou intelectual nem literato. Escrevo de atrevido, nesses tempos ágrafos, de poliglotas fluentes nas línguas de longe e gagos na prima pobre das flores do Lácio. Na qual eu espantei, com reza, os medos de menino nas noites de novilúnio.

Por isso invejo o pardal. E também o sanhaçu, golfinho de asas, da metáfora de Aurélia. O paparroz, mais brilhoso do que a graúna, mesmo com menos pluma.

Invejo até o jumento. Duas coisas suas: a paciência e o tamanho. Té mais.

François Silvestre é escritor arranchado em Martins-RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/12/2012 - 14:26h

Meus secretos amigos

Por Paulo Sant´Ana

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências …

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar.

Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer…

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Paulo Sant´Ana é jornalista gaúcho, com atuação no jornal Zero Hora. Crônica extraída do livro “O Gênio Idiota”, mas publicada originalmente em 15 de abril de 1994, no Zero Hora.

Nota do Blog – Uma crônica que eu gostaria de ter escrito, para todos os meus amigos. Inclusive àqueles que não desconfiam que o são; também os distantes, gente que não vejo há um tempo incontável.

Gosto muito de vocês.

Muito obrigado por esse santo remédio: a amizade.

 

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domingo - 25/11/2012 - 07:12h

O tempo passa e eu não vejo:durmo novo e acordo velho

Por Honório de Medeiros

Seu ‘Antônio de Luzia’, oitenta e seis anos, sentado em sua cadeira de balanço, na calçada de sua casa, no Sítio Canto, em Martins, é o próprio símbolo da passagem inalterável das manhãs, tardes, noites, madrugadas. Do ritmo lento dos dias que se sucedem bucólicos, tais e quais as contas debulhadas do rosário de ‘Sinhá’, oitenta e poucos não admitidos, deslizam por entre seus dedos, à hora do ângelus, enquanto seu pensamento vagueia nos limites de sua circunstância, e nada escapa do seu olhar dardejante e de seus ouvidos “de tuberculoso”, como me confidencia ela.

Pergunto a Seu Antônio acerca das coisas que estão mudando mundo afora, em uma rapidez vertiginosa, impossível de serem acompanhadas.

Lembro a ele a chegada do homem na Lua, o computador, o celular… Ele fica calado um bocado de tempo.

Quando penso que esqueceu o assunto, ergue um pouco o braço e aponta com o dedo um passante, quebra o silêncio do final-de-tarde e me diz: “desde que o mundo é mundo, podem as coisas ter mudado, mas o homem, meu filho, é o mesmo de sempre”.

“Quando eu era de menino para rapaz”, continua, “pensava que as pessoas lá fora eram diferentes. Viajei, corri légua, vi e ouvi muitas coisas que eu prefiro esquecer, e voltei. Fico comparando o homem que vive lá fora com o homem que vive aqui, e não vejo diferença. Lá se mata, como aqui; lá se bebe, como aqui; lá se trai, como aqui; lá se rouba, como aqui. Tudo que existe lá fora, maior, existe aqui, menor”.

Fez-se silêncio, novamente, durante algum tempo. “Eu às vezes penso” prosseguiu, “que tanto faz como tanto fez, o homem se engana demais com as coisas, é como a roupa que a mulher veste: pode ser de qualquer tipo, mas ela é sempre a mesma”.

E, depois de beber um gole de café, arrematou: “lá fora o tempo passa e eu não vejo: durmo novo e acordo velho; aqui, eu vejo que o tempo não passa: faz uma eternidade que estou vivo!”.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/11/2012 - 08:12h

Botecos

Por Luís Fernando Veríssimo

Tinha uma mania: colecionava botecos. Não os frequentava, apenas era um estudioso. Gostava de descobrir botecos e recomendar para os amigos.

Ultimamente, vinha se especializando — um refinamento da sua paixão — no que chamava de botecos asquerosos. Daqueles que nenhum fiscal da Saúde Pública incomoda porque não passa pela porta sem desmaiar.

Seu rosto se iluminava na frente de um boteco asqueroso recém-descoberto. Não resistia e entrava. Depois contava para os amigos.

— Uma glória. Sabe ovo boiando em garrafão com água?

— Repelente, não é?

— As galinhas não os receberiam de volta. A própria mãe! Descrevia o boteco com carinhoso entusiasmo.

— E que moscas. Mas que moscas!

Só não tinha paciência com o falso sórdido. Alguns botecos assumiam suas privações como uma declaração de falta de princípios. Ele preferia o sórdido inconsciente, o sórdido autêntico. Principalmente, o sórdido pretensioso.

Uma vez contara, extasiado, uma cena. Terminara de comer uma inominável almôndega, pedira um palito para o dono do boteco e desencadeara uma busca barulhenta e mal-humorada, com o dono procurando por toda parte e gritando para a mulher:

— Cadê o palito?

Finalmente o dono encontrara o palito atrás da orelha e o oferecera. Ele se emocionava só de contar.

Os amigos, sabendo da sua paixão, mantinham-se atentos para botecos sórdidos que pudessem interessá-lo. Muitos ele já conhecia.

— Um que tem uma Virgem Maria pintada num espelho com uma barata esmigalhada de tapa-olho? Vou seguido lá. A cachaça é tão braba que tem bula com contra- indicação.

Outro dia lhe trouxeram a notícia do pior dos botecos. Não era um boteco de quinta categoria. Era um boteco de última categoria. Ficava no limite entre a vida inteligente e a vida orgânica. Ele precisava ir lá verificar. Foi no mesmo dia.

Ficou estudando o boteco de longe, antes de se aproximar. Tinha um garoto na porta do boteco. A função do garoto era atacar cachorros sarnentos. Quando passava um cachorro sarnento o garoto o enxotava — para dentro do boteco!

Ele atravessou a rua na direção do boteco com aquele brilho no olhar que tem o pesquisador no limiar da grande revelação, ou o santo antes do doce martírio.

E tem a história do Nascimento, que um dia quase brigou com o garçom porque chegou na mesa, cumprimentou a turma, sentou, pediu um chope e depois disse:

– E trás aí uns piriris.

– O quê? – disse o garçom.

– Uns piriris.

– Não tem.

– Como, não tem?

– “Piriris” que o senhor diz é…

– Por amor de Deus. O nome está dizendo. Piriris.

– Você quer dizer – sugeriu alguém, para acabar com o impasse – uns queijinhos, uns salaminhos…

– Coisas pra beliscar – completou o outro, mais científico.

Mas o Nascimento, emburrado não disse mais nada. O garçom que entendesse como quisesse. O garçom, também emburrado, foi e voltou trazendo o chope e três pires. Com queijinhos, salaminhos e azeitonas.

Durante alguns segundos, Nascimento e o garçom se olharam nos olhos. Finalmente o Nascimento deu um tapa na mesa e gritou:

– Você chama isso de piriris?

E o garçom, no mesmo tom:

– Não. Você chama isso de piriris!

Tiveram que acalmar os ânimos dos dois, a gerência trocou o garçom de mesa e o Nascimento ficou lamentando a incapacidade das pessoas de compreender as palavras mais claras. Por exemplo, “flunfa”. Não estava claro o que era flunfa? Todos na mesa se entreolharam. Não, não estava claro o que era flunfa.

– A palavra está dizendo – impacientou-se Nascimento.

– Flunfa. Aquela sujeirinha que fica no umbigo. Pelo amor de Deus!

Luís Fernando Veríssimo é escritor e cronista

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 11/11/2012 - 08:41h

Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim

Por Rubem Braga

Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?

O leitor que responder “não sei” a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Aliás, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.

Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.

Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português.

Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma “página de bom vernáculo, exemplar”. Tive vontade de responder: “Mera coincidência” — mas não o fiz para não entristecer o homem.

Espero que uma velhice tranqüila – no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).

Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. “Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua”. Mas acho que isso é exagero.

Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinqüenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar.

Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.

Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.

Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa uma série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para “pegar” as outras?

O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas.

Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da “Última Hora” ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de “O Globo?”.

No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, ruas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.

Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!

Rubem Braga (1913-1990) Escritor, jornalista e cronista

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domingo - 04/11/2012 - 11:22h

Outra fachada

Por Otto Lara Resende

Foi na passagem do ano, em Angra dos Reis. Mais uma vez eu me encontrava num momento de transição. O fm do ano traz, inconsciente, esse desejo de mudar. Só me dei conta disso há pouco tempo, vendo a minha carteira profssional.

Várias demissões no mês de dezembro. Época do Advento, Natal à vista, uma força nos impele e a gente admite que é possível recomeçar. O que passou e o que virá.

Essa pretensão de me reinaugurar. Pulsa nela uma expectativa que se abre, quase eufórica. Um alvoroço de asas. Deixar para trás o arquivo morto, fechar a porta, selada como um túmulo. É preciso morrer para renascer.

Os opostos se misturam, mas se impõe no horizonte uma promessa de aurora. Pouco importa que não seja clara. Tanto melhor. Há na penumbra, nesse claro-escuro, uma nota propícia. Esse respiro que se acelera e exalta.

Poxa, quanta filigrana para chegar aonde eu quero.

Visto pelo lado de fora, é só isto: deixei a barba crescer. Mudei a fachada. A gente na vida deve ter uma cara só. Se é raspada, vá raspada até o fim. Barba, pera, cavanhaque, costeletas. Os vários bigodes, cheio, fno, de pontas. Passa-piolho, ou em leque. Feita a escolha, que esteja feita. Adolescente, preservei intocado o recente buço. No afã de ser adulto, virou bigode sem conhecer navalha.

Até que um dia deitei-o abaixo aqui no Rio, no barbeiro da Associação Cristã de Moços. Estava feita a minha opção. Vou de cara limpa, escanhoada.

Aí estou um dia em Angra, fim de ano, começo de ano, e não fiz a barba. Eu mais que vivido. Revivido. Três, quatro dias e, mais depressa do que esperava, a barba compareceu. Hirsuta, como intratável se pretendia o remoto bigode adolescente.

Com o tempo, eu saía de manhã pra andar com o Hélio Pellegrino, de repente ele estacava.

E me olhava, estupefato. Começava a rir. Eu não era eu. Aquele barbaças, ainda por cima a barba branca, se metia entre nós. O Hélio me fitava e em vão me procurava. E ria.

Curioso é que a princípio me deu a maior força. Barba de protesto, dizia ele. De desgosto, dizia eu. Desgosto de quê? Já não sei, nunca soube. Talvez estivesse cansado de mim. Aí chegou julho. Aniversário da minha mãe e da minha filha Helena.

Que presente me pediram? Raspar a barba!

Raspei — e isso é outra história.

Otto Lara Resende (1922-1992) era escritor e cronista

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domingo - 28/10/2012 - 10:37h

A arte de ser avó

Por Raquel de Queiroz

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses,um ato de Deus.

Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…

Quarenta anos, quarenta e cinco… Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade.

Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor.

Meu Deus, para onde foram as suas crianças?

Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.

E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha.

Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”.

E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensarde todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos.

Se o Doutor Fausto fosse avó, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto…

No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela, hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você.

São lisonjas, nada mais.

No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes aoda esposa e da amante dos triângulos conjugais.

A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.

Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia.

Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer roquetes, tomar café – café! -, mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser – e até fingir que está discando o telefone.

Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna…

Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém, esses prazeres não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso.

Meu Deus, o olhar das outras avós, com os seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto! E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: “Vó!”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você, sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade…

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele.

Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó?

Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague…

Raquel de Queiroz – (1910-2003) – Escritora cearense

* Texto extraído do livro “O brasileiro perplexo”, 1964.)

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domingo - 21/10/2012 - 07:49h

São Paulo, São João com Ipiranga – Uma despedida

Por Honório de Medeiros

“Para se conhecer uma cidade, é necessário viver nela três dias ou trinta anos. Ao final dos trinta anos, verifica-se que o julgamento apos os três dias é que é o bom” (Jean Cocteau, citado em “A biblioteca e seus habitantes”, de Américo de Oliveira Costa).

À noite, todos as nuances da escuridão são ameaças, no centro de São Paulo. O passo de quem lá aporta, por esse ou aquele motivo, desenham incompreensíveis percursos aos olhos de quem os observa. Mas não é embriaguez (ou é); não é o resultado de alguma droga (ou é).

É a distância calculada que se toma de qualquer outro transeunte – esse desconhecido, o perigo.

Os bares da São João. Pequenos. Quase todos lotados apenas de homens. O cheiro de fritura no ar. Os habitantes: bêbados, drogados, prostitutas, traficantes, decaídos, mendigos, travestis, menores, andarilhos, e a polícia, sempre a polícia.

Os hotéis e sua aparência. Qual aparência? De decadência. No meio da rua, noite alta, o adolescente franzino, dentre muitos outros, de cabelos lisos e compridos incessantemente afastados dos olhos, vestido com uma irreal calça “jeans” extremamente folgada, cujos bolsos dianteiros e traseiros batiam-lhe nos joelhos, revoluteava, borbolético, entre um bar e uma casa de diversão de jogos eletrônicos.

No dia seguinte, pela manhã, e já tarde da noite, novamente, lá estava ele, ininterrupto, como se ali fosse seu mundo ou então fizesse ele parte da paisagem local. Onde moraria? Quem seriam seus pais? Teria irmãos? Ninguém sequer lhe aprisionava o olhar.

“Recanto dos Amantes”. Um nome em contraste com a cinza selva de pedra em plena transversal da São João. Lá, ela me disse, olhando para algum ponto indefinido, enquanto segura o copo de conhaque: “talvez não nos vejamos nunca mais”.

O “nunca” me soou estranho. Havia uma melancolia calculada nas suas palavras. Eu me dispus a lhe contar como encarava esses encontros e desencontros da vida: um imenso pátio, vazio, folhas secas pelo chão, uma rajada de vento, a dança delas no ar, o encontro, logo desfeito, casual, entre uma e outra folha – eis como tudo ocorria. Não o fiz.

Como ela engordara muito, esse tom não combinava com sua nova estampa.

A São João, à noite, causa medo aos que não lhe são íntimos. Além de curiosidade e repulsa durante o dia. Quando o sol se põe a São João vira uma selva, onde cada um com o qual se cruza pode ser um predador – aquele que o destino lhe reservou. São os frequentadores de bares suspeitos, inferninhos, prostíbulos disfarçados, pontos de droga… É o submundo vindo à tona.

Com a luz do sol, a vida surge frenética. Há um vai-e-vem intermitente, irritante. Uma profusão de cores, barulhos e os incontáveis odores de frituras e churrascos infestando cada espaço da rua. Tipos exóticos fazem “performances”.

Há desde o comuníssimo tocador de viola, até o singular dançarino imensamente feio que ostenta, como insígnia de sua estranheza, duas inacreditáveis marias-chiquinhas. Nada diferente, ao que consta da realidade de toda grande cidade, mundo afora: Nova Iorque, Tóquio, Cidade do México…

Nada diferente, em menor escala, em cada pequena cidade?

Digo-lhe adeus.

Fico parado observando sua imagem se desvanecer aos poucos enquanto caminha no rumo da Praça da República. Enquanto observo, imagens do passado insistem em surgir. Nelas, uma mulher esguia, morena, de cabelos longos, dança na praia de Genipabu, os pés chapinhando na água, pleno pôr-do-sol, encantada com tanta beleza e contraste com sua terra natal.

Mas não há dor, há vazio. Aliás, há a dor do vazio.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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sexta-feira - 12/10/2012 - 07:38h
Às crianças

Os meninos cresceram, foi?

Ao telefone, pergunto: “Cadê os meninos?”

Nem percebo: eles cresceram. São timoneiros da própria vida.

Mas mesmo assim, meninos. São meninos.

As crianças pichototinhas estão esticadas, situadas como gente adulta nesse mundo que herdam de nós, repleto de novidades, mas cheio de armadilhas.

Ainda estão sob minha proteção, mesmo que não percebam. Cuido delas, compartilho de seus sonhos, norteio seus passos, sou leão-de-chácara e também menino.

O que desejo de verdade, como antes, lá bem atrás no tempo, é que sejam felizes.

Os meninos cresceram, foi?

Brincadeira. Quem disse que filhos crescem? Continuam nossos pequeninos.

O que seria de mim se eles crescessem? Continuo um Gullliver, no meio daquela algazarra na ilha de Lilliput.

* Minha homenagem a todas as crianças em seu dia, que se renova a cada dia, à eternidade.

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quinta-feira - 27/09/2012 - 08:55h
À reflexão

Um “não”, lá atrás, contra a intolerância de hoje

A Rui Nascimento e tantos outros webleitores deste Blog,

Meu caro Rui, sei de casos de amizades de infância-adolescência desfeitas após décadas, devido baixarias, ressentimentos e o besteirol de provocações na atual campanha eleitoral.

Quanta intolerância. Quanta insensatez.

Sei de casal que trocou tapas num shopping, com plateia à vista, também devido a radicalização dessa campanha em Mossoró. A família em xeque, por nada.

Meu Blog é um termômetro disso.

Diariamente chegam postagens – boa parte com nomes falsos – promovendo agressões etc. Muitas são feitas contra mim e até familiares meus. Lamentável.

Gente incapaz de ouvir, geralmente não fala: rosna e late. Pode morder também.

Quem não tem argumentos costuma atacar o argumentador. Como o leão, não para de rugir para intimidar, na crença de que tem razão sempre, por parecer que tem a força para sempre.

Pobres diabos!

A sabedoria que vem da África, atravessa o Atlântico, para nos auxiliar na compreensão ou no entendimento de tanta estupidez.

Meu pai sempre dizia: não levante a sua voz, melhore seus argumentos (Bispo Desmond Tutu, Nobel da Paz, uma voz em defesa da igualdade, contra o apartheid na África do Sul).

Recordo que há vários anos eu circulava entre gôndolas de um supermercado, em Mossoró, e vi uma criança de no máximo dois a três anos dando um espetáculo de choro, espichada ao chão. Contorcia-se, avermelhada, à cata de atenção da mãe. Ela ignorava-a.

De repente, vendo que não teria o iogurte pedido em tom de pressão emocional, pura chantagem, a criança emudeceu. Beicinho desfeito, pegou novamente a mão de sua mãe e continuou o périplo de compras.

Pensei comigo: essa menininha crescerá entendendo o que é “limite”; saberá bem o significado do “não”; será tolerante.

A mãe, orgulhosa, vai afirmar: “Essa é minha filha!”

Boa parte de tanta virulência tem explicações no passado. Os intolerantes – quase sem exceção – cresceram acreditando que podem tudo, que merecem tudo, que nada pode lhes barrar. Não aceitam ser contrariados.

Um “não”, lá atrás, poderia nos poupar de muita agressividade que testemunhamos hoje. Preservaria amizades, por exemplo.

Ah, por favor, não me venha com aquele raciocínio: “Fulano faz isso porque tem um cargo; tem o que perder…!”

Existem dezenas e centenas de pessoas com cargos comissionados, com privilégios, fartas vantagens em jogo, mas nem todas – ou a grande maioria – não desce ao lamaçal, mesmo tendo o que perder.

O problema não é o que se tem a perder, mas o que não se conquistou antes: a capacidade de ouvir.

Um “não”, lá atrás, poderia nos poupar das agressões.

Agressão não se rebate. Revida-se. Ou não.

No meu caso, o silêncio e a indiferença são infalíveis diante dos que espumam de ódio e vassalagem doentia. Como aquela criancinha, o indivíduo hidrófobo deseja chamar a atenção. Quer notoriedade, para que lhe façam os gostos. O gosto de ser visto e paparicado como algo melhor e superior.

Ao me calar, não manifesto consentimento. Digo, sem voz, que não troco juízo com estúpidos.

Continuarão esperneando, esparramados no pântano em que vivem há tempos, como vermículos. Esse é seu ambiente. Lá ficarão.

É isso, Rui e demais amigos webleitores.

Abração.

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domingo - 16/09/2012 - 10:51h

Dormindo sempre juntos, na mesma hora

Por Fabrício Carpinejar

Quando sua companhia se levanta, rola para cheirar o travesseiro dela? Você é apaixonado por dividir, desculpe informar. É constrangedor confessar a dependência, mas não resta alternativa.

Nunca será mais sozinho. É uma simbiose amorosa por dentro das lembranças, dos hábitos, que surge no modo de repartir uma tangerina e por o açúcar no café.

Uma necessidade de primeiro servir para depois saciar as próprias ansiedades.

Entregou os pontos ao abandonar seu horário para dormir. Renunciou ao livre-arbítrio no momento de atender ao chamado sedutor de sua esposa.

– É tarde, te espero?

Aquela desistência foi fatal. Pode ter classificado o gesto como uma exceção, só que gostou de verdade, gostou imensamente de adormecer com sua mulher. Ambos apagando o abajur em igual instante, depois de ler, de rir, de brincar.

Sincronizaram o relógio dos batimentos cardíacos e nunca houve mais atraso de beijo. Amor eterno é quando um não consegue mais dormir sem o outro. Simples assim.

Deseja descansar, convoca sua mulher na sala.

– Vem, tá na hora!

E ela, que estava envolvida com um filme ou um programa de tevê, nem reclama, nem diz mais um minutinho, ajeita os ombros no cobertor do seu abraço e segue junto. Lado a lado no espelho do banheiro, escovam os dentes, ajeitam o rosto, colocam roupas folgadas.

Reina uma sincronia dos movimentos, uma disciplina na admiração. Alguns até confundem com tédio, porém, é intimidade: não precisa falar para se entender.

Se silêncio com ódio é submissão, silêncio com ternura é concordância.

Escoteiros do casamento, entram no mar branco dos lençóis cada um do seu lado: ela pela margem esquerda, ele pela margem direita. E centram os corpos para fazer conchinhas encostando as cabeças. Um casal apaixonado ocupa menos do que uma cama de solteiro: terminam agarrados, sobrepostos.

Você se dá conta de que não deita mais sozinho há décadas. É uma compulsão olfativa. Está no escritório trabalhando de madrugada e ela abre a porta para convidá-lo:

– Vem, tá na hora!

E não estranha a ordem, obedece, sequer medita sobre o motivo da adesão. Vai sem preguiça alguma, sem aviso de bocejo, ainda que não esteja com vontade, ainda que tenha uma porção de tarefas e problemas a resolver.

Larga as urgências pela metade e se prontifica a acompanhá-la.

Casal quando se ama dorme na mesma hora. E não suportará morrer longe. O sonho é também morrer na mesma hora. Com as respirações próximas.

Fabrício Carpinejar é cronista, escritor e professor

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domingo - 09/09/2012 - 01:45h

Carta a Diógenes de Abdera

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

Meu estimado filósofo,

Veja só o que me aconteceu, outro dia. Ao querer imitá-lo – saindo em plena luz do meio dia com uma lanterna, a procura de um homem honesto-, sabe o que me aconteceu?! Fui assaltado: levaram a minha lanterna!… Tudo bem eu sei que foi um típico caso de ladrão que rouba ladrão, afinal não sou mesmo um “ladrão de citações”?

Pois é, meu caro Diógenes, feliz era você, que mesmo convivendo com uma sociedade corrupta, ainda podia sair nas ruas da Grécia antiga, e não ser assaltado. Podia morar num barril, apenas com um alforje, um bastão e uma tigela, e ninguém ousava tirá-las de você. Hoje, com a modernidade, no mundo das conexões rápidas, dos chips, das máquinas, da robótica, o chique é ser desonesto em todos os lugares…

Outro dia, estava em São Paulo, num encontro de medicina e a noite sai para jantar com um amigo. A comida que sobrou, resolvemos colocar numa quentinha e entregar ao primeiro mendigo que encontrássemos. Ao descermos do taxi, havia um deitado, dormindo, debaixo de uma marquise. Coloquei a comida ao seu lado, na esperança de que ao acordar, ele teria algo para comer. Aí um pipoqueiro que estava próximo me alertou: “Senhor, não deixe ai não, pois vão roubá-lo!”.

Foi impossível não me lembrar do seu companheiro de profissão, o filósofo Jean-Yves Leloup e o seu comovente relato, no magnífico livro “O absurdo e a graça”, que conta a vida dele perambulando pelas ruas da França, a procura de paz: “Aconteceu que uma noite não encontrei mais minha mochila, devem tê-la tirado de mim, em um segundo, enquanto eu cochilava.

Isso para mim foi um sofrimento real, eu me havia identificado tanto com aqueles pedaços de frases que sem eles minha vida não tinha mais sentido. Não chorava pelos meus documentos de identidade; chorava pelos meus poemas, chorava também pela miséria, pela injustiça… como é que um pobre pode roubar outro pobre? Não havia um tostão em minha mochila, lá só estava o meu tesouro, o brilho de duas ou três palav ras que, quando juntas, produzem um efeito de música ou de sentido”.

Meu caro Diógenes, toda vez que leio esse relato, confesso que meus olhos ficam marejados de lágrimas. E logo me vem à mente: “Por que o mal existe?”. Difícil essa pergunta, não?! São Tomaz de Aquino talvez tentando respondê-la, dizia:

– Se o mal existe, Deus existe.

E eu não tenho dúvida que todas as pessoas nascem boas, pois como ensinou, recentemente, o grande professor de pediatria, Dr. Heriberto Bezerra: “O jovem é puro… se deteriora no caminhar da vida, às vezes por necessidade ou por fraqueza; ou pelas duas coisas!”.

E quando eu falo em homem desonesto, meu caro Diógenes, nem estou mais só falando daqueles que roubam dinheiro, pois como disse no inicio desta carta: o chique agora é ser desonesto em todos os lugares (até nos tribunais éticos, a corrupção é generalizada)…

Falo daqueles que roubam nossos sonhos, que destroem as velhas amizades, que são desonestos com a sua própria consciência.

Sócrates dizia que uma vida não reflexiva não valia a pena ser vivida. Afinal, temos dentro de nós o maior de todos os juízes – aquele que trabalha dentro de um tribunal, onde não há como recorrer, nem fazer habeas corpus preventivo, nem delação premiada…

Um tribunal cuja sentença é inapelável: a nossa consciência, que nada mais é do que “uma espécie de entidade invisível, que possui vida própria e que independe de nossa razão. É a voz secreta da alma, que habita em nosso interior e que nos orienta para o caminho do bem”.

Então, meu caro Diógenes, não há nada de errado em fazer as seguintes perguntas: “Estou em um caminho de sucesso? Estou em um caminho de santidade? Ou estou em um caminho de autodestruição?”.

É fundamental responder a essas questões. Qualquer caminho para o índio Don Juan, do escritor Carlos Castaneda, é apenas um caminho. “E não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo. Quando assim ordena o coração (…) olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias… Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma”…

Meu caro Diógenes, como tenho utilizado o meu coração nestes dias.

Fiz – com um profissional que se “queixava” de ser médico (nem um robô seria tão frio! Agradeci a Deus ao sair do exame, por saber que ele não tinha sido meu aluno: menos uma culpa para carregar nas costas)-, até um teste de esforço para avaliá-lo. Tudo isso para poder utilizar esse órgão – que bate muitas vezes descompassado pelas incompreensões, pelas ingratidões, pelas críticas muitas vezes infundadas e motivadas sei lá porque, etc. etc. -, de forma a julgar melhor e perdoar: “Pai, eles não sabem o que fazem!”.

Tenho utilizado esse meu miocárdio, para ver melhor aqueles que um dia idealizei como exemplos de ética e retidão moral e que olhando um pouco mais de perto, não passam daquela imagem sonhada por Nabucodonosor, com os enormes pés de barro, e que basta jogar um pouco de água para eles se transformarem num mar de lama… é preciso olhá-los com o coração, para entendê-los e poder colocar em pratica a caridade, pois sem ela não há salvação!

Portanto, permita-me terminar essa carta, meu caro Diógenes, com a seguinte oração:

– Devemos igualmente amar nossos inimigos. Se ajudei a alguém o melhor que pude e se essa pessoa me ofende da maneira mais ignóbil, possa eu olhar essas pessoas como meus maiores mestres, pois eles nos permitem testar nossa força, nossa tolerância, nosso respeito aos outros… Compaixão e felicidade são a mesma coisa!

Um forte abraço! Até um dia, meu caro Diógenes!

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.

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sexta-feira - 07/09/2012 - 23:53h
A morte

A eternidade de cada segundo

Quando a gente começa a enterrar os amigos tem a clara sensação de estar na “fila”. Com um desejo implícito: não há interesse em furá-la.

Acho que a morte nos humaniza mais.

Nos apequena ou nos deixa no exato tamanho do que somos: um átomo. Somos uma partícula do universo.

Ao pó retornaremos, descobrimos aos poucos.

É um retorno que passa obrigatoriamente pelos laços da infância. Serpenteamos por aquele labirinto de memórias em que nos deparamos com o Minotauro, reencontramo-nos com os amigos e constatamos que muito já se foi.

O que nos falta?

A eternidade de cada segundo.

Como átomos.

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domingo - 02/09/2012 - 08:39h

Olhe-se no espelho!

Por Lya Luft

No mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi.

Foi um momento inesquecível!!… A platéia inteira fez um ‘oooohh’ de descrédito.

Aí fiquei pensando: “pôxa, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?”

Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado ‘juventude eterna’. Estão todos em busca da reversão do tempo. Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.

Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se “mudança”. De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas.

Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.

“Mudança”, o que vem a ser tal coisa?

Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, …….Rejuvenesceu!.

Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu!.

Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. … Rejuvenesceu!!!.

Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois da coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face. Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.

Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho.

Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.

Olhe-se no espelho…

Lya Luft é escritora, cronista e tradutora

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domingo - 08/07/2012 - 03:37h

De onde vem minha força

Por Carlos Santos

À Dona Maura.

Confesso-lhes: não há um único dia de minha vida que não lembre de minha mãe – dona Maura.

Passam dias, anos começam a se distanciar, eu assim mesmo não a vejo ao longe. Parece tão perto, aqui do lado, que nem computo a partida como perda. Não nos largamos. Estamos mais próximos.

Se dificuldades parecem intransponíveis, o ar teima em faltar, nem a perturbo. Poupo-lhe de minhas angústias. Sei que de algum modo virá a luz. Dela. Tem sido assim.

Mas se estou alegre, exultante com alguma vitória, aí sim a procuro: é para dividir minha alegria. É também sua. Partilho.

Nos últimos anos fui sitiado, tenho sofrido as mais profundas vilanias; nem meus filhos foram poupados da má-fé. Mesmo assim não capitulei ou caí na armadilha de ser, como eles são, para legitimar o que fazem.

Dona Maura não gostaria que eu fosse como eles, para deixar de ser como ela me formou. É principalmente pela senhora que optei não reagir à altura. Vem daí minha força silenciosa, meu autocontrole.

O mal sempre volta às mãos de quem o arremessa. É um juiz infalível. Não precisarei levantar a mão.

“(…) Se eu curvar meu corpo na dor
Me alivia o peso da cruz
Interceda por mim minha Mãe, junto a Jesus.”

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domingo - 01/07/2012 - 08:35h

Minha amada gosta das cidades grandes…

Por Honório de Medeiros

Para Bárbara Lima

Minha amada gosta das cidades grandes, do bulício das ruas elegantes nas manhãs de sol pálido que não lhe agrida a pele muito branca, quando se dedica às compras “virtuais” e compõe mentalmente, enquanto deambula, várias toilettes com as peças à mostra, da rotina dos cafés ao entardecer que são promessas de noite e despedidas do dia, das noites suavemente embaladas por uma discreta taça de vinho, à qual seguem, como um coroamento de um dia feliz, un dessert, e um sono tranqüilo, embalado pela confortante presença próxima do seu ateliê, onde se dedica à requintada arte do “scrap”, no qual obras de arte feitas à mão disputam espaço com as marcas sutis de sua presença diária.

Já lhe ponderei, diversas vezes, acerca das maravilhosas manhãs na Serra, quando a neblina propõe, aos transeuntes, um véu opaco com o qual os envolve enquanto o silêncio, companheiro de nossas caminhadas, somente é perturbado pelo ir-e-vir dos pássaros e o balançar dos ramos e galhos das árvores tangidas pelo vento matinal, e, também, das tardes pungentes tão típicas e plenas de uma profusão de cores cambiantes que esmaecem lentamente anunciando a noite, ah!, a noite, e o imenso céu estrelado, límpido, misterioso, inigualável, do Sertão…

Eu lhe prometi um espaço somente seu, amplo, no qual cada laivo de sua imaginação criadora tenha a condição de se transformar em realidade, separado do chalé com o qual sonho por um caminho margeado pelas flores das quais tanto gosta e pelas árvores das quais sou tão próximo, onde ela poderia receber as pessoas que a procurassem lhes oferecendo um café feito na hora a ser servido nas delicadas e herdadas xícaras onde despontam motivos florais finamente estampados, acompanhado de biscoitos da terra, de gosto suave, que facilmente se dissolvem na boca, ou, quem sabe, nos frios dias de julho, uma taça de chocolate quente enquanto a conversa fluísse animada.

Receio não lhe ter convencido, posto que o prosaico da vida sempre interfere nos sonhos de cada um: é a rotina do trabalho, a rotina dos filhos, a rotina dos compromissos que exigem nossa presença diária e nos impõem atividades que não gostamos, deveres que nos assoberbam, atenções que nos impedem de nos entregarmos plenamente à vida que passa tão rápida enquanto desperdiçamos nosso tempo a ranger os dentes de raiva pelo trânsito que não flui, a nos eriçarmos para o combate com nossos estressados semelhantes, a nos debater com a melancolia que nos assoma no final-do-dia pelo muito que é perdido quando constatamos que nada mais somos que apenas outra peça da engrenagem.

Quantos de nós, envelhecidos, eu não observo enquanto me desloco: são tão poucos os que sorriem! Será que neles há o fastio do acúmulo das horas inúteis, a consciência do tempo perdido com coisas vãs? Será que esse balanço de final-de-vida, quase sempre negativo, é que lhes colocou nos rostos esse olhar vazio, tão distante? Será que essa entrega derradeira, o abandono da condição de controle do próprio destino, é que constitui o caldo de suas amarguras? Como saber?

Enquanto penso dou razão à minha amada e me conformo, mas não perco a esperança. Enquanto espero, e os dias rolam na minha vida como as contas de um terço rolam nas mãos daqueles que rezam, escapo para o último andar do prédio onde moro, prédio entre prédios, subo a escada que conduz ao topo, e lá, derramo meu olhar descontente por sobre a cidade febril enquanto gulosamente sinto, sobre mim, o infinito do céu no qual os limites existente são o vôo dos pássaros e de um ou outro avião.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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domingo - 24/06/2012 - 10:54h

A aula de amor

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

À tarde do dia 15/06/2012 ficará marcada para sempre na minha memória. Interessante é que o meu corpo, cansado do plantão noturno, no dia anterior, na Liga contra o Câncer, dizia: “não vá!”. Mas, algo muito maior, ficava sussurrando no meu ouvido e me empurrava literalmente para aquele encontro: “Vá! Saiba que esta será uma oportunidade única. Imperdível!”.

Não sei se foi com Malba Tahan que li que há quatro coisas que não voltam atrás: a pedra atirada; a palavra dita; o tempo que passou e a ocasião perdida. Então, não poderia perder esta ocasião de estar na companhia de meus três professores de pediatria: Dr. Heriberto Bezerra, Dra. Zélia Fernandes e Dr. Nei Fonseca.

Os dois últimos, juntamente comigo e o jornalista Leonardo, da oficina da notícia, faríamos uma entrevista – que na verdade virou uma verdadeira aula de amor -, com o Prof. Heriberto Bezerra que passara, recentemente, a condição de membro EMÉRITO da Academia de Medicina do RN.

Logo na primeira pergunta que fiz, disse-lhe que iria contar uma história, de pronto o Prof. Heriberto respondeu: “Vamos ver se o peso da idade me permitirá lembrar!”. É: 87 anos, não são 87 dias… Aí surgiu, no canto esquerdo da varanda, uma voz: “Pode deixar que eu estou aqui para lhe ajudar a lembrar de tudo!”. Era a voz, doce e meiga, de D. Maria, esposa do professor Heriberto.

Deu para perceber, então, que entrevistar o Professor Heriberto era também entrevistar a sua companheira de mais de 65 anos, pois ali, havia duas almas num só corpo. Ali, a frase de Nietzsche – “terei o prazer de conversar com ela quando for velho…”- fazia todo o sentido.

Meu Deus! Agradeci por este momento inesquecível! As perguntas iam sendo feitas, mas o meu interesse, era saber quando todo aquele amor tinha começado: “Sempre fui radical”, dizia o professor Heriberto, “ai, participei de uma greve, quando estudante na faculdade de medicina, em Recife, em 1942, contra o professor de patologia que tinha uma didática péssima. Então, após a greve só tive duas escolhas: sair da faculdade ou ir transferido para Salvador”.

Bendita greve! Bendito Professor de patologia e a sua péssima didática, pois foi, na cidade de todos os santos, que o amor brotou. E continua até hoje. Dava para perceber, a alegria estampada nos olhos dos dois a cada revelação, a cada caso contado, a cada história. Era uma verdadeira cumplicidade que o tempo não fora capaz de destruir; é isso mesmo: “O Amor tudo crer, tudo espera, tudo suporta…!”.

E meninos, eu vi! Vi o amor do Dr. Heriberto pela sua profissão (que contagiou os eternos alunos: Dr. Nei Fonseca e a Dra Zélia Fernandes a escolherem a pediatria como especialidade); vi o seu amor pela docência; vi o seu amor pelo seu time de coração, o America; vi o seu amor pela academia de medicina (“Patrimônio das minhas vaidades”, como ele bem disse), mas vi, principalmente, o seu amor pela sua companheira de anos, D. Maria.

É lógico que não poderia sair dali sem saber qual o segredo de tanta paixão e tanto amor, sentimentos tão raros entre os casais hoje em dia. “O segredo?! Acho que foi deixar que ela sempre mandasse em tudo!”, afirmou o velho mestre.  Todos nós rimos: mestre, alunos e a sua amada. E por fim, a grande revelação: “Sou um homem feliz!”. Também pudera: amando e sendo amado, até hoje, não poderia ser diferente.

Chegando ao carro, agradeci a Deus por essa transfusão de energia que tinha recebido. Eu, que depois de duas semanas vivenciando momentos tão difíceis, onde a ingratidão, a incompreensão e a decepção estavam rondando a minha alma, recebia como um bálsamo dos deuses, esta senhora aula sobre a vida, sobre o amor.

É claro que fiz logo um pedido a Deus: “Oxalá, Meu Pai! Permita-me viver com a minha adorada esposa o mesmo tempo! Permita-me que as projeções do estimado professor Carlos Dutra, de que viverei 92 anos estejam certas, mas que só farão sentido se for ao lado da minha amada Viviane!”.

Para quem ainda não sabe, minha Viviane também surgiu de uma forma interessante na minha vida.

Estava iniciando a minha segunda residência, a de oncologia no INCA (Instituto Nacional de Câncer), quando ficou determinado que teríamos também que estagiar nas outras unidades, fora do INCA. Como sempre sou do contra… logo me revoltei, ensaiei até uma greve, mas o bom senso – do meu colega de turma Luciano Luís -, prevaleceu: “Homem, deixe de besteira! Quem sabe lá não vamos aprender mais do que aqui?…”.

E lá vou eu para o Hospital de Oncologia, próximo à rodoviária do Rio de Janeiro. E num domingo ensolarado, tive o primeiro contato com a minha adorada. Ela apareceu no refeitório e eu nunca mais a deixei. Nem poderia! Afinal, Viviane é a minha outra metade que veio me completar. Tem razão Mario Quintana ao dizer: “O amor é quando a gente mora um no outro”.

Viviane é uma verdadeira garrafa de náufrago jogada ao mar, e ao encontrá-la, salvei a mim mesmo. Ela é aquele “anjo lindo que apareceu com olhos de cristal; me enfeitiçou… e meu coração quando está ao seu lado, fica louco de satisfação: solidão nunca mais!”.

Dia 02 de julho de 2012, fará vinte anos do nosso primeiro beijo. E que me perdoem os meus estimados enólogos Prof. Elmano Marques, José de Medeiros Jr., Gilvan Passos e Ivan Brasil, pois não há Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, (nenhum Barolo, nenhum Brunello), nada que suplante o aroma e o sabor daquele beijo…

Pois é, meu estimado professor Heriberto Bezerra: muito obrigado por mais uma aula; e a você minha adorada Viviane, muito obrigado: por me fazer conhecer a felicidade! Por me dar o maior tesouro, Lucas! Pelo seu amor, pois é através dele que consigo respirar…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.

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sexta-feira - 01/06/2012 - 22:13h
Tudo ou nada

A última e decisiva batalha na ‘guerra das moscas’

A administração do Mossoró West Shopping (MWS) está com uma missão quase impossível: colocar fim à ‘esquadrilha de moscas’ que diariamente ocupa seu ambiente interno, da Praça de Alimentação às suas lojas de produtos/serviços diversos.

A tarefa não é fácil. E não se pode dizer precipitadamente que não tenha ocorrido empenho à eliminação desse incômodo inaceitável num equipamento mercantil com tais características. O esforço é cotidiano e frenético, mas sem êxito.

Desde sua inauguração há mais de quatro anos, o MWS teve pelo menos duas empresas especializadas em pragas e detetização – com conceito no mercado – atuando no local. Sem sucesso. Perderam feio a guerra para esses “dípteros” (animais que possuem duas asas).

A praga, de fazer inveja às maldições que teriam assolado o Egito, conforme contam as sagradas escrituras, tem demonstrado enorme resistência. Fazem acrobacias e transitam soberanas, imponentes, de ‘nariz empinado’. Não parecem se incomodar com a impertinente presença humana, coabitando o mesmo espaço comercial.

As moscas tornaram-se habituês do lugar. Revelam um lado refinado e chique, como se fossem de uma nova espécie: a ‘Musca Patricinha’.

Sentem-se bem entre mármores, escadas rolantes, granitos, colunas e vitrines iluminadas. O que não chega a ter a concordância da clientela capitalista, obrigada a dividir mesas, cadeiras e os espaços físicos do shopping com esses insetos gosmentos. Eles, de graça; o consumidor, pagando.

Fala-se no shopping, na contratação de uma terceira empresa, sob custo não revelado, para finalmente bani-las. Colocar um fim no problema. Se a nova tentativa falhar, o jeito é recorrermos à turma da lagoa: os sapos. A partir daí, passaremos a testemunhar uma batalha de caráter biológico, com esse exército saltitando entre nossos pés, em lojas e corredores, numa cruzada definitiva.

Predadores naturais das esvoaçantes moscas, os batráquios podem ser chamados a essa ‘deliciosa’ (para eles) refeição. Não duvidemos. Uniriam o útil ao agradável. Com sorte, podem até realimentar o lirismo dos contos de fadas, cedendo um beijo para quem acredita poder descobrir um príncipe encantado em seus lábios finos e gélidos.

Quem duvida, heim?

Princesas, candidatem-se! Moscas, cuidem-se!

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
terça-feira - 15/05/2012 - 09:01h
Para Manoel Barreto

Imagens de uma ópera popular em vermelho e branco

Por Carlos Santos

Duas imagens fixaram-se em mim às primeiras horas de hoje. As duas em vermelho e branco. São imagens inesquecíveis, simbológicas. São desenhos rabiscados a partir de fatos reais do passado.

Com a morte do meu amigo Manoel Barreto, ontem, ex-presidente do Potiguar – tratado pela imprensa e pelos amantes do alvirrubro como “eterno presidente”, é difícil não ficar um pouco lerdo, grogue. Mas, me refaço na luta cotidiana, confessando – por exemplo – que sou todo sentimento.

Não escrevo uma crônica para ele – Manoel. É, também, para Manoel. Escrevo para ficar mais leve. É para mim. Escrever é uma forma de libertação, uma terapia existencial, válvula de escape. O que me faz vivo. Inteiro.

Resgato imagens, que aleatoriamente emergiram nesta manhã, quando me fixei diante do computador para começar a trabalhar.

Lembro-me de abril de 2004, ano em que o Potiguar ganhou seu primeiro título estadual sob a presidência de Manoel. A alegria esperada por décadas, que empanzinou o Estádio Nogueirão de gente, catalizou multidões diante da TV para ver o segundo jogo decisivo em Natal (contra o América) e invadiu a Avenida Presidente Dutra para receber os campeões.

Lembro-me do trajeto pela BR-304 – Mossoró a Natal – e a visão em Lajes, com dezenas de ônibus, vans, carros particulares e gente aos montes, avisando que aquele sábado seria do Potiguar, em Natal.

Ah, as imagens!

Nas minhas digressões, com as palavras sendo disparadas a esmo, quase esqueci das imagens. A narrativa até aqui serve para ambientar, contextualizar e exumar a atmosfera daquelas horas e dias.

A primeira imagem: numa cabine de rádio no Estádio Machadão, quando a segunda partida estava finalizada e o Potiguar erguia a taça. Acorri àquele espaço de pequenas proporções para abraçar Lupércio Luiz, comentarista esportivo, mossoroense, torcedor do Potiguar. Ele estava agarrado a uma bandeira do alvirrubro. Chorava como menino.

A mim, Lupércio fez a confissão de uma ausência, diante de uma multidão que ‘invadiu’ Natal e o Machadão, tomando praticamente a metade dos lugares no estádio. Eram quase 15 mil pessoas no ‘caldeirão’ alvirrubro.

– Meu pai não viu o Potiguar ser campeão estadual, Carlos!

– Ele está vendo agora, por seus olhos, Lupércio – confortei-o.

A segunda imagem: em Mossoró (domingo, 18 de abril de 2004), com um sorriso contagiante entre os jogadores campeões e diante de uma multidão em êxtase, Manoel é o resumo de uma ópera popular em vermelho e branco. Seu sorriso é incessante. Apesar do burburinho, ele localiza-me em meio às milhares de pessoas e brada uma palavra que resume a sua própria essência generosa. Uma conquista que era muito sua, Manoel deixava que também fosse minha e nossa:

– Conseguimos!

Nota do Blog – Naquele campeonato inesquecível para os torcedores do Potiguar, a decisão foi em dois jogos. No primeiro, em Mossoró, o Potiguar fez 4 x 0 contra o América (dia 13 de abril) e no jogo seguinte (17 de abril), o time mossoroense – que poderia perder até por três gols de diferença que ainda  assim seria campeão, foi derrotado por 0 x 1 em Natal.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/04/2012 - 09:57h

Os livros nos escolhem!

Por Honório de Medeiros

Muito poucas foram as vezes em que entrei em uma livraria sabendo o que buscava. Ao contrário. A grande maioria das vezes entrei somente pelo prazer de entrar, de ver, de sentir o cheiro dos livros, de ouvir o murmúrio de outros apaixonados como eu para quem eles foram, desde sempre, um grande amor.

Poucas vezes saí sem nada nas mãos. Sempre – e isso é o que importa neste relato – fui buscado por algum ou alguns livros. Sim, porque são eles que nos escolhem.

Como poderia ser diferente se outra explicação não há para esse amor que surgiu quando minha mãe me colocava para dormir lendo estórias em quadrinhos do Pato Donald, enquanto nos balançava na rede, e, um dia, para sua surpresa, me pegou soletrando as sílabas?

Os livros dos meus vizinhos, abandonados, valeram-se de mim para saírem de sua solidão – em minha casa sequer Bíblia existia. Os livros, ah!, os livros, eles nos escolhem, e da minha infância para a meninice, lá estavam eles: “O Mundo da Criança”; “O Tesouro da Juventude”; e, depois, logo depois, Julio Verne, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Edgar Rice Burroughs, Karl May…

Pois bem, é como digo, os livros nos escolhem. Chegam a nós das mais estranhas maneiras, desde o presente de um amigo, que pensa ter acertado na escolha por um motivo qualquer, muito embora tenha acertado por outro totalmente diferente, a aquele decorrente do inexplicável oferecimento visual ocorrido quando, cansados de perambular pela livraria, nos sentamos em uma poltrona, a única vaga, e – como se fosse algo inesperado – aquele livro que nos escolheu aparece imediatamente no nosso campo visual. Não há como resistir.

Ele estava nos esperando. Agradecidos pela escolha pegamo-lo carinhosamente, e o folheamos, sentimos seu cheiro inigualável, sua textura, passamos uma vista d’olhos por suas páginas e o levamos conosco, ambos muito felizes. Assim aconteceu certa noite quando, em um aeroporto qualquer, aguardando a hora de embarcar e vagando pela livraria, já imaginando que daquela vez eu teria que me contentar com as revistas – fraco sucedâneo – meus olhos foram atraídos por “Os Devaneios do Caminhante Solitário”, de Rousseau!

Quantas e quantas vezes não falara acerca do “Contrato Social” para meus alunos de Filosofia do Direito, ao lhes explicar em que crença se fundava nosso fé no Ordenamento Jurídico enquanto expressão da Vontade Geral da Sociedade. Antes Rousseau que Niklas Luhmann.

Antes Rousseau, que dera um lavor inigualável à genial intuição de Protágoras de Abdera… Agora, ali, outra vertente desse mal-amado e original filósofo francês, me convidava a, com ela, travar conhecimento. Abri o livro ao acaso. Li o que se me ofereceu aos olhos: “É dessa época que posso datar minha total renúncia ao mundo e esse gosto vivo pela solidão que não me abandonou desde então.”

“Como?”, me indaguei, “Vila-Matas escreve toda uma obra, Doutor Pasavento”, em homenagem à arte de desaparecer, que é a face mais exposta da renúncia, usando como pano-de-fundo a história de Robert Walser, e não cita Rousseau?” Segurando firmemente o livro de Rousseau tomei o caminho que me conduzia ao caixa para compra-lo e, em seguida, feliz por ter sido escolhido, entrar no avião onde me esperavam algumas horas de voo e de leitura.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 08/04/2012 - 03:19h

Os holofotes que não me veem

Por Carlos Santos

O esporte nacional brasileiro não é o futebol, como muitos imaginam: é a ‘inveja’. Inveja-se não apenas o ‘ter’, mas também o ‘ser’. Daí vem a ira. Parte das depressões advém da mesma fonte.

Na rede social denominada de Facebook, por exemplo, virou mania reproduzir foto de celebridade que era pobre e descabelada e ficou rica e bonita. São punidas pelo sucesso. Pode?

Muitos esquecem que vários desses exemplares humanos apenas estão ‘caiados’ por fora, para que pareçam também belos por dentro. Faz parte do ‘show’. Precisam parecer melhores, verdadeiras divindades.

Mas, independentemente do que tenham de bonito por dentro, todos possuem o direito de melhorar por fora. Ou será que não é esse um exercício diário de cada um de nós, feios ou bonitos, diante do espelho?

Quem é ‘normal’ é assim: cuida da própria aparência físico-exterior. Os que pretendem ser melhores, priorizam o interior. E os dois zelos não são excludentes.

No fundo, essa atitude de condenação ao êxito alheio, é inconscientemente uma crise de identidade: não nos conformamos com a própria cara e biografia. É como se disséssemos que os holofotes estão apontados à pessoa errada.

“Olha eu aqui, ó! Por que não eu?”, rosna nosso ego ferido. A inveja latente, a mesma que levou Caim a eliminar Abel. Os dois, irmãos, eram paupérrimos e anônimos pastores de ovelhas.

Entre eles, onde não existia quase nada de bem material, havia a pior das pobrezas: a do espírito.

Caim não é um personagem bíblico. É um ser humano que habita muito de nós até hoje.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 25/03/2012 - 12:44h

Entre os mais ricos do mundo, um ‘excluído’

Por Armando Fuentes Aguirre (Catón)

Tenho a intenção de processar a revista “Fortune”, porque fui vítima de uma omissão inexplicável. Ela publicou uma lista dos homens mais ricos do mundo, e nesta lista eu não apareço. Aparecem: o sultão de Brunei, os herdeiros de Sam Walton e Mori Takichiro.

Incluem personalidades como a rainha Elizabeth da Inglaterra, Niarkos Stavros, e os mexicanos Carlos Slim e Emilio Azcarraga. Mas eu não sou mencionado na revista. E eu sou um homem rico, imensamente rico.

Como não?

Vou mostrar a vocês: Eu tenho vida, que eu recebi não sei porquê, e saúde, que conservo  não sei como. Eu tenho uma família, esposa adorável, que ao me entregar sua vida me deu o melhor para a minha; filhos maravilhosos, dos quais só recebi felicidades; e netos com os quais pratico uma nova e boa paternidade.

Eu tenho irmãos que são como meus amigos, e amigos que são como meus irmãos. Tenho pessoas que sinceramente me amam, apesar dos meus defeitos, e a quem amo apesar dos meus defeitos.

Tenho quatro leitores a cada dia para agradecer-lhes porque eles lêem o que eu mal escrevo.

Eu tenho uma casa, e nela muitos livros (minha esposa iria dizer que tenho muitos livros e entre eles uma casa).

Eu tenho um pouco do mundo na forma de um jardim, que todo ano me dá maçãs e que iria reduzir ainda mais a presença de Adão e Eva no Paraíso.

Eu tenho um cachorro que não vai dormir até que eu chegue, e que me recebe como se eu fosse o dono dos céus e da terra. Eu tenho olhos que vêem e ouvidos para ouvir, pés para andar e mãos que acariciam; cérebro que pensa coisas que já ocorreram a outros, mas que para mim não haviam ocorrido nunca.

Eu sou a herança comum dos homens: alegrias para apreciá-las e compaixão para irmanar-me aos irmãos que estão sofrendo. E eu tenho fé em Deus que vale para mim amor infinito.

Pode haver riquezas maiores do que a minha?

Por que, então, a revista “Fortune” não me colocou na lista dos homens mais ricos do planeta? E você, como se considera? Rico ou pobre?

Há pessoas pobres, mas tão pobres, que a única coisa que possuem é … DINHEIRO.”

Armando Fuentes Aguirre (Catón) é escritor mexicano

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Categoria(s): Crônica
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