Por Inácio Augusto Almeida
Coelho tinha acabado de pedir outra cerveja. Ageu abriu tendo antes o cuidado de enxugar a garrafa tal a quantidade de gelo que se formara.
– Cerveja só presta assim, bem gelada.
-É isso aí, Ageu. É por isso que eu só tomo cerveja no seu bar.
Luís, sentado num banco alto, debruçava-se sobre o balcão e observava a cena.
No fundo do bar, entre um copo de cerveja e outro de pinga, Valdemar buscava se embriagar.
Na televisão notícias sobre empreguismo de parentes e protegidos de políticos com salários absurdos. Todos não concursados. Notícias de sempre que não mais atraíam a atenção de ninguém.
Na calçada, pessoas iam e vinham, em passos lentos, desapressados, como se tudo estivesse a esperar por elas.
“Há quanto tempo estou para terminar a leitura daquele livro? Quando, pela última vez, fiz uma visita a um hospital ou a um abrigo de crianças?”
-É água que não acaba mais!
– O Nordeste é assim mesmo, Valdemar. Ou seco de estorricar ou com água capaz de afundar o barco de Noé.
– O barco de Noé, Coelho?
– Perto destas enchentes, aquilo que o Noé viu é chuvisco.
A risada foi geral. Até o Ageu, sempre preocupado em saber a despesa de cada um, riu.
Falavam das chuvas que caíam no Recife e estavam provocando enchentes e causando mortes.
Na televisão as imagens de casas desabando e carros sendo arrastados mostravam um quadro desolador que pouco tocou a sensibilidade daqueles que bebericavam numa manhã tão vazia quanto eles.
Coelho ajeitou-se melhor na cadeira e bebeu um pouco mais de cerveja. Sentiu que ela já não estava tão gelada.
“Há quanto tempo não escrevo para os amigos que estão no Maranhão e em Goiás? E a visita que eu tenho que fazer ao Padre Sátiro?
É… Por quê? Por quê?…”
– O que diabos o Coelho tem hoje que está tão calado?
– Vai ver, Ageu, ele “furou-se” no jogo de pôquer, disse Luís.
– Ah, isso eu duvido. Coelho perder no pôquer… Só se for muita zebra.
– Mas não esqueça, Ageu, que prego também tem seu dia de martelo..Por falar em Roberto, onde anda ele?
Foi a Brasília. Ele só vive lá e cá.
Coelho tudo ouviu e nada disse. Apenas mandou Ageu anotar na caderneta as cervejas que tomara e, despedindo-se de todos, seguiu pela Alberto Maranhão no rumo do centro da cidade.
“Tempo, tempo, tempo… Não tenho tempo para as coisas que preciso fazer.Tempo é o que me falta.”
Ouviu como que um grito:
Tempo é uma questão de preferência. Nós sempre temos tempo para coisas que gostamos de ler.
Riu. E balançando a cabeça decidiu terminar a leitura do livro, visitar o Padre Sátiro e escrever as cartas que tinha que escrever.
Faria tudo isto amanhã mesmo.
No outro dia, na hora de sempre, entrou no Bar do Ageu e pediu uma cerveja.
Em uma outra mesa, Coelho e Valdemar falavam de corrupção e impunidade.
Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor













































