sexta-feira - 21/01/2011 - 00:07h

Nau esperança

Relembro o poeta Gonçalves Dias em “Juca Pirama” para proclamar: “Meninos, eu vi”. Testemunhei duas enchentes épicas em Mossoró. Dois quadros, duas visões.

Rua Jerônimo Rosado virou um marzão (Foto: origem não identificada)

Rua Jerônimo Rosado virou um marzão (Foto: origem não identificada)

Em uma delas fui desalojado pela enxurrada; de outra resultou meu alojamento, de forma indireta, numa paixão: o jornalismo.

Vou contar o primeiro caso. Depois, quem sabe, abordo o outro, acontecido em 1985.

Situo-me em 1974. Estou nos arrabaldes do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, Centro de Mossoró. Assisto o rio Mossoró banhar lentamente a rua Jerônimo Rosado, escalar as escadarias do adro desse templo e ocupar nossa casa sem resistência.

Sua água barrenta e devastadora produzia cenas incomuns aos meus olhos infantis: Homens com calças arregaçadas, outras crianças a nado, caminhões ou simples carroças transportando móveis e picuás da vizinhança.

A chuva incessante que engordou o rio nos empurrou para fora com a força de quem manda, sem pedir licença. Um poder onipotente. Mesmo assim, a água que quase batia à cintura de muitos ali bem em frente, me divertia, sem que eu soubesse medir os estragos ou pressentir os desdobramentos da cheia.

Sapos apareciam aos montes, como se fora reprodução de uma das dez pragas do Egito. Multiplicavam-se aos milhares, fazendo do enorme quintal uma Normandia no Dia D, só para anfíbios. Uma cena grotesca que nunca mais vi se repetir.

Canoas e pequenas lanchas navegavam à nossa frente; o rádio ligado noticiava a ampliação territorial do rio Mossoró. Estávamos ilhados, acuados, a cada dia.

O burburinho na rua e o alagamento continuado não me afligiam. A imagem diluviana era acima de tudo encantadora à minha avaliação limitada. Cinematográfica. Estimulava a imaginação cheia de aventuras e super-heróis da TV e quadrinhos.

Ruas, praças e avenidas estavam transformadas num marzão. Uma via só. Fluvial. Quase amazônica.

Só me toquei do pior com a convocação final: “Arrume suas coisas. Amanhã cedinho a gente vai embora”. Partimos para nunca mais voltarmos àquele endereço.

Lá ficou uma parte de minha infância e inocência: a pequena pracinha de seu João Cantídio, nosso Colégio Dom Bosco a tão poucos passos.

Para trás o presépio de Maria de Uriel, miniatura bíblica cheia de vida em todo Natal; a casa acolhedora de dona Fefita e seus netos, todos meus amigos, que vez por outra me convocavam para tumultuar seu sossego.

A padaria de seu Eliseu Costa e dona Julita nunca mais seriam meu endereço de fim de tarde. Seus pães e bolos deliciosos, enrolados com técnica apurada em papel madeira, continuam em meus olhos, olfato e paladar. Memória sensorial.

As confrarias noturnas à calçada, com o tititi do dia, quase sempre vetadas à presença de crianças curiosas, continuam gravadas. As famílias pareciam uma só, sem o temor da violência urbana, sem as aflições psicossociais deste século XXI.

Vários nomes e lugares mantêm-se memorizados, outros se dispersaram com o tempo, mesmo que a imagem deles, ainda turva, pulule até hoje em minha mente.

Vejo o casal Izete-Raílton; Moisés dos Portões, padre Américo Simonetti e suas concorridas missas no Coração de Jesus; o tenente e delegado Clodoaldo Meira aboletado num Jeep aterrorizando quem teimava em jogar bola na área, pronto para picotar a pelota.

A senhora Júlia Menezes absorta; as irmãs Ilná e Alaíde Nascimento; minha “Maura” sempre loquaz, festiva e amante da prosa com Nadir Brasil e tantos amigos e amigas. A professora exemplar Dagmar Filgueira e a serenidade do senhor Trajano Filgueira.

O sítio “Pica-pau” no beiço do rio; o Cine Cid tão perto e a lenda de que em seu subsolo existia uma baleia. Com chuva ou sol, enchente ou não, o barulho que vinha de lá nos fazia acreditar nesse “Moby Dick” subterrâneo, enredo que caberia numa aventura escrita por Júlio Verne.

Por aquele pequeno portão gradeado de ferro da casa em que eu morava, de batente alto, soltei meu barquinho tosco, de papel. Vi-o flutuar nas águas por alguns minutos, até que desaparecesse.

Só muito tempo depois descobri que “navegar é preciso”. Minha nau frágil, não tripulada, era também esperança.

Buscava outro porto seguro além-mar.

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sexta-feira - 31/12/2010 - 12:28h
Para 2011

O primeiro dos melhores anos de nossa vida

(…) Este é o exemplo da vida,
para quem não quer compreender:
Nós devemos ser o que somos,
ter aquilo que bem merecer.
(Estrada da Vida, Milionário e José Rico, letra de Jair Cabral)

Impossível não desabar em lugares-comuns no último dia do ano. Em qualquer direção que olhamos nos deparamos com obviedades.

E daí?

Que seja óbvio, desde que sincero.

Já fui preso ao dogmatismo do alheamento, o “tô nem aí”, “tanto faz”, “é um dia como outro qualquer…”

Mas já flertei também com a conversão à data. Vesti-me de branco, fechei os olhos e, compungidamente, pedi “saúde e paz, Senhor!”

Fiz planos e mandei o ano velho “vazar”. Chorei, confesso. Perdi o fôlego. Vi gente sumir. Olhei pro céu infinito e agradeci.

O que sou hoje?

Um pouco disso tudo, fruto de uma vivência que oscila entre os extremos para chegar à moderação.

Não foram os livros de auto-ajuda, um volver na direção de minha fé ecumênica ou alguém que transformou a visão desse tudo, que tenho agora, neste 31 de dezembro de 2010.

Há uma carga de vida vivida, vida louca, vida intensa; vida por viver. Há falta, tenho lacunas. Há vida a preencher.

Nesse pedaço de dia, filigrana na linha do tempo histórico, não há o que satanizar ou incensar. Mesmo assim não estou sentado, vendo a banda passar – “tocando coisas de amor”, como diz Chico Buarque.

Começo o inventário do ano. Borbulham planos. Rabisco metas. Nem otimista nem pessimista: realista. Cartesiano.

Iemanjá, não espere minhas oferendas.

Vem aí o primeiro dos melhores anos de nossa vida.

Feliz 2011!

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quarta-feira - 24/11/2010 - 19:13h

A “metrópole” do livro “no metro” e seus valores fúteis

 

Por Carlos Santos

Como são estúpidos os parâmetros que o grosso da sociedade mossoroense tem adotado, para dimensionar sua ascensão social. Tudo baseado na superficialidade e babaquice do “parece ter”.

Estamos medindo esse novo status nos prédios que sobem, nos milhares de carros que invadem ruas, avenidas e ocupam até calçadas. Naqueles que muitas vezes para subir, precisam descer aos subterrâneos.

Ontem eu tive mais um testemunho do atraso e da distância em que nos encontramos, da inversão de valores e confusão em que nos metemos, em nome do hipotético progresso.

Fuçando livros em um sebo, seu proprietário me fez um relato que fica entre o bizarro e o jocoso. Vamos a ele.

Há algum tempo, esse sebista foi procurado por uma “nova rica”, interessada em comprar “um metro de livro”. Isso mesmo. Não era um título específico, coleção ou tomo de encadernamento especial. Tinha que ser no metro, sim.

Explico, reproduzindo o que ouvi: a deslumbrada precisava preencher um espaço em estante desenhada por sua arquiteta, sendo recomendada a colocar livros com a mesma dimensão estética. O espaço disponível pro “enfeite”? Um metro. Um metro de livros simetricamente alinhados.

Mossoró, até o início do século passado, vivia a influência europeia do movimento conhecido como “art nouveau” – daí nascendo até a corruptela de sua área de prostituição, transformada em “Alto do Louvor”, décadas depois.

Era uma cidade com requintes em roupas, moveis, arquitetura, mas também na cultura, desde o teatro ao hábito da leitura e música. Tínhamos cerca de 100 pianos. E as moças bem educadas tocavam. Eles não serviam apenas de ornamento na decoração.

Falar francês era normal para os jovens de ótima extração. Muitos eram poliglotas. Os janotas transitavam sempre impecáveis e ser rico, em verdade, era transformar dinheiro em bem-estar e referência de conteúdo.

Hoje testemunhamos a “Metrópole do Futuro” exultante com seu “crescimento” baseado em carrões pra exibição, TV de LCD e home-theater na sala do apartamento, gente mal-educada saracoteando ao som de “lapada na rachada” e enchendo  sacolas com bugigangas de grife.

Os que se salvam dessa manada são tratados como estranhos e afetados, ou seja, anormais.

Portanto não é por acaso que da atividade produtiva à política, estejamos “dominados” pela ignorância que mesmo rica, não reluz.  É opaca ou furta-cor, mas certamente abobalhada e fútil.

Empobrecemos, em verdade, porque na ânsia de ser diferente, a grande maioria é apenas mais um  nessa multidão pasteurizada, uniforme, feita em escala industrial: modelo standart. Faz da aparência a sua essência, da borra cosmética a sua alma.

Acredita que Paris é “a cidade luz” por ser muito iluminada; toma Old Parr com Coca-cola, mas preferia um legítimo “Odete”, por ser mais barato.

A propósito, bota uma bicada de Serra Limpa aí, amigo. O sertão é aqui.

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terça-feira - 05/02/2008 - 02:21h

Muito longe da mitologia e de Argos

Uma série de webleitores indaga-me: “Você não dorme?”

Pareço insone, perturbado psiquicamente. A segunda hipótese é possível, a primeira pode descartar. Por enquanto sou quase normal. “O inferno são os outros”, diria Sartre. Pode ser. Faço o “mea culpa”, sem o complexo de transferência de pecados.

Durmo muito bem, não muito. Já li bastante sobre o assunto e é algo consensual: cada indivíduo tem metabolismo próprio, com cada organismo estabelecendo sua necessidade de repouso.

Eu não preciso mais do que cinco ou seis horas/dia (preferencialmente à noite) de sono. Deslizo serenamente na cama ou rede.

Com o computador sempre à mão, uma rede de contatos que me acessam sobretudo através de e-mails e torpedos telefônicos, é possível ter um razoável leque de informações. A maior parte do tempo à postagem de matérias, comentários ou abobrinhas mesmo, levo no processo seletivo e revisão. Nem sempre publico o que parece importante e, sim, o interessante e até burlesco.

Não posso me desculpar nas desavenças com o vernáculo, jogando a responsabilidade no “revisor” ou em algum webmaster, diagramador etc. Eu sou culpado de tudo. “Eu sou o Blog do Carlos Santos“, proclamo à la Luís XIV. Outra vez escalo Jean-Paul Sartre: “Estamos sós e sem desculpas.”

Quanto às madrugadas produtivas, não significam que eu tenha suprimido o sono necessário. O normal é trabalhar muito, para me tornar um refém voluntário do travesseiro.

TECNOLOGIA

Como há tempos me desvencilhei do hábito, diarista, da imersão na vódca e no uísque, não tenho empecilhos maiores. Não faço o tipo geração saúde, com cuidados pernósticos. É-me necessário fazer o que gosto, a meu modo. Isso tem sido possível.

A alta tecnologia que me assustou no início, revelando traços de tecnofobia, hoje é minha aliada. Deixou de ser esfinge. Entretanto continua como descoberta permanente. Daí, talvez, o segredo por essa crescente paixão que resulta em profunda dedicação ao Blog, com resultados empolgantes.

Tenho conseguido uma considerável interação com o leitor. Webleitor, como se diz. No início identifiquei um certo temor, muita observação sem interveniência. Você tem perdido a inibição e participado com naturalidade de nossa produção diária com críticas, sugestões, aplausos, censuras etc.  Seria impossível tamanho desempenho sem essa parceria, uma troca mútua vitoriosa.

Então, espero ter desmitificado a crença de que não durmo. De que seria um vigilante da notícia 24 horas/dia. Não detenho a capacidade do mitológico Argos. Segundo os gregos, ele possuía 100 olhos, sempre se resguardando com 50 deles abertos.

Bom-dia. Acorda! Já estou de pé há tempos. Vamos à luta.

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Categoria(s): Crônica
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