sexta-feira - 06/10/2017 - 14:08h
Opinião

Paticracia

Por François Silvestre

É a democracia dos patifes.

Um congresso com mais de um terço sob suspeição ou indiciamento de corrupção, chantagem e propinoduto, ousa mexer, e já mexeu, na legislação trabalhista.

Arrombaram o erário com a corrupção, estrangularam a previdência com fraudes, e dizem que vão salvá-la cobrando dos aposentados, reformando-a.

Acham pouco e querem acabar a estabilidade no serviço público.

O “ilustríssimo” relator da matéria diz que “o projeto permite qualificar o serviço público”. E cadê o projeto de qualificação do senado, inclusive do “ilustre” relator?

O congresso paticrático achou pouco e quer restaurar a censura prévia, sob a cavilosa mentira de controle da internet.

Nós merecemos essa gente!

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terça-feira - 03/10/2017 - 18:02h
Opinião

Candidaturas avulsas…

Por François Silvestre

…e voto facultativo Já.

Enquanto o baixo nível político nacional não ousa mudar nada, nem nas beiradas, urge uma iniciativa popular de emenda constitucional.

Estabelecer candidaturas avulsas e acabar o voto obrigatório. Não precisa acabar os partidos. Nem as eleições.

Os partidos que se moralizem e disputem votos com os candidatos avulsos. E esses consigam tirar os eleitores de casa, com o voto facultativo.

Essa será uma reforma preparatória de nova ordem institucional. Ou então é continuar a roubalheira, a safadeza, a cretinice e a empulhação.

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domingo - 01/10/2017 - 09:13h

O único invencível

Por François Silvestre

Numa cidade alemã, desenvolvida e de médio porte, havia dois colégios renomados. Um deles, laico. O outro, presbiteriano, cujo Reitor tinha a fama de intransigente em matéria de fé.

Esse Reitor vivia às turras com o melhor alfaiate da Cidade. O costureiro, culto e ateu, zombava das opiniões do Reitor. No único jornal do lugar, os dois trocavam farpas e ironias.

Pessoalmente, tratavam-se com sociabilidade. Havia entre eles um respeito reverencial. Mesmo que nenhum poupasse do outro uma irreverência teórica. Um gostinho áspero de provocação.

O presbítero possuía uma razoável cultura humanística, com forte alicerce calvinista. O alfaiate era leitor dos clássicos, cujo ateísmo tinha suporte no anarquismo empírico. Não militava politicamente, mas não se negava a expor abertamente sua franca oposição à burguesia alemã e a todas as denominações religiosas.

E assim eles viviam e conviviam numa comunidade sossegada, de uma cidade média da Alemanha do Século Dezenove.

Início de ano letivo, o presbítero Reitor vai conferindo a lista dos candidatos à matrícula no colégio que dirigia. Um nome lhe chama à curiosidade. Ou melhor, um sobrenome.

Ele percebeu que um dos candidatos carregava o nome de família do alfaiate ateu. Não quis acreditar. Até porque o colégio laico da Cidade era reconhecidamente de excelente qualidade. Reconhecido até pelo colégio concorrente. E por todos daquela comunidade.

O que fez? Determinou à secretaria da escola que encaminhasse o aluno pretendente à sua sala. E assim foi feito. Ao conversar com o jovem descobriu que ele era mesmo filho do seu oponente ateu.

Não teve dúvida. Resolveu procurar o alfaiate para esclarecer aquela decisão.

O desafeto estava na alfaiataria, costurando uma peça, quando chega o Reitor do colégio presbiteriano. Cumprimentou-o e ofereceu-lhe uma cadeira.

“Seu filho foi matriculado no “meu” colégio. A quem se deve essa decisão; porque não deve ter sido sua, foi dele”? O alfaiate, deliciando-se com aquela pergunta, respondeu: “Foi decisão minha. Ele queria ir para o outro colégio”.

O reitor questionou: “Pois fique sabendo que faremos tudo para que ele conheça Deus e O conheça bem”.

O alfaiate respondeu, rindo: “É isso mesmo que eu quero e espero que você seja competente nisso; pois o homem precisa conhecer, em profundidade, aquilo que vai combater”.

Quanto mais perigoso e detestável o inimigo, mais é preciso conhecê-lo. E torcer para que ele não o conheça. O conhecido é alvo fácil. Ou menos difícil, pelo menos.

Esse relato consta da obra de Eugen Rosenstock-Huessy, sobre a origem da linguagem. O pensador alemão, de origem judaica, aderiu ao cristianismo ainda jovem. Dedicou-se ao estudo profundo, sistemático, da linguagem.

Demonstra, nessa obra, que o conhecimento da língua é passo necessário para desvendar os mistérios da evolução humana. “Apalavra Deus, de sua origem no pré-semítico com significado no sânscrito, não significa aquele que cria, mas aquele que fala”. O princípio era o verbo.

O único invencível é o desconhecido. Té mais.

François Silvestre é escritor

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quinta-feira - 28/09/2017 - 07:28h
Governo Robinóquio"

Menti num discurso…

Por François Silvestre

..e menti escandalosamente. Não foi num discurso de campanha eleitoral. Nem nos da Casa do Estudante. Menos ainda nos pronunciamentos do meio da rua, na missa de Edson Luiz, ou nos batentes da vetusta Faculdade de Direito. Ou nos distritos das grotas, dessa terra de miseráveis.

E a pior miséria não é a do povo. É a miséria moral de um governo desprovido de qualquer respeito. Desrespeitado por si mesmo. Pela mentira dos que o fazem.

Qual foi esse discurso?

O que fiz para a posse do governador Robinson Faria (PSD). Naquele dia, num restaurante que nunca frequentara, onde nunca estive depois, um garçom trouxe folhas de papel, nas quais anotei todas as promessas do governador eleito, em quem eu não votara.

Mas, após ouvi-lo eu disse: “Se você cumprir dez por cento do que está dizendo, prometendo, já será um grande governo. E eu sinto-me na obrigação de arrepender-me do meu voto”.

Um assessor, chamado “Beleza”, me repreendeu: “Esse é o mal de vocês. Vamos fazer um governo cem por cento”.

Menti num discurso que fiz com entusiasmo. E nunca pensei que o governo seria o condutor de meias verdades,  mentiras completas e percentuais do dever.

“Beleza” caiu pouco tempo depois, envolvido em friúras no próprio cargo.

Tenho vergonha daquele discurso. O único de que me envergonho.

Mas o governo não se envergonha de todo mês anunciar percentuais “inovadores” de mentiras escancaradas.

O governo Robinóquio e seus Gepetos de caras ensebadas. E haja sebo no nariz de madeira que cresce…

Nota do Blog Carlos Santos – O que me intriga, hoje, é saber quem estaria escrevendo para ele nesses tempos, depois da pré-mentira.

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terça-feira - 26/09/2017 - 18:20h
A pátria adiada

O último rei dos canalhas

Por François Silvestre

Juscelino Kubitschek foi o último governo que tivemos. O último rei legítimo dos canalhas, como o definiu David Nasser, na primeira página da Revista “O Cruzeiro”.

Depois dele um farsante, Jânio Quadros, ditador frustrado.

Juscelino: o presidente (Foto:arquivo)

Depois, um latifundiário populista, Jango, vendendo reforma agrária.

Aí vieram os políticos recalcados da caserna. Castelo Branco, figura parda de uma “Sorbonne” de coturnos. “O anjo da rua Conde Laje”, na definição de Lacerda.

Costa e Silva, preterido por Jânio numa promoção de mérito, pelo crime de ter ficado ao lado de Lott, na tentativa de golpe da UDN. Depois vingou-se, cassando Jânio e Lacerda.

Médici, comandante da AMAM, Academia Militar das Agulhas Negras, em 1963, mandou a um dos dos grupos em confronto, o recado: “Aqui vocês não têm nem pão nem água”.

Geisel, discípulo e mestre da “Sorbonne”, aprendeu com Golbery do Couto e Silva, mestre em conspiração, e ensinou a João Figueiredo, filho do Coronel Euclides Figueiredo, opositor e perseguido pela ditadura Vargas.

Depois, a lástima da farsa abocanhou as últimas fibras da tragédia. Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma e Temer.

De todos esses todos, o último rei dos canalhas, JK, ainda não teve substituto. Faria, após 1965, a maior revolução agrícola do país. Seríamos o celeiro fornecedor do mundo.

Com que currículo?

Com a experiência de ter tirado o Brasil da manufatura rural para o desenvolvimento. Esse crime não foi perdoado pelo recalque dos representantes do atraso, da esquerda à direita. Nem pelos perdedores contumazes de eleições.

Não precisamos de salvadores da pátria.

Precisamos de canalhas honestos, criado es, entusiastas e construtores de uma pátria adiada.

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domingo - 24/09/2017 - 08:10h

O Exército politizado

Por François Silvestre

O ocaso do Estado Novo, a inclusão do Brasil no rol dos combatentes aliados, a expectativa de liberdades democráticas, num processo irreversível de redemocratização criaram no intestino das Forças Armadas um clima de confronto ideológico.

Tudo isso acentuado após o fim da Segunda Guerra. O Exército brasileiro, agente ativo de todas as mobilizações políticas desde a proclamação da República, torna-se, no fim dos anos Quarenta, e nas décadas seguintes, um conglomerado político e politizado. E como é da essência política, dividido.

A divisão da caserna, nesse quadro, guardava contornos típicos de uma agremiação partidária heterogênea. Duas alas, antes restrita ao Clube Militar, assumiam suas posições conflitantes, com influência na vida político-partidária do país.

Uma ala à direita, sob a liderança do general Canrobert Pereira da Costa, e outra à esquerda, liderada pelo general Estillac Leal.

Em três de Outubro de 1955, ocorrem as eleições para presidente e vice-presidente da República. O voto não era vinculado, cada cargo tinha disputa independente. Disputaram a presidência Juscelino Kubistchek, Juarez Távora, Adhemar de Barros e Plínio Salgado. Para vice-presidente eram candidatos João Goulart, Milton Campos e Danton Coelho.

Juscelino e Jango foram os vencedores. A UDN, sob a liderança de Lacerda e Afonso Arinos, induziram o presidente Café Filho a não dar posse aos eleitos. Sob a alegação de que JK não obtivera mais de cinquenta por cento dos votos. A lei de então não continha essa exigência, e a Justiça eleitoral não considerou procedente o esperneio da UDN.

No último dia de Outubro, morre o general Canrobert Pereira da Costa, líder da ala direita do Exército. Estillac Leal morrera antes das eleições. No sepultamento de Canrobert, na presença do Ministro da Guerra, general Lott, o coronel Bizarria Mamede (general em 64) faz um discurso político, exigindo novas eleições e negando a posse dos eleitos.

Nas memórias de Lott ele conta que não prendeu Mamede, naquele momento, por respeito à família do morto. Mas cobrou do presidente Café a punição do coronel.

Sob pressão Café “adoeceu”, internou-se e passou a presidência a Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados. Lott pediu audiência ao interino para cumprir a punição de Mamede. Após duas horas de espera, na antessala da presidência, Carlos Luz recebeu Lott e desautorizou a punição. “Não há nada nem ninguém para ser punido”.

Lott pediu demissão. Carlos Luz aceitou e cometeu o erro de adiar a posse do novo ministro.

Já em casa, o general Lott comunica-se, por um rádio de campanha, com o colega Odílio Denys. Conta o ocorrido. O general Denys pergunta quem era o novo ministro. Lott responde que não sabia e que a posse do mesmo ficara para o dia seguinte. Odílio Denys orienta: “Então você ainda é o Ministro. Sua saída será o desrespeito ao resultado das eleições. Os eleitos não tomarão posse”.

Lott pôs os tanques na rua, depôs Carlos Luz e colocou na presidência o presidente do Senado, Nereu Ramos. Mamede foi punido.

A UDN articulou a volta de Café à presidência, pois o mesmo declarara-se “curado”. Teixeira Lott cercou o apartamento de Café Filho, em Copacabana, e declarou que ele continuava “doente”.

Em primeiro de Janeiro de 1956, Juscelino e Jango tomaram posse. No início do governo JK sofreu duas tentativas de golpes, Jacareacanga e Aragarças. Mas isso é outra história. Té mais.

François Silvestre é escritor

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sexta-feira - 22/09/2017 - 15:48h
Opinião

A necessidade da política

Por François Silvestre

“A arte é necessária; não sei pra quê, mas é”, disse Ernst Fischer. Assim pode-se dizer o mesmo da política.

É bem verdade que aqui não se fala de política estritamente eleitoral, partidária ou participativa. Essa sim, pode ser descartada pela vontade ou enfado. Porém, a política, no sentido amplo do conviver familiar ou social, está presente de forma tão indispensável que nem notamos.

Da mesma forma que não percebemos o ar ao respirarmos. Só sentimos sua falta no afogamento ou na asma.

Politizar-se é uma forma de aprimoramento da dignidade. Seja pela participação ostensiva ou pelo simples observar conscientemente. E essa observação consciente se dá pela crítica.

A crítica é o mecanismo instrutivo que liberta. Da lição de Karl Marx: “A crítica não pretende enfeitar as grades, com flores, para atenuar o cárcere. Mas quebrá-las, para a colheita da flor viva”. Inclusive para quebrar amarras ideológicas.

Marx não era marxista.

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quarta-feira - 20/09/2017 - 21:30h
Brasil

Intervenção militar, chance zero

Por François Silvestre

Sobre declarações da “caserna” insinuando possibilidade de intervenção militar, a chance, na realidade atual, é zero. Vejamos:

Primeiro: O golpe militar de 1964, com apoio de civis rechaçados nas urnas, teve a liderança de militares com participação política desde os anos Vinte. Tenentes dos anos Trinta, coronéis dos anos Quarenta e generais dos anos Sessenta. Politizados e politicados.

Os militares de hoje são neófitos de política, ilustres desconhecidos.

Profissionais da caserna, o que é elogiável e saudável para a Democracia. E trazem nos coturnos a mácula do fracasso do regime militar. Sob todos os aspectos.

Segundo: O golpe militar de 64 ocorreu num quadro internacional de estratégia de dominação, entre os Estados Unidos e União Soviética, após a partilha do planeta decorrente da guerra contra o nazi-fascismo. A União Soviética mantinha as ditaduras do Leste europeu, no seu feudo, e os Estados Unidos sustentavam as ditaduras da América Latina, na dominação do seu quintal.

O susto de Cuba deu ao imperialismo americano o alerta de não medir esforços para evitar novos aliados dos soviéticos no continente americano. Foi o pretexto para milicos e udenistas do Brasil, com a colaboração de um embaixador fascista, Lincoln Gordon, convencer o governo americano a apoiar financeiramente o golpe, e militarmente, se necessário. Só precisou de grana.

O fantasma do comunismo, no Brasil, era só fantasma mesmo. O general Amauri Kruel, comandante do Segundo Exército, de São Paulo, compadre de Jango, foi comprado por duzentos mil dólares.

Terceiro: A última coisa que os Estados Unidos querem, hoje, é financiar ditaduras na América Latina. Sem esse apoio, as Forças Armadas não têm chace de intervenção. Não conseguem nem assustar os traficantes das favelas. Vão pras ruas e as ruas continuam sem controle.

Quarto: O medo de uma intervenção não é inconsequente. Só que não das Forças Armadas, mas a intervenção das forças das organizações criminosas. Das facções de delinquentes. Essas já começaram a intervenção. Sem resposta do poder político e sem ação efetiva das Forças Armadas.

Esse medo é procedente e começa a esgarçar a Democracia.

O resto é discurso do oco do miolo do vazio.

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terça-feira - 19/09/2017 - 20:40h
Opinião

Teoria do pré-povo…

Por François Silvestre

…e da pré-humanidade.

Se a disputa pela presidência do Brasil for entre Lula versus Bolsonaro, fica provada minha teoria de que o Brasil ainda não tem um povo.

Somos apenas um pré-povo.

Assim também ocorre a comprovação de que não somos a humanidade, mas apenas a pré-humanidade, quando o mundo hoje oscila entre Trump versus Kim Jong-un.

Desse silogismo do grau lógico, do antigo pensamento formal, podemos concluir que o Brasil tem um pré-povo e o mundo uma pré-humanidade.

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domingo - 17/09/2017 - 09:14h

Pátria de taipa

Por François Silvestre

Até a lama, no Brasil, é plural. Alcança proa e popa. E corre conforme o curso das margens do rio que tudo arrasta; sobre as quais ninguém diz violentas, como ensinou Bertolt Brecht, e só acusa de violento o próprio rio. Nesse vasto leito há lamas para todos os sentidos.

Em Natal há uma família que tem o sobrenome plural de lama. Os Lamas. Tradicional clã; no mundo empresarial, cultural e esportivo da Cidade. Figuras marcantes da vida de Natal. Nada a ver com as outras lamas.

Nem com a lama da natureza. Talvez com os Lamas do Concelho de Braga, em Portugal. (concelho com “c”, correspondente a município, pá) Que nos leva ao Café Lamas, do Rio de Janeiro.

O texto é sobre dois tipos “especiais” de lama. O primeiro, a lama da natureza, que se faz da mistura de água com barro. A lama necessária e indispensável. Muito mais do que o mito hebraico da criação e nomeação adâmicas.

A mistura de barro e água na feitura da casa de taipa. Não a taipa portuguesa, da feitura ibérica. Refiro-me à moradia do Nordeste, arquitetura ímpar. Sala da frente, corredor estreito, cozinha, quarto de dormir, quarto dos filhos, pequena despensa, e latada na frente.

Armação das paredes com mourões de pereiro, estacas de mororós e varas de marmeleiros. Montado o esqueleto da casa, com as varas entrelaçadas entre as estacas, o jogar da lama de barro, umedecido, ainda meio mole, entre as frestas das varas. De forma que essa mistura feito lama vai ocupando os espaços e tapando os buracos.

São os tijolos que saem das mãos do obreiro, sem ter a forma de tijolos. São mãozadas de lama, em rebolos, que vão virando paredes.

Até que a casa se feche. Vedada e segura. Só aí se faz a latada. De barro batido, no piso, para ser lugar de reunião e festa. Coberta de palha, que pode ser da carnaúba, do catolé, do coqueiro ou até da rama de oiticica. Depende da franquia do lugar. O resto da casa cobre-se com telhas.

Ali se reúnem parentes e vizinhos. Toque de fole ou cantoria de violeiros. Cego Aderaldo inventando Zé pretinho. Pinto do Monteiro desafiando Inácio da Catingueira. Zé Limeira dando à mulher do governador um quilo de merda de raposa numa casca de cana piojota.

É dessa lama que se fazem os açudes. Água e barro também, carregada no lombo de jumentos. Antes dos jumentos serem habitantes abandonados das estradas.

A lama que desce das barragens arrombadas de Mariana, mais antiga cidade de Minas, não é culpa da lama. E sim do lamaçal em que se transforma o Brasil, país de taipa. Sem latada.

A outra lama, pior de todas, é a que escorre fedida nos esgotos do poder. E aí somos nós que viramos jumentos, habitantes e deserdados na vastidão do lamaçal. Não há lavanderia ou lavajato que espante essa lama, feitora da nossa pátria de taipa. Té mais.

François Silvestre é escritor

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sexta-feira - 15/09/2017 - 20:34h
Opinião

O Código de Mussolini

Por François Silvestre

Todos os que viveram, nas épocas do Direito como referência da segurança jurídica, lembram do Código de Napoleão. Não que fosse obra intelectiva de Napoleão Bonaparte, mas por ter estabelecido as regras da vida civil, no Código Civil francês, exatamente no período napoleônico.

Há uma afirmação do general corso de que fora esse código sua única obra imortal. Mesmo sem prova concreta dessa afirmação, ela guarda uma verdade histórica. E não está posta no Arco do Triunfo, onde se expõem os feitos heroicos de Napoleão.

Qual código rege hoje o orgulho jurídico do Brasil? Escrito, código nenhum.

Mas há um Código Atual Brasileiro, não escrito, que paira sobre todos os códigos escritos. Sobre e acima da Constituição da cidadania avacalhada.

Constituição nascida no frevo da demagogia e mãe generosa das castas empanzinadas de privilégios. E no esgoto do privilégio escorreu e escorre a corrupção.

Até os seus combatentes precisam dela, corrupção, para justificar seus privilégios.

Estamos sob a égide do Código de Mussolini. Esse bufão não codificou a vida civil do seu país, mas fez escola na mais memorável desgraça da condição humana.

É esse o nosso Código vigente.

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quarta-feira - 13/09/2017 - 16:42h
Opinião

O belo voto de “um juiz de merda”

Por François Silvestre

O Ministro decano do Supremo Tribunal Federal (STF) proferiu hoje um voto louvável. Profundo e recheado de informações jusfilosóficas, como do seu hábito, pomposo e belo.

O nome dele é Celso de Melo.

Nunca foi juiz, antes de chegar ao Supremo. Isto é, não é juiz de carreira. É do carreirismo do judiciário distante da Magistratura. Dos quadros do Ministério Público, seu voto é recheado de informações depreciativas sobre quem ousou criticar esse órgão ministerial.

Celso: Sarney sem voto (Foto: STF)

Como chegou ele ao Supremo? Vou contar. Não por conhecimento original meu, mas por quem o colocou no Supremo.

Celso de Melo era um jovem promotor, que Saulo Ramos, advogado do escritório de Vicente Rao e Frederico Marques, levou para a Advocacia da União no governo de José Sarney. Saulo Ramos, advogado de estrelas, inclusive de Roberto Carlos, convenceu Sarney a indicá-lo para o Supremo.

Sarney argumentou que ele era muito jovem. Saulo Ramos argumentou que se ele não fosse indicado naquele momento, na vaga do quinto constitucional do Ministério Público, nunca mais chegaria ao Supremo. Sarney indicou e o nomeou.

Tempos depois, o ex-presidente Sarney, desgastado no Maranhão, decidiu ser senador pelo Amapá. A impugnação de sua candidatura chegou ao Supremo.

Na véspera do julgamento, um jornal paulista deu uma nota informando que Sarney tinha um voto certo. O voto de Celso de Melo. No dia do julgamento, quando chegou a vez de Celso de Melo votar, Sarney já estava vitorioso.

Ele votou contra seus dois padrinhos, Saulo Ramos e Sarney, apoiando a impugnação.

Independência? Não. Safadeza. Naquela madruga, ele, Celso de Melo, ligou para Saulo Ramos e informou: “Professor, o presidente foi vitorioso. Votei contra porque a decisão já estava definida e eu precisei desmentir o jornal de São Paulo; caso contrário teria votado a favor”.

Saulo Ramos pergunta: “Quer dizer que seu voto seria outro, se o resultado chegasse a você de outra forma”? Celso de Melo confirma: “Sim senhor”.

E Saulo Ramos encerra: “Então você é um juiz de merda, que eu pus aí”.

Isso está no livro “Código da Vida”, memórias de Saulo Ramos.

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terça-feira - 12/09/2017 - 18:54h
Reflexão

Facínora frase

Por François Silvestre

Disse Temer:

“No brasil, são facínoras que roubam e é cada um querendo derrubar o outro”.

No caso de Temer há uma diferença: Foi cada um querendo derrubar a outra.

Facínora é comum de dois gêneros, basta o artigo definido, mesmo entre os indefinidos.

Só definem-se ao serem flagrados. Aí delatam, choram, esperneiam-se e se acomodam.

O dinheiro roubado some.

O que volta é apenas gorjeta ao povo garçom.

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domingo - 10/09/2017 - 09:14h

A paranoia da honestidade

Por François Silvestre

Somos todos honestos fugindo dos ladrões. Somos todos ladrões fugindo dos honestos. Onde reside o endereço da fuga? Em que lugar dessa terra dá pra se armar uma tenda sem endereço, fugindo de notificações, intimações, citações.

Num sopé de gruta, com pedras listadas de cinza, restos de maravalha, galhos de trapiá, piado de morcegos, cheiro de saudade, afago da solidão, barulho suave do escorrer dos restos da última neblina, escavado nas folhas secas da jitirana de um calango assustado, passos de feirantes tristes, vindos de uma feira de misérias.

A cangalha abandonada num banco de perna quebrada, restos de arreios guardados numa brecha da soleira, o trinado do cancão avisando que vai furtar, o sol se pondo escondido no fim da tarde cansada.

Em vez do jumento ruço, uma motocicleta sem registro. Em vez do roçado de milho, uma carroça de vender água. O rádio de pilha encostado enfeita um baú de couro. A televisão recebida por pagamento de conta antiga, nos tempos de uma bodega, traz o mundo até olhos e ouvidos.

Na manhã do antigo cuscuz com queijo de coalha, agora pão francês dormido com Coca-cola. Já emprestou dinheiro a juros, nos tempos de agiotagem entre pequenos. Já comprou produtos de furtos e passou alguns dias na cadeia. Precisou mudar de morada, distante da antiga cidade.

Joga no bicho toda semana, na loto, mega-sena e no baú de Silvio Santos. Mudou de lugar, mas não de vontades. Ainda sonha em ser rico.

Deu um agrado ao soldado que pediu os documentos da moto. Foi-se a grana de uma quinzena. Na garupa ele montou um pequeno engradado onde encaixa vários garrafões, desses de vinte litros, e sai pela madrugada a furtar água de caixas ou reservatórios próximos das estradas.

Leva uma mangueira grossa adaptada ao motor da motocicleta que serve de bomba de sucção. Enfia a mangueira na caixa e de lá traz a água para os garrafões. Se uma galinha ou guiné cochilar, vai junto.

Pela manhã, sai vendendo. “Olha a água mineral mais barata do lugar”.

Após a ceia, de arroz com galinha furtada, senta-se em frente à tevê e assiste aos jornais do dia. Sempre tem vizinhos, além dos dois filhos que lhe restam, pois os outros se mandaram, a terceira ou quarta mulher, todos de olhos fixos na tela. Só ele fala, apontando para a televisão e repetindo: “Só tem ladrão nesse país. E tudo solto. Olha a ruma de dinheiro qui esse fi duma égua guardou em casa”.

Cada um que aparecia no noticiário, era um monte de impropérios que seu Andrelino soltava, cobrando honestidade dos políticos. “Precisa acabar essa ladroagem”.

E pensando só com os botões, sussurra pra si mesmo: “Bicho burro. Tão fácil de esconder. ah! Se fosse cumigo”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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quarta-feira - 06/09/2017 - 14:22h
Em Brasília

Pode não ser o cão…

Por François Silvestre

…mas tá chupando manga no meio do inferno. É isso que faz Joesley Batista.

Conclusões: Se a delação de Joesley serviu para deixá-lo solto, incriminando todos os assessores de Lúcifer, merecendo credibilidade, por que suas acusações ao MP e Supremo não merecem crédito? Ou uma coisa ou outra. Ou uma terceira coisa, mais grave, que é o rabo preso de autoridades supremas, no MP e Supremo, com o delator.

“Não serei preso, ninguém da empresa será preso”, declarou Joesley em alto e bom som. Ele se auto-sentenciou inocente e mandou recado pra todo lado.

Ou essa história terá desfecho claro ou todo mundo tá sob suspeita.

O Ministro Fux, quando da possibilidade de revisar a homologação de delação, declarou aos berros, no julgamento: “Não há a menor possibilidade de rever delação homologada. Possibilidade zero, mesmo que a eficácia da delação não seja a esperada”.

Muito estranho. Coisa de Pitonisa? Ou adivinhação prevista?

E olhe que Joesley ainda disse: “Não contei nem trinta por cento das nossas traquinagens”.

Nossas de quem, cara pálida?

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domingo - 03/09/2017 - 12:30h

Advogado de defesa

Por François Silvestre

A maior parte do tempo em que exerci a advocacia foi no Direito Criminal. Não fui um criminalista na acepção clássica do termo, mas fui advogado de defesa.

Quando cheguei à Faculdade de Direito, pardieiro belo e triste, defronte da Rodoviária principal, no Bairro da Ribeira, a palafita dos versos de Cunha Lima, levava comigo a tentativa de imitar grandes nomes da advocacia penal, do Brasil e de longe.

Comecei estagiando nos júris populares, ao lado do criminalista Ítalo Pinheiro. Depois, já bacharelado, ainda fiz alguns júris com ele. E até um contra ele.

Das várias dezenas de júris em que atuei, nem sei quantos, apenas em três eu fui advogado do assistente de acusação. Isto é, auxiliar do Ministério Público, por procuração da família da vítima. A acusação foi vitoriosa nesses três júris. Um deles contra meu professor e amigo Ítalo Pinheiro, que estava na defesa. Faria de novo, no mesmo processo.

Meu lugar era na tribuna da defesa. E foi nessa condição que me dediquei com mais afinco à pesquisa dos textos da Escola Clássica do Direito Penal.

Tanto nas proposituras jusfilosóficas, nos arrazoados das circunstâncias da criminalidade, quanto na produção e legitimação das provas.

No campo das provas, impossível não nominar Nicola Framarino Malatesta e Carl Joseph Anton Mittermaier. Dois clássicos, de países e cultura diferentes, aproximados pela genialidade com que trataram o Direito Criminal à luz do cotejamento e aproveitamento das provas.

Pelo que se vê hoje em dia, na exuberância midiática dos operadores do Direito, principalmente na fúria ética da hipocrisia, parece que as lições geniais desses mestres são desprezadas ou sequer conhecidas.

Não pode ser um tempo de trevas que obrigue a desprezar os ensinamentos das luzes. Não será um violento que vai me orientar contra a brandura da justiça. Que deve ser rigorosa, mas não truculenta.

Firme, mas não brutal. Severa, mas não inserena. Legal, mas não ilegítima.

Propor prova ilegítima sob o argumento de combater a corrupção é o mesmo que defender a tortura para obter a verdade. E não será a verdade, pois o que nasce de uma mentira, mesmo sendo relato de um fato ocorrido, em matéria de prova, continua sendo mentira.

É melhor sacrificar a fúria duvidosa da ética de um tempo do que matar os princípios da dignidade humana, conquistas de todos os tempos.

Hamurabi teria vergonha do nosso tempo. Ele estabeleceu a Pena do Talião, onde a punição haveria de ser proporcional ao delito. “Olho por olho, dente por dente”. Brutal? Para o tempo de Hamurabi, não. Foi um abrandamento. Antes, o forte poderia cobrar a punição desproporcional ao delinquente mais frágil. Um olho por um dente.

O grave é que em matéria de prova e oportunidade de defesa, o nosso tempo precisa de um Hamurabi.

Estão querendo combater a violência e a corrupção agredindo e combatendo os princípios e conquistas da dignidade humana. E ainda por cima premiando a corrupção, pela via imunda da delação. Desde que os corruptos virem sócios dessa empreitada jurídica de negar a presunção de inocência. Nesse campo, não preciso de adjetivos; os substantivos me bastam.

Operadores de holofotes adjetivam e apresentam à hipocrisia social, encharcada de medo e sedenta de sangue, a defesa como cúmplice de delitos supostamente praticados.

É o “fórum” a serviço do embuste. A defesa há de espernear, contra toda patifaria, pois sem ela não há administração nem aplicação da Justiça. O fascismo não aceita o contraditório. Té mais.

François Silvestre é escritor

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sábado - 02/09/2017 - 06:46h
Opinião

O Ministério Público descobriu a pólvora

Por François Silvestre

Sim, o Ministério Público descobriu a pólvora. E deixou a China com cara de tacho.

Informa o MP que Delcídio do Amaral é mentiroso. Grande novidade.

Qual corrupto, delator ou não, que seja verdadeiro? Qual?

O problema é que o MP no afã de expor-se aos holofotes anuncia aos sete ventos as delações como verdades incontestáveis. E acabam ficando com a cara de tacho maior do que a China.

Essa promiscuidade investigativa, nos inquéritos sem cuidados, entre um órgão público e ladrões privados, vai terminar levando todos para a privada.

E povo, pagador da conta, fica sem lenço para tapar o nariz.

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domingo - 27/08/2017 - 09:52h

O gigante pigmeu

Por François Silvestre

Imenso na geografia, na vastidão da natureza, na cultura popular, o Brasil é um pigmeu político. Grandioso na arte. E rico nos folguedos. Mais ou menos no esporte, menos que mais no futebol. Tudo contido na vastidão de uma infinita teia de hipocrisia.

Historicamente duvidoso, juridicamente inseguro, socialmente injusto, culturalmente abandonado.

Até a democracia, no Brasil, ganhou contornos que desmerecem os clássicos conceitos de liberdade e justiça.

Eleições livres? Sim e não. Livres na forma da Lei. No aparato formal, na lisura da apuração. Não se nega.

Mas a liberdade é muito mais do que isso. Eleição realmente livre não se atrela ao poder econômico. Não depende de quem detém o poder, principalmente nos municípios, onde a dependência da população é quase insuperável.

Há exceções? Sim. Porém, o raciocínio analítico sustenta-se na regra. Mesmo reconhecendo as exceções.

E é com o arrazoado do excepcional que temos visto e lido todo tipo de constatação sobre o resultado dos pleitos. Das constatações pueris aos argumentos mais fronteiriços da asneira. Quem legisla sobre eleições não consegue vencê-las sem o abuso econômico. E o pior, sem corrupção.

Uma coisa é certa: O Brasil vive um dos seus momentos históricos de maior pobreza doutrinária. Aqui a palavra pobreza sai do campo da exceção generosa para a regra generalizada. E a pobreza é doutrinária porque as ideologias vigentes e praticantes são estuários da estupidez.

Pobreza política, institucional, social, econômica. Saímos de uma vasta mentira de inclusão social. Esmola sob a farsa dessa “generosidade”, que era apenas um projeto de poder. No processo de esmolar, só o doador se sai bem. Pois faz a catarse de consciência e aquieta o necessitado

Quando cessa o efeito da esmola, o “status quo” anterior retorna com mais violência e mais pobreza. Cessa o efeito, renasce a causa.

Abstenção, voto branco ou nulo, conscientemente, tem a força da contestação. Infelizmente, num país nivelado pela mediocridade de cidadania, fica difícil aquilatar o nível dessa consciência.

O voto obrigatório é uma demonstração de que nem os políticos nem a Justiça Eleitoral confiam no próprio taco. Na Democracia respeitável, o voto é direito e não dever.

Mediocridade política e institucional; na vida pública e privada, onde o que é privado se locupleta na teta pública, e o que é público se completa na privada. Com todos os sentidos.

A Petrobrás foi assaltada com uma brutalidade que a corrupção superou a si mesma. Caiu o mito da eficiência privada, com a constatação da roubalheira praticada por grandes empresas, cooptadas pelo poder público larápio.

No Brasil, até os banqueiros recebem esmola pública. Em bilhões, é verdade, mas esmola. Não é dinheiro ganho com trabalho ou produção.

É esse o nosso tempo. Sem segurança, sem saúde, sem educação. Sobra a ideologia da estultice e da mediocridade!

Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 20/08/2017 - 10:12h

Romance de costumes

Por François Silvestre

Fosse o Brasil apenas um personagem, seria de um romance de costumes. Não caberia nos textos de um romance épico ou romântico; e muito menos nas densas páginas de um romance heroico.

Não seria de guerra, mas de violência. Não seria de revolução, mas de golpes. Não seria de história, mas de invenções. Não seria de política, mas de trampolinagens.

Não seria de qualquer escola clássica. Nem do renascimento. Não teria o mistério penumbroso da Idade Média nem o estoicismo do sofrimento romântico. Não descreveria serenatas nem empunhava espadas. Seus espadachins fugiriam antes do duelo.

E por ser um romance de costumes, seus personagens também são contumazes. Não desistem nunca da safadeza consuetudinária. Refinada Inteligência do embuste, argumentadores a matar de inveja os sofistas gregos.

O que não fariam com esse material Machado de Assis, Joaquim Manoel de Macedo, Eça de Queiroz, Lima Barreto, O Barão de Itararé, Bocage, Gregório de Matos e outros do mesmo espírito?

Posto que num romance de costumes sujos, nada como a lente de um gênio a lavar a alma dos roubados.

Mas eu dizia que os personagens precisam merecer destaque na sujeira. Veja um deles. Promotor de Justiça, responsável por uma “meritória” campanha de furor ético. Chegou à capa de uma revista semanal, das mais famosas. Vestido de mosqueteiro.

Sua luta intensa contra os corruptos o levou ao senado federal. Uma Casa empanzinada de personagens típicos desse romance. Da tribuna, ele apontava o temido dedo. E ai de quem fosse o apontado.

Um dia, o dedo voltou-se. Um corruptor confessa e prova que o ilustre personagem era cria sua. Marionete dos seus interesses sujos. Onde anda o personagem? Nalguma página esquecida do calhamaço. Não basta ser corrupto. Precisava sê-lo combatendo a corrupção.

Ao retomar os rumos das liberdades políticas, o personagem Brasil institucionalizou-se. Nesse quadro de formal democracia, novos partidos ocuparam as páginas.

Um pôs um “P” antes do antigo e heroico nome. Outro trocou o “trabalhismo” por “trabalhadores”. Um terceiro, dissidente, vestiu-se de social-democracia. Cada um com sua farsa. E um rebanho de outros figurantes.

O pior de tudo é que de antagônicos na aparência uniram-se na semelhança. Na mais escandalosa união de oponentes para juntos esconderem a ficção, fazendo-a real de fato.

No panteão dos iguais, hastearam a mesma bandeira. Num mastro chantado no pedestal da fossa. Cuja franja, desencarnada, tremula aspergindo o miasma fedido de uma pátria marrom.

Os leitores desse romance não o reescrevem por preguiça mental. Ou desleixo com a leitura. Ou cansaço de aprender. Ou até, e pior que tudo, por afinidade com os personagens. A síndrome do roubado a identificar-se com o ladrão.

É com essa bandeira, não há outra, que os mesmos pilantras levarão os bocós às ruas novamente. Às ruas ou às páginas? Já que é apenas um romance. De maus costumes.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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quinta-feira - 17/08/2017 - 16:48h
Política e polícia

“Amizade” nas quadrilhas

Por François Silvestre

O desgosto entre quadrilheiros começa na partilha do butim. Porém, os menos aquinhoados permanecem quietos enquanto dure a liberdade de agir.

Seguem os líderes, acumulando um ranço morno, que vai esquentado com tempo. Até que a quadrilha seja alcançada.

Quando caem, desaparece qualquer sentimento de afeição.

O que parecia afeto, era apenas medo ou interesse. Aí, o que se sentia injustiçado empurra o que pode, de pior, para o chefe privilegiado.

A cumplicidade nas quadrilhas não guarda nenhum sinal de amizade.

É ódio adiado.

Taí as delações que confirmam o dito.

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domingo - 13/08/2017 - 09:30h

O fim da reflexão?

Por François Silvestre

O mais grave na desumanização contemporânea não é a violência contra a espécie humana. Mesmo que essa violência seja a marca determinante desses tenebrosos tempos.

Adjetivar o tempo, por si só, já diz negativamente contra a nossa época. Negação da belle epoque.

Até a hipocrisia, “vício que presta homenagem à virtude”, perdeu a face suave da falsidade. As expressões de saudação, de apresentação ou de agradecimento cedem lugar à pressa do resmungo.

Não há encontros, há encontrões. Nem cumprimentos, só encenações. Reina um mau humor, carões e testas engelhadas, numa pressa para ir a lugar nenhum. A antipatia coletiva facilita a violência, pois cada um procura abrigar-se nas grades do egoísmo.

A solidariedade isola-se, desprotegida de motivações e argumentos. Apontar o dedo acusador justifica, na maioria dos casos, frustrações pessoais. Mesmo quando a acusação é procedente, há excessos no pudor acusatório. É como se alguém fizesse a catarse das suas culpas escondidas, ao expor à execração o alvo da sua fúria.

Fôssemos tão puros quanto parecemos na acusação, não teríamos produzido tanta impureza. Ou o que aí está, navegando em lama, não tem algo do nosso disparo? Tem e muito. É só uma questão do flagrante. Como diria Mia Couto, “todo tiro certeiro carrega algo de quem dispara”.

Somos o tempo da desvocacionalidade. Não há vocação, há escolha pelas imposições do mercado. E no caso dos cargos públicos, a vocação se consuma no contracheque.

Após a posse, começa o processo de preencher a vocação adquirida. Como ocorre no organismo ao contrair uma moléstia não congênita. Neste caso, é a moléstia de caráter que se adquire.

E esse caráter deformado vai fiando a tecedura do tecido social, que se esgarça precocemente ante a má qualidade dos fios tecidos. Teares de tapetes rotos.

Disse no início algo que parece uma estupidez. Como se houvesse dito que a violência é secundária. Pior, a violência contra a espécie humana. Não. Não é secundária. Porém, não é o mais grave. Por quê? Porque ela é consequência e não causa.

A gravidade fundamental está na causa. A decorrência é subsequente. Portanto, de gravidade inferior. Mesmo sendo tão ou mais agressiva do que a própria causa. Isso não é apenas um exercício dialético. É uma tentativa de reflexão.

Contudo, aí está outro mal do nosso tempo: a abstinência do pensar. Ninguém quer perder tempo com a reflexão. Individualmente, se você não reflete não faz autocrítica. Coletivamente, a não reflexão transforma povo em massa. E de massa vira boiada.

Quem está na boiada delega a outrem não apenas as decisões, mas a própria opinião. Não decide nem opina. Não se aprendeu a lição de Stendhal: “Se não posso mudar de opinião, ela será o meu tirano”.

Adere a partidos como a escolha do time de futebol, ainda na infância. E segue torcedor daquele time pro resto da vida. Quem age assim, e tem sido a regra, decreta o fim da reflexão.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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sexta-feira - 11/08/2017 - 08:28h
Falsidade amiga

Ódio cordial

Por François Silvestre

“Nós nos odiamos cordialmente”, disse Vulpiano Cavalcanti, a Anchieta Jácome, referindo-se às relações entre os médicos.

Porém, é possível estender essa assertiva a todas as relações pessoais dos nossos tempos. Entre governos e administrados. Entre artistas. Jornalistas. Internautas. Autoridades jurídicas. Religiosos.

Há em todo lugar um ódio morno e líquido saciando a sede de vaidades e frustrações.

É bom lembrar que a água quente ou gelada não produz vômito. Só a morna.

E o ódio cordial é uma falsidade amiga.

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