domingo - 14/01/2024 - 08:22h

Duplo resgate

Por Marcos Ferreira

Preciosa em um momento de relaxamento, mas sempre alerta (Foto: Marcos Ferreira)

Preciosa em um momento de relaxamento, mas sempre alerta (Foto: Marcos Ferreira)

Sempre alerta, disposta a dar a vida por mim, Preciosa cuida da minha segurança vinte e quatro horas por dia. Exceto quando não estou em casa. Isso significa um problema, pois ela detesta ficar só. No resto do tempo não sai do meu pé. Se vou tomar banho ou fazer outra coisa, a porta tem que ficar aberta. Antes eu buscava esse momento de privacidade, mas Preciosa se queixava muito miando, arranhando a madeira, até que eu liberei a entrada de vez.

Deita-se no chão, gosta do friozinho da cerâmica, e monta guarda, como se temesse acontecer algo de mau comigo.

Aqui não preciso de muros altos, cerca elétrica, câmeras de vigilância. Nada. Nenhuma intrusa ou intruso penetra o sofisticado esquema proteção desta casa sem ser detectado. Quem entra é porque recebeu convite e passou no detector de quizila, quebranto, olho-grande, pé-frio. O indivíduo precisa emanar boas vibrações para ser bem-vindo. Preciosa é assim, capta logo se a pessoa tem o espírito carregado ou alma sebosa. Não apenas isso. Os gatos nos proporcionam um bom estado emocional, são seres mágicos, mediúnicos. Os cães também oferecem esse conforto, transmitem bastante carinho, lealdade. Porém os bichanos têm uma graça, um charme a mais.

Preciosa havia sido abandonada. Era uma filhotinha com menos de dois meses. Natália foi quem a encontrou. Não pude deixá-la no abandono. Meu coração, mais uma vez, assumiu o caso. Indefesa, rifada num mundo comumente insensível e cruel, possuía mínimas chances de sobrevivência sem o amparo de um lar. Estava doente. Mal conseguia se locomover. Nem mesmo aceitava a comida. Durante algum tempo ficou aqui desse jeito, quietinha, fraca. Fomos ao veterinário. Ministrei a medicação prescrita na dose e horários indicados. Ela reagiu, recuperou a saúde.

Daí a pouco tornou-se elétrica, forte, brincalhona, correndo a casa e o quintal, comendo a ração direitinho. Agora, enquanto escrevo, ela sobe na mesa, fica por trás do notebook. Aproveita para tirar um cochilo. Mas é bem leve. Levíssimo. Tem os sentidos aguçados. Mexe as orelhas e entreabre os olhos ao menor ruído. À noite, entretanto, depois do meu banho sob a vigilância dela, chega o ponto alto do dia: assistir a Terra e Paixão e algum filme da Netflix.

Na sala, com a rede armada, à meia-luz e no aconchego dos cobertores, começa a ronronar, volta a conferir meu cheiro, pressiona meu peito com as patinhas, como se revivesse a distante e curta época da amamentação. Sim. Isso é uma afetividade que eles carregam pelo resto da vida.

Nessas horas os papéis se invertem. De protetora ela passa a protegida. Então adormece profundamente, emite uns murmurinhos, mergulha no seu universo de inocência e leveza. E aí eu me sinto privilegiado, feliz por receber, por contar com esse tipo de amor tão sincero, tão benévolo e imensurável. Ao resgatarmos um bichinho desses que sofrem nas ruas, passando fome e sede, também somos resgatados de algum modo. Porque o bem que eles nos devolvem é ainda maior.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 07/01/2024 - 09:38h

Você Mulher

Por Marcos Ferreiramulheres

Você que malha Você que dança Você tão grande Você criança
Você que mostra Pra quem quiser A tua força Você mulher
Você da rua Você do vício Você do baixo Do meretrício
Você cantora Você atriz Você a outra Você matriz
Você do rio Você da praia Você de short Você de saia
Você que aprende Você que ensina Você que invade Minha retina
Você morena Você galega Você que passa Você que chega
Você pretinha Você branquela Você tão feia Você tão bela
Você frescura Você calor Você desfrute Você pudor
Você no meio Da multidão Sem ter emprego Nem profissão
Você de casa Que lava roupa Você que rega Você que poupa
Você que gera Que reproduz Você que é vida Você que é luz
Você que é toda Minha fraqueza Você a joia Da natureza
Você tranquila Você dilema Você a dona Desse poema
Você que ama Você que chora Você que fala Que vai simbora
Você pedaço De mau caminho Você torrente Você um ninho
Você picante Você açúcar Você correta Você maluca
Você humana Você defeito Você um alvo Do preconceito
Você batalha Você a paz Você tão frágil Você capaz
Você tapera Você castelo Você um sonho Você anelo
Você viola Você canção Você meu tema De inspiração
Você um pranto Você um riso Você metade Do paraíso
Você a rosa Você olor Você o beijo Do beija-flor
Você meu anjo Meu querubim Você eu digo Você pra mim
Você dos outros Você qualquer Você é tudo Você Mulher.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Poesia
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 24/12/2023 - 11:00h

A irmã de Cristo

Por Marcos Ferreira

Ilustração extraída da Web (sem identificação de autoria)

Ilustração extraída da Web (sem identificação de autoria)

Quase três horas adulando um soneto. Consegui dar cabo dos quartetos (razoáveis, a meu ver), porém os tercetos emperraram. Paciência. Mudemos para a crônica. Deixemos o poema amadurecendo nos escaninhos da mente. No mais das vezes persevero, travo uma luta ferrenha com os meus neurônios, mas há ocasiões em que é preciso dar um tempo, tomar um banho bem frio e uma boa talagada de café amargo. Após isso, o que não é regra, termino encontrando a solução para os versos insubordinados, inacessíveis como certos políticos reeleitos.

Se eu sigo algum ritual para escrever? Talvez. Mas seria algo involuntário. Inquieto-me da mesa para a cama, da cama para a rede, armada aqui na sala, às vezes com uma caneta e bloco de notas. Então “eu olho, assustado, para a página branca de susto”. Apenas para citar Quintana, embora alguns leitores mais áridos, carentes de cultura literária, considerem tais citações uma coisa presumida, empolada, pedante. Fazer o quê? Não posso responder pela ignorância alheia. A minha já me é o bastante para que eu entenda que aquilo que sei é uma gota e o que ignoro é um oceano, como nas palavras do cientista inglês Isaac Newton.

Ouso dizer que hoje em dia, dispondo-se de um serviço de internet, de um celular ou computador, tornou-se fácil (aspas) que um indivíduo se venda por intelectual. Ou afete, digamos, uma intelectualidade medíocre. Porque frases engenhosas como essa de Newton são absolutamente encontráveis nos sites de busca, sem que o suposto intelectual precise consultar sua biblioteca física um sem-número de vezes, no caso daquelas pessoas que possuem bibliotecas.

Temos em Mossoró um autor — rapaz velho com mais de setenta anos, formado em ciências jurídicas e medicina veterinária, entretanto estabelecido no ramo de peças de automóveis — que já deveria ter sido agraciado com um Jabuti ou um Prêmio São Paulo de Literatura. Se não pelas várias obras publicadas do próprio bolso, entusiasticamente aplaudidas pelas igrejinhas de Vila Negra e da capital, ao menos pela admirável qualidade das epígrafes e aforismos com que ele impregna os seus romances, contos, poemas, crônicas e até ensaios literários.

Sim. O senhor Olavo Cardoso, eis o nome do referido escriba, notabiliza-se (no meu modo de ver) muito mais pela citação das obras e pensamentos de terceiros do que pelos méritos de suas próprias letras.

Isso, no entanto, não é da minha conta. Decerto também não é do interesse do paciente leitor. Iniciei estas linhas falando sobre poesia, e é sobre poesia que desejo continuar falando. Talvez eu devesse expor aqui as duas primeiras estrofes do referido soneto. Não. Fiquemos na categoria da crônica. O que não me impede de lhes apresentar a minha opinião sobre a arte do verso.

Eu dizia da minha peleja à cata dos tercetos, até agora sem remédio. Estalo os dedos. Daí a pouco vou dar uma olhada no trânsito. Espio por cima do muro, que é baixo o suficiente para esse tipo de espreita. Subo em dois tijolos de cerâmica, que mantenho ali para essa finalidade. Ganho uns vinte centímetros de altura e consigo espichar a cabeça para melhor examinar a rua.

Contudo ainda é cedo e quase não há tráfego; uma motocicleta e um carro passam devagar. A seguir, com menos velocidade, dois ciclistas e um carroceiro tomam rumos contrários. A carroça segue em direção ao oeste enquanto as bicicletas rumam para o leste. Ruazinha estragada e morta de um domingo igualmente morto. Continuo, repito, sem engenho para dar à luz os tercetos necessários à conclusão daquele soneto iniciado há horas.

Volto para a rede, enfastiado da monótona paisagem da rua. Apesar do inexplicável tremor das minhas mãos, coisa que o Dr. Dirceu Lopes (meu psiquiatra) tem se empenhado em resolver, pego o bloco de notas e me ponho a cismar, os olhos mirando o vazio, mordiscando a tampa da caneta. Sobre o que escrever, afinal, nesta crônica digressiva, sem rumo certo? “Decifra-me ou te devoro”, ameaça-me a esfinge de Tebas.

É melhor que eu não permaneça na enrolação, abusando da paciência do leitor, cujo tempo destinado às nossas crônicas de qualidade supostamente apreciável merece ser valorizado. Pego outra xícara de café amargo e me ponho a saborear a rubiácea. Sequer um braço de vento se insurge contra a quietude.

Ouço a buzina de um carro, seguida pelo som das portas se fechando, e vou espiar a rua outra vez. A visita não é para mim, felizmente. O veículo parou diante da casa da senhora Margareth. Desceu um jovem e rechonchudo casal e o rapaz tocou a campainha da residência. Em alguns minutos a senhora Margareth lhes abriu o portão. O cachorro vira-lata do padeiro Saldanha vela um osso descarnado ao pé do poste. E esta rua vazia e morta me lembra um poema de Mauro Mota. Uma cigarra estridula seu característico canto de acasalamento nas imediações.

Sofro intimamente a dor dos versos que não consigo parir, esperando uma fagulha de engenho. Tenho a impressão de que me olham, à sorrelfa, os olhos invisíveis da Poesia, que hoje está de mal comigo.

Antes de atritarem as primeiras pedras e obterem o fogo, ela já se fizera inquilina dos subterrâneos e porões das nossas almas. Precede a escrita, a tinta e o papiro. Constitui os primórdios da linguagem. Compõe a nossa essência e cotidiano desde a pré-história, do interior das cavernas às habitações de agora. Socializou e interagiu com o homem primitivo à volta de fogueiras.

Ela está em toda parte. Sobreviveu a hecatombes e cataclismos, foi tragada por dilúvios e consumida por vulcões, no entanto ressurgiu como uma fênix. Sempre viveu conosco, em meio à luz e às trevas, independente do nosso querer e escolha. Existe desde a criação do mundo e do ser humano. Possui dimensões microscópicas quanto gigantescas. Muitas vezes se encontra bem diante dos nossos olhos e não conseguimos enxergá-la. Com algumas exceções, pois há quem jure de pés juntos que a desprezam e repelem, todos a estimamos e a cobiçamos.

Sinto a sua presença enquanto escrevo. Adivinho o seu olhar onipresente pairando sobre mim. Está dentro de nós, habita-nos e nos circunda a um só tempo. Não nos diz a que veio (nem carece), pois a ela nos destinamos, embora a subestimemos aqui e ali com a nossa fria e pragmática lógica.

Hoje a Poesia não parece disposta a colaborar para a conclusão do meu soneto. Vejo-a reflorir entre os espinhos e pedras do caminho. Continua e será exatamente a mesma, por séculos infindos, diversa e una. Reina sobre todas as amarras e grilhões, sobre todas as formas e regras, antiguidades e modernismos, vozes e silêncios, guerras e paz. Ela coexiste entre a lágrima e o riso, entre o êxtase e a dor, o fracasso e o sucesso. É fardo e fortuna, prazer e suplício de todos os seus discípulos e devotos. Alista reis e vassalos para a empresa de sua eternidade. Nobres e plebeus compartilham do mesmo pão verbal à sua mesa farta e indistinta.

Não possui fronteiras nem alfândegas. Cabe no útero de uma ostra e transborda rios, agita oceanos. É a pomba e o chacal, a espada e o cordeiro. Ora é festa e multidão, noutro instante é abandono e vazio. E se acaso à noite ela se revela sombra e embaraço, ressurge cristalina “mal rompe a manhã”.

Eis, senhoras e senhores, a irmã de Cristo, a filha bastarda que Deus não quis registrar nas Sagradas Escrituras: a Poesia!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/12/2023 - 05:34h

Patinho Feio

Por Marcos Ferreira

Ilustração web

Ilustração web

Após esses anos todos, ignorando certas coisas com que a vida nos atinge, talvez uma ou outra pessoa (generosamente) diga que pareço mais bonito que meus oito irmãos. Destaco que já fomos onze. Dois morreram quando crianças. Assim, frisando essa questão numérica, preciso informar que, nos dias atuais, somos seis homens e três mulheres.

Nasci dois anos antes que os outros. Sou de 1970, completarei, se tudo der certo, cinquenta e quatro no dia 10 de abril. Superando os marmanjos, pois, agora eu seria o bonitinho. Ou o menos feio, classificação que me parece melhor.

Durante a nossa juventude, na época das primeiras namoradinhas, a vantagem no quesito beleza daqueles filhos do sapateiro Vicente e da dona de casa Marilda saltava aos olhos. Bem-apessoados, embora com uma parcela de timidez, não lhes faltavam pretendentes. Eu, porém, ainda mais tímido e sem determinados atrativos físicos, demorei um pouco até ser descoberto por uns belos olhos verdes na minha rua.

Como um cavalheiro não possui memória, não posso lhes revelar o nome da moça, que se tornou uma arquiteta bastante requisitada, foi embora para Santa Catarina e contraiu matrimônio com uma igualmente bonita mulher do universo judiciário.

É claro que ninguém avança na idade, ultrapassando os quarenta, cinquenta, sessenta anos, imune à ação do tempo. Não é possível negociar com o calendário. Desconfio, todavia, que alguns indivíduos fazem uso de um formol de efeito poderoso e chegam até mesmo aos setenta com feições ainda admiráveis. Isso pode ser observado tanto no sexo masculino quanto no feminino. Como exemplo feminino, hoje quero mencionar uma senhora que já ultrapassou os setenta anos e continua incrivelmente linda: Bruna Lombardi. Bruna nasceu no dia primeiro de agosto de 1952.

No meu caso e dos meus irmãos, algo fácil de perceber, estamos a anos-luz do superman Henry Cavill, tipo inserido num padrão de beleza praticamente consensual. De qualquer maneira, quanto àqueles rostinhos outrora bonitos dos meus irmãos, é possível que o transcorrer destas últimas cinco décadas não tenha sido tão severo comigo. Dito isto, modéstia à parte, não me considero um patinho feio. Torço apenas que nenhum deles se depare com esta crônica de viés narcisístico.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 10/12/2023 - 08:46h

Ele está chegando

Por Marcos FerreiraEle está chegando – CRÔNICA – Marcos Ferreira

Poucas são as pessoas (pouquíssimas!) que demonstrarão qualquer concordância com o meu modo de ver esse tipo de coisa. É claro que eu sou um sujeito fora do comum. Quando digo fora do comum estou querendo dizer especificamente que sou alguém incompatível com determinados furdunços sociais, que não me enquadro por completo na vida em rebanho, que não sigo a manada às cegas.

Tenho consciência, porém, de que existem vários pontos positivos no que diz respeito a uma porção de festejos. Alguns têm tradição e datas consolidadas, compõem o calendário brasileiro. Outros, denominados como fora de época, eu classifico entre os piores. No fim das contas, todos são eventos que promovem o desbunde da classe baluda e também daquela gente que se julga remediada, mas que se estrepa no cartão de crédito para marcar presença na folia, não ficar de fora da festa. Não importa que depois tenha que lidar com a ressaca, sobretudo, financeira.

Um exemplo desse meu desinteresse se reflete em algo que virá em pouco tempo. Grande número de indivíduos espera ansioso por isso. Não é o Natal nem o ano-novo. Sim, ele está vindo. É imparável. Mesmo durante o mais sombrio e devastador momento da pandemia, muitos miolos moles torciam para que o monstro apoteótico fosse realizado. Eu não nego que temi que isso pudesse acontecer.

O Natal e o ano-novo virão antes, não resta dúvida, todavia já é possível escutarmos e vermos os primeiros sinais da bulha que chegará atropelando tudo. É uma pândega, paixão nacional que, ao menos em sua época, supera o futebol. Brevemente o marketing (essa máquina de adestrar humanos) entrará com força total para fazer a cabeça dos brincantes.

É verdade que certos propagandistas exibirão aquele alerta fugacíssimo: beba com moderação. Mas tal “conselho”, falado ou mostrado em letras minúsculas abaixo dos informes, possui a duração de um piscar de olhos.

Ao fim e ao cabo, portanto, a tribuzana vai amontoar bêbado sobre bêbado. Alguns visitarão hospitais e até necrotérios. Mas isso é bobagem, faz parte do legítimo direito das pessoas de se esbaldarem e morrerem de alegria.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/12/2023 - 08:04h

Memórias de uma árvore ambulante

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Freepik

Ilustração da Freepik

Hoje estive pensando (aqui e acolá pratico esse exercício) e chego à conclusão de que sou uma espécie de árvore ambulante. Falo dessa maneira me referindo a certos frutos, alguns até apreciáveis, que fui espalhando ao longo desta minha relação de mais de três décadas mourejando na lavoura das palavras.

Sei que é meio chato, ao menos para alguns leitores, outra vez eu aparecer com um texto falando sobre mim. Alguém dirá que é falta de ideias ou do que escrever. Compreendo quem me critica por isso. Pois o que não falta nesta cidade, especialmente no âmbito político, é matéria para uma crônica. Melhor dizendo, várias.

Neste momento, porém, prefiro deixar a política e os políticos de lado. O que tenho para hoje é isto, tema pessoal. Quero recordar, ainda que a minha memória não seja muito confiável, algumas passagens que considero relevantes ou valiosas.

Então, para expor uma fase crucial em que pude ampliar meu acesso a livros, vou mexer no meu passado. Houve uma época (quando eu limpava quintais no Santa Delmira e trabalhava de vigilante noturno em quarteirões do bairro, a pé e com um tipo de cassetete) em que um vizinho de nome Antônio, pintor de residências, vez por outra me chamava para ajudá-lo.

Naquele tempo, repito, meu contato com livros era próximo de zero. Até porque, por falta de afinco e necessidade de arrumar dinheiro, sendo eu o mais velho de onze irmãos (dois faleceram), deixei a escola na quinta série primária, onde ingressei totalmente analfabeto com onze anos. Estudar era quase um luxo. Sapateiro, o meu pai tinha só a quarta série. Minha mãe, analfabeta.

Acho que outro ponto que desagrada o leitor são esses relatos, decerto já expostos em crônicas anteriores, sobre meus apuros da juventude. Sobretudo nas gestões dos presidentes João Batista Figueiredo e José Sarney. Depois, como se não bastasse, veio uma desgraça ainda pior: Fernando Collor de Mello.

Mas falemos sobre o meu importante contato com a sala de aula. Desde cedo me revelei um asno diante dos algarismos, embora os meus professores de matemática fossem bons. Todavia, no tocante à língua portuguesa, aconteceu o contrário em relação à aritmética. Foi um choque quando eu descobri que podia ler e escrever. Na sequência, como um tipo de encantamento, os livros se tornaram para mim objetos mágicos, portais que me levaram muito além daquele meu mundo de privações e sombras. Fui um ignorante em matemática, volto a dizer, tirei apenas notas para não ser reprovado, trocar de ano, mas me senti à vontade com nosso idioma.

O nome da escola, cujo registro faço com saudosismo e não menos orgulho, chamava-se Instituto Dom João Costa, na Rua Duodécimo Rosado, no Nova Betânia. É onde atualmente funciona o Centro de Práticas Múltiplas Dom João Costa, que está vinculado à Faculdade Católica do Rio Grande do Norte.

Retomemos, antes que eu me perca, o assunto da minha atuação como ajudante de pintor. Num determinado dia, talvez em meados dos anos oitenta, convocado pelo referido senhor Antônio, ele que possuía uma pequena carroça puxada por um jumentinho para transportar os seus apetrechos (rolos, baldes, brochas), fomos pintar a casa de um bancário. Quem sabe ele já fosse ex-bancário, não sei. O homem, acerca do qual eu conhecia apenas a ligação com o banco, era uma pessoa bastante destacada na sociedade mossoroense. Chamava-se Luiz Aquino, dono de uma biblioteca com um grande acervo de importantes autores nacionais e estrangeiros.

Ganhei uma boa grana auxiliando o meu vizinho pintor, entretanto eu conseguiria algo mais valioso. É que o senhor Luiz Aquino, com quem não tive mais contato, havia amontoado numa espécie de quartinho uma considerável quantidade de livros que os cupins tinham danificado. Perguntei o que seria feito deles e Luiz me confirmou que iria jogá-los fora. Pedi aquelas obras e ele me deu tudo.

Coloquei a “biblioteca” na carroça. Em casa, utilizando um veneno contra cupins dado pelo senhor Antônio, consegui acabar com os insetos. Alguns volumes possuíam certas avarias, no entanto a maior parte estava em boas condições de legibilidade. Ganhei de Luiz Aquino, de saudosa memória, essa contribuição inestimável para o meu processo de fortalecimento da leitura e estímulo para iniciar a minha própria escrita. Esta página é mais um fruto que eu lanço ao sabor do vento.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 26/11/2023 - 07:24h

Antes da bola rolar

Por Marcos Ferreira

Registro em arquibancadas do Maracanã, em jogo de Brasil 0 x 1 Argentina há poucos dias (Foto: O Globo)

Registro em arquibancadas do Maracanã, em jogo de Brasil 0 x 1 Argentina há poucos dias (Foto: O Globo)

Entendo tanto de futebol quanto de engenharia atômica. Sei que esse tipo de expressão é um lugar-comum, mas deixo como está. Porque hoje quero falar um pouco sobre esse assunto tão rico de fanatismo e tão pobre de bom senso. Vejam. Houve uma época, até não muito distante, em que me sentia atraído por esse mundo da bola. Isto quando se tratava de Copa do Mundo e Seleção Brasileira. Angustiei-me, torci de coração aos solavancos pelo nosso time e talvez até tenha chorado por causa da eliminação daquele elenco fantástico com Zico, Júnior, Sócrates e companhia.

Eram outros tempos e outros craques bem diferentes dos de hoje. Também quero revelar que em algum momento da minha vida contraí uma certa simpatia pelo Flamengo. Não sei dizer por qual motivo tal coisa aconteceu, já que o meu pai era botafoguense. Quanto ao Flamengo, portanto, decerto por puro reflexo, informo que nunca (em mais de meio século) comprei nem vesti uma camisa do rubro-negro. Existe outro detalhe que talvez contribua para isso: meu medo da violência.

Não coloco, por dinheiro nenhum, meus pés em uma arena dessas para ver uma partida de futebol. Perdemos a conta de quantas pessoas já foram agredidas e até mortas apenas por estarem vestindo camisa de um determinado clube. Trata-se de uma rivalidade criminosa, doentia, animalesca. Casos desse tipo têm acorrido, principalmente, na saída de vários estádios, como no gigantesco Maracanã.

O quebra-quebra nas arquibancadas durante o jogo entre Brasil e Argentina no dia 21 deste mês, ocorrido justamente no Maracanã, foi um espetáculo vergonhoso, deplorável. A pancadaria, segundo um repórter da Globo à beira do campo, teria se iniciado porque os brasileiros começaram a vaiar o hino nacional argentino durante a execução deste. Se de fato foi essa a razão que deu origem à briga generalizada, o mínimo que posso dizer é que a nossa torcida deu um golpe baixo, apresentou uma atitude rasteira. À mercê dos brigões, alguns com as caras cheias de sangue, estavam famílias com crianças que tentavam desesperadamente fugir de tanta selvageria.

A Polícia Militar exagerou no uso da força para conter o tumulto. Então baixou o pau um pouco mais, quem sabe, nos que vestiam camisa da Argentina. Por pouco a partida não foi cancelada. Lionel Messi e demais jogadores deixaram o gramado e foram para o vestiário. Porém voltaram. Eu, que já torcia pela Argentina antes da bola rolar, vibrei com o gol do zagueiro Otamendi. Achei bastante justo.

Torci por outras grandes equipes da Seleção Brasileira, como aquelas que tiveram Romário, Bebeto, Dunga, Ronaldinho Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e mais alguns que no momento minha memória não permite citar. Mas, depois que o futebol brasileiro se tornou puramente, salvo exceções, comércio de pernas de pau, perdi o gosto, o encanto. Não dá (falo por mim) para torcer por uma Seleção que tem insistido em convocar e endeusar um medíocre e mau-caráter como Neymar. Com mais de trinta anos de idade, temos narradores e comentaristas de futebol sem noção que ainda o chamam de “o menino Ney”. Ora! Como diria Marcos Pinto, é de lascar.

Existe mais uma situação irritante. É esse hábito, senão um delírio, que possuem os referidos narradores e comentaristas, também há exceções, de afirmarem algo desse tipo: “Enquanto houver uma criança com uma bola em qualquer lugar do Brasil, o futuro do nosso futebol estará garantido”. Além disso, para completar esta minha narrativa do contra, causa-me náusea quando esse pessoal da imprensa esportiva chama esses milionários jogadores de futebol de “os nossos heróis”.

A meu ver, heróis sãos professores, policiais que estão aí nas ruas enfrentando o crime, médicos e enfermeiros que salvam vidas tanto por meio do SUS quanto em hospitais particulares. Heroica, no meu ponto de vista, é essa gente humilde que sobrevive com um salário mínimo para alimentação, água, luz, aluguel, etc. Dessa maneira, portanto, digo que esses são os verdadeiros heróis deste país.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/11/2023 - 09:22h

Coisas bonitas

Por Marcos FerreiraCoisas bonitas – CRÔNICA – Marcos Ferreira

Vez por outra, em virtude de algumas palavras um tanto ásperas ou indelicadas que ainda deixo escapar na minha escrita, sou carinhosamente repreendido por Natália, minha noiva. Ela receia que eu volte àquela época de bangue-bangue, quando eu me comportava como um selvagem da literatura norte-rio-grandense, apontando e fustigando impostores das nossas letras. Não faço mais isso. Todos são pessoas adultas e cada qual que responda pelas produções que assinam.

— Escreva coisas bonitas! — falou Natália.

— Por exemplo? — questionei.

— Algo que não acabe em polêmica, bate-boca na internet, desgastes à toa. As pessoas gostam de ler histórias positivas.

Emendei com uma ponta de ironia:

— Amenidades, você quer dizer.

— Sim! — admitiu. — Em tempos como estes, tão conturbados, precisamos ler mensagens de otimismo. Veja Odemirton Filho…

— E o que tem Odemirton?

— As crônicas dele são leves e bonitas.

— Estou de acordo. Enquanto cronista, Odemirton Filho não se mete em certas arengas, questiúnculas, provocações. É um reflexo da índole pacífica dele. Está muito mais para a natureza conciliadora do Rubem Alves do que para o temperamento ácido e iconoclasta do Agripino Grieco.

— Não faço ideia de quem seja esse Agripino.

— Então esqueça o Grieco. Quanto a Odemirton, trata-se de um cronista admirável, paz e amor, dono de uma escrita saborosa. Ocorre, no entanto, que a diversidade de vozes, temperamentos e estilos, enriquece a literatura.

— Sugiro que busque um meio-termo.

— É isso o que venho perseguindo.

— Cadê a produção? É sábado e até agora você não me apresentou nada. Já mandou a crônica para o blogue do Carlos Santos?

— Sim. Só falta a da Revista Papangu.

— Muito bom! Mãos à obra, então.

— O texto está bem encaminhado.

— Escreva coisas bonitas! — insistiu.

Não vai dar, amigos leitores. Não no presente instante. Não me sinto inclinado a produzir ou falar sobre amenidades nas condições emocionais em que ora me encontro. Sequer no tocante à poesia. Deixei um soneto pela metade desde o último domingo, faltando os tercetos. Até agora não reúno ânimo inspirativo para concluir o poema. Hoje desejo apenas que minhas janelas e portas continuem fechadas. Posso dizer que estou no meu momento vampiresco. Nada de sol, portanto. Não quero ver nem ouvir ninguém; celular no modo avião. Que nenhuma tranca ou ferrolho seja liberado. Que estas frias e negras cortinas continuem intocadas.

Penso em retirar da minha vista este impassível e burocrático relógio de parede. Como seria bom se pudéssemos imobilizar o tempo, de modo que as seis horas e quinze minutos desta manhã ainda agradavelmente fria perdurasse indefinidamente. É isso. Não me disponho a encarar o domingo lá fora, topar com os meus vizinhos, dar-lhes um bom-dia meio que a contragosto e desonesto.

Repito, minhas senhoras e meus senhores, que este não é um bom momento para amenidades, palavras edificantes, mensagens de ânimo, incentivo. Não da minha parte. Então me dou ao luxo de expressar fielmente o meu estado de espírito. Sem máscaras, sem disfarce algum. Nesse instante minha alma é este quarto penumbroso, um fastio que se estampa na minha face. Aqui usufruo da penumbra, do silêncio, do ócio e da quietude. Não escrevo para agradar nem desagradar ninguém.

Esta manhã encarcerou a minha veia bem-humorada, o meu sorriso fácil, continental. Reacende frustações e velhas mágoas, desaponta a musa e rompe as cordas da minha lira. Traz-me à memória recortes de sonhos mortos, projetos e planos frustrados. Contudo não descambo para o campo da autopiedade, ainda menos para a rentável literatura de autoajuda. Mas admito que estou cheio, farto da concretude da vida. Que se danem o lítio, a quetiapina e o divalproato!

Embora o dia seja de sol pleno, detalhe que não me agrada, sei que os pássaros continuam cantando os seus madrigais e as flores (perfumosas e concupiscentes) sorriem para os lindos colibris e borboletas que frequentam o meu quintal. Isso, no entanto, é poesia bucólica que ora não me seduz ou inspira.

— Escreva coisas bonitas!

Desculpem. Hoje não será possível. Deixo esta crônica pessimista, porém pacífica, livre de rusgas. Escrever também é isto: um dia estamos para cima, noutro estamos de ponta-cabeça. “Sugiro que busque um meio-termo”, aconselhara-me Natália. Quem sabe da próxima vez em que eu me ponha diante do teclado.

Meu mal e meu bem é este vício que me desfalece e me aviva, este sacerdócio que amaldiçoa e santifica, que me golpeia e me revigora: a literatura. Estou à disposição das suas vontades e caprichos. Teimo em não romper o véu da penumbra, em não abandonar o desalinho dos travesseiros e lençóis.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 12/11/2023 - 07:38h

Cidade perfeita

Por Marcos Ferreira

Ilustração Web

Ilustração Web

Hoje quero falar com você de maneira bem reservada. Só entre nós, à boca-miúda. Não por necessidade, mas apenas a fim de lhe provocar de algum modo. Ou de me sentir menos solitário neste velho quebra-cabeça que é entremear palavras.

Então resolvi lhe escrever esta cartinha sem revelar o destinatário. Sei, evidentemente, que essa coisa de redigir cartas saiu de moda tanto quanto honestidade de políticos. Acredito em exceções, fiemos que sim, contudo há uma récua de parlamentares que rouba o Sol antes dele nascer. Isso ocorre toda hora com a direita e a esquerda.

Apesar dos pesares, torno a dizer, existem os bons políticos. E esses, naturalmente, estão fora de moda. Neste pacato município, como num conto fantástico, só há políticos bonzinhos, honestos, homens e mulheres comprometidos com a coletividade. Não podemos reclamar de nada dos nossos trabalhadores engravatados. Não! De forma alguma! Aqui não tem obra superfaturada ou rachadinhas.

Precisa ver as nossas ruas e avenidas. São um tapete. Nenhum buraco, nenhuma cratera. Tudo nos trinques, tratado de forma responsável. Confesso que lhe digo essas coisas principalmente para lhe fazer inveja. Sei que aí, na sua Pasárgada, a situação está na mais completa normalidade. Ou seja, igual à bandalheira do resto do País. Aqui, não! O povo vive em estado de graça, feliz com os seus representantes.

E a cultura?! Ah, meu amigo! A cultura é tratada a pão de ló. Até os escritores, excluído e menosprezados Brasil afora, têm absoluta atenção dos nossos gestores.

Mês passado o poeta Setembrino Cardoso foi agraciado com a mais importante comenda da Câmara. O presidente da Casa fez um discurso em que se mostrou tão íntimo da poesia quanto da quantidade de estrelas no universo, porém tremeu a voz, fungou e deitou lágrimas de júbilo por ter sido ele o proponente da homenagem. O bardo tirou foto cercado pelos edis. O único fato lamentável é que, ao fim da solenidade, Setembrino se deu conta de que sua carteira havia desaparecido.

Em constantes reuniões com a sua competente equipe da Secretaria de Urbanismo e Obras, o jovem e operoso prefeito Jorge Copperfield trabalha de forma incansável num ambicioso projeto com a finalidade de criar redomas setoriais e, assim, possibilitar a climatização de oitenta por cento desta nossa aldeia.

Não há, repito, o que maldizer. A saúde pública está esbanjando saúde. O funcionalismo municipal anda com um sorriso de orelha a orelha. Movimento grevista é algo que não existe por aqui. Os professores desta cidade, entenda-se os do município, carregam o prefeito nos braços e torcem pela reeleição do homem. A segurança está sempre atenta, no entanto a criminalidade é praticamente zero. Nem sei lhe dizer quanto tempo faz que não registramos um furto ou homicídio.

Representamos um modelo de civilidade. Nosso solo não sabe o que é sangue. O desemprego foi erradicado. Daí que não existem assaltos à mão armada. Muito menos pessoas nos semáforos com cartazes suplicando por comida. Não tem sem-teto, mendigos nem superpopulação de cães e gatos sem a assistência de um castramóvel. Somos um povo cordial, hospitaleiro, de uma pacatez bovina.

Nosso padrão de sociedade é primeiro-mundista. A expectativa de vida nesta província é proverbial, de provocar ciúmes num Matusalém. Venha passar uma temporada em nossa urbe. Você vai se encantar e comprovar como a nossa administração e o nosso povo vivem em perfeita harmonia.

É ver para crer.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 05/11/2023 - 07:44h

Quando a casa cai

Por Marcos Ferreira

Ilustração Web

Ilustração Dreamstime Web

Existem certos golpes que nós sofremos e precisamos de muitos anos para assimilar. Passamos por céus e terras, terremotos e vendavais psicológicos, até conseguirmos (se pudermos) seguir em frente. Nesse ínterim, como às vezes ocorre, o mercurocromo do tempo cuida de cicatrizar as feridas do coração e do espírito. Aí o sujeito toma fôlego, retorna à superfície e encara a correnteza da vida.

Mas nem todo mundo consegue cruzar o rio enfestado de crocodilos e chegar ileso à outra margem. Alguns cansam, ficam no meio do caminho, e são devorados pelos répteis.

Essas metáforas todas são para recordarmos do quanto somos (há exceções) pequenos e falíveis. Pois da noite para o dia, de uma hora para outra, num momento em que julgamos desfrutar de plena saúde, poder e riqueza, súbito nos damos conta de que tudo isso ruiu e o céu desabou sobre as nossas cabeças.

Vivenciamos coisas terríveis, incontornáveis, das quais nunca conseguimos nos recuperar. Por mais que tentemos nos reerguer ou nos iludir com a autossugestão de que batemos a poeira e demos a volta por cima, os traumas e sequelas ficarão para sempre e jamais seremos os mesmos. Como afirmou o ator e filantropo americano Robin Williams, ganhador, entre tantas outras premiações, de um Oscar: “Ninguém finge que está com depressão. As pessoas fingem que estão bem”.

Williams cometeu suicídio em agosto de 2014, aos sessenta e seis anos. Sofria de depressão, ansiedade e foi diagnosticado com mal de Parkinson. Ainda há indivíduos que dizem que isso é malandragem, besteira, frescura.

Um sem-número dos melhores psiquiatras e psicólogos fazem uso da mais avançada psicologia e de um arsenal de medicamentos poderosos, no entanto, às vezes, esse conjunto de ciência e aconselhamentos finda derrotado por uma única mente atormentada. Não importa que o céu esteja azul e propício para um banho de mar, que os pássaros cantem lindamente, que o Sol brilhe, que nasça e se ponha todo santo dia, que as estrelas e a Lua ainda sejam uma fonte inesgotável de poesia. Embalde. Chega um dia em que vemos que a casinha do nosso amor-próprio caiu.

Antes que a casa de nossa alma caia, é preciso tomar algumas providências cruciais: fortalecer nossas fundações psíquicas, tirar o salitre do coração, pintar tudo de branco, exceto as portas e janelas, que podem ficar agradáveis na cor azul.

Se houver sótão ou porão, afugentar os fantasmas com pinturas de Laércio Eugênio, Túlio Ratto e Airton Cilon. Não esquecer de extinguir os cupins do pessimismo que danificam a madeira que sustém o teto do nosso bom humor. Recomenda-se também colocar um arco-íris em nossa moringa, como naquela canção do Paulo Diniz.

Existe a possibilidade de que nada dê certo, que nademos bravamente e morramos na praia. Contudo, reunindo as últimas fibras do nosso instinto de autopreservação, quem sabe possamos nos agigantar diante da morte e mandá-la para os quintos. Aí será possível reaprendermos que viver sempre valerá a pena.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 29/10/2023 - 08:24h

Cachorros grandes

Por Marcos FerreiraCachorros grandes – CRÔNICA – Marcos Ferreira

Temos consciência de que o nosso país não é a oitava maravilha do mundo. Longe disso. Bem longe mesmo. A distribuição de renda, por exemplo, é uma lástima de proporção continental. A desonestidade política (salvo exceções) é outro problema crônico e nem sempre vale uma crônica. Há poucos dias, infelizmente, a imprensa em peso noticiou que um vereador potiguar, presidente da Câmara de Ceará-Mirim, foi preso em Natal por haver subtraído uma escova de dentes em um supermercado. Isso é nonada! Foi somente uma fraqueza, uma tentação, coisa do coisa-ruim.

O homem pagou uma fiança equivalente a dez vezes o valor do produto afanado e se encontra em liberdade, gozando da indulgência e do conforto de familiares e amigos. Nessas horas esse tipo de apoio é muito importante. Decerto o edil, contra o qual não pesa (até onde se sabe) nenhuma outra falta, está deveras arrependido de sua atitude cleptomaníaca. Que ninguém, portanto, atire pedras contra o senhor Kaio César Carneiro. Só o Todo-Poderoso é quem pode absolver ou condenar.

Apesar dos pesares, o Brasil é uma nação promissora e, no geral, topograficamente tranquila. Aqui, à exceção da fúria das enchentes em algumas regiões e do flagelo da seca noutras, não padecemos com terremotos nem amargamos as desgraças de uma guerra. É verdade que a bandidagem está em toda parte e o punguismo político costumam roubar a cena, porém não temos chuva de foguetes e mísseis desabando sobre as nossas cabeças. Não ouvimos a todo momento sirenes nos afugentando para abrigos subterrâneos. Embora ainda sejamos uma espécie de pigmeu diante das superpotências bélicas, a nossa diplomacia e soberania são reconhecidas e respeitadas.

O atentado a Israel, com a matança e sequestro de civis, é indiscutivelmente abominável e os israelenses têm o legítimo direito de se defenderem e contra-atacar. Pena que a contraofensiva de Israel já tenha provocado a morte de milhares de palestinos inocentes. Ao contrário de várias nações, não temos conflitos com ninguém. Estamos de boa com os Estados Unidos há muito tempo, embora nossa pusilanimidade diante da barbárie que a Rússia impõe à Ucrânia decepcione os ianques.

A China também joga no nosso time. Xi Jinping ama os brasileiros e o nosso futebol masculino de pernas de pau. Só a Rússia e a Coreia do Norte é que vêm tumultuando o meio de campo. Na cara dura, Vladimir Putin defende um cessar-fogo entre Israel e o Hamas enquanto ele próprio sustenta uma guerra covarde contra a Ucrânia. Por sua vez, com seu corte de cabelo que lembra a crista de uma galinha-d’angola, Kim Jong-un intimida os norte-americanos com armas nucleares.

Cada vez mais a condição habitável da Terra depende da psique beligerante de políticos e militares. O planeta possui oito bilhões de pessoas à mercê, principalmente, de quatro cachorros grandes: Rússia, Estados Unidos, Coreia do Norte e China. A guerra fria nunca esteve tão aquecida. A impressão é de que a qualquer instante um desses brigões pode disparar uma de suas ogivas e instaurar o Armagedom. Será um deus nos acuda. É quase certo que o Brasil, assim como na Segunda Guerra, seja obrigado a sair de cima do muro e tomar uma posição no embate ecumênico.

Mas o Altíssimo, que tudo vê, tudo pode e tudo sabe, há de impedir que o mundo se converta em fogo e cinzas. Pacificará o coração dos homens belicosos.

A seguir, abolindo a lei de Moisés, que pregava o apedrejamento de adúlteras, determinará que mais nenhuma mulher seja morta a pedradas nem de modo algum. O Papa Francisco também chegará junto com as suas poderosas orações. Os cachorros grandes enfiarão o rabo entre as pernas e ficarão mansinhos como cordeiros.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 22/10/2023 - 08:10h

Escrever crônica

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa de Patrick Fore

Foto ilustrativa de Patrick Fore

Sexta-feira passada, ao topar comigo numa clínica do Centro, um leitor me disse que todo domingo lê o que escrevo neste Blog. Ora! Fiquei satisfeitíssimo com tamanha fidelidade. Acrescentou que me segue no Instagram e acompanha meus textos desde minha época de jornal O Mossoroense e Revista Papangu, aumentando assim meu regozijo. Senti-me uma espécie de Rubem Braga falsificado.

Meu leitor se anunciou como José Mota, professor aposentado da rede estadual. Deu-me um aperto de mão e informou que é mineiro de Juiz de Fora e que veio para cá na década de 1960, ainda adolescente, em companhia dos pais, que eram mossoroenses.

Tipo simpático, esguio, cerca de um metro e oitenta, mais velho que eu uns dez anos, ostentava uma farta cabeleira quase intocada pela calvície. Daí a pouco, entre uma coisa e outra, perguntou-me como é escrever crônica. Sim. Foi bastante específico, de maneira que pude concluir que eu não estava perante um leitor despreparado. O homem tinha ciência sobre o referido gênero literário.

José Mota poderia ter perguntado, por exemplo, como é escrever um conto, talvez um artigo, um poema ou um romance, no entanto não fez isso. O que interessava a ele era um macete, uma fórmula ou receita acerca de como trazemos à luz essa gema prosaica alojada entre o artigo e o conto. Então, descambando para o lugar-comum, tentei explicar que a crônica é essencialmente elaborada a partir de notícias e imagens do cotidiano, uma equilibrada mistura de imaginação e realidade, e que nem sempre dispomos da primeira nem da segunda. Aí, à falta de assunto e imaginação, confessei que a gente cava um pênalti, ou seja, inventa uma história qualquer.

Notei que José Mota, que em certo ponto da conversa me revelou que era professor de língua portuguesa, fez a pergunta já conhecendo a resposta. Achei que estivesse apenas realizando um teste, avaliando a minha teoria sobre o assunto, recordando seu tempo de sala de aula. Não sei qual nota me deu, mas gostei de tê-lo conhecido. Torço que algum dia apareça no espaço reservado à opinião do leitor. Ao contrário de alguns, ele sabe distinguir conto de crônica e crônica de artigo.

Assim como outras peças do artesanato linguístico, escrever crônica não cabe em truques ou manuais. Está acima de teorias, de ensaios e currículos. Toda hora nos deparamos na internet, nas redes sociais, com indivíduos vendendo segredos de escrita criativa, prometendo glória e sucesso àqueles aspirantes a escritores. A propaganda é boa e decerto mexe com a cabeça de muitas pessoas.

Sei que nem tudo é tempo perdido. Alguns desses mestres caça-níqueis têm muito o que ensinar a quem tenha capacidade de aprender e possua, digamos assim, um talento inato. Escritores famosos e bem-sucedidos deste país já passaram por essas escolinhas, por esses cursos virtuais. É justo dizer, portanto, que sempre é possível tirarmos algum aprendizado até mesmo de quem, aparentemente, não tem o que nos ensinar. Tudo pode servir de mote e também resultar em nada.

De repente um sujeito estica o beiço na calçada do Mercado Central e afirma que vai sair o cavalo no jogo do bicho; outro discorda, assegura que será a vez do peru, e isso pode ser matéria para se escrever uma crônica enriquecida com a mais autêntica trivialidade do dia a dia. É verdade que a escrita tem vontade própria e, às vezes, somos governados ao invés de governar. Uma tarde dessas sentei na intenção de produzir uma crônica, mas findei parindo um conto. E vice-versa.

Hoje, motivado por aquele encontro com o professor José Mota, entrei nessa enrascada de opinar sobre o que é escrever crônica. Sei que alguns desses teóricos da escrita criativa apontarão um monte de defeitos no meu texto. Talvez porque não tive a inegociável paciência de reler e reescrever esta página umas dez ou vinte vezes. Segundo Ruy Castro, escreve bem quem reescreve bem.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 15/10/2023 - 06:50h

Corpo fechado

Por Bruno Ernesto

Ilustração da Champion Dog

Ilustração da Champion Dog

Recentemente, li uma excelente crônica do grande Marcos Ferreira, na qual ele passou por uma quizomba daquelas (veja AQUI)! Quase parou no hospital. Um aperreio.

Tem quem não acredite em mau-olhado, olho gordo, quebranto, inveja, mandinga, enguiço, mau agouro e outras coisas.

Na última sexta-feira 13, pipocaram publicações na internet (que Xangô me perdoe), sobre essa data simbólica.

Eu mesmo publiquei a foto de Liev, meu gato preto da sorte.

Quando li a crônica de Marcos Ferreira, que falava sobre um mal súbito, possivelmente um mau-olhado, de súbito (desculpem o trocadilho), lembrei do mestre Luís da Câmara Cascudo e seu livro Meleagro, no qual fala de magia, catimbó, superstição, religiosidade e fechamento de corpo.

E, veja, Cascudo era católico fervoroso.

Quem já não teve medo de alguém lhe varrer os pés?

Certamente, você, leitor, já desvirou a sandália para proteger sua mãe. Talvez tenha colocado uma vassoura atrás da porta, batido na madeira três vezes e levado seu filho para rezadeira.

Minha mãe, católica fervorosa, me levava para Dona Mafisa me benzer com arruda e vassourinha quando era criança. Talvez para me livrar de uma pneumonia. Nunca esqueci.

Até Lampião, para a surpresa da volante que o matou na Grota do Angico, levava no seu bolso a oração da Pedra Cristalina. Talvez tivesse também a oração das 13 palavras ditas e retornadas. Quem sabe?

No aperreio ou por hábito, todos nós, consciente ou inconscientemente, consideramos certos rituais importantes para nossa saúde espiritual.  Sexta-feira 13 passada, vi muita gente demonstrar isso, e achei excelente.

Afinal, tem quem não acredite. Mas não duvida.

Incenso, trabalhos de amor e outras mandingas também são populares. Bem, mas isso é outro assunto.

Há quem coma churrasco à noite, mas compre sal só durante o dia; não tenha medo de coruja, mas horror a rasga-mortalha e urutau; adore chá de arruda, faça figa, tenha olho grego pendurado na porta e reze um pai nosso antes de dormir.

O sincretismo religioso é tudo.

Já escolheu sua roupa anil, renovou sua folha de louro na carteira e passou desinfetante de lavanda?

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 15/10/2023 - 03:10h

Pedaço de mau caminho

Por Marcos FerreiraPedaço de mau caminho – CONTO – Marcos Ferreira

— Aqui está bom — disse o garçom Raimundo.

Quase cheia, a Kombi da Boate Planeta parou na esquina do ferro-velho. Madrugada de sexta-feira, mais de três horas. Geralmente ele é o último a ser deixado em casa. Dessa vez, porém, os colegas votaram por desviar da rota habitual e deixá-lo primeiro. “Queremos saber onde você se esconde, Raimundo”, dissera Augusto, o barman. Então, por gentileza e alguma curiosidade, o jovem garçom chegaria menos tarde.

Chovera. O lugar estava desértico, alagadiço.

— Tem certeza, Raimundo? — indagou o motorista Fernando, que se encontrava em sua primeira semana de trabalho, de maneira que ainda não estava muito familiarizado com a rota e os endereços de todos os empregados.

— Sim. Minha casa fica bem ali.

— Até amanhã, Raimundo!

— Até. Obrigado a todos vocês!

Abriu a porta corrediça, desceu com o paletó em cima do ombro. Só então se recordou do volume. Alguém avisou que o celular dele ficara sobre o banco. Deu meia-volta. A senhora Conceição, a boquirrota cozinheira, que estava na parte da frente, pareceu ter notado alguma coisa de suspeito. Pôs o olhar diretamente na linha de cintura do rapaz. Encabulado, Raimundo cuidou logo de cobrir a saliência com o paletó.

— Vivo esquecendo esse telefone…

O veículo foi-se embora com os demais colegas da boate. Entre estes estava Gabriela, operadora de caixa, vinte e poucos anos, responsável por aquele incidente erétil. Raimundo seguiu pela rua sem pavimento. Sua casa estava a uns duzentos metros. O músculo repetia espasmos. Naquela ocasião caía apenas umas gotículas de chuva. O inverno trouxe otimismos. Açudes encheram; a vegetação e a esperança dos agricultores reverdeceram; matou-se a fome e a sede dos bichos; salvaram-se superstições.

“Será que a fofoqueira da Conceição percebeu alguma coisa? Se sim, deve estar falando sobre isso no caminho. Não duvido nada”, pensou.

Um raio fotografou telhados, alumiou quintais. Veio a trovoada. Cães no entorno se puseram a latir, grilos emudeceram nos esconderijos. O vento agredia as árvores e os fios do posteamento, produzindo um assobio intermitente. Raimundo recordou-se da lástima em que se encontra o telhado de sua casa, a esposa a condenar-lhe a falta de ação. Desceu pela rua enlameada. Driblava poças d’água, o paletó dobrado debaixo do braço, as mangas da camisa acima dos cotovelos, a mochila pendurada ao ombro.

Naquele instante lhe sobreveio uma sensação de perigo. Virou a cabeça, olhou o caminho às suas costas, os olhos vermelhos de sono piscando por trás das lentes de grau. Encontrava-se ali um homem desarmado, desprotegido, vulnerável; a mochila podia atrair meliantes. A criminalidade neste município prossegue aterrorizando o povo, enchendo os bolsos de proprietários de casas funerárias e centros de velórios.

Na semana passada, durante um assalto a uma panificadora do bairro, o dono reagiu e foi morto pelo assaltante com dois tiros. O Jarbas leiteiro ficou sem a motocicleta e a carteira com todos os documentos no dia de Nossa Senhora Aparecida. Até o momento, pelo que se sabe, nem a moto nem os documentos apareceram.

Não está fácil para ninguém. Um sargento da Polícia Militar teve a sua jovem e bonita esposa levada por um estranho. A digníssima foi embora com o desconhecido por vontade própria. Mas não tratemos aqui sobre senhoras que se extraviaram sob o nariz dos maridos. A negligência dos homens para com as mulheres é um caso antigo. Muitos se dão conta disso só depois de abandonados. O garçom corre esse risco.

Raimundo começou a se sentir à vontade. A lembrança de Gabriela voltou a mexer com ele. A sensação de perigo se afogou nas poças d’água, as passadas caíram de ritmo. Já não tinha pressa de chegar quanto no instante em que descera da Kombi. Teve a impressão de que o vulto de Gabriela se apresentara diante dele, dissipando-se rapidamente. Buscou retê-la na memória. Recordou-lhe a covinha na ponta do queixo, os olhos verdes e os cabelos negros, a pele morena ainda exalando um perfume amadeirado, além da blusa a exibir um pouco das alças do sutiã. Não é de agora que essa moça o atrai.

Meteu a mão no bolso esquerdo a fim de melhor acomodar o volume. Aí se apercebeu da umidade viscosa que ultrapassara o tecido do forro. Sungou os testículos, passou a mochila de um ombro para o outro. Durante o trajeto, que durou pouco mais de vinte minutos, supôs que a colega lhe pressionava uma das coxas. Isto o atiçou. Aproveitou os solavancos e o balanço do carro para retribuir o hipotético estímulo.

Mas não passou disso. Manteve-se discreto, seguiu a prudência; nenhum gesto ousado. Ateve-se ao plano das hipóteses, ao vaivém das conjecturas. Imaginou-lhe a maciez da pele, o frescor dos lábios, a firmeza das coxas, seios, nádegas.

— Meu Deus! Que pedaço de mau caminho!

Aproximava-se das três e quarenta quando enfim Raimundo pisou a soleira de casa. Coçou a cabeça e olhou o céu. Deu algumas pancadinhas na porta e esperou. Algum tempo depois pôde ouvir o arrastar das sandálias vindo em sua direção. Por hábito, a mulher perguntou quem era. Ele respondeu. Francisca abriu a porta. Bêbada de sono, sem olhar no rosto do marido, deu-lhe as costas e retornou na penumbra.

Raimundo entrou calado. Pôs o paletó e a mochila sobre o sofá. Encaminhou-se para a cozinha, abriu a geladeira e destacou algumas uvas do cacho que restara em uma bandeja de isopor. A chuva recomeçou com raios e trovões. De novo a lembrança de Gabriela invadiu a sua cabeça. Ele foi ao quarto, despiu-se, pegou uma toalha e rumou para o banheiro, a força do vício solitário a lhe inflamar os pensamentos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 08/10/2023 - 06:48h

Saudade dos amigos

Por Marcos Ferreira

Ilustração do Buscapé

Ilustração do Buscapé

Hoje acordei assim, com saudade dos amigos. Isto não quer dizer que me esqueceram, que estou abandonado e muito menos me sinto para baixo, melancólico. Não. Significa apenas que o relógio, o calendário e a geografia têm jogado contra nós nos últimos tempos. Alguns estão a quinze, vinte, trinta minutos de distância. Outros, a muitos quilômetros, em cidades e estados por este país afora.

O telefone também parece sem muita eficiência no estreitamento dos laços. Não toca desde a sexta-feira. Exceto pelas chamadas entre mim e Natália, o silêncio é predominante. Não duvido de que as operadoras, por má vontade e atentando contra o próprio faturamento, tenham formado um conciliábulo para favorecer a deslembrança e prejudicar a memória.

Assumo minha responsabilidade em cinquenta por cento pela falta de comunicação. E não estou agora culpando ninguém por nada. Existem dias, semanas e meses em que os compromissos aprisionam a gente.

Hoje, então, penso nos amigos. Desejo que todos, apesar da correria, dos afazeres, estejam em paz e com saúde. Porque não existe, como sabemos, nenhum patrimônio mais importante do que saúde e paz. O resto é o resto.

Há pouco escutei a simpática vizinha da casa 30, bem aqui do lado, cantando uma música do Benito Di Paula. A mulher não é uma profissional do ramo, claro, no entanto possui uma alma de passarinho feliz. Acompanha a letra vinda de uma tal de Alexa.

Interage com esse equipamento enquanto realiza as suas tarefas, e o resultado é extraordinário. Pois uma pede o que deseja ouvir e a outra obedece com notável precisão. Aí fico com essa ideia boba de que às vezes temos melhor relação com certas máquinas e menos afinidade com a nossa complicadíssima espécie.

Percebo que sobrei na curva, capotei para outro assunto. Perdoem minha digressão. Estou certo de que mais cedo ou mais tarde estaremos juntos. Um aperto de mão e um forte abraço matarão a saudade.

Vai ser bom.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/10/2023 - 06:34h

Mau-olhado

Por Marcos FerreiraMau-olhado – CRÔNICA – Marcos Ferreira

Algumas vezes por vontade própria, outras por cautela financeira, esta nossa Mossoró me tem visto muito pouco. Então, sendo um indivíduo com baixa quilometragem, quase não frequento as rodas intelectuais, os cafés, os saraus literários. Sei que já falei mais ou menos sobre isso em data recente. Entre outros endereços, estou devendo visitas a familiares e amigos. Hei de revê-los em breve.

Este rodeio é para contar a pequena e distante história de um mau-olhado. Também conhecido por quebranto. Calculo que foi no início de 2018, antes da pandemia. Nesse tempo, ao contrário de hoje, eu batia pernas por aí com maior frequência. Ia ao cinema do shopping, entrava em alguma loja, dava um pulo na livraria, tomava um cafezinho ali por perto. Acontecia de comprar um sorvete ou uma barrinha de chocolate amargo. Não dava importância ao ruído, ao vaivém das pessoas. Gente habituada àquele passeio tão apreciado por famílias e namorados.

A classe média se achava. Continua se achando. Da mesma forma os pseudorricos. O espaço naquele empório parece elevar o espírito, a autoestima dos seus frequentadores. Em maior número, claro, está a população com menor poder aquisitivo. Esses dão pouco lucro aos comerciantes. Alguns deixam os seus veículos do lado de fora. Pois o preço que cobram por aquele estacionamento é uma facada.

Bom. Não quero enrolar. Vamos logo ao referido mau-olhado. Num domingo, portanto, começo da noite, de cabelo cortado e barba bem escanhoada, lá estava este pequeno cronista de bobeira. Eu acabara de sair da livraria quando topei com uma escritora desta cidade. Encontrava-se em companhia de certa mulher, cujo nome ignoro até hoje. Notei que a desconhecida empalideceu diante de mim. Achei que fosse desmaiar. Era uma jovem senhora bonita, de cabelos loiros e olhos verdes. Tive vontade de perguntar se ela estava se sentindo mal, contudo fiquei na minha.

A escritora cuidou de me apresentar e decerto informou o nome da amiga, detalhe este do qual não consigo lembrar. Daí a pouco a mulher readquiriu o sangue das faces. Suspirei. Eu temia que ela fosse ter um troço, uma síncope. Em seguida observei que ela, após balançar a cabeça lateralmente, como buscasse repelir o mal-estar, lançou-me um olhar feroz. Nesse minuto tremi de cima a baixo.

A explicação para aquele estranho comportamento não tardaria. A desconhecida resolveu abrir a boca e, ainda com ar de quem recebera uma ofensa, disse que eu era um sósia, que eu tinha a cara do seu ex-marido. Não revelou o nome do sujeito, que torci para que não fosse meu xará. Ressentida, a voz meio trêmula, acrescentou que o dito-cujo a havia trocado por outra dez anos mais nova: “Uma piranha de Grossos”, disparou. Fiquei desconfortável. Só não pedi desculpas. Mas falei que lamentava e que, salvo exceções, não se pode confiar nos homens, espécie inferior.

Foram embora. De imediato uma náusea me sobreveio. Tomei o rumo de casa já suando frio. Acordei de madrugada tremendo o queixo. Febre. Recorri à dipirona. O estômago não tolerou o comprimido. Vomitei. Repeti o medicamento. A febre me largou. Mal o dia amanheceu, porém, fui atacado por cólicas e diarreia. Escapei fedendo. Espero nunca mais me deparar com uma mulher traída.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 24/09/2023 - 06:46h

Periscópio

Por Marcos Ferreira

Imagem do Freepik

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Gosto de ficar em casa. Aliás, para ser franco, tenho medo de sair. Sei que a violência me espera do lado de fora. Ela pode estar à minha espreita, que sou presa fácil, sem armas, saúde nem estrutura para certos enfrentamentos. Não me arrisco nem mesmo em bate-bocas, discussões. Não tenho nervos, sangue-frio. Exceto escrevendo. Até isso tornou-se muito raro hoje em dia.

Então, repito, gosto de ficar em casa. Aqui me sinto a salvo, a menos que seja atacado por um infarto ou derrame cerebral. Mas aí não será culpa desse bicho imprevisível chamado sociedade.

As ruas estão cheias de cães e gatos abandonados. Os governos municipal e estadual não se mobilizam, não fazem nada para mitigar o sofrimento desses animais. É triste. Como não bastasse, surge um vereador de Apodi (sem alma nem coração) propondo criminosamente que os infelizes sejam abatidos. Imaginem se fôssemos abater os políticos desocupados e inúteis que vivem soltos por aí.

O trânsito me assusta. Monstro de metal, carne, ossos e fúria. Um sujeito qualquer, desses que se autoproclamam cidadãos de bem, pode sair possesso de seu automóvel com uma arma de fogo e cometer um assassinato tão somente porque não tolera receber uma reprimenda ou reclamação de outro condutor.

Não me interesso por frequentar lugares públicos, cheios de pessoas potencialmente agressivas. Viajar também não é para mim. Sobretudo se a viagem for de avião. Instigado por amigos, fiz apenas duas viagens aéreas em toda a minha vida. Para receber premiações literárias. Uma vez no Rio e outra em Salvador. Não tive coragem, porém, de comparecer à solenidade de premiação em Manaus. Depositaram o dinheiro, e os livros vieram pelos Correios. Sou um animal terrestre. Deixo o céu para as aves, os seres alados. Embora também haja perigos, prefiro o solo.

Contudo, nesta pequena e agradável casa, projeto da querida amiga Miriam Ferreira, algo me preocupa: tremores em excesso. O problema só aumenta, apesar de meu psiquiatra ter substituído e retirado alguns medicamentos. Estou aqui me organizando para consultar um neurologista particular.

Esse tipo de profissional não está disponível na saúde pública de Mossoró. Atemoriza-me a possibilidade de não mais dominar o teclado, entre outras limitações. É trabalhoso tomar uma sopa, manejar um barbeador, uma caneta. Quase não consigo manuscrever o meu nome.

Talvez seja apenas coisa da minha cabeça. No mais estou muito bem. Não sinto a menor falta de multidão, palco nem holofotes. Negociei um armistício com os meus fantasmas e a nossa convivência tem sido respeitosa. Recebo alguns amigos que ainda me visitam e me alegro com o carinho e consideração que me transmitem.

Sei que esses não estão interessados em todo o meu dinheiro, ao contrário daquele moço remediado conhecido por Elon Musk. Esse está me devendo uma grana que tomou emprestada e que eu já dei por perdida. Que ele me perdoe a indiscrição.

Submerso em meus silêncios e recolhimento, observo este município com um periscópio que aponto especialmente para os blogues e redes sociais. Todavia não demoro. Receio me deparar com notícias abomináveis como essa do vereador apodiense que prega a matança de cães e gatos sem um lar. Assim, prejudicando meu equilíbrio, noto que perco um pouco da paciência, o sangue esquenta. Os nossos gestores precisam dar um tempo no populismo e agir em benefício dessa causa.

Era o que eu tinha para contar e dizer por hoje. O domingo está calmo. Ao menos neste recorte da periferia. Minha paz doméstica não será afetada pelo leve ruído da vizinhança. Hora de tomar um banho, esfriar a moleira, fazer um café. Quero esquecer essa malvadeza proposta contra os bichinhos de rua.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/09/2023 - 07:51h

Modesta fortuna

Por Marcos FerreiraMarcos Ferreira - Modesta Lonjura, Papangu na Rede - 31 de agosto

Quando amanheceu nas lonjuras daquele lugarejo, ponto limítrofe entre a zona urbana e a rural, onde os raios da manhã surgiam mais cedo que na selva de pedra, a jovem senhora Ruth, de quarenta e um anos, dispunha apenas de uma soma hoje equivalente a trinta reais para adquirir o alimento para os filhos — dois meninos miúdos e três meninas maiores que os irmãos, todos com idades entre dez e quatro anos. Esta, portanto, a prole do carroceiro Pedro e da lavadeira Ruth.

Era meados de 1980. A carestia campeava e impunha privações e infringia constrangimentos às famílias mais pobres daquela localidade de Barreiro Seco. Com as sombras a ocuparem a maior parte da precária residência, edificação composta de madeira e barro, a mulher desarmou a rede dela e a do marido, que já havia saído para o Centro, especificamente o entorno do Mercado Central, em busca de pequenos fretes. Algo incerto e minguado naqueles tempos de escassez. Não raro o senhor Pedro Soares, já pegando cinquenta anos, regressava de mãos abanando. Tirava o chapéu, pendurava-o numa ponta de ripa da parede, e meneava a cabeça negativamente perante Ruth. Com esse simples gesto ele não carecia de falar mais nada.

Cedinho, então, as crianças começaram a acordar. Todas analfabetas, a exemplo dos pais. Àquela altura Ruth se antecipara e dera um pulo até a única panificadora nas imediações e adquirira boa quantidade de pães da véspera, que afinal de contas pensava-se tão nutritivos quanto os assados minutos antes e custavam a metade do preço. Daí a pouco o leiteiro gritou lá fora. Nesse dia, no entanto, os Soares tomariam apenas o café preto, cujo pó fora reaproveitado da tarde passada.

A senhora Ruth desenrolou a esteira de palha sobre o chão batido da cozinha. Essas peças artesanais eram uma opção bastante utilizada pela gente pobre, quase sem mobília. Um tanto bamba, a única mesa de que dispunham não comportava todos. Na cozinha dos Soares, além de um fogão a lenha, cuja tisna enegrecia as paredes e as picumãs que rendilhavam o teto, contava-se com dois potes de barro para água de beber e cozinhar. Existia, ainda, um paneleiro de metal enferrujado. Não tinham luz elétrica. Lamparinas de querosene ardiam até certo horário da noite. Dentro em breve o carroceiro as apagava e todos se aquietavam nas suas redes.

Ruth apresentava nos olhos castanhos um brilho de regozijo. Possuía experiência em não ter o que oferecer às suas crias em diversas manhãs e noites. Naquele instante, entretanto, a situação os favorecia. Oposto de outras vezes, quando as refeições se resumiam a farinha misturada com açúcar ou café aguado.

Nos últimos meses, quem sabe por causa da inflação nas alturas, ela estava sem conseguir dinheiro regularmente. Sobretudo porque a sua principal cliente, casada com um médico da Marinha, fora embora com o marido para Alagoas, onde ofereceram ao homem vantagem econômica e progressão na carreira. Os demais serviços que Ruth adquiria não passavam de rendimentos pinga-pinga. Pedro sustentava a barra mais pesada, embora o seu lucro também fosse imprevisível.

Os meninos se mostravam felizes. A mãe dispôs a garrafa do café, os pães dormidos, meia lata de margarina e umas batatas-doces que guardara da noite anterior. Viviam um momento de modesta fortuna. Os rebentos comiam gulosamente. Copiando a genitora, um deles colocou uma colherinha de margarina no café, conferindo a este um sabor especial. Era mais um dia sem o pesadelo da fome.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 10/09/2023 - 06:38h

Copidesques e revisores

Por Marcos FerreiraCopidesques e revisores – CRÔNICA – Marcos Ferreira

Espero que ninguém se ofenda, contudo acho que o trabalho mais ingrato, senão inútil para quem o realiza, é o de copidesque e revisor de textos. O ofício desses lapidadores do nosso idioma é totalmente obscuro. Pois nesse triunvirato entre escritor, copidesque e revisor, quem sempre leva os louros por uma coisa bem escrita (livre de pleonasmos, ecos, redundâncias, erros de ortografia, de concordância verbal e nominal, além da sintaxe por vezes caótica) é o suposto literato.

Precisa-se fazer a seguinte distinção: nem todo revisor é copidesque, porém todo copidesque é revisor. No geral, sem que isso seja considerado um detalhe negativo, o revisor se encarrega da importante missão de localizar e consertar falhas puramente gramaticais e tropeços de digitação. Já o outro faz tudo isso e pode transformar uma página ou livro muito ruim em algo apresentável do ponto de vista redacional. Quanto ao aspecto artístico, aí vai depender de cada autor. Do contrário, ultrapassando essa linha de atuação, descambaria para a alçada do escritor fantasma.

Tudo bem que há aqueles indivíduos fora de série, narradores excepcionais, homens e mulheres com “redação própria”, como no caso de Otto Lara Resende, mas isso não é uma regra. Porque ninguém, por melhor que seja, pode ignorar a prudência e abrir mão de olhos treinados, mais atentos e descansados.

Diante do que oferecem, e considerando a remuneração desses profissionais, pode-se dizer que o reconhecimento é pífio. Na medicina, na advocacia, na arquitetura e na engenharia, por exemplo, é certeza que as pessoas logo perguntem quem foi (ou é) o médico responsável, o advogado, o arquiteto ou engenheiro.

Já em relação a um determinado romance, um livro de contos, de crônicas ou de poemas, ninguém quer saber quem foi o sujeito (oculto) que cuidou do copidesque e da revisão. Sei que as palavras copidesque e revisor aqui empregadas pipocam como um tipo de redundância, todavia não é possível falar acerca dessa questão sem repeti-las.

Segundo Luis Fernando Verissimo, que também foi revisor de jornal: “Os revisores só não dominaram o mundo porque ainda não se deram conta do poder que têm”. A meu ver, enfim, esses operários das letras são muito pouco reconhecidos. Não sei o que seria dos literatos sem os copidesques e revisores.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/09/2023 - 05:38h

Conversas de calçada

Por Marcos FerreiraConversas de calçada - CRÔNICA - Marcos Ferreira

Subúrbio. Conjunto Walfredo Gurgel. Rua Euclides Deocleciano. Chega a tarde-noite (juntamente com os enxames de muriçocas) e os moradores desta periferia começam a surgir com as suas cadeiras de plástico e de balanço. Há grupos de indivíduos de vários tipos e em quantidades diversas. O círculo de que faço parte se reúne bem perto de minha casa. Ao fim do dia, portanto, quando não estou com outro compromisso ou escrevendo, saio para interagir com meus vizinhos. São conversas de calçada, onde se fala de tudo. Inclusive da vida alheia, que ninguém é de ferro.

A senhora Raimunda é peça valiosa nessas reuniões crepusculares. Bem-informada, está por dentro de quase tudo que se passa neste logradouro. Maldiz (e com razão) os motoristas e motociclistas que passam na carreira. Apesar da vista curta, ela dá conta de quem vem e de quem vai. É a minha personagem favorita desse elenco de palestrantes bem-humorados e tão criativos quanto sinceros.

Sayonara, filha da senhora Raimunda, sai com uma cadeira e o seu bem-amado cãozinho Pim-Pim, cheio de fofura e nada amigável. Jéssica Taline, social mídia e designer, integra-se à turma. Daí a pouco, também com uma cadeira de balanço e sua cadelinha Pretinha, comparece Maria dos Navegantes. Pretinha é o meu xodó. Aqui e acolá, quando vou pedir um pouco de café a Navegantes, Pretinha faz uma festa ao me avistar no portão. Um encanto de criatura. Mais afetuosa, mais sensível até do que certas classes de elementos incapazes de um gesto de amor ao próximo.

Rucilene e Erinaldo, casal espirituoso, brincalhão, sempre disponibiliza a sua calçada e algumas cadeiras para esse bate-papo tradicional, isento do rigor e das amarras da língua portuguesa. Em tal meio, de forma cristalina, fala-se o idioma do povo, não o linguajar rebuscado, calculado, de supostos intelectuais. Em companhia dessa gente me sinto à vontade, benquisto. Eles me transmitem isso.

Os diálogos avançam pela noite. Não raro há comida degustada ali mesmo, à calçada. Navegantes, Rucilente e Erinaldo são os principais adeptos de refeições do lado de fora, ao ar livre. Não falta, claro, uma pequena mesa e uma garrafa de café. Além disso, circulando de mão em mão, ouve-se o pipocar de uma dessas raquetes elétricas para combater o ataque dos mosquitos. Após determinado horário, porém, quando circula um ventinho generoso, os pernilongos dão um sossego. Os fatos e os boatos correm soltos. Zecão, o dono da lanchonete, larga um berro de entusiasmo. Gol do Flamengo! Assim se comporta Magno, outro torcedor do rubro-negro e esposo de Navegantes. A clientela de Zecão entra e sai. A senhora Raimunda filma tudo.

Figura especialíssima é a vizinha do meu lado direito, a simpática Cilene Freitas, eventual frequentadora de nossa confraria. Não conheço mulher tão alegre, tão de bem com a vida e cheia de coragem para enfrentar os obstáculos do mundo. A sua positividade transborda e nos contagia. Além de exímia cozinheira, é responsável, em grande parte, pelo vocabulário proibido para menores de dezoito anos que se escapa da boca dos adultos. Um tirinete de palavras e frases picantes.

Não só de amenidades e risos se constitui o colóquio desses cidadãos vulneráveis, desprotegidos. Discute-se, entre outras questões, os assaltos frequentes, o abandono do bairro, o problema do carro do lixo que deixou de passar na rua, serviço agora a cargo de um único gari que realiza toda a coleta quase de madrugada e vai distribuindo as poucas sacolas encontradas em esquinas estratégicas.

Este é o mais antigo conjunto de Mossoró e jamais um prefeito ou prefeita quis asfaltá-lo. Contrariando tudo isso, sobretudo o risco de sermos premiados com a visita indesejada de assaltantes, a gente reúne coragem e bom humor para se encontrar ao pôr do sol nesta esburacada Euclides Deocleciano.

Agora vejo que me alonguei neste relato. Os meus vizinhos devem estar lá fora. Acredito que algum deles já perguntou por mim.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 27/08/2023 - 10:48h

Modesta fortuna

Por Marcos FerreiraModesta fortuna

Quando amanheceu nas lonjuras daquele lugarejo, ponto limítrofe entre a zona urbana e a rural, onde os raios da manhã surgiam mais cedo que na selva de pedra, a jovem senhora Ruth, de quarenta e um anos, dispunha apenas de uma soma hoje equivalente a trinta reais para adquirir o alimento para os filhos — dois meninos miúdos e três meninas maiores que os irmãos, todos com idades entre dez e quatro anos. Esta, portanto, a prole do carroceiro Pedro e da lavadeira Ruth.

Era meados de 1980. A carestia campeava e impunha privações e infringia constrangimentos às famílias mais pobres daquela localidade de Barreiro Seco. Com as sombras a ocuparem a maior parte da precária residência, edificação composta de madeira e barro, a mulher desarmou a rede dela e a do marido, que já havia saído para o Centro, especificamente o entorno do Mercado Central, em busca de pequenos fretes. Algo incerto e minguado naqueles tempos de escassez. Não raro o senhor Pedro Soares, já pegando cinquenta anos, regressava de mãos abanando. Tirava o chapéu, pendurava-o numa ponta de ripa da parede, e meneava a cabeça negativamente perante Ruth. Com esse simples gesto ele não carecia de falar mais nada.

Cedinho, então, as crianças começaram a acordar. Todas analfabetas, a exemplo dos pais. Àquela altura Ruth se antecipara e dera um pulo até a única panificadora nas imediações e adquirira boa quantidade de pães da véspera, que afinal de contas pensava-se tão nutritivos quanto os assados minutos antes e custavam a metade do preço. Daí a pouco o leiteiro gritou lá fora. Nesse dia, no entanto, os Soares tomariam apenas o café preto, cujo pó fora reaproveitado da tarde passada.

A senhora Ruth desenrolou a esteira de palha sobre o chão batido da cozinha. Essas peças artesanais eram uma opção bastante utilizada pela gente pobre, quase sem mobília. Um tanto bamba, a única mesa de que dispunham não comportava todos. Na cozinha dos Soares, além de um fogão a lenha, cuja tisna enegrecia as paredes e as picumãs que rendilhavam o teto, contava-se com dois potes de barro para água de beber e cozinhar. Existia, ainda, um paneleiro de metal enferrujado. Não tinham luz elétrica. Lamparinas de querosene ardiam até certo horário da noite. Dentro em breve o carroceiro as apagava e todos se aquietavam nas suas redes.

Ruth apresentava nos olhos castanhos um brilho de regozijo. Possuía experiência em não ter o que oferecer às suas crias em diversas manhãs e noites. Naquele instante, entretanto, a situação os favorecia. Oposto de outras vezes, quando as refeições se resumiam a farinha misturada com açúcar ou café aguado.

Nos últimos meses, quem sabe por causa da inflação nas alturas, ela estava sem conseguir dinheiro regularmente. Sobretudo porque a sua principal cliente, casada com um médico da Marinha, fora embora com o marido para Alagoas, onde ofereceram ao homem vantagem econômica e progressão na carreira. Os demais serviços que Ruth adquiria não passavam de rendimentos pinga-pinga. Pedro sustentava a barra mais pesada, embora o seu lucro também fosse imprevisível.

Os meninos se mostravam felizes. A mãe dispôs a garrafa do café, os pães dormidos, meia lata de margarina e umas batatas-doces que guardara da noite anterior. Viviam um momento de modesta fortuna. Os rebentos comiam gulosamente. Copiando a genitora, um deles colocou uma colherinha de margarina no café, conferindo a este um sabor especial. Era mais um dia sem o pesadelo da fome.

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domingo - 20/08/2023 - 04:00h

À vara e a remo

Por Marcos Ferreira

Ilustração sem identificação de autoria

Ilustração sem identificação de autoria

Mais uma vez estou aqui, diante da tela fluorescente do notebook, catando ideias e pensamentos com que eu possa urdir um texto minimamente digno de ser apresentado ao leitor. Não devo botar a cara fora com sensaborias, mera enrolação palavrosa. No entanto a semana voou e ainda não dei conta deste compromisso de produzir uma crônica dominical. Preciso arrumar isto em cima da hora, tirar uma carta da manga, eu que não sei jogar cartas, xadrez nem nada dessa natureza.

Embora paciente, compreensível com os meus apuros e contratempos domésticos e criativos, sei que o meu editor não está a fim de requentar outra página deste cronista, como fez noutros domingos neste espaço diversificado. Então prossigo garimpando um mote, uma fagulha, um tema a ser desenvolvido.

Muito bem. Vejam o seguinte. Geralmente é este um momento de prazer, de reencontro comigo mesmo e com algo que, permitam-me dizer, consigo manejar com razoável desenvoltura: o exercício da escrita. É isso. Não usarei de charminho ou falsa modéstia. Sou escritor e não tenho por que negar. Suponho que escrever seja a única atividade que realizo sem embaraço, atrapalhação. Hoje, no entanto, estou à vara e a remo. Pois a minha cabeça (de circunferência planetária) dói de maneira absurda. A isso, claro, dá-se alguns nomes como enxaqueca e cefaleia.

Portanto, a sinagoga pulsa, lateja. A pressão é grande. Exibe sinais de que vai explodir. Receio um derrame. Cedinho tive aquela ânsia de vômito e um suor frio. Porém não vomitei. O diclofenaco potássico, a dipirona monoidratada e um pouco de café seguraram as pontas. Imagino que sim. Estes são achaques típicos e velhos conhecidos deste apanhador de palavras. Então abandonei a rede.

Não está fácil. A redação sai picotada, cheia de arestas. As ideias vêm confusas, prolixas, desconexas. Sou obrigado a emendar e desemendar alguns pontos. Os ombros formigam. Estômago embrulhado, mãos trêmulas. Sinto um gosto de insucesso ou derrota perante a folha em curso. Os olhos marejam; até parece que têm areia. A luz desta manhã com céu amplamente azul representa um desconforto. Tenho a desagradável impressão de que escrevi muita coisa e não disse quase nada.

Peço perdão pela náusea, por esta cefaleia teimosa, recalcitrante. Perdoem, enfim, este relato bem pouco literário e decerto enjoativo.

Hei de engendrar algo melhor para o próximo domingo. Se minha cuca estiver em ordem.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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