Por Odemirton Filho
O Senhor Vivaldo Dantas de Farias está? Sim, respondeu, ingenuamente a sua esposa, Dona Placinda.
Era o Exército que adentrava a residência do proprietário da fábrica de redes e o levava embora, preso, sob o olhar choroso de sua mulher e seus treze filhos. Começa um calvário que se estendeu por quarenta e cinco dias, recheado de dúvidas e sofrimento familiar.
A falta de informação e o medo constante que pairavam naquela família deixaram marcas indeléveis na alma de cada um. Ver o seu pai ser retirado, à força, de casa, foi um baque para seus filhos, a maioria pequenos.
Dona Placinda, evangélica, de hábito simples, precisou de toda sua fé para conduzir a família e aplacar a tristeza de seus filhos. Precisava se manter firme, mesmo que dilacerada por dentro.
Com a ajuda de um amigo, encheu uma carroça com livros comunistas e foi enterrá-los distante de sua casa, para não se formar o libelo crime acusatório contra seu marido. Mas, qual o crime cometido? Era comunista.
Juntamente com amigos que compartilhavam do mesmo ideal, era um perigo para o Estado ditatorial que acabara de ser implantado no país. Seu Vivaldo promovia em sua residência encontros “secretos” para discutir o futuro da nação brasileira.
Como em todo o país, em Mossoró, a chama do comunismo estava acesa, ou melhor, a busca de um Brasil livre da opressão que iria perdurar por vinte anos.
Mas pensar contra o Estado era algo inadmissível, pois a tomada do poder seria temporária, até se ajeitar o país e afastá-lo do perigo comunista que o rondava. As informações junto ao Comando da Capital eram desencontradas, não se sabia ao certo onde Seu Vivaldo estava, e a família viveu por eternos quarenta e cinco dias esse martírio para obter informação.
Contudo, as orações de Dona Placinda e seus filhos foram ouvidas. Após todo esse tempo, o velho comunista retornou para o seio de sua família.
Abatido, cansado, não quis entrar em detalhes sobre o sofrimento que padeceu. Queria preservar os filhos.
Uma única vez confidenciou à sua filha mais velha, minha mãe, que fora colocado em um quarto escuro, sem sandálias, repleto de formigas vermelhas. Talvez tenha contado o mínimo em respeito à dor de sua filha.
Portanto, há cinquenta anos, um homem de bem que ousou pensar diferente dos mandatários do país, sofreu profundas torturas em seu corpo e, sobretudo, na sua alma. Na realidade, não importa se era comunista ou não, o que se almejava era um país livre.
Hoje, apesar de tudo, foi resgatada a democracia e o povo pode se manifestar sem as amarras da ditadura.
Seu Vivaldo, onde quer que esteja, deve estar feliz e em paz, ciente de que seu sofrimento, de sua família e de milhares de brasileiros, não foi em vão.
Odemirton Filho é oficial de Justiça e professor























