domingo - 08/12/2024 - 06:38h

Ainda estou aqui

Por Odemirton Filho

À esquerda da foto, os filhos Adiel, Albenice e Ana Maria. À direita, Alba (mãe do cronista), Adna e Adnélia. O mais alto da foto é o filho mais velho, Alcides. No colo da mãe Placinda, Alcivan; no colo do pai Vivaldo, Arnon (Álbum de família)

À esquerda da foto, os filhos Adiel, Albenice e Ana Maria. À direita, Alba (mãe do cronista), Adna e Adnélia. O mais alto da foto é o filho mais velho, Alcides. No colo da mãe Placinda, Alcivan; no colo do pai Vivaldo, Arnon (Álbum de família)

“Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Beyrodt Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, viu-se obrigada a criá-los sozinha quando, em janeiro de 1971, Rubens Paiva foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor e às incertezas, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras”.

“Foi a minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou”, escreve Marcelo Rubens Paiva neste relato emocionante sobre o passado, as perdas e a volta por cima. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, ele fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento sombrio da história recente brasileira para contar – e tentar entender- o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971”.

Eis a sinopse do livro, “Ainda estou aqui.” A história baseou o filme, protagonizado pelas atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, e pelo ator Selton Mello.

Ao folhear as páginas do livro, lembranças vieram à tona. Lembrei da história que minha mãe conta, com os olhos marejados, sobre a prisão do meu avô materno, Vivaldo Dantas de Farias. Como ele lutava nas trincheiras em defesa da democracia, foi preso em sua residência, na rua 06 de Janeiro. Os treze filhos ficaram assustados com aqueles homens de coturnos. O suposto crime? Lutar por um estado democrático de Direito.

Daí em diante começava um calvário para a minha avó, Placinda Dutra. Ela teve que ter discernimento para acalmar os filhos, pois eles ficaram com medo de nunca mais terem o pai de volta; teve que tocar, sozinha, a sua fábrica de redes.

Entretanto, ela soube conduzir a situação com fé inabalável. Conta-nos minha mãe que a minha avó escondeu os livros de meu avô em uma carroça, mandando-os para serem enterrados em um terreno distante de sua residência. Livros com ideias comunistas, à época, eram um libelo-crime.

Da mesma forma que a família de Rubens Paiva, a minha também não sabia o local no qual o meu avô estava preso. Foram quarenta e cinco dias de tortura psicológica, uma agonia para familiares e amigos.

Por outro lado, o livro aborda a doença de Alzheimer, a qual acometeu Eunice Paiva no final de sua vida. A minha avó também padeceu da doença nos últimos anos de sua existência. Quem convive com pessoas assim, sabe como é delicado o dia a dia, é preciso muito amor, cuidado e paciência.

Leia tambémÀ memória de Vivaldo Dantas de Farias (2014)

Leia tambémVô Vivaldo (2022)

Triste é ver quem amamos já não reconhecer quem está ao seu ao lado, precisando de ajuda para fazer as simples atividades do cotidiano. As memórias recentes são apagadas, já as antigas são recontadas, recontadas …

Eunice e Placinda sofreram dos mesmos males: a ditadura militar e a doença de Alzheimer.

Entretanto, o meu avô, apesar de machucado no corpo e na alma, voltou para casa. Rubens Paiva, infelizmente, não.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/12/2024 - 14:38h

Metamorfose ambulante

Por Odemirton Filho 

Arte ilustrativa do Mudando de Rota

Arte ilustrativa do Mudando de Rota

Nesses tempos de extremismo e pós-verdade, pensar fora da caixinha tornou-se um ato de rebeldia. É pecado ter uma opinião diversa daquelas que presidem o nosso dia a dia. O maniqueísmo, ou seja, a divisão entre o bem e o mal, é a regra nas discussões nos dias atuais.

Entretanto, ao longo de nossas vidas inúmeras vezes mudamos de opinião acerca de alguém ou sobre algo. Se ontem pensávamos de uma forma, hoje, podemos pensar e entender o mundo de forma diferente, não constituindo, a meu ver, qualquer fraqueza, pois não devemos ter compromisso com o erro ou a mentira. Verdades postas como irrefutáveis podem, e devem ser analisadas. Porém, valores de vida são inegociáveis.

A dialética hegeliana, que se constitui na tese, antítese e síntese deve ser aplicada. Refletir e tirar as nossas conclusões nos torna diferentes, aguçando o nosso senso crítico. Não devemos concordar e aceitar tudo que nos é apresentado como verdade.

No decorrer do tempo, muitas vezes observamos a vida por ângulos diversos. Vemos um horizonte que, às vezes, pode estar nublado, outras, cristalino. Como disse linhas atrás, valores de nossas vidas não podem ser negociados. A ética, à guisa de exemplo, deve pautar as nossas relações, sejam pessoais ou profissionais.

A mudança é salutar, sempre. Mudar, amadurecer, crescer pessoal e profissionalmente deve ser continuamente perseguido. Atualmente, no tocante à política, vivemos no mundo do radicalismo. Somente o que vale é a nossa posição político-ideológica. Não paramos para ouvir a argumentação contrária. Contudo, mudar não é demérito. Aliás, pode ser uma virtude, mesmo porque não somos os donos da verdade (embora alguns acreditem que são).

Nessa toada, de um texto da escritora Martha Medeiros, extrai o seguinte fragmento:

“(…) Você vê um quadro hoje. Vê o quadro de novo daqui a dez anos, o revê daqui a vinte, trinta, quarenta … É o mesmo quadro com a mesma moldura, na mesma parede do mesmo museu, com a mesma luz, é você, mas cada vez será visto de outra forma. Cada vez ele nos conta uma história. O quadro não mudou. Já nós” …

Como diria o Maluco Beleza: “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 24/11/2024 - 04:26h

Deus na escuridão

Por Odemirton Filho

Capa do livro de Valter Hugo Mãe (Reprodução)

Capa do livro de Valter Hugo Mãe (Reprodução)

Estou lendo o livro Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe; um presente do meu amado filho, no dia do meu aniversário. Em resumo, o livro tem como um dos personagens, Felicíssimo, que é um protetor do seu irmão, Pouquinho, o qual nasceu frágil, e precisa da atenção especial. “Felicíssimo, porém, aceita desde o primeiro momento esse compromisso não como um dever, mas como um ato supremo de afeição”. De antemão, advirto que não se trata de uma resenha sobre o livro, mas de uma reflexão sobre o título da obra.

Pois bem. Quantas vezes estamos com um vazio na alma? Precisando de uma ajuda, de uma mão amiga, de um abraço apertado? Quantas vezes, no decorrer de nossa existência, atravessamos mares revoltos? Quantas vezes não estamos vivendo na escuridão?

É nesse momento, no qual estamos cegos pela escuridão, que precisamos encontrar uma fresta, um farol para iluminar as nossas vidas. E aí, quem professa alguma fé, procura nas palavras e nos ensinamentos de Deus um bálsamo para seus sofrimentos, um lenitivo para a alma.

Cada um tem, ou não, o seu Deus, algo superior no qual acredita, o metafísico. É uma questão de fé, do subjetivismo de cada um de nós. O fato é que quando estamos na escuridão é imprescindível procurar o caminho da luz, seja mergulhando em nossas orações, em íntima comunhão com o divino, seja buscando em alguém um gesto concreto de amor. Com efeito, atitudes valem mais do que mil palavras. Muito embora, vale dizer, uma palavra reconfortante pode, em um dado momento, ser determinante pra mudar o nosso rumo.

“Deus é luz; nele não há treva alguma”. Quão bom é o Senhor que, no obscuro de nossa alma, concede-nos a luz, a clarear os nossos pensamentos e caminhos. Por vezes estamos angustiados em razão de problemas de saúde, dificuldades financeiras, com problemas diversos. No mundo de hoje, quantas mães não choram por seus filhos estarem no mundo das drogas? Quantos jovens não estão a perder as suas vidas, vítimas de homicídio e acidentes?

Nas belas palavras de Valter Hugo Mãe:

– “Deus espera na escuridão. Deus assume suas dores, mas quer apenas entregar alegrias. Quando encontrado, Deus apenas promete alegria. Tudo o mais é falso. Desdém de quem não quis voltar a casa. De quem se perdeu e envergonhou.”

Sim, sempre haverá Deus na escuridão de nossas vidas.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 17/11/2024 - 08:28h

Antes que o café esfrie

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

O romance do escritor japonês Toshikazu Kawaguchi, que tem o título desta crônica, narra a história de um estabelecimento que serve um café especial. No local, os frequentadores têm a oportunidade de fazer uma viagem no tempo, reencontrando pessoas que também já estiveram no lugar. Porém, o encontro é breve, somente o tempo de o café esfriar.

Imagine o leitor se realmente tivéssemos essa oportunidade singular. Como seria abrasador para o coração reencontrar pessoas que se foram, deixando um vazio enorme no nosso peito. Sentar à mesa com aquela pessoal especial para reviver bons momentos ou, quem sabe, viver um pouquinho o que deixamos de aproveitar. Quantos momentos em nossas vidas não deixamos passar e, depois, nos arrependemos. Na correria do dia a dia, perdemos doces momentos.

Creio que cada um de nós gostaria de reencontrar alguém, um instante que fosse. Conversar, abraçar, sorrir, amar. Seria a oportunidade de dizer palavras não ditas, carregadas de sentimentos, compartilhando carinhos. O café, assim como o amor, deve ser servido quente, dizem por aí.

Decerto, há pessoas que passam por nossas vidas tão rapidamente que deixamos escapar instantes mágicos. Falta-nos priorizar pessoas que nos são queridas. Tudo deixamos para mais adiante. Mas, é de se perguntar: você tem certeza do porvir? Tá esperando o quê?

Quem não gostaria de rever a mãe, o pai, os avós? Certamente muitos de nós. Quem não gostaria de rever alguém que foi especial em nossas vidas? As saudades são muitas, não podemos mensurar.

Eu, particularmente, gostaria de sentar à mesa com o meu amado sobrinho, que tão cedo partiu, deixando-nos com o gosto amargo da saudade. Gostaria de rever meu vô materno, e conversar novamente com ele, aprendendo um pouco mais sobre a vida. Gostaria de prosear com um querido amigo da infância e juventude, não pra tomar um café, mas pra tomar aquela cerveja que ficou gelando, lá na casa dos meus pais, em Tibau.

Se tivesse essa oportunidade, antes mesmo que o café esfriasse, eu aproveitaria para dizer-lhes que fazem uma falta danada; são uma saudade constante.

Um dia, creio piamente, hei de reencontrá-los.

E você, se fosse possível viajar no tempo, quem gostaria de encontrar?

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 10/11/2024 - 07:00h

O Fiat 147

Por Odemirton Filho

Miniatura (Mercado Livre)

Miniatura (Mercado Livre)

Aprendi a dirigir nos carros que faziam as entregas dos pães da padaria do meu pai. Eram duas ou três Kombis e uma Brasília amarela. Sim, amarela. Eu pedia aos motoristas, e eles me ensinavam a guiar, pois não havia autoescola. Isso, lá por meados dos anos oitenta.

A fiscalização de trânsito era quase inexistente, raramente havia uma blitz; além do que os arroubos da adolescência não conheciam o medo. Naquela época, não havia a variedade de modelos como temos hoje em dia. E eu, como qualquer adolescente, tinha o sonho de possuir carros possantes. O Gol GTI era o meu sonho de consumo.

Existiam outros modelos, a exemplo do Escort XR3, conversível, e o Uno esportivo. Meu pai teve, que lembre, uma Parati e, posteriormente, um Santana, bons carros, com motor 1.8. Entretanto, raras vezes ele me permitia dirigi-los. Então, contentava-me em dirigir a Brasília ou um Buggy, primeiro um Baby, depois, um Sabre, fabricado em Mossoró.

Quem tinha grana, ostentava com um Del Rey ou um Monza. Meus amigos andavam de Chevette e de Passat. Andávamos, também, no Fusquinha de um amigo mais velho, ele nos levava para conhecer alguns locais proibidos para menores de dezoito anos.

Tempos depois, meu pai comprou um Fiat 147, 1982, da cor verde. Foi o meu xodó. Eu o equipei com rodas grandes, um som roadstar e um equalizador. Apesar da caixa de marcha não ser essa coisa toda, eu tava feliz da vida. Acho que quem possui automóvel, lembra de algum carro de “estimação”.

Em menino, lembro que rua do Cine Pax havia apresentações, vez ou outra, de carros de concessionárias. Os pilotos davam um show, faziam manobras radicais, encantando quem ali estava. Eu ficava embasbacado.

Sobre o tema, aproveito para compartilhar uma curiosidade histórica: o primeiro carro que chegou à cidade de Mossoró foi um veículo de fabricação alemã, no dia 11 de maio de 1911, comprado pela firma Tertuliano Fernandes e Cia. Era equipado com capota desmontável, buzina externa, caixa de ferramentas no estribo esquerdo, bem como, manivela, rodas com aros de madeira, motor de 40 cavalos, com oito lugares.

O fato é que desde sempre fui apaixonado por carros, antigos, sobretudo. Opala e Maverick eram carrões, bebedores de gasolina. Acho bacana quem coleciona carros, como hobby. Dia desses, fui a Gramado, no Rio Grande do Sul, e vi uma exposição de exemplares antigos, inclusive, carros americanos, enormes. Fiquei maravilhado, parecia um menino numa loja de brinquedos.

Como não tenho dinheiro comprar carros antigos, coleciono miniaturas, principalmente os clássicos; tenho pra mais de cem carrinhos. E o mais interessante é que quando vou a uma loja de brinquedos parece que a criança sou eu, pois tenho que me segurar pra não sair com mais uma ruma de carrinhos.

Se pudesse voltar no tempo? Ah, certamente eu gostaria de dirigir o Fiat 147, no qual tanto passeei pelas ruas de Mossoró nos tempos da minha juventude.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 03/11/2024 - 09:02h

Humildade

Por Odemirton Filho

Ilustração de Francesco Ciccolella (O futuro das coisas)

Ilustração de Francesco Ciccolella (O futuro das coisas)

No último domingo, o nosso querido escritor Marcos Ferreira nos presenteou, como sempre, com uma belíssima crônica. Ele escreveu sobre a gratidão (veja AQUI), uma virtude que poucas pessoas cultivam na alma.

Aí eu lembrei de uma virtude que, também, anda escassa nos dias que correm: a humildade. De acordo com o Dicionário Aurélio, a humildade é a qualidade de quem tem consciência de suas limitações; modéstia. Quem não conhece alguém arrogante, dono da verdade?

No nosso local de trabalho, na igreja, ou em qualquer lugar que frequentamos sempre há aquela pessoa de difícil trato, que acredita que sempre está com a razão, até em família, encontramos. Humildade, diga-se, não é ser subserviente, aceitando tudo, calado. Não. Creio que a humildade é se comportar de forma respeitosa, e não usar o dinheiro, o conhecimento ou a hierarquia de um cargo para menosprezar quem quer que seja.

Não é incomum em alguns ambientes religiosos ou clubes de serviços existirem os “donos”, que adoram mandar e desmandar. Nas Universidades, alguns doutores ou mestres agem de forma professoral perante os demais colegas, funcionários e alunos, como se o título acadêmico fosse um salvo-conduto para a arrogância.

No trabalho existe “o sabe-tudo”, que não gosta de ajudar, e não pede ajuda ao colega, pois acha que se diminui ao compartilhar e receber ensinamentos. No mundo jurídico não é diferente, nem entre os literatos; e nem comentarei sobre o egocentrismo nas redes sociais.

Na política, alguns candidatos e lideranças que se achavam imbatíveis, com o resultado das eleições tiraram a prova que o seu tempo passou, e perderam vergonhosamente.

Entretanto, apesar dos exemplos acima, existem pessoas que sabem que estamos a navegar no mesmo mar, muito embora em barcos diferentes. Na verdade, nunca é tarde para revermos nossos valores e atitudes, afinal, todos nós, mais dia, menos dia, iremos para o mesmo lugar.

Nas palavras do cronista Rubem Alves, “assim, para sair do círculo fechado de nós mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. Não somos o umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parêntesis, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Refis - Agosto de 2026 - 06-08-2026
domingo - 27/10/2024 - 07:28h

Uma breve caminhada

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Aqui ou acolá, quando a preguiça permite, faço uma caminhada pelos arredores do bairro onde moro; sim, é preciso exercitar o corpo, faz bem à saúde, faz bem à alma.  Ao caminhar, aproveito para observar o cotidiano, olhar em derredor. Outras pessoas também estão caminhando; cada uma fazendo o seu exercício, seja por prazer ou por obrigação.

Os galos-de-campina estão bicando alguma coisa pelas praças; dois bem-te-vis estão lado a lado, num fio de alta tensão; dois ou três gatos estão à minha espera, na calçada, esperando a ração que diariamente coloco para eles. Aliás, ultimamente, tenho visto muitos cachorros pelas ruas, creio que há alguma cadela no cio. Algumas pessoas passeiam com seus pets, porém, nem todas levam um saquinho para apanhar as “necessidades” feitas pelos bichinhos.

Muitas casas estão abandonadas; os seus proprietários foram morar em condomínios, à procura de segurança, já que o Estado não cumpre o seu papel. Nas praças, de raro em raro, vejo crianças brincando, andando de bicicleta ou jogando bola.

Aí eu lembro da minha infância, na qual inexistiam celular e internet. Vivia-se somente no mundo real, “ralando” os joelhos. Mas, nada de saudosismo, os tempos são outros, o mundo mudou, é preciso virar a página e seguir escrevendo mais um capítulo da vida, antes do ponto final.

Como é à tardinha, final de expediente, observo trabalhadores saindo do serviço, cada um tomando o seu rumo, com as suas alegrias, preocupações e tristezas. Num banco da praça um jovem casal, conversa; acho que são namorados. Quem sabe, troque juras de amor, faça planos para o futuro.

Não pense você que está lendo esta crônica que eu vou caminhar para “curiar” a vida dos outros. Não. Eu acelero e diminuo o ritmo dos passos, como recomendam. E aproveito o ensejo para pensar com os meus botões. Penso na vida, no passado, nos erros e acertos cometidos; penso no futuro, no meu primeiro netinho que vem por aí, eternizando a minha existência. Os netos são o amor em dobro, dizem; no íntimo do meu coração, sinto que são.

Depois de uns trinta minutos, boquinha da noite, encerro a minha breve caminhada. Volto pra casa, e vou regar as plantas do meu quintal. Amanhã, talvez, irei novamente. Afinal, amanhã é outro dia; e teremos mais uma oportunidade para começar ou recomeçar.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 27/10/2024 - 05:38h

Gratidão

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa Adobe Stock

Arte ilustrativa Adobe Stock

Apesar de alguns altos e baixos, minha saúde vai bem. Sim. De um modo geral, estou com a cabeça e o corpo em ordem. Existe a bateria diária de remédios, que não é das menores, contudo os efeitos colaterais são ínfimos diante do custo-benefício. Diversos são os motivos pelos quais me sinto grato e privilegiado. A Fome, por exemplo, largou do meu pé faz tempo, foi erradicada do meu viver. Hoje eu possuo casa própria, luz elétrica e água de boa qualidade em abundância.

Desde quando voltei a escrever, pouco antes da pandemia, as coisas só têm melhorado para mim. Aqui neste Blog Carlos Santos, justiça seja feita, reencontrei velhos amigos e adquiri a admiração e carinho de leitores que sequer conheço pessoalmente, como o escritor e delegado Inácio Rodrigues, aqui em Mossoró, e a pernambucana e bancária aposentada de Caruaru Bernadete Lino.

Pois é, surgiram novos amigos que acompanham meus escritos neste blogue e que se tornaram íntimos deste escriba e desta Casa Branca da Euclides Deocleciano. Sinto-me, repito, um privilegiado. Olho pelo retrovisor e vejo quantos apuros e privações ficaram para trás. Fisicamente falando, todavia, estou fora de forma, adquiri um sobrepeso de quase vinte quilos e assumo (por enquanto) minha condição de sedentário. A maior parte daquela cabeleira de algumas décadas pretéritas despencou e já não sou o palminho de rosto bonito de outrora. O tempo é iniludível.

No geral, torno a dizer, estou no lucro. Possuo entre estas paredes, debaixo deste teto que me abriga (além de outros bens materiais modestos) uma geladeira resiliente, fogão de quatro bocas, telefone celular, um velho computador, escrivaninha que ganhei no meu último aniversário, motocicleta, tevê moderna e uma rede de dormir. Pode parecer pouco para alguns, no entanto estou satisfeito.

Não, prezados leitores. Isto não é um espólio prematuro. Trata-se de uma espécie de prestação de contas ou um exercício de gratidão perante o Todo-Poderoso. Não pago nada pelo oxigênio que respiro. A Lua e o Sol não me cobram taxa de iluminação pública. As estrelas muito menos. Vivo em um recanto do mundo onde não há bombas e mísseis desabando sobre nossas cabeças. Não sofremos com enchentes, terremotos, furacões nem chuva ácida. O Brasil e Mossoró têm problemas, mas não é um deus nos acuda como esse que vemos na Palestina e Ucrânia. Longe disso.

Infelizmente, também seja dito, ainda existem muitos cidadãos desvalidos, crianças, adultos, idosos, mendigando nos semáforos, dormindo sob marquises, viadutos, em praças públicas e casas abandonadas. Eu, entretanto, por alguma benesse ou divina providência, vivo uma vida módica, porém digna.

Dá-me uma tristeza enorme quando me deparo com esses pobres coitados, indivíduos rifados no relento, invisíveis aos olhos dos gestores, dos governos, dos homens públicos, ignorados até mesmo pelo Criador. Por que será, oh, Deus?! O que terão feito de tão mau ou errado para viverem em semelhante lástima, curtindo fome e repelidos, tratados como leprosos sociais?! Então olho para mim e à minha volta, penso nos amigos que tenho e nos tostões que chegam às minhas mãos. Aí reflito, pondero e digo de mim para comigo o quanto sou feliz e bem-aventurado.

Aqui não há luxo, algo fácil de se constatar, mas quem me frequenta sabe que é bem-vindo. Toma-se um café escoteiro ou acompanhado das guloseimas que trazem Elias Epaminondas, Odemirton Filho, Rocha Neto, Marcos Araújo, entre outros que muito prezo e quero bem. Hoje é isso. O assunto é gratidão. Entrementes rogo que o Altíssimo se apiede de todos que se acham na miséria.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 20/10/2024 - 07:38h

A maior solidão

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Há quem goste de ficar sozinho, sem ouvir o burburinho das ruas, das pessoas. Sim, existem pessoas que falam demais, e dizem de menos. Quem gosta de ficar sozinho, muitas vezes, está cansado das mentiras; de viver em mundo eivado de falsidade, principalmente hoje, onde as redes sociais são um palco de exibicionismo e vaidade. Quem aprecia ficar em sua própria companhia está cansado dos relacionamentos tóxicos, sejam familiares ou amorosos.

Decerto, quem fica em casa ouvindo o silêncio, tomando um café, uma taça de vinho ou uma dose de uísque, ao som de uma boa música, sabe como é bom. Há quem aproveite a solidão para dialogar com Deus, entrando em íntima comunhão com Ele. Deixa-se a correria do dia a dia lá fora; vive-se um momento só seu. Por que buscamos momentos de solidão? Cada um sabe a resposta.

Entretanto, se existem momentos nos quais apreciamos ficar sozinhos, noutros, precisamos do calor humano. Necessitamos amar e ser amados. Precisamos de um carinho, de um aconchego. Precisamos, também, estar ao lado de pessoas que nos façam bem, que nos façam sorrir. Creio que precisamos equilibrar a vida. Há momentos que necessitamos da solidão para refletir e decidir qual rumo tomar. Porém, precisamos interagir, somos gregários.

Nessa toada, permita-me transcrever um fragmento de uma crônica escrita pelo poeta Vinícius de Moraes:

“A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto de mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse, queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre”.

Portanto, das palavras acima delineadas, é de se indagar: qual é a sua maior solidão?

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 13/10/2024 - 14:34h

Ações eleitorais e nulidade das eleições

Por Odemirton Filho

Ilustração de Caio Gomez/CB/D.A Press)

Ilustração de Caio Gomez/CB/D.A Press)

Após o resultado das urnas mais alguns capítulos deverão se iniciar. Tratam-se das ações eleitorais ajuizadas pelos partidos políticos, coligações, candidatos e Ministério Público Eleitoral (MPE), caso tenha ocorrido, no decorrer da campanha, abuso de poder econômico, de poder político e dos meios de comunicação. Certamente, se ocorreram abusos, os legitimados para o ajuizamento das ações devem ter colacionados provas materiais e/ou testemunhais para subsidiar a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE).

Não é novidade que as campanhas eleitorais no Brasil sempre foram caracterizadas pelo abuso de poder dos mais variados tipos. Distribuição de cestas básicas, óculos, próteses dentárias, material de construção, exames médicos, remédios, pagamento de contas e dinheiro em espécie, além de outros “agrados”, são comuns durante os embates eleitorais. Sem falar no abuso de poder político praticado por alguns prefeitos e prefeitas que buscaram a reeleição.

Ademais, nesses tempos de internet e redes sociais, os abusos dos meios de comunicação são utilizados para compartilhar fake news contra os adversários, numa verdadeira máquina de triturar reputações. As mentiras que circulam nas redes sociais são inimagináveis, sem nenhum pudor e respeito pela honra das pessoas; vídeos editados com o rosto e a voz de pessoas são comuns no mundo virtual.

Assim, a “novela” entra em uma nova fase, com o ajuizamento de ações eleitorais e representações por captação ilícita de sufrágio (compra de votos). Saliente-se que o direito ao contraditório e a ampla defesa são assegurados e o devido processo legal deverá seguir o seu caminho com os meios e recursos a ele inerentes.

E se for comprovado o abuso de poder, qual será a consequência? Se o candidato não foi eleito, a decisão decretará a sua inelegibilidade. Caso tenha sido eleito para o cargo de prefeito, além da inelegibilidade, a eleição será anulada, designando-se um pleito suplementar. É o que diz o Código Eleitoral:

“A decisão da Justiça Eleitoral que importe o indeferimento do registro, a cassação do diploma ou a perda do mandato de candidato eleito em pleito majoritário acarreta a realização de novas eleições, independentemente do número de votos anulados”. (Art. 224, § 3º).

Do exposto, conclui-se que a “novela” em relação à eleição de alguns municípios ainda não chegou ao fim. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Artigo / Política
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 06/10/2024 - 06:38h

Vamos às urnas

Por Odemirton Filho

Urnas eletrônicas também passarão por processo de auditagem (Foto: TRE/RN)

Urnas eletrônicas prontas para processo de auditagem (Foto: TRE/RN/2022)

Neste período de campanha eleitoral, apesar de gostar de conversar sobre política e eleições, praticamente não toquei no assunto, no máximo, escrevi algum texto sobre normas de Direito Eleitoral, abordando as consequências jurídicas de algum ilícito praticado no decorrer do pleito.

Todavia, aqui ou acolá, alguém puxava o assunto. Dia desses, lá pelas bandas da cidade de Grossos, um homem simples, tratador de cavalos, disse-me:

– Oficial, eles pensam que somos bestas. Toda campanha é a mesma conversa fiada, tô desesperançado.

Outro dia, um flanelinha que trabalha ali pelo centro de Mossoró, me falou:

– Toda eleição eu aproveito pra ganhar alguma coisa dessa cambada, já que não fazem nada quando ganham a eleição.

Em ambos os diálogos, na realidade um monólogo, achei por bem guardar o silêncio. Contudo, fiquei a refletir sobre o que me disseram. Estariam mentindo?

O fato é que há tempos a desesperança tomou conta do cidadão em relação aos políticos. Os eleitores estão cansados das promessas requentadas e da corrupção que há tempos assola o país. É claro que existem exceções, alguns bons políticos até pretendem melhorar a vida da sociedade, no entanto, ao serem eleitos, pouco conseguem realizar, pois o sistema é bruto.

Alguém já disse que em política, até a raiva é combinada. Os adversários de ontem, hoje, estão juntos e misturados. Ideologia? Besteira besta! O negócio é alçar ao poder. E fazem os seus conchavos sem um pingo de constrangimento, sejam de vieses à direita ou à esquerda.

De um lado, alguns candidatos que sabem que descumprirão suas promessas, e estão doidos para meter a mão na coisa pública. De outro, aquele eleitor que cobra honestidade do político, mas negocia o seu voto na primeira oportunidade.

De toda forma, hoje teremos a oportunidade de exercer mais uma vez, por meio do voto, o direito ao sufrágio, escolhendo um candidato para nos representar e tentar mudar essa realidade. Embora muitos eleitores estejam desesperançados, vamos às urnas, pois a “democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as demais”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica / Política
domingo - 29/09/2024 - 09:48h

A vida é boa

Por Odemirton Filho

Machado de Assis: autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Foto: Reprodução)

Machado de Assis: autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Foto: Reprodução)

– Vamos, Seu Machado, que é isso? Coragem! – dissera o Barão de Rio Branco, alguns dias antes. Não adiantou.

Na madrugada insone do dia 29 de setembro de 1908 faleceu o bruxo do Cosme Velho, após uma dolorida enfermidade. Deixou-nos o nosso maior escritor, legando-nos uma obra incomensurável, composta por uma vasta produção nos mais variados gêneros literários, romances, mais de seiscentos contos, além de inúmeras crônicas e peças de teatro.

Antes de falecer, segundo alguns, Joaquim Maria Machado de Assis, no seu leito de morte, sentenciou: “a vida é boa”. Não sei se é verdade; e se for, se ele proferiu a frase com sua contumaz ironia. O que sei é que o autor de Ressureição (1872), A mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Casa Velha (1885), Quincas Borbas (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908) é imortal.

Eu li, reli e releio Machado. Cabe anotar, que as fases de sua obra se dividem em duas, romantismo e realismo.

O fato é que fiquei a refletir sobre a referida frase. O que estamos fazendo de nossas vidas para torná-la boa? Vivemos o nosso dia a dia numa correria danada. Gastamos nossa saúde na juventude para tentar recuperá-la na velhice. Será que estamos a apreciar o singelo, como a beleza do mar e o agradável momento junto a familiares queridos e amigos? Ou estamos vivendo somente para trabalhar e pagar contas?

“A vida é um direito, a mocidade outro; perturbá-los é quase um crime. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito”, disse Machado. Decerto, precisamos construir momentos felizes que façam a vida valer a pena.

Hoje, quando eu vejo algumas pessoas idosas, lembro como eram na mocidade, agora, mostram-se frágeis, vulneráveis, precisando da ajuda de terceiros para realizar as tarefas mais simples. Será que viveram ou somente passaram pela vida? Cada um de nós tem a resposta.

“A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente”. Não esqueçamos que existem milhões de pessoas que sofrem mundo afora pelos mais variados motivos, como a fome, a miséria, as doenças e as guerras. Assim, creio eu, depende da realidade vivida e do subjetivismo de cada um afirmar ou não que a vida é boa.

Bom, mas voltemos a Machado de Assis. O seu corpo foi velado na Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual foi um dos fundadores, tendo como patrono o seu amigo José de Alencar. No discurso ao pé do seu ataúde, Rui Barbosa afirmou: “Era sua alma um vaso de amenidade e melancolia”.

O bruxo do Cosme Velho continua vivo; eu sempre o encontro na magia dos seus textos.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 22/09/2024 - 09:50h

A importância da reciprocidade

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa (página jrmcoaching)

Foto ilustrativa (página jrmcoaching)

Na trilogia de O poderoso chefão, de Mario Puzo, um best seller que foi adaptado para um filme de grande sucesso no cinema, há um diálogo que acontece mais ou menos assim:

– Padrinho, eu preciso de sua ajuda.

– Interessante, você agora quer minha ajuda, mas nunca me convidou para tomar um café – responde Don Vito Corleone (interpretado pelo ator Marlon Brando).

Pois bem, quero tratar de reciprocidade. No dia a dia de nossas vidas convivemos com diversas pessoas. São familiares, colegas de trabalho, da faculdade, do nosso círculo de amizade. Enfim, por sermos gregários por natureza precisamos dessa interação, desse calor humano.

Acontece, porém, que muitas vezes oferecemos o nosso melhor, a nossa atenção, o nosso ombro e, na maioria das vezes, inexiste reciprocidade. Reciprocidade, diga-se, é oferecer ao outro aquilo que nos é concedido. Assim, se alguém diz que gosta de nossa companhia, e sentimos o mesmo apreço, dizemos que a recíproca é verdadeira.

No cotidiano de nossas vidas é comum pessoas que “só querem venha a nós, vosso reino, nada”! Pessoas que querem nossa atenção e consideração. Contudo, nunca “chegam junto” quando precisamos. E nem é preciso ir longe. Em nossas famílias – e todas são iguais – há aqueles que adoram pedir ajuda, todavia, nunca estão prontos para ajudar.

Em famílias numerosas não é incomum que a maioria somente se encontre no velório de algum parente. Depois de sepultado o de cujus, cada um segue a sua vida, rezando para não ser o próximo da fila. Estou mentindo? Tô não.

Agir com reciprocidade ficou para poucos; gostamos de cobrar do outro aquilo que raras vezes oferecemos.

Portanto, se queremos atenção e consideração por parte de alguém, precisamos ofertá-las, pois “não há nada mais gratificante do que o afeto correspondido, nada mais perfeito do que a reciprocidade de gostos e a troca de atenções”. É assim que deve ser no dia a dia, penso eu.

Convide quem é atencioso com você para, pelo menos, tomar um cafezinho, jogar conversa fora e dar boas risadas; e se for acompanhado com pastéis será ainda melhor.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 15/09/2024 - 09:26h

O que somos?

Por Odemirton Filho

Lembranças (Foto: Getty Images)

Lembranças (Foto: Getty Images)

Afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos”.

A frase foi dita pelo filósofo Noberto Bobbio, no seu livro O Tempo da Memória. Somos, decerto, uma construção de tudo isso; uma construção inacabada, diga-se. Passamos tão rapidamente pela vida que não conseguimos concluir os nossos planos. Pensamos mais do que realizamos, pois ficamos presos as amarras dos nossos medos.

Sair da zona de conforto ficou para poucos, nem todos conseguem abrir as grades que aprisionam os sonhos; o novo sempre causa receio. Vislumbramos o horizonte, mas, muitas vezes, não conseguimos navegar até lá. Parece distante. E, por diversas vezes, o é.

Vez ou outra converso com alguém que vive a lamuriar, sempre colocando a culpa no destino. Todavia, não faz uma autorreflexão. Conquanto, saibamos que nem todos têm as mesmas oportunidades no decorrer da vida. Por que estou nessa situação? Às vezes, você tem a resposta. Continuar a fazer tudo do mesmo jeito não modificará coisa alguma. Pensar e sonhar, sim. Entretanto, é preciso “colocar a mão na massa”.

Até o amor precisa ser alimentado para não morrer de inanição. Os relacionamentos, de qualquer tipo, precisam de um sopro na brasa que ainda arde. Do contrário, o fogo se apaga lentamente. Doutro lado, como sabemos, o homem também nutre sentimentos deletérios, não somente semeia o amor. Cultiva o ódio, a inveja, a ganância, a arrogância. Infelizmente.

Sobre sonho e realidade, deixo consignado as palavras do bruxo do Cosme Velho:

– “a realidade não será sempre tal qual a sonhamos. Mas isto mesmo é uma harmonia na vida, é uma grande perfeição do homem. Se víssemos logo a realidade como ela há de ser, quem daria um passo para ser feliz?

E mais: aqui ou acolá eu encontro um dos muitos leitores deste Blog, e alguns me indagam por qual motivo escrevo sobre fatos pretéritos. Respondo-lhes que, ao escrever sobre tempos idos, procuro revisitar bons momentos. Os ruins? Tento esquecer, pois somos aquilo que lembramos, diz Bobbio.

O que somos? Quem dera saber.

“Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 08/09/2024 - 06:22h

O Porto Franco

Por Odemirton Filho

Embarque de sal ensacado no Porto Franco, em 1940 (Reprodução do Baú de Macau)

Embarque de sal ensacado no Porto Franco, em 1940 (Reprodução do Baú de Macau)

Sempre tive a curiosidade de conhecer a história do Porto Franco. Encontrei algumas notas em relação à sua criação e localização, e de como foi vital para a economia da nossa região. Fiz a minha pesquisa lendo alguns historiadores locais, sobretudo Geraldo Maia e Francisco Fausto de Souza. Às vezes, em minhas diligências lá na cidade de Grossos, indago a algumas pessoas sobre o Porto Franco, contudo, não consigo informações detalhadas, a maioria até desconhece. Felizmente, nesses tempos de internet, temos o conhecimento ao alcance de nossas mãos.

Segundo consta, coube ao comerciante suíço Ulrich Graff à concessão por parte da então Província do Rio Grande do Norte, em 1875, para a construção de uma linha de ferro, ligando Mossoró a Petrolina. À época, o transporte de mercadorias era feito por meio de tropas de burros. Todavia, por falta de recursos financeiros, o comerciante não conseguiu concretizar o empreendimento.

Cabe uma nota sobre o comerciante suíço: foi por meio do vigário Antônio Joaquim, com sua influência, que se generalizou pela província, a vinda para Mossoró do capitalista João Ulrich Graff, chefe da firma J. U. Graff & Cia, com casas em outros lugares. Data daí, do estabelecimento dessa poderosa firma importadora e exportadora, a grande comercial de Mossoró, que dantes fazia suas provisões de Aracati. Visionário, o comerciante tentou dar impulso as suas atividades e ao comércio local, pois uma linha de ferro certamente daria celeridade ao fluxo de mercadorias importadas e exportadas.

Entretanto, somente em agosto de 1912, com a Companhia Estrada de Ferro de Mossoró S.A, pelo trabalho da firma Sabóia de Albuquerque & Cia, iniciou-se a construção da linha férrea. Em 19 de março de 1915 foi inaugurado o primeiro trecho, ligando o Porto Franco (atualmente a cidade de Grossos), em Areia Branca, e Mossoró.

De acordo com o historiador Geraldo Maia, “quando a locomotiva “Alberto Maranhão” chegou à Estação, foi recebida com aplauso.  Na plataforma do carro-chefe da composição, viajavam: João Tomé de Sabóia, Cel. Vicente Sabóia de Albuquerque, Farmacêutico Jerônimo Rosado, Camilo Filgueira, Rodolfo Fernandes, Cel. Bento Praxedes, Vicente Carlos de Sabóia Filho, além do mais velho habitante da cidade, o Sr. Quintiniano Fraga, que ostentava o pavilhão nacional. Aquele 19 de março foi realmente uma data muito importante para Mossoró”.

O periódico O Comércio de Mossoró registrou: “Toda a população correu à estação: eram homens, mulheres, meninos, de todas as classes e de todas as idades. O trem entrou grave e solene, devagar para não atropelar o povo que se apinhava ao longo da estação, saudando-o, vibrando”.

Não sei ao certo, mas lembro que ainda criança, talvez, lá pelo final dos anos setenta, início dos anos oitenta, eu fui no trem até a cidade de Sousa, na Paraíba. Há fatos de nossas vidas que marcam, ficam guardadas na memória, e eu tenho um fio de lembrança daquele dia.

No tocante ao comércio com a cidade de Areia Branca, o historiador Francisco Fausto de Souza, no seu livro sobre a história de Mossoró, descreveu: “as comunicações terrestres, ora são feitas por intermédio de Porto Franco, ponto inicial da estrada de ferro Mossoró, ou estradas carroçáveis entre os municípios de Açu e Mossoró”. Produtos como o sal, algodão, mandioca, cana-de-açúcar, entre outros, iam e vinham do Porto Franco.

Permita-me ressaltar um fato histórico:

“Durante a República Velha no estado do Rio Grande do Norte, as matérias-primas como o sal e o algodão foram os produtos de maior peso e valor monetário na pauta das exportações, acompanhado pelo açúcar e pela cera de carnaúba. Nesse período, as disputas econômicas entre o Rio Grande do Norte e o Ceará culminaram em disputas territoriais. Como no estado havia muitas terras com potencial salineiro, e mediante a proibição de Pernambuco na fabricação de carne seca em 1788, enfrentamos uma grande perda na economia norte rio-grandense. Entretanto, o Ceará que poderia continuar fabricando esse produto de “Aracati para o norte”, precisava da matéria-prima do sal e reivindicou as terras de Grossos (RN) ricas em salinas. Assim, iniciou-se à época a delimitação entre os estados do Rio Grande do Norte e o Ceará, desembocando numa refinada discussão jurídica acerca dos limites e fronteiras territoriais entre o RN e o CE. Em 1901 algo sobre a questão de limites foi publicado pelos jornais potiguares, quando A República fez pela primeira vez menção ao conflito”. (extraído do livro 130 anos do TJRN: do papel à Justiça 4.0).

Por fim, sobre o Porto Franco, eu li que a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e a Prefeitura Municipal de Grossos firmaram uma parceria, num projeto que resgata a história do Porto; o objetivo seria a confecção de uma cartilha, a fim de ser trabalhada com os alunos da rede municipal de ensino. Espero que a parceria tenha rendido frutos, pois conhecer o passado é fundamental para se entender o presente.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 01/09/2024 - 08:42h

Ao som dos Paralamas do Sucesso

Por Odemirton Filho

Reprodução (capa do livro de João Barone)

Reprodução (capa do livro de João Barone)

O domingo deve ser um dia leve. Os leitores, creio eu, gostam de uma leitura singela, que traga bons sentimentos e boas lembranças. Por isso, deixemos de lado, por ora, as regras eleitorais e o intolerante debate político-partidário. Falemos um pouco sobre o que vivi no junho de minha vida e que, talvez, você também tenha vivido. Enfim, “falemos ao coração dos homens”.

Estou lendo o livro do baterista João Barone, da banda Os Paralamas do Sucesso. O livro resgata o início dos Paralamas, na visão de Barone. São muitas histórias interessantes, principalmente para quem é fã. Pra quem não sabe, “Vital e sua moto” foi o primeiro grande sucesso; Vital era o baterista da futura banda.

O grupo foi contemporâneo, entre outros, de Kid Abelha, Titãs, Legião Urbana, Blitz. Isso lá pelo início dos anos oitenta. Lulu Santos já era um artista consagrado, e foi um dos “padrinhos” dos Paralamas. O cantor Lobão, com o seu temperamento forte, teve um entrevero com a banda. A década de oitenta, como se costuma afirmar, foi o auge do Pop Rock nacional.

De acordo com Barone, a música Lanterna dos Afogados foi inspirada no livro de Jorge Amado, Jubiabá. Lanterna dos Afogados é um bar fictício na região portuária de Salvador, onde as castas da sociedade se encontram e as esposas dos pescadores aguardam o regresso de seus amados.

A leitura do livro sobre os Paralamas despertou a minha memória afetiva, as lembranças da minha juventude. Eu e alguns amigos estávamos na primavera dos nossos dias, e saíamos pelas noites de Mossoró. Uma Mossoró ainda com ares de cidade do interior. Barzinhos? Contavam-se nos dedos. Festas? Vez ou outra.

Então, fazíamos as nossas programações. Andávamos no Chevette vermelho do nosso querido e saudoso amigo, Márcio Iuri. Aqui ou acolá, após muito “moído”, eu conseguia dar uma voltinha no carro do meu pai. Tempos depois, eu dirigia um Fiat 147, “me achando”.

Ouvíamos as músicas das bandas no som dos nossos “potentes” carros, com equalizadores e fitas cassetes. O som não era lá essas coisas, mas sobravam a alegria e os arroubos da juventude. Quem, na adolescência, não andou em carros lotados de amigos? Quem não fez uma cotinha pra comprar um litrão de bebida? Foi um tempo bom das nossas vidas, porque, alguém já disse, que de todos os animais selvagens o homem jovem é o mais difícil de domar.

Íamos ao Burburinho, um barzinho “descolado”, ao Meca shopping, ao Imperial, a uma boate que ficava em cima da padaria 2001; além das festas na AABB, ACDP e no Realce. Quem viveu essa época deve lembrar das vaquejadas no Puxa-boi. Eram comuns as festinhas nas casas de colegas do colégio, ou nas casas de colegas dos colegas.

Se o webleitor é de um tempo mais longínquo, lembrará dos carnavais do clube Ipiranga e da ACDP; da boate Snob, de Tony Drinks, do Ferrão. Mergulhe em sua memória, e brotará do coração boas lembranças, pois faz um bem medonho a alma.

Pois é, no último mês de janeiro fui ao show dos Paralamas, em Natal. A cada música que Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone tocavam, eu viajava nas lembranças da minha adolescência; e bebia mais uma dose, ao som de suas inesquecíveis canções. Tempo bom, onde a juventude vivia longe, muito longe das preocupações.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 25/08/2024 - 11:46h

Judicialização das campanhas eleitorais

Por Odemirton Filho

Arte Ilustrativa da Web

Arte Ilustrativa da Web

Virou regra. Agora, as campanhas eleitorais são sempre judicializadas. Aliás, não é de hoje, já faz algum tempo que vem assim. A judicialização se inicia bem antes, quando da pré-campanha, com o ajuizamento de representações por propaganda fora da época permitida, objetivando sustar a propaganda e a aplicação de multa ao infrator.

As assessorias jurídicas se desdobram para cumprirem os prazos eleitorais, que são exíguos. Há várias Resoluções do Tribunal Superior Eleitoral que precisam ser estudadas pelos advogados, além da legislação vigente. As ações mais corriqueiras são a representação por captação ilícita de sufrágio, a velha compra de votos, a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) por abuso de poder político, econômico e dos meios de comunicação e a Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (AIME), por abuso de poder, corrupção ou fraude.

Ademais, logo após o pedido de registro de candidaturas, é comum o ajuizamento da Ação de Impugnação de Registro de Candidatura (AIRC), com base na ausência de uma condição de elegibilidade ou na ocorrência de uma causa de inelegibilidade. São partes legítimas para o ajuizamento das referidas ações os partidos políticos, os candidatos e o Ministério Público Eleitoral.

É claro que algumas dessas ações ajuizadas por partido político ou candidato são temerárias, infundadas. São protocoladas, muitas vezes, apenas para criar um fato político-eleitoral, na tentativa de desestabilizar a candidatura adversária. Caberá a Justiça Eleitoral processar e julgar essas ações, julgando-as procedentes ou improcedentes, aplicando, se for o caso, multa por litigância de má-fé.

A competência para processar e julgar as ações é do juiz Eleitoral em primeira instância; havendo recurso, o julgamento caberá ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RN), em segunda instância e, como última instância, o Tribunal Superior Eleitoral. Existem prazos que devem ser observados pelas partes, além de inúmeros processos para serem julgados, o que poderá demandar um bom tempo para o desfecho das ações. Até lá, o candidato poderá fazer a sua campanha, por sua conta e risco. Ou seja, o candidato pode ganhar a eleição, ser diplomado, empossado, e não concluir o seu mandato eletivo, ocasionando-lhe um sensível prejuízo político e financeiro.

Ressalte-se, que nessa época de redes sociais, na qual as fakes news inundam o mundo virtual, os candidatos devem saber usar as redes com cautela, pois a Justiça Eleitoral está atenta. É verdade que os discursos de ódio, as mentiras, a agressividade e a intolerância ganharam força nos últimos tempos. Contudo, o radicalismo sempre marcou nossas campanhas, sejam em nível nacional, estadual ou municipal. Vejam a agressividades dos debates na televisão entre os candidatos, é quase um ringue, em vários momentos, sequer, usam-se luvas.

Em arremate, cabe dizer: não é só alguns candidatos que viciam o processo eleitoral. Muitos eleitores estão acostumados a votarem somente quando recebem algum “presente” em troca do voto, sob a justificativa de que é o momento para conseguirem algo dos políticos. Estão mentindo? Pois é, essa sempre foi a realidade de nossas campanhas. Ponto. O debate propositivo, que realmente interessa, é de somenos importância. Infelizmente.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 18/08/2024 - 07:28h

O último abraço

Por Odemirton FilhoAbraço

A queda de um avião em Vinhedo (SP), no último dia 9, ceifou a vida de sessenta e duas pessoas, interrompendo sonhos e cobrindo o Brasil de luto. Eram pessoas de todas as idades que não voltaram para as suas famílias, pois partiram para outro plano e deixaram saudades no coração dos seus. Um abraço apertado, um sorriso, um beijo carinhoso, uma lágrima, quantas lembranças devem estar no coração dos familiares e amigos.

Imaginemos os filhos a esperarem os seus pais; os pais a esperarem os seus filhos. Maridos e mulheres ansiosos pelo retorno do(a) companheiro(a). Quando ocorre uma tragédia dessa proporção há um enorme sentimento de pesar, diante do impacto por tantas vidas perdidas de uma só vez. Embora tenhamos a morte como certeza, pois a “única conclusão é morrer” – diria Álvaro de Campos, heterônimo do poeta Fernando Pessoa.

Claro que os órgãos competentes irão apurar os fatos e, se ao final da investigação, houver culpados, que sejam responsabilizados na forma da lei. Entretanto, nada aplacará a dor de quem ficou. Nenhuma indenização, por maior que seja, pagará o inestimável valor que aquelas pessoas tinham para os seus familiares. A saudade será uma companheira diária, uma vez que o tempo pode acalmar o coração, todavia, nunca conseguirá arrancar do peito o amor por aqueles que nos fazem falta.

Fico a pensar no filho que não aprenderá a andar de bicicleta com o seu pai; na mãe que não mais abraçará o filho. Os encontros em família não serão como outrora, sempre faltará alguém. E, aqui ou acolá, lágrimas descerão pelo rosto, porque o coração estará transbordando de lembranças e saudades.

O jovem casal não formará a sua família, não terão os filhos que tanto esperavam; a casa, comprada com tanto esforço, ficará vazia. Os sonhos sonhados foram desfeitos, pois só tinham razão de ser se fossem concretizados ao lado daquela pessoa.

Quantos abraços, beijos e sorrisos não foram trocados antes daquele fatídico voo? talvez, juras de amor. Mensagens por meio do aparelho celular foram enviadas, “eu chego já, te amo”.

Se eles soubessem que aquele momento seria o derradeiro, teriam dado um abraço mais apertado, um beijo mais demorado, teriam dito palavras nunca ditas. Eu sei que é um clichê, mas nunca é demais repetir que nenhuma demonstração de afeto deve ser deixada para depois, pois não sabemos quando será o último abraço.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 11/08/2024 - 08:32h

Abuso de poder na campanha eleitoral

Por Odemirton Filho

Ilustração da Web

Ilustração da Web

A partir do dia 16 de agosto a propaganda eleitoral será permitida. Será o início da campanha eleitoral, podendo os candidatos “colocarem o bloco na rua” para tentar conseguir o voto do eleitor. A captação lícita do voto faz parte do processo eleitoral, pois é o momento de os candidatos mostrarem aos eleitores o que pretendem realizar, caso sejam eleitos para o mandato eletivo para o qual concorrem. O voto é a materialização da soberania popular, vez que todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representante eleitos ou diretamente, nos termos da Constituição Federal.

Porém, não é novidade que as campanhas eleitorais sempre foram pautadas pelo abuso de poder, seja econômico, político ou dos meios de comunicação, salvo, raras exceções. Os candidatos detentores de uma maior capilaridade financeira usam e abusam do poder para conseguirem os seus objetivos políticos-eleitorais, utilizando-se de toda sorte de meios para alçar o poder. Pois é, usufruir do poder deve ser bom demais.

Sobre o abuso de poder, enfatiza o jurista Adriano Soares da Costa: “não há negar que o poder econômico e o poder político influenciam as eleições (…) o ordenamento jurídico não pode amolgá-los (sujeitá-los), eis que são fatos sociologicamente apreendidos, frutos do convívio social e do regime capitalista por nós adotado. Nada obstante, embora não os possa proscrever (proibir) da vida, pode o direito positivo impor contornos ao seu exercício legítimo, tornando ilícito, e por isso mesmo abusivo, todo uso nocivo de poder econômico ou do poder político, que contamina a liberdade do voto e o resultado legítimo das eleições”.

José Jairo Gomes, consagrado eleitoralista, diz que o abuso de poder contribui para a formação de representação política “inautêntica e mendaz (falsa)”.

Tanto é que a Constituição Federal diz que o mandato eletivo poderá ser impugnado ante a Justiça Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomação, instruída a ação com provas de abuso do poder econômico, corrupção ou fraude. No mesmo sentido, a Resolução n. 23.735/24 do Tribunal Superior Eleitoral prescreve que o abuso do poder político evidenciado em ato que tenha expressão econômica pode ser examinado também como abuso do poder econômico.

Além disso, sabemos que as campanhas eleitorais são diferentes de tempos atrás. Hoje, as redes sociais são o caminho utilizado pela maioria dos candidatos. As fakes News, as montagens, o compartilhamento de notícias inverídicas e depreciativas contra o adversário inundam o mundo virtual. Existe candidato que sabe “aparecer” nas redes sociais, utilizando-se da mídia para construir a sua imagem. Em razão disso, a Justiça Eleitoral, conforme a sobredita Resolução, reza que o uso de aplicações digitais de mensagens instantâneas visando promover disparos em massa, com desinformação, falsidade, inverdade ou montagem, em prejuízo de adversária(o) ou em benefício de candidata(o) configura abuso do poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social.

E mais: a utilização da internet, inclusive serviços de mensageria, para difundir informações falsas ou descontextualizadas em prejuízo de adversária(o) ou em benefício de candidata(o), ou a respeito do sistema eletrônico de votação e da Justiça Eleitoral, pode configurar uso indevido dos meios de comunicação e, pelas circunstâncias do caso, também abuso dos poderes político e econômico.

Existe, ainda, um aspecto que deve ser observado com redobrada atenção. Muitos candidatos, cientes que não ganharão a eleição por meio do voto, levam a eleição para um “segundo turno”, ajuizando inúmeras ações eleitorais contra o eleito. No decorrer da campanha conseguem juntar um robusto material probatório, como vídeos, mensagens, testemunhas e documentos, para subsidiarem ações Judiciais Eleitorais (AIJE), ações de Impugnação de Mandato Eletivo (AIME) e Representações por captação ilícita de sufrágio (compra de votos); sem esquecer do Ministério Público Eleitoral que está atento a qualquer ofensa à legislação, sendo também parte legítima para ajuizar tais ações.

Assim, a depender das provas acostadas no processo e do entendimento da Justiça, determina-se a realização de eleições suplementares, de acordo com o Código Eleitoral: “a decisão da Justiça Eleitoral que importe o indeferimento do registro, a cassação do diploma ou a perda do mandato de candidato eleito em pleito majoritário acarreta a realização de novas eleições, independentemente do número de votos anulados”.

Portanto, caros candidatos e candidatas, evitem praticar abuso de poder econômico, político e dos meios de comunicação nas campanhas eleitorais, respeitando à legislação e seguindo as orientações de suas assessorias jurídicas.

Ou vale a pena colocar sub judice um eventual mandato eletivo?

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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sábado - 10/08/2024 - 07:24h
De volta

A hora azul de Marcos Ferreira

Foto de Marcos Ferreira aos quatro anos de idade (Reprodução de acervo pessoal do autor)

Foto de Marcos Ferreira aos quatro anos de idade (Reprodução de acervo pessoal do autor)

Amanhã, outro domingo, o domingo 12 de agosto de 2024, a gente de novo vai se encontrar com cronistas, articulistas, colaboradores do “Nosso Blog” – batismo dado pela querida Naide Rosado, lá daquela lonjura do Rio de Janeiro-RJ.

De novo com eles:

Honório de Medeiros;

Bruno Ernesto;

Odemirton Filho;

Marcelo Alves.

Teremos mais. Uma penca dessa igualha.

Dia para recebermos de volta Marcos Ferreira, o poeta, o cronista, o contista, o romancista, o escritor, nosso amigo.

Domingo desses, finzinho do mês que arribou há pouco, ele escreveu a última crônica.

Nem dei o cabimento de ligar, me lamuriar e pedir-lhe com mãos postas e joelhos no chão, que retornasse. “Volte, Arlindo Orlando…”

Esperei. Sou psicólogo formado nessa sinuosa estrada da vida e cuido de muitos, a ponto de incontáveis vezes esquecer de mim mesmo.

Hora de aguardar o tempo de Marcos Ferreira, deduzi. Elementar, meu caro Freud.

Em “A bagaceira”, José Américo de Almeida (1887-1980) definia: “Ninguém se perde no caminho da volta, porque voltar é uma forma de renascer.”

Até amanhã, meu caro.

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domingo - 04/08/2024 - 12:00h

Participação dos candidatos em inauguração de obra pública

Por Odemirton Filho

TSE tomou decisão em votação apertada nessa terça-feira (Foto: Sérgio Lima)

TSE (Foto: Sérgio Lima)

Conforme a Resolução n. 23.735/24 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é proibido a candidata ou candidato comparecer, nos 3 (três) meses que precedem a eleição, a inaugurações de obras públicas. A inobservância sujeitará a infratora ou o infrator à cassação do registro ou do diploma. Já a realização de evento assemelhado ou que simule inauguração de obra pública será apurada na forma do art. 6º da Resolução, que reza que a apuração de abuso de poder em ações eleitorais exige a indicação de modalidade prevista em lei, sendo vedada a definição jurisprudencial de outras categorias ilícitas autônomas.

Como é sabido não é raro que os candidatos se aproveitem da inauguração de obras públicas para tentar captar o voto do eleitor. Aliás, era comum tempos atrás. Imagine o prefeito ou prefeita, candidatos à reeleição, que compareça a inauguração de uma obra de sua gestão. Haverá uma nítida vantagem em relação aos demais concorrentes ao pleito, pois o administrador terá o que mostrar aos eleitores.

Como ressalta o professor José Jairo Gomes: “muitas vezes, promessas são feitas. Um cenário maravilho é desenhado. Um futuro feliz e promissor é colocado em perspectiva, ao alcance de todos. Isso, é claro, se o governante em questão ou o seu afilhado político sagrar-se vitorioso nas urnas e for mantido na cadeira que ocupa”. A reeleição, creio eu, fez muito mal ao país, porquanto, alguns gestores usam e abusam da máquina pública, fazendo toda sorte de artimanhas para conseguirem ser reeleitos.

Assim, para evitar desequilíbrio na disputa, a legislação eleitoral proíbe o comparecimento. Ocorre que pode acontecer que o candidato compareça ao evento e não se coloque em posição de destaque, como, por exemplo, ficando sobre o palanque ou realizando discurso; poderá acontecer dos candidatos comparecerem de forma discreta, evitando a exposição demasiada. Nesse caso, como aferir que o comparecimento do candidato a uma inauguração de obra pública teve potencialidade para desequilibrar a disputa eleitoral?

Segundo a sobredita Resolução, para a configuração do ato abusivo, não será considerada a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleição, mas apenas a gravidade das circunstâncias que o caracterizam.

Nessa toada, a jurisprudência do TSE admite a aplicação do princípio da proporcionalidade na representação por conduta vedada descrita no art. 77 da Lei nº 9.504/97, para afastar a sanção de cassação do diploma, quando a presença do candidato em inauguração de obra pública ocorre de forma discreta e sem a sua participação ativa na solenidade, de modo a não acarretar a quebra de chances entre os players (AgR-REspe nº 1260-25/SE, Rel. Min. Luiz Fux, DJe de 5.9.2016; RO nº 1984-03/ES, Rel. Min. Luciana Lóssio, DJe de 12.9.2016; AgR-REspe nº 473-71/PB, Rel. Min. Laurita Vaz, DJe de 27.10.2014).2. In casu, no exame do caderno probatório, o TRE, embora reconhecendo o comparecimento do candidato, assentou que a sua presença no evento se deu sem qualquer destaque que pudesse comprometer minimamente o equilíbrio do pleito, motivo pelo qual deixou de aplicar a sanção de cassação.

Já em outra decisão, afirma: “no que se refere ao desvio de finalidade das inaugurações de obras públicas (…) pelo erário municipal em evento patrocinado pela prefeitura em data próxima às eleições, o acórdão regional registra circunstâncias que evidenciam a gravidade das condutas, uma vez que a estrutura administrativa municipal foi utilizada para promoção pessoal e eleitoral do então prefeito e candidato à reeleição”. (REsp n. 37354).

Isto é, para a configuração da potencialidade lesiva o caso concreto dirá. Todavia, é de se indagar: qual o sentido de os candidatos comparecerem a inauguração de obra pública, sabendo do risco que correm? A meu ver é totalmente desnecessário.

Com efeito, é preciso que os candidatos observem as orientações de sua assessoria jurídica. Lembro-me que, há muitos anos, quando advogava na seara eleitoral para um determinado candidato, reiteradas vezes orientava em determinado sentido, porém, muitas vezes, ele seguia por caminho contrário. Ou seja, colocava em risco o seu futuro mandato eletivo perante a Justiça Eleitoral, em decorrência de alguma ação ajuizada pela prática de abuso.

Portanto, acautelar-se é a melhor atitude a ser adotada pelas candidatas e candidatos que disputarão o pleito municipal deste ano; em tempos de judicialização das campanhas           eleitorais é a melhor estratégia.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Artigo / Justiça/Direito/Ministério Público
domingo - 28/07/2024 - 07:40h

Mais um domingo sem futebol no Nogueirão

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Conforme Lupércio Luiz de Azevedo, no livro de sua autoria, Futebol de Mossoró, Pequenas Grandes Histórias, foi na administração do prefeito Antônio Rodrigues de Carvalho que houve a doação do terreno onde hoje se acha localizado o estádio Manoel Leonardo Nogueira, o nosso querido Nogueirão.

De acordo com Lupércio, “dois importantes acontecimentos se registraram a esta altura e que motivaram a certeza de que teríamos dentro em breve tornada realidade a aspiração maior dos mossoroenses: o primeiro foi a verba incluída no Senado e na Câmara Federal pelos nossos representantes Dix-Huit Rosado e Vingt Rosado (…), o segundo foi a doação, por parte do senador José Ermírio de Moraes, de quinhentos sacos de cimento, quando de sua estada entre nós, no dia 30 de setembro de 1963, atendendo apelo formulado pelos irmãos Dix-Huit e Vingt Rosado, ensejo que, entrando em contato com aquela autoridade, fizemos-lhe dramático apelo em favor das obras de nosso estádio, cujo atendimento foi de pronto e cuja entrega foi feita pelo Sr. Lauro do Monte Rocha”.

Outras pessoas também contribuíram para a concretização do sonho, como o capitão Jorge Duó, à frente da 3ª Companhia de Construção do Exército, bem como, Ernani Monteiro Ciarlini, responsável pela edificação e serviços de fundações.

Assim, consoante Lupércio, “estava pronto e o caminho livre para que, em 4 de junho de 1967, pudéssemos entregar ao povo de Mossoró o seu novo estádio de futebol, graças ao trabalho de muitos e esforço extremado de toda a Comissão Pró-Construção do Estádio”.

Pois bem, fiz esse resgate histórico para chegar aos dias atuais. Hoje, quando eu passo em frente ao velho Nogueirão bate um desalento. Não há mais jogos ou outro evento. O gramado, segundo fotos postadas nas redes sociais, encontra-se tomado pelo matagal. Aí, vem à mente os inúmeros jogos que fui com o meu filho para assistir ao clássico “Potiba”. Era uma festa. Os torcedores de Potiguar e Baraúnas faziam zoada, “tirando onda” com a torcida adversária.

Atualmente, além de não termos o estádio em boas condições para receber os jogos, há a violência de algumas torcidas organizadas, perturbando a paz e o brilho do espetáculo. Ficamos receosos em ir ao estádio, principalmente com nossas mulheres, filhos e netos.

Lembro-me que, no intervalo dos jogos, era uma luta medonha pra comprar um cachorro-quente e um refrigerante. Mas, por outro lado, tínhamos a resenha, o churrasquinho de “gato”, uma cervejinha para molhar a garganta, os ambulantes vendendo canudinhos nas arquibancadas e o grito da galera incentivando o seu time. Sem esquecer, é claro, dos xingamentos proferidos contra o árbitro e a sua pobre genitora. Uma partida de futebol, caros leitores, é uma gama de emoções.

Enfim, mais um domingo sem futebol no Nogueirão. Porém, salvo engano, li que a Prefeitura Municipal de Mossoró elaborou um projeto relacionado à permuta do imóvel, apesar de alguns torcedores terem realizado, na semana passada, um protesto contra tal pretensão. Todavia, espero que tudo seja levado a bom termo o mais breve possível, pois, como diria Nelson Rodrigues, nosso maior cronista esportivo, “para nós, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica / Esporte
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