Por François Silvestre
É possível ou há registro do sucesso do transplante de realidades objetivas distintas entre países ou regiões?
No caso do organismo humano, mesmo sendo diferentes as pessoas, há uma chance do transplante pela compatibilidade orgânica. Essa compatibilidade, que vai além da simples afinidade do tipo sanguíneo, permite sucesso ao transplante de órgãos entre pessoas completamente diferentes; na sua fisionomia humana ou social.
A pergunta é: Há compatibilidade “orgânica” no sentido amplo entre países ou regiões que permitam o transplante de soluções para realidades completamente diferentes?
Diferentes nas condições objetivas e mais diferentes ainda no conjunto de ações que permitam esse transplante. Diferenças que vão da cultura, vontade política e recursos financeiros.
Mesmo que haja vontade política, e não duvido, resta saber das afinidades culturais e dos recursos disponíveis.
Refiro-me à iniciativa do Governador Robinson Faria que tenta buscar na Colômbia orientações exitosas na área de segurança pública. Uma coisa é certa: nessa questão de segurança estamos na fronteira do caos.
Basta a constatação dessa realidade para justificar toda e qualquer tentativa. O problema é a possibilidade real desse intento.
A Colômbia vem de uma experiência única na vida institucional latino-americana. Um país dividido em dois Estados, distintos e inimigos, no mesmo território. Um Estado legal, fraco e institucionalmente formal. Outro Estado forte, porém ilegal, sem aparato institucional. De tal forma que até a comunidade internacional aceitava essa aberração com relativa comodidade.
O Estado ilegal tomava conta das regiões mais ricas, produtoras da cocaína e gerentes da criminalidade. Numa promiscuidade sem fronteiras entre a política e a delinquência comum.
E o principal mercado consumidor eram os Estados Unidos. Interessado, portanto, numa solução para o fim da aberração colombiana.
Foi aí que nasceu a saída. Sem mistério. Só grana e muita grana. Ninguém sabe, lá nem cá, quanto a América do Norte investiu ou investe no combate à produção e comercialização de drogas na Colômbia. Dinheiro que gente besta não conta.
Realidades diferentes e recursos mais ainda. Que recursos temos para o transplante?
Robinson Faria é inteligente, corajoso, de boa-fé, arrojado e ansioso. A ansiedade é gestante da criação. Prefiro os ansiosos aos cerebrais metódicos. Os ansiosos criam, inventam, tentam. Os metódicos se aproveitam, remodelam a criação da ansiedade.
Deveria ser proibido tratar a ansiedade. É como arrancar o último pedaço que ficou do umbigo da infância. Lobotomia do umbigo. Ansiedade é temperamento e não doença.
Volto à pergunta: Será possível transplantar soluções da Colômbia para o Rio Grande do Norte? Tomara que dê certo.
Té mais.
François Silvestre é escritor
* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.






































