domingo - 21/06/2026 - 11:30h

Aquele cafezinho

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Fazemos planos todos os dias. Tanto para o amanhã quanto para daqui a pouco, ao cair da noite. Penso nisso agora que me recordo de quantas vezes adiamos aquele cafezinho cogitado para determinado dia da semana com amigos de agendas superlotadas. Então, no corre-corre em que vivemos cotidianamente, esse café acaba sendo postergado. É isso aí. Toco nesse tipo de assunto porque volta e meia me vejo refletindo sobre o quanto a areia de nossa ampulheta pode estar pouca. Não pretendo sugerir que não devamos traçar objetivos, ainda que a longo prazo. Dessa maneira, sem pensarmos na finitude de nossa existência, perseguimos certos projetos, empenhamos esforços e adquirimos, por exemplo, um apartamento ou um carro novo.

No mais das vezes, claro, em prestações a perder de vista. Assim ignoramos a Indesejada, que talvez já nos ronde ou ainda se mantenha a diversos anos ou décadas distante.

Fato é que não vale a pena encucar, pôr freios demais nas coisas que almejamos adquirir ou realizar. Do contrário, como se diz popularmente, a gente pira, funde a cuca. Ocorre, entretanto, que muitos sonhos e intentos ficam no meio do caminho, lá no comecinho ou bem perto de serem concretizados.

Dou uma olhada à volta e me deparo com tanta coisa fora dos seus devidos lugares. São roupas em locais impróprios, poeira acumulada, sapatos, sandálias e tênis em pontos indevidos; a casa toda gritando por uma faxina. Não nego que a lembrança de um enfarto fulminante me vem à cabeça e aí tudo isso, toda essa desordem será encontrada por terceiros após meu bater de botas.

Talvez seja esta uma das desvantagens de morar só, de anoitecer e amanhecer longe das vistas de todos. Após um ou dois dias, quem sabe, começariam a notar minha ausência e aí descobririam este hipotético defunto já em avançado estado de enrijecimento. É um transtorno que eu não gostaria de causar a ninguém. Até porque a ideia de morrer não me seduz.

Temos, em um número considerável de indivíduos, o costume de nutrir ideias e agir pouco, não fazer por onde se efetivem. Dessa maneira a rodada do moca pode ser considerada uma dessas ideias que protelamos com frequência. É óbvio que os amigos permanecem, ainda que afastados fisicamente, com a mesma benquerença de sempre. Nesse caso a carapuça também me serve. Um bocado de vezes, portanto, deixamos aqueles salutares encontros para um dia qualquer.

Dito isto, meus caros, façamos contato; lancemos mão do WhatsApp. É bem possível que amanhã (persistindo na temática que ora me serve de mote para a produção desta página) aquele cafezinho enfim dê certo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica

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