domingo - 03/05/2026 - 08:50h

Tirna

Por Bruno Ernesto

Chaleira no fogão à lenha Foto: Bruno Ernesto)

Chaleira no fogão à lenha (Foto: Bruno Ernesto)

É curioso observar como um simples hábito pode se transformar em um retorno à simplicidade.

Esse modernismo exacerbado, essa esterilização cultural, a restaurantização, parecem comprovar a teoria de Charles Darwin.

Aliás, de todas as grandes teorias, parece que ela é a única que vem se fortalecendo a cada dia e, claro, não podemos contabilizar neste raciocínio as teorias conspiratórias isoladamente, pois elas estão inseridas na própria teoria evolucionista darwiniana.

Claro que a modernidade – os novos tempos – e a praticidade que ela proporciona, mudaram definitivamente nosso modo de viver e sobreviver.

Ninguém em sã consciência quer lavar roupas à mão, passar roupa com ferro à brasa, viajar mil quilômetros no lombo de um cavalo ou buscar água na lata para abastecer sua casa; embora às vezes seja necessário fazer o complicado, porém não desútil.

Acordar às quatro horas da manhã e acender o fogão à lenha não é minimamente praticável para quem vai pegar um voo às sete horas, ou deixar o filho no colégio em idêntico horário.

Mas, guardadas as proporções, se você tivesse tempo e disposição, vez ou outra, certamente faria isso.

Se você pudesse, certamente gostaria de acordar sentindo o cheiro de café, queijo e ovos caipiras sendo preparados num fogão à lenha, fumaçando deliciosamente na cozinha e perfumando a sua roupa.

Não tenho dúvida que o seu lado piromaníaco lhe faria observar por vários minutos a labareda lambendo o fundo da panela e a carimbando de tirna.

Talvez, até mesmo se disporia a cortar a lenha, cheiraria o pedaço de queijo de coalho amarelo – deliciosamente gorduroso -, separaria os ovos caipiras e moeria o café manualmente na noite anterior, já sentindo o gosto e cheiro deles sendo preparados.

Até demoraria para dormir de ansiedade.

Carl Jung ficaria orgulhoso dessa sua sincronicidade.

Não duvido que também olhasse para aquela galinha pedrês solta no terreiro, e a imaginasse coberta de coentro, cebola roxa, perfumada com cominho e lateada por batata doce, feijão de corda com nata, arroz de leite, farofa e uma maxixada.

Se pudesse, vez ou outra, chegaria ao compromisso cheirando à fumaça, com as mãos sujas de tirna, mas de corpo e mente limpos e perceberia que nem sempre o que facilita a nossa vida é o melhor para ela.

Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog

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Categoria(s): Crônica

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