domingo - 01/02/2026 - 08:34h

Conhecendo o mar

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

As ondas do mar batiam em suas pernas, e ele ria, afastando-se, com medo, daquela ruma de água. Foi a primeira vez que Pedrinho foi à praia. Contava, então, com dez anos de idade. Era um menino nascido e criado na zona rural, lá pelas bandas do Alto Oeste das terras potiguares. Tão emocionado ficou, que talvez dissesse como a personagem da escritora Ana Maria Gonçalves, no livro Um Defeito de Cor, “eu achei que o mar era da cor do pano de Iemanjá, só que mais brilhante e mais macio”.

Desde novinho, ele desejava conhecer o mar. Os seus pais, no entanto, eram pessoas humildes, viviam de lavrar a terra, trabalhando de sol a sol, com pouco dinheiro. Por isso, o menino Pedrinho sonhava com esse dia. E, finalmente, chegou.

Ele ficava correndo pra lá e pra cá pela praia; fazia castelo de areia; jogava bola com o seu pai e um irmão mais novo. Antes de entrar no mar, fazia o sinal da cruz, rogando proteção a Deus. Como não sabia nadar, ficava no raso, fazendo as mãos em concha e molhando a cabeça. “Tocado pelo vento, o mar ia de um lado para outro, fingia que ia e voltava”. Os pais riam do seu jeito, e ficaram imensamente felizes por terem oportunizado um momento tão especial.

Para muitos ir à praia é algo banal, trivial. Contudo, para o menino Pedrinho, aquele dia foi um verdadeiro presente. Para uma pessoa humilde, criada em meio a tantas dificuldades, o simples se transforma em algo mágico, grandioso. Cada um tem o seu sonho, é certo. Uns sonhos podem ser grandes; outros, podem parecer pequenos. Entretanto, todos são sonhos, dependem do coração.

Ali, na praia, ele conheceu Maria Clara, também com dez anos de idade. Ela, vindo da cidade grande, conhecia o mar desde pequenininha. Logo, eles firmaram amizade e começaram a conversar. O menino contou sobre a sua vida; era do interior do estado do Rio Grande do Norte, estudava numa escola pública e os pais eram agricultores. A menina disse-lhe que era da capital potiguar e já estava acostumada em conhecer lindas praias e que os seus pais eram médicos.

Apesar de cada um viver em seu mundo, com condições financeiras diferentes, eram crianças. Juntos, brincaram, sorriram, tomaram banho de mar, chuparam picolé, fizeram castelos de areia; ainda estavam imunes à arrogância e à vaidade humana.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/02/2026 - 07:28h

Chega de saudade – mas ela fica

Por Gaudêncio Torquato

Praça no Centro de Luís Gomes (Foto: Web)

Praça no Centro de Luís Gomes (Foto: Web)

A festa de Senhora Sant’Ana ocorre no dia 26 de julho. Data marcada no calendário da alma. Em Luís Gomes, esse dia nunca foi apenas religioso: era um chamado. Um convite para voltar — quem estava longe — ou para se reconhecer — quem nunca saiu. A cidade, plantada no alto da serra, parecia respirar mais fundo nessa época, como se soubesse que era o seu momento de se oferecer inteira.

Recordo os velhos tempos de outrora, bucólicos e suaves, quando o mundo era pequeno e, por isso mesmo, imenso. Tempos em que os namoros juntavam os namorados na calçada da casa da moça, sob o olhar atento — e fingidamente distraído — dos pais. Bastava um banco, a lua e uma conversa sem pressa. Amar era simples.

A meninada se esbaldava na chuva. Bastava o céu escurecer e os pingos engrossarem para que surgissem corridas, gritos e gargalhadas. O prêmio era tomar banho nas biqueiras dos telhados, como se cada queda d’água fosse uma cachoeira particular. Ninguém pensava em gripe, perigo ou censura: era alegria pura escorrendo pelos corpos.

À noite, depois do desligamento do motor, a cidade mergulhava numa escuridão cúmplice. Era então que os grupinhos de amigos se reuniam na praça central. Conversas soltas, planos improváveis, silêncios confortáveis. A luz vinha das estrelas — e da intimidade.

Havia também as aventuras quase proibidas: os mergulhos nos grandes caixões do fazendeiro e político Gaudêncio Torquato do Rego, onde se guardavam o algodão e a farinha. Para nós, eram piscinas improvisadas, territórios de ousadia, histórias que ainda hoje arrancam risos.

A vida era um passeio no engenho de rapadura, um ritual na bolandeira onde se produzia a farinha. Tudo tinha cheiro, som e sentido. O açúcar não vinha da prateleira: nascia do esforço. A comida tinha história antes de ter sabor.

Os estudantes universitários — orgulho da cidade — se reuniam na calçada da farmácia de Valdecir Pascoal. Ali se falava das experiências de cada um, dos desafios fora de casa, dos sonhos grandes demais para a serra — e, claro, se fofocava sobre a vida alheia, porque nenhuma comunidade vive sem seus pequenos enredos paralelos.

Foram tempos dos padres Miguel Nunes, Raimundo Caramuru de Barros, Valdécio Lopes e do amado padre Oswaldo Rocha, figuras que moldaram consciências, apaziguaram conflitos e ensinaram que fé também é gesto cotidiano.

Foram tempos de bons amigos: José Hildo Fernandes, Istênio Pascoal, Augusto de Maria Vicenza, João Batista, Valter Sandi — nomes que hoje soam como capítulos de um livro que só nós sabemos ler por inteiro.

Como esquecer o Grupo Escolar Coronel Fernandes, diligentemente dirigido pelo professor Chico Dubas, onde se aprendia mais do que letras e números: aprendia-se a ser gente.

E havia o brincalhão Severino Ramos, que dizia querer morrer num desastre de avião que cairia na Rua Nova, em Recife. Sonhava até com a manchete do jornal no dia seguinte: “Morreu em plena Rua Nova o trabalhador Severino Ramos”. Ríamos, sem imaginar que certas histórias sobrevivem justamente porque nunca aconteceram.

A cidade respirava ar puro. As ruas eram cheias de árvores, ainda sem asfalto, e o tempo parecia ter feito um acordo com a tranquilidade. E havia a linguiça de Tia Bebi — gostosíssima, insubstituível, memória que insiste em reaparecer sempre que a saudade aperta o estômago.

Luís Gomes era o centro do mundo. A maior referência geográfica de nossas vidas. Tudo partia dali. Tudo voltava para lá.

Chega de saudade, eu digo. Mas ela fica. Fica porque há lugares que não passam. Apenas se transformam em nós.

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, consultor e professor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 01/02/2026 - 04:14h

Recordações da casa da fome

Por Marcos Ferreira

O sapateiro, de Ayala Gurgel — Óleo sobre tela

O sapateiro, de Ayala Gurgel — Óleo sobre tela

Vários autores, à falta de assunto melhor, escrevem acerca de suas próprias recordações. Assim o resultado desse artifício não raro finda descambando para a pieguice ou sentimentalismo. O passado, todavia, abriga um acervo existencial bastante vasto, senão inesgotável. Acontece, entrementes, que há escritores que transformam essas memórias em textos bons. Dito isto, conforme procedo neste instante, talvez não haja tanto problema em aqui e acolá usarmos essa receitinha introspectiva. Contarei, pois, mais um bocado de minha vida pregressa. São acontecimentos de fato melancólicos vinculados a um período que marcou meu coração e meu espírito.

Estudei pouco. Tive uma vida escolar muito breve. Minha presença em sala de aula foi curta, porém inestimável. Aquela educação formal, embora fragmentada, cultivou em mim a semente da leitura. Descobri que podia ler e daí por diante, ainda que fora da escola, segui lendo com máximo encanto. Debrucei-me sobre autores e obras com uma fome ancestral. É isso, li com extrema voracidade. Apesar dos pesares, adquiri acesso a clássicos importantes da literatura brasileira quanto estrangeira. Daí a pouco eu já não era tão só um leitor, mas um estudioso da produção intelectual que chegou ao meu alcance. Estudei, sobretudo, poetas parnasianos e suas regras fixas: esquemas rimários, metrificação, cesura, hemistíquio, diérese, sinérese e sílabas tônicas e pós-tônicas. Como autodidata, assimilei e fiz uso dessas técnicas. Não vou expor uma lista de títulos e autores que fizeram minha cabeça. Isso é enfadonho.

Não posso reclamar de nada a esta altura da vida. Tive sorte por sair do analfabetismo. Foi por um triz. Cheguei ao colégio para desasnar (analfabeto de pai e mãe) com onze anos de idade. A merenda escolar, admito, foi um incentivo de grande importância. Tempos bicudos, difíceis. Passamos graves dificuldades nas décadas de setenta, oitenta e meados de noventa. Não faltava escassez. Sapateiro, meu pai precisava realizar um contorcionismo financeiro enorme para alimentar nove filhos esfaimados. Éramos onze. Ocorreu que Hugo e Márcia (sou o primogênito) demoraram pouco naquele mundo sovina.  Hoje os dois habitam o campo-santo. O restante, nove magricelos, escapou fedendo. Àquela época um pão dormido era um tipo de item, uma iguaria nem sempre acessível na casa dos Ferreiras. Os vizinhos mais próximos sabiam que no 3521 da Avenida Alberto Maranhão havia uma família em insegurança alimentar. A senhora Branca, minha mãe, que não sabia assinar o próprio nome, era doutora em fazer render os víveres que o senhor Vicente trazia para casa adquiridos, no mais das vezes, na Cobal e no então pujante Beco das Frutas. Certas coisas, a exemplo do charque, ovos, mortadela e cereais, costumavam vir do Mercado Novo, no Bom Jardim.

Naquela quadra de minha existência não havia essa história de Bolsa-Família ou algo semelhante. Vivíamos sob a vergasta dos generais. Os militares governavam o país com mão de ferro e sede de sangue. Uma imensa parte da população estava sob o cabresto, contando com migalhas. O salário mínimo fazia rigorosamente jus à denominação de mínimo. A carestia causava um estrago medonho em inúmeros lares brasileiros. Sei que isso não é assunto agradável para submeter aos leitores, mas nem só de amenidades se constitui a literatura. Façamos de conta, portanto, que estou aqui com os meus botões, de papo comigo mesmo. Trago hoje recordações da casa da fome. Cada um relata o passado que vivenciou. Sobretudo memórias da infância.

Agora, ao contrário de antanho, encontro-me resignado com os tostões que pingam na minha conta-corrente a cada fim do mês. Olho à volta e posso dizer que, se compararmos à era de minha meninice e adolescência, usufruo de uma condição confortável. Diferentemente de agora, não mais escrevo a bico de caneta em cadernos ordinários. Não. Componho estas notas em um computador.

Possuo outros elementares bens materiais, todavia são objetos absolutamente impensáveis nas décadas de meu universo pueril. No tempo da casa da fome, permitam-me a repetição, a gente nem sonhava ter, por exemplo, uma geladeira. Sequer um fogão a gás. Íamos ver televisão à noite na praça do bairro. Tínhamos na cozinha de nossa moradia de pau-a-pique um fogão a lenha que revestia as paredes com uma tisna de um preto retinto. Lembro-me de que não possuíamos nem mesmo uma mesa de madeira onde pudéssemos fazer nossas refeições. Em vez disso, quando se fazia necessário, a senhora Branca dispunha no piso de chão batido da cozinha uma esteira de palha sobre a qual sentávamos ao redor e era servido o que houvesse para comer. Em especial no tocante ao almoço, quando panelas de barro e algumas de alumínio ficavam em cima da referida esteira. Mas isso não era uma situação cotidiana. Certos dias a comida nos faltava e precisávamos nos contentar com um café com farinha, entre outras improvisações alimentares que minha mãe nos oferecia como almoço ou jantar.

Bem cedo meus irmãos e eu começamos a buscar determinados serviços, pequenos trabalhos que nos rendiam algumas patacas. Limpávamos o mato de quintais nas imediações de nossa residência, casa alugada e que nos primeiros anos não contava com luz elétrica nem água encanada. O proprietário não tinha muito interesse em fazer melhorias no imóvel. Pertencia a um cidadão de nome Nelito Apolinário. Ganhávamos uns trocados juntando peças de ferro, alumínio, garrafas e litros de vidro que vendíamos em um ferro-velho que existia, se não me engano, nos Paredões. Além disso, sem nunca termos sido apanhados, subtraíamos frutas do quintal do senhor José Pereira, nosso vizinho. Especialmente goiabas, bananas e mangas. Retirar as cinzas, limpar o forno da Panificadora Canindé, entre outras atividades, nos rendia boa quantidade de pães e bolachas. Embora esses produtos fossem do dia anterior.

Hoje me pego revirando estas memórias desagradáveis, cenas de um passado remoto. As pessoas não gostam de saber de histórias tristes, penosas. Querem relatos positivos, algo que lhes desperte otimismo, alto-astral, bem-estar. Não lhes tiro a razão. Basta, enfim, de recordações da casa da fome.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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