Por Flávia Tavares e Giullia Chechia do Canal Meio para o BCS

“Dos 30 políticos brasileiros com mais prestígio em redes sociais, 26 são de direita e quatro são de esquerda”, mostra o entrevistado (Foto: Reprodução)
O Brasil que elegeu pela primeira vez Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002, já não existe mais. Naquele país, o eleitorado era majoritariamente jovem e de baixa escolaridade, e a disputa presidencial ainda cabia no velho eixo entre PT e PSDB. Vinte anos depois, o Brasil que devolveu Lula ao Planalto, por uma margem apertada, tornou-se outro. Mais velho, mais feminino, mais escolarizado, mais evangélico. Nesse percurso, as bases sociais do voto se deslocaram. O PT perdeu força entre homens, nas grandes cidades e entre jovens de escolaridade média. A direita avançou justamente nesses segmentos, enquanto mulheres negras consolidaram o grupo de maior coesão eleitoral do país.
No livro O País Dividido, que será lançado no início de junho, Jairo Nicolau, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (FGV CPDOC), reconstrói duas décadas de eleições presidenciais a partir de um extenso cruzamento de dados eleitorais, pesquisas de opinião e séries históricas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), compondo um retrato que, quadro a quadro, revela como o Brasil fracionado entre petistas e tucanos tornou-se uma nação organizada pela lógica do lulismo versus bolsonarismo. Mostra ainda como a entrada de Jair Bolsonaro (PL) transformou a própria natureza da polarização no país: menos ideológica, mais emocional e personalizada. Aliás, a partir de uma metodologia inédita para medir esse fenômeno, o cientista político identificou um salto expressivo no contingente de eleitores polarizados, que passou de 31%, em 2002, para 64%, em 2022.
Durante uma longa conversa com o Meio, disponível na íntegra em vídeo no nosso streaming, Nicolau detalhou os bastidores da pesquisa que deu origem ao livro e explicou as mudanças silenciosas, de longo prazo, e também as rupturas abruptas que identificou no comportamento do eleitor. Para além das páginas, compartilhou suas leituras sobre o peso decisivo das mulheres na vitória de Lula em 2022, a consolidação do voto evangélico à direita e as razões pelas quais algumas clivagens parecem cada vez mais cristalizadas, talvez até impermeáveis a escândalos da grandeza do revelado pelo Intercept Brasil nesta semana, com áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro. Confira os principais trechos da entrevista.
Que país dividido é esse descrito nos anos que você cobriu em seu novo livro?
Minha ideia inicial de título para o livro era 20 Anos: o PT Versus a Direita. Mas essa ideia do país dividido me pareceu resumir bem. Especialmente numa eleição de dois turnos, como nas seis eleições dessas duas décadas, o país quase que, por natureza, se divide no segundo turno. Talvez o livro mostre que a natureza dessa divisão mudou. Ela passou de uma divisão em que um dos atores está sempre presente, que é o PT, e, do outro lado, nas primeiras quatro eleições, nós tínhamos uma força de centro-direita, uma direita moderada, que é o PSDB. Não estou dizendo que os 20 anos foram de divisão como a gente entende o termo hoje: polarização, radicalização. Houve uma divisão entre o PT e os seus adversários, para ser mais preciso, mas esses adversários mudaram. Um dos esforços foi mostrar o que aconteceu em 2018 e se confirmou em 2022, e por que isso era discrepante em relação ao que nós tínhamos antes no país. Então, o “dividido” fica como uma sinalização de que existe alguma divisão no país, mas não necessariamente de que ele seja um país polarizado. Se eu chamasse de “país polarizado”, estaria sendo injusto com os meus achados.
Por quais mudanças essa divisão passou?
Nós sabemos que o Brasil mudou muito e em várias dimensões. Era um país que tinha uma forte base industrial, e hoje grande parte das pessoas está no setor de serviços, além de ter aparecido uma nova versão do setor de serviços, que é dessa economia de entregas e transporte. Mas a minha escolha foi olhar para o eleitorado. Por sorte, o TSE publica frequentemente um banco de dados com o perfil dos eleitores de cada eleição. Claro, tem uma série de cuidados para trabalhar com esses dados. O TSE não tem dados sobre renda, cor, economia ou religião. Então, eu não poderia falar sobre isso. Escolhi três temas que eu pudesse, de certa maneira, contemplar com os dados do TSE e que são muito relevantes: sexo — eleitores homens e mulheres, como é a divisão do TSE —; idade — e eu fiz ali uma agregação à minha maneira, porque as faixas de idade da Justiça Eleitoral são mais de 20 —; e, por fim, escolaridade. A escolaridade é um dado mais difícil, porque há uma diferença entre a escolaridade registrada quando a pessoa tira o título aos 18 anos e depois ela pode continuar ou não estudando. Mas é um indicador presente em todos os levantamentos do TSE.
E o que você encontrou?
Primeiro, algo que já sabíamos: o eleitorado ficou mais envelhecido, por razões da demografia brasileira. A expectativa de vida aumentou, a taxa de fecundidade diminuiu, é um país que tem mais idosos e menos jovens. Ao mesmo tempo, quando Lula foi eleito em 2002, nós tínhamos mais ou menos metade dos eleitores homens e metade mulheres, classificados dessa maneira. Vinte anos depois, há um predomínio das mulheres no eleitorado, numa taxa maior do que a presença delas na própria população. Há também uma divisão educacional entre homens e mulheres. Elas são, em média, bem mais escolarizadas que os homens. Há muito mais eleitoras com Ensino Médio e superior do que homens nessas faixas. E uma última mudança, que talvez resuma melhor a dimensão social, é que, quando o Lula foi eleito em 2002, o Brasil era um país de baixíssima escolaridade. Cerca de 70% dos eleitores tinham ensino fundamental. Era um país com muitos analfabetos ainda, uma herança da nossa péssima política educacional. Vinte anos depois, e pouca gente assinala isso, o eleitorado é dominantemente de Ensino Médio, completo ou incompleto. Então, o típico eleitor brasileiro, em 2002, seria um homem de ensino fundamental. Hoje é uma mulher de Ensino Médio. O país é mais envelhecido, mais escolarizado e mais feminino.
Vamos focar primeiro na questão de gênero.
Há uma tendência em todo o livro e que eu, obviamente, não sabia que ia encontrar. Se eu soubesse, talvez o título fosse algo como As Mulheres e a Política. Porque fui descobrindo que um aspecto permanente, em todos os capítulos, é a questão das mulheres. Um deles é que, em 2014, 2018 e 2022, anos em que há dados sobre isso, as mulheres comparecem às urnas em maior número proporcionalmente. E, pelo menos em 2022, quanto faltam, as mulheres também justificam mais a ausência do que os homens.
Que outras diferenças de gênero surgiram?
Há outra descoberta que eu também não imaginava encontrar. Quando fiz a segmentação em faixas etárias (jovens, adultos e idosos, para simplificar), eu esperava encontrar alguma diferença relevante entre esses segmentos, coisa que eu já tinha procurado no meu livro anterior sobre 2018 e não tinha encontrado. Mas pensei: “Bom, vai que isso é uma característica de outras eleições. Pode ser que, sei lá, em 2002 os jovens tenham sido mais à esquerda do que os idosos.” Mas não encontrei nada. Ou seja: a idade, por si só, não é um fator que divide o eleitorado brasileiro. Na verdade, os segmentos etários funcionam quase como uma amostra do resultado final. Bolsonaro, em 2018, ganhou entre jovens, idosos e adultos. A mesma coisa aconteceu com outros presidentes, que ganharam de maneira relativamente parecida em todas as faixas, com pequenas variações aqui e ali. O passo seguinte foi segmentar as idades por sexo, homem e mulher. E aí apareceu a diferença. As mulheres jovens sempre votaram majoritariamente na esquerda. Mesmo em 2018, Bolsonaro perdeu entre as mulheres jovens. Enquanto isso, naquela eleição, os meninos foram em massa para a direita. Ali houve uma assimetria de gênero, como chama a literatura, um gender gap. Isso se reproduziu, com menos força, em 2022: as mulheres jovens apoiaram maciçamente a esquerda, enquanto os meninos jovens ficaram com Bolsonaro.
É um fenômeno que se repete em outros países, não?
Sim. Faço referência aos Estados Unidos, onde as meninas tomaram caminhos mais progressistas, enquanto os meninos viraram apoiadores do Donald Trump. Isso aconteceu também no Reino Unido e na Alemanha. Em geral, partidos de ultradireita têm apoio masculino maior, sobretudo entre os jovens. Talvez por isso as meninas rejeitem mais Bolsonaro. Lembrando que essas jovens já têm uma escolaridade, em média, mais alta do que os rapazes jovens. Estão cursando a universidade, algumas já concluíram. Lembrando também que, em 2018, aquele movimento “Ele Não” foi cultivado por essas jovens. Nas outras faixas etárias, a diferença entre homem e mulher não fez tanto sentido. Mas o dado que agora eu posso dizer com certa ênfase é: a vitória do Lula em 2022 deveu-se às mulheres.
O que mais te faz ter tanta certeza agora?
Entre os homens, usando dados de survey, fazendo todos os testes, Bolsonaro foi vitorioso em 2018 e em 2022. Em 2018, Bolsonaro também ganhou entre as mulheres. Não entre as mulheres jovens, mas outros segmentos deram a ele uma diferença e ele acabou, no cômputo geral, chegando à frente. Mas, em 2022, a distância entre as mulheres foi pró-Lula. E aí junta tudo: tem mais mulher, elas vão mais às urnas e elas foram mais lulistas. Isso somado pode ter sido decisivo. Porque, se elas fossem mais lulistas, mas fossem do mesmo tamanho dos homens, não sei o que teria acontecido na eleição. Ou, se elas fossem maioria, mas fossem menos às urnas, podia ter dado diferença. Grande parte das mulheres que são mais simpáticas ao Lula poderia não ter ido votar, e isso teria dado um diferencial para Bolsonaro.
O que se pode aprender sobre essa ascensão do Ensino Médio na demografia brasileira?
Se o livro mostra que a feminização do eleitorado acabou favorecendo a esquerda nas últimas eleições, uma outra mudança demográfica, que é esse crescimento da escolaridade — e ela ainda está em curso —, tem favorecido a direita. Eu imaginava que os eleitores de Ensino Médio estivessem com a esquerda, mas o que encontrei em 2018 foi que justamente ali estava o núcleo do bolsonarismo. Mais do que entre os eleitores de Ensino Superior, e muito mais do que entre os eleitores de baixa escolaridade. Isso já me acendeu uma luz. Quando olhei para 2022, falei: “Uau, o Bolsonaro ganhou entre as pessoas de Ensino Médio”, e isso inclui completo e incompleto. Tem alguma coisa acontecendo aí, e a esquerda precisa olhar para entender o que está se passando. Quais são os problemas de comunicação com os jovens, sobretudo os do sexo masculino, que se tornaram antipetistas, de direita, diferentes dos jovens dos anos 2000 que chegaram à universidade? Esse jovem continua se beneficiando de programas que foram abertos, mas talvez tenha naturalizado esse acesso. Talvez não associe o seu acesso à universidade a um governo específico. Mas a universalização, a ampliação do Ensino Médio, parece jogar água na direção da direita, e não da esquerda, pelo menos nas duas últimas eleições.
O que mais você encontrou sobre a transformação da base social do PT?
Uma coisa que deu muito trabalho são os gráficos que fiz com a linha do tempo do apoio à direita e ao PT em vários segmentos: religião, escolaridade etc. E aí a gente pode ver tendências. Essa do Ensino Médio, já que estamos falando disso, esse declínio do apoio vinha acontecendo há mais tempo. Por outro lado, a permanência do apoio entre os eleitores de baixa escolaridade é praticamente onde o PT está se segurando. Há outros aspectos que não tratei no livro, mas sobre os quais acabei de escrever um artigo, ainda não publicado, sobre geografia do voto. A concentração de votos nas cidades pequenas do Nordeste, associada à baixa escolaridade e à renda mais baixa, mostra um perfil mais interiorano do voto do PT. É chocante perceber como o PT vai se tornando um partido menos urbano, menos metropolitano. Quando se compara com partidos social-democratas europeus, ou mesmo com o Partido Democrata nos Estados Unidos, há uma diferença muito grande no perfil da votação. Nos Estados Unidos, as grandes cidades e os centros metropolitanos são democratas.
E na base do bolsonarismo?
O que mais me impressiona é o crescimento da direita entre os homens, entre os evangélicos e nas grandes cidades. Então, entendendo “bolsonarismo” apenas como apoio eleitoral ao Bolsonaro nessas duas eleições, o desempenho eleitoral dele é metropolitano — parece com a social-democracia europeia. Em 2018, Bolsonaro ganhou por muito nessas cidades grandes do Sudeste, sobretudo nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Em 2022, ele continuou ganhando no Sudeste e em quase todas as cidades, mas por pouco. Então não conseguiu tirar a diferença que o Lula abriu nas cidades pequenas. É um perfil muito surpreendente. Eu não sei se isso vai mudar. Não faço prognóstico porque sei que essas mudanças são decantadas ao longo do tempo, mas também podem acontecer de maneira abrupta. Acabamos de ver a eleição do Reino Unido, com a vitória de duas forças: Partido Verde pela esquerda e um partido de direita, o partido do Brexit, vamos dizer assim, deixando os partidos centenários de trabalhistas e conservadores com um número de representantes baixo. Isso foi uma mudança abrupta. As eleições estão cada vez mais instáveis nas democracias tradicionais.
O que foi abrupto por aqui?
Esses achados do livro mostram que algumas coisas que pareciam abruptas talvez não fossem. Por exemplo, a noção de que Bolsonaro virou de repente o voto das pessoas de Ensino Médio. Não. O apoio do Ensino Médio à esquerda já vinha caindo antes. Mas, entre os evangélicos, embora já houvesse uma queda, Bolsonaro produziu uma mudança abrupta, não foi só o aprofundamento de uma tendência. Esse esforço de encontrar padrões onde parece haver apenas ruído é muito difícil. Primeiro porque eu não quero forçar padrão onde não tem, que é uma tendência humana. E, segundo, porque os padrões às vezes são quebrados da noite para o dia em eleições tão voláteis como as nossas, com partidos que já não organizam o eleitorado como antes e com redes sociais acelerando a difusão de informação.
Você propõe, no último capítulo do livro, uma metodologia própria e nova para estudar a polarização brasileira.
O tema da polarização está em todas as bocas, de jornalistas, de políticos, em todas as conversas. E comecei a pensar: “Bom, será que eu tenho como dimensionar a polarização política olhando para trás, mesmo quando a gente não falava dela?”. Não existem dados. Em 2002, ninguém falava essa palavra. Me dei conta de que a polarização no Brasil tem uma forte dimensão pessoal. Ela não é uma polarização apenas ideológica. Mas eu me perguntava: como dimensionar a polarização num país em que as pessoas nem sabem avaliar os partidos? Você pergunta: “Como o senhor avalia o PL?”. E 60% nem sabem o que é o PL. O PT as pessoas conhecem mais, mas outros partidos, não. Nos Estados Unidos, por exemplo, mede-se polarização entre republicanos e democratas. No Reino Unido, entre conservadores e trabalhistas. Usei, então, as pesquisas do Estudo Eleitoral Brasileiro, feitas por acadêmicos, com a pergunta: “Como o senhor ou a senhora avalia, de 0 a 10 — 10 gosto muito e 0 rejeito — determinado político?”. Nas seis ondas que foram a campo entre 2002 e 2022, a pergunta está lá. Fiz, então, um cruzamento dessas duas coisas. As pessoas polarizadas são aquelas que gostam muito de um candidato, ou seja, estão num polo, têm alta preferência pelo seu candidato, e rejeitam muito o candidato do outro lado.
E o que você achou?
Com essa medida ficou claríssimo que, até 2014, as pessoas diziam: “Ah, gosto do Lula”, mais ou menos, mas sem grande intensidade. O Serra também não tinha uma intensidade tão grande de amor e ódio. O Brasil tinha diferenças, era dividido, mas não era polarizado. A presença do Bolsonaro de repente galvanizou uma alta polarização. As pessoas gostavam muito do Bolsonaro e simultaneamente rejeitavam muito o PT. Ou seja, houve uma polarização à direita em 2018. Curiosamente, à esquerda, não. Os eleitores do Haddad não odiavam o Bolsonaro no grau que a gente viu em 2022. Em 2022, aconteceu o contrário. O eleitorado petista passou não só a valorizar mais o seu candidato — que agora era o maior de todos para se campo, o Lula —, com nota 7, 8, 9, 10, mas também a rejeitar o Bolsonaro com nota 0, 1. Essa é a ideia que a literatura fora do Brasil começou a chamar de polarização afetiva. Ela não tem a ver necessariamente com posições ideológicas. Eu rejeito a tribo de lá porque acho que eles são odiosos, que têm valores e concepções de vida que me fazem querer levantar da mesa quando alguém chega no jantar. Aqui a gente fala muito de polarização, mas a literatura mede isso de outra maneira. É um exercício, mas que mostrou uma mudança do nível de polarização medida em relação aos candidatos a presidente.
E essa polarização se reflete em todo o eleitorado?
Tenho uma interpretação que não está no livro, mas que venho tentando trabalhar mais. A polarização no sentido mais forte do termo, de engajamento político, envolvimento com redes sociais, ficar tuitando, indo a eventos, mobilizando amigos, essa é a mobilização que nós conhecemos, mas não é a polarização ampla da sociedade. É o topo da pirâmide. Talvez 15%, 20% dos eleitores brasileiros operem nesse registro. Sabem o que o Flávio falou, acompanham o caso Master, vão para as redes sociais, conversam de política, abrem as páginas de jornal, se interessam, querem votar, acham que quem não acompanha política é alienado. Mas, quando a gente vai descendo, encontra um segmento que até cai para um lado ou para o outro — “sou da tribo vermelha”, “sou da tribo azul” — por causa do pastor, da família, do sindicato, da história com o PT, sei lá. Mas sem esse grau de envolvimento. E existe uma grande massa de eleitores no Brasil para quem essa polarização simplesmente não chega.
Mas essas não são as mesmas pessoas que responderam à pergunta sobre gostar e rejeitar Lula e Bolsonaro?
São, mas aí tem a ver com avaliação do líder. Todo mundo conhece Lula e Bolsonaro. Na hora H, a pessoa pode falar: “Ah, gosto mais dele”. Quase como futebol. Agora, dizer que essas pessoas são comunistas, fascistas, genocidas, é transbordar para o Brasil algo que está acontecendo no topo. A gente não tem evidência, para além desse sentimento em relação a Lula e Bolsonaro em 2022, de que exista uma polarização que corte a sociedade brasileira de cima abaixo. Se você vai para o interior do Brasil, para pequenas cidades ou áreas populares do Rio, e pergunta se fulano já foi cancelado de algum grupo de WhatsApp porque disse que vai votar no Bolsonaro, as pessoas levam muito menos a sério esses temas do que nós, que estamos enfronhados nisso, olhamos política por uma lente muito sofisticada em termos de ideias, acompanhamos políticas públicas. Tanto que, em média, 30% dizem não ter interesse nenhum por política. E 40% dizem que, se o voto não fosse obrigatório, ficariam em casa. Por isso eu não sei se a polarização vai continuar no mesmo nível sem Bolsonaro. O Bolsonaro ativa muito, tanto os sentimentos positivos dos eleitores de direita quanto os sentimentos negativos em relação ao PT. Minha impressão é que a polarização deve cair em 2026. Mas é só impressão.
Como entender, então, o efeito desse escândalo de Flávio Bolsonaro e o Master? É um escândalo que está ligado a um candidato da polarização, que herda do pai o eleitorado.
O que acontece é o seguinte: quando acontece qualquer evento dessa magnitude, a tendência nossa é fazer comentários peremptórios: “Acabou para o Flávio”, “Quem vai ser o candidato da direita?”, já dando como certo que a candidatura do Flávio está inviabilizada. Um escândalo parecido, guardadas as proporções, afetou a Roseana Sarney, no caso Lunus. Ela era a candidata que estava lá na frente nas pesquisas, apareceu dinheiro, e ali foi o fim de uma candidatura. Mas num mundo em que a imprensa controlava muito mais, digamos assim, a narrativa dos eventos. O país inteiro acompanhava o Jornal Nacional. Era um mundo muito diferente do nosso. Vou ser prudente, porque fiquei muito impressionado com a subida do Flávio. Hoje é fácil dizer: “Ah, o filho do Bolsonaro pegou o nome”. Mas quem imaginaria, em novembro do ano passado, que alguém com o nome Bolsonaro teria o prestígio que o Flávio está tendo? Muita gente julgava, por conta das investigações sobre o movimento golpista, a exposição do Moraes, prisões, tudo isso, que Bolsonaro tinha acabado. O nome do Flávio e a velocidade com que ele chegou a esse patamar de apoio foram, para mim, uma surpresa. De novo: todo mundo olha para trás e fala “era natural”. Não era nada natural um senador razoavelmente apagado, um político que sempre priorizou mais negociação parlamentar do que exposição de palanque, chegar ao patamar de apoio que chegou.
Isso quer dizer que ele está imune a esse escândalo?
Eu não sei como esse escândalo vai bater. Porque as denúncias estão em curso. A gente não sabe o que vem por aí. Não sabe se vai parar, se haverá mais gravações, mais vídeos, mais denúncias. Não sabe se vai estourar algo que afete também a esquerda. É um mundo imprevisível. Mas, só com o que apareceu no primeiro dia, a grande questão para mim é: como isso decanta para o eleitorado para além do topo? Existe esse eleitorado mediano, que tem inclinações de esquerda ou de direita, e existe o eleitorado lá embaixo, menos politizado. Eu não sei como isso é processado. Hoje eu conversei com uma mulher de baixa escolaridade, com simpatias mais à direita, e ela me disse: “Olha, esse negócio do detergente foi um grande movimento contra uma empresa. Não tem nada no detergente. Eu uso e continuo usando”. Ela não acredita. Ou seja: a informação chega torta, filtrada. Antes ela era filtrada pelas conversas e pelo tempo. Hoje ela é filtrada pelas redes sociais, pelo ambiente de trabalho, pelos grupos religiosos. E a direita domina as redes sociais. Eu vi um levantamento do Sólon Data mostrando que, dos 30 políticos brasileiros com mais prestígio em redes sociais, 26 são de direita e quatro são de esquerda. Os brasileiros usam muito redes sociais. Uma parte do Brasil já não liga mais certos canais de televisão. E há também filtros religiosos. Então eu não sei como isso chega lá embaixo.
Pela reação da campanha, há potencial de estrago.
Mas qual o tamanho do estrago? Como o Flávio resistirá — ou não —, especialmente porque não existe outra alternativa clara no curto prazo? Aí vem Copa do Mundo, vem o tempo passando, vem uma notícia substituindo a outra. Existe uma guerra de interpretações sobre todos os fatos. E por isso eu acho que a gente se afastou do cenário da Roseana. Naquele tempo aparecia um escândalo, aparecia dinheiro, e o cara estava liquidado. Hoje não. Hoje aparece um escândalo, ele é gravado, daqui a pouco dizem que a voz foi adulterada, que houve montagem, que existe perseguição. Não estou dizendo que não seja grave. É um escândalo gravíssimo. As denúncias são fortíssimas. Mas eu não teria segurança para dizer que a candidatura dele está ferida de morte. As pessoas discutiram durante dias o efeito do carnaval do Lula no Rio: “Foi um erro”, “foi uma humilhação”, “virou carro alegórico”. E aí? Cadê o efeito do carnaval hoje? As coisas decantam. As pessoas superam. Não estou comparando os dois escândalos, esse é muito mais grave. Mas nós operamos assim: acontece alguma coisa, vemos a reação das redes sociais, esperamos a próxima pesquisa, e imediatamente tentamos concluir o cenário. Flávio está muito bem posicionado nas pesquisas. São raríssimos os candidatos, na história das eleições brasileiras, que chegam em maio ou junho com mais de 30 pontos.
Mas isso sugere, de certa maneira, a resiliência desse eleitorado, né? Podemos estar diante de uma situação em que hecatombes podem acontecer e ainda assim o cenário seguir cristalizado?
Quando acabei de escrever o livro, em novembro, Flávio não era candidato. E a minha expectativa era a seguinte: “Bom, se o Flávio não é candidato, vai vir algum outro nome que fale mais com o centro e que desinfle um pouco esse sentimento de polarização afetiva que capturei no livro”. Afinal, esse sentimento tinha muito a ver com a presença do Jair Bolsonaro, que é a maior liderança popular de direita desde a redemocratização. Não é pouca coisa o que o Bolsonaro conquistou nesses poucos anos. Veio Flávio e, se ele se confirma como a principal liderança da direita para enfrentar Lula, aí aumenta a probabilidade de que as mesmas clivagens de 2022 se repitam. A divisão Nordeste versus resto do Brasil, a disputa voto a voto em São Paulo e nas grandes cidades do Sudeste, o papel das mulheres — que talvez rejeitem menos o Flávio do que rejeitavam o Bolsonaro. Isso pode ser um ponto positivo para ele. Provavelmente, se eu fizesse uma nova edição do livro, colocaria quatro eleições “PSDB versus PT” e três “PT versus Bolsonaros”, no plural. Mas eu ainda não sei se vai ser essa configuração. Agora, essa configuração aumenta de fato a probabilidade de a gente observar o que você está chamando atenção: uma cristalização prévia.
Cristalização também das rejeições.
Sim, tenho levantado também uma hipótese que precisa ser mais bem explorada: a avaliação que se faz do presidente Lula já não está mais tão contaminada pelas políticas públicas. O Lula pode fazer chover que os eleitores bolsonaristas continuarão achando o governo ruim. Aliás, como aconteceu no final do governo Bolsonaro: a inflação começou a cair, os indicadores econômicos começaram a melhorar, mas isso já não mudava a avaliação negativa dele. Ela estava cristalizada. Claro que existe uma margem de oscilação. As pesquisas variam dois, três pontos para cima ou para baixo, são esses eleitores que ficam olhando para um lado e para o outro. Mas, quando se colocam os dois no segundo turno, é quase como se ativasse um sentimento mais explícito das redes: “Eu sou dessa tribo, não sou daquela. Então eu vou com ele”. É por isso que eu acho que Lula pode fazer muitas políticas públicas, como o Bolsonaro também fez no fim do mandato. São medidas muito ad hoc, voltadas para certas clientelas. O Pé-de-Meia não. O Pé-de-Meia foi estudado, pensado. Ele pode ter um efeito positivo sobre certos eleitores, como esses de Ensino Médio que a gente comentou. Mas as pessoas estão um pouco cristalizadas em suas preferências. E a presença de um Bolsonaro na campanha — que, para mim, parecia improvável — reforça essa tendência.
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