Por Bruno Ernesto
Meu interesse por arte? Surgiu de uma pequena pintura de óleo sobre tela de um Preto Velho que ficava pendurada na sala de casa.
Era uma pintura de óleo sobre tela de um Preto Velho fumando o seu típico pito.
Um detalhe que chamava muito a minha atenção era que ele me olhava profundamente. E por mais que eu me esquivasse de seu olhar, indo do sofá para a espreguiçadeira ou me deitando no chão, seu olhar parecia me acompanhar para aonde eu fosse. Mas nunca tive medo dele; mesmo à noite.
Hoje me pergunto se teria o artista usado a trompe l’oeilpara me convencer de que precisaria de proteção do Preto Velho? Um conselho?
A impressão que tinha era que ele estava prestes a dizer algo, fumegando pela boca, com uma voz rouca e arrastada.
Talvez já tivesse até me chamado sussurrando tarde da noite, ou batido na parede, que era a mesma do meu quarto, para apanhar o cachimbo.
Além do Preto Velho, havia várias telas de óleo sobre tela das ruas de Tiradentes, Ouro Preto e de Viçosa/MG, pintadas por Eleide Pedrosa, esposa de Professor Josué Pedrosa, além de inúmeras de autoria de mamãe, como uma pequena tela de cosmos amarelos delicadamente pintados, um muro com portão de ferro, muito parecido com um cemitério, além de inúmeras montagens de frontispícios de construções coloniais mineiras feitas com palitos de picolés, tampas de creme dental – certamente Kolynos – todas produzidas quando moravam em Minas Gerais, na década de setenta, durante o mestrado de papai e grande parte dos professores da antiga ESAM.
Aliás, minha irmã é mineira.
Quanto à pequena tela de óleo sobre tela com a pintura do muro com o portão de ferro, mamãe nunca me falou, mas penso que tenha alguma relação com o meu irmão Jean Carlo, pois faleceu recém-nascido e foi enterrado no cemitério de Viçosa/MG, próximo à casa que eles moravam, justamente naquela época. Era o primogênito.
No início dos anos 80, passei a dividir meu olhar entre a TV Sharp preto e branco que ficava na sala de casa com todas aquelas obras de arte e, talvez, num descuido, entre Fofão e o Balão Mágico na TV Manchete, tenha realmente me dado conta delas.
Como toda criança de quatro ou cinco anos de idade, já rabiscava desejos por todos os cantos e fiquei curioso.
Pouco tempo depois dessa mudança de visão, de percepção de mundo, passei a perguntar à mamãe sobre aquelas telas e trabalhos artísticos que estavam espalhados pela casa.
Queria saber se eram de lugares reais, como foram pintadas e feitas. Quis compreender a mistura de cores, as tintas, os pincéis, as espátulas. Tudo, queria saber tudo. Absolutamente tudo.
E foi ela quem me ensinou a perceber os detalhes. Ela quem me desvendou o segredo das sombras, perspectivas, volume e dimensões de uma pintura a óleo. Eu estava diante de uma artista, e ela era minha mãe.
Um dia cheguei em casa e ela me entregou uma caixa com parte do material que utilizou para pintar lá em Viçosa e fiquei maravilhado: bisnagas de tinta a óleo, pincéis, solventes e a paleta.
Dali em diante, conheci outro mundo, e sempre pude contar com o apoio e incentivo dos meus pais para me aprofundar no mundo das artes e da cultura.
Dentre tantos outros incentivos e exemplos que me deram e pude observar – a maioria deles silenciosos – esse definiu minha visão de mundo, tanto que hoje procuro fazer o mesmo com os meus filhos, tal eles fizeram comigo, de forma natural e contínua, espalhando obras de arte, livros e procurando levá-los para ambientes que sejam proveitosos para a formação e visão de mundo deles. E o exemplo, claro. E espero que muitos deles silenciosos. Só o tempo dirá.
Curiosamente, não localizo a tela do Preto Velho de mamãe há muitos anos. Simplesmente sumiu. Mas ela cumpriu fielmente a sua missão.
Embora não tenha uma tela de um em minha casa,tenho uma pequena escultura de um Preto Velho, agora sentado – convenhamos, já merece um pouco de descanso – e que despertou o mesmo interesse em meus filhos quando puseram os olhos nela pela primeira vez;embora seja um processo que dure toda a vida e dependa muito mais deles do que de mim. Só o tempo dirá.
Como dizia Baruch Spinoza: “Não importa o quão fino você corte; sempre haverá dois lados.”
Bruno Ernesto é escritor, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog
























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