Por Júlio Rosado
Ser criança, neste país, há muito tempo deixou de ser coisa fácil. Com a falência dos valores familiares, os laços afetivos de parentesco também foram afetados. Poucas casas mantém o conceito de lar. Boa parte se tornou um local frequentado pelos moradores para comer, dormir e fazer o asseio. Os casais se mantêm como resultado de interesses variados. O romance e a fantasia do amor eterno, deram lugar ao pragmatismo da economia ao dividir despesas e da praticidade do utilitarismo imediato em viver junto.
Francisco foi o fruto de uma relação como essas. Aurora o concebeu quando estava no desabrochar de seus 16 anos de idade. Não abandonou a escola devido à gravidez por já haver se afastado por opção própria uns meses antes de conhecer o pai de seu filho.
Aurora, um misto de imatura e volúvel ao extremo, se apegava a qualquer um que lhe desse um pouco de atenção, principalmente se isso também se desse com Francisco. Assim, tornou-se comum a alternância de companheiros, pois tanto trocava quanto ia sendo trocada de amores, conforme as circunstâncias e oportunidades. O menino, alheio aos sentimentos maternos, foi quem mais sofreu para se acostumar às constantes mudanças de padrastos interinos.
De resto, Aurora se permitia usar seu tempo livre para soltar a imaginação e ver as imagens das fotonovelas de época. Trocar, na ‘Mesbla’ – como era conhecida, ironicamente, a pequena banca de seu Vidal -, as revistas velhas que recolhia nas casas onde fazia faxina por exemplares de antigas edições de Sétimo Céu, seria o mais próximo de algum tipo de leitura para ela.
– Homem, para mim, só adianta se puder bancar meus luxos, – dizia a jovem no auge de sua mocidade, sem entender ao certo o conceito de luxo, visto que sua renda com faxinas era frequentemente usada para quitar as dívidas de seus parceiros. Umas em apostas, outras em biqueiras de drogas.
Devido a sua forma de ver a vida, em uma década e meia, chegou a dividir sua morada com nove companheiros diferentes. A mente de Francisco chegava ao ponto de fritar com tanta fervura por conta da troca de padrastos. Quando começava a se afeiçoar a um, este se evadia ou era trocado por um novo namorado de sua mãe. Essa situação sacrificava qualquer possibilidade de estabelecer vínculos afetivos duradouros. E seu coração ia ficando encaliçado. Frio. Sem convívio com uma figura paterna ou que lhe desse reforço de autoridade com afeto.
Aos quatorze anos, aconteceu o que era inevitável e previsível. Francisco foi pego furtando chocolates em um Supermercado. Para sua sorte, Assis, o fiscal de segurança e prevenção de perdas não registrou o caso e, ainda, lhe ofereceu um lanche enquanto aguardava a chegada de Aurora para liberar o menino. Contudo, ao contrário do que se esperaria, o adolescente vivenciou um dos momentos mais reconfortantes de sua vida, com uma pessoa adulta para ouvi-lo e aconselhá-lo sem fazer pré-julgamento.
Assis reconhecera o menino como um dos alunos de sua esposa, Hermelinda, e lembrou dos elogios que ela havia feito sobre a inteligência e vontade de aprender daquele estudante.
Apesar do incidente, Aurora descobriria, naquele dia, que a vida poderia ser diferente. Assis era um homem compreensivo, com convicções cristãs e que tinha fé na humanidade. Mas, como tudo na vida, havia um porém. Ele era casado e pai de duas lindas bebês recém nascidas, as gêmeas Clara e Clarissa. Sua dedicada esposa, Hermelinda, além de ensinar na escola pública era catequista da capela da Sagrada Família, após o parto recente, passou a sofrer com uma enxaqueca persistente e intermitente que a deixava boa parte do dia acamada, e fazia com que qualquer movimento de seu corpo parecesse uma sessão de tortura.
A gratidão de Aurora com o modo atencioso como Assis tratou seu filho lhe acendeu uma pequena chama interna que, a princípio, não conseguia identificar o que seria. Pela ausência de parâmetros seletivos, a jovem mãe confundiu o gesto de desprendimento do homem com lampejos de paquera amoral. Para ela, Assis parecia ser o companheiro ideal, ainda que se mantivesse unido a Hermelinda.
Mesmo ainda convivendo com Freitas, seu parceiro atual, um oportunista que estimulava suas intenções maliciosas, Aurora decidiu que faria tudo para conquistar o coração de Assis.
– O sexo bem feito conquista um namorado, mas é a boa comida e o bucho cheio que seguram um homem, – ouvira Aurora, de uma amiga mais experiente, há algum tempo. Aprender a cozinhar bem, então, seria imprescindível para dar continuidade a seu projeto pessoal. Como preferia ver apenas as imagens, com imensa preguiça para ler ou escrever, iria assistir vídeos de culinaristas como Vovó Delmirinha. Aurora finalmente focou em algo, e essa seria sua meta.
Teria toda a paciência possível para não botar a ‘caçada’ a perder. Sempre arranjava um motivo para ir ver Assis no trabalho. A desculpa era levar algum dos pratos deliciosos que estava aprendendo a fazer e agradecer pelo que o segurança do mercado significava para seu filho.
Com o passar dos dias, gradualmente, ouvindo e testemunhando as atitudes de fidelidade do marido de Hermelinda, foi entendendo a missão daquele cristão e afastando a ideia de manter um romance com ele, passando a vê-lo com um olhar mais fraterno, como o irmão ou pai que lhe faltou. Com o poio recebido de Assis e sua esposa, não demorou para Aurora se tornar uma cozinheira de primeira qualidade e passar a fornecer refeições para a comunidade. O sucesso foi resultado de conhecimento, dedicação e resiliência.
Já se passara mais de ano desde o incidente do furto e Francisco se mantinha concentrado nas aulas, procurando aprender os conteúdos das aulas para ser alguém e colaborando na manutenção da casa, ajudando a montar e entregar as marmitas e ‘quentinhas’.
Quando Francisco tinha futebol ou alguma apresentação na escola, Assis se esforçava para estar presente. Aquilo dava confiança e estimulava o jovem a querer participar e aprender cada vez mais.
Hermelinda, com forte instinto maternal e satisfeita por ver seu aluno tirar boas notas, apoiava essa amizade. Mas a vida reserva surpresas que nem sempre são agradáveis. Suas constantes dores de cabeça, descobriu-se, eram os sintomas aparentes de um tumor que assumia o controle de seu corpo. As gêmeas ainda dependiam da mãe, mas esta não tinha condições de lhes dar a atenção necessária. Foi durante um dos episódios mais contundentes de manifestação da doença de Hermelinda que Aurora, em um gesto de desprendimento, se propôs a ajudar a cuidar dela e das bebês. Esta seria a melhor forma de demonstrar gratidão e retribuir tudo o que aquele casal exemplar fez por ela e por seu filho.
Não poderia se dedicar em tempo integral. Mas o pouco de tempo que passava com Hermelinda eram suficientes para diminuir o fardo que a enfermidade representava. Na oportunidade, aproveitava para levar porções do cardápio que servia em seu refeitório aos moradores da comunidade, amenizando as tarefas do dia a dia.
Eram momentos de puro desprendimento. Uma amizade calcada na gratidão, no respeito e, cada vez mais, na admiração recíproca. Eram como duas irmãs em idades próximas que se conheceram tardiamente.
Quem não estava nem um pouco satisfeito com a mudança de atitude de Aurora era Freitas. Para ele, que percebera as intenções iniciais de Aurora para com Assis, a companheira não teria desistido de cobiçar o homem. Frequentar o lar do casal que apoiava seu enteado não seria expressão de uma nova amizade, mas, tão somente, uma desculpa para seduzir o segurança do mercado.
– Homem não é boi para ter chifre -, dizia Freitas sempre que exagerava na bebida, evidenciado que não aceitaria a ideia de ser passado para trás, apesar de não se esforçar para cultivar o mínimo de afeto em seu relacionamento. Ao imaginar, sob efeito do álcool, a possibilidade de Aurora esquentar a cama de Assis, seu sangue ‘pedrava’. Nessas horas, Freitas descontava as frustrações de sua vida insignificante na, agora, resoluta Aurora.
Com a graça de Deus e o apoio de Assis e Hermelinda, as condições melhoraram para Aurora. Com o exemplo do filho, voltara a estudar. Para poder economizar na cozinha e vender mais pratos, fez cursos de capacitação junto ao Serviço Social de Capacitação Profissional Empreendedora. Inconscientemente, estava se tornando uma liderança empresarial comunitária e não mais se deixaria submeter a homem algum.
– A porta da rua é a serventia da casa -, disse Aurora ao mandar o companheiro se retirar de sua casa, decidida e ciente de que haveria alguém nesse mundo para apoiá-la como gente, ouvindo de Freitas que ela ainda iria ter notícias dele e que iria se arrepender.
Naquela noite, Aurora não conseguiria dormir direito. Talvez pelos machucados provocados pelos socos e chutes que levara de seu ex-parceiro. O rosto dele, com o olhar vidrado enquanto a espancava, ainda a aterrorizava.
Aurora se pegou a rezar o terço da misericórdia que recebera como presente de Hermelinda e a madrugada fria logo cedeu lugar a uma manhã levemente nublada. Logo iria começar mais um turno de trabalho árduo e teria que acordar Francisco, fazer café, arrumar a casa e preparar o cardápio.
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O tempo, quando se está trabalhando, passa rápido e o refeitório improvisado na lateral e na frente da casa já começava a receber os primeiros clientes do dia. A televisão ligada em um canal local passava um programa desses de entretenimento quando o jornalismo da emissora interrompe a programação com seu Plantão de Notícias. A promessa de Freitas fora cumprida: seu rosto estampava a tela. No letreiro da reportagem, Aurora soletrava o título que se destacava: ‘Homem assalta supermercado e mata segurança’. Na imagem meio distorcida, ao fundo, a equipe do instituto de perícia legal fechava um saco preto com o corpo de Assis.
Júlio Rosado é escritor
























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