Por Júlio Rosado
O que deveria ter sido um fogo contido, comumente utilizado para queimar as palhas secas da plantação, se tornou avassalador. As fagulhas incontroladas ameaçavam, agora, atingir os tanques de armazenamento de etanol da usina de produção.
João Batista, dedicado capataz, cuja família havia sido um dos muitos proprietários de parte das terras que hoje compõem o patrimônio da União Açucareira do Vale do Maruim, pertencente ao fazendeiro Gervásio Dantas, não poderia deixar que aquele sinistro acabasse com as poucas memórias que ainda possuía daquele lugar em que nascera e onde tivera os momentos mais felizes de sua vida. Ali crescera tomando banho nas águas do rio Tapuyos que banha as terras outrora pertencentes a seus pais.
No meio da verdejante plantação de cana, foi de onde pode admirar, pela primeira vez, desfilando na varanda da casa grande, a beleza arredia de Ritinha Dantas, filha mais velha do então mercador de açúcar que se tornaria arrendatário de algumas áreas de plantio e que, posteriormente, viria a ser o proprietário de quase todas as terras da região.
Naquele solo, João Batista tornou-se homem no sentido pleno da palavra. Descobriu que paixões nem sempre são correspondidas e que as diferenças socioeconômicas são argumentos fortes o bastante para afastar as pessoas e se sobrepõem a qualquer rompante de paixão verdadeira ou gesto juvenil de rebeldia.
À época, duplamente abalado, com seus pais endividados no banco por conta da produção previamente comprometida com os compradores a preços irrisórios e inibido em expressar seu amor por aquela linda moça que recebia todos os mimos da sede da fazenda, João Batista viu-se forçado a entregar a posse do terreno em que seus familiares viviam e trabalhavam e ao qual haviam dado, premonitoriamente, o nome de sítio Canavial, para a Indústria Açucareira de Gervásio Dantas.
Restou a João Batista aceitar, como compensação, o emprego de capataz. Gervásio Dantas demonstrava saber identificar um homem trabalhador e, ademais, tratava-se de alguém que conhece as terras e as pessoas do lugar, fala com os nativos e para os nativos.
Sem alternativas, João Batista agarrou-se às novas tarefas com todo seu fervor. Seria justo permanecer naquelas terras, ainda ganharia por isso e teria sempre a oportunidade de estar próximo à, agora, ‘Erredê’ (pseudônimo formado pelas iniciais da artista plástica e designer Ritinha Dantas). Era o máximo que aquele iletrado filho de pobres agricultores se julgava capaz de almejar.
O calor do fogo, todavia, chamava o dedicado funcionário à realidade. Ele, que vivenciou desde pequenino – ainda que sem consciência de sua realidade – a transformação daquele antes exuberante pedaço de mata atlântica em uma das maiores expressões do capitalismo não se conformaria em ficar apenas observando as labaredas devorarem seu ambiente. O bravo sertanejo, num ato de ousadia e coragem, montou em seu cavalo e avançou campo adentro. Com seu facão, começou a cortar os talos de cana fazendo um acero na intenção de isolar e, assim, conter o avanço do incêndio.
Aquele gesto do heroico trabalhador, misto de loucura e desprendimento, foi suficiente para estimular os demais trabalhadores a se incorporarem voluntariamente à sua improvisada brigada anti-incêndio criada no calor dos acontecimentos. Homens e máquinas, aos poucos, foram sendo arrebanhados para combater o sinistro. Tratores derrubavam as plantações e empurravam a areia para cima do fogo, isolando-o. Trabalhadores se uniam com pás e baldes em volta do depósito de inflamáveis e da sede da fazenda visando conter, se preciso, expondo o próprio corpo, o avanço em direção às instalações.
Finalmente, após exaustiva luta, o descanso. As chamas foram debeladas. Os danos materiais foram minimizados. A pouca criação de gado que havia, foi preservada. Mas a imagem era de terra arrasada.
Avaliando assim, poder-se-ia afirmar que tudo terminou bem. No entanto, este não foi o pensamento dos proprietários da companhia que explora a produção daquela fazenda e que calcularam que as mudas que que foram arrancadas do solo pelos trabalhadores a despeito de conter o fogo somavam um valor imensurável para eles. Além disso, o maquinário foi exposto ao ser utilizado em meio às chamas depreciando seu valor comercial.
Embora não se tenha registrado perdas humanas, alguns trabalhadores foram hospitalizados após terem sofrido queimaduras e intoxicação por inalação de fumaça. No que diz respeito às despesas médicas por conta da iniciativa, considerada insanidade pelos executivos, os valores foram estratosféricos.
Tudo seria superlativizado na ótica do ganancioso Gervásio Dantas e seus sócios. Mas a pior projeção foi quanto à perda dos ganhos que eles teriam com o pagamento do prêmio do seguro caso os tonéis de armazenamento do produto tivessem sido atingidos pelo incêndio (o recebimento de tal valor garantiria a modernização da empresa, permitindo a troca de todo o maquinário antigo e a consequente supressão de mão de obra com a aquisição de equipamentos computadorizados que substituiriam centenas de trabalhadores).
Quem iria arcar com esse ‘prejuízo’?
Como seria custeada a modernização do maquinário, agora que não se poderia pleitear o benefício do seguro caso aquele fogo ‘acidental’ tivesse consumido todo o ‘estoque’ contabilizado dos velhos tanques de seu engenho ultrapassado?
Só restava, na visão dos industriais canavieiros, uma decisão a tomar: providenciaram a punição sumária de todos os trabalhadores que se envolveram naquele ato de ‘insubordinação e despreparo’, cobrando-os judicialmente pelos prejuízos acumulados e pelo lucro cessante. Pagariam centavo a centavo, nem que isso lhes custasse o pouco que possuíam.
Nem é preciso dizer que nosso herói, João Batista, foi demitido sem direito ao menor reconhecimento, obrigado a manter-se distante das terras do Canavial e a responder um processo por imperícia sob a acusação leviana de haver, com suas atitudes, colaborado para aumentar o risco de agravamento da situação. Ainda assim, o castigo que mais lhe afetou foi não mais poder admirar a beleza de Ritinha Dantas, sua platônica Erredê. A distância do amor não correspondido, para o dedicado capataz, seria seu maior castigo.
Júlio Rosado é escritor
























Faça um Comentário