A maternidade indesejada, o filho que deveria não vir, transformou-se num estorvo. Um enredo repetido, tantas vezes aqui, ali, acolá. Tão humano.
Minutos depois leio uma situação diametralmente oposta, no celular, em forma de torpedo: "Botei meu sobrinho para dormir. Realizada".
Ah, isso é amor!
Na Internet sei mais sobre a criança convertida em lixo: Teria dez dias de nascimento, passa bem. Vai viver, apesar da mãe. "Vitória", prenome mais do que apropriado, é sugerido ao seu batismo.
Um amor desfeito, o desapontamento com a falta de apoio, teria levado a mãe a "desová-lo". Virou "aquilo". Fruto do seu desatino, da imprecaução de ambos ou da pura frieza.
O que dizer das mães da Praça de Maio, na Argentina? Há décadas clamam pelo direito de se reencontrar com a história de seus filhos desaparecidos, em plena ditadura militar.
Como medir a dor da mãe que acorrenta o próprio filho à cama, para impedi-lo de ser morto pelo tráfico ou pela polícia?
Assim mesmo é difícil de entender a mãe que, após anos de tentativa de inseminação artificial, ganha três crianças e resolve – ao lado do marido – escolher uma para se livrar. Só queria duas. A "excedente" ficasse por aí, na maternidade.
Isso é amor? Não! Um jeito a mais de ser egoísta. Só.
Somos mesmo um ser egoísta, sob o prima da genética, nos escaninhos da biologia? Essa "seleção natural" nos empurra a alguma coisa que pareça humano? Ou humano é exatamente isso?
Bem, são tantas perguntas e perguntas…
– Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-lo? – provocava Vinícius de Moraes em seu "Poema enjoadinho".
Como não sentir a dor de sua dor? Impossível não absorver a aflição do queixo rasgado na queda abrupta, a arenga na escola, a nota vermelha do boletim, a lágrima inundando seu rosto com o aceno nos dizendo "adeus" ou "tchau".
Fazem-nos rir com o primeiro palavrão tosco: "Seu calai!!!" Abobalha-nos com a procura no diminutivo: "painho".
Martirizam-nos com as noites febrís no pronto-socorro; o carro que passa zunindo, quase o levando; a distância. O engasgo que o sufoca à mesa; o vidro estilhaçado que faz jorrar sangue, que é nosso também, de suas mãos.
São pro mundo, vos digo. Sim, insisto. Mas como abrir mão da continuada missão de ser farol, o "Farol de Alexandria" para cada um deles?
Serão filhos, vitoriosos. Amém!
E se não vencerem, conforme o modelo de felicidade que estão nos impondo?
Na tristeza, também, são nossos filhos. Por trás das grades, sob sete palmos de terra, sufocado pelas drogas ou nos ignorando como velhos ultrapassados e caquéticos. "Coroas".
Adoráveis os filhos que vestem a camisa do nosso time de futebol; mas também os que a renegam.
Filhos tirados do lixo, concebidos com o amor ao bem-querer; filhos dos meus filhos, filhos dos meus amigos. Serão sempre filhos.
E quem disse que eles crescem?
"Meus meninos" é o que são, na boca de cada mãe. Na conversa final do pai, quando os olhos se fecham para esse mundo – em despedida sem volta.
Filhos de quem não me tolera, o mesmo ressentimento como herança? Não.
Vem à lembrança a reação de um pai-amigo, diante de quem usara de má-fé contra uma filha sua, pela imprensa. Ao ouvir o interlocutor inconsequente se defender, afirmando que "não sabia que era sua filha", ele lapidou uma frase dilacerante e definitiva:
– Fosse de quem fosse. É minha filha, mas poderia ser de outro qualquer.
Como os filhos de Vinícius, todos são iguais perante nosso coração. Todos se parecem:
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!


























