Por Marcos Ferreira
Pode ser que eu esteja mal comparando. É bem provável que sim. Entretanto, com uma boa dose de licença poética, o equipamento que me vem à cabeça neste minuto não é outro senão o violino. Inúmeros. E todos, via força de expressão, considero bestiais. Lógico que não há nenhum Stradivarius. Muito menos a mestria de um Antonio Vivaldi, uma Viktoria Mullova ou o jovem prodígio Guido Sant’Anna, este nascido em São Paulo, primeiro músico sul-americano a vencer, em 2022, o prestigiado Concurso Internacional Fritz Kreisler, em Viena, na Áustria, com apenas dezessete anos. Claro que, para não soar pernóstico, preciso revelar que pesquisei na internet algumas informações sobre esses artistas, em especial acerca de Sant’Anna.
Sem rodeios, então, digo que os mencionados violinos não são outra coisa além dessas malditas muriçocas, praga denominada pernilongos ou tão só mosquitos. Pois é, elas, as muriçocas, produzem um som que ligeiramente semelha o do nobre instrumento com o qual o insuperável Paganini consagrou-se, este um velho conhecido meu, modéstia à parte.
Aqui há enxames de muriçocas que parecem se multiplicar e são mais atrevidas na hora em que o dia vai mudando para a noite. Acreditem-me; parecem até triplicadas durante o crepúsculo. Pode-se ouvir-lhes facilmente o concerto caótico. Imagino se a superpopulação desses insetos desgraçados ocorre em toda parte desta província ou se é privilégio unicamente dos lares suburbanos.
Penso que nos condomínios verticais, sobretudo, não existe essa espécie de problema. As desgraçadas talvez tenham medo de altura e não se arriscam pegando o elevador desses edifícios. Suponho que, quanto mais altos os prédios, menos problema com a sinfonia dos infernos. Aqui na periferia, no entanto, estamos entregues ao sedento ataque dos minúsculos demônios alados. A prefeitura, embora nos encontremos às portas de outra eleição, não toma nenhuma providência.
Enquanto escrevo estas linhas, justo no momento mais crítico, uso calça jeans, calço meias e visto camisa de algodão de mangas compridas. Além disso, para evitar que esbarrem nos meus ouvidos, posiciono o ventilador bem à minha esquerda, para amenizar o calor e afastar as pestes. Este bairro inteiro, o Conjunto Walfredo Gurgel, parece estar condenado. Nem sinal de um carro fumacê.
Embora com o ventilador próximo é possível escutar a musiquinha que as muriçocas produzem ininterruptamente. Tenho conhecimento de que alguns vizinhos recorrem a inseticidas, veneno que pulverizam pela casa toda. Daqui, em meio a essas criaturas abomináveis, posso ouvir as bombinhas de spray e aquelas raquetes eletrificadas. Particularmente, apesar de todo o incômodo, não recorro a nenhum inseticida.
Temo, além de mim próprio, que minha cadelinha Juju seja envenenada de algum modo. Do final da tarde para a noite permaneço embalado nas roupas que mencionei há pouco. Termino indo para a cama assim, com esse tipo de armadura.
Torço que essa calamidade seja algo transitório. Há meses lidamos com a superpopulação de muriçocas e os seus violinos infernais. Quem sabe daqui a um determinado tempo, assim como surgiram, elas súbito desapareçam e fiquemos livres desse caos. Preciso abreviar este relato. O momento é crítico. Querem o meu sangue a todo custo. Que Nossa Senhora do Bom Parto nos ajude.
Marcos Ferreira é escritor
























Se Vivaldi fosse daqui, certamente teria composto um concerto em Tenha Dó Maior ! Pobre de nós que vivemos aqui por baixo. Para espantar coisas ruins, incenso! Espanta muriçoca também, como efeito residual… Um forte abraço, Marcos!
Caro Marcos Ferreira, antes de tudo quero agradecer-te a indicação. Hoje compartilharei de um espaço aqui, ao teu lado. A boa vontade e o espírito empreendedor de Carlos Santos me permitiram este momento. Reconheço o gesto e a ele também expresso minha gratidão.
Quanto aos mosquitos e muriçocas que vos aflige, é da natureza desses pequenos seres, além de sugar nosso sangue, como fossem banqueiros ou donos de Bets, expressar suas habilidades em voos assimétricos ao som de zumbidos que só se tornam audíveis quando próximos a adentrar no orifício auricular (esse meu maior receio), rsrsrs.
De repente me veio a lembrança de que os mais antigos fumavam cachimbo às portas de suas casas, ao cair da tarde/início da noite. Seria uma espécie de fumacê doméstico?
Boa semana, amigo.
Pois é, reza a quimérica lenda que o jovem Nicolai Rimsky passou por esta ágora e compôs uma esmerada obra.
“Polyot Smelya ”
Um forte amplexo
Só de falar em pernilongos e muriçocas, sinto a pele coçar. Horrível a presença desses bichos. Usar repelente ajuda a afastar mas, pessoalmente, acho que o repelente tem cheiro de veneno de matar barata. Não consigo usar. Esses bichos são unicelulares e óleos e gorduras podem matá-los afogados. Na prática, costumo usar hidratantes corporais e colocar roupas para impedir o avanço. É de enlouquecer a sinfonia deles! Há anos atrás papai costumava acender espirais Sentinela (acho que nem existem mais). A A fumaça afastava tais visitantes! Boa sorte! Busque sua solução!
Nobre amigo Marcos, a sua crônica dominical me fez lembrar um questionamento que uma senhora de idade me fez por ocasião de uma entrevista. Ela me perguntou: “você sabe o que o rico faz com o pobre? É igual a muriçoca, chupa o sangue e vai embora”. Então, tive que concordar. Malditas muriçocas que sugam tudo de quem nada ou pouco tem.
Quanto ao uso de inseticidas, comungo com o escrita: se é Bayer, não é bom.
Parabéns pelo texto.