Por Odemirton Filho
“O tempo, inabalável na mansa malha dos dias e das noites, nunca ofega. Inspira e expira o ventre onde tudo se cria. A mais sutil mudança na pedra, o deslocamento da menor partícula de ar divisível o mínimo escorrer das águas, a insignificante transformação humana se dão nas tramas airadas do tempo. O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja. Nenhuma umidade seca. Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore”.
As palavras acima foram extraídas do livro Véspera, de autoria da escritora Carla Madeira. É certo que nada escapa ao tempo. Com ele, aprendemos, amadurecemos, sorrimos, choramos. Acontece, no entanto, que na maioria das vezes não percebemos o tempo passar.
E, ao volvermos os olhos para o passado, sentenciamos: Ah, o tempo passou rápido, como envelheci, os meus filhos estão adultos, eu nem joguei bola com eles, e nem brinquei no parquinho da praça com os meus netos.
Então, percebemos que deixamos de viver o que há de melhor. Às vezes bate algum arrependimento, pois deixamos de estar ao lado de quem amamos ao eleger outras prioridades. Aí, no crepúsculo da vida, quando já gastamos toda saúde, tentamos fazer um acordo com o tempo, pedindo-lhe que passe devagar.
Concluímos que pequenos momentos da vida são extraordinários. Ou seja, deixamos pra depois as visitas a alguém especial, as demonstrações concretas de amor, os almoços com a família, o cafezinho com os amigos, a viagem dos sonhos, os reencontros.
O que vivemos valeu a pena? Ou será que os tempos vividos foram consumidos somente pelo trabalho? Cabe a você, dileto leitor, responder. De toda forma, nunca é tarde para refletir e, se quiser, usufruir do tempo que nos resta.
Odemirton Filho é oficial de justiça
























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