Por Bruno Ernesto
Para conhecer a cultura local e, sobretudo, os seus habitantes, nada melhor que visitar suas feiras de rua.
Por mais que tentem gourmetizá-las, as verdadeiras feiras ainda guardam em suas entranhas aquela simplicidade, a aura de que ali é um lugar onde a informalidade, a negociação arrastada centavo a centavo, desafia a hora da xepa.
Sim, toda feira que se preze tem a sua hora da xepa!
A organização é necessária, facilita a visualização e a circulação, mas aquele improviso, além de providencial, é tradicional. O vuco-vuco de gente, coisas passando para um lado e outro e as mercadorias sendo erguidas ou apontadas pelos clientes aos olhos do vendedor em busca de um melhor preço, é um verdadeiro baile, altamente sincronizado.
Você começa numa ponta de uma rua e se perde ao sair no fim inesperado de uma fileira de barracas.
Sempre gostei de perambular por todos os tipos de feiras populares, visitar antiquários, entrar em brechós, vendas improvisadas, percorrer os centros populares, comer em mercados, bodegas e cantinas. A comida de rua é uma iguaria imperdível.
Repare que as feiras têm o mesmo cheiro em qualquer lugar do mundo, e o burburinho também.
Aliás, até mesmo as bodegas e mercadinhos de bairro têm o mesmíssimo cheiro, quer seja uma bodega no centro de Mossoró, no Quartier Latin, em Paris ou um almacén na Recoleta. Seria uma espécie de petricor das feiras e adjacências.
Mas outro aspecto também caracteriza essas feiras e com mais frequência que se possa imaginar.
A dificuldade financeira e a luta pela sobrevivência também rondam esses espaços.
Na feirinha de San Telmo, avistei uma senhora sentada num batente, imóvel, segurando uma pequena plaquinha de papelão improvisada, silenciosamente pedindo ajuda.
Observei-a por vários minutos, e lá ficou imóvel e invisível, com a plaquinha erguida e um pequeno carrinho de feira ao seu lado, aparentando ali ter tudo o que tinha na vida.
Atravessei a rua e abordei-a calmamente e perguntei se ela estava sentindo alguma coisa ou com fome. Disse que não, mas que se eu pudesse ajudá-la, aceitava qualquer contribuição, financeira ou não.
Perguntei qual era o seu nome, idade e se ela estava bem.
– Mirta, 78 anos. Só estou cansada; a vida tem sido difícil ultimamente.
Conversamos mais um pouco, prestei a minha ajuda, pelo que ela agradeceu muito e me perguntou algo que até agora ressoa na minha mente:
– Você pode rezar por mim?
Claro, Mirta!
Bruno Ernesto é escritor, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog
























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