Por Bruno Ernesto
O ciclo de chuvas na região Nordeste, sem dúvida, é o período mais aguardado pelo sertanejo.
A cheia dos açudes, com as tão esperadas sangrias, é um espetáculo que jamais perderá sua beleza.
Quando criança, acompanhava meu pai nas suas aulas de campo da então Esam, hoje Ufersa, onde meu pai era professor no curso de agronomia.
Por inúmeras vezes, passávamos o dia inteiro no meio da mata; ele explicando aos alunos e eu apenas a olhar ao redor, admirado com o aguçamento de todos os meus sentidos, especialmente o olfato e a visão; sentindo o cheiro de mato recém-quebrado, e, por vezes, o cheiro de chuva, além de ficar impressionado com a imensidão das planícies ou das serras e montanhas por onde passávamos.
O que mais me impressionava naquele tempo era a visão que tinha de cima das serras. O sertão era infindável dali de cima.
Diante de tudo aquilo, um pensamento recorrente me vinha à mente: como chegamos ali? Não nós, ali reunidos; mas como o homem ali chegou?
Para mim era tudo muito confuso, distante e estranho.
Com meu pai e os inúmeros alunos dele, pude percorrer locais que pouca gente tem acesso ainda hoje.
Vi açudes, montanhas, serras, rios, córregos, cavernas, minas, salinas, dunas, mangue, muitas cidades do interior e o sertanejo. Muitos sertanejos.
Foi assim que despertei, sem saber, para um dos assuntos dos quais hoje, poucas pessoas dão importância: a historiografia.
Evidentemente que muitos se dedicaram a escrever sobre o período colonial do Brasil, especialmente da região Nordeste brasileira. Sua ocupação, exploração e expansão territorial.
Entretanto, a árdua tarefa de análise e interpretação documental é sempre desafiadora a novas escritas. Mas nada como andar pelo sertão.
Com a historiografia de um lugar, é possível traçar como se deu a ocupação territorial de qualquer lugar. Pelo menos, seu passado recente.
No caso da região Nordeste, é incalculável a quantidade de registros históricos da sua ocupação; desde a chegada dos europeus ao continente sul-americano, sendo possível traçar o seu desenvolvimento nos aspectos econômicos, sociais e políticos até a atualidade.
Um aspecto relevante nos recortes históricos, é que, como qualquer outra região do mundo, a historiografia do lugar fez-se a partir de seus habitantes, hábitos, costumes e tradições.
Entretanto, mais que a geografia e o acaso, na historiografia, a convicção dos homens também moldaram o que hoje se vê.
Embora os fatos, em si, não sejam os únicos objetos de observação e estudo, uma vez que a historiografia observa e vai muito além dos homens como únicos protagonistas, é impossível querer explorar uma temática sem que se nomine seus atores. Ainda que não se possa fazê-la, exclusivamente sobre os mesmos.
No caso do sertanejo, basta buscar um pouco de nossa própria história familiar para constatarmos que a grande maioria de nos somos oriundos do interior.
Muitos de nós tem uma história ou tem registrado na memória as visitas de familiares, especialmente os avós, que moram em pequenas cidades do interior.
Talvez sejam as melhores recordações que muitos de nós temos da infância.
E nesses tempos de chuvas no nosso sertão, mais uma vez essas recordações se avivam em nossas mentes e nos faz reviver aquele bom e feliz tempo, renovando a vida com as cheias e sangrias dos açudes, revigorando a coragem e convicção do sertanejo.
Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor
























Essa crônica me fez lembrar parte da minha primeira infância. Vivi muito tempo indo e vindo de Toritama ao Sítio São João, esse último, local de residência de meus avós maternos. Meu avô, por experiência, conhecia muito do tempo: sabia se a safra ia ser boa, se a colheita seria promissora e como deveria se prevenir para enfrentar períodos de seca. Possuía depósitos de milho, feijão e farinha, para garantir que não passariam aperto. Tudo tinha a ver com as chuvas! Elas definiam o cenário a ser enfrentado. Era uma pessoa simples que aprendeu na labuta! Como me orgulho do que aprendi com ele. Parabéns por trazer à tona, tantas memórias boas!
Sempre é bom voltar às origens! Boa semana, Bernadete! 👏👏👏👏
Bela recordação, meu caro amigo. Nesse período de chuva, também vem à memória os dias da minha infância e juventude.
Abraços, Brunão!
No inverno, todos voltamos à infância no Nordeste! Um forte abraço, Odemirton!👏👏👏
Como sempre o nobre Autor (Duplamente Colega !) nis premua com as suas emblemáticas e transcendentais Crônicas. Enleva e eleva nossos oníricos e paradigmáticos EGOS. EU e o meu EGo vivemos em perenes duelos existenciais, não raro assediado e acolitado por surtos ciclotímicos que me faz adotar submersão introspectiva, modo avião, maluco-beleza com direito á adoção da réplica do “Midus Vivendi” do saudoso maluco-beleza Raulzito. São muitas as veredas. São inúmeras as tentações, são assediantes as tentações e as incontidas incursões etílicas, sem preocupações terminativas com tesemunhas presenciais tipo “Alma sebosa” – fuxiquenta e intrometida, sem disparar o autômato do desconfiômetro. Tudo isso, isso tudo, em meu rincão na vetusta e fértil Serra do meu amado e nunca esquecido Apodi. Enquanto isso, continuo a rota brumo á completude e a concretude de chegar ás munhas sete décadas existenciais neste longo roçado meio espinhoso da vida. Inté !.
Em adendo e corrigindo trecho do comentario anterior : …onde ae lê “Nis premua” , leia-se NOS PREMIA. Dito.
Onde se lê “Midis Vivendi” leia-se “Modus Vivendi”.
Tenho uma perene e incontida preocupação : Evito dividir os meus modestos momentos com pessoas tóxicas, detentoras de perfil “Bolsobandido”. Como dizia o saudoso Gonzaguinha : ” É ISSO AÍ !.”. Achou bruim a assertiva ?. Tire a calça e pise em cima !. Dizem que ” O que da pra rir, ás vezes, também da pra chorar”. Com direito á rubrica OPCIONAL. Dito.