Por Bruno Ernesto
Ajudar alguém nem sempre é questão de princípio. Por vezes, pode ser de meio e, até mesmo, de fim.
Pior do que o calor, falta de tempo ou quando alguém mastiga de boca aberta ao seu lado cuspindo mais do que come, sugando o café feito um aspirador de pó de 1500 watts de potência, conversando aos berros na mesa ao lado, escutando mensagens de uatizape no volume máximo, como se estivesse em casa sentado no vaso sanitário – algumas delas indecorosas -; sem falar naquelas gargalhadas hiperbolicamente desproporcionais e descompassadas, dentre outras coisas, nada pior que ser abordado por um pseudoprofeta.
Não sei você, caro leitor; mas acredito que ultimamente alguns deles estejam considerando que deixei de criar gatos e adotei baphomet como animal de estimação.
Talvez até tenha cadastro ativo de Mémé – sim, é o seu hipocorístico – no programa SinPatinhas, na plataforma pontogove.
Amiúde, e em locais cada vez mais improváveis, tenho sido abordado por oradores ávidos por me desencapetar e, confesso, fico surpreso com algumas abordagens.
Às vezes chego até a me aliviar por pensar tratar-se de um assalto. Ledo engano.
Não se engane; numa fração de segundo – milionésimo de segundo, melhor dizendo – todos nós somos potencial, perigosa e repetidamente violadores de leis. Ora divinas, ora morais, ora seculares.
A par disso, numa dessas abordagens, após muita insistência e já estar encabulado por ter aquele braço em riste mirando meus olhos com um panfleto na ponta dos dedos, tal qual uma baioneta, perguntei o porquê dele concluir que eu precisava de uma oração enquanto tomava um café e esticava as pernas num canto.
Olhei para a mesa e tive certeza que não havia adoçado o café. Também não estava com o fecho-éclair das alças aberto – estava sentado – ou mesmo fumando – parei há muito tempo. Nem mesmo blasfemei.
Será que aparentava estar contrito? Onde pequei, afinal?
Aliás, se me permitir uma colocação neste ponto do texto, proponho aos proprietários de restaurantes, cafeterias, sorveterias, clínicas médicas, hospitais etc., que instalem um decibelímetro, se não em cada mesa ou assento, ao menos num lugar visível; e se pensam em laurear alguém considerando a métrica, a disputa será acirrada.
Após uma breve contenda espiritual, enquanto eu bebericava calmamente o café, ele se virou e me abençoou com um sentimento preterdoloso tão genuíno e um olhar tão fulminante, ao dizer que Deus lhe daria em dobro tudo o que eu lhe desejasse, que não me contive e concluí aquela oração: então, certame iremos de mãos dadas para o inferno.
Você também já pensou.
Quem nunca?
Bruno Ernesto é escritor, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e curador do portal cultural marsertao.com @ihgmossoro @marsertaoblog
























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