domingo - 02/08/2026 - 05:50h

O pesadelo da fome

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Mossoró, Rio Grande do Norte, 2 de agosto de 1978. É quarta-feira. A noite começa a cair no então pequeno município governado pelo prefeito João Newton da Escóssia, filiado ao partido Arena — Aliança Renovadora Nacional. Amélia Guimarães chega em casa com duas bolsas de palha aos ombros cheias de mantimentos. Trata-se de uma jovem dona de casa de trinta e quatro anos, mãe de seis filhos miúdos. Amélia, de compleição esguia, pele branca e cabelos loiros compridos, sorri para as crianças. Marta é a sua primogênita; tem nove anos. Os demais são quase uma escadinha: possuem diferença de idade de pouco mais de um ano ou dois.

Todos estavam na frente da tapera quando a mãe finalmente chegou. A precária moradia, feita de pau a pique, constitui-se de uma sala, um corredor, um só quarto e uma cozinha um tanto maior que a sala. As cordas de armar as redes são presas em locais onde as paredes têm partes da madeira expostas. No quarto, todavia, há uma ordinária cama de casal. O banheiro, também de estuque, fica no meio do quintal, que é bastante amplo. O imóvel está situado na Avenida Alberto Maranhão, 3521, no Bom Jardim. Rua sem pavimentação. A areia fina gera muita poeira. Naquele setor há diversas residências de taipa. O trânsito de automóveis é mínimo. O maior número é de bicicletas e carroças, estas puxadas por jumentos, cavalos ou burros.

Amélia entra no domicílio com as bolsas e é seguida pelos filhos. A mulher põe a carga sobre a pequena mesa de madeira rústica da cozinha. Acende uma lamparina de querosene e começa a retirar os víveres oferecidos por mãos piedosas. Cuida logo de acender o fogão a lenha para preparar o café. Martinha, única filha menina, ajuda na arrumação dos gravetos mais finos. Em breve a madeira mais grossa começa a queimar. As crianças, de olhos arregalados e pidões, contornam a mesa. Lucas, Nestor, Evaristo e Fernando ocupam os quatro tamboretes com tampo de couro cru. Adonias e Martinha, os mais velhos, permanecem ao lado da mãe.

Amélia se antecipa, abre um dos pacotes de bolacha seca e branca que adquiriu e dá algumas a cada um dos filhos, para que vão mitigando a fome enquanto o café fica pronto. Há também oito ou dez pães entre os alimentos. É a segunda vez que Amélia se viu forçada a pedir esmolas no comércio, principalmente no Mercado Central. Viúva há cinco meses, ela não adquiriu nenhuma lavagem de roupa nos últimos dez dias. O armário da comida já se achava vazio; e as crianças penavam com o pesadelo da fome. O falecido Eduardo Guimarães, trabalhador do ramo de salinas, sofreu um infarto enquanto estava na labuta. Tinha apenas trinta e sete anos.

A casa, única coisa que Eduardo deixou para a mulher e os filhos, encontra-se em más condições. Como costelas, parte da madeira está à mostra. Outro problema é que o casebre não possui água encanada nem luz elétrica. Quando dispõe de alguns tostões, Amélia precisa pagar a um carroceiro para que encha os potes da cozinha e o tanque de alvenaria do banheiro. A lamparina é usada com absoluto escrúpulo. É preciso economizar o combustível ao máximo. Após a morte do marido, o velho Adolfo, dono do Mercadinho Bom Pastor, não vende mais fiado à viúva, sequer o querosene. O corte no fornecimento agravou a situação dos Guimarães.

Nas palavras de Amélia, Deus é maior e ela haverá de conseguir roupa de terceiros para lavar e obter recursos para si e as suas crias. Sente imensa vergonha de pedir esmolas. Amanhã e depois, entretanto, considerando o que arranjou hoje, não será necessário. “Deus é bom o tempo todo”, diz ela em pensamento. O aroma do café preenche a cozinha de paredes cobertas pela tisna do fogão.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance

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