Por Marconi Amorim
Hoje me emociono relembrando os tempos de outrora, e tive a ousadia de verter para estas linhas essa memória viva, latente.
O leigo que observa um bloco cirúrgico costuma fixar os olhos na frieza do metal. Vê as pinças alinhadas, o reflexo do foco sobre o campo estéril e o brilho cego do bisturi. Imagina que a grande virtude da medicina está na força do corte ou na precisão milimétrica da visão. Engana-se.
O verdadeiro milagre da cirurgia não começa nos olhos do rosto, mas naquilo que pulsa na extremidade dos braços do médico. Há momentos no meio de uma operação em que a luz falha em ajudar. O campo se enche, a anatomia se esconde sob tecidos inflamados e a visão direta se torna impossível. É nesse instante de penumbra e silêncio tenso que o aço é deixado de lado. O cirurgião desce a mão enluvada até às profundezas do corpo humano. E, ali, acontece a mágica.
O cirurgião precisa ter olhos na ponta dos dedos.
Quando a polpa digital toca o órgão doente, o tato se transforma em visão. O dedo que desliza na escuridão da matéria sabe distinguir, pelo relevo e pela textura, o que é vida e o que é ameaça. Ele “vê” a fronteira exata onde termina o tumor e onde começa o tecido sadio. Sente o pulsar oculto de uma artéria que não se pode errar; percebe a elasticidade de uma cicatriz ou a fragilidade de uma parede que está prestes a romper.
Diz-se que a mão do cirurgião é uma extensão de sua mente, mas, na verdade, ela é a extensão do seu coração. É um misto de técnica rigorosa e intuição quase divina. Enquanto o cérebro calcula os riscos, o dedo lê a anatomia como um leitor cego lê o Braille, decifrando os mistérios do mapa interno de um ser humano.
Na ponta daqueles dedos moram, ao mesmo tempo, a audácia de invadir o corpo e a extrema delicadeza de quem sabe que está tocando o templo de uma vida. Quando a cirurgia termina e o paciente se recupera na ala anônima do hospital, poucos sabem que, no escuro daquela cavidade, os dedos do médico enxergaram a cura onde os olhos do mundo nada podiam ver.
Dr. José Marconi Varella Amorim é médico cirurgião geral
























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