domingo - 13/09/2026 - 14:42h

Olhos nas pontas dos dedos – cirurgião antigamente

Por Marconi Amorim

Arte meramente ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Arte meramente ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Hoje me emociono relembrando os tempos de outrora, e tive a ousadia de verter para estas linhas essa memória viva, latente.

O leigo que observa um bloco cirúrgico costuma fixar os olhos na frieza do metal. Vê as pinças alinhadas, o reflexo do foco sobre o campo estéril e o brilho cego do bisturi. Imagina que a grande virtude da medicina está na força do corte ou na precisão milimétrica da visão. Engana-se.

O verdadeiro milagre da cirurgia não começa nos olhos do rosto, mas naquilo que pulsa na extremidade dos braços do médico. Há momentos no meio de uma operação em que a luz falha em ajudar. O campo se enche, a anatomia se esconde sob tecidos inflamados e a visão direta se torna impossível. É nesse instante de penumbra e silêncio tenso que o aço é deixado de lado. O cirurgião desce a mão enluvada até às profundezas do corpo humano. E, ali, acontece a mágica.

O cirurgião precisa ter olhos na ponta dos dedos.

Quando a polpa digital toca o órgão doente, o tato se transforma em visão. O dedo que desliza na escuridão da matéria sabe distinguir, pelo relevo e pela textura, o que é vida e o que é ameaça. Ele “vê” a fronteira exata onde termina o tumor e onde começa o tecido sadio. Sente o pulsar oculto de uma artéria que não se pode errar; percebe a elasticidade de uma cicatriz ou a fragilidade de uma parede que está prestes a romper.

Diz-se que a mão do cirurgião é uma extensão de sua mente, mas, na verdade, ela é a extensão do seu coração. É um misto de técnica rigorosa e intuição quase divina. Enquanto o cérebro calcula os riscos, o dedo lê a anatomia como um leitor cego lê o Braille, decifrando os mistérios do mapa interno de um ser humano.

Na ponta daqueles dedos moram, ao mesmo tempo, a audácia de invadir o corpo e a extrema delicadeza de quem sabe que está tocando o templo de uma vida. Quando a cirurgia termina e o paciente se recupera na ala anônima do hospital, poucos sabem que, no escuro daquela cavidade, os dedos do médico enxergaram a cura onde os olhos do mundo nada podiam ver.

Dr. José Marconi Varella Amorim é médico cirurgião geral

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Laila Amorim diz:

    Esse é o meu pai! Quanto orgulho!

  2. Ranna Jorge diz:

    Que relato belo e delicado, de quem vivenciou a profissão com amor e dedicação! Parabéns!

  3. Alexandre Nonato diz:

    Parabéns colega, lindo e verdadeiro texto.
    Ficará eterno na memória de todos nós!

  4. Marcos diz:

    Medico, Cirurgião e Escritor!!!! Uma capacidade esse meu amigo…
    Tem minha admiração também como pessoa. Parabéns, Deus te abençoe sempre.

  5. Sonia Maria Reis Teixeira diz:

    Já gostava do Doutor como um amigo de longa data, agora nasce a admiração pelo dom que tem, e que eu não conhecia, de escrever tão bem: clareza e sensibilidade para descrever a alma de uma técnica que salva vidas, com uma perícia que vai além do minucioso processo cirúrgico. Parabéns Dr. Marconi!

  6. Marcos Araujo diz:

    Que beleza de texto! Poético e sensível. “Data Venia”, como costumo chamar Dr. Marconi Amorim, nosso querido e estimado vizinho de mais de uma década, é um polímata, um “faz de tudo” com maestria!
    Depois desta crônica de hoje, está compulsoriamente “intimado” a nos brindar com seus escritos e sua genialidade semanalmente.
    Abraços!

  7. Stefenson Souza diz:

    Onde anda o conhecimento, a arte de salvar vidas tem o seu encanto diante de artigos para seres de boa fé. Parabéns, meu nobre Marconi. Você merece um versinho.
    Esse é o Seu Marconi,
    De sobrenome Amorim.
    Eu não sei se é assim
    Da forma como se escreve,
    Se um paciente padece
    Por falta de atenção,
    Largo eu a profissão,
    Mas viver todos merecem.

  8. Osvaldo Amorim diz:

    Esse é Meu irmão!🙏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

  9. JOSE NAERTON SOARES NERI diz:

    Além de ter contribuído muito como cirurgião dos renomados desta urbe, estava agora enveredando pelo dom da escrita, mas Deus o chamou para o Céu, vá com Deus.

  10. Aldo Melo diz:

    Há seres que não são humanos. Já são eternos desde quando recebemos a benção de conhecê-lo. Eis um deles !
    Não só curou fisicamente, mas seguirá curando nossas almas deixando-nos um orgulho de lembrança, inevitavelmente refletida pela alegria, bom humor e alto astral perenes do nosso Marconi, que tantas vezes o vi ser chamado amorosamente pelos irmãos de “Conconi”.
    Sua presença mudava o nosso ambiente SEMPRE para melhor.
    Agora, a sua HISTÓRIA, tem o condão de produzir felicidade por termos desfrutado da sua existência.
    Eu já o admirava e, doravante, sigo encantado !
    Obrigado, Marconi !

  11. Sebastião Azevedo diz:

    Brilhante
    Hoje os Laparoscópios e a Robóticatem roubado um pouco das destrezas dos velhos cirurgiões!

  12. Sebastião Azevedo diz:

    Brilhante
    Atualmente – o progresso das técnicas com os Laparoscópios e a Robotica, tem apagado vagarosamente as destrezas dos velhos cirurgiões!

  13. Mário Amorim diz:

    Marconi é um irmão amado. Exerceu sua profissão de médico com maestria para salvar muitas vidas. Nestes últimos tempos estava se dedicando, também, a escrita publicando crônicas e narrativas outras. Sabia manusear as palavras com clareza e suavidade o que encana o leitor. Saudades.

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